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segunda-feira, outubro 07, 2019

RESPONDENDO PERGUNTAS

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O opele e os búzios tem o mesmo nível de precisão?



sim.

É um tema complicado. Não encontrei nenhuma referência documentada que qualificasse os oráculos em relação a precisão.

O que eu tenho como referência são as fontes teológica que validam os oráculos.

Observe que nesse aspecto eu ignoro opiniões de Babalawos ou de Babalorixás da Nigéria ou Benin, como podem ser encontradas em vídeos em Youtube. Essa fonte oral reflete a opinião de uma pessoa ou o conhecimento que ele tem ou o interesse que ele têm.

No que pese entender que antropólogos e outros pesquisadores podem entender que esse é o método deles, assim como é o método deles usar uma fonte e não várias eu  procuro antes de tomar uma posição, observar se uma informação é confirmada por fontes diferentes não diretamente ligadas.

Além disso eu observo o contexto teológico e teogônico envolvido, isto é, o que dentro da religião e sua estrutura documenta e estabelece aquela informação ou posição como válidas. Na minha opinião tem que haver base na religião que fundamente e legitima aquilo.

Eu digo a todos que FÉ em uma religião é uma via de 2 mãos. Você tem que ter a fé, crer, e depois ter o resultado disso.  Assim qualquer coisa que se faça dentro da religião tem que ser justificado pelo O QUE SE FAZ, COMO SE FAZ E POR QUE SE FAZ. Tem que ter essas 3 coisas explicadas e justificadas. Qualquer coisa diferente disso é fé cega, opinião ou invenção.

Dessa maneira, tenho versos que qualificam a qualidade do oráculo de búzios estabelecendo sua ligação com Óxun, Órunmila e Olodumare. Bascon e Abimbolá documentaram isso.

Tenho a teologia em torno da figura de Órunmila e seu oráculo amplamente documentada, incluindo o surgimento dos ikins e opele.

Outro oráculo pouco referenciado mas de uma qualidade absurda é o Obi. Também consistentemente documentado.

Assim, os búzios, o Obi e Ifá tem bases sólidas nessa religião.

Existem uma questão que pode ser discutida dentro de Ifá que é entre Ikin x Opele. Eu já dei minha opinião.

Em relação a aspectos práticos, empíricos, eu já usei  para uma mesma situação búzios e Opele e cheguei às mesmas conclusões. A diferença é que cada um deles permite uma exploração diferente da consulta devido à sua base e mecanismos.

Claro que sempre o que importa é a habilidade do olhador em explorar o instrumento que tem e nada sobrevive a um mal olhador.


sexta-feira, outubro 04, 2019

RESPONDENDO PERGUNTAS

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A pergunta a seguir estava em um comentário da postagem sobre Odù negativo no Candomblé

Então como faz para descobrir o odu? E tb me pergunto, porque esses trabalhos, oferendas, são tão caros? Se são remédios espirituais que ajudam a elevar e abrir caminhos, se isso é ajuda ao próximo e harmonização com os orixás, porque cobram tão caro e sempre exigem ebós?
Sinceramente, não entendo


Não.

Conforme tenho explicado aqui no Blog em vários textos, a determinação do Odù da pessoa, o Odù de Nascimento é feita apenas por uma cerimônia de Ifá entre o terceiro e o oitavo dia após o nascimento. É feita no recém nascido. Depois disso nunca mais, exceto se a pessoa vir a ser Babalawo porque existe uma cerimônia que resgata esse Odù.
Dessa maneira todos os métodos que existem por ai para determinar Odù de nascimento são bobagens, enganações. Tem gente que faz continha com data de nascimento, essas pessoas não sabem nada de Odù ou de Ifá ou dessa religião.
O Odù que sai na consulta do oráculo, seja de búzios ou seja de Ifá é um Odù temporário, é uma resposta para aquele momento. Não serve mais para a pessoa depois. Alias em uma consulta saem vários Odù para serem analisados.

Quem não conhece Odù tem essa fixação por Odù como se fosse algo especial, não é.
A questão da cobrança é apenas COMERCIAL. De fato, tudo é muito simples. Em Ifá chega a ser mais simples que no Candomblé uma vez que este último tem uma riqueza litúrgica muito maior.
O que fazemos é equilibrar o axé da pessoa. Os ebós são um instrumento para esse equilíbrio. Trata-se de repor axé. A base desta religião é o axé e o seu equilíbrio. O ebó ou a oferenda (adimu ou sacrificio) são necessários para isso. 
Por essa razão normalmente tem ebó, para trazer esse equilíbrio, porque isso é a base da religião, equilibrar e repor o axé da pessoa.
Ma, não é verdade que sempre tem ebó. Mais ainda, nunca vi, comigo, o jogo pedir alguma coisa que a pessoa não pudesse fazer. O oráculo só pede o minimamente necessário e várias vezes quando a pessoa não estava em condição de fazer nada, pedia uma coisa muito simples ou quase nada.
Essa coisa de inventar ebó, oferenda e sacrifício é só para ganhar dinheiro.
As pessoas cobram o que querem. Sugiro não pagar se achar absurdo, como muitas vezes o é. Tem gente que cobra para passar uns ovos na pessoa, isso é um absurdo.

quinta-feira, outubro 03, 2019

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Eu preciso saber Yoruba para poder rezar e falar com orixá?



Não.

Se para que o Orixá pudesse entender a gente nós tivéssemos que falar em Yoruba, nós estaríamos perdidos.

Esse pessoal de Candomblé, normalmente, não fala NADA de Yoruba, não entende Yoruba e muito menos sabem traduzir o que cantam e rezam.  Essas rezas e cânticos são tradicionais, foram aprendidos e são repetidos. Alguns, sim, podem ser traduzidos, outros ficaram incompreensíveis devido as distorções da transmissão oral.

Dos autores de livro sobre Candomblé, o único que conhece Yoruba de fato é o Beniste, os demais pouco ou nada sabiam. O José Flávio fez livros com algumas traduções de rezas e cantos, que se não me disseram errado, foram feitas pelo Togun, são péssimas traduções.

Existem pessoas que conhecem alguma coisa do Yoruba, outras sabem o significado isolado de palavras e falam essas palavras em Yoruba no meio de frases e palavra em português, isso é o famoso "Yoruba de terreiro" , que só serve para terreiro mesmo.

Aqui no Brasil, em geral a qualidade da repetição dessas rezas e cantigas é bem razoável, mas é muito,  mas muito superior aos que os cubanos fazem no lukumi e no Ifá, onde, é tudo ininteligível, cubanos mal falam espanhol, eles tem um sotaque péssimo, imagina falar Yoruba, mas isso é outro assunto.

Mas, entendam, a gente reza é em português mesmo e mais, se você tiver que falar com um Orixá para pedir algo será em português mesmo.

O uso do Yoruba é igual ao do Latin no catolicismo, é tradicional, tem rezas e cânticos mas o dia a dia não é o que você fala. A gente usa o Yoruba como os católicos usam latin em missas ortodoxas e como a do Mosteiro de São Bento (canto gregoriano).

Imagina se fosse necessário falar a língua do santo da religião para ser entendido ou melhor atendido, os católicos iam ter que rezar em Hebraico para falar com deus, porque deus era só deus de israel (das 12 tribos) e Jesus, era Judeu também. Essa coisa de deus universal e de Jesus salva todos foi invenção de São Paulo.

quarta-feira, outubro 02, 2019

RESPONDENDO PERGUNTAS

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Sobre Odù sempre existem muitas dúvidas vou colocar 2 a seguir:


Odù são divindades assim como os Orixás?



Não. Odù não são divindades.

Odù é um símbolo usado no Oráculo de Ifá e que o Babalawo entende como traduzir em informações. Odù tem um significado amplo, mas nenhum deles é ser uma divindade.  O mais básico é isso, é apenas uma linguagem entreo oráculo e o Babalawo e não significa nada para o consulente.

O que o consulente tem que saber são as informações que o Babalawo vai discutir com ele e se ele acreditar no que foi dito o que ele tem que fazer para resolver os seus problemas.

Se quiser mais informações (complicadas) sobre o que é Odù veja em

O que é Odù



Se a pessoa está com problemas é o Odù que vai resolver isso?


Não.

Minha experiência mostra que mais de 80% dos problemas das pessoas são resolvidos com mudanças de comportamento da própria pessoa.

Nós causamos os nosso próprios problemas.

O Babalawo, através do Oráculo vai mostrar isso a pessoa. Por esta razão eu não acredito em Babalawos garotos, novos e sem experiência. Como já disse, para ser Babalawo não pode ser burro, tem que saber ler, interpretar e acima de tudo ter calma, paciência e experiência de vida.

Se, como eu digo, 80% dos problemas são causados por mau comportamento, decisões ruins, relacionamentos ruins, questões ligadas ao caráter e principalmente ao ambiente e pessoas que envolvem o consulente, você tem que falar com um Babalawo que entenda o que você fale, consiga falar com você claramente e profundamente, entenda onde vive e sua sociedade.

Estrangeiros vão te ajudar nisso?  Possivelmente igual a jovens, ele pode ser um senhor de mais idade mas se não sabe te ouvir, falar e entender o seu contexto é igual a uma criança.

Ficar dizendo significado de Odù não vai te ajudar muito, ter decorado tratados não vai te ajudar muito.

Os 20% de problemas restantes são coisas de fato externas a pessoa e que podem ser resolvidas (as vezes) através do supernatural.

O que é fato de resolver são os problemas que você não criou para si mesma, os problemas externos, esses, as vezes, são os fáceis.

Odù é apenas um instrumento do babalawo. O que resolve é o que ele fala, o seu diálogo com ele e depois os ebós e oferendas.

Você pode obter boas orientações em uma consulta de Umbanda, em um jogo de búzios, em um bom jogo de Tarot e também em Ifá. Odù é só o meio e não o fim.

terça-feira, outubro 01, 2019

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verifiquei em um comentário uma pergunta que coloco a seguir:
 

Tenho uma dúvida! Digamos que um Psi indique uma condição não satisfatória, um problema de saúde, para amenizar ou talvez resolver essa situação, se fortalece os Orixás ligados ao Odu ou não seria esse o entendimento? Obrigado.


 Vejam. Vou responder de forma bem ampla.

A prática de ligar Orixá a odù pertence basicamente ao culto de Orixá, Jogo de Búzios. O jogo de Búzios é um jogo de consulta a Orixá, primariamente e o uso de Odù normalmente faz uma ponte entre caída e Orixá, ai, dessa maneira existe essa designação de Orixá ligado ao Odù.

No caso de Ifá, até tem uma lista be variável de Orixá que responde no Odù, mas são muitos odù... Isso não é prático e nem usado para nada útil.

Por que?

O uso do Orixá que responde junto com o Odù é mais uma complemento do significado da caída.

Em ambos os casos, seja búzios ou Ifá, o que importa é qual o Orixá que se prontifica para ajudar e isso e determinado na hora que se determina os ebós e/ou oferendas.

Assim o que fazer para cada caso é o oráculo que vai dizer assim como também vai indicar quem é o Orixá que intercede. O que importa não é um convenção de quem responde onde e sim o que o Jogo em si diz para fazer. A gente tem que fazer o que o jogo diz.

Se o Jogo indica algo para saúde, por exemplo, então algo será feito, mas o jogo pode entender que esse não é o problema a ser resolvido. O babalawo confia no jogo.

O jogo também indica para o babalawo a natureza do problema se físicou espiritual e coisas a serem feitas ou as vezes que não tem nada para ser feito. Nisso sou muito claro, quando existe um problema que não tem saída pelo caminho espiritual, ou melhor pelo caminho supernatural ou magia, o jogo diz isso. Nesses casos insistir em fazer algo é perder tempo e dinheiro.

Lembo que Odù é dinâmico, cada jogo sai um e normalmente vários. Não se fixe em Odù, isso não é especial, o que é especial é o Orixá.

Quem sabe quem é o seu Orixá, sempre pede a ele, quem não sabe pode recorrer a qualquer um, todos os o Orixá estão por nós.

domingo, setembro 29, 2019

Aviso

Mais uma nova versão do vídeo sobre matriz religiosa afro-brasileira.

Postei nova versão video, a anterior ficou bastante confusa. Creio que agora esta bem mais objetiva e clara. 

Infelizmente a duração não reduziu, já fiz esse vídeo inteiro umas 3 vezes e não consegui reduzir o tempo de maneira que o tempo é esse mesmo..... 

Já esta no canal 

sexta-feira, setembro 27, 2019

Qual a diferença entre Ifá e o jogo de búzios - Complemento

Qual a diferença entre Ifá e o jogo de búzios

Complemento

Depois de concluído o texto original eu observei que faltaram algumas informações sobre o tema, ligadas a forma de uso dos dois oráculos. Desta maneira estou completando aqui. O texto inicial esta em:
Diferença entre Ifá e jogo de búzios
A forma de usar os 2 oráculos é bem distintas, assim vou explicar a seguir.

No jogo de búzios, os búzios são deixados cair sobre uma superfície (o tipo não importa) e as seguintes características são usadas para determinar sua interpretação, lembrando que não existe um padrão, existem várias técnicas e falar sobre esse tema é bem complicado, assim, tenham atenção nas características principais e não nos detalhes:
1. É observada a quantidade de búzios total que cai aberta. Esse número de búzios determina um Odù ou um orixá (Òrìṣà). Isso varia de técnica de interpretação. Sendo uma coisa ou outra não importa, Odù ou orixá (Òrìṣà) vão significar para o olhador significados pré-determinados.
2. Além da quantidade principal o olhador divide a caída de búzios em caídas menores de búzios abertos separados por búzios fechados, descontinuidades. Essas quantidades menores, ou grupamento de quantidades menores trazem novas interpretações seja por Odù ou por orixá (Òrìṣà).
3. A posição dos grupamentos menores faz diferença. A área é dividida em setores e cada setor tem um significado especial, assim, é feita a análise daquela sub-caída naquele setor.
4. Os búzios também podem formar grafismos e esses grafismos podem trazer novas informações ao olhador.
5. Novas caídas podem ser feitas. Existe um padrão de 4 caídas, no qual as 2 primeiras indicam o problema e as demais trazem os trabalhos a serem feitos. A combinação da primeira caída com a segunda também traz novos significados bem como adicionalmente as demais, assim repetições de caídas tem significados especiais.
6. Algumas pessoas podem fazer mais do que 4 caídas, como eu disse isso varia da técnica. O padrão de 4 caídas com o uso das 2 primeiras para o significa é um padrão que se aproxima de Ifá.
7. Por fim, a mediunidade do olhador pode adicionar informações.
Desta forma, como eu disse, o jogo de búzios é muito rico em informações e detalhes.
No caso de Ifá a forma de consultar e bem diferente:
1. O Bàbáláwo usando Ikin ou opele (Ọ̀pẹ̀lẹ̀) Ifá determina qual o Odù da consulta. No caso do opele (Ọ̀pẹ̀lẹ̀) é apenas uma caída e o Odù é desenhado, com Ikins é um processo bem mais lento.
2. O Odù que saiu é o que determina a mensagem principal do oráculo. Além disso na análise é usado o Odù inverso da consulta o Omo Iya.
3. Após determinar o Odù principal é determinado que se eles está em Ire (positivo) ou Ibi (negativo). Essa determinação traz um novo Odù. Essa determinação assim como as seguintes são feitas usando o Ìbò, que é uma forma de interação do oráculo com o consulente e que impede o Bàbáláwo de direcionar a consulta. Existem Bàbáláwo que não usam Ìbò.
4. É determinado, com novas caidas, qual é o tipo de Ire ou Ibi.
5. É determinado que traz ou quem salva esse Iré ou Ibi
6. É determinado qual é o ebó (Ẹbọ) e trabalho a ser feito
Com isso tudo determinado o Bàbáláwo inicia então a análise da consulta. Isso significa na prática que o Bàbáláwo fica trabalhando sozinho um bom tempo, para então falar com o consulente.
O diálogo com o consulente pode seguir e caminhos. O tradicional onde o Bàbáláwo tem que contar histórias baseadas em versos, várias delas e depois conversar para através da reação do consulente às histórias ele ir convergindo para descobrir o problema do consulente. O Bàbáláwo deve usar seu conhecimento sobre o Odù mas, principalmente, usar as histórias para interagir com o consulente.
Modernamente, os Bàbáláwo, principalmente da tradição cubana ou gente que aprendeu com eles não usa as histórias, eles sabem os significados do Odù, que estão documentados nos tratados, mas de forma às vezes falha, e dizem para o consulente o seu problema baseado nesse conhecimento de significado.
Além do Odù principal, o Bàbáláwo pode usar mais 2 Odù na sua análise (3 Odù), mas, isso varia, em escolas que podem indicar mais. Isso é real e eu considero um exagero, o Odù principal é a mensagem primária de Órunmila (Ọ̀rúnmìlà), mas, enfim, como eu disse isso pode mudar.
Como os búzios, Ifá usa vários Odù para interpretar uma consulta, entretanto, como pode ser observado, não é tão rico e interativo como os búzios. Os métodos são organicamente diferentes.
Existe uma tradição de jogo de búzios por Odù que também usa histórias, mas ela é muito rara. O normal é que o pessoal do Candomblé, antes de Ifá, não entendia o que fazer com as histórias.

Entre outras menores, a principal diferença entre os 2 oráculos deveria ser a forma de se chegar ao problema. Nos búzios várias sinalizações indicam os possíveis problemas e dessa forma o olhador já traz as questões para o consulente confirmar. Em Ifá os significados pré-determinados deveriam ter muito pouca relevância, ou melhor, menos importância, o importante tem que ser:

- A participação do consulente através do uso do Ìbò que impede que o Babalawo somente saiba de respostas junto como consulente. Eu considero o uso do Ìbò imperativo em uma consulta de Ifá e uma dos elementos de maior diferença com os Búzios, porque nos búzios o olhador te fala o que tem que fazer, por exemplo, sem chance do seu ori, seu anjo da guarda confirmar.

- A análise do problema do consulente a partir da interpretação conjunta das histórias. Interpretar histórias é um processo muito rico que impede que se tenha uma pré-determinação do problema, voc6e só chega ao problema real, junto com o consulente.
Como podem ver, ambos oráculos usam múltiplas informações em uma consulta, são estruturados em uma fase de análise e outra de determinação dos ebós, mas fazem isso com métodos bem distintos.
É minha opinião que Ifá usando opele (Ọ̀pẹ̀lẹ̀) é muito similar ao jogo de búzios caso o Bàbáláwo não se atenha a ortodoxia na consulta e queira na verdade ter velocidade. Tem muita gente que se preocupa apenas em tirar o trabalho a ser feito e encontrar o motivo principal da consulta sem explorar mais minuciosamente as informações dos Odù.



Porque considero que Iyanifá ou outras neologias são invenções ilegítimas para africanos ganharem dinheiro?

Porque considero que Iyanifá ou outras neologias são invenções ilegítimas para africanos ganharem dinheiro?


O texto a seguir é parte do texto sobre a mulher em ifá, mas como o texto ficou quase completo, mas, muito longo, resolvi publicar apenas minhas conclusões. O objetivo das longas e inúmeras histórias é justamente fundamentar essas minhas conclusões, assim, quem quiser leia o texto todo.

As histórias relatadas estão longe de cobrirem todas as existentes mas foram destacadas por terem alguma relevância ao entendimento ou por trazerem informações importantes.
Esta é a religião do equilíbrio e Ifá tem isso em suas entranhas. Eu não coloco Ifá acima de nenhum outro culto, todos que leem o que eu escrevo sabem disso, mas, a realidade é que a noção do equilíbrio esta contida em tudo que Ifá faz e nos versos de Odù.
No Odù Òdí Méjì temos a história principal sobre o equilíbrio de Ifá, quando Ifá explica porque se marca um ou dois traços quando se consulta com Ikin. Isso é perene em tudo de Ifá. Dessa maneira, Ifá é um culto masculino, mas todo o poder do Bàbáláwo para interferir no mundo físico, no Àiyé vem da mulher, de Odù sua esposa mítica.
Também são muito especiais as histórias onde Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) se encontra com as ajé (Àjẹ́) e obtêm delas cooperação, mostrando sempre que não ha forma de Órunmila (Ọ̀rúnmìlà), ou qualquer um, superar o poder de ajé (Àjẹ́). A atuação masculina de Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) se une ao poder feminino, que foi dado a elas por Olódùmarè para atuar no mundo.
Para eu cobrir todo o fundamento teológico disso precisaria destacar mais um Odù com a história de Òdí Méjì (que não vou relatar aqui, porque é bem longo e não está ligado a figura feminina) e o mito que está em Ọ̀sá Méjì, o qual narra o momento em que Olódùmarè dá para Odù a cabaça com o pássaro com poder absoluto e depois ela se entende com Eégún e dá para ele o seu poder através do pássaro que ficará empoleirado no seu ombro.
Vejam um trecho final do verso:
ela diz, grita, eis Eégún eis Eégún.
Ela diz, eles gritam por causa dele.
Ela diz, ele arrasta seu chicote no chão, ela diz, a honra cabe a ele.
Ela diz, a partir de hoje,
ela diz, ela concede Eégún ao homem.
Ela diz, por causa dela,
ela diz, mulher alguma nunca mais ousará entrar na roupa deEégún.
Ela diz, por causa de Òrisàlá, ela diz, ela dá Eégún ao homem.
Ela diz, mas se ele deve sair,
ela diz, ela tem o poder que ele utiliza.
O motivo se deve à amizade entre Eégún e eleye.
No lugar de onde vem Eégún, as eleye (também) vêm.
Todo o poder utilizado por Eégún é o poder de eleye.
Odú diz, mulher alguma jamais entrará na (roupa) de Eégún. mas ela poderá dançar, ir ao encontro de Eégún,
Quer dizer que se Eégún sair,
ela dançará diante dele,
ela dançará na estrada, ao encontro de Eégún.
Ela diz, a mulher fará isto unicamente.
Ela diz, a mulher não ousará nunca mais entrar de novo no pátio dos fundos. Ela diz, a partir de hoje é o homem que levará Eégún para fora.
Ela diz, ninguém, nem os netos, nem os velhos poderão zombar da mulher. Ela diz, a mulher tem mais poder sobre a terra.
Ela diz, além do mais, a mulher nos pôs no mundo.
Ela diz, todo mundo nasceu da mulher.
Ela diz, todas as coisas que as pessoas quiserem fazer, se não forem ajudadas pelas mulheres, ela diz, não podem fazer.
(É por este) motivo que os homens nada podem fazer na terra, se não o obtiverem das mãos das mulheres.
Eles cantam.
Por essa razão
Òbàrisà também canta.
Quando é o quinto (dia), eles fazem (a festa) da semana.
Ele diz que todos os cânticos que eles cantarão serão este aqui, vi ndos do (odu de ifá) òsá méji.
Ele diz, eles saúdam as mulheres,
Ele diz, se eles saudarem as mulheres, a terra será tranquila.
Eles cantam assim:
“Dobrai o joelho, dobrai o joelho para as mulheres.
A mulher nos pôs no mundo, assim somos seres humanos.
A mulher é a inteligência da terra, dobrai o joelho para a mulher. A mulher nos pôs no mundo, assim somos seres humanos”.
Creio que esse Odù é bastante o suficiente para colocar esse equilíbrio entre forças no qual o poder de Olódùmarè dado a ajé (Àjẹ́) se encontra com o poder do homem depositado em Eégún.
Eégún é a representação do homem, o poder do homem, visto que a mulher não é também representada em Eégún. Lembro a todos que a figura de Eégún e do culto d Eégún é para mostrar a todos que a vida é contínua, que a alma não morre, que vivemos para sempre e podemos reencarnar. Esta é a razão da religião ter Eégún, seja pelo sentido de valorizar o vínculo familiar contínuo e perene como por demonstrar que vida e um ciclo sem fim.
Somente Eégún pode conter o poder de ajé (Àjẹ́). Essa é uma informação que poucos têm. Além disso existe um velho dito popular que fala que somente Olódùmarè pode salvar o homem de uma esposa vingativa. É a mulher que prepara a comida, as oferendas e isso é o caminho para o orun (Ọ̀run).
É uma sociedade patriarcal e se engana quem acha que isso foi diferente, mas, as mulheres são dotadas de capacidades especiais para quebrar esse domínio.
Acredito que isso ficou, também, claro nas histórias que mostrei.
O assunto mulher não está restrito a teologia e Ifá e para falar sobre ele é preciso entender alguns conceitos importantes sobre a sociedade Yorùbá e outras estruturas da religião. Eu acredito que a maior parte dos erros de entendimento aqui no Brasil e na diáspora são advindos de nós não entendermos de forma ampla a sociedade e valores e também outras estruturas religiosas que completam o todo.
O equilíbrio do poder masculino-feminino na sociedade fica evidente quando analisamos a estrutura dos cultos de Ògbóni e Geledé (Gẹ̀lẹ̀dẹ́).
Ẹdan é o símbolo máximo da sociedade e representa uma figura masculina e ua feminina unidas por uma corrente.
Ilé (Ilẹ̀) a terra, deve trazer paz, felicidade, estabilidade social e sobrevivência, é a terra que dá poder a Ògbóni mas também alimenta ajé (Àjẹ́) que é a ira de Ilé (Ilẹ̀). As sociedades Ògbóni e Geledé (Gẹ̀lẹ̀dẹ́) estão unidas no seu aspecto social, muito mais do que uma estrutura religiosa é uma estrutura da sociedade yorùbá e por esta razão não foram transportadas pela diáspora. O seu significado é a busca de equilíbrio e pacificação do espírito feminino representado por Ilé (Ilẹ̀).
Mesmo nas sociedades masculinas de Eégún e Orò a mulher tem cargos.
Observe que Eégún é o culto festivo e alegre e Orò representa sempre o poder sombrio de Eégún, Orò é a manifestação de Eégún no seu aspecto punitivo para a sociedade. É Orò que executas as mulheres feiticeiras, ajé (Àjẹ́) que usam seu poder para o malefício.
Ilé (Ilẹ̀), a grande mãe Ògbóni em seu aspecto sombrio, se transforma em Ọ̀gẹ́rẹ́, a manifestação irascível e vitimizadora, que traz morte a seus filhos. Esta é a visão ambivalente da sociedade frente a terra. Ela mostra o potencial explosivo da relação homem-mulher em uma sociedade masculina e a necessidade de exercer a diplomacia.
Geledé (Gẹ̀lẹ̀dẹ́) surge da visão Ògbóni de omón iya (Ọmọ ìyá), os filhos da mesma mãe e tem o objetivo de sensibilizar a mãe natureza Ìyá Nlá aos problemas dos filhos e da sua responsabilidade maternal.
O objetivo é fazer os membros da comunidade a amarem e interagirem um com o outro como filhos da mesma mãe. A manifestação de Geledé (Gẹ̀lẹ̀dẹ́) através do seu festival é feita para pedir saúde, vida longa, prosperidade, muitos filhos, evitar doenças, mortalidade infantil e evitar desastres. O objetivo do culto que pode ser através de uma grande festival ou de eventos menores e até mesmo para apenas uma família, tem a finalidade de promover a paz e o bem estar social. Pessoas de todos os cultos de orixá (Òrìṣà) participam.
Os cultos de Ògbóni e Geledé (Gẹ̀lẹ̀dẹ́) são assim mais uma manifestação do equilíbrio dos poderes masculino e feminino.
Muitos aqui se questionam porque as pessoas dos cultos de orixá (Òrìṣà) e demais segmentos desta religião não são unidas. A razão é que trouxeram apenas o culto de divindades e não o entendimento de equilíbrio da sociedade integrado coma religião.
Ninguém entende aqui o que é ajé (Àjẹ́) porque para entende ajé (Àjẹ́) tem que se compreender uma dimensão muito maior de sua atuação. Não se trata apenas de feiticeiras e sim do poder feminino no equilíbrio do mundo.
A feitiçaria em sí, o malefício, é combatido pela sociedade.
Para finalizar isso eu digo que não existe sentido no culto de Ifá da presença da mulher como sacerdotiza.
Essa posição de mulher-sacerdote é uma violação do princípio básico de equilíbrio da religião. A Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) foi dado o poder do oráculo e à sua união com Odù foi trazido o poder feminino.
Apesar do tudo o que foi dado a Órunmila (Ọ̀rúnmìlà), ao ser o intermediário com Olódùmarè, junto com Exú (Èṣù) as únicas divindades que podem ir ao deus supremo e também a bolsa da sabedoria, o axé (àṣẹ) para fazer coisas, transformações é dado a Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) por Odù, a figura feminina que recebeu esse axé (àṣẹ), esse poder de Olódùmarè.
É o casamento de Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) com Odù que traz isso a Ifá, e por favor entendam essa casamento como uma metáfora. Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) também se casa com Iwa (o caráter) e com Aje (a prosperidade), mas, essas 2 histórias eu ainda vou incluir no texto.
O importante é entendermos que em Ifá permanece o grande equilíbrio entre o poder masculino de Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) e de Odù o seu símbolo mais importante. É o receptáculo de Odù que é a ferramenta maior de Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) , seu maior símbolo de poder.
Não se trata apenas de ficar interpretando versos ou aceitar a história que está em Orangun méjì. Trata-se de entender que não é possível sob o ponto de vista teológico se reunir em uma única pessoa as duas coisas, uma mulher em atividade fértil feminina não pode ser detentora de 2 poderes isso é romper com os princípios da religião e da própria sociedade.
Para aceitar a iniciação de mulheres um Bàbáláwo teria que fazer 2 coisas. A primeira é jogar no lixo o que está escrito em Orangun Méjì. A segunda é ignorar um princípio que norteia a sociedade e a religião. Entender o equilíbrio masculino e feminino é tão importante quanto entender o que é axé (àṣẹ).
Dessa forma não acredito e não aceito em iniciações para Ìyánifá ou qualquer outro neologismo que se invente. Para mim isso é desonestidade. Não reconheço Iyanifas.

Assim, não seja tola, não jogue seu dinheiro fora.

Qual a diferença entre Ifá e jogo de búzios?

Qual a diferença entre Ifá e jogo de búzios?

Está é uma questão bastante interessante que pode ter respostas teóricas e práticas. Eu inclusive vejo uma linha bem longa de explicações, mas, tentarei encurtar isso ao máximo.
Ambos, Ifá e búzios, são oráculos que pertencem a mesma religião, mas a cultos diferentes. Ambos tem a mesma finalidade, orientar as pessoas no seu dia a dia, trazendo ajuda para entender o que fazem errado, o que está errado e o que elas devem fazer para mudar sua vida ou corrigir os problemas.

É para isso que um orácula serve na religião.

Como oráculos, ambos representam o ponto máximo da fé das pessoas em deus, na forma de Olódùmarè e são o compromisso de deus com o nosso sucesso nesta vida. Existe de verdade uma aliança de deus com nossa vida no Àiyé, não uma arca, mas uma aliança de fato, para que nossa vida seja próspera, feliz e cheia de realizações. O oráculo é o instrumento que faz parte desta aliança.

Como Bàbáláwo me sinte orgulhoso de trabalhar, ser um operário, nessa aliança entre deus e as pessoas.

Já comentei isso em outros textos. Este é o sentido teológico de um oráculo. Deus está preocupado com o nosso bem estar.

O oráculo de Ifá pertence ao culto de Ifá e o oráculo de buzios pertence ao culto de orixá (Òrìṣà). O culto de Ifá é um culto especializado em oráculo, a única atribuição de um Bàbáláwo é cuidar do oráculo, da comunicação entre as pessoas e o divino. Mas, ter um oráculo não é privilégio do Bàbáláwo, o Babalorixá (Bàbálórìṣà) ou Iyalorixá (Ìyálòrìṣà) também têm porque tudo nessa religião depende de oráculo.

Dessa maneira, qual a diferença?

Como eu disse, ambos são oráculos e atendem a qualquer pessoa, não existem privilégios especiais no mundo, deus está para todos os seres humanos, não existe na minha concepção um deus que escolhe pessoas ou 12 tribos apenas e ignora todo o resto da humanidade.

O que eu vou falar a seguir, sobre os oráculos, são apenas aspectos práticos baseado na minha longa convivência com os 2 oráculos, seja como consulente ou como operador (olhador ou Bàbáláwo).

Como é minha opinião vai ter gente que poderá discordar, mas, sobre isso cada um escreva o que acha que deve escrever.

Se o seu interesse é ver coisas relativas a Orixá (Òrìṣà), como obrigações e oferendas o oráculo a ser usado é o de búzios. Se você quer saber se fez obrigações corretas ou se foi iniciada para o orixá (Òrìṣà) correto e a qualidade certa, Búzios é o oráculo onde os orixás falam. Procure um Babalorixá (Bàbálórìṣà) ou Iyalorixá (Ìyálòrìṣà) para tratar disso.

Essas são dúvidas comuns mas perigosas porque podem levar você de encontro ao seu iniciador. Cuidado antes de entrar nesse caminho sem volta. Procure um bom olhador e uma pessoa ética que não demonstre nenhum interesse em capturar você para a casa dele.

Para tratar desses assuntos você tem que falar com uma pessoa que tenha conhecimento de orixá (Òrìṣà) e do culto de orixá (Òrìṣà), um Bàbáláwo não é uma pessoa para você tratar disso, em nenhum caso. Jamais procure estrangeiros para isso. O oráculo para isso é o jogo de búzios.

Em Ifá quem fala é Órunmila (Ọ̀rúnmìlà). Assim em uma casa de orixá (Òrìṣà), de candomblé, os búzios devem ser o oráculo para ser usado para se tratar com orixá (Òrìṣà). Existem inúmeras questões para isso principalmente envolvendo os iniciados.

Se a pessoa quer saber algo ligado a orixá (Òrìṣà) não adianta procurar um Bàbáláwo, só vai arrumar problema para a vida dela.

Em relação as pessoas laicas, não ligadas a religião, principalmente, ou mesmas as iniciadas que quiserem tratar de coisas relativas a vida delas, eu considero Ifá, quando bem feito o oráculo mais completo e profundo. Um bom Bàbáláwo tem, através de Ifá, explorar as questões e problemas mais profundamente. Um Bàbáláwo tem essa oportunidade, ele pode não aproveitar, mas, o oráculo permite isso.

Se o consulente quer tratar de questões simples do dia a dia, problemas, e orientações do dia a dia mais imediato e que não requerem uma avaliação mais profunda de suas questões, o jogo de búzios é muito melhor.

Suas repostas são objetivas, cheias de contexto, os búzios permitem uma interpretação mais completa, trazem mais informações e possibilitam um diálogo bastante interativo. Considerando que a maior parte dos Babalorixá (Bàbálórìṣà) ou Iyalorixá (Ìyálòrìṣà) usam ainda sua mediunidade nas consultas de búzios, as possibilidades deste oráculo são excelentes.

O problema aqui é o mesmo que citei em Ifá. Pessoas mal intencionadas, despreparadas para uso do oráculo, que não se dedicam e não se preparam para o seu uso. Nesses casos corre-se um grande risco de ser enrolado pelos olhadores.

Como eu disse antes, é necessário fé, mas, também, uma visão crítica do processo para você estar 100% satisfeito e não ser enganado.

Você também pode ir a Ifá para resolver questões simples e imediatas, não tem problema, um Bàbáláwo usando o opele (Ọ̀pẹ̀lẹ̀) Ifá é quase igual a um olhador de búzios, rápido e objetivo, mas, você não vai ter a parte da mediunidade do olhador para complementar.
Eu vejo em ifá um uso muito superior quando a consulta é feita com Ikins, mas os Bàbáláwo não gostam disso, preferem usar o opele (Ọ̀pẹ̀lẹ̀) ifá que é um processo rápido.
Uma boa consulta de búzios pode demorar 1 hora ou um pouco mais. Uma boa consulta de Ifá com ikins vai demorar umas 4 horas, mas, como opele (Ọ̀pẹ̀lẹ̀) Ifá demora a mesma 1 hora.

Em relação ao formato das consultas, os búzios são sempre muito direto, o olhador vai dizendo os problemas e você confirma se é aquilo ou não. As coisas nos búzios têm muito significado.

Em ifá não é assim, deveria ser bem mais complicado. O formato correto é o Bàbáláwo te contar histórias e você interpretar as histórias para eles e falar como seu sente com elas, se você se identifica com elas, etc..

Essas histórias são os famosos versos de Ifá. A dificuldade é entender as histórias e contá-las. Os poemas são bem típicos dos yorùbá, contêm referência difíceis de entender e são metáforas e parábolas. Tem que ter um bom nível de interpretação de texto e de abstração para entender os versos.

Todo mundo acha lindo os versos de Ifá, mas usar eles que é bom mesmo ninguém quer.
Isso leva um bom tempo, é um processo de análise gradual que vai se aprofundando e faz surgir as verdadeiras questões do consulente. Mas isso demora.

A gente sempre fala que em ifá a pessoa não pode ser burra. Tem que ser inteligente, tem que saber interpretar, tem que saber abstrair, criar cenários, tem que saber falar com a pessoa que está na sua frente.

A maior parte dos Bàbáláwo não usa a interpretação de versos, eles usam o opele (Ọ̀pẹ̀lẹ̀) Ifá e não trabalham com histórias e com a interpretação conjunta. Eles vão direto nos significados e pré-interpretações que tem em relação as caídas do opele (Ọ̀pẹ̀lẹ̀) Ifá (Odù). Nesse formato, as coisas funcionam, mas eles ficam igual ao jogo de búzios que trabalha da mesma maneira, com significados prontos para as caídas, tem muito Bàbáláwo que concorre com búzios no mesmo tempo e no mesmo jeito de interpretar o oráculo, mas, não tem a mediunidade para complementar.

Dessa maneira ambos os oráculos são bons.

Concluindo, se quer lidar com coisas de orixá (Òrìṣà), vá nos búzios, se quer tratar de coisas imediatas de sua vida, decisões e orientações pode ir em ambos, mas se quer avaliar sua vida de forma mais profunda, só Ifá vai te dar isso.

Em qualquer caso, para ter sucesso, tem que ter um bom olhador. Mais ainda, não falei seu problema, o oráculo tem que falar.

COMPLEMENTO:  complemento

Ifá é Religião?

Ifá é Religião?


O título deste texto é uma dúvida que passa pela cabeça de muitas pessoas, incluindo nesse grupo Bàbáláwos. Isso mesmo, existem pessoas que tem dúvida do que Ifá é, mas ainda, tem Bàbáláwo que tem certeza de que não é religião.
Esse grupo de pessoas não consegue identificar a estrutura e prática de Ifá como religião e, talvez, devido ao aspecto universal de Ifá que pode ajudar a qualquer pessoa independente da religião dela, podem entender que isso transforma Ifá em uma ciência ou mesmo agnóstico.
Não é isso, Ifá é religião.
Este Blog não podia se furtar de entrar nessa discussão, é claro, e vamos aqui contribuir para que os Bàbáláwo encontrem o seu caminho. Não vou fazer nenhum texto denso e hermético, vou dar a abordagem mais simples possível. 
 
De um certo ponto de vista, entendo essa dúvida. Para pessoas não ligadas à religião Yorùbá, não é fácil reconhecer ou aceitar uma nova religião. É muito fácil ouvir por ai Babalorixás e Iyalorixás se referindo a religião delas como uma seita, é fácil ver Iyalorixás tradicionais da Bahia pertencendo a irmandades católicas e tomando bença para padres.
Em um ambiente onde temos uma religião muito bem organizada e influente na sociedade e, ao mesmo tempo, sacerdotes que não se reconhecem e se submetem a essa mesma religião, torna-se difícil esperar que pessoas laicas à religião a reconheçam como tal.
Neste mesmo contexto, temos ainda a herança dos bantu com videntes e feiticeiros que vendem favores possíveis e impossíveis da mais baixa ética para a sociedade que  avidamente procura soluções sem ética para assuntos imorais.

O microcosmo afro-brasileiro ainda é dominado pelo mercantilismo e a falta de religiosidade sincera. A teologia da prosperidade, característica das seitas neo-protestantes, sempre foi a tônica das pessoas que procuram cultos afro-brasileiros.
Mas esse panorama está mudando. Novos entrantes procuram a religião Yorùbá como uma religião de fato, trazem novos padrões éticos e não tem o foco no vil mercantilismo de trocas. A informação é mais fácil e acessível e pessoas descobrem que existe uma religião por trás da liturgia.

Claro que ainda vamos ter o grupo inicial, este que dominou a cena até agora e que contribuiu para espalhar a visão de que é uma religião desprovida de caráter e moral (para entender o que eu digo aqui, antes de me criticar, sugiro ler o livro, Candomblés de São Paulo de Reginaldo Prandi, pode ser baixado em forma de PDF gratuitamente). Mais uma vez repito, herança de miseráveis, gente que precisava de enganar outros para viver e da prática Bantu do baixo espiritismo. Muito mudou e ainda vai mudar, mas ainda temos um bom caminho à frente.

Não me crucifiquem por dizer isso. Todo mundo sabe que é isso. 
 
Claro que existem boas pessoas e lugares decentes. Não estou dizendo que todo mundo é ruim e não presta, estou dizendo apenas que existe essa divisão e que o lado ruim (na minha opinião claro, porque pode ter gente que acha isso normal), é muito visível.

Neste contexto social, como falei, não é fácil para pessoas olharem para isso e imaginar que ali existe uma religião. Em uma sociedade populada de videntes, adivinhos, tarólogos, "ciganos", jogadores de búzios e macumbeiros em geral, como supor que um Bàbáláwo, que é mais um manejador de Oráculo, seja algo diferente? Seja um religioso? Um sacerdote?

Mesmo as pessoas que se dispõe a ser Bàbáláwo, podem se ver apenas como videntes qualificados. 
 
Será que eles tem acesso à informação para entender que fazem parte de uma religião?
Será que elas entendem que existe uma Teologia, uma cosmogonia, uma teogonia própria suportando aquela prática? 
 
Será que eles sabem o que são essas coisas? Será que sabem o que estrutura uma religião?
Será que elas sabem que além de liturgias que devem aprender que elas também representam uma teologia?

Será que eles não se veem apenas como a pessoa que recebe um cliente, interpreta com a ajuda do cliente o problema dele (na maior parte das vezes você nem precisa fazer nenhum esforço, a pessoa senta na sua frente e já fala o problema dela e diz o que você precisa dizer para fazer ela feliz...) e vai fazer um ebó para resolver o problema, recebendo dinheiro por esse trabalho?

Pode ser complicado cobrar de uma pessoa a postura de um sacerdote se ele não sabe o que é religião e o que é um sacerdote, porque, independente de achar que estão em uma religião eles se nomeiam sacerdotes. Ai, fica muito difícil.
Primordialmente, para eles, eles estão em uma relação de consumo. 
 
Problema + $$ = solução

Não sei se todos têm acesso à informação e conhecimento de que aquilo ali deveria ser uma religião. Não apenas os Brasileiros mas também cubanos. Quanto a Nigerianos, não convivo com eles, não posso dizer, não confio de forma alguma no caráter dos que vem para cá mas me faltam elementos para qualificá-los.

Defendendo um pouco essas pessoas, Babalawos, que não sabem que fazem parte de uma religião, a forma de aprender o Ifá cubano não ajuda. Os tratados são um instrumento religioso muito ruim. Não são as escrituras sagradas, não contém os versos originais de Odù conforme define a religião e traduzem uma visão muito deturpada da teogonia.
Isso mesmo, vou repetir, tratados cubanos não contém os versos de Ifá.

Eles são muito práticos, permitem ao Bàbáláwo ir rapidamente a interpretação do oráculo e na busca da solução mágica, mas, não ajudam ao Bàbáláwo ver o que fazem como uma religião. Apesar de eu reconhecer que são um bom instrumento para o Babalawo, eu sou muito crítico no que diz respeito a visão religiosa. 
 
Se eu não já conhecesse os Orixás e seus mitos através do Candomblé e o meu contato inicial fosse através dos pataki (histórias dentro dos Odù) cubanos eu teria uma péssima visão de Orixá, na verdade teria uma visão decepcionante.
Mas vamos voltar ao nosso tema.

O argumento mais simples e idiota que posso usar para com os Bàbáláwo (não com as pessoas) é que uma vez que eles se declaram como “sacerdotes” de Ifá não existe possibilidade de Ifá não ser uma religião. Não lembro de ver Bàbáláwo se autoproclamando como vidente, eles fazem questão de se pronunciar como sacerdote de Ifá.

Para quem tem dúvida vamos ao que está na wikipedia:

Sacerdote ou Sacerdotisa (do latim Sacerdos – sagrado; e otis – representante, portando "representante do sagrado") é uma autoridade ou ministro religioso, habilitado para dirigir ou participar em rituais sagrados de uma religião em particular. Eles também têm a autoridade ou o poder de administrar os ritos religiosos, em especial, os ritos de sacrifício e expiação de uma divindade ou divindades. Seu cargo ou posição é chamado de Sacerdócio, um termo que pode também se aplicar a essas pessoas coletivamente

Assim, se o Bàbáláwo não é parte de uma religião ele deve se autodenominar vidente, olhador, adivinho. Eu sou não sou olhador, eu sou, Bàbáláwo e sacerdote de minha religião. Mas as pessoas podem ser o que quiserem, se o objetivo de alguma pessoa que se consagrou Bàbáláwo é apenas ganhar dinheiro com a prática da sua ciência e curandeirismo, então é mole, não precisa dizer que é sacerdote.

O que ele não pode fazer é dizer que os demais são como ele, eu não sou como esses, eu sei o que sou e onde estou.

Mas vamos esquecer que a resposta a essa pergunta pode ser dada pelos próprios Bàbáláwo ao se apresentarem como sacerdotes.
Vamos entender porque Ifá é uma religião.
Em primeiro lugar Ifá é parte de uma religião. Ele não é a religião por sí mesmo. Ifá é uma culto que faz parte da religião Yorùbá. Esta religião que surgiu em uma área que hoje pertence em parte ao Benin e em parte a Nigéria, a região Yorùbá. Esta religião tem uma estrutura bem completa e complexa e se espalhou pela região em volta dela de forma bem ampla. Foi trazida ao novo mundo durante a diáspora negra.

Esta religião é dividida em 3 cultos principais: O culto de Orixá, o culto de Ifá e o culto de egungun. Cada um desses cultos tem uma especialização e um objetivo. O Culto de Orixá cuida da pessoa e da família. O culto de egungun, no qual as pessoas se comunicam com ancestres, cuida da comunidade e o culto de Ifá é dedicado ao oráculo da religião.

A especialização de Ifá é o oráculo e só. O Bàbáláwo é uma pessoa dedicada a ser um mensageiro entre o divino e nós. O trabalho do Bàbáláwo é aprender a interpretar a forma como deus fala com a gente através do oráculo.

Mas, para melhorar o entendimento vamos a origem do oráculo. A questão é, por que o oráculo de Ifá existe na religião?

Simples, o oráculo representa o compromisso de deus, de Olódùmarè, com a nossa vida, com o nosso sucesso e nosso bem-estar. A preocupação de deus, Olódùmarè, com a gente é tanta que ele criou os Orixá (Òrìṣà) para nos ajudarem e o oráculo para que possamos nos orientar em nossa vida. Deus quer que a gente seja feliz.

A religião Yorùbá é encarnacionista, acreditamos que vamos viver muitas vezes, vamos renascer continuamente. Existe um mundo espiritual, o Orun, e um mundo natural ou físico o Aiye, que é onde estamos agora. Antes de nós nascermos, novamente, ainda no Orun nós estabelecemos objetivos para nossa nova vida e antes de irmos para o aiye, para nascermos, nós nos ajoelhamos na presença de deus, Olodumare tendo como testemunha somente uma divindade Órunmila (Ọ̀rúnmìlà). Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) é o único testemunho de nosso destino, somente ele e deus sabem o que planejamos para nossa vida.

Deus sabe que a vida no aiye é bem difícil, que existem dificuldades, acidentes, incidentes, catástrofes naturais, imperfeições congênitas e pessoas que podem atrapalhar esse nosso destino. Dessa maneira ele encarregou os Orixá de cuidarem de nós e Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) de ser o mensageiro entre as pessoas, os orixá (Òrìṣà) e deus.

O culto de Ifá é dedicado exclusivamente a uma divindade, a Órunmila (Ọ̀rúnmìlà). O Bàbáláwo em sua vida vai cultuar somente esta divindade que é a divindade que responde em seu oráculo. Órunmila (Ọ̀rúnmìlà), como testemunho de nosso destino junto a deus é o único que sabe o que planejamos para nossa vida, de forma que, quando temos uma dificuldade que não conseguimos resolver, vamos ao oráculo da Ifá, para que através de Òrúnmìlà possamos nos comunicar com o divino, com ele, Órunmila (Ọ̀rúnmìlà), que sabe o nosso destino e com os orixás que nos assistem na nossa vida.

O que torna o oráculo de Ifá especial para as pessoas é o conceito de Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) ter sido a testemunha de nosso destino, ele sabe o que nós planejamos para nós mesmos.

Esta é uma explicação religiosa. Esta explicação é feita dentro do contexto da religião, é a religião que dá sentido a importância do oráculo de ifá. Existem muitos oráculos e videntes, muitos deles muito bons, mas, é esta história de Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) ser o testemunho do nosso destino, o eleri ipin, que torna o oráculo importante, sem esta história Ifá seria como búzios, cartas, tarot e outros.

Dessa maneira, vamos revisar:

Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) – é uma divindade
Olódùmarè – é o deus supremo yorùbá
O oráculo de Ifá é um instrumento de Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) para se comunicar com as pessoas que vive no mundo material

Mas, apesar disso, tem Bàbáláwo que diz que Ifá não é religião?

Eu não consigo definir Ifá de outra maneira. Não acho que seja uma ciência, não acho que seja uma "coisa", para mim é religião.

Como toda religião, não existem exclusividades. Esta religião está disponível para ajudar a todas as pessoas. Todas as pessoas foram até deus antes de nascer, assim acreditamos. Dessa maneira, qualquer pessoa pode ser ajudada por Ifá. Você não precisa fazer parte da religião, esta religião, assim como as demais, visam o bem das pessoas e não existem escolhidos, todos somos os eleitos de deus.

Ao ir a Ifá você não é obrigado a se converter para a religião Yorùbá. Você não terá que cultuar Orixá. O Bàbáláwo, como um sacerdote falará com você citando versos dos textos sagrados da religião, contará mitos que fazem parte da religião com metáforas equivalentes às parábolas e vai dar a você orientações baseados nos valores da religião. Se você quiser ser ajudado o Bàbáláwo irá ajudá-lo através de Òrúnmìlà, exu e dos orixás, porque esse é o caminho da religião, mas, você não precisa mudar sua religião.

Não confunda assim o aspecto universalista da religião com o fato de Ifá ter sua existência exclusivamente justificada pela religião Yorùbá.

Sou Bàbáláwo, sou sacerdote, faço parte de uma religião, Ifá é parte de uma religião, aberta a ajudar qualquer pessoa.

Quem não esta em uma religião é vidente, ou olhador de oráculo, Babalawo é cargo religioso.