Pesquisar este blog

Mostrando postagens com marcador orixá. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador orixá. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, maio 29, 2020

Olóòkun e as crianças de orixá (Òrìṣà)

Introdução

Esta história sobre Olóòkun é bastante interessante. Foi extraída de um verso de Ifá e não diz respeito a Olóòkun ela tem uma mensagem poderosa que quero trazer aqui.

Como eu sempre falo mensagens tiradas de versos de Odù são muito complicadas porque uma mesma situação tem recomendações diferentes para pessoas diferentes dependendo do contexto. Existem poucas mensagens que são absolutas.

Essa aqui é uma pouco diferente e merece destaque.

O trabalho do Bàbáláwo é analisar essas história junto com o consulente e entender como isso se encaixa na vida e nos problemas dele. É um trabalho de detetive e psicólogo, as vezes de filósofo. Se Bàbáláwo não é para qualquer um.

Recomendo que leiam essa história e façam sua análise.

Antes disso, uma observação. Olóòkun é considerado um orixá (Òrìṣà) masculino em toda a terra yorùbá. A origem deste orixá (Òrìṣà) é no Benin (não é Dahomey) e na sua origem é masculino. Somente é Ifé ele é considerado feminino. Essa história possivelmente é de Ifé porque mostra orixá (Òrìṣà) como feminino.


Olóòkun e as crianças de orixá (Òrìṣà)

Em termos de acumulação financeira e de ativos, Olóòkun foi a divindade mais bem-sucedida criada por Olódùmarè. Ela possuía quatro quintos de todos os recursos na Terra. Ela controlava muito mais coisas na terra do que todas as outros inrumolé (Irúnmọlẹ̀), orixá (Òrìṣà) e seres humanos juntos. Ela era um orixá (Òrìṣà) muito honrada e respeitada. Seu festival anual também era o maior evento do mundo.

Sempre que ela convidava inrumolé (Irúnmọlẹ̀), orixá (Òrìṣà) e seres humanos para sua celebração, eles deveriam vir com, pelo menos, um de seus filhos. Quando os convidados chegavam à festa, algo acontecia que afetaria seus filhos. Quando chegava a hora de começar a cerimônia, as crianças que acompanhavam os pais, ou seriam levados pelo mar ou eles perderiam suas vidas se afogando no oceano. A maioria dos que participaram da cerimônia voltaria para casa sem os filhos e com uma longa e triste história para contar aos outros.

Chegou a data em que Olóòkun convidou todos os 401 inrumolé (Irúnmọlẹ̀) para sua festa anual. Todos eles deveriam vir com, pelo menos, um de seus filhos. Era impossível que eles se recusassem a comparecer porque esse não era o caminho das Divindades. Foi quando Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) finalmente decidiu ir para consultar Ifá: O que devo fazer para evitar a perda do meu filho se eu participar do festival anual de Olóòkun?

O Bàbáláwo disse a Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) para oferecer um ebó (Ẹbọ) om duas cabras adultas; uma seria para o ebó (Ẹbọ) e a outra seria entregue a Olóòkun ao invés de seu próprio filho. Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) foi instado a oferecer o ebó (Ẹbọ) antes da data do festival. O Bàbáláwo assegurou que, se fizesse isso, seu filho seria poupado. Ele também foi advertido a não para ir à cerimônia com qualquer um de seus filhos. Ele obedeceu.

No dia da cerimônia, todos os convidados vieram com seu filho. Somente Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) foi lá com sua própria cabra. Todos aqueles que o viram pensaram que ele era louco ou cínico. Todos foram instruídos a trazer ao menos um de seus filhos, então por que Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) veio com uma cabra ? Todos os convidados estavam totalmente convencidos de que Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) receberia a humilhação de sua vida naquele dia porque Olóòkun não acharia esse estranho senso de humor um caso engraçado.

Quando chegou a hora das crianças irem comemorar com Olóòkun, um por um, todos os convidados foram adiante e entregaram seus filhos. Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) também foi adiante, mas entregou sua cabra. Na presença dos pais, as crianças foram levadas para o mar. A maioria deles foi lavada enquanto os restantes se afogaram bem nos olhos de seus pais! A cabra foi abatida para consumo, também na presença de todos os convidados.

Antes do final da cerimônia, Olokun convocou Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) e todos os outros convidados para sua presença. Todos eles esperaram ansiosamente para testemunhar como Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) receberia o esculacho que ele merecia. Como ele ousa trazer com ele uma cabra quando todos os outros trouxeram seus filhos, eles se perguntavam?

Quando todos se reuniram, Olóòkun enfrentou Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) e Perguntou; "Por que você escolheu trazer uma cabra quando você deveria vir com um de seus filhos? Você pode se explicar a todo mundo aqui, o que está por trás de sua ação?

Todo o encontro ficou completamente silencioso. Eles queriam ouvir suas razões para se comportar de maneira tão engraçada. Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) pigarreou e com um sorriso, ele respondeu: “depois de deliberar profundamente com o meu Orí, concluí que isso me traria muita tristeza e agonia pelo meu filho amado a ser morto diante de meus olhos. É por isso que eu decidi trazer uma cabra comigo. Se a cabra fosse morta, como você fez, não me machucaria nem me causaria pesar como esse

faria se fosse a morte do meu próprio filho. Por isso não pude trazer minha

criança para esta cerimônia e ver meu filho morrer diante dos meus olhos.

Esse é o seu motivo?”, Perguntou Olóòkun. “Sim, essa é a minha razão”, respondeu Órunmila (Ọ̀rúnmìlà). Olóòkun então voltou sua atenção aos outros convidados que haviam perdido seus filhos. Ela então perguntou a eles ”por que nenhum de vocês raciocinou da maneira que Órunmila (Ọ̀rúnmìlà)? Nenhum de vocês é menos brilhante. Todos que são brilhante não são inteligentes. Aqueles que são inteligentes faltam entendimento. Aqueles que têm entendimento entre vocês não sabem como combiná-lo com sabedoria. Quem tem sabedoria não sabem como aplicar sua retrospectiva e previsão de qualquer maneira! Vocês são todos tolos! Vocês todos foram trazer seus filhos para o meu festival e toda vez que eles têm morrido.

Não foi suficiente a primeira experiência para ensinar a todos uma lição? Você não pode emprestar uma folha em retrospectiva? Por que nenhum de vocês poderia prever que isso no ano seguiinte teria o mesmo padrão do ano passado e do ano anterior? Você todos continuaram trazendo seus filhos aqui para serem mortos! Onde estão seus cérebros? De repente seu cérebro vazou de seus ouvidos? Vocês são os inrumolé (Irúnmọlẹ̀) ao quais os assuntos do mundo repousam em suas mãos? Vocês são todos tolos!

De qualquer forma, não se preocupe mais com isso. No próximo ano, traga seus filhos novamente e testemunhe eles serem mortos!

Ela então parou um pouco. A essa altura, os rostos de todos os convidados já estavam se contorcendo em enormes caretas de agonia. Muitos deles começaram a desejar o chão para abrir e engoli-los. Ela então perguntou: “quando todos vocês foram convidados pela primeira vez e vocês perderam seus filhos, por que você não usou a sua retrospectiva e avaliação quando você foi convidado novamente no ano seguinte? Se todos vocês tivessem decidido deixar seus filhos para trás em casa, o que poderia uma pessoa fazer contra 401 inrumolé (Irúnmọlẹ̀) depois de todos terem tomado uma decisão? Ela então declarou ”quando uma lei é feita, assim que alguém percebe que a lei não está no interesse do grupo, a única coisa razoável é revogar essa lei! Por quê todos vocês não usaram seu bom senso? Por esse motivo, todos vocês precisam elogiar Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) por usar seu discernimento, retrospectiva e previsão. Ele é o único que foi poupado de agonia entre vocês! Isso é tudo o que tenho a dizer a todos os presentes aqui hoje. Ofereço a todos um bom dia!

DESEJO QUE TODOS REFLITAM SOBRE ISSO NA VIDA DE VOCÊS.

domingo, maio 24, 2020

Nàná Buruku em Ifá

Introdução

A história a seguir foi retirada de um verso de Ifá documentado por Popoola. Estou destacando porque é bastante difícil encontrar histórias de orixá (Òrìṣà) em Ifá. Os personagens dos versos são Órunmila (Ọ̀rúnmìlà), Exú (Èṣù) e desconhecidos. As vezes outros inrumolé (Irúnmọlẹ̀) que não são orixá (Òrìṣà). A presença de orixá (Òrìṣà) é bem pequena.

As pessoas pensam diferente, que em Ifá está tudo da religião. Não é verdade. Existem sim alguns versos estruturais, importantes que trazem aspectos gerais da teologia e podem ser referenciados sem contextos. Contudo, versos tem contexto, dizem coisas diferentes para a mesma situação. Não se pode fazer o que muito Bàbáláwo descompreendido faz que é citar verso como se fosse sabedoria, como se fosse a bíblia, porque o conexto do verso e a mensagem mudam em função da pessoa e do problema. O mesmo problema pode ser indicações diferentes.

Encontrei então esta história de Nàná e estou mostrando aqui. Primeiro por estar associado a um verso, do Poppola (a fonte é importante) e segundo porque traz uma mensagem interessante e também permite conhecer um pouco do orixá (Òrìṣà), nessa versão do Popoola, claro.

Tenho outra fonte de mitos que orixá (Òrìṣà), uma muito boa, do Alex Cuoco e fica claro que Nàná e Ògún estão sempre envolvidos e em conflito.


NÀNÁ e ògún


Bùùkúù, também conhecido como Nàná Bùùkúù foi uma extremamente bem-sucedida mulher. Ela era muito rica. Ela tinha um grande número de seguidores. Ela era uma Orixá (Òrìṣà) de quem muitas mulheres gostavam. Ela guiou, guardou e apoiou Muitas mulheres. Bùùkúù, no entanto, não deu filhos às mulheres nem ela tomou seus filhos deles também. Ela simplesmente garantiu a proteção das mulheres seus filhos. Ela também os defendeu contra toda agressão, principalmente de seus maridos e vizinhos. Todos os homens bêbados e agressivos que tomaram prazer em violar as mulheres como uma maneira de deixar escapar suas próprias frustrações perceberiam que ter medo de Nàná Bùùkúù foi o começo de ter sabedoria.

Isso porque ela faria todo o possível para vingar qualquer violência ou humilhação contra as mulheres que eram suas seguidoras. Por esta razão, ela tinha um grande grupo de mulheres a seguindo. Associação ao seu grupo era para sempre. Isso a tornou ainda mais popular. Muitas mulheres idosas vêem isso como um santuário contra as famílias de seus esposos que vezes, gostam de enganá-las ou criar problemas para elas assim que o marido deles morria. Todos os seus seguidores estavam prontos para oferecer qualquer sacrifício que ela pedisse para fazer porque sabiam que os resultados desejados surgiriam assim que eles fizeram os sacrifícios.

Apesar desse sucesso, Bùùkúù não conseguiu ter seu próprio marido. O motivo disso foi porque sua reputação como um orixá (Òrìṣà) que protegia e defendia as mulheres contra a humilhação e violação de seus maridos foi muito intimidador para a maioria dos homens. Muitos homens não tiveram coragem de pedir a mão dela em casamento.

Em segundo lugar, ela era uma mulher extremamente orgulhosa, arrogante e egoísta. Além de precisar de um homem para engravidar e ter filhos, ela não encontrou outra razão para ela estar em um relacionamento com um homem. Ela considerava todos os homens muito chauvinistas e egocêntricos demais para o seu gosto. Para ela, os homens precisavam ser colocados em seu lugar. Por esse motivo, ela não tinha paciência para qualquer homem. Ela costumava ser encontrada gritando com eles e intimidando-os na menor oportunidade. Homens que estavam no seu bom senso fugiriam dela e ela não via nada de errado com isso.

Mesmo assim, ela precisava de um homem para, pelo menos, lhe dar seus filhos, mas quem poderia este homem ser? Ela não precisava amar o homem ou ser amada de volta, porque para ela, o amor verdadeiro não poderia ocorrer com qualquer homem de qualquer maneira. Ela não precisava respeitar o homem porque nenhum homem, segundo ela, merecia respeito de qualquer maneira. Ela também não precisava seguir nenhum conselho de um homem ou ouvir qualquer instrução porque, para ela, os homens não tinham senso de direção.

Havia apenas dois critérios que o homem deveria cumprir; primeiro, ele deve ser forte e saudável o suficiente para gerar seus filhos e dois, ele deve ter popularidade e grande seguidores. Esses critérios foram o que ela usou antes de estreitar sua procura até Ògún. Naquela época, Ògún estava morando em Ṣakí. Ògún tinha a reputação e o comportamento de um homem muito forte. Ele também teve o carisma de alguém que poderia fazer as coisas acontecerem. Isso foi um pouco agradável para Bùùkúù. Em segundo lugar, Ògún tinha muitos adeptos, homens e mulheres.

Desconhecido para muitos, não havia nada que Bùùkúù coloca-se em sua mente para alcançar que ela não conseguiria. Mesmo que muitas mulheres que estivessem procurando cônjuges compatíveis para elas, a procuravam para uma solução para seus problemas, elas nunca pensaram que ela teria a necessidade de um homem como as mulheres comuns. Foi por isso eles não se deram conta do fato de que ela precisava de um marido próprio para ela. Pessoas acreditavam que isso lhe convinha muito bem, porque ela não queria nenhum homem, mas ela não queria que seus numerosos seguidores soubessem que ela desesperadamente precisava de um homem para, pelo menos, torná-la mãe de filhos.

Para ter sucesso em seu plano, ela foi à casa de um Bàbáláwo para consulta. Ela queria que o Awo trabalhasse nesse projeto pessoal para que ela tivesse sucesso. Ela estava convencida de que não seria capaz de viver com a vergonha e a humilhação se ela fosse recusada por Ògún. Como ela poderia enfrentar seus inúmeros seguidores, se isso fosse ocorrer?

Durante a consulta de Ifa foi revelado que ela planejava se casar com um homem muito poderoso e importante. Foi dado certeza a ela de que teria sucesso em sua missão. Ela, no entanto, foi alertada para nunca menosprezar seu homem, porque isso faria a levar a consequências indesejáveis. Ela foi aconselhada a respeitar, amar, honrar e ouvir o marido quando ela se casasse. Ela foi informada de que isso seria a única maneira de garantir paz matrimonial, harmonia e sucesso. Ela também foi aconselhado a oferecer ebó (Ẹbọ) e alimentar Ògún, conforme recomendado.

Ela considerou as declarações do Bàbáláwo . O Bàbáláwo disse que ela iria ter sucesso em sua tentativa de se casar com Ògún. Nesse caso, qual a utilidade do ebó (Ẹbọ) que o Bàbáláwo recomendou? Se ela se recusasse a respeitar o marido, qual era a preocupação do Bàbáláwo nisso? Para esfregar ferimentos com sal, por que ela deveria a ir e alimentar o Òkè-Ìpọ̀rí de Ògún? Enfim, ela concluiu, apenas pessoas ocupadas como o Bàbáláwo a insultaria com tais recomendações; ela se levantou e simplesmente saiu sem dizer uma palavra, para a surpresa do Bàbáláwo.

A cerimônia de casamento entre Bùùkúù e Ògún foi o assunto de toda a comunidade por muito tempo. Bùùkúù no entanto deixou ninguém em dúvida sobre quem estava dando as ordens no relacionamento. Ela fez claro para todos os presentes perceberem que ela é a pessoa responsável por tudo. Enquanto isso, Ògún era totalmente cego a todos os seus planos e maneiras. Ele era simplesmente apaixonado por ela. Ele estava preparado para satisfazê-la e dançar suas músicas.

Quando ele percebeu que ela tinha vários seguidores indo à casa deles todos os dias a fim de encontrar soluções para seus problemas, ele até organizava as coisas para que ela sempre tivesse pessoas a ajudando. Essas pessoas a ajudariam a oferecer os sacrifícios exigidos por ajudar seus clientes e devotos. Ògún até lhe deu sua faca de aço para ela usar no abate dos animais que seus clientes e devotos tinham trazido para o sacrifício.

No entanto, tudo o que Ògún estava fazendo por Bùùkúù não a impressionou nem um pouco. Ela apenas traduziu essas ações para significar que Ògún, simplesmente, desempenhava suas funções como marido. Qual era o dever dele? Para Bùùkúù, o dever de Ògún bem como o dever de todos os homens para todas as mulheres, era apenas para fazê-la feliz e fazer tudo o que ela queria. Qualquer homem que não estava pronto para fazer uma mulher feliz e fazer o que quisesse, não teria espaço na vida de qualquer mulher. Ela também acreditava que não havia razão para qualquer mulher fazer um homem feliz porque o homem só acabaria se aproveitando disso e reinaria sobre a mulher.

Apesar de tudo o que Ògún estava fazendo por ela, ela não podia ver razão pela qual ela deveria cozinhar comida ou trazer água para beber ou tomar banho. Para piorar as coisas, sempre que Ògún tentava aconselhá-la, ela apenas mandava ele sair.

Demorou menos de três meses antes de Ògún se tornar motivo de chacota todos em Ṣakí. As outras esposas da casa de Ògún não podiam acreditar no que estava acontecendo com o marido. Aqueles que originalmente concederam a Ògún alta consideração e espeito ficaram tão horrorizados que perderam todo o respeito por ele.

Um dia, Ògún chamou Bùùkúù para uma discussão, a fim de esclarecer as coisas com ela. Ela não podia ser incomodada. Ela pediu a Ògún para encontrá-la em seu quarto, se ele achava que havia algo a discutir. Ela consentiu em discutir com ele depois de muita pressão de O®gu; ne a única maneira de a discussão ser feita era se ele concordasse em discutir as coisas com ela no quarto dela.

Assim que Ògún iniciou a discussão, Bùùkúù perdeu o interesse. Ela era tão desinteressada pelo que ele estava dizendo que, em um momento, Ògún ficou visivelmente irritado. Percebendo isso, ela simplesmente gritou: Se Ògún não estivesse satisfeito com o tratamento que ela estava lhe dando, ele estava livre para se enforcar ou, melhor ainda, joguar-se em uma lagoa ou poço. Ela não tinha tempo de dar a ele melhor tratamento. Além disso, ele tinha outras esposas que poderiam satisfazer suas necessidades tolas. Ela então gritou para ele sair do quarto dela. Ela amaldiçoou e abusou dele. Ela o ofendeu de uma maneira que ninguém, homem ou mulher, já havia conversado com Ògún antes. Ela então completou cuspindo em sua cara!

A essa altura, todos na casa e alguns vizinhos já tinham reunidos em torno de sua casa. Eles não podiam acreditar no que estavam vendo e ouvindo. Isso não poderia acontecer com Ògún. Este homem parado diante Bùùkúù não pode ser o Ògún eles sabiam. Não pode ser ele. Não deve ser ele!

Ela então começou a pressionar Ògún para sair do quarto. Essa foi a palha que quebrou as costas do camelo. Ògún ficou lívido de raiva! Ele começou a tremer por toda parte! Quando ele finalmente falou, Bùùkúù tornou-se oprimida pelo medo! “Eu não vou permitir que você me desrespeite em minha casa, não mais! Mesmo que o inhame batido de ontem não satisfaça a pessoa ou encha sua barriga, sua simples aparência não é suficiente para instilar medo na mente de alguém. Quem é Você? O que você representa? Quem te deu à luz? O que você quer? O que você está procurando? O que entrou na sua cabeça burra? O que mudou seu pequeno cérebro de cabeça para baixo? O que lhe dá essa temeridade? Você não tem algum medo? Quem você pensa que é? Você não consegue reconhecer seu companheiro? o que dá a você essa impressão inchada sobre você e seu valor? O que você é, pensando em si mesma? Onde estão suas maneiras? Onde está sua feminilidade? Onde está sua decência? Onde está o seu decoro? Onde está seu respeito próprio? ”

Ele então parou. A essa altura, toda a sala estava carregada. A expressão no rosto de Bùùkúù mudou de arrogância para raiva, de raiva para surpresa, de surpresa em confusão, de confusão em arrependimento, de arrependimento em medo, do medo ao horror!

Ele então disse a ela: “Vou poupar minha ira hoje. Vá e remova todo as suas coisas e saia da minha casa agora! Deixe todas as minhas coisas para trás. Isto inclui a faca de aço que eu lhe dei para abater os animais trazidos à você. A partir de hoje, você deixará de usar qualquer coisa que pertença a mim: facas, lâminas, machados, facas, enxadas, escavadeiras, cacos e assim por diante. Saia agora antes que eu mude de idéia sobre você!

Enquanto ele falava, ele tremia por toda parte. Bùùkúù estava suando. Ela não tinha ninguém para pedir em seu nome. Naquele momento, ela se lembrou de todas as coisas que o Bàbáláwo tinha dito a ela. Era tarde demais para fazer qualquer coisa sobre Isso agora. Ela se culpou por fazer coisas demais. Ela começou a arrumar todas os seus pertences e alguns de seus seguidores que foram atraídos para a cena ajudando-a em mudar suas coisas. A vergonha que ela não queria que acontecesse com ela era testemunhada por todos ao redor. Foi notícia na área por muito, muito tempo.

Isso se tornou uma lição para todas as mulheres arrogantes até hoje. Quando Bùùkúù, ela não tinha faca para abater ou esfolar seus animais. Ela portanto, começou a usar bambu para esfolá-los. A partir desse momento, Bùùkúù usaria apenas bambu afiado para esfolar seus animais desde que a ela era proibido o uso de qualquer faca ou qualquer coisa de metal pertencente a Ògún.

segunda-feira, abril 22, 2013

Ori o nosso Guardião

Orí o guardião do nosso destino

Orientações e explicações de como entender, se equilibrar e viver melhor através de Orí


revisão 4



O que é Orí?



O objetivo deste texto não é explicar totalmente o que é Orí. Este é um conceito muito importante na religião Yorùbá e será abordado na sequência sobre o Cosmo Yorùbá. Ori é parte do conceito de individualização e é necessário explicar o que é isso. Não existe explicação decente sobre Ori sem falar sobre o seu humano na religião.

Desta forma este texto poderá ser um pouco hermético para muitos neófitos que estejam apenas acompanhando as publicações, mas, para pessoas que já sejam da religião, sem dúvida, elas já ouviram falar de Orí. Como muitas palavras Yorùbá esta também tem mais de um significado e uso o que as vezes torna ela complexa de ser entendida.

Ori é usado para se referenciar a 2 coisas principais. A primeira é a nossa cabeça. Cabeça é Ori. Os Yorùbá entendem que a cabeça é uma parte importante do corpo e nela reside aspectos marcantes de nossa vida. Nossa consciência esta na nossa cabeça bem como componentes adicionais e auxiliares também estão. A cabeça é o repositório de nossa axé (aṣẹ́), da ligação com o nosso orixá (Òrìṣà) e da ligação com nosso passado e ancestralidade.


O Ori é o repositório de nosso axé (aṣẹ́), da ligação com o nosso orixá (Òrìṣà) e da ligação com nosso passado e ancestralidade. Existe o que se chama o Ori exterior e o Ori interior. O Orí exterior não é nada demais é a cabeça que vemos. O Orí interior são essas virtudes e propriedades que carregamos na nossa vida vindos do Orun.

Ortodoxamente dizendo, o nosso Ori está ligado apenas a nossa capacidade de prosperar aqui no àiyé. Decepcionados? Pois é, é isso. Essa explicação está no Odu Ogunda Meji, na história de Afawupé, filho de Orunmila. Um bom Ori nos permitirá prosperar com mais facilidade e rapidez. Mas o sucesso de uma pessoa apenas se realiza de ela tiver Iwa Pele, um bom caráter, ou o axé da prosperidade. Essas 2 coisas, o Ori e o Iwa são selecionados por nós antes de nascermos. Se formos bem-sucedidos nesta escolha teremos uma vida-longa e próspera.

A escolha desses elementos deve ser feita de forma planejada no Orun. Para isso, no Orun consultamos Ifá. Além de escolhermos um bom Ori e Iwa também iremos fazer os sacrificios e oferendas que garantirão o nosso sucesso. Nem todas as pessoas que nascem fazem isso, muitas decidem vir para cá contando com a sorte.

Orí faz parte do contexto da nossa vida no aiye, mas esse contexto tem mais elementos. Isso começa quando definimos os objetivos para a nossa vida, para a encarnação que teremos. Vamos então a Olodumare pedir para viver com aqueles objetivos e duração. Olodumare nos concede e com isso vamos receber instrumentos que viabilizarão a nossa aventura no Aiye.


Sim, a vida é encarada como uma aventura, uma aventura de sentimos, experiência e sensações que somente aqui no Aiye teremos. Além disso vamos ter o convívio com nossa família. Baseado no objetivo de vida que escolhemos (ou nosso destino), nós vamos receber um Odù que é o axé de Olodumare para atingirmos esses objetivos,  vamos receber um Orixá que nos acompanhará no aiye e vamos receber elementos que comporão nosso axé.

A esse conjunto devemos somar o Ori escolhido junto a Ajalá, o Iwa e nosso Ipori que é nosso vínculo ancestral. 

Nós mesmos, nossa essência, se adiciona a este conjunto de coisas e nosso destino pedido e legado formando a nossa individualidade. Dessa forma Orí é apenas uma parte deste contexto. Oportunamente vou escrever explicando isso tudo.

No Candomblé o Orí ganha uma importante enorme, como se fosse tudo em nossa vida, mas não é bem assim....


Oops, antes tenho que fazer um alerta. Apesar de eu estar falando aqui de Candomblé, lembro que Candomblé não é homogêneo, é um conjunto heterogênio de 2 religiões, 2 cultos distintos e várias nações. Coisa que são aplicáveis a um segmento não são aplicáveis a outro.

Estou aqui, como sempre, falando do Candomblé da religião Yoruba, culto de orixá.

As nossas demais virtudes como o Ipori que é nossa ligação com a ancestralidade, o nosso orixá (Òrìṣà) e o nosso caráter, também fazem parte de nós e determinam nossa vida como um todo. Orí é importante mas não resume tudo, posso dizer que está muito mais ligado ao axé (aṣẹ́).

Entretanto, esses conceitos não são de muita utilidade. Apenas dizem como nossa alma é formada e como nos ligamos ao orun e a personalização de nossa vida. O que eu expliquei trata de elementos estáticos, a gente nasce com eles e eles nos explicam.

O segundo e mais importante significado da palavra Orí é quando nos referenciamos a nossa divindade pessoal, o nosso anjo da guarda ou guardião protetor. Os Yorùbá entendem que temos no Órun (ọ̀run) um duplo, um espirito protetor que nos protege e guia os nossos rumos. Esse espírito está acima das demais divindades no que diz respeito a nossa vida. Nada pode ocorrer com a gente sem a permissão de nosso Orí, nem mesmo o orixá (Òrìṣà) tem superioridade a ele.

Essa divindade pessoal é nosso maior bem espiritual e é para ela que rezamos. Assim quando rezamos não estamos rezando para nossa própria cabeça, estamos rezando para o nosso guardião no Órun (ọ̀run). Desta forma, quando falamos de Ori podemos estar nos referenciando ao que trazemos com a gente ou a nossa divindade pessoal. A maior parte de nossa atenção deve ser com a nossa divindade pessoal.

Esta é a parte dinâmica do conceito de Orí. Esta é a divindade que nos protege e nos orienta e é este vínculo que temos que cuidar. A cerimônia de Bori, a mais importante do Candomblé tem algumas finalidades. A primeira é a de repor axé. Axé é a energia da vida, é a quintessência que existe em todos os seres e que nos é dada apenas por deus, por olodumare. O Bori e as liturgias do Candomblé tratam de repor, equilibrar e transmitir axé. A segunda finalidade é criar ou melhorar a ligação entre orun-aiye do nosso Ori. Através do Bori nós melhoramo essa ligação e isso permite a nossa divindade protetora melhorar sua interação e influência em nossa vida.

O que nos ajuda na vida é o binômio Ori-Orixá, Nosso anjo guardião e nosso Orixá são as divindades que nos suportarão diretamente em nossa vida e sucesso. Nenhuma das duas deve ser ignorada e não se vai a lugar algum sem as duas. Temos apenas 1 Orixá, o Orixá de nascença, aquele que vem como parte de nosso Ori. Nosso orixá é dessa maneira tão importante como a divindade pessoal Orí. Orí nos dá proteção mas dá principalmente rumo e orientação. Nosso orixá é quem age na solução de nossos problemas. Isso está no odù Oxé-otuwa.

O que esta religião espera da gente é que sejamos pessoas dignas. O que esperamos da vida é que ele seja alegre, prazeiroza, desafiadora e aventureira. Ninguém nasce para ser infeliz. Não vivemos para a religião e sim vivemos com a religião.


Rezando para Orí



Como em qualquer religião os Yorùbá tem suas rezas. Elas são chamadas de igbàdúrà ou agbàdúrà. Essa é uma palavra derivada do verbo Gbàdúrà que significa rezar. O sentido é o mesmo, uma prece é um meio mecânico, através de repetição de palavras que usamos para nos conectar com o divino. Representam pedidos, agradecimentos ou simplesmente louvações.

Os Yorùbá acreditam que além desse sentido de sintonia da alma com o divino, as palavras têm poder. Devemos sempre ter cuidado com o que sai de nossa boca. As orações são encantamentos e as palavras tem o efeito de despertar e ativar energias. Dessa maneira as orações devem ser faladas e não pensadas.

Pode-se rezar para Orí a qualquer hora do dia e em qualquer lugar. Orí é a nossa divindade pessoal e quem nos protege de tudo na vida e no mundo. Antes de qualquer Orixá (Òrìṣà) e acima de qualquer Orixá (Òrìṣà) esta Orí. Rezar de manhã quando se acorda é a melhor opção.

A seguir existem uma relação de rezas para Orí. Elas devem ser entendidas e decoradas, recomendo que rezem em Yorùbá, mas quem tiver extrema dificuldade que o faça como quiser. De fato, como em qualquer religião as palavras devem vir da alma e isso é o principal.

No texto a seguir, existe a linha com as palavras em Yorùbá, a fonética das palavras em português e a sua tradução. Quando uma palavra tem mais de um acento significa que deve ser usado a forma aguda em cada sílaba acentuada, ou seja, pronuncie cada sílaba com a acentuação indicada. Atenção especial para alguns casos.

Quando aparece GB deve ser pronunciadas as 2 consoantes. Assim GB não é a mesma coisa de B. Por exemplo Gbo pronuncia-se diferente de Bo. Da mesma maneira o P Yorùbá é pronunciado como KP. Não existe letra muda, toda letra e sílaba deve ser pronunciada. As palavras Yorùbá geralmente são oxítonas, com sílaba tônica no fim.


Rezas de Ori

Para quando acordar de manhã

Reza 1

èmi ma jí loní o
emi má jí loni ô

eu acabo de acordar hoje

mo fi orí balẹ̀ fún ọlọ́run
mo fí orí balé fun olórún

eu coloco minha cabeça no chão para ọlọ́run

orí mi dá ẹ̀mí dá àiyé
orí mi dá émí dá aiiê

meu ori me de vida de de longevidade

Ngo kú ìmọ̀
ungô kú imón

eu saldarei o conhecimento

gbogbo ire ni ti èmi
gbogbo ire ni ti êmi

todas as benção para mim

imolẹ ni ti àmakisi
imolé ni ti ámákisi

os Orixá (Òrìṣà) pertencem a àmakisi


Reza 2

Orí awo màá tọ́ ni awè
orí auô ma a to ni auê

O mistério do Orí nascerá no jejum

Orí awo màá tọ́ ni awè
orí auô ma a to ni auê

O mistério do Orí nascerá no jejum

Orí awo màá gbó ni awẹ̀
orí auô ma a gbô ni auê

O mistério do Orí amadurecerá no jejum

Orí awo màá gbó ni awẹ̀
orí auô ma a gbô ni auê
O mistério do Orí amadurecerá no jejum

Orí awo màá mọ̀ ni awè
orí auô ma a món ni auê

O mistério do Orí trará conhecimento no jejum

Orí awo màá mọ̀ ni awè
orí auô ma a món ni auê

O mistério do Orí trará conhecimento no jejum

ìbà á ṣẹ Òtúwà-kan
ibá a xé otu ua can


Reza 3

orí sán mi, orí sán mi
orí san mi, ori san mi

ori me torne melhor

orí sán igbédè, orí sán igbédè
orí san igbêdê, orí san igbêdê,

ori me torne mais inteligente

orí tánsan mi ki èmi ni owó lọwọ
orí tan san mi qui êmi ni ôuô lóuó

ori me faça brilhar e que eu tenha dinheiro nas mãos

orí tánsan mi ki èmi ni aya
orí tan san mi qui êmi ni áiá
ori me faça brilhar e que eu tenha esposa

orí tánsan mi ki èmi bímo rere
orí tan san mi qui êmi bimô rerê
ori me faça brilhar e que eu tenha bons filhos

orí tánsan mi ki èmi mọlé
orí tan san mi qui êmi mólê

ori me faça brilhar e que eu construa uma casa

orí sán mi, orí sán mi, orí sán mi
orí san mi, ori san mi

ori me torne melhor

Olúwa mi ajiki
olu ua mi ajiqui

ìwà mi a dúpẹ́
iuá mi á dukpé

meu caráter, eu agradeço


Reza 4

Orí mi yẹ́ o Já fún mi
orí mi ié o já fun mí

meu orí esteja atento lute por mim

ẹlẹ́da mi yẹ́ o! Já fún mi
élédá mi ié o já fun mí

meu criador esteja atento lute por mim


Reza 5

Bi o ba fífẹ lowó, bèèrè kan orí
bi o bá fifé louô, beere kan orí

se você quer ter dinheiro, pergunte primeiro a orí

Bi o ba fífẹ sowó, bèèrè kan orí wò fún o
bi o bá fifé xouô, beere kan ori fun ô

se você quer ter trabalho, pergunte primeiro para orí olhar para você

Bi o ba fífẹ kólé, bèèrè kan orí
bi o bá fifé colê, beere kan orí

se você quer conrtuir uma casa pergunte primeiro a ori

Bi o Ba fífẹ laya , bèèrè kan orí wò fún o
bi o bá fifé laiá, beere kan orí uô fun o
se você quer ter uma esposa, pergunte primeiro para or”i ver para você

Orí máse pẹ̀kun dé
orí máse kpé kun dê

orí não deixe de vir para cá

Lọ̀dọ̀ rẹ èmi nbọ̀
lódó ré emí unbó

é para a sua presença que eu estou indo

Wá saye mi di rere
uá xaiê mi di rerê

Venha e faça minha vida ser melhor


Retirado de ògúndá méjì

ori pẹ̀lẹ́!
Orí kpélé
 Ori!

Atètè ni rán
atete ni ran
aquele que atende rapidamente

atètè gbà mi
atete gbá mi
aquele que rapidamente me socorre

Ẹ súre fún mi níwájú àwọn Orixá (Òrìṣà)
é surê fun mi niuajú auón orixá
Você me abençoa antes de todos os Orixá (Òrìṣà)

Kò sí Orixá (Òrìṣà) le yín emi bi ori ba kó jẹ́
kô si orixá le i in emi bi ori bá kô jé
nenhum Orixá (Òrìṣà) pode me abençoar se orí não permitir.

ori pẹ̀lẹ́!
Orí kpélé

Ori!

Orí àìkú
orí aikú
ori imortal

ẹni tí orí rẹ gbà bọ rẹ ó jú yọ̀
éni ti rí ré gbá bó ré ô ju ió
aquele que o ori aceitar a a oferenda estará muito agradecido


Para lavar a cabeça

Lọwọ Ọtún awo ẹ̀gbá
lóuó ótun auô égbá
Na mão direita o adivinho de egba

Lọwọ òsì awo igbara
lóuó osi auo igbárá
Na mão esquerda o adivinho de igbara

awa máṣàì ìmọ̀
auá máxáí ímón
nós não podemos falhar em saber

bọ́ ọtún fi ọtún
bó ótun fi ótún
lavar o lado direito da cabeça com a direirta

tabi bọ́ òsì fi òsì
tábi bó osí fi osí
e lavar o lado esquerdo com a esquerda

A Difá fún Awun ni ọjọ́ ó ti lọ bọ́ orí rẹ
a difá fun au un ni ójó ô ti ló bó orí ré
Ifa foi consultado no dia que Awun foi lavar sua cabeça

lodó fún ó kó ire ọ̀pọ̀
lodô fun ô kô irê ókpó
no rio para que reunir as bençãos da fartura

Ki iwẹ́ fà wá ire owó
ki iu é fá uá irê ouô
que a limpeza traga as bem;ãos da prosperidade

Ki iwẹ́ fà wá ire ọ̀rọ̀
ki iu é fá uá irê óró
que a limpeza traga as bençãos da saúde



O sentido de “alimentar” o seu Orí


Alimento é vida. Uma refeição é uma dádiva e uma festa. Os Yorùbá são um povo do campo, fazendeiros e dão muito valor a vida a ao alimento e a água que são tão difícil de serem obtidos. Cada povo dá valor ao que lhe é importante e caro. Para os Yorùbá, a água e o alimento são muito importantes.

Mesmo para nós, quando queremos receber bem alguém sempre fazemos isso com alimento e bebida. A religião deles e sua teologia não é artificial, não foi criada em um concílio, ela existe permeando toda a sua vida e existência, assim, os Yorùbá agradam seu deus e todos os seus ministros e representantes com alimento. Flores não são uma opção para eles, alimento sim, é seu bem maior.

Eles comemoram a vida com alimento, dando, dividindo e compartilhando.

De acordo com a religião Yorùbá, axé (aṣẹ́) é a força vital de Olódùmarè que existe em todos os seres. Todos possuímos axé (aṣẹ́) e é o axé (aṣẹ́) que nos move. Mas esta força é consumida. Com o tempo e em função de atividades que fazemos ela se reduz e nos desequilibramos. Naturalmente, com o próprio tempo ela será regenerada, mas enquanto estiver fraca ou em desequilíbrio nós ficamos vulneráveis.

Um bom Orí é aquele que preserva e mantêm o axé (aṣẹ́), é aquele que usa apenas o necessário sem desperdício. Um mau Orí é aquele que não conserva e acumula o axé (aṣẹ́). Infelizmente, como vamos ver no Cosmo Yorùbá, existe um fator de aleatoriedade na escolha do Ori no Órun (ọ̀run). Isso também está explicado no Odù Ogunda Meji na história de Afawupé. Dessa maneira podemos vir com um Orí ruim e necessitamos de repor esse axé (aṣẹ́).

Contudo um bom Orí não resume uma boa pessoa. Somente pessoas que tenham um bom Orí e um bom caráter serão bem sucedidas na sua vida.

Mas mesmo para os que tem um bom Orí pode ser necessário em determinado momento alimentar o seu Orí com axé (aṣẹ́). Também por vezes é necessário melhorar o vínculo entre nós e nossa divindade Orí que esta no Órun (ọ̀run). A liturgia que realiza isso chama-se bórí (bọ́rí) palavra que é composta pelo verbo bọ́ com orí, ou seja alimentar o ori. Existe uma outra palavra Yorùbá, bórí (bôrí) que significa cobrir a cabeça. Bori, que significa alimentar o Orí.

O orí deve ser “alimentado” (na verdade, com axé (aṣẹ́)) para que possa influenciar positivamente a nossa vida. O sentido é a reposição do axé, a energia vital que usamos para fazer tudo. Com o axé (àṣẹ) nós nos conectamos com o Orí divino, nosso “anjo” guardião, que esta no órun (Ọ̀run). O alimento ao Orí vai então repor o axé (àṣẹ) e facilitar a comunicação e influencia do Orí do órun (Ọ̀run) com o nosso Orí no Aiyé.

O longo de nossa vida devemos fazer bórí (bọ́rí) muitas vezes. Algumas pessoa podem precisar disso uma vez por ano, outras em intervalo de anos, entre 2 e quatro anos.

A dificuldade disso é o maldito mercantilismo religioso do Candomblé. No Candomblé nada é de graça e pais de santo cobram pequenas fortunas para fazer algo que deveria ser obrigação deles, principalmente para as pessoas que pertencem a uma casa.

Eu, considero um absurdo os Babalorixás (pais de santo) cobrarem para os membros de uma casa como cobram para seus clientes. Eu acho um absurdo o conceito de clientela no Candomblé. Este conceito existe e não se pode negar, mas é um pejorativo para a religião.

Se quer ter acesso ao Candomblé, a religião dos orixá (Òrìṣà), então adote ela como religião. Entre para uma casa. Mas os pais de santo tratam suas casas como balcão de padaria, atendendo pessoas para jogos de búzios, ebós e Boris como se isso fosse uma coisa para ser vendida, como um pãozinho. Bom, de fato como uma picanha, uma M.Chandom....

Os pais de santo tratam seus seguidores como clientes. Na realidade eles transformam clientes em seguidores, membros da casa apenas para terem uma fonte estável de receita.

O Bori virou então a “obrigação” da moda, sofrendo todo o tipo de distorções. Um bori não tem que ser nada caro e nem nada exagerado, tem que ser algo que as pessoas possam fazer.

Os Bàbáláwo também estão fazendo Bori, mas, é uma cerimonia muito pobre. Eu nem considero o que eles fazem um Bori e nem perderia tempo com aquilo. 


Como “alimentar” o seu Orí


Existem variações em relação a cerimônia de alimentar o Ori. Temos procedimentos mais simples e um procedimento mais elaborado.

Antes disso devo fazer um comentário sobre a perspectiva de Ori dentro do Candomblé. Orí é um conceito Yorùbá, da religião Yorùbá. O Candomblé é heterogêneo, sendo formado por nações da religião Yorùbá, como o Ketu e o Efon, nações da religião Jeje e nações da religião angola.

O conceito de ori pertence a religião Yorùbá e foi copiado ou imitado pelas outras. Assim, o modelo original Yorùbá é o que é a referência. Possivelmente você encontrará gente que diz que no Jeje não é assim ou não se faz assim, o mesmo com o angola. Claro, essas nações copiaram uma coisa que eles não tinham. Dessa forma é perda de tempo querer discutir Orí entre o modelo Yorùbá e os demais, os outros são cópias.

Cada um copiou do seu jeito. O Angola copiou tudo do Ketu. Eles não tinham nenhum Candomblé, nunca tiveram, angola é Bantu e bantu tinha a macumba e a quimbanda. O que existe de Candomblé de angola aqui no Brasil só existe aqui, na África não tem nada parecido. O Jeje tem um hábito comum de agregar coisas dos outros do culto deles, assim adicionaram Orixás que não tinha (as iyagbas), Orí, Ifá, etc...

Voltando ao Ori, as cerimônias mais simples são aquelas que lidam apenas com o Orí no Aiye. Ela são feitas exclusivamente na cabeça da pessoa. Estas cerimônias menores  podem incluir apenas lavar a cabeça com ervas e as que você oferece mais alguns ítens ao seu Ori, como Obi, karité, acaça, orogbo, etc.. e até mesmo realizar sacrifícios no Ori, notadamente pombos, mas outros podem ser incluídos. Mas esta cerimônia é feita apenas na sua cabeça, não envolve a ligação Orun-Aiye. É útil para diversos casos, pode ser o suficiente mas não é um Bori. 

Essas cerimonias, são legítimas, determinadas em Oráculo e quando feitas somente com o Orí do Aiye tem um efeito restrito. São muito eficientes e mais simples de serem realizadas. 

Outras tradições da diáspora como a Santeria e até mesmo Ifá fazem somente dessa forma. É natural, essas tradições nunca souberam lidar com Ori, não entendem de fato o culto a Orí, elas apenas copiaram o que outros faziam sem entender completamente.

Dessa forma a cerimônia de Bori feita pelos Bàbáláwo de rama cubana, usando ou não pombos, são um Bori. Mas um Bori simples, de poucas horas, não se comparam minimamente com um Bori completo como feito no Candomblé Yorùbá.

O Bori completo é feito com um Igba Ori, que é a representação no Aiye do Ori do Órun. Esse Bori estabelece a ligação plena do Orun-Aiye. A cabeça da pessoa é seu Ori no Aiye e o igba Ori constitui a representação do Ori do orun no aiye. Os sacrifícios são dobrados, tudo o que é dado ao Orí da pessoa também é dado ao Igba Ori. O Igba Orí pode ser guardado ou não, mas, ele tem que existir durante a cerimônia.

A Cerimônia completa, o Bori em sí é um ritual que pode durar entre 3 a 7 dias e envolve várias pessoas na sua preparação e execução. É composto de ebós de limpeza, oferendas preparatórias, o Bori e por fim o despacho de tudo isso nas águas. Essa cerimônia envolve você e também a ligação com o seu duplo no Orun.

Essas cerimonias exigem um sacerdote, a pessoa não pode fazer nela mesma.

Se você estiver pagando por um Bori, não adianta comparar banana com maça. A cerimônia de Ifá dos Bàbáláwo cubano é muito simples e restrita na questão de reposição de axé (aṣẹ́). Ela é indicada para muitos casos mas não dá para comparar com um Bori completo de Candomblé.

Vou a seguir dar uma receita muito simples que pode ser feita por qualquer pessoa, não é um Bori, é uma cerimônia do tipo simples que envolve apenas você e não a ligação Orun-Aiye. Muitos podem reagir considerando uma idiotice ou marmotagem minha ensinar pessoas a alimentarem o seu Ori porque isso exige um sacerdote.

Não exige.

Sem dúvida exitem muitas liturgias que exigem um sacerdote, principalmente aquelas que requerem a manipulação de axé (aṣẹ́). A presença de uma pessoa preparada é necessária quando se tem que receber axé (aṣẹ́) transmitido por outras pessoas, ou quando se vai fazer um Ebó (Ẹbọ) de limpeza, por exemplo. O sacerdote é um “operador” qualificado para esta operação.

Contudo se você vai fazer uma oferenda ou mesmo alguns tipos de ebós pode até mesmo fazer sozinho. Nem tudo depende de ter um sacerdote.

No caso do Bori, como estamos lidando com um processo de reposição de axé (aṣẹ́) e muito íntimo de sua individualidade não vejo porque não tentar fazê-lo. Claro que receber o Bori feito por outra pessoa é muito bom, principalmente se feito com cuidado e preparação. Uma cerimonia de Bori exige pelo menos 24 horas de permanência no Ile Axé, desde o início até o fim. Não é raro que sejam feitos em 3 ou 7 dias. Essas liturgias são reposições intensivas de axé, “axé na veia”.

Mas, mesmo sem toda essa complexidade você pode fazer isso para você. Algumas restrições se aplicam. Isso é para ser feito por pessoas que sejam iniciadas ou que já tenham recebido Bori, de preferência que no mínimo sejam ou tenham sido abians de alguma casa. Tem que haver intimidade com os procedimentos e com o orixá (Òrìṣà).

Não faça isso em outras pessoas ou ajude outras pessoas se você não é um sacerdote qualificado para tal. Uma coisa é a própria pessoa fazer em si mesmo outra é você, despreparado participar disso.

É claro que fazer isso através de um sacerdote é muito melhor por ser uma pessoa que recebeu orientação e axé (àṣẹ) para isso, mas a religião também é para todos. Contudo de fato fazer isso requer alguma prática e pessoas que nunca viram ou fizeram esse tipo de comida podem ter dificuldade. Infelizmente é assim mesmo.

Tudo nessa religião tem significado, assim, não ignore materiais e indicações de uso.

Material necessário:

Esteira baiana

pano de cabeça com capuz

manteiga de karité

obi de 4 gomos (rosado)

2 lençóis

coco verde

água mineral

2 bacias de ágata

ervas frescas: manjericão, elevante, saião, colônia, macaçá


Preparação:

Lave as ervas frescas, separe as folhas e quine as folhas com agua até que sobre apenas uma “massa” de folhas masseradas. Faça isso em uma bacia branca de ágata. De fato, isso requer alguma prática. Separe 4 folhas de saião inteiras e coloque em uma vasilha com água.

Deixe o banho nessa bacia por algum tempo. Depois coe todas as folhas deixando somente a água. As folhas devem ser despachadas no mato.

Separe um lugar para fazer isso que seja limpo, isolado e tranquilo.

Coloque a esteira baiana e cubra com lençol branco. Coloque o Obi dentro de uma vasilha com água. Deixe ao alcance a manteiga de karité e as folhas de saião. Coloque a bacia não usada na sua frente e se ajoelhe diante dela. Reze para Ori.

Lave primeiro a sua cabeça com água mineral. Apenas jogue a água por toda a cabeça e deixe escorrer para a bacia que fica abaixo deu sua cabeça (você está ajoelhado, em cima da esteira com a bacia a sua frente, abaixo de sua cabeça.).

Abra o coco verde e faça a mesma coisa, deixe a água do coco escorrer por toda a cabeça lavando-a. Por fim derrame o banho de ervas vagarosamente, escorrendo o banho com as mãos e lavando toda a cabeça. Use a reza de lavar a cabeça, reze ela enquanto faz isso.

Espera a água escorrer toda, limpe o excesso em seu rosto e pescoço com uma toalha, mas não enxugue sua cabeça.

Abra o obi de 4 gomos, separando todos os gomos. Retire o “olho” que fica nos gomos. Pegue a manteiga de Karité e faça um montinho em cima sua cabeça. Afaste o cabelo e coloque ela em contato com o couro cabeludo. Coloque os gomos do Obi em cima da manteiga, um gomo em cada lado. Cubra isso tudo com a 4 folhas de saião e coloque o pano de cabeça com capuz por cima disso tudo tampando a sua cabeça. Prenda o pano de cabeça (isso também requer alguma prática....).

Observe você deve fazer isso sozinho.

Durma na esteira (pode usar um travesseiro) por pelo menos 3 horas mas recomendo passar toda a noite. Quando levantar retire o pano com tudo o que está na sua cabeça. Esse material deve ser despachado em agua limpa, de rio, nunca jogue na rua, no lixo ou no mar.

Pode tomar banho normal lavando a cabeça. Não tome sol na cabeça até o meio dia. Na noite que fizer isso você não sai de casa.

Observem que este é o procedimento mais simplificado possível. Somente faça quem se sentir à vontade para isso. É claro que quem sabe e tem prática consegue fazer com facilidade e um sacerdote faz isso com mais complexidade, adicionando comidas para o Orí.

Mas eu apenas quis mostrar que não precisa ser complicado, por ser simples.