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sexta-feira, julho 03, 2020

Novo video e textos

NOVO VÍDEO E TEXTOS


Leitores, no YOUTUBE tem um novo vídeo, fala sobre as pessoas que participam de vários cultos ou religiões ao mesmo tempo, se focando apenas na questão de incorporação, como se todas fossem a mesma coisa.

Na verdade essas pessoas que não se fixam em uma religião e adotam todas não entenderam de fato qual a utilidade de uma religião para nossa vida. Além disso correm riscos. O vídeo explica a minha visão sobre o assunto.

Em breve continuo com os textos, eu tenho uma programação bem definida dos assuntos, mas, estou um pouco enrolado. Os próximos textos são importantes e vão falar de Egbe orun, abiku, geledé e ajé. São textos importantes. Depois desses textos eu publico na amazon um e-book com todos os textos já lançados em versão estendida e atualizada.




domingo, junho 21, 2020

Novo vídeo no Canal

NOVO VÍDEO NO YOUTUBE


Não deixe de acompanhar o vídeo sobre o tema de Ifá ser religião.

É religião e eu explico isso em detalhes no vídeo





terça-feira, junho 16, 2020

Entendendo a religião Yoruba - Pt. 29 - As bases da relação de deus com a humanidade

ANTERIOR: Ofun meji


As bases da relação de deus com a humanidade


Depois desse longo texto sobre o assunto eu gostaria de deixar umas palavras finais para fechar o assunto. Essa religião é baseada em uma tradição oral com pouca coisa formalizada através de teólogos. A falta dos teólogos abre espaço para uma miríade de interpretações individuais ou então teses impróprias que se alastram como rastilho e estabelecem bases impróprias.

Os orixá (Òrìṣà) foram vítimas disso, ilações pessoais de todos os lados, dos Yorùbá e da diáspora. Fazendo a mesma pergunta que faça sempre para qualquer tema teórico, e dai? O que isso importa? O que afeta a prática da religião?

Muito, porque uma das bases da religião é entendermos nossa relação com o cosmo divino e com deus. Temos que entender nosso papel nessa relação e o papel deles. Isso é como em qualquer relação humana, não? Não é assim que nos relacionamos uns com os outros? Entendendo o nosso papel nessa relação?

Em religião é a mesma coisa, apenas que os personagens são diferentes, são reais e metafísicos, ou transcendentes, mas, temos que entender e definir essa relação. Se você leu tudo até aqui já deve estar claro o que a religião oferece para nós, o objetivo dela e depois desse último texto o papel do principal elemento da relação entre nós e deus, que são os orixá (Òrìṣà) e Ifá.

Para entender isso não é preciso inventar nada, basta estudar os versos que eu mostrei. Ali, já está definida esta relação.

Os orixá (Òrìṣà) receberam de deus, Olódùmarè, o papel de estabelecer com nós a sua relação. Os orixá (Òrìṣà) são a presença de deus junto a nós. Eles não são deus, eles são seus ministros, representando para nós o mesmo papel que Jesus representou para os católicos. Não temos deuses, temos um deus que se faz representar através dos orixá (Òrìṣà) e deu para eles a importante missão de acompanhar nossa jornada no Àiyé, nossa viagem no Àiyé, para que sejamos felizes e tenhamos sucesso nos nossos objetivos.

Os orixá (Òrìṣà) e Ifá representam o que eu repito sempre, a aliança de deus com a humanidade. Temos um anjo da guarda pessoal que é enikeji, temos os orixá (Òrìṣà) que são os ministros de deus, temos Ifá que é o oráculo de comunicação e temos e temos Exú (Èṣù) que é o portador do axé (àṣẹ), a mão de Olódùmarè agindo sobre a humanidade. Para quem gosta de comparações, Exú (Èṣù) poderia ser o espírito santo dos católicos.

Essa quadríade representa a relação pessoal de deus com a humanidade.

Baseado nesse entendimento, não existe espaço nessa relação para que orixá (Òrìṣà) seja elemento da natureza e muito menos compartilhe a relação humana com esta função. Mais ainda não existe base teológica que confirme isso.

Uma outra característica da religião, que já expliquei nos textos iniciais é se basear em polos, são vários polos, o sistema binário preside as relações. Uma desses polos binários é a relação masculino-feminino. Ela é muito importante e inicia quando deus deu para a mulher o poder do axé (àṣẹ). É a mulher que tem o axé (àṣẹ) e o armazena mas são os homens que conduzem a ação do seu uso, um não existe sem o outro.

Infelizmente essa religião não tem teólogos, se tivesse haveriam temas incríveis para serem tratados.

segunda-feira, junho 15, 2020

sábado, junho 13, 2020

Entendendo a religião Yoruba - Pt. 28 - As sempre controversas fontes de informação religiosa

ANTERIOR: A questão do politeismo e monoteismo


As sempre controversas fontes de informação religiosa

Os antropólogos que estudaram a África ao longo do século passado e talvez no anterior, não ajudaram muito. Eles em seus estudos se preocupavam muito mais com a sociedade do que com a religião. Eles não tinham a formulação religiosa como um fim, mas, entendiam que não poderiam falar sobre o povo sem falar sobre a religião uma vez que uma coisa permeava a outra.

É como hoje em dia a gente estudar um país muçulmano. Não dá para falar da sociedade sem falar da religião. Contudo as enormes dificuldades de comunicação e a preocupação dos africanos estudados em agradar aqueles que os pagavam levaram a respostas e interpretações equivocadas. Os próprios Yorubas foram em parte responsáveis pela visão errada que se criou da religião deles.

Posteriormente na medida em que africanos foram sendo educados na Europa e tiveram acesso as ciências humanas e sociais e ao que foi escrito sobre eles, eles voltaram a África para fazer os seus próprios estudos. Idowu em seu livro "African Traditional Religion" descreve que houve 3 fases nos estudos sobre os africanos.

A primeira, a da ignorância, a segunda, onde quem escreve já passa a respeitar que existe uma diferença cultural e que existe de fato uma cultura não conhecida mas comparável a deles no lado “nativo” e, a terceira, onde finalmente entram em cena os escritores africanos.

Hoje em dia melhorou muito, mas, ainda temos pessoas se referenciando em obras antigas e bastante distorcidas. É importante que se entenda que nem tudo o que está escrito em um livro tem valor e nem todo mundo que escreve sobre algo sabe o que está falando. Tomem cuidado com autores que repetem o erro de outros.

Verger foi muito perspicaz quando percebeu isso e escreveu sobre esse processo. Ele verificou uma sequência de autores que se repetiam e em muitos casos que repetiam coisas ruins. Fez um bom artigo sobre o assunto, chamado Etnografia religiosa Yorùbá e probidade científica, no qual ele cita erros grosseiros que foram repetidos, um deles que compromete seriamente a tradição Lukumi e também aproveita para criticar Juana Elbein e seu livro os Nago e a Morte. Esse artigo de Verger vale a pena ser lido.

Não gosto dessa crítica a Juana, acho que a resposta dela a Verger foi muito boa, mas tirando essa fogueira de vaidades o artigo do Verger ilustra muito bem isso o que estou explicando aqui.

Eu mesmo, buscando referência sobre um assunto, o sistema de crenças Yorùbá encontrei pelos menos 3 autores diferentes que, para um mesmo assunto, repetem as mesmas palavras. Incrível! Um primeiro se deu ao trabalho de escrever sobre o tema, Parrinder se não me engano, nem o fez de forma brilhante e outros apenas o copiaram.

Tomem cuidado aqui no Brasil com autores que podem estar repetindo bobagens. Nina Rodrigues que durante algum tempo foi uma referência em Candomblé só escreveu lixo por exemplo, nem é mais citado. Mas, é comum pessoas engordarem suas páginas com conteúdo de outros.


CONTINUAÇÃO: aS BASES DA RELAÇÃO COM DEUS COM A HUMANIDADE

sexta-feira, junho 12, 2020

Novo vídeo

NOVO VÍDEO NO CANAL DO YOUTUBE



Já disponível um novo explicando o que Ifá pode fazer para ajudar as crianças







Veja no link:   Ifá e as crianças

quinta-feira, junho 11, 2020

Entendendo a religião Yoruba - Pt. 27 - A questão do politeismo e monoteismo

ANTERIOR: O reflexo no Brasil e no Candomblé


A questão do POLITEÍSMO e do MONOTEÍSMO

Em termos de definição para uma religião ser politeísta, segundo Paul Tillich (systematic Thelogy, Vol. I):

Politeísmo é um conceito qualitativo e não quantitativo. Não é uma crença em uma pluralidade de divindades e sim a falta de uma instância unificadora e transcendente é que determina a sua característica.

Não importa a quantidade de divindades e sim a qualidade delas e de sua relação. Em uma religião politeísta não existe uma divindade superior as demais, todas tem o mesmo poder e não existe assim uma força reguladora do conjunto.

O Candomblé, como muitas outras, não é politeísta porque existe uma relação bem clara de hierarquia entre Olódùmarè e as demais divindades. Assim, possuir divindades, originais ou divinizadas não transforma uma religião em politeísta, senão, o catolicismo com seus santos e sua trindade também o seriam, mas ninguém ousa fazer isso.

Em função de pré-conceito, conforme eu já me expliquei anteriormente, as religiões abraâmicas têm esse interesse histórico em diminuir e marginalizar as demais religiões. Como eu já expliquei e estou apenas lembrando, todas as religiões que não são cristãs, são denominadas pagãs. Assim, eles, de forma ignorante, simplificam essa discussão a um modelo muito singelo. Tudo ou é monoteísta ou é politeísta, baseado no modelo de referência deles. Se é igual ao modelo deles, é monoteísta. Se é diferente então é politeísta. É o binário burro.

O maior problema ao tratar do assunto religião na sociedade é que o preconceito domina essa a conversa toda a ponto de as pessoas que não gostam da abordagem cristã, elas mesmas, sem saber o que dizem, afirmam que não fazem parte de uma religião monoteísta.

Claro, porque o modelo de escolha que é imposto deixa pouca margem para discutir. As religiões cristãs querem apenas dar prosseguimento ao preconceito histórico contra as outras correntes religiosas e chamam todas as demais de politeístas.

Isso não é correto. Mas também não é uma ofensa como essas pessoas querem afirmar. Sim, na visão delas, uma religião "boa" é a monoteísta. O politeísta não é colocado como um atributo e sim um defeito.

Mas existe um outro aspecto também tão ruim quanto esse. A maior parte das pessoas, ignorantes no assunto, prefere aceitar sua religião ser chamada de seita e dizer que é politeísta. Duas coisas menores na visão dos cristãos.

Para os cristãos, seita é uma coisa menor um pedaço da religião verdadeira, e isto está correto uma vez que o termo nasceu do judaísmo onde as seitas são tradições que divergem da interpretação tradicional das suas escrituras.

Politeísmo remete ao velho testamento, quando os próprios judeus adoravam deuses zoomórficos, na forma de animais como o carneiro. Isso, para eles, era um episódio negro e assim politeísmo é um pejorativo.

As pessoas do Candomblé devem entender que ao aceitarem serem chamados de seita ou de politeísta pelos cristãos não estão apenas sendo classificados erradamente. Estão sendo ofendidos e diminuídos.

O Candomblé e a religião africana não são politeístas. Uma definição mais próxima seria de Henoteísmo, mas, isso não importa. O que estou dizendo aqui é que entender religiões é coisa complexa, mas, o que é feito hoje em dia com esse dualismo monoteísmo-politeísmo que foi imposto pelos cristãos é apenas preconceito. Não existe respeito ou inteligência nesta discussão. As pessoas não sabem o que estão falando e isso também não interessa.

As religiões abraâmicas são as únicas monoteístas e nem por isso são melhores do que outras religiões. Existem muitas formas de classificar uma religião, politeísta é apenas uma delas e se aplica a um grupo muito restrito.

As pessoas foram induzidas a achar que uma religião é monoteísta (boa) ou politeísta (ruim, atrasada). Isso serve a objetivos políticos e a sua estupidez. Assim toda a vez que alguém pergunta se a religião africana, ou qualquer outra, é monoteísta ou politeísta, isso significa que:

  • essa pessoa é idiota

  • ela já sabe a resposta

  • o objetivo é de praticar o puro preconceito

Eu recomendo responder a essa pergunta dizendo que é monoteísta, que tem um deus maior chamado Olódùmarè que tem divindades auxiliares que podem ser equivalentes a anjos, arcanjos, e santos. Assim se ter anjo é politeísmo então a deles também é.

Claro que isso é uma grande imprecisão, mas, a pergunta não é honesta e esta resposta vai deixar o interlocutor perdido sem saber o que falar a seguir. Vamos combater fogo com fogo.

Pessoas que pertencem a uma outra religião devem primeiro se informar para poderem primeiro entenderem a si mesmo e também poderem discutir com elementos de outras religiões, em vez de aceitarem tacitamente rótulos inadequados, seja pelo aspecto que é um uso inadequado de conhecimento seja porque a finalidade é de fato ofender. Assim temos uma dupla ignorância.


CONTINUAÇÃO: As sempre controversas fontes de informação

terça-feira, junho 09, 2020

Entendendo a religião Yoruba - Pt. 26 - O reflexo no Brasil e no Candomblé

ANTERIOR: Os católicos e o conceito de paganismo


O reflexo disso no Brasil e no Candomblé

Em função deste contexto, a religião africana, no geral, e no nosso caso o Candomblé, ganhou o cunho de paganismo e seus Deuses, tipicamente ancestres na sua origem, viraram forças da natureza.

Entretanto, não existe nada que dê valor a isso. No caso do Brasil, para piorar, o kardecismo francês criou toda uma visão espiritual própria que posteriormente a Umbanda se ligou a ela. Como a Umbanda erroneamente (tão errada como usa nomes de santos para seus guias ela usa nome de Orixás do Candomblé. Ambos sem nenhuma relação) se ligou a Orixás, essa mistura confundiu mais ainda as pessoas.

Assim, o Candomblé virou pagão e politeísta. A Umbanda que é uma religião brasileira e não tem vínculo nenhum com a religião Yorùbá, virou parte da tal matriz afro -brasileira e misturou o kardecismo na sua bagunça teológica. Por fim, o Candomblé passou a ser tratado pelas próprias Iyalorixá (Ìyálòrìṣà) como uma seita enquanto elas passavam a pertencer a irmandades católicas, a religião verdadeira, nas palavras delas.

O mal entendimento do Candomblé passou por essa associação histórica de coisas malucas, e, também, por pessoas como Nina Rodrigues que contribuíram para a confusão. Tudo isso acabou colocando as religiões não cristãs, no Brasil, em um mesmo saco, furado, de ideologia espírita.

Em função da lastimável e miserável formação religiosa dentro do Candomblé, estes conceitos de força da natureza, espiritismo e seita, se estabeleceram dentro do próprio Candomblé. Os Babalorixá (Bàbálórìṣà) e Iyalorixá (Ìyálòrìṣà), apesar de terem a propriedade para falar, mas, sem qualquer capacitação, passaram a repetir esses conceitos que lhes eram impingidos pela sociedade culta.

Os que não gostam de ver eu dizer que a formação religiosa do Candomblé é deficiente, devem observar que, o acesso a mitos ou poemas de Ifa, é restrito ou inexistente. O hábito de discutir teologia no Candomblé não existe. Você não consegue juntar 3 Babalorixá (Bàbálórìṣà) sem que seja para eles rasgarem seda entre eles ou brigarem entre si. Poucos estão dispostos a colocar em questão o que sabem ou o que pensam, exceto se for uma cátedra onde ele fala e outros ouvem.

Essas pessoas normalmente não são preparadas para falar em público, discutir suas teses, dirigir pessoas, lidar com desafios verbais e até mesmo orientar o aprendizado de pessoas. São muitas vezes pessoas muito boas, agradáveis e com conhecimento das suas liturgias.

Existe uma dificuldade na formação de sucessores. Pior, as pessoas não se preparam e se capacitam para ter uma casa. Existe uma legião de pessoas com pouco ou nenhum acesso a conhecimento que mesmo assim, sem legitimidade ou capacidade abrem casas e passam a ser autointitular de sacerdotes e representantes da religião.

É claro que essas pessoas, sem terem aprendidos com os seus mais velhos, tem que se virar com algo ou com o que tem. É neste campo que essas concepções idiotas florescem. O que mais vemos é pai de santo, metido a besta, que responde perguntas usando os conceitos do catolicismo misturado com o kardecismo-espirita. Mas, afinal, eles vão dizer o que? Que não sabem? Eles falam o que aprenderam e fazem a famosa “enrolação”.

É claro que a vertente conhecimento não é o forte do Candomblé. A vertente forte é a devocional, a fé. Para isso você não precisa saber o que é, você sente o que é e você também acredita porque sente e vê. A resposta mais comum para quando se pergunta uma coisa do tipo o que é o Candomblé ou o que é o òrìṣà (orixá) ou qualquer coisa de aspecto mais teológico será algo que começa com “…..eu amo meu òrìṣà (orixá)...” e por ai vai uma torrente de expressões de sentimento e fé. Isso reflete de fato o que eles sabem e eles sabem na verdade o que sentem.

Esse é o jeito pelo qual esse tipo de sincretismo é aceito e prolifera. Assim como os africanos fizeram no passado com os antropólogos, as pessoas sabem o que é, elas sentem o que é, e se esta definição, de elemento da natureza satisfaz o inquisidor, que o seja. Isso não impede entretanto que em espaços ou oportunidades como essa a gente possa visitar ou revisitar questões como essa, ou a reencarnação ou o conceito de nascimento e destino, as proibições, etc... evitando assim que da nossa própria boca saia coisas como o Karma.

É claro que saber ou não o que parece certo não faz uma pessoa fazer melhor um santo do que outro. àṣẹ (axé) e roncó é outra coisa, mas, não tem nada demais a gente poder tratar dos assuntos com outra base.


CONTINUAÇÃO: A questão do politeismo e monoteismo

sábado, junho 06, 2020

Entendendo a religão Yoruba - Pt. 25 - Os católicos e o conceito de paganismo

ANTERIOR: A origem do problema no sincretismo religioso


Os católicos e o paganismo

Uma das coisas que complicou bastante o entendimento das pessoas a cerca das religiões foi a hegemonia do modelo cristão no ocidente, com a extinção de outras religiões, não pela supremacia de um modelo teológico mais confortável para as pessoas e sim pela perseguição da espada.

Para tornar as coisas mais complicadas, como parte deste processo e emburrecimento, a igreja católica criou uma denominação genérica e sem nenhum significado real, de PAGÃO, para qualquer outra religião que não fosse Abraâmica, ou seja, que tivesse origem em Abraão o patriarca que gerou as correntes do Judaísmo, cristianismo e islamismo. Estas 3 religiões competem pela posse do mesmo deus e tem a mesma origem. Os Judeus não reconhecem mais ninguém, afinal eles é que são os escolhidos. Os cristãos, que nasceram judeus, reconhecem uma das partes do judaísmo que é o antigo testamento e por fim, os muçulmanos, os mais recentes, século VII, reconhecem tudo das anteriores, inclusive Jesus, mas não a trindade católica.

Dessa maneira ao longo dos últimos séculos, eles tem se matado e a outros inocentes, sempre em nome do mesmo deus sanguinolento, Jeová.

Para os Cristãos, que dominaram o mundo à força da espada, aliás como também o fizeram os judeus no seu tempo, o que não era católico era Pagão. Chamo atenção para esse comentário de esta ser uma raiz religiosa da guerra e violência. Em tempos diferentes Judeus, Critãos e Muçulmanos, na ponta da espada espalharam mortes e violência em nome de sua religião e deus.

Sobre a questão de paganismo, eles só não tiveram coragem de chamar os Judeus de Pagãos, mas criaram o termo herético, para aqueles que divergissem da interpretação teológica oficial de Roma... Assim, pagão, não tem significado religioso, significa, apenas, tudo o que não e católico.

Os abraâmicos consideram o seu deus, Jeová, o único, e defenestram qualquer outro tipo de manifestação religiosa. A partir do século XV a igreja católica baniu toda as praticas que mostrassem similaridades com simpatias, encantamentos e feitiços. A igreja medieval era totalmente esotérica, mas para se afastar disso eles baniram completamente essas práticas, de modo a poderem a partir do século XV dominar os seus fiéis através do temor ao mal, ao diabo e a perseguição ao pecado. Saiu a superstição e entrou o pecado como instrumento para controlar os homens.

Estudiosos do aspecto do mal na religião correlacionam o surgimento da força do diabo com a necessidade de um controle mais rigoroso da sociedade pela forma política, uma vez que, esse temor (ao diabo) e domínio (o pecado), não existiam anteriormente. Igualmente isso coincidiu com os papas generais, guerreiros que literalmente com a espada na mão construíram a Igreja que conhecemos hoje.

O próprio celibato, que não havia, dizem, foi devido a igreja passar a ter posses. Eles não queriam se envolver em disputas judiciais com esposas de padres, bispos e papas. Enfim, a força da reforma, de Lutero e Calvino, obrigou a igreja a mudar sua posição e adotar políticas mais ativas e restritivas ao seu clero.

No centro de todo este conflito ficaram outras religiões, politeístas ou não, que tinham uma interpretação diferente da divindade e dos seus poderes e de outras que não eram politeístas, mas, não eram abraâmicas. Essas religiões, todas em um mesmo saco, passaram a ser então a tradução da palavra paganismo.

A igreja, usando o princípio, que já expliquei, da estupidez humana, simplificou bastante a forma de entender as religiões. O que não era monoteísta era politeísta, e mais, somente estes 2 modelos se aplicam a uma religião. Além disso, como as religiões não são iguais e apresentam variações sutis no seu divino, basicamente as únicas religiões monoteístas existentes são as abraâmicas, as três que tem origem no mesmo deus. Neste critério de classificação todas as demais são politeístas, pagans e por isso mesmo, atrasadas.

No ponto de vista católico, Pagão é sinônimo de ruim, atrasado, politeísta e monoteísta é sinônimo de bom, de puro, de elevado.

Essa simplificação teológica foi ótima. Se encaixou nos objetivos políticos do papado e na estupidez das pessoas.

A palavra paganismo é usada para atacar as religiões significando na prática a ausência da fé e da crença em deus. Não é. Você não tem que acreditar nessa forma de deus que eles cultuam para ser uma pessoa de fé religiosa.


CONTINUAÇÃO: O reflexo no Brasil e no Candomblé

quinta-feira, junho 04, 2020

Entendendo a religião Yoruba - Pt. 24 - A origem do problema no sincretismo religioso

ANTERIOR: A origem dos orixá segundo a religião Yoruba


A origem do problema no sincretismo religioso

Uma das principais fontes para essa interpretação é o sempre danoso sincretismo religioso. É assim, as pessoas não querem pensar, não querem estudar, não querem entender, então simplificam comparando com alguma coisa que conhecem.

Este capítulo aqui é um pouco extenso e denso em informações, mas, é muito importante para entenderem de onde veio alguns preconceitos sobre a religião Yorùbá.

Podem acreditar que, não existe nada que eu tenha lido ou ouvido, de autentico da religião, e quando digo isso me refiro a versos de Ifá, que remeta a ligação de òrìṣà (orixá) como sendo um elemento da natureza.

Vou me explicar adiante quando falar diretamente sobre isso, mas, uma das origens disso, sem dúvida, é o sincretismo, mal feito, com as tradições pagans da Europa, em geral, incluindo a Grécia, religiões politeístas, na qual o panteão dos deuses dessas tradições era associado com comportamento, especialidades e elementos. A própria palavra “panteão” que, hoje em dia, é ainda largamente usada para o caso Yorùbá é uma palavra que se aplica a religiões politeísticas, o que não é o caso da religião Yorùbá.

Estas religiões, de fato politeístas, tinham uma característica comum que era a de dedicar cada um dos seus deuses a uma especialidade. Isto era necessário porque os deuses representavam o mundo que viviam e não uma divindade transcendente. Nas tradições politeístas, não existe uma divindade maior que origina ou controla o todo com poder superior às demais, a visão transcendental não fazia parte delas e, cada divindade ou deus, tinha que ser responsável por um aspecto do mundo. É um modelo lúdico, uma modelo de divindade terrena, distinto do modelo transcendente que se estabeleceu depois. Assim, a unidade, era, na verdade, formada pelo conjunto de todos os “deuses”.

Essas religiões ou cultos, criavam uma divinização que representava o mundo em que viviam. De uma maneira bem lúdica, o mundo era o divino e assim cada coisa dele em vez de ter uma ordenação natural ou científica era regido pela vontade de um deus. Este modelo onírico substituía a ciência na explicação dos fatos que nos cercavam e requeria bastante trabalho das pessoas no culto a muitas divindades para terem uma vida tranquila. Você tinha que agradar a um exército de deuses para evitar problemas, uma vez que você não tinha um protetor próprio nem uma hierarquia, qualquer deus, uma força da natureza poderia interferir no ambiente, inclusive contrariando outro.

Isso fazia da vida das pessoas uma coisa muito trabalhosa, ainda mais porque a natureza era bastante imprevisível. Dessam forma poderia sempre haver um deus-natureza insatisfeito ou ofendido com qualquer coisa e trazendo prejuízos a você ou a sua comunidade. Não é a toa que esse modelo foi facilmente superado pelo modelo das religiões atuais, com um divino unificado e transcendente.

Isso fica claro para você? Imagina viver seguindo uma religião de deuses que controlam tudo e tem que ser atendidos, cultuados e agradados. É um modelo que facilitava muito as explicações de que se algo ia errado era devido a algum deus insatisfeito. Esse modelo de religião jamais se sustentaria perante o libertador modelo teístico.

No politeísmo, o poder dos deus-natureza era dividido e não havia preponderância de uma divindade sobre a outra, exatamente como na natureza, onde uma força conflita com outra. Uma poderia fazer ou desfazer o que outra fez e o homem devia prestar algum tributo a todas se quisesse ter paz na sua vida. O modelo também não integrava o homem ao divino. Os homens sempre seriam homens e as divindades sempre divindades e os homens apenas um joguete nas mãos das divindades.

Este é o modo da natureza, as forças se equilibram pela harmonia ou pelo conflito. Claro que a existência de cada deus estava associado a necessidade de alguém controlar alguma coisa e por isso a necessidade de muitos deuses. O sentido da palavra panteão, que é usado incorretamente para a religião Yorùbá, é este, um vasto conjunto de deuses controladores da ordem.

Este modelo de religião, politeísta, bastante ancestral e lúdico, é bastante ultrapassado no contexto da civilização humana, tanto que foi abandonado sendo trocado não por uma religião em especial mas por muitas outras que ofereceram um modelo muito mais humanista, centrado na figura do homem.

O modelo politeísta é superficialmente conhecido por todos. As pessoas de fato não entendem as suas implicações. Conhecem suas histórias e narrativas mas não se aprofundam de fato na questão da relação divino-homem. Por esta razão não compreendem porque ele não se aplica religião Yorùbá.

O modelo teístico, o que venceu a disputa pelos corações e mentes da humanidade integra o homem com o divino. Observe o modelo yorùbá, no qual qualquer pessoa pode ser divinizada e transformada em orixá (Òrìṣà). É um modelo religioso que não exclui a humanidade do divino, não devemos favores ao divino, nós somos o divino.

No politeísmo dos deuses-natureza nunca seremos deuses, sempre seremos aqueles que vivem à margem da divindade dependendo de favores dela para sobreviver. Sem dúvida está claro porque esse modelo não foi para lugar algum.

Existe também a simplificação que as pessoas fazem sobre o conhecimento. O mundo é complexo, são muitas forças atuando, pensamentos diferentes, filosofias conflitantes ou complementares. Entender o meio que vivemos, sejam as pessoas ou a sociedade é bastante complexo. Contudo as pessoas fingem que são inteligentes e buscam simplificações para que possam se passar como cultas.

A maior parte das pessoas só consegue lidar com conceitos binários ou ternários e dessa forma fazem uma similaridade estúpida de uma religião com outras baseadas em 2 ou 3 características. Infelizmente as coisas são mais complexas que isso e é muito reduzido a quantidade de pessoas que consegue trabalhar com modelos conceituais e filosóficos.

Classificar a religião Yorùbá dentro deste modelo, politeísta, somente porque existem muitas divindade (e não apenas uma) e entender que essas divindades são forças da natureza porque a religião é praticada na natureza, é desprezar a sua complexidade e atualidade.

Claro que algumas coisas, além da ignorância e da preguiça mental aceleraram esse sincretismo da religião Yorùbá com as antigas correntes politeístas. Na África eles observavam o povo colocando oferendas em pedras, árvores ou em rios e conduzindo ritos em rios, morros e florestas. Então, a conclusão de muitos foi bastante óbvia, esses africanos cultuam pedras e rios..... As divindades que eram homenageadas ficaram então associadas com aqueles elementos ou como se fossem os deuses-natureza.

Poucos se deram ao trabalho de fato de entender porque aquilo era feito e qual o significado daquilo. Somem nisso o desprezo por uma sociedade tribal e a impossibilidade de entender uma língua estranha. Junte isso ainda ao uso de métodos e ética científica inadequada e teremos como resultado o que foi feito. Simples e ao mesmo tempo bastante estúpido. Isso levou os europeus a taxarem as religiões de animistas e de politeístas.

Mas, estamos no século XXI e não mais no século XIX.

Como eu tenho repetido é uma forma de preconceito com o povo e a sociedade africana, desprezando a sua capacidade de gerar uma religião equivalente às demais ocidentais e orientais. O modelo politeísta dos deuses-forças-da-natureza, não se aplica a religião Yorùbá.


CONTINUAÇÃO: Os católicos e o conceitoo de paganismo

terça-feira, junho 02, 2020

Entendendo a religião Yoruba - Pt. 23 - A Origem dos orixá segundo a religião Yoruba

ANTERIOR: A natureza dos Orixá


A origem dos orixá (òrìṣà) segundo a religião Yorùbá

Eu vou fazer uma abordagem tradicional e bem direta sem rodeios e nem invenções. Minha referência são os versos do Odù oxé-otuwa.

Esta religião tem um corpo literário que não é muito conhecido aqui no Brasil e no Candomblé. O conhecimento religioso esta registrado em versos que são divididos em 16 capítulos. Cada capítulo corresponde a um Odù. Assim são 16 Odù e cada Odù tem um conjunto variável de histórias contadas em versos. Podemos dizer que cada Odù pode ter até 16 histórias, em versos e tamanhos diferentes que podem ir de poucas linhas até páginas.

Isso é o corpo literário de Ifá (Ifá divination poetry ou Ifá Literary corpus). Esses versos contêm as informações sobre a religião. Tudo o que se diz da religião deve ter referência em um verso e Odù.

Como eu disse para vocês algumas palavras em Yorùbá tem vários significados. Este, o de serem os capítulos do corpo literário de Ifá é um dos significados para Odù.

O grande problema Yorùbá era que eles não tinham língua escrita. Foram os europeus que criaram uma representação escrita para o muito simples e por isso complicado idioma tonal Yorùbá. Por esta razão o corpo literário de Ifá era guardado por pessoas, Bàbáláwo, que dedicavam sua vida a decorar esses versos. Somente no século XX é que houve um intenso trabalho voltado para registrar esse corpo poético em gravações e em registro escrito, para evitar que se perdesse, mas, em função da colonização e escravagismo, muito já se perdeu.

A referência que usarei para explicar porque os Orixá não são elementos da natureza porque não tem esta função é um verso do Odù Oxétuwa. O texto completo estará no próximo capítulo.

Eu recomendo que seja lido, ele contêm inúmeros conceitos e fundamentos importantes. Este texto, que uso, foi extraído originalmente do livro Os Nago e a Morte, mas, existe em outras obras de autores diferentes, incluindo o Nigeriano Wande Abimbola.

Dessa maneira, este texto é confiável.

A história narrada se temporiza após a gênese. O mundo já estava criado e sendo populado por Olódùmarè, a alta divindade suprema Yorùbá. Em outra oportunidade abordamos a Gênese segundo a religião Yorùbá.

Neste Odù fica claro que Olódùmarè criou o mundo, populou-o com os homens e enviou os òrìṣà (orixá) para poderem ajudar os homens na sua vida, na superação das dificuldades.

Eram 16 e havia somente uma mulher entre eles, Óxun, que representa o poder feminino original.

Desta forma, se os òrìṣà (orixá) foram enviados para suportar os homens de calamidades naturais, os Ajogun, não poderiam eles mesmos serem os próprios elementos da natureza, conforme a visão das religiões pagãs europeias.

Este Odù estabelece uma distinção muito clara entre as divindades e Olódùmarè, suas funções e a natureza, desvinculando um de outro.

Na religião Yorùbá as divindades são chamadas de inrumolé (Irúnmọlẹ̀). Um subgrupo dos inrumolé (Irúnmọlẹ̀) são os òrìṣà (orixá). Os òrìṣà (orixá) estão ligados a nós, mas, existem divindade, inrumolé (Irúnmọlẹ̀) que não estão ligados a nós.

Dentro do grupo dos òrìṣà (orixá), existe ainda a divisão deles em 2 tipos de orixás. O primeiro grupo são os orixás originais, divindades da criação, que já existiam na Gênese e faziam parte do grupo de 16 que foi enviado por Olódùmarè. O outro grupo são os ancestres divinizados, pessoas, homens, que ganharam muita importância e relevância junto ao povo de foram divinizados, se transformaram em Orixás.

É importante entender que as pessoas humanas, homens e mulheres podem ser divinizados e se transformarem em òrìṣà (orixá). Por essa razão as pessoas fazem parte de um grupo privilegiado no cosmo Yorùbá, como vocês vão ver quando eu explicar isso.

Assim, vamos fazer uma revisão do que eu disse até o momento. No texto do Odù Oxétuwa, que vocês DEVEM ler (está a seguir), está claro que Olódùmarè enviou os òrìṣà (orixá) para suportar a vida humana na terra, devido às muitas dificuldades que as pessoas iam encontrar aqui. Esta abordagem, documentada em versos de Odù, completamente confiáveis, desvincula completamente os òrìṣà (orixá) de serem elementos da natureza, porque o mundo já estava criado e eles foram enviados depois, junto com a humanidade.

Além disso, o conjunto de divindade Yorùbá não é formado por um grupo fixo, pré-determinado e cada um com funções específicas. Existiram os primeiros 16 que foram enviados para criar o mundo, mas, existem muito mais inrumolé (Irúnmọlẹ̀) do que esses 16. Os òrìṣà (orixá) representam um subconjunto dos inrumolé (Irúnmọlẹ̀) e eles são vinculados a nos suportar.

O conjunto de òrìṣà (orixá) não é finito. Ele pode ser composto por divindades originais mas, também, por humanos que devido a sua relevância se divinizam e se tornam òrìṣà (orixá).

Tomemos por exemplo as divindades femininas que tiveram uma origem comum somente em um Orixá, Óxun, a única que estava na criação. Oya que muitos consideram como sendo o vento não poderia o sê-lo porque ela é claramente um ancestre divinizado, e o vento já existia antes dela. Antes de Óiá (Ọya) ser divinizada junto com Xangô (Ṣàngó) o vento já existia a milhares de anos e nunca prescindiu de Óiá (Ọya) que era apenas uma mulher.

Óiá (Ọya), bem como todas as divindades femininas são cultuadas e associadas com o elemento água. Assim Óiá (Ọya) esta ligada ao Rio Ògún e Óxun (Ọ̀ṣun) ao rio com seu nome, Iyemoja , outra divindade bem conhecida, também está ligada a um rio, Olookun ao mar, as ajé são as que possuíam os 7 rios da terra na sua criação, Iyewa também a água e até Nana que nem é Yorùbá esta ligada a água. Observe então que existe uma tendência dos Yorùbá associarem divindades femininas a rios, não necessariamente a água.

O elemento água, especialmente está ligado a Óxun (Ọ̀ṣun), é o único elemento que sozinho pode gerar e sustentar a vida e está associado sempre a existência de vida. Tudo isso tem origem em Óxun (Ọ̀ṣun).

Se a água é um Orixá, qual ele será? Não, a água não é um orixá.

Ṣàngó (Xango) é dito ser o fogo, mas a real ligação dele com o fogo foi a capacidade que adquiriu de manipulá-lo, o que também foi feito por Ọya segundo um mito conhecido por todos no Candomblé. Ṣàngó (Xango) também está associado com trovões e raios, sim, mas por manipulá-los porque ele é considerado a justiça de Olódùmarè, ou a sua ira, e joga os raios contra pessoas que de tão ruim que foram não merecem mais viver. Igualmente após a sua morte o mito diz que ele jogou raios contra as pessoas que diziam que ele tinha se enforcado.

No mito da criação, a terra foi criada por Olódùmarè e só havia a água. Ele deu a bolsa da existência contendo os elementos que seriam plantados e depois espalhado para formar a terra. Depois de tudo criado, conforme o Odù oxetuwa os òrìṣà (orixá) foram enviados para suportar a vida ensinando os homens a se relacionar com o divino.

Os elementos, a terra, a vegetação, foram trazidos do Órun pelos Orixás da criação.

Assim sendo o que ocorre é que os òrìṣà (orixá) como representantes ou intermediários de Olódùmarè e os homens passaram a ter poderes sobre determinados elementos da natureza, que eles trouxeram, que vão desde a água a doenças, mas, isso na sua forma controlada e organizada e não na sua forma violenta.

Uma coisa é ter controle sobre uma coisa na sua forma suave outra é ser ou ter controle total. Assim por mais que se faça uma oferenda um furacão, um tsunami, um terremoto e uma seca não poderão ser evitados. Essa é uma manifestação descontrolada da força da natureza, os òrìṣà (orixá) ajudará os homens a se prevenir ou superar as consequências disso.

Isto está descrito no texto do Odu Oxétuwa e coloca um ponto final nesta relação.


CONTINUAÇÃO: A origem do problema no sincretismo religioso

domingo, maio 31, 2020

Entendendo a religião Yoruba - pt. 22 - O que são os Orixá?

ANTERIOR: A morte e o pós-vida


O que são os Orixás?


Uma das questões mais comuns nesta religião é a das pessoas definirem os orixá (Òrìṣà). É bastante constrangedor. Enquanto no catolicismo as pessoas sabem dizer facilmente quem é deus, Jesus, anjos e santos e entendem a diferença entre eles, nesta religião existe uma grande dificuldade em explicar sua principal divindade, sob o ponto de vista da vida humana no Àiyé, os orixá (Òrìṣà).

O grande problema, na minha avaliação é que esta é uma outra religião e as pessoas carecem de entender sua teologia e cosmogonia. Elas aprendem a religião católica, entram para o Candomblé e Ifá e se preocupam em fazer ebó (Ẹbọ), não se preocupam em entender em que religião estão;

Estou, chovendo no molhado, a finalidade deste longo texto é isso, explicar, mas, nada é mais evidente do que quando tratamos de orixá (Òrìṣà). Em capítulo anterior eu já expliquei o posicionamento de orixá (Òrìṣà) no cosmo yorùbá, agora, neste capítulo, vou explicar a essência do orixá (Òrìṣà), a principal divindade para a vida humana, aquela que realmente nos interessa.

A sguir vocês terão dois capítulos longos, mas, interessantes. Sugiro ler com calma e entender o que estão lendo. Eu lamento apenas esse ser um capítulo longo, mas, em vista da enorme quantidade de pré-conceitos existentes, é necessário um trabalho mais minucioso.

A natureza dos Orixás

Este capítulo é um pouco extenso, mas, trata de um assunto importante que principia o entendimento desta religião. Apesar de extenso ele tem muita informação, da forma como foi estruturado, quando mais você ler, mais você vai saber sobre o assunto, mas em qualquer ponto que parar você já vai ter entendido a minha posição.

A motivação de eu escrever, longamente, sobre este assunto é que existe um conceito generalizado que associa os òrìṣà (orixá) a elementos da natureza no sentido literal (e não figurado) de forma que cada òrìṣà (orixá) é dito ser um elemento da natureza.

Esta, é uma bobagem que está sendo repetida milhares de vezes e que com isso acabou virando uma verdade para muitos, principalmente aqui nas tradições da diáspora. Estou aqui dando minha contribuição para acabar com isso, porque, depois de me debruçar sobre esse assunto, analisando referências teológicas e, mais ainda, versos de Odù, eu tenho uma opinião completamente divergente e gostaria de apresentar aqui.

Parece um início esquisito, porque, em vez de explicar o que são os orixá (Òrìṣà) eu tenho que explicar o que eles não são. Sim, bem estranho. O que são os orixá (Òrìṣà) já está explicado no capítulo sobre o cosmo metafísico e no capítulo seguinte, sobre o Odù oxé-otua, isso será concluído. Se você tem inteligência e capacidade de interpretar texto, ao ler o Odù oxé-otua e minhas explicações terá entendido o que são os orixá (Òrìṣà) e seu papel. Contudo, eu preciso iniciar com esse longo texto para desconstruir o pré-conceito dominante.

Assim principiando, pessoas quando questionadas sobre a religião ou mesmo sobre òrìṣà (orixá) iniciam afirmando que o Candomblé é uma religião ligada da natureza e que os òrìṣà (orixá) são a própria natureza ou, elementos grandioso desta natureza, como água, terra, pedra, fogo, trovão, vento, etc….

Isto está errado. De fato não são muitas pessoas que conhecem bem a religião e essa tem sido a saída mais fácil para as pessoas responderem aquilo que não sabem. Não precisa fazer muito esforço, vai ser muito fácil encontrar este ideário em livros ruins e na internet em textos copiados e mal produzidos.

Mas, existem também pesquisadores que falam dessa forma, de modo que, esse meu texto é longo porque tem que endereçar esses dois grupos, seja os das pessoas que não conhecem e repetem, seja os das que conhecem e repetem da mesma forma.

Assim, o posicionamento deste texto é o de que as pessoas descrevem para outras que os òrìṣà (orixá) são os elementos da natureza, mas, isso é um engano. Esta é minha posição e vou explicar detalhadamente aqui neste texto.

A minha conclusão, após avaliar esta situação, é que este erro ocorre por diversos fatores. O principal é que é fruto de um sincretismo religioso, equivocado, entre religiões que não guardam semelhança. É uma forma equivocada de comparar ou tornar equivalentes, diferentes religiões, feito por pessoas levianas. Por fim, e mais importante ainda, é uma parte do grande processo que houve, inclusive entre os ditos estudiosos, de desprezar a religião Yorùbá em função da dificuldade ou do preconceito para entendê-la de fato.

Podemos encontrar e ter que aceitar uma posição, por exemplo, de que os òrìṣà (orixá) seriam ancestres, pessoas que foram divinizadas e desta forma pais da nação Yorùbá. Podemos também entender que mesmo em vida eram pessoas poderosas dotadas de forte poder mágico e que os permita manipular alguns elementos primários da natureza, mas, jamais, podemos confundir os òrìṣà (orixá) com elementos da natureza.

Alguns podem neste momento questionar: Por que estou eu aqui querendo questionar isso? Minha resposta é simples, para que se possa, de fato, entender o que é esta religião e entender a sua proposta para tornar melhor a vida das pessoas.

É importante entenderem que na religião Yorùbá existe uma divindade suprema, que esta acima de tudo e de quem vem toda a criação e manutenção dos seres viventes, ela é Olódùmarè, o deus Yorùbá. Abaixo dele existe todo um mundo espiritual com divindades de diversos tipos e hierarquias. Um tipo muito especial e que nos interessa são os òrìṣà (orixá). Estas divindades têm como objetivo nos ajudar em nossa vida no mundo natural.

Nossa ligação com os òrìṣà (orixá) é muito íntima e todos temos na formação do nosso corpo espiritual um pedaço de um òrìṣà (orixá (Òrìṣà)), uma essência dele, que se torna então o nosso òrìṣà (orixá) e um dos nossos protetores, através desta ligação espiritual. Temos, todos, um protetor principal, que é uma divindade pessoal que, aqui no Candomblé, chamamos de Ori. De fato, como muitas palavras Yorùbá, Ori serve para muitos significados, mas, entendamos que um dos significados é de uma divindade pessoal e nossa protetora maior, o chamado enikeji.

Em relação aos òrìṣà (orixá) existem 2 tipos principais. Existem os que são os òrìṣà (orixá) da criação, que já existiam antes do mundo natural ser criado por Olódùmarè (da Gênese). Existem também os òrìṣà (orixá) filho, ou eborá, que surgiram depois e que normalmente são seres humanos divinizados. Sim, é muito importante entender isso. O ser humano por suas obras e importância para sociedade pode ser divinizado e se transformar em um òrìṣà (orixá), com mesmo status dos òrìṣà (orixá) da criação.

Ao se transformar em òrìṣà (orixá) ele irá também fazer parte do corpo das pessoas que nascem no mundo natural.

Aqui temos mais um conceito para entender, os Yorùbá entendem que existe um mundo espiritual que é um reflexo no mundo natural. As pessoas vivem no mundo espiritual e ciclicamente nascem (encarnam) no mundo natural. Ao nascer aqui elas necessitam de um corpo, esse corpo é produzido por um òrìṣà (orixá) e recebe elementos que vai individualizá-lo tornando cada indivíduo único.

Nesse processo de individualização o òrìṣà (orixá) fará parte. Assim, nosso espírito vive no mundo espiritual de forma independente de òrìṣà (orixá), mas, quando nascemos aqui no mundo natural um deles fará parte íntima de nossa existência e de nossa proteção para que possamos viver e atingir os nossos objetivos para essa vida.

Esses elementos que são agregados ao nosso corpo físico (orixá, Odù, Ori, alma, caráter e ancestralidade) nos transformam na pessoa que somos.

Nesta concepção errada que fazem de òrìṣà (orixá), Xangô virou o fogo e o trovão. Oyá virou o vento e o raio. Óxun virou a água. Os demais não sei bem o que viraram, essa criatividade, sem pé nem cabeça, para mais ou menos por ai. Vejam, alguns orixá (Òrìṣà) são associados com a natureza mas outros não ou nem tanto. Mas a correspondência que essas pessoas fazem de òrìṣà (orixá) e elemento da natureza é falha e confusa por si só.

Então veja, quem entende alguma coisa de òrìṣà (orixá), sabe que Ṣàngó (Xango) é um eborá, um òrìṣà (orixá) divinizado e não um dos òrìṣà (orixá) originais assim (apesar dessa posição ter uma outra vertente diferente). Como ele poderia ser o fogo, o trovão ou um vulcão, que são elementos que existem desde o início dos tempos? O vento é Oyá? Mas ela também é divinizada, assim, o vento já existia antes dela, e ela não poderia ser o vento, uma força da natureza. Na Nigéria a sua história esta associada com um Rio. Óxun (Ọ̀ṣun) é uma irúnmalẹ̀ (irunmalé) um òrìṣà (orixá) original da criação e poderia sim estar ligada com a água, mas ser a água?

Para os yorùbá existem muito orixá (Òrìṣà), muito mais do que podemos conhecer. Lá não existe apenas uma dezena, existem centenas e, por exemplo, vários estão associados a água, na verdade, existe uma categoria comum, que é o de orixá (Òrìṣà) associado a água. Por fim, sem exaurir o estoque de bobagens, as pessoas dizem que Oxalá (Òṣàlá) é o ar, por que?

Nunca encontrei isso nos versos de Odu. Não existe nenhum lugar em versos que eu tenha lido, e já li muitos, que faça uma mínima correlação disso.

Isso, na verdade, mais parece uma brincadeira de ligar coisas da coluna da direita com a da esquerda, assim coloque os òrìṣà (orixá) que você conhece na esquerda e os elementos da natureza que você conhece na direita, ligue agora um com o outro. Provavelmente vão faltar coisas de um lado e de outro ou mais de um estará ligado a mesma coisa. O que estou dizendo em palavras bem simples é, isso é uma bobagem.

Uma outra forma de ver òrìṣà (orixá) é através de uma divisão no qual existe 401 orixás da direita, que são forças boas e 201 da esquerda que seriam forças malévolas. O que significa essa frase? Vamos em partes. Primeiro, entender Yorùbá não é apenas pegar um dicionário e traduzir. Existem muitas expressões e situações que fazem parte do povo e da cultura e que não se traduz, se explica.

Os Yorùbá não tem aritmética, números são substantivos. Para eles 200 não significa o número 200. O número 200 nesta frase significa o mesmo que “muita coisa” isso porque 200 é uma quantidade muito grande de coisas para se ter ou contar. Os Yorùbá não estão dizendo que existem 200 òrìṣà (orixá), eles estão dizendo que são muitos.

O número 400 quer dizer que existem muito mais divindades do bem do que do mal. Dessa forma, repetindo eles querem dizer que existem muitas “da esquerda” e muito mais ainda “da direita”. Dessa maneira existem muito mais forças do bem do que do mal.

E o número 1? O que significa? Ele quer dizer que esta quantidade não é precisa e que sempre está aumentando, sempre pode ter mais um, pelo processo de divinização.

Feita essa introdução vou ao ponto de dizer que na religião Yorùbá não existe um “Panteão” de deuses. Não é igual à religião grega que existem uma quantidade e qualidade específica de deuses com finalidades definidas. A religião grega e seu “panteão” significam isso, um conjunto bem definido de divindades, todas elas com um propósito e uma função e sem uma divindade maior.

Na religião yorùbá, a quantidade de òrìṣà (orixá) varia e mais, é indefinida. O número é indeterminado pela simples razão que não faz a menor diferença a quantidade ou quais são. Neste contexto, como podemos associar a religião yorùbá a um panteão? Como podemos associar orixá (Òrìṣà) a finalidade específica?

Não existe, originalmente, esta definição usada aqui no Brasil de seriam 16. Por algum motivo histórico qualquer se estabeleceu que seriam 16, o que não é verdade, e que eles seriam fixos, todas as pessoas estariam relacionadas a um desses 16.

Veja, a diáspora foi muito importante e o formato de nossas tradições religiosas afro-brasileiras deve ser respeitado e eu estou muito distante de ser favorável a africanização, mas, não podemos deixar de compreender a religião como ela é. E a existência de apenas 16 orixá (Òrìṣà), não é uma verdade nesta religião! Não existe esta regra ou dogma para isso.

Eu sempre tento separar muito bem o que seja a religião Yorùbá e o Candomblé, respeitando que nossa tradição pode ter tomado rumos distintos na sua prática e formato, mas, existe uma teogonia e teologia básica e dogmas que devem ser respeitados, senão isso não é uma religião é uma coisa qualquer.

Não existe no modelo religioso Yorùbá uma predefinição de quem são ou quantos são os òrìṣà (orixá). Podem ser mais ou menos, cada região que defina.

O Verger, que não era antropólogo e sim um fotógrafo francês rico, fez um grande trabalho para nós quando mostrou o que havia na África de fato e jogou por terra um monte de literatura ruim que era consumida aqui. Ele estudou e documentou muita coisa, mas, não quer dizer que tivesse a maior propriedade de tratar de todos os temas. Ele disse que a religião Yorùbá era um politeísmo, ele não reconhecia a posição de Olódùmarè. Estava errado. O tempo e os inúmeros pesquisadores mostraram isso. Ele poderia ter usados várias classificações, essa, sem dúvida, era muito ruim e ajudou essa questão de panteão Yorùbá.

Pesquisadores observaram que o modelo adotado na região Yorùbá era mais próximo do que se pode chamar de um “monoteísmo justaposto”. Luis Nicolau Parés no seu ótimo livro “A formação do Candomblé”, coloca que “baseado na análise de Orikis dos òrìṣà (orixá) e dos versos de Ifá, Mckenzie concluiu que, fora o caso de Xango, Obatalá e a tríade de Ifá (Esu-Orunmila-olodumare), os cultos de òrìṣà (orixá) não apresentam quase nenhuma alusão verbal a outras divindades, sugerindo um relativo separatismo entre eles e a ausência de um panteão fixo ou estabelecido”.

Bingo!

Os livros de Parés são muito bons e as pessoas ainda vão dar mais valor ao que ele escreve.

Assim, cada região ou aldeia praticamente tratava do culto de apenas 1 divindade, isso caracterizava um modelo quase de monoteísmos justapostos, no qual, vários “monoteísmos” se sucediam à medida que se caminhava pela geografia. Esta é uma explicação complexa e não definitiva, mas, serve para mostrar o tipo de prática que se encontrava lá.

Entender as sociedades não é simples. Entender as religiões também não. O pior que se pode fazer é adotar o caminho da simplificação buscando similaridades e comparações, evitando o trabalho de mergulhar na sociedade, seus valores e história para então entender seu contexto social e religioso. Ocorre que as pessoas não tem tempo, querem fazer tudo muito rápido.

Outra coisa, comentário meu, é que o ser humana evita a complexidade do mundo real. Tudo é reduzido a um maniqueísmo a um sistema binário.

Mckenzie foi muito preciso na sua observação, bem como na de que era Ifá quem trazia em seu corpo e prática a teogonia e teologia que dava estrutura à religião. O culto diário, a prática das pessoas era de fato a prática da religião de òrìṣà (orixá) e o modelo Yorùbá não se estruturava como montamos a nossa diáspora.

Quando buscamos outros autores sérios como Baba Tunde lawal podemos ver que apesar de diferenças nas práticas regionais, nos nomes e na forma, a estrutura religiosa Yorùbá se espalhava igualmente por toda a região Yorùbá. Cultos mudavam de nome, òrìṣà (orixá) trocavam de nome mas o espírito da coisa, a finalidade era a mesma e havia o Ifá unindo tudo isso. Ifá era uma das poucas coisas comuns e tinha a sua tríade principal.

Luiz Marins, pesquisador brasileiro fez sua tese classificando a religião de Orixaísmo evitando assim enquadrar a religião Yorùbá em uma das denominações existentes. Eu mesmo já abordei esse tema antes de ver essa definição de Mckenzie, fiquei feliz em ver que minhas observações e ilações não eram únicas e também divergentes do Verger e de outros, que se somam chamando a religião de politeísta, considero que essa é a pior definição. Não cheguei ao ponto do Luiz Marins mas coloquei minha visão.

O processo de agregação de òrìṣà (orixá) foi tardio, foi feito pela diáspora e retornou para a origem. Aqui no Brasil certamente houve uma grande influência do Jeje para esse modelo. O Jeje diferente do modelo Yorùbá possuía um panteão, ou melhor alguns panteões. Esses panteões se combinavam, uniam e incluíam divindades de fora. Uma casa combinavam muitos Voduns. Ortodoxia nunca foi o forte no Jeje mesmo na África.

Esta falta de ortodoxia tem uma explicação simples e histórica. Um dos reis do Dahomey, grande conquistador tinha como método absorver a religião dos povos conquistados, incorporando suas divindades às suas de modo a estabelecer um melhor controle cultural. Isso era um método de conquista que acabou mudando sua religião.

Na verdade, o modelo religioso do Dahomey era bem menos consistente, mais disperso e mais primitivo do que o modelo Yorùbá. O modelo Yorùbá foi importado no início do século XVIII e enxertou a religião deles com Ifá, com a divindade suprema e com Eégún, tudo isso ausente da religião Jeje e estabelecida tardiamente como parte do modelo.

Aqui no Brasil o modelo Jeje só se manteve porque ficou à sombrada teogonia e do modelo litúrgico Yorùbá, dificilmente iria ter uma relevância maior sozinho. As casas Jeje integram orixá (Òrìṣà) e a coisa mais difícil em uma casa Jeje da atualidade é encontrar um Vodun.

A junção e agregação de várias divindades no mesmo culto foi fruto da diáspora e da convivência do modelo yorùbá, através do Candomblé Ketu, com o Jeje que tinha uma abordagem completamente anárquica para tratar essa questão de divindades.

Na teogonia Yorùbá, quem traz a tríade Olodumarê-orunmila-esu é Ifá. É através dele que essa tríade passa a ser conhecida. No âmbito da vida das pessoas o que você via lá eram òrìṣà (orixá). Para se entender o modelo religioso tem que se olhar o conjunto, iniciando com a visão de Ifá que é quem estrutura o cosmo e a religião e buscando os cultos como de orixá e Eégún, além de manifestações adicionais como Geledé (Gẹ̀lẹ̀dẹ́) e ajé (Àjẹ́) como aspectos colaterais.

Esta visão de conjunto monta o entendimento da religião, mas, se você analisa apenas o dia a dia das pessoas e comunidade, como Verger o fez, poderia entender que é um politeísmo. Mas essa é a apenas uma visão fragmentada do todo, Verger nunca viu o conjunto como uma religião ele nunca teve uma preocupação ou abordagem teológica.

Dessa forma o modelo Yorùbá não tem panteão e não suporta de forma alguma a designação de òrìṣà (orixá) como elementos da natureza. O agrupamento dos òrìṣà (orixá) em um mesmo espaço foi um fenômeno da diáspora e da formação da nossa tradição religiosa, o Candomblé.

Essa é uma visão muito onírica dos òrìṣà (orixá), um sincretismo com a religião greco-romana e com religiões europeias, como a bruxaria tradicional, wicca, etc….

O preconceito é a raiz disso tudo. As pessoas não esperavam encontrar uma religião complexa junto a um povo simples, como os Yòrúba, assim, elas avaliaram superficialmente a religião e fizeram associações dela com outras que eles conheciam.

Essa ligação de uma divindade com os elementos da natureza existe em algumas tradições religiosas, muitas delas politeístas puras de fato, que não é o caso da religião Yorùbá. A mim parece mais uma forma de sincretizar a religião africana com formas politeístas e animistas seja por preguiça ou preconceito.

Por esta razão, dizer que os òrìṣà (orixá) são as forças da natureza como eu canso de ouvir é o mesmo que dizer que Ṣàngó (Xango) é São Jerônimo, Ọya é Santa Barbara, Ògún é São jorge. É o mesmo que ouvir babalorixá explicando a vida e a reencarnação usando a doutrina espírita.

Além desta explicação inicial que já pode ser suficiente para muitas pessoas vamos aprofundar a análise desta questão dividindo o assunto em partes e explicando cada uma delas.

Primeiro, vamos falar sobre a responsabilidade do sincretismo nesse processo. Depois vamos tratar da influência do entendimento incorreto da cosmogonia da religião. Vamos comentar um pouco sobre o problema gerado por estudos ruins feitos por antropólogos e estudiosos e, por fim, vamos falar um pouco do cosmo Yorùbá para situar o entendimento de todos no modelo que eu considero adequado.

Quem leu até aqui já tem argumentos em quantidade e qualidade para desqualificar a relação de orixá (Òrìṣà) com elementos da natureza e quem seguir vai entender isso com mais detalhes.

Como sempre lembro que tudo o que é escrito aqui representa a minha opinião, representa a minha análise sobre o que eu estudei e vivencio e estou muito longe de me considerar o dono da verdade ou mesmo infalível.


CONTINUAÇÃO: A origem dos orixá segundo a religião Yoruba

sábado, maio 30, 2020

O cosmo e os Orixá

Nas próximas semanas, a partir de amanhã, estará sendo publicado em um ritmo acelerado, poucos dias entre as postagens o texto do Cosmo Yoruba, que explica o que são os Orixá.

Não deixe de ler e acompanhar. Esse texto estabelece um tratamento teológico para tema e apesar de representar minha visão para o assunto é feito em bases estruturadas, com fontes e informações e modo que independente de serem minha ilações, cada um, pode refletir sobre o assunto com as informações que serão colocadas.

Ele, o texto, estará baseado em versos de Ifá de Odu importantes, que devem ser conhecidos pelas pessoas que se interessam por essa religião e a partir do que está neles iniciar a discussão sobre esse assunto, esquecendo o que pensavam antes.

sexta-feira, maio 29, 2020

Olóòkun e as crianças de orixá (Òrìṣà)

Introdução

Esta história sobre Olóòkun é bastante interessante. Foi extraída de um verso de Ifá e não diz respeito a Olóòkun ela tem uma mensagem poderosa que quero trazer aqui.

Como eu sempre falo mensagens tiradas de versos de Odù são muito complicadas porque uma mesma situação tem recomendações diferentes para pessoas diferentes dependendo do contexto. Existem poucas mensagens que são absolutas.

Essa aqui é uma pouco diferente e merece destaque.

O trabalho do Bàbáláwo é analisar essas história junto com o consulente e entender como isso se encaixa na vida e nos problemas dele. É um trabalho de detetive e psicólogo, as vezes de filósofo. Se Bàbáláwo não é para qualquer um.

Recomendo que leiam essa história e façam sua análise.

Antes disso, uma observação. Olóòkun é considerado um orixá (Òrìṣà) masculino em toda a terra yorùbá. A origem deste orixá (Òrìṣà) é no Benin (não é Dahomey) e na sua origem é masculino. Somente é Ifé ele é considerado feminino. Essa história possivelmente é de Ifé porque mostra orixá (Òrìṣà) como feminino.


Olóòkun e as crianças de orixá (Òrìṣà)

Em termos de acumulação financeira e de ativos, Olóòkun foi a divindade mais bem-sucedida criada por Olódùmarè. Ela possuía quatro quintos de todos os recursos na Terra. Ela controlava muito mais coisas na terra do que todas as outros inrumolé (Irúnmọlẹ̀), orixá (Òrìṣà) e seres humanos juntos. Ela era um orixá (Òrìṣà) muito honrada e respeitada. Seu festival anual também era o maior evento do mundo.

Sempre que ela convidava inrumolé (Irúnmọlẹ̀), orixá (Òrìṣà) e seres humanos para sua celebração, eles deveriam vir com, pelo menos, um de seus filhos. Quando os convidados chegavam à festa, algo acontecia que afetaria seus filhos. Quando chegava a hora de começar a cerimônia, as crianças que acompanhavam os pais, ou seriam levados pelo mar ou eles perderiam suas vidas se afogando no oceano. A maioria dos que participaram da cerimônia voltaria para casa sem os filhos e com uma longa e triste história para contar aos outros.

Chegou a data em que Olóòkun convidou todos os 401 inrumolé (Irúnmọlẹ̀) para sua festa anual. Todos eles deveriam vir com, pelo menos, um de seus filhos. Era impossível que eles se recusassem a comparecer porque esse não era o caminho das Divindades. Foi quando Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) finalmente decidiu ir para consultar Ifá: O que devo fazer para evitar a perda do meu filho se eu participar do festival anual de Olóòkun?

O Bàbáláwo disse a Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) para oferecer um ebó (Ẹbọ) om duas cabras adultas; uma seria para o ebó (Ẹbọ) e a outra seria entregue a Olóòkun ao invés de seu próprio filho. Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) foi instado a oferecer o ebó (Ẹbọ) antes da data do festival. O Bàbáláwo assegurou que, se fizesse isso, seu filho seria poupado. Ele também foi advertido a não para ir à cerimônia com qualquer um de seus filhos. Ele obedeceu.

No dia da cerimônia, todos os convidados vieram com seu filho. Somente Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) foi lá com sua própria cabra. Todos aqueles que o viram pensaram que ele era louco ou cínico. Todos foram instruídos a trazer ao menos um de seus filhos, então por que Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) veio com uma cabra ? Todos os convidados estavam totalmente convencidos de que Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) receberia a humilhação de sua vida naquele dia porque Olóòkun não acharia esse estranho senso de humor um caso engraçado.

Quando chegou a hora das crianças irem comemorar com Olóòkun, um por um, todos os convidados foram adiante e entregaram seus filhos. Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) também foi adiante, mas entregou sua cabra. Na presença dos pais, as crianças foram levadas para o mar. A maioria deles foi lavada enquanto os restantes se afogaram bem nos olhos de seus pais! A cabra foi abatida para consumo, também na presença de todos os convidados.

Antes do final da cerimônia, Olokun convocou Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) e todos os outros convidados para sua presença. Todos eles esperaram ansiosamente para testemunhar como Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) receberia o esculacho que ele merecia. Como ele ousa trazer com ele uma cabra quando todos os outros trouxeram seus filhos, eles se perguntavam?

Quando todos se reuniram, Olóòkun enfrentou Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) e Perguntou; "Por que você escolheu trazer uma cabra quando você deveria vir com um de seus filhos? Você pode se explicar a todo mundo aqui, o que está por trás de sua ação?

Todo o encontro ficou completamente silencioso. Eles queriam ouvir suas razões para se comportar de maneira tão engraçada. Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) pigarreou e com um sorriso, ele respondeu: “depois de deliberar profundamente com o meu Orí, concluí que isso me traria muita tristeza e agonia pelo meu filho amado a ser morto diante de meus olhos. É por isso que eu decidi trazer uma cabra comigo. Se a cabra fosse morta, como você fez, não me machucaria nem me causaria pesar como esse

faria se fosse a morte do meu próprio filho. Por isso não pude trazer minha

criança para esta cerimônia e ver meu filho morrer diante dos meus olhos.

Esse é o seu motivo?”, Perguntou Olóòkun. “Sim, essa é a minha razão”, respondeu Órunmila (Ọ̀rúnmìlà). Olóòkun então voltou sua atenção aos outros convidados que haviam perdido seus filhos. Ela então perguntou a eles ”por que nenhum de vocês raciocinou da maneira que Órunmila (Ọ̀rúnmìlà)? Nenhum de vocês é menos brilhante. Todos que são brilhante não são inteligentes. Aqueles que são inteligentes faltam entendimento. Aqueles que têm entendimento entre vocês não sabem como combiná-lo com sabedoria. Quem tem sabedoria não sabem como aplicar sua retrospectiva e previsão de qualquer maneira! Vocês são todos tolos! Vocês todos foram trazer seus filhos para o meu festival e toda vez que eles têm morrido.

Não foi suficiente a primeira experiência para ensinar a todos uma lição? Você não pode emprestar uma folha em retrospectiva? Por que nenhum de vocês poderia prever que isso no ano seguiinte teria o mesmo padrão do ano passado e do ano anterior? Você todos continuaram trazendo seus filhos aqui para serem mortos! Onde estão seus cérebros? De repente seu cérebro vazou de seus ouvidos? Vocês são os inrumolé (Irúnmọlẹ̀) ao quais os assuntos do mundo repousam em suas mãos? Vocês são todos tolos!

De qualquer forma, não se preocupe mais com isso. No próximo ano, traga seus filhos novamente e testemunhe eles serem mortos!

Ela então parou um pouco. A essa altura, os rostos de todos os convidados já estavam se contorcendo em enormes caretas de agonia. Muitos deles começaram a desejar o chão para abrir e engoli-los. Ela então perguntou: “quando todos vocês foram convidados pela primeira vez e vocês perderam seus filhos, por que você não usou a sua retrospectiva e avaliação quando você foi convidado novamente no ano seguinte? Se todos vocês tivessem decidido deixar seus filhos para trás em casa, o que poderia uma pessoa fazer contra 401 inrumolé (Irúnmọlẹ̀) depois de todos terem tomado uma decisão? Ela então declarou ”quando uma lei é feita, assim que alguém percebe que a lei não está no interesse do grupo, a única coisa razoável é revogar essa lei! Por quê todos vocês não usaram seu bom senso? Por esse motivo, todos vocês precisam elogiar Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) por usar seu discernimento, retrospectiva e previsão. Ele é o único que foi poupado de agonia entre vocês! Isso é tudo o que tenho a dizer a todos os presentes aqui hoje. Ofereço a todos um bom dia!

DESEJO QUE TODOS REFLITAM SOBRE ISSO NA VIDA DE VOCÊS.