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terça-feira, março 02, 2021

A família que recebe as crianças do egbé (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run) [ Entendendo a religião Yoruba - Pt. 49]

 texto anterior:  A origem dos Abiku

 

 

A família que recebe as crianças do egbé (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run) 

 

A família que está recebendo a criança vindo pelo Orixá (Òrìṣà) do egbé (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run), tem a missão divina de manter esse espírito, anteriormente maltratado, no Àiyé, trazendo-o para a sua linhagem familiar. Toda as crianças vindas de Orixá (Òrìṣà), que estavam no Ìrònà vão requerer muita atenção das famílias que as recebem e esse é a minha principal mensagem aqui.

Não quero tratar apenas dos Àbíkú e muito menos tratar eles como um mal teológico. Os Àbíkú são vítimas. Quero tratar aqui de todas os espíritos que vão para o Ìrònà e voltam a renascer.

Ao receber uma criança vinda de Orixá (Òrìṣà), a família tratará sempre de um egbé (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run). Saber essa situação com antecedência facilita muito o trabalho que deve ser feito e o oráculo de Ifá oferece às famílias essa possibilidade. Alerto que as religiões não são estanques, o que existe é um único deus e um único supernatural. Cada religião encontrou entendimento desigual e uma forma própria (associada a cultura onde a religião foi criada) de explicar isso para as pessoas. Não conhecer a existência de uma determinada situação, porque não teve essa fonte de informação, não nos imuniza de tratar as situações. Assim sendo, qualquer pessoa na face da terra, nos bilhões de habitantes, poderá passar por essa situação. Como eu disse, fica mais fácil quando a gente reconhece a situação.

Os Àbíkú exigem uma atenção muito especial, porque eles vão nascer e querem morrer para voltar ao Ìrònà. Manter um Àbíkú não será somente através de carinho, amor e atenção, será também através do supernatural, através de Ifá. Mas junto com isso, com a atuação através do supernatural, esse espírito também tem que se sentir amado, desejado e querido, para que ele mude de idéia e seus companheiros do egbe (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run) o deixem em paz. A presença da criança tem que ser importante para aquela família que terá que se esforçar muito mais para manter o Àbíkú no Àiyé. Não será apenas um processo de magia, também será a própria família desejando isso.

O Salami é um Bàbáláwo de família tradicional entre os yorùbá, ele diz aquilo que a família dele ensina. O relato que ele fez da criança Àbíkú, no qual os pais mutilavam a criança para marcar o Àbíkú e, a cada renascimento, o tratavam de forma pior, reflete bem o pensamento e entendimento da maior parte dos yorùbá sobre o tema. Eles perderam o conhecimento da religião e da teologia, eles fazem uma religião baseada no que os antropólogos escrevem nos livros. Só que a religião deles é densa demais e complexa demais para eles procederem assim. Eles lá, na terra deles, estão preocupados em fazer ebó (ẹbọ) para os estrangeiros.

O relato dele, Salami, que eu citei, não envolveu, de fato, um Bàbáláwo, ele relatou o que a família fazia a respeito da situação, ele contou uma história, mas, de nenhuma maneira, em seu relato, ele mostrou, crítica, alternativa ou qualquer outro ponto de vista sobre o mesmo assunto. Me pareceu que, para ele, é aquilo mesmo. O Cuoco, por sua vez, mostrou os mitos, mas, comenta sua opinião, que eu destaquei, que os Àbíkú não são o mal. É isso, essa religião precisa de abordagem religiosa, inteligente e com bom senso.

Os Àbíkú são assim, de fato, um caso agudo que precisa ser tratado com amor pela família e com ajuda de um Bàbáláwo. Senão será difícil mantê-los. Eles são casos extremos.

Mas, a maior parte dos casos de crianças vindas do egbe (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run), é de não Àbíkú e para eles eu volto agora a minha atenção.

Receber um egbe (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run), uma criança de Orixá (Òrìṣà), requer muitos cuidados. Informo que essas pessoas que recebem uma criança de Orixá (Òrìṣà) é porque foram pedir a Orixá (Òrìṣà) para ter um filho.

Um dos casos mais comuns que aparecem para os Bàbáláwo são as mulheres que querem ter filhos e não conseguem. Isso é um caso comum em nossa sociedade, existem causas que as vezes a medicina explica e outras que não tem nenhuma explicação decente. A medicina não tem esse compromisso de ser assertiva, mais do que crer nas religiões tradicionais, hoje em dia, crer na medicina é outra religião. Você tem que acreditar em todo o tipo de imprecisão e ainda achar que é ciência.

Mesmo os casais que recorrem a inseminação artificial, podem ter dificuldade nesse processo de fertilidade. Esta religião explica aos Bàbáláwo que existem motivos ligados ao supernatural, como maldições, feitiços, pragas-de-barriga e também pessoas que vieram ao mundo para não ter filhos. Fez parte da sua preparação, dos seus objetivos, por exemplo, não ser pai ou mãe. Assim, nesses casos, mesmo que agora queiram vai existir uma causa superveniente que os impede e, para mudar isso, esse destino ou essa maldição, alguma coisa terá que ser feita em termo de magia e através de Orixá (Òrìṣà), porque essas são condições que foram criadas aqui no Àiyé.

Falo isso com essa certeza porque eu já lidei com muitos desses casos, assim como lidei com vários casos de egbe (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run) e Àbíkú. Eu não falo aqui porque eu li isso em algum livro de antropólogo, é o contrário, minha prática, meu destino (meu signo de iniciação) como Bàbáláwo me levou a ter esta experiência e sou eu que estou aqui descrevendo o conhecimento e experiência que adquiri.

No processo de reversão dessas situações de não gravidez, podemos encontrar uma causa simples, como uma coisa do corpo ou uma negatividade, feitiço, maldição ou atuação de ajé (Àjẹ́) que serão removidas com o trabalho do Bàbáláwo no seu ópon Ifá (Ọpọ́n Ifá). Mas podemos também ter essa origem mais complicada, que veio do próprio órun (Ọ̀run) e não foi gerado no Àiyé. Tudo que vem do órun (Ọ̀run) é complicado, tudo o que vem do próprio Àiyé é mais simples.

Para esses casos mais complicado não bastam os ebós e sacrifícios, a pessoa tem que estar complemente comprometida e cerimônias especiais, encenações, não apenas ebós, usamos liturgias tradicionais da sociedade yorùbá, envolvendo Orixá (Òrìṣà) especiais para isso. Liturgias serão feitas para “encenar” essa decisão e essa mudança de resolução de modo que aquilo que veio do órun (Ọ̀run) possa ser modificado, junto com a profunda manifestação do desejo da pessoa, vindo de sua alma e com a imprescindível interveniência de um Orixá (Òrìṣà). Um dos rituais para isso é chamado de Ìgbàjá.

Na religião yorùbá temos toda uma categoria de Orixá (Òrìṣà) que são comprometidos com esse trabalho de trazer os filhos e lidar com o egbé (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run). São os Orixá (Òrìṣà) Ọlọ́mọwẹ́wẹ́. Não é apenas um Orixá (Òrìṣà), são vários que entram nesse grupo. O culto de Gélede (Gẹ̀lẹ̀dẹ́), tão cercado de mistério aqui no Brasil, apenas por desconhecimento, é orientado para isso, para dar filhos as mulheres e mantê-los vivos. O culto Gélede (Gẹ̀lẹ̀dẹ́) está diretamente ligado ao egbé (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run). A ligação do culto de Gélede (Gẹ̀lẹ̀dẹ́) com ajé (Àjẹ́) é apenas porque ajé (Àjẹ́) é uma das principais causas de esterilidade feminina, de não fertilidade e cabe ao culto de Gélede (Gẹ̀lẹ̀dẹ́), a Ìyá Nlá, aplacar essa causa.

A interferência do Orixá (Òrìṣà) para essas questões de fertilidade que vêm do órun (Ọ̀run), os motivos “O ti órun (Ọ̀run) wá (Otọ́runwá)”, é essencial. Para atender ao pedido de ter filho, o Orixá (Òrìṣà) vai ao Ìrònà e traz uma dessas crianças, desses espíritos em sua natureza infantil ainda, para renascerem nessas famílias que pedem para eles. Assim a pessoa pede o filho ao Orixá (Òrìṣà), o Orixá (Òrìṣà) vai atender, mas, vai buscar uma criança do egbé (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run).

As crianças selecionadas poderão ser uma que se transforme em um Àbíkú ou não, não importa, uma vez que o Orixá (Òrìṣà) defina cabe a família recebê-lo. Lidar com o caso de Àbíkú será uma missão da família e existem outros Orixá (Òrìṣà) específicos para lidar com essa situação. Eu não acredito que uma família não lide com um caso de Àbíkú sem algum motivo relevante para isso. Um caso típico de Àbíkú, poderá ser o de mães que, por exemplo abortaram, como uma forma de rejeição à criança que ia nascer e o Orixá (Òrìṣà) traz essa mesma criança para a mãe.

Veja, o fato de ter abortado não implica em Àbíkú e muito menos traz o chamado “carrego de Àbíkú” para a família. Eu sempre entendi isso dessa forma e mantenho esse pensamento, esse modelo proposto por mim acomoda tranquilamente esta situação. Abortos naturais ou acidentais não são motivos de rejeição, eles simplesmente ocorrem. Pode ser que o espírito que ia nascer volte ao órun (Ọ̀run) ou fique no próprio Ìrònà aguardando a próxima oportunidade de renascer.

Nem todo aborto provocado também gerará esse sentimento de rejeição. Como eu expliquei não é automático a rejeição, quem se sente rejeitado é o espírito que ia nascer e as circunstâncias que levaram ao aborto, como mal-formação, doenças congênitas ou mesmo estupros, podem gerar no espírito que ia nascer a compreensão das razões e ele então aguardará a sua nova oportunidade.

No modelo que eu estou explicando o Àbíkú é causado pelo próprio espírito ele se transforma no tipo Àbíkú porque isso, essa rejeição a nascer e a vontade de querer ficar com seus companheiros surge nele. Inicialmente no Ìrònà ele pode não ter esse tipo de opção, mas, com o passar do tempo, por exemplo isso pode nascer nele. Vamos dizer que uma mulher aborte porque quis, algum motivo, o espírito fica no Ìrònà e com o passar do tempo, talvez anos esperando o renascimento que não vêm ele passe a rejeitar o renascimento. O que estou dizendo é que, sim, não temos uma regra, temos uma situação aleatória, probabilística na qual poderá ou não haver a ocorrência do Àbíkú. Não estou forçando nenhuma explicação, o que estou dizendo é uma coisa natural. Desta forma passamos a suporte nesse modelo o mundo real, no qual a ocorrência de Àbíkú é aleatória e não segue nenhuma regra, por mais que as pessoas tentem simplificar isso. É de fato complexo e por isso mesmo as pessoas não entendem. Veja, é complexo porque se busca as causas erradas. Como eu citei, aplicando a Lâmina de Occan, simplificamos tudo e obtemos a melhor explicação para esta situação.

quarta-feira, fevereiro 17, 2021

A origem dos Àbíkú, quem são eles? Como surgem? [ Entendendo a religião Yoruba - Pt. 48]

 texto anterior:  Os demais espíritos do egbé (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run))

 

 

A origem dos Àbíkú, quem são eles?

 

Neste ponto podemos, finalmente, abordar a trágica origem dos Àbíkú. Sem as informações anteriores isso ficaria muito complicado.

O que ocorre é que, como explicado, esses espíritos infantis que compõem o egbé (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run) perdem o vínculo com suas famílias devido a rejeição e guardam a memória do sofrimento e da rejeição. Uma das coisas que os espíritos que estão no Ìrònà não passam é pela árvore do esquecimento, porque a árvore do esquecimento surge quando os espíritos vão do órun (Ọ̀run) para o Àiyé. Mas os espíritos que vão do Àiyé para o Ìrònà não passam por ela.

O esquecimento das vidas anteriores e o nascimento com suas lembranças limpas é uma das coisas maravilhosas do nascimento, que possibilita a você viver de fato uma nova vida. Sem isso você traria para cada vida as dores ou rancores das vidas anteriores e isso o impediria de buscar novos caminhos. Eu já vi isso em algumas religiões orientais, esse conceito do esquecimento.

Nesse ponto, abro um parêntese para falar dos kardecistas que creem que carregamos o “karma” para as vidas seguintes. Esse conceito é rejeitado por mim. É um absurdo teológico que influenciam muito mal as pessoas que acreditam nisso. Isso é viver olhando o retrovisor e trazer para cada nova vida os problemas e erros das anteriores, seja porque são lembrados ou porque se paga por eles, mudando o destino desta vida. Esse conceito é estúpido. Fecha o parêntese.

Para os yorùbá, segundo Salami, Ifá nos ensina que cada pessoa toca na árvore chamada Igi igbàgbé ou a árvore da perda da memória. Isso é explicado no Odù Ìròsùn Méjì. Tocar na árvore é uma metáfora claro, os yorùbá gostam muito de árvores. Os chineses tem uma deusa chamada Meng Po, que é uma divindade feminina cuja tarefa consiste em preparar as almas para entrem no ciclo da reencarnação. Tendo purgado-as de todo conhecimento prévio, o espírito é enviado para renascer em uma nova vida. A poção de Meng Po é feita de ervas do mundo humano e é conhecida como “os cinco sabores do esquecimento”: doce, amargo, azedo, ácido e salgado. Quem for reencarnar, deverá beber a poção, que produzirá na pessoa amnésia instantânea, apagando toda lembrança de vidas passadas. Diz-se que a poção de Meng Po pode apagar a memória dos acontecimentos passados, e é por isto que as pessoas vêm a este mundo sem nenhuma lembrança de suas vidas anteriores no mundo humano.

Devemos entender que as vezes nem toda a memória é apagada, pode ficar uma memória residual e isso explica os gênios infantis, crianças que nascem com habilidades extremas. A mesma mitologia chinesa da deusa Meng Po também prevê essa situação.

Mas a árvore de Igi igbàgbé é que permite o renascimento com as páginas do livro em branco, possibilitando que a gente escreva a cada vida um novo livro sem carregar remorsos, ressentimentos, erros e raivas do passado.,

Os espíritos do egbe (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run), que estão no Ìrònà não passam por isso e desta forma eles guardam com eles, no seu espírito, essa memória da vida anterior.

No Ìrònà, com a convivência com os seus companheiros de Ìrònà, de estadia, eles desenvolvem novos laços familiares dentro do egbe (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run). Como eles perderam as famílias, foram rejeitados e machucados, seus companheiros de egbe (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run) se tornam sua nova família. Essa nova família será de amigos, companheiros, camaradas, justamente o conceito que é extensivamente traduzido para o egbe (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run). Só que não são os camaradas do órun (Ọ̀run), não são nossos amigos que deixamos no órun (Ọ̀run), são os amigos que temos ou deixamos no Ìrònà.

Esses companheiros, todos, compartilham do mesmo sentimento de rejeição, da mesma violência que sofreram pela rejeição e eles criarão nessa nova convivência um vínculo muito especial de amor, compreensão e proteção.

Mas, eles não podem ficar o resto de sua existência no Ìrònà, merecem uma nova chance. Eles não estão abandonados no Ìrònà. Os Orixá (Òrìṣà) estão com eles. Quando um Orixá (Òrìṣà) decide que é hora de um deles renascer, haverá um conflito interno em alguns deles com essa definição de renascimento, porque alguns desses espíritos podem não querem voltar a essa vida no Àiyé, principalmente os que guardam a memória dos maiores sofrimentos e perdas. Eles guardam esse sofrimento, não querem de novo passar por isso e querem se manter na segurança de sua nova família os seus, bons, camaradas no egbe (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run) até voltarem para o órun (Ọ̀run).

Isso não ocorre com todos do egbé (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run), uma parte apenas desenvolve essa reação e são esses que se transformam nos Àbíkú. Apesar dos Orixá (Òrìṣà) os designarem para renascer, eles farão de tudo para voltar para os seus amigos no Ìrònà, e é nesse ponto que os mitos que eu mencionei que estão na religião Yorùbá.

Os mitos do Salami e do Cuoco (mais completo) detalham o comportamento dos Àbíkú que são este tipo especial de espíritos.

Desta maneira, fechando essa explicação sem delongas porque entendo que já está mais do que claro a nova proposta para os Àbíkú. O que estou fazendo aqui é estabelecer um modelo simples e mais amplo, mais útil, que é mais facilmente aplicável e mais relacionado com nós mesmos e que cobre toda uma série de intercorrência de nascimento. O meu modelo teológico explica o Ìrònà, explica o nascimento das crianças trazidas por Orixá (Òrìṣà) e explica o comportamento humano dos Àbíkú. Nesse modelo eu saio dos dogmas e das explicações bizarras, eu aplico a Lâmina de Occam (princípio filosófico de simplicidade) e cubro todas as situações através de reações humanas normais. Tenho certeza que qualquer um aqui entenderia perfeitamente as razões que transformam um espírito em um Àbíkú.

Não se trata de ódio a família que o recebe, não se trata de punição se trata de medo ou rejeição. Medo de renascer e passar por tudo de novo, o sofrimento que não foi esquecido ou de rejeição, por não querer voltar a quem já o rejeitou.

Podemos inclusive ter o caso de um Àbíkú que retorne à própria família que o rejeitou e por essa razão, por guardar esse rancor de sofrimento, de ressentimento ele se recuse a renascer trazendo para aquela família tanto sofrimento.

Em Ifá temos um enorme repertório de casos para justificar isso. Encontramos mães que rejeitaram a gravidez de forma agressiva, que praguejaram o filho, tentaram o aborto várias vezes com sofrimentos, abortaram várias vezes e um bom número de casos que justificam o ressentimento.

Esses são os sentimentos que norteiam o comportamento dos Àbíkú. Comportamentos humanos e previsíveis.

Àbíkú são vítimas.

 

sexta-feira, fevereiro 12, 2021

Os demais espíritos do egbé (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run) - [ Entendendo a religião Yoruba - Pt. 47]

texto anterior:  O que é a sociedade egbé (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run)

 

 

Os demais espíritos do egbé (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run)

 

É acreditar demais em coincidências imaginarmos que os Eré não façam parte do mesmo grupo dos egbé (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run), assim, temos que aplicar a lâmina de Occam (conceito filosófico) e entender que o mais simples e lógico é o correto e, desta forma, os Eré certamente pertencem ao mesmo grupo de espíritos que ficam no Ìrònà e formam, também o egbe (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run).

Os Eré são, assim, uma parte deste grupo. Nós no Candomblé usamos a denominação Eré para os espíritos que são usados pelos Orixá (Òrìṣà), escolhidos por eles, para servir de ponte entre o órun (Ọ̀run) e o Àiyé. Os Àbíkú também saem do mesmo grupo do egbé (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run), assim, é natural entendermos que, temos mais espíritos disponíveis no egbé (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run) do que somente os cobertos por essas 2 classificações, bem como, não é correto supor que todos os espíritos do egbé (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run) sejam Eré ou se transformem em Àbíkú.

Para dar mais informação e complexidade a essa questão vou adicionar um terceiro tipo de classificação que também pode ser usada para os espíritos do egbe (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run), e desta vez um tipo muito importante que vai fechar o entendimento desta questão, que são as crianças trazidas para o nascimento pelos Orixá (Òrìṣà).

Como eu disse no início, entender o egbé (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run) não foi fácil, ninguém tem isso pronto. Eu tive que juntar peças desse quebra-cabeça e, para isso, juntei informações de Bàbáláwo em livros, coisas que li em versos, minha experiência no Candomblé, minha experiência em ifá e um trabalho de campo, junto a esses espíritos.

Em ifá existem 2 cerimônias de nascimento, uma chamada Ikọsẹwaye e a outra chamada Imorí. A primeira tem a finalidade de determinar o Odù de nascimento de uma criança recém-nascida, só pode ser feita até o oitavo dia de nascimento. A segunda realizada até o terceiro mês, apenas, é usada para estabilizar o espírito no corpo, determinar a origem familiar e o Orixá (Òrìṣà) de nascença. Ambas são muito importantes para qualquer nascido e devem ser feitas.

Na cerimônia de Imorí existem 3 origens familiares para um espírito renascido. Ele pode ter vindo da linhagem paterna, da linhagem materna ou vindo de Orixá (Òrìṣà). Essa terceira via é a mais importante nessa nossa conversa aqui, Ifá me mostrou que existem espíritos que podem ser inseridos nas famílias trazidos por Orixá (Òrìṣà).

O que seria isso?

Antes de explicar, mais uma nota de atenção. Esse texto é muito denso, são muitas informações. Junto com a questão da localização, da composição esta questão da origem do nascimento através de Orixá (Òrìṣà) é determinando para entender o egbé (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run). Eu só consegui evoluir nesse assunto quando em Ifá aprendi isso e quando estudei as cerimônias de nascimento. Sem entender essa origem de Orixá (Òrìṣà) de fato a pessoa não vai entender o egbé (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run).

Continuando, uma das situações que eu entendia para esta origem de Orixá (Òrìṣà), era a de pessoas que após retornarem ao órun (Ọ̀run), tiveram uma avaliação ruim da vida por Olódùmarè, o julgamento final e por seus atos feitos na vida, tiveram alguma punição. Este é o julgamento de deus sobre nossa vida, um elemento importante nessa religião porque traz consequência e responsabilidade para o que fazemos. É uma das características que destaca a religião yorùbá de outros cultos africanos mais simples.

Uma das penalizações que esses espíritos podem ter é ficarem isolados por algum tempo em um dos 9 órun (Ọ̀run) e serem deslocados de sua linhagem familiar. Passam a ser espíritos solitários. Em algum momento eles terão nova chance de se integrar a uma linhagem familiar, diferente da sua e, desta maneira, nascerão em uma nova família.

Atenção, os 9 órun (Ọ̀run) que a religião define são parte do órun (Ọ̀run), estão localizados no órun (Ọ̀run) e não são partes do Ìrònà. O Ìrònà não é um desses 9 órun (Ọ̀run).

Ao ser isolado em um dos órun (Ọ̀run) de punição, o espírito sofrerá e pode até mesmo ser designado para renascer, por exemplo, como um animal, como parte desse sofrimento. Mas, sem dúvida, perder seus laços familiares é o pior castigo para os yorùbá, uma sociedade muito familiar.

Sabendo disso eu supunha que esses espíritos vindos de Orixá (Òrìṣà) tivessem essa origem. Seriam espíritos que foram punidos, perdendo sua linhagem familiar e precisam renascer em outra família. Para que isso possa ocorrer o Orixá (Òrìṣà) o traz para uma nova família.

Essa versão é verdadeira, mas não é a única verdade. Outros tipos de espíritos podem vir a ser integrados a uma nova família pelas mãos de um Orixá (Òrìṣà), mas não são essas almas punidas, são as crianças perdidas e rejeitadas pelos pais.

Esse é um caso muito triste.

Uma das partes do protocolo de nascimento é que, antes de vir ao Àiyé, nós determinamos o tempo que ficaremos aqui. Isso é escolhido por nós e declarado nos portões do órun (Ọ̀run) à Oníbodé, mas, antes disso já o fizemos a deus, Olódùmarè. Desta maneira ficaremos no Àiyé o tempo que, nós mesmos, escolhemos. Se morremos de forma natural, nossa volta ao órun (Ọ̀run) ocorre como esperado. Se morremos de um acidente ou incidente não previsto também ocorrerá, mas, se nos suicidarmos ou intencionalmente nos arriscarmos e provocarmos nossa morte, somos designados a ficar no Àiyé até o dia marcado para o retorno.

Esse mecanismo parece estranho e esquisito, mas é assim mesmo que é descrito. É uma metáfora ou um mecanismo metafísico estranho, sim é, mas diz diretamente para as pessoas darem valor as suas vidas porque se tratarem a vida com desprezo poderão ter uma consequência indesejada, bastante ruim. A religião yorùbá valoriza muito a vida.

Observem bem, se o modelo teológico e transcendente mostrasse que podemos renascer muitas vezes, que a vida no Àiyé é temporária e nossa casa é no órun (Ọ̀run) e estivéssemos livre para fazer o que quiser na vida, sem consequências e sem penalidades, o Àiyé seria na verdade um inferno com as pessoas podendo cometer quaisquer tipo de atos e indignidades.

É o julgamento de Olódùmarè que faz toda a diferença nisso, podemos renascer, vamos esquecer tudo no órun (Ọ̀run), nossa vida será um livro em branco que vamos ter o prazer, a alegria e aventura de escrever, mas essa é uma jornada com responsabilidades e consequências.

Nesse processo temos elementos importantes: o estabelecimento de objetivos para a vida e do prazo de vida e, mais do que tudo, o esquecimento de nossa origem anterior. É isso que nos fixa na necessidade de desenvolvermos o Ìwà e nos esforçarmos em nossa vida, caso contrário todo mundo que achasse que a vida estava chata se mataria para voltar e começar de novo a construção teológica não ficaria em pé. Essa “matrix” seria muito instável.

Se inserirmos nesse modelo as crianças que morrem nessa condição, como se tivessem procurado a morte, sido desleixadas com a vida, teremos mais um tipo de espírito, desta vez um espírito ainda na sua condição infantil mas que ficará destinado a ficar no Ìrònà. Muitos podem questionar que os espíritos não são infantis, que todo espírito é adulto, creio que isso é uma visão (idiota) que o kardecismo traz, mas, isso não é uma verdade. Se fosse assim, não teríamos crianças, nunca, teríamos adultos em corpos de crianças e não é isso o que ocorre. Não somos espíritos que fingem ser crianças. Os espíritos vem para o Àiyé totalmente desprovidos de conhecimento de vidas anteriores e nascem, sim, como crianças, tendo que evoluir e construir no Àiyé a sua personalidade e caráter, estando sujeitos neste processo a todo tipo de infortúnio. Somente quando voltarem ao órun (Ọ̀run) vão recuperar a consciência anterior.

A chave disso tudo é a chamada árvore do esquecimento (ver no capítulo, Entre dois mundos), sem ela a vida no Àiyé seria impossível no modelo atual. O que existe, sim, é o esquecimento do espírito de tudo o que ele sabia para poder construir tudo de novo.

Sem esse esquecimento esse desligamento de nossa consciência perene não poderíamos escrever a cada vida um novo capítulo nosso livro, não teríamos o prazer com as descobertas, com os novos prazeres, com as emoções, com o conhecimento e claro com as pessoas e a relação entre elas.

É claro que esse processo, como tudo, não é 100% e, imagino, que alguns espíritos nascem com parte do conhecimento anterior. Esses são os casos raros de prodígios, crianças que nascem sabendo de tudo ou avançadas em áreas de conhecimento que é impossível para uma criança normal, seja motora como intelectual.

Desta maneira se os espíritos morrem em sua fase infantil serão crianças sim. Essas crianças são incorporadas ao egbe (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run) e terão que ficar no Ìrònà com seus pares do egbe (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run) até o dia do seu retorno. Esse é o dogma da religião.

As crianças que tem morte natural, acidentes, doenças retornarão para o órun (Ọ̀run) onde serão recebidas por seus familiares e se prepararão, caso queiram e tenham a oportunidade para um novo renascimento.

Nesse conjunto cabe alertar para um tipo especial, as crianças de ciclo curto de vida. Não são Àbíkú, mas, são espíritos que escolheram ter um ciclo curto de vida, são aquelas que são acometidas de doenças graves na infância ou juventude ou algum momento da vida, mas, que não se tornaram adultos ou envelhecerão até o fim de sua existência natural. Não posso afirmar que todas os que morrem jovens de doenças raras ou graves, como o câncer sejam os espíritos de ciclo curto, não tenho elementos para afirmar isso. Mas, tenho elementos baseados em minha experiência como Bàbáláwo para afirmar que, as crianças de ciclo curto existem. Morrerão crianças ou jovens, mas, morrerão de forma planejada, aquela doença não foi apenas o acaso, elas trouxeram de nascença intencionalmente. A incidência disso é significativa em relação a essas crianças com doenças graves na infância.

Mais uma vez, nem todos que morrem jovens são esse caso, o nascimento e o corpo tem, sim, um elemento de aleatoriedade que pode determinar genes de doenças e o nosso próprio ambiente pode levar a isso.

O Bàbáláwo tem que ter a capacidade de entender e diferenciar todos esses casos. Cada caso tem um tratamento diferente e reverter a situação de pessoas de ciclo curto exige um grande esforço tão complicado ou PIOR do que os Àbíkú.

Um último tipo de espírito e também o mais importante e que na minha visão constitui o corpo principal do egbe (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run), é um tipo importante e muito triste, será o das crianças que foram rejeitadas pelos pais e morreram em função disso. Incluem-se nesse lamentável grupo, crianças mortas pelos pais, crianças que sofrem agressões paternas e maternas (de toda a natureza) e morrem devido a isso, crianças que se matam devido a essa rejeição e as famosas crianças abortadas.

Nessa infeliz categoria ficarão os espíritos que devido a rejeição que sofrerão, no Àiyé, se perdem de sua linhagem e não voltam para o órun (Ọ̀run), ficam no Ìrònà. Como eu disse os espíritos que morrem de forma natural ou sem culpa, normalmente serão resgatados pela família voltando para o órun (Ọ̀run). Mas, as vítimas de rejeição se perderão nesse retorno. Se ela é rejeitada pela família ficará no Àiyé, no Ìrònà até o dia de seu retorno final, que foi programado com Oníbodé.

O egbé (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run) é então formado em sua maioria no Ìrònà por esse infeliz grupo de espíritos. Os Eré fazem parte deste grupo de espíritos perdidos, por sua culpa ou por rejeição, como um subgrupo, mas eu achei importante destacá-los.

O que os Orixá (Òrìṣà) fazem é, numa demonstração de que Orixá (Òrìṣà) é amor e que deus é amor, usar esses espíritos, como os Eré, para que eles tenham propósito e finalidade e em determinado momento, que varia de acordo com a situação que levou para lá cada um deles, os Orixá (Òrìṣà) vão nesse grupo e escolhem um deles para renascer e, assim, voltar a uma linhagem familiar e apagar essa história ruim.

Por isso que no Imorí, cerimônia de Ifá feita entre o nascimento e o terceiro mês de nascido, podemos ter 3 origens, a família do pai, a família da mãe e trazido por Orixá (Òrìṣà).

Ninguém deve ficar frustrado porque a criança que recebeu não faz parte de sua linhagem, pelo contrário, essa pessoa está tendo a oportunidade de ouro de fazer a sua caridade para deus e receber nos seus braços um espírito maltratado e rejeitado. É uma missão importante e difícil.

 

Texto seguinte A origem dos Àbíkú, quem são eles?

quarta-feira, fevereiro 10, 2021

O que é a sociedade egbé (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run) - [ Entendendo a religião Yoruba - Pt. 46]

Texto anterior:  Como é a composição do egbe (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run)

 

 

O que é a sociedade egbé (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run)

 

 

Esta sociedade é composta de almas que, originalmente, saíram do órun (Ọ̀run) para nascerem no Àiyé, mas, que devido a um problema no curso de sua vida perdem o retorno para o órun (Ọ̀run) e vão para o Ìrònà. Esse grupo de espíritos, mais do que apenas camaradas, formam laços familiares entre eles que substituíram os laços familiares normais deles, que foram perdidos com a morte e a ida para o Ìrònà e desta forma eles são extremamente unidos. Unidos pela solidariedade.

A sociedade fica localizada no Ìrònà o espaço entre o órun (Ọ̀run) e o mundo físoco, uma parte do Àiyé que é habitado por outros seres supernaturais como as ajé (Àjẹ́). Estarem localizados nesse espaço intermediário os coloca dentro da capacidade de ter influência sobre os seres vivos sem serem renascidos. Assim, eles podem existir no Àiyé e interferir na vida das pessoas, como é descrito nos mitos, através de sonhos, pesadelos, acidentes e comunicação.

Se fossem localizados no órun (Ọ̀run) essa atuação seria impossível devido ao distanciamento dimensional do Àiyé e do órun (Ọ̀run). Igualmente justifica a necessidade deles se “alimentarem”, como descrito nos mitos, são espíritos em nossa dimensão e precisam de energia transmutada.

É de fato uma sociedade de almas que não necessariamente são Àbíkú. Elas estão ali, vivendo ou perdidas entre os dois mundos, Àiyé e órun (Ọ̀run). O egbé (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run) não são os fantasmas, almas que se perdem e ficam vagando no Àiyé. Os egbé (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run) se unem, formam uma família e são protegidos pelos Orixá (Òrìṣà). Fazem parte desse grupo os Eré, crianças que se manifestam nos Elegùn após a incorporação dos Orixá (Òrìṣà) e sobre as quais falarei mais a diante.

Enquanto frequentei Candomblé tive muito contato com os Eré e haviam duas coisas bem comuns. Eram espíritos de crianças, elas viviam juntas, os Eré, no que eles citavam ser uma “floresta” e todas tinham morrido ainda crianças, sendo que poucas gostavam de comentar as causas. Era evidente que elas mantinham seus traumas e suas memórias da vida que tiveram e, não perder a memória, é mais um fator que permite afirmar que estão localizadas no Ìrònà e não no órun (Ọ̀run). Vou tratar disso a seguir.

Temos assim uma coincidência grande demais para ignorarmos. Temos um grupo de almas infantis que são chamados de egbe (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run) e ficam, como afirmo, localizados no Ìrònà e não no órun (Ọ̀run), formando uma sociedade com vínculos fraternais fortes e de onde saem os Àbíkú, segundo os mitos elas vivem em uma floresta. Temos de outro lado os Eré crianças que atuam junto, através dos Orixá (Òrìṣà), que também não estão no órun (Ọ̀run) porque preservam o seu aspecto infantil, memória da vida recente e que também, por seus relatos, vivem juntas em grupo, em uma floresta. E mais, ambos os grupos atuam no Àiyé, podendo interferir diretamente na nossa vida no Àiyé.

O grupo dos Eré

O Eré não são uma unanimidade em todas as casas em relação à sua atividade, tem casas cujo responsável não gosta deles e eles não se manifestam longamente, mas é impossível ter Orixá (Òrìṣà) sem Eré. Eu não tenho como dizer qualquer coisa sobre como é esse processo no grupo religioso do Jeje, mas creio que também existem. Nos candomblé do grupo religioso Yorùbá, sua existência é de entendimento pacífico.

Tem casas que os aceitam abertamente fazem assentamentos, Igbá, como os de Orixá (Òrìṣà), são parte do culto, são reverenciados, participam do dia a dia do terreiro e são alimentados de duas maneiras, comem comida real quando incorporados e recebem oferendas. As oferendas são aplicáveis aos Eré, mas não existe o menor sentido em monta um Igbá. Isso é um erro teológico e litúrgico.

O Eré vem com o Orixá (Òrìṣà) mas, não é um espírito do órun (Ọ̀run). Duas ou três características marcam bem a diferença. Os Eré se comunicam abertamente, falam pelos cotovelos e tem um domínio completo da incorporação no Elegùn, muito superior à do Orixá (Òrìṣà). Os Eré, enquanto incorporados, comem quantidades, as vezes, absurdas de comida, comem qualquer tipo de comida, inclusive carne, mas, não são chegados a doces, preferem frutas. Podem ficar muitas horas incorporados no Elegùn e assumem até tarefas comuns. No meu período de Candomblé os Eré além de brincarem com as pessoas, darem “consultas”, podiam lavar e arrumar coisas, faziam tarefas bem comuns.

Quando falavam com as pessoas eles davam informações, contavam coisas da vida delas como se fossem guias de Umbanda. O nível de informação de um Eré sobre uma pessoa era muito grande. Eles falavam do passado e falavam da vida cotidiana da pessoa, contando coisas recentes que tinham visto a pessoa fazer. Mostravam claramente que estavam presentes no Àiyé junto às pessoas.

Tinha muita gente que fazia questão de procurar os Eré para conversar, para saber coisas, como se fossem “consultas”. Mas, os Eré nem sempre estavam dispostos a falar, eles regulavam as informações que davam e para quem falavam, mas, eram terríveis, porque falavam coisas, as vezes, que deixavam, as pessoas envergonhadas, Eré não tinha muito controle, ele falava o que queria.

As pessoas pediam coisas para os Eré, pediam interferência deles em assuntos delas e, se tinha uma coisa certa de ocorrer, era pedir algo a um Eré, se eles estivesse disposto a fazer e ajudar.

O nível de controle sobre a incorporação, o fato deles terem falecidos crianças e terem memória sobre isso e o alto nível de consciência sobre o que ocorre no Àiyé, com capacidade de interferir, coloca esse grupo de espíritos, evidentemente, como sendo localizados no Ìrònà, não poderiam ser espíritos do órun (Ọ̀run), senão teriam a mesma dificuldade dos Orixá (Òrìṣà) para estarem presentes do Àiyé.

Uma característica importante de um Eré é o fato de eles virem junto com Orixá (Òrìṣà). O Eré além do domínio sobre o que ocorre no Àiyé se comporta exatamente como um mensageiro do Orixá (Òrìṣà). Através do Eré podemos saber o que o Orixá (Òrìṣà) quer que façamos ou não façamos e eles falam com a gente em nome do Orixá (Òrìṣà) como se fosse o próprio, lembrando que Orixá (Òrìṣà), no Candomblé yorùbá (ketu) não fala com ninguém. Assim os Eré são a forma de nos comunicarmos com eles de forma direta, sem a necessidade de um oráculo.

Os Eré demonstravam muito respeito na sua relação com os Orixá (Òrìṣà) que representam. Pelas palavras dos Eré e da forma como eles falam sobre esta relação, não restava a menor dúvida a qualquer pessoa de que, os Orixá (Òrìṣà) existem como divindade e são divindades diferentes dos Eré, não são a mesma coisa. Eles não deixam a menor dúvida que estão ali representando um Orixá (Òrìṣà) e que este Orixá (Òrìṣà) é quem comanda o que eles podem fazer ou não e podem falar ou não. Lidei com muitos Eré em casas diferentes e a forma como eles tratavam e relatavam essa relação era a mesma. Assim ou estamos lidando com o mesmo constructo transcendente ou, tudo, tinha que ser muito, mas, muito bem combinado, o que seria impossível.

Essa ligação Eré-Orixá (Òrìṣà) é muito importante no entendimento do relevante papel deles. Os Orixá (Òrìṣà) estão localizados no órun (Ọ̀run) um outro nível dimensional e distinto do Àiyé. Para a presença deles no órun (Ọ̀run) e necessária a preparação de uma pessoa para os receberem, o Elegùn. Essa pessoa é necessária devido à necessidade de atuação no Àiyé, de trazerem axé (àṣẹ) e de manipularem essa energia. Para a interferência na dimensão Àiyé é necessário estar presente no Àiyé.

Este também é um entendimento pacificado, se os Orixá (Òrìṣà) não precisassem dos Elegùn para atuarem, primeiro teríamos que mudar o mito da separação do órun (Ọ̀run) e do Àiyé. Em segundo teríamos que mudar todo o Candomblé e demais tradições afro-brasileiras que são baseadas na preparação de um Elegùn para ser a extremidade da ponte entre o órun (Ọ̀run) e o Àiyé que receberá o Orixá (Òrìṣà).

A nossa vinda, como pessoa humana, ao Àiyé se realiza através do útero feminino, o grande repositório de axé (àṣẹ) e um dos símbolos máximos a mais respeitados da religião. É através do útero que o nosso corpo físico é construído e com esse corpo físico podemos nos materializar no Àiyé. É no útero, com a matéria formada pelos elementos do Àiyé, desta dimensão física e energética que nosso espírito deixa o órun (Ọ̀run) e se integra ao corpo o Ara.

A passagem órun (Ọ̀run) Àiyé não é apenas um estalar de dedos, poderia ser assim simples, mas, não é, temos que surgir no Àiyé em forma natural para poder ter os poderes dos Orixá (Òrìṣà), os poderes de deus e interferir através da magia, do axé (àṣẹ). Não estou falando novidades, já tratei disso antes, mas essa revisão aqui é necessária.

A este corpo físico se conecta o corpo místico, nossa alma e espírito e junto a eles temos o axé (àṣẹ) de Olódùmarè, a centelha fundamental de vida. Temos nosso Orí e com esse conjunto, temos a estrutura supernatural que cerca nossa existência material. Dentro desse corpo místico que chamamos de Orí está a ligação com o nosso Orixá (Òrìṣà) e é isso o outro lado da ponte dimensional. De um lado temos o Orixá (Òrìṣà) no órun (Ọ̀run) e do outro nós, com sua essência e o axé (àṣẹ) de Olódùmarè.

As coisas não são por acaso. No caso de Orixá (Òrìṣà), uma divindade, a estrutura é bem complexa. Cada Elegùn (médium), como explicado pela teologia, nasce com a essência do seu Orixá (Òrìṣà). A religião diz que a gente vem para o mundo, o Àiyé, com vários elementos místicos. O nome Orí, para muitos, resume isso tudo, mas, não podemos deixar de entender, também, as partes. Mais a frente vou tratar de Orí. Aqui, nesse momento temos que lembrar que o Orixá (Òrìṣà) é uma ligação especial de todos nós e esse tipo de estrutura e ligação é muito diferente da estrutura dos médiuns que trabalham com incorporação na Umbanda.

O trabalho de incorporação com Orixá (Òrìṣà) e com guias de Umbanda são muito diferentes, isso é relatado pelos próprios médiuns.

Essa energia mística que temos é como uma semente de mostarda, ínfima e isso vai desabrochar de forma natural ou não, permitindo termos ativa a outra cabeceira da ponte que liga o órun (Ọ̀run) e o Àiyé. Potencialmente todos temos isso mas precisamos que esse corpo místico floresça para que ele seja uma cabeceira firma e possibilite a conexão com o Orixá (Òrìṣà).

Para florescer isso podemos ter 2 processos. O primeiro é o natural, as pessoas podem desenvolver isso, naturalmente, e desbrochar essa conexão. O segundo são as iniciações um processo místico e supernatural que faz com que a nossa semente de mostarda se desenvolva permitindo a conexão com o Orixá (Òrìṣà).

Muitas pessoas com o passar do tempo, frequentando terreiros, participando de Xirês e liturgias conseguem com que essa semente de mostarda se desenvolva e assim permitem a presença dos Orixá (Òrìṣà) através delas, se tornam Elegùn. Sim não existe o mito de que somente a iniciação pode possibilitar a incorporação, esse é um dogma tolo e idiota, que não se confirma através do dia a dia. Sabemos que diversas pessoas desenvolvem essa conexão sem terem feito a iniciação. Apesar de ser repetido que para receber Orixá (Òrìṣà) você tem que se iniciar e que não se trabalha com Orixá (Òrìṣà) sem iniciação, a vida real não é assim. Não podemos ter um dogma que não se sustenta, seria apenas uma mentira.

A iniciação é um processo de magia supernatural que acelera o processo de preparação do Elegùn e o coloca pleno. A semente de mostarda cresce e vira uma árvore através da magia e de nossa interferência litúrgica. Mas a mesma magia pode atuar de forma branda e gradual na pessoa e permitir que essa semente de mostarda se desenvolva por si mesma. É isso que a gente vê na prática.

Lembro a todos que o deus católico, quando quis interferir na humanidade ele não fez um estalar dos dedos e todo mundo mudou a forma de pensar e agir. Ele se manifestou através de Jesus. Jesus nasceu homem, ungido pelo espírito santo, com os poderes de deus, mas com nossa humanidade e, essa forma teândrica, foi a que permitiu deus mudar todo o rumo da humanidade, gradualmente e lentamente.

Esse processo teândrico, de Jesus, é o mesmo que os Elegùn passam. As dificuldades são as mesmas, os Orixá (Òrìṣà) estão para os Elegùn assim como deus estava para jesus, isso pode parecer arrogante, mas, só para os católicos, para nós o que interessa é entender o processo e esse é o mesmo.

Mas, até o momento, temos as 2 cabeceiras desta ponte. De um lado demos o Elegùn, já preparado e de outo, o Orixá (Òrìṣà), um no Àiyé e o outro no órun (Ọ̀run). Precisamos agora da ligação, a via que liga uma cabeceira a outra. Essa via é o papel dos Eré, são eles que pavimentam essa via. Como são espíritos que estão no meio do caminho, são espíritos, mas, estão no Ìrònà e desta maneira se movimentam pelo Àiyé, os Orixá (Òrìṣà) usam os Eré para se manifestarem no Àiyé. É, literalmente, através dos Eré que a energia, que o espírito dos Orixá (Òrìṣà) encontra o caminho, a via para surgir no Àiyé estando eles no órun (Ọ̀run).

É por essa razão que o Eré faz parte do transe do Orixá (Òrìṣà) no Elegùn. O Eré não é a manifestação infantil do Òrìṣà (Orixá (Òrìṣà)) como era dito no Candomblé, buscando-se, através disso, uma explicação simples para uma situação complexa. O Eré é uma manifestação infantil, sempre, mas é o transporte do Orixá (Òrìṣà) para o Àiyé.

Nas casas que permitem os Eré, este fica no Elegùn depois que o Orixá (Òrìṣà) vai embora. O Orixá (Òrìṣà) se desconecta deixando então apenas o Eré.

As pessoas que, no Candomblé, que lidam com os Orixá (Òrìṣà) e participam do processo de iniciação sabem que a presença do Eré é uma constante. O Eré está lá antes e depois, não se faz nada com Orixá (Òrìṣà) sem a presença do Eré.

Tenho até uma história bem curiosa, em uma casa estava sendo feita a saída de Orixá (Òrìṣà) de um Elegùn, a festa final, do nome e desta maneira no roncó o Eré estava o tempo todo lá esperando sua hora de sair no salão. Para variar as pessoas de Candomblé não tem muito compromisso com hora, eles acham que todo mundo está lá para esperar mesmo. Em determinado momento o Babalorixá (Bàbálórìṣà) entrou no Roncó e encontrou determinada situação, surpreendendo o Eré, no roncó, fazendo uma coisa que não podia ou devia, ele, imediatamente, brigou com o Eré e esse, assustado, sumiu. Contudo, quando a pessoa foi fazer a saída, as pessoas chamavam o Orixá (Òrìṣà) para tomar conta do Elegùn e assim poder fazer a saída no salão, como manda a tradição, e este não vinha de jeito nenhum, eles não sabiam mais o que fazer. O Babalorixá (Bàbálórìṣà) teve então que levar o Elegùn para o roncó e chamar, com muito custo, o Eré para desfazer a confusão e se desculpar. Só depois disso a cerimônia pode continuar, com o Orixá (Òrìṣà) tomando o Elegùn. Desta forma, sem Eré não tem Orixá (Òrìṣà).

Eu não represento religião Jeje e tenho um conhecimento prático bem restrito, de modo que nunca me coloco para falar sobre esta religião e suas tradições religiosas no Brasil. Contudo conheço a figura do “maluco” e a semana do “sujo”. O Bàbáláwo Valney Ogbè Otuwà, que tem origem no Jeje, confirmou esse processo e sua similaridade com o caso do Eré. No jeje antecedendo o processo de feitura de Vodun, existe o aparecimento do maluco, que nada mais é que uma criança, um Eré, que incorpora no elégùn e passa uma semana ness processo. Certamente (minha ilação) um membro do egbé (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run). O maluco passa o que se chama a semana do “sujo” que termina com o Grá e o encontro com a Doné, uma encenação típica africana, como um festival. A criança é o precursor do Vodun, ele vem antes e através dele é que o Vodun se manifestará em frente a Doné. Desta maneira mesmo no Jeje temos a mesma figura.

Tem gente que não entende essa construção de Orixá (Òrìṣà) e as liturgias que diz que o Orixá (Òrìṣà) é uma energia muito grande e não poderia se manifestar em ninguém. Essas pessoas falam isso para negar essa incorporação de Orixá (Òrìṣà). Aqui no Brasil tem dois grupos que repetem essa ladainha. O primeiro é o dos umbandistas. Para eles o Orixá (Òrìṣà) é um caboclo e não um Orixá (Òrìṣà), pela razão que acabei de falar. Claro, eles não entendem nada de Orixá (Òrìṣà). Eles não sabem o que é um Òrìṣà (Orixá (Òrìṣà)), como é um Orixá (Òrìṣà) e ainda devem achar que os Orixá (Òrìṣà) são os elementos da natureza. O outro grupo que ouvi repetindo isso são os cubanos, da santeria. A razão dos cubanos é a mesma dos Umbandistas, aliás a Santeria é tipo uma Umbanda mesmo.

Se esse pessoal entendesse Orixá (Òrìṣà) eles não falavam essas besteiras.

Dessa maneira fica entendido o papel dos Eré no culto de Orixá (Òrìṣà), através de minhas explicações. Alerto que isso o que falei é baseado em experiência, foram as situações que convivi no Candomblé que me levaram a estabelecer esse modelo dos Eré. Não sei se todo mundo pensa assim, eu penso e junto experiência e teologia, isso que descrevi e analisei faz todo o sentido para mim. Faça sua avaliação.

 

Texto seguinte Os demais espíritos do egbé (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run)

sábado, fevereiro 06, 2021

Como é a composição do egbe (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run) - [ Entendendo a religião Yoruba - Pt. 45]

 TEXTO ANTERIOR: Onde fica a sociedade egbe (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run)?

 

Como é a composição do egbe (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run) 

 

Uma vez que tratamos dá, extremamente importante, questão da localização do egbe (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run) no Ìrònà e não no órun (Ọ̀run), o próximo assunto importante é tratar é o de sua composição, quem faz parte do egbe (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run)? Esses 2 temas, sua localização e sua composição, que estão ligados, determinam tudo no entendimento do egbe (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run).

Os mitos sobre o assunto mostram que o egbé (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run) está associado a uma sociedade de almas juvenis (vou explicar a razão de serem juvenis, mais adiante) que se associam em uma comunidade e na qual os Àbíkú, são uma parte desse grupo, sendo esta, a dos Àbíkú, a sua face mais conhecida entre nós, mas o egbe (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run) não se limita eles. Essas almas são de crianças e jovens que morreram de forma não natural, antes do seu tempo prevista e assim sua vida foi interrompida. Em função das razões que levaram a sua morte, as almas, ainda no estágio juvenil não vão para o órun (Ọ̀run), ela ficam no Ìrònà e neste espaço metafísico se associam formando a sociedade do egbe (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run). Elas permanecem juntas até um renascimento ou por sua volta definitiva ao órun (Ọ̀run).

Para falar, mais profundamente, de sua composição eu tenho que voltar a falar de sua localização, porque a composição está diretamente definida à localização. Ao localizarmos o egbé (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run) no Ìrònà nós trazemos simplicidade, realidade e consistência a esse assunto. Todo os incidentes que envolvem o egbe (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run) ficarão fáceis de serem entendidos e explicados. Deixaremos de ter a necessidade de criar um modelo mirabolante e intrincado para explicar seus atos e efeitos.

A localização no Ìrònà, como já explicado, é que a faz mais sentido metafísico e ela permite definirmos e restringirmos um escopo de membros, que podemos explicar, enquanto que, se usarmos a localização no órun (Ọ̀run) a composição do que é chamado egbe (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run) fica infinita.

A visão, alegórica, de que o grupo de companheiros espirituais é formado no órun (Ọ̀run) e que esse grupo interfere, a seu bel prazer, na vida dos renascidos, cria um escopo ilimitado para sua composição, visto que, qualquer espírito que está no órun (Ọ̀run) poderia pertencer a essa turma.

Qual será o escopo do egbe (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run) se esta expressão significar órun (Ọ̀run) de fato? TUDO, todas as divindades e todos as almas que não estão no Àiyé passam a fazer parte do egbe (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run). Isso não faz sentido! É como se estivéssemos definindo uma teologia paralela, que é o que ocorre na prática como vou justificar adiante.

Este modelo ruim, baseado no órun (Ọ̀run), estabelece, literalmente a possibilidade de o egbe (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run) ser a sua turma de amigos, tipo os amigos do futebol, do bar, da escola, etc.. A composição seria ilimitada. Se juntarmos a isso funcionalidade real do egbe (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run) de interferir na vida do Àiyé, mas devido a localização considerarmos que, existe a livre interação entre os espíritos Ara órun (Ọ̀run), viventes no órun (Ọ̀run), com os Ara Àiyé, viventes do Àiyé, temos uma confusão infinita estabelecida. Essa visão teológica não explicaria nada para nós no Àiyé, não justificaria problemas porque criaria uma dimensão muito ampla para a origem de problemas que afligem os Ara Àiyé. Isso, até certo ponto, seria muito conveniente para as pessoas, porque tudo o que não está bom na vida dela, tudo o que ela não consegue realizar porque não se comporta direito ou não faz as coisas direito, poderia ser associado ao egbe (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run). É um modelo bastante indulgente e também conveniente para os Bàbáláwo, Babalorixá (Bàbálórìṣà) e Iyalorixá (ÌyálÒrìṣà), sacerdotes desta religião, interessados em comercializar soluções mágicas. Eles poderiam inventar um sem número de causas, artificiais e inexistentes, para justificar problemas e cobrar por trabalhos que não resolvem nada.

Vou repetir. A visão da localização do egbe (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run) no órun (Ọ̀run) e não no Ìrònà, associada com a visão, que vem junto, de que espíritos do órun (Ọ̀run) vão livremente para o Àiyé, na forma de espíritos e interferem na nossa vida aqui, representa uma desordem teológica, é uma maluquice, que não contribui para ninguém, dentro da religião, que não sejam os sacerdotes, que usam isso para aumentar bastante o seu comércio religioso de favores, inventados e de placebos.

A questão da composição, é uma das partes fundamentais desta questão do entendimento e do tratamento do egbe (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run), mas, ela é consequência da localização do egbé (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run). Não adotar a tese do Ìrònà possibilita um modelo maluco e idiota e, desta forma, é mais uma das razões pela qual o egbé (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run) não pode estar ligado realmente ao órun (Ọ̀run), porque isso afeta a questão da composição do mesmo, criando uma legião infernal de membros e uma complexidade indescritível.

Para comprovar esta minha afirmação de complexidade eu vou propor 2 coisas. A primeira é entender o modelo teológico que estou explicando aqui, que não é autoral, é exclusivamente baseado no que está na religião. A segunda é indicar que procurem outras fontes, livros e vídeos que tratam sobre o tema egbé (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run) baseado nesse modelo que eu digo ser o errado, o ligado ao órun (Ọ̀run).

Tomando como referência a livraria Amazon, verificaremos que não tem muita gente falando sobre esse tema. Uma parte um pouco maior fala sobre os Àbíkú, que é o assunto mais popular e tradicional e, destes, a maior parte na forma de novela, ficção. Em livros sobre Ifá ou sobre a religião, geralmente são reservadas apenas algumas páginas, com pouca informação, sendo que, as melhores referências eu citei no início do texto. Eu encontrei apenas uma publicação falando de egbe (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run) na Amazon, cujo autor é Ifayemisi Elebuibon. Na verdade trata-se de uma autora, Ifayemisi é mulher e bem nova. Ela não é Bàbáláwo e desta forma falta-lhe prática de oráculo ou mesmo de Ifá para tratar do tema. Neste livro ela usa, ao extremo, este contexto órun (Ọ̀run) para desenvolver o assunto, mas, faz uma obra, como eu previ, alucinada, misturando coisas diferentes da religião e criando figuras novas. Ele multiplica divindades ligadas ao egbe (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run), associa divindades regionais existentes como se fossem parte do todo comum, cria novos nomes para elas e finalidades de atuação. Lembro que o estabelecimento de áreas de atuação especializada não faz parte desta religião. Ela chega ao ponto, absurdo, de dizer que, se temos esposa no órun (Ọ̀run) esta interferirá em nosso destino no Àiyé, justificando com isso nossa dificuldade em encontrar a felicidade, devido a atuação e ciúmes desse espírito. Este livro é um festival de besteiras, mais do que seria normal, e que tem origem, como eu digo, no entendimento que o egbé (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run) está ligado ao órun (Ọ̀run).

No Youtube o panorama não é diferente. Pouca gente consegue escrever mas todo mundo sabe falar. A quantidade de pessoas falando sobre o tema se multiplica e o objetivo disso parece o mesmo. Nos vídeos eles conseguem definir bem os problemas que os espíritos do egbe (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run) trazem para os Ara Àiyé, afinal, isso está na religião, mas eles estabelecem em suas explicações uma complexidade, e amplitude enormes que permitem um oferta ampla de soluções pagas para resolver os problemas. Nos vídeos fica bem claro a complexidade da explicação quando tratamos de órun (Ọ̀run).

Para aceitar isso é necessário, como expliquei anteriormente, criar uma teologia paralela à religião yorùbá, teologia esse que endereça muito bem apenas uma coisa, um comércio de iniciações, assentamentos e trabalhos orientados a resolver os problemas que não existem.

Essas referências que fiz, do livro e dos vídeos, não tem como foco criticar os autores, mas elas são necessárias para comprovar a minha afirmação de que a composição do egbé (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run) baseada no órun (Ọ̀run) torna esse tema complexo além do limite.

Mas deixando essa visão geral vamos ao que interessa.

Para entender a composição do egbe (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run) os versos de Ifá ajudam muito mais que os mitos específicos que eu mostrei no início, porque os versos tratam, em dezenas de lugares, do egbé (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run), de forma muito mais comum e prática em relação a nossa vida. Nos versos não encontraremos, de fato, explicações diretas sobre o egbe (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run), mas, através dos versos percebemos como seus membros afetam a vida das pessoas e a partir dessa visão de efeitos, o bom observador monta o quebra-cabeça de sua composição e atuação.

Nesses versos, os membros do egbé (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run), surgem trazendo muito mais tormento às pessoas do que apenas o grave caso dos Àbíkú. É interessante observar que, no Youtube, vi pessoas compreendendo bem a atuação do egbe (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run) nas pessoas, mas, elas perdem o fio da meada da solução quando os localizam no órun (Ọ̀run). Entender a adequada composição muda a forma de você lidar com o problema e por isso que compreender bem a teologia é importante.

Em um Odù, Ogbè Ọ̀yẹ̀kú, Ifá diz que a pessoa para quem o signo saiu, é beneficiada no Àiyé com ajuda dos companheiros do egbé (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run), devido a ter sido um membro importante, no passado, desta sociedade. Assim, neste Odù, essa pessoa será beneficiada com ajuda e muita prosperidade, sorte, trazida pelos companheiros do egbé (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run). Observem que seguindo o relato deste Odù, os membros do egbé (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run) tem relação ou gratidão com essa pessoa e podem interferir no Àiyé a seu favor. Ogbè Ọ̀yẹ̀kú não menciona Àbíkú.

Assim como em Ogbè Ọ̀yẹ̀kú, existem muitos outros com histórias que mostram, pontualmente, a interferência que as pessoas no Àiyé sofre do egbé (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run), nesse caso, a pessoa que consulta Ifá. O que vemos nas consultas de Ifá é que diversas pessoas são de alguma forma, ainda adultas assediadas pelo egbe (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run), como no grave caso do Odù oxé (Ọ̀ṣẹ́) irete (Ìrẹ̀tẹ̀) ou como em vários outros casos que passaram por mim crianças tem seu desenvolvimento infantil e juvenil prejudicado por seus companheiros espirituais, sem uma aparente vontade de prejudicá-los, como consequência e não eram casos de Àbíkú.

Em Ifá fica claro para nós Bàbáláwo que a interação com o egbe (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run) não se restringe ao caso dos Àbíkú. Mas isso não é caso que você vai encontrar em literatura de antropólogos ou pesquisadores, a gente, como Bàbáláwo, encontra as histórias e os casos reais na prática. O erro que Bàbáláwo pode cometer, na prática, é não ter o conhecimento correto da teologia envolvida nisso e, desta forma, converter essa constatação, de que as pessoas são importunadas pelo egbe (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run), em busca de solução disso envolvendo o órun (Ọ̀run) ou, um pouco pior, usando o egbé (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run) para justificar problemas que as pessoas têm na sua vida e que são causadas por ela mesma.

As pessoas que procuram Ifá, todas, tem algum problema para resolver ou uma frustração, as pessoas não vão a Ifá para bater papo sobre ética e conduta. É extremamente difícil para essas mesmas pessoas aceitar a análise do Bàbáláwo sobre sua vida e conduta. É mais difícil ainda para essas pessoas mudarem a forma como elas procedem de modo a corrigir os seus problemas. Todas elas vão lá querendo que a solução de suas decepções e dificuldades seja sempre atribuída a uma causa supernatural qualquer, fora do controle delas e que as exima de seus insucessos. Todas elas querem que a solução para seus problemas seja apenas um ebó (Ẹbọ), tipo 7 bolas de farinha de modo a não terem que se auto-avaliar e reconhecer o que devem mudar para que as coisas melhorem. As pessoas não vão atrás de conselhos e orientações elas querem soluções. Para esses casos, de quem busca a culpa nos outros, o egbé (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run) é uma ótima alternativa. Cria causas malucas e principalmente não associadas a Orixá (Òrìṣà) para explicar os problemas das pessoas.

Como eu falei, no início, existe muita névoa sobre o tema egbé (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run) até mesmo entre os Bàbáláwo e os próprios Yorùbá mais antigos. Muitos tentam descrever o egbé (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run) como uma divindade para ser cultuada, como um Orixá (Òrìṣà). Essas pessoas criam então coisas que são inimagináveis que o egbé (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run) como iniciações, assentamentos e até mesmo Exú (Èṣù) para egbé (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run).

Como eu disse, minha análise é que isso tudo é baseado em mistificação do tema, não existe, nada, em histórias sobre o egbé (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run) que mostre qualquer coisa diferente do que eu já relatei e relatarei aqui.

As pessoas que atribuem esse caráter de divindade ao egbé (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run) me geraram inicialmente uma razoável confusão e dúvida. Fui, de fato, atrás disto buscando em versos, mitos ou textos explicativos, alguma coisa, consistente, que trouxesse o entendimento sobre o que essas pessoas insinuavam estava certo. Mas, isso não se confirmou. Não podemos gerar conhecimento a partir de, apenas, opinião. Opiniões podem ser usadas na ausência de evidências, mas, se criamos uma afirmação teológica isso tem que ser confirmado por algum instrumento legítimo de fonte de informação da religião.

O Bàbáláwo Fálàdé, por exemplo, cita a existência desta sociedade, difusa ou pouco definida, de amigos, o egbe (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run), como uma divindade que nos ajudaria e que, a pessoa ligada a eles, teria até um nome, seria um elegbe, um lider que é protegido por eles.

Essa visão de divindade associada ao egbé (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run) é fantasiosa. O que está nos versos e nos mitos é que é uma sociedade de espíritos que se reúnem e habitam um lugar isolado das demais, esse lugar é o Ìrònà, o espaço intermediário entre o Àiyé e o órun (Ọ̀run). Os mitos descrevem a existência de um líder entre eles, um líder para os meninos e um líder para as meninas, mas nomes em yorùbá podem ser apenas cargos e os nomes associados a esses líderes são característicos de cargos.

Iyajanjàsá é o nome da mulher que é lider dos garotos e Olóìkó é o líder das meninas. Esses nomes são cargos, isso significa que alguém ocupa esse papel de líder, de cuidador, algum espírito mais velho. É isso que está referenciado no Odù Ogbè Ọ̀yẹ̀kú. Mesmo nos mitos descritos por Cuoco, existe um (8- Olóìkó goes into the world) que relata que o próprio Olóìkó decide em determinado momento renascer. Seus pais consultam um Bàbáláwo fazendo os ebó (ẹbọ) para que ele fique no mundo. Em função disso Olóìkó não é capaz de morrer e voltar para o egbé (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run) e acaba ficando no Àiyé vivendo com a nova família. Desta forma, usando nossa capacidade de interpretar, temos que concluir que Olóìkó não é o nome de uma divindade e sim um cargo que um dos espíritos do egbé (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run) assume para ser guardião dos demais.

A necessidade de ter um líder ou de um cuidador é explicada com alguns argumentos bem simples. O primeiro é que é natural que, em um grupo, um ou alguns exerçam a função de liderar. Vamos lembrar que esses espíritos estão no Ìrònà, eles morreram e não foram para o órun (Ọ̀run), ficaram nesse espaço intermediário e desta maneira sendo eles, ainda, espíritos infantis será natural um espírito assumir o papel de líder e cuidador. O espaço Ìrònà está longe de ser uma região tranquila do supernatural, o Ìrònà é uma designação genérica para o espaço energético intermediário entre o Àiyé e o órun (Ọ̀run) e que além da sociedade egbé (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run) também serve de localização para outros espíritos e forças maléficas. Como Salami e Ibie descrevem, as ajé (Àjẹ́) estão nesse espaço e os Ajogun. Por ilação podemos concluir que os espíritos perdidos que a Umbanda acolhe, bem como os próprios guias de Umbanda estarão nesse mesmo espaço visto que as regras do supernatural tem que ser as mesmas para tudo e para poderem interferir na nossa vida, como a Umbanda preconiza e pratica, não poderão estar no órun (Ọ̀run) e sim no Ìrònà.

Os yorùbá tem muitas divindades e todas regionais, existem muito poucas divindades gerais, aceitas por todos (como Xangô (Ṣàngó) Oxalá (Òṣàlá), Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) e Exú (Èṣù)), a maior parte é regionalizada. Isso faz com que um mesmo tipo de divindade ou manifestação, ocorra com nomes diferentes dependendo do local, mas, isso não faz elas serem divindades diferentes. Se ainda lembrarem, eu citei isso quando falei dos nomes de Olódùmarè. Os pesquisadores europeus acharam que haviam vários deuses entre os yorùbá, mas o que eles não perceberam é que eram nomes diferentes para um mesmo deus.

A diversidade de divindades, seja a mesma com muitos nomes ou sejam várias, não faz diferença nesta religião. A quantidade de divindades não é relevante. Existem divindades que são orientadas para cuidar de crianças, as crianças são muito importantes para os yorùbá e proteger o seu crescimento é uma preocupação importante. Dessa forma é natural que existam divindades orientadas a elas.

Ibéjì é uma dessas divindades, ela está ligada aos gêmeos, que são um tema especial nesta religião. Regionalmente encontraremos divindades associadas a crianças: Ẹgbẹ́, Ẹgbẹ́run, Arágbó, Ẹgbẹ́ Ọ̀gbà, Koóri, Kónkóto, dàda e Elérìkò. Não tem relevância falar sobre cada uma delas ou sua origem para nós da diáspora. Aqui nesse tema elas estão sendo mencionadas porque são divindades do órun (Ọ̀run), não são espíritos que fazem parte do egbé (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run). São divindades que se recorre para proteger as crianças, seu nascimento e desenvolvimento.

Em Ibadan, existe uma divindade chamada Elérìkò, uma divindade feminina, ambivalente, ligada a esses espíritos. Ela ajuda ou atrapalha, traz doenças para unir os Aràgbó. Elérìkò é imprevisível. Quando aplacada dá filhos e brinca com as crianças na luz do dia. Quando desagradada assedia crianças no seu sono, aflige com doenças, as mata e leva suas almas para o egbe (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run).

Existem outros nomes que são sinônimos da mesma coisa. Arágbó – Espírito de crianças, seres das florestas; Ẹgbẹ́ ou Ẹgbẹ́run – Vivem na água ou madeira; Elére – Donos as imagens de madeira; são nomes diferentes para a mesma coisa, para designar os membros do egbé (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run), não são nomes de divindades diferentes ou de espíritos especiais do egbé (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run).

Na cidade de Ọ̀wọ não tem Gélede (Gẹ̀lẹ̀dẹ́) mas tem um festival de mascarados chamados Àghòbí (aquilo que olha para dar nascimento a crianças). O objetivo dos dançarinos mascarados, sejam homens ou mulheres jovens, é torna o homem viril, a mulher fértil e as crianças saudáveis e bem nascidas. Àghòbí é o nome dos mascarados e não uma divindade.

Existe ainda um tipo de Egúngún chamado Egúngún Ọlọmọyọyọ, que é um espírito ancestral de pequenas crianças. Desta maneira Ọlọmọyọyọ, não faz parte do egbé (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run), faz parte do órun (Ọ̀run) é um Egúngún.

Existem outros nomes específicos como Èkìnẹ̀, Èlekìnẹ̀, Ọmọlókun ou mọlókun que é o nome que se dá as crianças nascidas pela interferência do Orixá (Òrìṣà) Olóòkun. Inclusive existe uma designação geral para os Orixá (Òrìṣà) que interferem no nascimento de crianças.

Essa lista de nomes é bastante ampla, no final eu faço uma coletânea disso. O objetivo de eu citar isso aqui é para acabar com a confusão causada por usarem esses nomes para mostrar complexidade e diversidade do egbé (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run). Sim, eu já vi vários Babalorixá (Bàbálórìṣà) e Bàbáláwo citando esses nomes como se fossem uma diversidade do egbé (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run) e com isso querendo mostrar conhecimento e complexidade.

Egbé (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run) é simples, é uma sociedade ou grupo que reúne espírito de crianças mortas. Não é uma divindade do órun (Ọ̀run). A composição do egbé (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run) é simples usar esses nomes que se referem a coisas diferentes e de regiões diferentes, juntando isso tudo como se fosse um conjunto único e exclusivo é uma manifestação de desconhecimento ou de vontade em confundir.

Uma vez que não são uma divindade e não estão no órun (Ọ̀run), não existe sentido em pessoas ignorantes ou não honestas, venderem iniciações para egbé (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run). Não cabe uma pessoa ser iniciada para egbé (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run). Se você não está ligado a eles (vou explicar isso adiante) não faz sentido se ligar. Se já está ligado não necessita de iniciação. A iniciação é um processo litúrgico para despertar poderes e capacidades não cabe fazer isso para estabelecer uma ligação com o egbé (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run). Igualmente não cabem para eles um assentamento, assentamento ou Igbà é um objeto litúrgico para ligar o Àiyé ao órun (Ọ̀run), não existe razão para ter esse objeto para ligar o Àiyé ao Ìrònà, esses espaços já estão ligados, o Ìrònà é parte do Àiyé. O Ìrònà não é o mundo físico mas o Àiyé compreende o mundo físico e o supernatural que acompanha o mundo físico.

O que encontramos nos mitos é que egbé (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run) são esses espíritos que podem ou não se tornar um Àbíkú e que vivem junto, tem fortes laços de amizade. Os mitos direcionam egbé (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run) como sendo uma reunião de possíveis Àbíkú ou que já foram ou se tornarão. Eles se tornam um Àbíkú quando renascem, isso é óbvio, afinal o nome Àbíkú significa aquele que nasce para morrer. Assim, um Àbíkú é alguém que nasce e respira. Apesar de todos sermos, em teoria, Àbíkú porque nascemos para morrer, os Àbíkú são as almas de ciclo curto de vida e nós, pessoas comuns, somos de ciclo longo de vida. Conforme vou teorizar, à frente, é importante ressaltar essa questão de ciclo curto e longo, mais do que vocês podem imagina agora.

Entretanto, o que mais me incomodou neste tema de egbé (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run) e Àbíkú não foram esses aspectos que citei, o mais problemático foi sempre não haver nenhuma explicação teológica para isso. Não havia causa ou razão. Nos cabia dizer que o que era, dizer como resolver mas, jamais, ter qualquer tipo de informação sobre a razão.

Antes de iniciar minha explicação completa quero transcrever aqui um pequeno trecho que está no livro do Cuoco, que como disse, recomendo muito. Esse trecho é a semente do meu entendimento e que vai de encontro (contra) o que muitos africanos e Bàbáláwo Nigerianos (yorùbá, como o Salami) pensam sobre os Àbíkú.

Ao contrário do que muitos autores escreveram sobre o personagem Àbíkú, insisto em afirmar que eles ”não" são seres malévolos cuja única missão é causar sofrimento a seus pais e familiares. Acredito que sejam seres de luta, que em puro estado de inocência passando de um reino para outro - em suas constantes mortes e renascimentos - carregando dentro de si o peso da morte Iku). Sua verdadeira inocência reside no fato de que são seres, que estão divididos à força entre o desejo de ficar na terra com suas famílias e o desejo de estar com seus espíritos companheiros em Orun, bem como a obrigação que têm de cumprir suas promessas de retornar à sua Sociedade Egbe Ara Orun, independentemente dos esforços de seus pais para mantê-los no mundo.”

A seguir vou relatar o meu entendimento sobre os egbe (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run) e Àbíkú, de forma bastante ampla. O conhecimento que vou descrever foi reunido em anos de pesquisa em diversos autores. Vou dar muita informação e buscarei justificar tudo aquilo que eu disser.

Eu vou evitar aquelas longas abordagens acadêmicas (não sou acadêmico) com extensos relatos para somente no fim apresentar suas conclusões. Vou iniciar por eles e depois dar as explicações.

 

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