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sábado, fevereiro 01, 2020

Cerimonias Sociais – O Casamento

Cerimonias Sociais – O Casamento



Conforme já tratei em outros textos, a sociedade que vivemos impõe a existência de cerimônias que unem o laico e o religioso fazendo o religioso ter que se adaptar a sociedade laica. No nosso caso, somos uma sociedade de base predominantemente católica, isso está em nossa origem e formação como povo e nação e introduzir novas religiões nesta sociedade significa desenvolver uma tradição religiosa adaptada a nossa sociedade.

Quando uma religião surge ela traz dentro de sí mais do que apenas dogmas religiosos, ela também traz em sua configuração a cultura social que a gerou. Introduzir uma nova religião em uma sociedade implica em um choque cultural ou social que tem que ser administrado para o sucesso da prática religiosa. Não se pode esperar que as pessoas de uma sociedade tenham que se comportar como de outra totalmente diferente para que possa praticar ou adotar a nova religião. Isso é grotesco e agressivo.

A origem do termo “tradição religiosa” esta nesta adaptação. Uma tradição religiosa é o resultado da adaptação da religião original à nova sociedade. O Candomblé é uma tradição religiosa, ele tem origem na religião Yorùbá mas se adaptou à nossa sociedade ou ainda está se adaptando.

Um dos pontos dessa adaptação é relativo às cerimônias sociais. Elas existem na sociedade e são necessárias serem representadas na religião. Uma delas, que já comentei, é o batismo. Outra que comentarei agora é o casamento.

Conforme já citei em texto anterior, não existe dentro da religião Yorùbá a cerimônia de Casamento. Não existe dogma ou fundamento religioso que estabeleça e união unívoca entre homem e mulher para o resto da vida, de fato não existe o conceito desta união dentro da religião, nem permanente nem temporária. O casamento existe na sociedade Yorùbá mas é uma cerimônia da sociedade e não da religião.

Na nossa sociedade o casamento veio através da vertente religiosa e dessa maneira é uma cerimônia que inicia no contexto religioso e depois se estende a vivência social, missa e comemoração. O Candomblé, como uma tradição religiosa brasileira não pode se omitir de integrar uma cerimônia de casamento, por mais que isso não faça parte da religião. A sociedade assim o requer.

Contudo, não se pode buscar em uma religião a mesma cerimônia ou formato de outra porque cerimônias e liturgias estão baseadas em dogmas e fundamentos da religião e determinados ritos podem não ter sentido. 
 
O que tem ocorrido no Candomblé em seus ditos “casamentos” são cerimônias sem pé nem cabeça, que sincretizam coisas de várias religiões, as pessoas usam a estrutura da religião católica e adicionam coisas de outras cerimônias que viram um Frankstein. Nada do que é feito aqui no Brasil como casamento religioso no Candomblé é autêntico.

A primeira visão que devem ter é essa informação que eu trago, de que não existe na religião Yorùbá uma cerimônia de casamento, não existe o dogma de união indissolúvel entre homem e mulher. A base da religião não tem isso. A religião yorùbá reflete a sociedade yoruba, nunca podemos esquecer isso.

A religião é voltada para o indivíduo e sua vida e integrada totalmente no seu papel na sociedade como membro útil. Além disso a religião é coletiva, é impossível de ser praticada sozinho e desta forma existe este paradoxo, tudo na religião é feito para atender ao indivíduo mas ele não consegue fazer nada sem a sociedade.

A constituição da família é importante assim como ter filhos. A religião é baseada em renascimento das pessoas em viver várias vidas e dessa maneira esse é um dos dogmas, a pessoa deve constituir uma família e ter filhos para que o renascimento possa ocorrer.
Se existe um dogma na religião, sobre a questão da união entre as pessoas esse é relativo ao casal gerar filhos.

Dessa forma, na visão da religião Yorùbá não existe casamento. Isto é uma união civil. Contudo não é um evento menos importante por ser apenas um evento civil, pelo contrário, é carregado de significados, passos e responsabilidades!

O Candomblé tem vários buracos litúrgicos, seja porque não foram trazidos, porque foram perdidos ou porque nunca existiram. A história mostra isso, o que conhecemos hoje está muito longe do que foi no passado, o nível de informação e aperfeiçoamento da própria prática do Candomblé melhorou muito com o tempo e à medida que uma parte maior, mais informada, mais educada e mais ética entra para o Candomblé, mais modificações ocorrerão.

Não pensem que isto seja diferente para pessoas de Ifá. Aliás muito menos ainda. Brasileiros crias de nigerianos não sabem nada e os nigerianos vivem em uma sociedade dominada por religiões cristãs, possivelmente pelo Islã.

Como entender as pessoas que fazem casamento em Candomblé, como eu já vi em vídeos?

Entenda como quiser. Eu já disse que não tem. O que essas pessoas fazem é, primeiro não entender da sua religião, não entender de teologia da sua própria religião, ai eles copiam uma liturgia de outra religião e transformam em uma coisa deles inventando ritos e simbolismo.

Está cheio de gente mal-informada e despreparada se dizendo sacerdote de religião. A pessoa aprende a fazer ebó e dedica a sua vida a atender clientes. Ela se autodeclara tendo um título e um conhecimento que não tem. Essas pessoas que atendem clientes não necessariamente são sacerdotes e conhecem sua religião. 
 
Mas o que fazer então?

Claro que temos que nos adaptar, a sociedade incorporou ritos religioso como ritos sociais e temos que responder a isso, mas não se faz isso dessa forma boba como se está fazendo, copiando o que outras religiões fazem.

É necessário algum esforço para se buscar uma forma de harmonizar o que a religião pode oferecer com o que a sociedade demanda. Em termos de casamento, temos que entender que existe um rito social laico bastante importante e que marca e união das pessoas. 

Podemos adicionar a este contexto algumas ideias e inserir uma participação religiosa no contexto.

Dentro do princípio que temos que criar uma cerimônia de casamento podemos até entender que pessoas que copiam a cerimônia católica não estão totalmente erradas, afinal a sociedade esta acostumada àquele formato.

Entendam, eu iniciei criticando essas cerimônias inventadas que são feitas, mas, digo que, na ausência de uma cerimônia formal e na necessidade da sociedade de ter uma cerimônia, as pessoas devem estabelecer uma cerimônia que faça sentido para a nossa sociedade, nossa história e povo.

O que eu procurei saber é como é a cerimônia tradicional Yorùbá e descrever aqui já com simplificações para que pessoal possam se espelhar em outro modelo. O Casamento tradicional Yorùbá segue um conjunto de ritos bem complexos, entendo que existem partes que não nos interessam.

A grande diferença entre a cerimônia deles e a nossa é a deles é um evento social e não religioso. Apesar de que muita gente hoje se casa com festa em uma cerimônia social, a combinação de rico rito religioso mais festa tem caído em desuso.

No caso Yorùbá a cerimônia deles tem com foco a família e não o indivíduo. Esta é a principal diferença. Na nossa o foco são as 2 pessoas que se unem, na deles é a formação de uma nova família estendida com a noiva se integrando à família do noivo.

Na sociedade Yorùbá a noiva deixa sua família e vai morar com o noivo, com a família do noivo, as vezes no que chamam de “compound” um conjunto de casas junto. Se isso se mantêm até hoje não sei, mas, a ritualística da cerimônia é familiar.
O Casamento tradicional Yorùbá 
 
Existe alguns rituais sociais que antecedem ao casamento, mas, que não vou explicar aqui.
O dia da cerimônia de casamento Yorùbá é muito especial para o noivo e a noiva. A cerimônia Yorùbá é oficiada por 2 pessoas ao mesmo tempo, uma de cada família e elas serão os porta-vozes de cada família e são muito importantes para o tom e andamento da cerimônia. Eles precisam conhecer a cultura Yorùbá bem como serem divertidos, articulados e preferencialmente poéticos uma vez que a sociedade valoriza o bom uso da língua deles.

Essas pessoas serão chamados de Alaga Iduro no caso da família do noivo e de Alaga Ijoko no caso da família da noiva, eles são os porta-vozes das duas famílias.
Os yorùbá tomam os cumprimentos muito a sério. Cumprimentos são feitos com sorrisos, alegria e respeito de forma que a pessoa que estiver sendo saudada sentirá que o cumprimento é sincero. Os homens e mulheres devem fazer reverência para quem está sendo saudado como se estivessem saudando a rainha da Inglaterra.

Os dois Alaga devem receber e cumprimentar todos os convidados da cerimônia.
Uma vez que o noivo está tomando a mão da noiva em casamento, o Alaga Iduro e membros da família do noivo se levantarão dos seus assentos e saudarão a família da noiva com dança e canto, no início da cerimônia.

Inicia-se uma pequena encenação entre o Alaga Iduro e o Alaga Ijoko com eles falando sobre a intenção da família do noivo trazer para ela, a noiva. Isso é feito porque esse é o entendimento. A Mulher sempre vai para a família do noivo, ela sai da sua família e vai para outra família. O homem é o único que permanece na mesma família.

O diálogo entre os dois porta-vozes ocorre durante um tempo, com a finalidade de entreter os familiares e adicionar alegria e humor à cerimônia.

A próxima etapa é a leitura da carta de pedido.

O alaga Iduro traz a carta de pedido em um pacote acompanhada de canto e dança. A carta é aberta e lida por uma representante designada pela família da noiva, normalmente uma jovem entre 12 e 15 anos de idade.

A carta de pedido é uma carta onde a família do noivo exorta o amor do noivo pela noiva e o carinho da família por ela e pede que a família da noiva formalize a aceitação do relacionamento entre eles. Esta carta terá que ser respondida e existe uma pausa entre a leitura e a resposta sempre preenchida com canto e dança.

Observem que a participação da família é fundamental no casamento yorùbá. Não é apenas uma cerimônia entre duas pessoas que se amam e decidem se casar, essa é uma diferença fundamental. O casamento é uma cerimônia social e por isso mesmo familiar. A família do noivo recebe a noiva e para isso pede a dá garantias a família da noiva que faz isso de bom grado e com alegria.

Após a aceitação da carta pela família da noiva, é feita a entrada do cortejo do noivo.
A entrada do noivo é feita com música e tambores. As esposas jovens da família do noivo que já tenham casado por menos de 15 anos irão acompanhá-lo, dançando ao redor do noivo, junto com seus amigos homens e membros homens da família do noivo.

O cortejo segue até onde estão as esposas da família da noiva que vão estender um pano decorativo característico da vestimenta tradicional para que o noivo coloque dinheiro em retribuição ao trabalho delas que durante o dia preparam a festa e a recepção.

As esposas da família da noiva vão recolhes seus panos e também dançar à frente do cortejo enquanto ele dança até o local onde estão os mais velhos da família da noiva. Chegando a esse local as esposas saem da frente e o noivo e seus amigos farão reverência a esses mais velhos. A família da noiva saudará e abençoará o noivo.

Depois disse ele deve ainda dançar sozinho até onde estão as 2 cadeiras altas preparadas para ele e sua noiva.

É chamado então o cortejo da noiva. O Alaga Iduro pedirá ao Alaga Ijoko para trazer a noiva, através de um cortejo similar ao cortejo da noiva, sendo que a noiva vem com sua cabeça totalmente coberta. Ela é levada até a sua família para que eles a abençoem.

Os parentes rezarão para que a noiva não seja estéril e darão os seguintes conselhos:
  • Ela deve ser uma mulher virtuosa para seu marido e filhos e ter o melhor comportamento em sua nova família.
  • Ela não deve fazer nada que traga vergonha a sua família.
  • Ela deve suportar o seu marido.
A noiva vai então para a família do noivo que farão o seguinte:
  • Eles a receberão com os braços abertos.
  • Garantirão que ela está casando em uma boa família.
  • Prometerão cuidar dela e de seus filhos.
  • A cobrirão de bençãos.
Ela vai então até o noivo, acompanhada de canto e dança.
Os presentes da família do noivo serão apresentados para a noiva pelo Alaga Ijoko que instruirá a noiva a escolher o que ela mais ama entre eles.

Os presentes são os seguintes:

óleo vegetal: Para trazer calma e frescos ao corpo e também ao casamento. Ele deve trazer facilidade ao casal para resolver suas dificuldades.
Mel: A união deve ser doce e agradável.
Orogbo: A amêndoa tem gosto amargo e significa que para o resto de sua vida eles serão apenas um, não importa os amargores da vida.
Obi: eles são medicinais e trazem saúde para o corpo. O casal será abençoado com saúde.
Pimenta da costa: significa que a noiva terá muitos filhos.
Sal: um preservativo, significa que o casal será um exemplo para os outros e que a união será preservada até longa idade e que o casal possa ver os filhos dos filhos.
Água: Ninguém vive sem água, o que significa que até os inimigos do casal vão deixar eles em paz.
Bíblia ou Quran: significa que eles viverão em sua fé e manterão a família junto independente das situações que passem.

Ela deve escolher a bíblia ou o Quran dependendo de sua religião e a audiência deverá comemorar isso. Ela será orientada a abrir o livro e dentro dele estará a aliança.

O noivo deverá colocar na noiva o anel com um beijo e abraço e a noiva deverá dançar ao redor mostrando para todos a aliança.

Em alguns casos é feito a cerimônia do sabor, na qual os noivos provam 4 sabores:
  • Limão: acidez
  • Vinagre: amargor
  • Cana: calor
  • Mel: doce
Experimentando os sabores junto simboliza que os momentos dominados por esses sabores serão superados pelo casal. Agora ele sabem o que encontrarão juntos e juntos superarão.
 
Depois disso a noiva vai até o noivo e vai colocar nele o seu chapéu. Isso é considerado um “coroamento” do noivo, uma vez que o marido é visto como a coroa na cabeça da mulher, em outras palavras ele é a cabeça do casal. Ao colocar o chapéu na cabeça do noivo a noiva selará a sua parte da cerimônia com um beijo.

Depois disso todos os membros de ambas as famílias devem esticar suas mãos em direção ao casal e rezar pela união dos dois. Parte das preces é que nenhum homem ou mulher estranho irá se colocar entre os dois e que a coroa não cairá da cabeça da mulher.

A parte seguinte da cerimônia, os Alagas introduziram todos os membros das famílias presentes. É parte da cultura yorùbá que cada membro da família deve conhecer o outro de forma que quando eles se encontrarem na comunidade eles devem se reconhecer e se saudar e não agir como estranhos uns aos outros.

As duas famílias estão agora unidas.

As famílias podem adicionar nesta parte as bençãos religiosas, convidando representantes de sua religião para abençoarem o casal.

Conclusão e comentários

Como podem ver, a cerimônia de casamento é um evento social e voltado para a família e sociedade. Não é uma cerimônia religiosa e mesmo a religião tradicional tem, hoje, pouco espaço, uma vez que eles consideram que as pessoas são cristãs ou muçulmanas.

Na minha descrição eu simplifiquei algumas coisas (poucas), existem coisas que são muito próprias deles e que não adicionam nada ao entendimento da cerimônia.

Existe por parte de brasileiros uma ensandecida vontade de parecerem africanos. Isso é ridículo. Não se importa cultura, a cultura é algo complexo e parte do povo. Jamais um outro povo pode absorver a cultura de outro, um povo ou pessoas podem absorver pequenos aspectos de uma cultura, como estética, arte e religião, mas, jamais serão o outro povo.

Brasileiros serão sempre brasileiros. Essa vontade de fazerem negros se comportarem como africanos ou insinuar que negros devem estar ligados a sua raiz africana é uma bobagem sem fim, é como se você condenar para sempre uma parte de nossa sociedade para ser discriminada por toda a sua vida. Não se pode segregar pessoas orientando elas a se comportarem como outra sociedade. Igualdade significa aceitar a todos como membros da mesma sociedade onde todos adotam a mesma cultura.

Essa cerimônia tem alguns aspectos interessantes, ligados às famílias que devem ser usados, porque isso é parte da religião. Mas, claro que outros aspectos naturais de nossa sociedade e que já tenham sido incorporados em nossa cultura podem ser adicionados ao se formar uma cerimônia religiosa para o Candomblé.

O que recomendo é que pessoas do Candomblé entendam a estrutura da cerimônia ao fazerem sua cerimônia. Não vejo problema em usarem elementos cerimoniais de outras religiões que as pessoas já estejam acostumados, mas, não vejo porque fazerem invenções como faixas nas mãos e outras esquisitices e veem em filmes para dizer que aquilo é do Candomblé.

O Candomblé não tem cerimônia de casamento assim como a religião Yorùbá não tem. Uma cerimônia deve ser estabelecida para atender a sociedade e não vejo nem um problema da parte religiosa ser inserida apenas como uma benção ao final, como está nesta que eu descrevi uma vez que a religião não tem o dogma da união indissolúvel. Ou seja, integrar a religião em uma cerimônia social é uma opção vem adequada.

O que não é adequado é fazer uma cerimônia religiosa formal, em terreiro ou em outro lugar encenando o estabelecimento de uma relação que não existe na religião. Isso existe na religião católica e por isso eles fazem o casamento religioso.

terça-feira, janeiro 28, 2020

O Cosmo Yoruba - pt 3 - A gênese yoruba

A gênese yorùbá

Eu estava decidido a não falar sobre a gênese Yorùbá neste trabalho. Na minha opinião é apenas uma história e pouco ou nada contribuiu para entender a religião. Esse assunto fica mais no campo da necessidade de existir um mito religioso que explique a criação do mundo, principalmente porque este é o primeiro livro da bíblia cristã. Assim todo mundo também tem que ter o seu “Gênesis”.

Os Yorùbá tem sua gênese. A gênese Yorùbá se inicia no momento em que Olódùmarè decide criar o Àiyé, o mundo natural, e para isso designa as suas divindades para esta tarefa.

“….o Àiyé existia e era uma enorme massa de água e matéria pantanosa, nada vivia neste lugar”.

O que levou Olódùmarè a criar o Àiyé ninguém sabe, apenas é dito que ele teve a motivação de fazê-lo e colocou em execução.

Existem várias histórias sobre a criação do mundo, foi aqui colocar apenas algumas delas, como eu já disse não acho essas histórias relevantes.

Olódùmarè chamou Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá), uma das mais importantes divindades Yorùbá, à sua presença e o encarregou da tarefa, dando para ele os materiais que ia necessitar.
O Àiyé já existia mas era uma imensidão de água.

Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá) recebeu uma bolsa de terra solta (alguns dizem que foi uma concha de caramujo), uma galinha de 5 dedos e um pombo.

Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá) foi para o limite entre o Órun (ọ̀run) e Àiyé e jogou a terra do saco sobre a água. Logo a seguir mandou a galinha de 5 dedos e o pombo que imediatamente começaram o seu trabalho de espalhar a terra por todo o Àiyé.

Isto foi feito até que uma grande porção da água fora coberta pela terra. Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá), então, voltou a Olódùmarè dizendo que já tinha concluído o seu trabalho.

Olódùmarè enviou o camaleão, que é um animal conhecido por ser muito cuidado e delicado na forma como se move e encontra caminhos. O camaleão nesta primeira visita relatou que apesar de uma grande porção de terra já estar espalhada e uma superfície razoável estar coberta, que a terra ainda não era seca e segura o bastante para ser habitada.

Algum tempo depois foi feita uma segunda visita e o camaleão constatou que a área de terra era grande o bastante e já estava seca o bastante para ser usada.

O lugar sagrado por onde foi iniciado o trabalho de espalhar a terra pelo mundo foi chamado de Ifé (Ìfẹ̀), palavra que significa, aquilo que é amplo. De acordo com a tradição Yorùbá neste lugar foi fundada a cidade de Ile ifé (Ilé-Ifẹ́) , a cidade sagrada Yorùbá, o lugar onde o mundo começou e o lar de todos os habitantes.

Ainda hoje quando um estrangeiro chega em Ile ifé (Ilé-Ifẹ́) na Nigéria ele pode ser recebido com a saudação “bem-vindo de volta a sua casa”, porque todos os seres humanos foram criados e iniciaram a população da terra a partir de Ile ifé (Ilé-Ifẹ́).

Olódùmarè colocou na nova terra a árvore do dendezeiro (Igi ọ̀pẹ) que daria sombra, bebida, óleo e nozes para comer. Outras árvores também foram plantadas para serem utilitárias para os novos habitantes. A Galinha e o pombo que foram usados para espalhar a terra deveriam agora espalhar as árvores que dariam subsistência aos futuros habitantes.
Os primeiros habitantes da terra teriam a água vinda do coco, uma palmeira, para matarem sua sede. Contudo essa água não se mostrou suficiente e Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá) apelou para Olódùmarè por uma solução. Olódùmarè criou então a chuva que passou a cair sobre toda a terra.

Após isso Olódùmarè necessitava habitar o Àiyé e para isso os habitantes do Órun (ọ̀run) teriam que ter um corpo para poderem viver no novo mundo. Mais uma vez Olódùmarè pediu que Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá) ficasse encarregado de confeccionar o corpo das pessoas, a partir de barro.

“... Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá) foi designado também para um outro trabalho especial. Ele seria o criador dos corpos dos homens para o futuro. Não é claro pela tradição oral quando esse trabalho foi iniciado, contudo, ele aceitou a tarefa.
Sua atribuição foi desde então moldar o físico dos homens a partir da terra da própria terra, do seu barro.
Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá) se tornou o escultor divino, mas, o direito de dar vida aos corpos criados era reservado exclusivamente a Olódùmarè.
A instrução dada a Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá) era que ele deveria preparar os corpos e deixá-los em uma sala preparada por Olódùmarè e deixar o lugar. Olódùmarè iria para lá e daria o sopro da vida para cada pessoa, completando a criação do homem.
Ao dar o sopro da vida Olódùmarè reserva para ele e somente ele, a capacidade de criar a vida e transmitir o seu axé (aṣẹ́) para cada ser humano. Cada ser humano recebe assim a partícula de vida vinda de Olódùmarè, seu axé (aṣẹ́) e suas virtudes divinas pessoais.
A história conta, ainda, que Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá) ficou com inveja de Olódùmarè e queria ele mesmo ser quem dava vida às pessoas.
Ele preparou um plano para espionar Olódùmarè. Uma vez completada a forma que ele devia dar aos habitantes do àiyé, ele se escondeu em um canto esperando a chegada de Olódùmarè. Olódùmarè, contudo, percebeu isso e colocou Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá) em sono profundo. Quando acordou o trabalho já estava feito. Desde então Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá) se contentou com a parte do trabalho que lhe cabe.

Este texto for retirado do livro “Olodumarê – God in Yorùbá belief” de Abolaji Idowu.
Junto com essa história alguns comentários são pertinentes antes de continuarmos. O primeiro diz respeito a prerrogativa que Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá) tem de fazer as formas humanas como ele quer. O nascimento de albinos, corcundas e alijados fazem parte de sua prerrogativa. Assim ele define cores marcas, etc... Alguns mitos sugerem que ele seja um beberrão e que quando bebe faz essas formas não normais.

Esse é um mito vulgar, mas, como toda metáfora serve apenas para indicar que esses desvios que ocorrem são feitos pelo próprio Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá) e que ele pode fazê-lo. Os Yorùbá designam como pertencentes a Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá) as pessoas que assim nascem.

Outra diz respeito ao envolvimento da divindade da morte Ikú, que é masculina. Quando Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá) foi criar as formas do àiyé ele solicitou que pegasse o barro para isso, conforme instrução de Olódùmarè que os corpos fossem feitos da terra do próprio àiyé. Vários emissários foram enviados mas quando chegavam no àiyé, a terra chorava dizendo que não fosse tirado nenhuma parte dela.

Aquilo comovia todos os enviados e ninguém pode trazer a terra para fazer o barro. Ikú se prontificou a ir e pegou terra necessária, prometendo devolver o que fora tirado. Dessa maneira cabe a Ikú, a morte, devolver a terra o corpo de todas as pessoas restaurando assim o que Ikú tira para estes corpos serem feitos. O costume Yorùbá é que os corpos sejam enterrados diretamente na terra para que a terra possa pegar de volta o que lhe foi tirado.

Este é o que chamo de um mito estrutural que, através de uma história cria uma visão metafórica que explica os fatos e fenômenos do àiyé. Existem muitos mitos e versos desta natureza, com a finalidade de estruturar a metáfora da religião sobre a vida.
Sobre a história da gênese existe uma variação muito conhecida e usada aqui no Candomblé. Nesta versão Odùduwà, uma outra divindade, assume a criação do mundo.
Nesse mito Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá) muito arrogante não se prepara para a tarefa. Já Odùduwà, consulta Ifá e faz um Ebó (Ẹbọ) preparatório.

No meio do caminho Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá), Exú (Èṣù) faz ele ficar com sede e Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá) fura com seu cajado o troco do dendezeiro, de onde sai uma bebida, o vinho de palma, com o qual ele não só mata sua sede como se embebeda desmaiando ao pé da palmeira e não mais acordando.

Odùduwà então volta e relata a Olódùmarè o que ocorreu. Esse então dá para ele a bolsa da criação e pede que ele oduduwa crie o mundo. O resto do mito é igual mas com Odùduwà no lugar de Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá).

Como prêmio de consolação Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá) fica com a criação do corpo das pessoas.
Mas, quem foi Odùduwà?

Neste assunto o mito religioso se mistura com o mito histórico. Odùduwà foi um histórico e poderoso líder do povo Yorùbá. Ele migrou de sua terra original, provavelmente no Egito e se estabeleceu nas terras Yorùbá, em Ile-Ìfẹ̀. Ele se estabeleceu em Ìfẹ̀ com seus seguidores e estabeleceu uma proeminente dinastia Yorùbá.

Segundo Idowu, Odùduwà se estabeleceu em um lugar onde já existia um líder local chamado Ọrẹ̀lúéré. Odùduwà se estabeleceu sem prestar qualquer respeito a ele e Ọrẹ̀lúéré preparou um ardil. Ele envenenou um dos filhos de Odùduwà e este teve que chamar Ọrẹ̀lúéré para ajudá-lo, porque Ọrẹ̀lúéré era tido como um excelente médico.
Odùduwà teve que se submeter temporariamente a Ọrẹ̀lúéré para ver seu filho curado e se colocou também sob a proteção de Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá) que era a divindade do local. Os recursos de Odùduwà eram muito superiores, mas, seu estabelecimento não foi feito sem uma fraca oposição dos que já habitavam lá.

A sociedade ògboní foi provavelmente instituída neste período, como uma oposição a Odùduwà, pelas pessoas que já habitam aquelas terras, para poderem preservar seus valores e costumes.

Mas Odùduwà se tornou muito grande e conquistou a terra de Ọrẹ̀lúéré e muitas terras em volta. Quando morreu passou a ser cultuado como um ancestre e depois uma divindade. O nome Odùduwà não pertencia ao homem e sim uma divindade cujo culto foi trazido por ele.
O conflito entre Ọrẹ̀lúéré e Odùduwà, virou o conflito entre Odùduwà e Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá), sendo que o primeiro venceu o segundo e se tornou o governante e dono da terra. Com o passar das gerações a história deste conflito se transformou em um mito religioso no qual Odùduwà se torna o criador do mundo. O mito original Yorùbá ficou assim modificado para acomodar questões políticas e históricas.

Segundo Idowu, essa segunda versão não é a gênese original. Surgiu pela necessidade de acomodar a figura de Odùduwà, que se tornou orixá (Òrìṣà) e patrono na nação em Ilé Ìfẹ̀.
Na raiz desta história está o fato de Odùduwà ser cultuado como uma divindade masculina ou feminina dependendo da região Yorùbá onde se esteja. Quando masculina a referência é ao homem, o conquistador e patrono da nação. Quando feminina a divindade trazida por essas pessoas.

Existe a necessidade de mencionar que de fato Odùduwà (também chamado Oòduà) é algumas vezes citado omo “mãe” e venerado como mãe terra em algumas partes da terra yorùbá, especialmente entre o poco de Ègbádò e Kétu. Alguns acadêmicos sugerem que o aspecto masculino de Odùduwà seria um desenvolvimento tardio, refletindo a tentativa de uma nova dinastia legitimar sua hegemonia, substituindo uma divindade pré-existente.
Tudo o que diz respeito a história yorùbá é muito confuso.

No livro “Orun Aiye” de José Beniste existe uma descrição muito boa, bem mais extensa que esta que dei, sobre a história desses 2 mitos. O livro em português deve ser lido por aqueles que querem entender a religião e não vou transcrever aqui nenhum trecho. Não há necessidade. O meu objetivo era explicar a base da gênese Yorùbá e não tenho como deixar de explicar os 2 mitos conflitantes.

Verger e a Cabaça

No caso do Candomblé essa distinção pouco importa, Odùduwà não é tratado como uma divindade do dia a dia. Existe e é conhecido apenas na referência teológica. Os Lukumi cubanos tratam Odùduwà como uma divindade comum, mas o faz de uma forma errada, baseada em erros bibliográficos, conforme Verger explicou.

No Candomblé existe um conhecido mito, contado e repetido por muitos o qual o mundo seria uma grande cabaça na qual Odùduwà ficaria na parte debaixo e Oxalá na parte de cima. Essa representação daria a ambos o domínio de partes diferentes do mundo assim como estabeleceria uma dualidade de existência entre ambos. Também traria uma ideia de equilíbrio e, por fim, estabelece que Oxalá seria do gênero masculino e Odùduwà do gênero feminino.

Esse mito é bem comum e conhecido, mas, é uma grande bobagem. É um exemplo clássico de que a ignorância faz sombra na sabedoria e que as pessoas dessa religião nunca passam da primeira página quando leem algo, se é que leem, apesar de serem muitos espontâneas para falar mal de quem busca conhecimento.

Para esclarecer isso basta a recorrer a um texto muito antigo de Verger chamado “Etnografia religiosa e probidade científica”  publicado na revista Religião e Sociedade, n.8 em 1982.

O texto parece ter sido feito exclusivamente para criticar Juana Elbein, autora do livro “Os Nagô e a Morte” que teve como mérito criar uma estrutura geral de amarração de elementos na religião, estabeleceu interpretação e análises próprias e enriqueceu o papel de do Orixá Exú na religião. Para Verger isso foi uma afronta. Ele não aceitou uma outra pessoa, acadêmica, escrevendo sobre os Yorùbá e muito menos trazendo informações diferentes da dele.

Acredito que nessa briga todos tivessem um pouco de razão. Talvez Juana tenha sido criativa demais na sua interpretação e análise tendo avançado muito na criação de conceitos, como também, Verger, se mordido de vaidade, mas essa briga não é o tema.
O tema é que na primeira parte do seu texto, Verger faz uma análise muito boa da origem de distorções que ocorreram sobre a religião Yorùbá.

Verger cita que a primeira referência de informações sobre os Yorùbá veio de Ajayi um nativo que foi rebatizado com o nome de Samuel Crowther, ele era nascido em Oyo e foi capturado e vendido como escravo quando tinha 11 anos. Ele foi liberto por ingleses no navio e como milhares de outros africanos levados para Serra Leoa.

Serra Leoa, como alguns devem saber foi o país ou região que recebeu todos os escravos que os ingleses libertavam quando encontravam os navios negreiros.

Virou missionário protestante, educando em Londres, voltou para a áfrica e publicou a primeira bíblia em Yoruba. Publicou um vocabulário yorùbá que continha nome de deuses. Em função de sua pouca idade e conhecimento da sua religião ele trocou o gênero de orixás, chamando de deusas o que os yorùbá chamavam de deuses.

Não houve intenção de dolo no trabalho de Crowther, Verger cita-o com uma das pessoas confiáveis, mas ele cometeu erros e isso é atribuído a ele citar coisas sobre as quais tinha vivida mas que o tempo pode tê-lo confundido.

A seguir TJ bowen, outro missionário, passou 6 anos nas terras Yoruba e publicou um dicionário, com mais informações sobre orixás. Verger atribuía essa pessoa, informações precisas e o cita como uma fonte digna de confiança.

Mais tarde o abade Pierre Bouche, outro missionário, passou 9 anos na África e publicou material que repetia os antecessores com algumas variações.

A confusão começa com o padre Noel Baudin, que esteve na Africa em terras não yorùbá, usou o livro de Crowther para publicar um dicionário e um livro sobre os Yoruba, povo e região que ele não conheceu de fato. Pior ele desprezava o povo e sua cultura, Ele nunca teve interesse em preservar ou documentar nada. Soma-se o zelo missionário, a falta de ética  e a necessidade de se promover como um especialista em Africa.
por exemplo

“Os feiticeiros (Baudin, 1884b:86) são seres desprezíveis, mentirosos, preguiçosos, hipócritas, impudicos e refinados ladrões. Geralmente têm um aspecto sujo, vestimentas ridículas e esfarrapadas, e os que molham as mão em sangue humano têm um ar bestial, feroz e repugnante... Quanto aos deuses e deusas, com suas ridículas lendas, os grandes feiticeiros não acreditam neles... Os ídolos (ib: 89) modelados sobre o tipo mais feio de negro de lábios grossos, de nariz chato e de queixo retraído, são verdadeiras imagens de velhos macacos”.

Este era o estilo de Baudin 

A referência a Oduduá aparece pela primeira vez por Crowther. Vou transcrever texto do Verger porque é bem claro:

O autor indica em rubricas separadas, por um lado, que “Oduá ou Oduduá (Crowther, op.cit.: 207) é uma deusa de Ifé, tida como a suprema deusa do mundo” e acrescenta que “o céu e a terra são duas grandes cabaças (ele queria dizer meias cabaças, igbá), que, uma vez fechadas (ou mais precisamente, colocadas uma sobre a outra, formando um recipiente fechado), não podem ser abertas (separadas)”. Afirma ainda que havia “uma alusão à aparente concavidade do céu, que parece tocar a terra no horizonte”. Por outro lado, indica que “Obatalá (é) a grande deusa iorubá, a artesã do corpo da matriz” (ib.: 228). Ao mesmo tempo, Orixalá é indicado como sendo "a grande deusa Obatalá" (ib.: 223).
Assim, fica claro como Verger cita a confusão de crowther sobre o gênero dos deuses, assim como surge aqui a referência ao mundo na forma de uma cabaça, mas em nenhum momento Crowther, por mais confuso que fosse coloca Oxalá e Odùduwà dentro dela.
Bowen, o que escreveu depois um outro dicionário Yoruba, adiciona mais informações a isso:

“Oduduá é o universo, está localizado em Ifé” e “Obatalá é tido como o primeiro, a maior coisa já criada. Outros, entretanto, afirmam que ele não é nada mais do que um antigo rei iorubá. Sua mulher é Iyangba, a mãe que recebe, representada acariciando uma criança”.
Verger adiciona dizendo que Iya Ngba é, na verdade, uma referência a Iyami osoronga, a grande feiticeira dos Yoruba. O Abade Bouche adiciona confusão a isso fazendo uma relação da iya ngba com a virgem maria....

A confusão se inicia mais ainda com o Pe. Baudin, que sem saber nada dos Yoruba, junta Iya ngba com Odùduwà, transformando as 2 divindades em uma só. E mais junta Oxalá nisso e coloca os 2 dentro da cabaça do mundo descrita por Crowther.

No original de Veger:

... para completar essa embrulhada, intromete ousadamente Obatalá (Orixalá) no meio das duas meias cabaças descritas por Crowther, as quais viram uma cabaça única, munida de uma tampa. Completa esse "sutil ponto de vista" com uma estranha lenda (Baudin, 1884 b: 89) onde "Obatalá e Oduduá" estavam no princípio estreitamente apertados e como que encerrados numa grande cabaça - Obatalá no alto, sob a tampa, e Oduduá embaixo, afundados nas águas, envolvidos em profundas trevas, com a noite, o medo e a fome correndo em todas as direções... Oduduá ficou feia e cega em consequência de uma briga doméstica na qual Obatalá lhe arrancou os olhos para obrigá-la a ficar quieta.
Assim essa bobagem que existe no candomblé colocando Odùduwà como feminina e oxalá como masculino e dentro de uma cabaça, é uma idiotice originada de uma pessoa que não sabia sobre o que estava escrevendo, pior só tinha interesse em desinformar.
Pessoas aqui no Brasil e autores usaram os livros dessas pessoas para transmitirem isso como verdades. As pessoas aqui compraram essas histórias gerando distorções sobre a religião e pior se fundamentando em bobagem e mentiras.
Assim uma sucessão de pessoas que não conheciam o assunto que escreviam e que foram repetindo e também usando criatividade sobre o que liam gerou uma massa de desinformação sobre a religião Yoruba, que no nosso tema gira em torno do mito da Cabaça. Quem aqui não conhece essa figura da cabaça?
Baudin fez ainda mais confusão gerando uma dualidade inexistente entre Oxalá e Odùduwà e transformando Odùduwà em um orixá do gênero feminino.

Assim essas são 2 tolices que são repetidas por Babalorixás e Iyalorixá por muitos anos, o mito da cabaça e Odùduwà sendo Feminino. Verger desde 1982 já havia corrigido isso. É impressionante como as pessoas gostam de citar Verger sem nem ao menos ter lido.

É possível que parte da raiva de Verger sobre Juana foi justamente ela ter seguido esse mesmo caminho, interpretando informações ruins, copiando coisas erradas e pior gerando interpretações e análises por sua conta.

O texto original de Verger deve ser lido, tem muito mais informações do que eu transcrevi aqui.

A Sorte do Candomblé é que não fazemos o Orixá Odùduwà, senão o nível de besteira seria enorme. Azar dos Lukumi cubanos, que não só compraram as mesmas histórias como ainda fazem Odùduwà como Orixá e ainda, atribuem a ela a cor negra e outras coisas sinistras.

Este sim é um assunto que mereceria uma análise, porque como pode uma tradição de diáspora se apoiar em uma besteira inventada e criar Orixá e pior LITURGIA a partir disso.
Verger explica onde surgiu a ligação errada de Odùduwà com a cor negra, na verdade uma invenção ridícula, mas, não é o tema aqui, os Lukumi que se preocupem com isso.
Outras versões da Gênese

Existe uma outra versão da Gênese que esta descrita como Osamaro Ibie. Nesta versão todos os orixá (Òrìṣà) são enviados para criar o mundo mas o único que tem sucesso na tarefa é Órunmila (Ọ̀rúnmìlà).

Depois do mundo criado foi dada a missão de povoar a terra e essa missão foi dada para Olóòkun e Ògún e ambos falham, ficando novamente Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) encarregado de povoar o mundo.

Esse mito tem os mesmos elementos dos anteriores mas colocando Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) como centro dos acontecimentos, isso é bem típico dos yorùbá, que dão importância a divindade que querem dar.

Uma versão também interessante do Benin, situado a leste da terra yorùbá (não é o Dahomey). Vou citar esta versão porque existe uma grande influência entre esses 2 povos, os Yoruba e os Bini.

Em sua gênesis, os Bini acreditam que Òsànóbùa, sua divindade principal, e Anume, sua esposa, tiveram 3 filhos, chamados, Òblẹ́mwẹ̀n, Olóòkun e Òglùwú. O costume Bini estabelece a superioridade de machos sobre as fêmeas e desta forma Olóòkun assumiu uma posição de superioridade em relação a sua irmã Òblẹ́mwẹ̀n. Um dia Òsànóbùa enviou seus 3 filhos com o poder e a missão de criar o mundo. Naquele tempo o mundo era uma imensidão sem fim de água, que tinha apenas uma árvore Ikhinmwin (igual a um Akoko).

No alto desta árvore vivia um pássaro chamado Ọ̀wọ̀nwọ̀n

A cada uma dos filhos foi dado a opção de escolher um presente para ir com eles junto com a canoa que eles deveriam tomar. Os dois mais velhos escolheram a prosperidade e ferramentas de trabalho. O mais novo se preparou para escolher suas ferramente quando o pássaro pediu para ele levar com ele uma conha.

Quando a canoa chegou ao centro das águas, o mais jovem virou a concha e uma quantidade sem fim de areia saiu dela. Dessa maneira a terra começou a se espalhar sobre as águas. Eles ficaram com receio de sair da canoa e mandarem um camaleão examinar se a terra era firme. O lugar onde a terra emergiu foi chamado de Agbon, “o mundo”, um nome que foi trocado para a Agbor, hoje uma cidade a lesta da cidade do Benin.

Òsànóbùa, desceu por uma corrente até o mundo recém-estabelecido e demarcou o mundo. Foi de lá que as pessoas foram enviadas para os 4 cantos do mundo, para cada país e cada geografia. Ele fez então o seu filho mais novo como o responsável por Benin, dono da terra e estabeleceu o seu próprio reino como sendo o mundo espiritual, através das águas onde o céu se encontra com o mundo.

Òsànóbùa, ficou estabelecido em seu palácio no mundo espiritual e para a humanidade é um deus remoto, primariamente preocupado com o mundo espiritual, tendo delegado a seus filhos o cuidado do mundo físico, ou natural. Não existe culto a Òsànóbùa. Òsànóbùa é apelado somente em última instância, quando tudo o mais já falhou. Ele nunca demanda oferendas.

Existe um assentamento para Òsànóbùa, ele é composto apenas de um longo poste ficando em um monte de areia e no alto uma roupa branca que tremula no vento como uma bandeira.

Para Òblẹ́mwẹ̀n foi dado o controle sobre o nascimento e a agricultura, ela é chamada a esposa da terra, mãe de todos os seres humanos e seres vivos. Olóòkun recebeu o poder de doar a prosperidade e Òglùwú o poder da morte. Òsànóbùa então enviou Olóòkun para ser o rei do mar

Como podem observar o mito da criação dos Bini é bastante parecido com o mito Yorùbá da gênese e apesar de existirem variações nos personagens Yorùbá.

sexta-feira, janeiro 24, 2020

Cosmo Yoruba - Pt. 2 - Bobagens em torno da figura da cabaça


Bobagens em torno da figura da cabaça


Sem querer ser arrogante, o que se tem para entender sobre a cabaça e sua ligação com a representação do cosmos yorùbá está neste texto aqui.

Existem coisas importantes na simbologia yorùbá, a cabaça é uma delas. Contudo também é muito comum as pessoas não entenderem o que veem ou o que leem.

Não pode deixar de comentar que já ouvi falar de gente que está fazendo Igba Ori usando uma cabaça deste tipo. Com sinceridade, essas pessoas comeram obi estragado. Lembro que nem cubanos e muito menos nigerianos sabem qualquer coisa de Ori.

A cabaça, como simbologia esta ligada também com o culto de Ajé e com Ifá. É um receptáculo universal de axé (àṣẹ) e várias coisas são representadas através da cabaça, sua presença é rica nos versos de Ifá com vários significados.

Aqui no Candomblé criou-se a visão da cabaça com Oxalá (Òṣàlá) na parte superior e Odùduwà na parte inferior, associando Odùduwà a uma divindade feminina e isso não é comum.

Essa imagem está retratada no meu texto mas não é uma referência importante, é apenas um aspecto desta questão do cosmo e não ele em sí, o que é importante é a representação dos dois mundos, o órun (Ọ̀run) e o Àiyé.

Assim é necessário cuidado em relação a essa visão que existe no Candomblé direcionada para este contexto masculino-feminino, porém, de forma muito restrita e com pouca ou nenhuma utilidade.


Verger e a Cabaça

No caso do Candomblé essa distinção pouco importa, Odùduwà não é tratado como uma divindade do dia a dia. Existe e é conhecido apenas na referência teológica. Os Lukumi cubanos tratam Odùduwà como uma divindade comum, mas o faz de uma forma errada, baseada em erros bibliográficos, conforme Verger explicou.

No Candomblé existe um conhecido mito, contado e repetido por muitos o qual o mundo seria uma grande cabaça na qual Odùduwà ficaria na parte debaixo e Oxalá na parte de cima. Essa representação daria a ambos o domínio de partes diferentes do mundo assim como estabeleceria uma dualidade de existência entre ambos. Também traria uma ideia de equilíbrio e, por fim, estabelece que Oxalá seria do gênero masculino e Odùduwà do gênero feminino.

Esse mito é bem comum e conhecido, mas, é uma grande bobagem. É um exemplo clássico de que a ignorância faz sombra na sabedoria e que as pessoas dessa religião nunca passam da primeira página quando leem algo, se é que leem, apesar de serem muitos espontâneas para falar mal de quem busca conhecimento.

Para esclarecer isso basta a recorrer a um texto muito antigo de Verger chamado “Etnografia religiosa e probidade científica”  publicado na revista Religião e Sociedade, n.8 em 1982.

O texto parece ter sido feito exclusivamente para criticar Juana Elbein, autora do livro “Os Nagô e a Morte” que teve como mérito criar uma estrutura geral de amarração de elementos na religião, estabeleceu interpretação e análises próprias e enriqueceu o papel de do Orixá Exú na religião. Para Verger isso foi uma afronta. Ele não aceitou uma outra pessoa, acadêmica, escrevendo sobre os Yorùbá e muito menos trazendo informações diferentes da dele.

Acredito que nessa briga todos tivessem um pouco de razão. Talvez Juana tenha sido criativa demais na sua interpretação e análise tendo avançado muito na criação de conceitos, como também, Verger, se mordido de vaidade, mas essa briga não é o tema.
O tema é que na primeira parte do seu texto, Verger faz uma análise muito boa da origem de distorções que ocorreram sobre a religião Yorùbá.

Verger cita que a primeira referência de informações sobre os Yorùbá veio de Ajayi um nativo que foi rebatizado com o nome de Samuel Crowther, ele era nascido em Oyo e foi capturado e vendido como escravo quando tinha 11 anos. Ele foi liberto por ingleses no navio e como milhares de outros africanos levados para Serra Leoa.

Serra Leoa, como alguns devem saber foi o país ou região que recebeu todos os escravos que os ingleses libertavam quando encontravam os navios negreiros.

Virou missionário protestante, educando em Londres, voltou para a áfrica e publicou a primeira bíblia em Yoruba. Publicou um vocabulário yorùbá que continha nome de deuses. Em função de sua pouca idade e conhecimento da sua religião ele trocou o gênero de orixás, chamando de deusas o que os yorùbá chamavam de deuses.

Não houve intenção de dolo no trabalho de Crowther, Verger cita-o com uma das pessoas confiáveis, mas ele cometeu erros e isso é atribuído a ele citar coisas sobre as quais tinha vivida mas que o tempo pode tê-lo confundido.

A seguir TJ bowen, outro missionário, passou 6 anos nas terras Yoruba e publicou um dicionário, com mais informações sobre orixás. Verger atribuía essa pessoa, informações precisas e o cita como uma fonte digna de confiança.

Mais tarde o abade Pierre Bouche, outro missionário, passou 9 anos na África e publicou material que repetia os antecessores com algumas variações.

A confusão começa com o padre Noel Baudin, que esteve na África em terras não yorùbá, usou o livro de Crowther para publicar um dicionário e um livro sobre os Yoruba, povo e região que ele não conheceu de fato. Pior ele desprezava o povo e sua cultura, Ele nunca teve interesse em preservar ou documentar nada. Soma-se o zelo missionário, a falta de ética  e a necessidade de se promover como um especialista em África.

Por exemplo:

“Os feiticeiros (Baudin, 1884b:86) são seres desprezíveis, mentirosos, preguiçosos, hipócritas, impudicos e refinados ladrões. Geralmente têm um aspecto sujo, vestimentas ridículas e esfarrapadas, e os que molham as mão em sangue humano têm um ar bestial, feroz e repugnante... Quanto aos deuses e deusas, com suas ridículas lendas, os grandes feiticeiros não acreditam neles... Os ídolos (ib: 89) modelados sobre o tipo mais feio de negro de lábios grossos, de nariz chato e de queixo retraído, são verdadeiras imagens de velhos macacos”.

Este era o estilo de Baudin

A referência a Oduduá aparece pela primeira vez por Crowther. Vou transcrever texto do Verger porque é bem claro:

O autor indica em rubricas separadas, por um lado, que “Oduá ou Oduduá (Crowther, op.cit.: 207) é uma deusa de Ifé, tida como a suprema deusa do mundo” e acrescenta que “o céu e a terra são duas grandes cabaças (ele queria dizer meias cabaças, igbá), que, uma vez fechadas (ou mais precisamente, colocadas uma sobre a outra, formando um recipiente fechado), não podem ser abertas (separadas)”. Afirma ainda que havia “uma alusão à aparente concavidade do céu, que parece tocar a terra no horizonte”. Por outro lado, indica que “Obatalá (é) a grande deusa iorubá, a artesã do corpo da matriz” (ib.: 228). Ao mesmo tempo, Orixalá é indicado como sendo "a grande deusa Obatalá" (ib.: 223).

Assim, fica claro como Verger cita a confusão de crowther sobre o gênero dos deuses, assim como surge aqui a referência ao mundo na forma de uma cabaça, mas em nenhum momento Crowther, por mais confuso que fosse coloca Oxalá e Odùduwà dentro dela.
Bowen, o que escreveu depois um outro dicionário Yoruba, adiciona mais informações a isso:

“Oduduá é o universo, está localizado em Ifé” e “Obatalá é tido como o primeiro, a maior coisa já criada. Outros, entretanto, afirmam que ele não é nada mais do que um antigo rei iorubá. Sua mulher é Iyangba, a mãe que recebe, representada acariciando uma criança”.
Verger adiciona dizendo que Iya Ngba é, na verdade, uma referência a Iyami osoronga, a grande feiticeira dos Yoruba. O Abade Bouche adiciona confusão a isso fazendo uma relação da iya ngba com a virgem maria....

A confusão se inicia mais ainda com o Pe. Baudin, que sem saber nada dos Yoruba, junta Iya ngba com Odùduwà, transformando as 2 divindades em uma só. E mais junta Oxalá nisso e coloca os 2 dentro da cabaça do mundo descrita por Crowther.

No original de Veger:

... para completar essa embrulhada, intromete ousadamente Obatalá (Orixalá) no meio das duas meias cabaças descritas por Crowther, as quais viram uma cabaça única, munida de uma tampa. Completa esse "sutil ponto de vista" com uma estranha lenda (Baudin, 1884 b: 89) onde "Obatalá e Oduduá" estavam no princípio estreitamente apertados e como que encerrados numa grande cabaça - Obatalá no alto, sob a tampa, e Oduduá embaixo, afundados nas águas, envolvidos em profundas trevas, com a noite, o medo e a fome correndo em todas as direções... Oduduá ficou feia e cega em consequência de uma briga doméstica na qual Obatalá lhe arrancou os olhos para obrigá-la a ficar quieta.

Assim essa bobagem que existe no candomblé colocando Odùduwà como feminina e oxalá como masculino e dentro de uma cabaça, é uma idiotice originada de uma pessoa que não sabia sobre o que estava escrevendo, pior só tinha interesse em desinformar.

Pessoas aqui no Brasil e autores usaram os livros dessas pessoas para transmitirem isso como verdades. As pessoas aqui compraram essas histórias gerando distorções sobre a religião e pior se fundamentando em bobagem e mentiras.

Assim uma sucessão de pessoas que não conheciam o assunto que escreviam e que foram repetindo e também usando criatividade sobre o que liam gerou uma massa de desinformação sobre a religião Yoruba, que no nosso tema gira em torno do mito da 
Cabaça. Quem aqui não conhece essa figura da cabaça?

Baudin fez ainda mais confusão gerando uma dualidade inexistente entre Oxalá e Odùduwà e transformando Odùduwà em um orixá do gênero feminino.

Assim essas são 2 tolices que são repetidas por Babalorixás e Iyalorixá por muitos anos, o mito da cabaça e Odùduwà sendo Feminino. Verger desde 1982 já havia corrigido isso. É impressionante como as pessoas gostam de citar Verger sem nem ao menos ter lido.

É possível que parte da raiva de Verger sobre Juana foi justamente ela ter seguido esse mesmo caminho, interpretando informações ruins, copiando coisas erradas e pior gerando interpretações e análises por sua conta.

O texto original de Verger deve ser lido, tem muito mais informações do que eu transcrevi aqui.

A Sorte do Candomblé é que não fazemos o Orixá Odùduwà, senão o nível de besteira seria enorme. Azar dos Lukumi cubanos, que não só compraram as mesmas histórias como ainda fazem Odùduwà como Orixá e ainda, atribuem a ela a cor negra e outras coisas sinistras.

Este sim é um assunto que mereceria uma análise, porque como pode uma tradição de diáspora se apoiar em uma besteira inventada e criar Orixá e pior LITURGIA a partir disso.
Verger explica onde surgiu a ligação errada de Odùduwà com a cor negra, na verdade uma invenção ridícula, mas, não é o tema aqui, os Lukumi que se preocupem com isso porque eles estão errados em várias coisas, aliás incontáveis. Uma delas é estabelecer esse culto a Odùduwà, outra é fazer a ligação disso com o negro, o obscuro, Odùduwà lá é representado por um cofre e está ligado com o fim da vida. Os lukumi leram os livros errados na década de 80 e copiaram coisas erradas.