Pesquisar este blog

segunda-feira, junho 10, 2019

O comércio em torno do jogo de búzios

(esse texto faz parte de um texto maior ainda em elaboração sobre o jogo de búzios) 

 

E o que é isso? Existem sacerdotes e feiticeiros. Existem pessoas dedicadas a sua religião de fato, que se focam em orixá (Òrìṣà) e nas suas liturgias, são pessoas com uma casa que tem atividade permanente dedicada a orixá (Òrìṣà) e atuam de forma ética e sacerdotal de fato.
Existem também os feiticeiros, aqueles que por ego ou importância comercial dizem ter uma casa de Candomblé (terreiro) mas que ali fazem uma prática mista, com consultas de umbanda com exu e pombo-gira, às vezes giras de Umbanda, porta aberta para fazer trabalhos de qualquer natureza ética, incluindo o malefício a outros. Mantêm uma atividade de Candomblé com Xirês voltados para atrair clientes e manter a sua relação social dentro da comunidade de sacerdotes.
Essas pessoas colocam sempre muito dinheiro na realização dos seus Xirês de Candomblé. Suas casas são arrumadas, os orixá (Òrìṣà) bem vestidos, muitos Ogans e um serviço farto de comida após o xirê.
A presença de outros sacerdotes é importante, para mostrar a sua inserção e relevância no meio, aliás essa troca de gentilezas, de sacerdotes frequentando a casa de outros, é assunto a parte para a psicologia. Existe um círculo próprio desses sacerdotes que devem convidar e serem convidados para os xirês dos outros. Nesses eventos, eles são recebidos com pompa e circunstância, se tornam vistos pela assistência e têm o seu ego inflado, porque são tratados como autoridades.
Mas isso é, majoritariamente, um jogo comercial porque esses grandes eventos nos quais existe um xirê (toque para os orixá (Òrìṣà) são sempre acompanhados de um serviço de comida para toda a assistência. Isso ocorre em dias festivos ou não, na verdade em dias festivos o aspecto laico é maior e, o foco, é a festa e não o orixá (Òrìṣà).
Esses eventos, pequenos ou grandes servem para mostrar à assistência a grandeza e poder do dono da casa. Uma casa próspera é a do sacerdote que trabalha mais, tem mais clientes, ganha mais dinheiro com o que faz e dessa forma sendo o mais bem sucedido será a melhor pessoa para se consultar. Se você tiver um problema para resolver a indicação é ir na casa da pessoa mais bem sucedida.
Os “eventos-Xirês” não existem para manter o axé da casa em atividades, trazendo os orixá (Òrìṣà) para abençoar as pessoas e a casa com sua presença, renovando o axé da casa. Eles existem como obrigação para o atendimento comercial do sacerdote e seus clientes de jogo, são parte da atividade comercial do jogo de búzios.
Esses Xirês são dessa maneira um evento feito para atender aos clientes do dirigente. Não dá para uma casa de Candomblé com foco religioso sustentar uma atividade como a que essas pessoas sustentam.
Um dos componentes, como já citei, desse complexo espetáculo de horrores é a presença de sacerdotes convidados, pessoas igualmente conhecidas, que mostram para a assistência que o dono da casa é conhecido e tem prestígio para trazer outros conhecidos e “famosos”. Os famosos podem também ser os clientes famosos. Tudo isso é parte do espetáculo comercial.
Os espetáculos legitimam o dono da casa, como legítimo e prestigioso sacerdote e também os convidados da mesma forma. Ao ir, os convidados, estão, na verdade, legitimando tudo o que o dono da casa faz. Mas, ao ir, os convidados, também estão se expondo para os consumidores de jogo de búzios. Esse é um círculo vicioso onde você convida e é convidado.
Para essas pessoas, ao se falar de fazer o Orixá (Òrìṣà) de alguém a primeira coisa que tratam é do tamanho da festa, porque a casa tem um padrão e se quiser fazer lá vai ter que pagar uma festa do porte que a casa faz. Essas casa estão continuamente em festa.
O principal objetivo dos feiticeiros é de fato vender obrigações e adquirir filhos de santo. Uma obrigação é muito mais cara do que um jogo e alguns ebós e além disso transforma a pessoa em cliente para o resto da vida.
O importante para esses feiticeiros travestidos de sacerdotes é ter esta atividade vistosa de Candomblé para justificar sua posição. Para eles o importante é atrair clientes e transformar clientes em filhos de santo, na verdade, é o comércio de feituras de orixá (Òrìṣà) que concorre com o comércio principal que é o do jogo de búzios e das consultas com guias de umbanda, normalmente exu e pombo-gira.
Não existe nenhuma razão para uma casa de Candomblé ter dentro de suas atividades o trabalho com essas entidades de Umbanda. Isso não faz parte e apenas mostra que o foco da atividade da casa é comercial. As consultas estarão associadas ao uso de um oráculo de búzios rasteiro, feito para, mais uma vez, dar legitimidade de Candomblé a atividade comercial do sacerdote.
O que ocorre é sempre uma dobradinha, ao consultar o guia de umbanda, ele as vezes pede algum trabalho ou faz alguma coisa ali presente, mas, normalmente indica que a pessoa deve procurar o pai-de-santo em outro horário para ele fazer um jogo de búzios, permitindo ao pai-de-santo cobrar duas vezes (ou uma, as vezes a consulta é de graça ou de baixo valor, sob a alegação de que a Umbanda é caridade), uma pela consulta ao exú e outra pelo jogo de búzios que é de onde vão sair os trabalhos a serem feitos.
O jogo de búzios vira então apenas um complemento da consulta que foi feita pela entidade de Umbanda, sendo usado para indicar os trabalhos cobrados a serem feitos. Esse é um formato muito comum e ruim, é orientado para o comércio.
Todos os sacerdotes que vi serem questionados em porque mantinham consultas e trabalhos com exu e pombo-gira junto com sua dita atividade de Candomblé alegaram a mesma coisa, um discurso comum, que eram muito gratos com aquelas entidades e que não poderiam abandoná-las.
Isso é uma total bobagem.
Elas já teriam virado as costas para elas no momento em que decidiram ir para o Candomblé, onde não existe o trabalho com esses guias.
Eles mantêm os guias por alguns motivos. O primeiro deles é puramente comercial, ganham dinheiro através desse guias de forma muito mais simples do que com uma casa de Candomblé. Além disso dinheiro sem ética porque esses guias são usados para trabalhos sem finalidade ética.
Outro é despreparo. Nada ou pouco sabem de Candomblé e se não tiverem esses guias de Umbanda não vão ter nada para fazer. Outro é porque dizer que são de Candomblé é apenas alegórico, eles gostam de poder dizer que são de Candomblé mas que amam a Umbanda e querem ter e usar todo o aparato decorativo que o Candomblé pode oferecer e que não encontram na Umbanda.
Essas pessoas não amam e nunca amaram a Umbanda. Elas amam o dinheiro.
As indicações da baixa qualidade da relação do sacerdote com o divino passam por isso que expliquei. Esses xirês realizados com muita opulência, seja para festas ou saídas de orixá (Òrìṣà), com muita aparência sempre são uma indicação forte de que aquilo é palco para a casa atrair pessoas. Pessoas que fazem trabalhos de qualquer natureza ética são apenas feiticeiros. Pessoas que anunciam em jornal, gastando assim muito dinheiro na sua promoção terão obrigatoriamente a necessidade de ganhar dinheiro com o que fazem.
Não vou entrar aqui no mérito das dificuldades em ter uma casa de Candomblé funcionando junto com guias de Umbanda, dificuldades do ponto de vista do supernatural.
Os fatores que indicam um bom ou mal lugar para consultar búzios são muito evidentes e simples, alguns podem não saber do que eu disse ou não terem prestado atenção, mas, podem se perguntar, se isso é assim evidente porque as pessoas continuam a ir nessas pessoas? Simples, se merecem, elas estão em busca também da falta de ética.
Não se pode falar de Jogo de Búzios no Candomblé sem falar sobre esse contexto comercial e esse é o motivo de eu citar isso tudo.

Novo vídeo no Canal do Youtube

O tema ainda é intolerância religiosa. Neste quinto vídeo é abordado a questão do preconceito contra a religião por ser acusada de ser para a prática de feitiços

O quarto vídeo será publica nos próximos dias. Ficou pronto mas resolvi refazer

Parte 5
.


segunda-feira, junho 03, 2019

Por que um oráculo é necessário em uma religião?

 

Por que um Oráculo é importante?
No caso da religião yorùbá, a importância disso é teológica e envolve um evento supremo. De acordo com a teologia da religião Yorùbá, é Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) a única divindade que compartilha junto a Olódùmarè o destino de cada pessoa. Cada pessoa antes de nascer, vai a Olódùmarè pedir o seu destino, na verdade estabelecer com ele o que ela vai fazer na vida, que objetivos vai buscar. Este momento no qual cada pessoa no mundo espiritual, no órun (Ọ̀rún), tem contato direto com Olódùmarè, se ajoelhando à sua frente é único e especial. Em nenhum outro momento temos acesso a Olódùmarè. Mais ainda, nenhuma divindade, exceto Exu (èṣù) e Órunmilá (Ọ̀rúnmìlà) tem acesso a Olódùmarè, mas, nós, nesse momento único e especial nos prostramos diante dele para pedir a ele nosso destino.
Este é o sentido desta divindade em especial, Órunmilá (Ọ̀rúnmìlà) e não outra, estar ligado ao oráculo e sendo ele conhecedor do destino das pessoas. É esse evento que torna relevante um oráculo através de Órunmilá (Ọ̀rúnmìlà) de um outro que seja através de outra divindade, outro orixá (òrìṣà).
Muita atenção nisso, aqui esta a razão teológica desta discussão.
Esta religião diferente de outras não entende que a vida é única, acredita em várias encarnações, não acredita que a gente vive para nunca mais encarnar, não acredita que a vida é um sofrimento, não acredita que temos carmas a sofrer.
Esta religião acredita que vivemos porque queremos viver, que vivemos em família e acima de tudo que vivemos para sermos felizes. Esta religião acredita na vida.
Olódùmarè esta, totalmente, comprometido com nossa felicidade.
Mas a vida no mundo é dificil, existe o mal que está nas pessoas, existem os Ajogun (fome, doença, perda, morte, etc…) existem as ajé (feiticeiras).
Para poder fazer frente a todos os problemas imprevistos, Olódùmarè em seu compromisso com a nossa felicidade, ele nos dá um oráculo para nos comunicarmos e os orixá (òrìṣà) para nos suportar.
Nessas informações que passei está o motivo teológico da existência do oráculo nesta religião (talvez em qualquer outra religião). O oráculo é o suporte que Olódùmarè dá a cada pessoa, através da religião, para que ela tenha sucesso na vida, a vida que ela pediu a Olódùmarè.
Olódùmarè, o deus, a divindade suprema, nos concede a vida e junto com isso todo o suporte para que tenhamos sucesso nela. Junto com a presença dos orixá (òrìṣà), cujo sentido é nos suportar na nossa vida, o oráculo é o instrumento divino que devemos usar quando precisamos de ajuda.
O oráculo na religião é a forma que os crentes têm para se comunicar com deus, diretamente ou através de seus representantes. O oráculo é sempre um instrumento de ligação e comunicação entre o mundo natural e o supernatural, entre o homem e o divino. Através dele, comunicamos nossos problemas insolúveis e buscamos a ajuda do divino, de deus, para seguirmos nossa vida aqui na terra, no àiyé.
Nesta religião quando rezamos a deus ou quando o procuramos, a resposta de deus não é o silêncio. Nossas preces são atendidas pela presença dos Orixá (òrìṣà), os ministros de Olódùmarè no àiyé e pelas mensagens que obtemos do oráculo. Deus fala com a gente.
O Candomblé não trata apenas com fiéis ou frequentadores. Existe uma legião de pessoas, consulentes que o procuram para resolver seus problemas de vida sem que pertençam ou queiram pertencer ao Candomblé e a religião de orixá (Òrìṣà).
O Babalorixá ( Bàbálórìṣà) e a Iyalorixá (Ìyálòrìṣà) atendem esses consulentes não apenas por questões comerciais, para ganhar dinheiro. Atendem porque faz parte dessa religião ajudar a todas as pessoas a atingirem os seus objetivos. Existe um compromisso de deus, Olódùmarè, em termos sucesso na vida, principalmente em sermos felizes, como explicado anteriormente e assim, o sacerdote da religião deve ajudar a todos que o procuram.
Olódùmarè assiste a todas a pessoas. Deus é único ele não faz distinção. Não existe nesta religião a figura de um deus raivoso e vingativo que escolhe um único povo como seu preferido e passa por cima dos demais.
Ele não vai atender apenas aos candomblecistas e deixar todos demais de fora, esse conceito de deus é tolo, deus é para todos, não importa a religião.
As oferendas e sacrifícios são uma continuidade do oráculo e visam como disse no início, nos ajudar em nossa vida a resolver questões possíveis através do supernatural.
Sua religião não tem um oráculo?
Na visão de sua religião, deus não esta comprometido com sua felicidade imediata?
Sua religião não oferece recursos para através do supernatural você ter ajuda na solução de problemas?
Então, lamento, ela tem uma visão muito restrita e menos útil.
O divino é o mesmo para todos, a diferença entre as religiões é como elas nos orientam nessa relação.
A questão comercial no Candomblé envolve o que o sacerdote vai cobrar, se vai cobrar e quanto vai cobrar por isso é um problema a parte.
Existe um outro uso do oráculo e que envolve questões teológicas da casa e dos membros, mas esse é um uso específico e menor considerando o atendimento a consulentes.




sexta-feira, maio 31, 2019

Novo vídeo no Canal do Youtube

O tema ainda é intolerância religiosa. Neste segundo vídeo é abordado a questão de nós mesmos gerando motivos para intolerância devido a pessoas que não são religiosas, dirigem casas comerciais para ganhar dinheiro com trabalhos e consultas e usam o tema de intolerância religiosa para se defenderem.

https://youtu.be/8dHIAPFWFsk




segunda-feira, maio 27, 2019

Novo vídeo no Canal

O tema é intolerância religiosa, com uma série de 5 vídeos, publicado a parte 1 - Multiplicidade Religiosa 

https://www.youtube.com/watch?v=ZNzjxJcYU5Q&t=861s

domingo, maio 26, 2019

O livro de Maupoil em português


Finalmente o famoso livro de Bernard Maupoil - A adivinhação na antiga costa dos escravos, foi publicado em português.

Está disponível em grossa e boa edição pela Edusp. Mais um grande trabalho de Carlos Eugênio Marcondes de Moura.

Eu tinha a edição antiga em francês, mas nunca li, de fato, francês não é para mim, mas ganhei e guardei. 

Esse livro lendário faz parte da história do Candomblé vou explicar isso em um texto que ainda não terminei. Para quem for ler atenção, ele não é sobre Ifá, ele é todo sobre Fá que é a variação de Ifá para o Dahomey.

O livro é voltado para Voduns e não Orixás, dessa maneira é um livro que vai interessar as pessoas que são do Candomblé de Jeje. não vejo ele utilidade para o Candomblé Ketu e as demais tradições afro-brasileiras que tem origem nos Yoruba.

Muitos podem agora estar perguntando que é esse Fá?

Fá é o Ifá no Dahomey.

Segundo Luis Nicolau Parés em seu livro A formação do Candomblé, p.274, 

"... a mãe do rei Tegbesy, Na Huanjile, é geralmente tida como responsável pela introdução por volta de 1470, do culto Mawi-Lissa em Abomey, transformando esse casal de voduns em divindades genitoras e supremas, colocando-as na cumeeira de um panteão cada vez mais vertical e hierarquizado. Ao mesmo tempo a introdução do sistemas de adivinhação Fa, controlado exclusivamente por homens e a promoção do culto Nesuhue dos ancestrais como culto nacional, com precedência sobre o culto do resto das divindades públicas, contribuíram para uma crescente estruturação piramidal do sistema religioso."

Este trecho é parte do capítulo "O panteão Jeje e suas transformações".

Eu recomendo muito a leitura desse livro. Se o Parés estiver errado, não tem o que fazer, mas, considerando, suas obras e o seu estudo como uma abordagem séria isso significa que:

- O estabelecimento do panteão Jeje hierarquizado tendo a figura de Mawa-Lissa foi tardia e feita pela rainha. Lendo o livro a gente aprende que essa hierarquização não fazia parte da tradição Jeje.

- A introdução de Ifá na forma de Fá foi feita tardiamente

- A introdução do culto de egungun através do Nesuhue também tardiamente e uma imposição da Rainha.

Pode não parecer nada mas isso significa que foi a estrutura da religião Yoruba que influenciou e reorganizou o panteão Jeje e não o contrário!

O livro do Parés tem outros exemplos, nesse mesmo capítulo, quando ele trata de Sakpata, Omolu e Nana Buruku. Os estudos deles mostram claramente que a religião Yoruba influenciou o seu entorno, com idas e voltas do mesmo Orixá, ás vezes com nome novo e não o contrário

A leitura da segunda parte do livro dele é muito boa, mesmo para quem não se interessa pela religião Jeje.

Tem pessoas aqui no Brasil que acham que foi o Jeje que exportou divindades, que ele seria mais antigo ou influente. Infelizmente para elas, não foi assim. 

O culto no abomey, o Jeje, era bem diferente antes e formado por famílias de Voduns (umas 3 famílias), independentes entre si, com quase nenhuma hierarquia. O conceito do Jeje era o de familia de divindades, com filiação entre os Voduns. Contudo esse nunca foi o conceito Yoruba para Orixá. 

A hierarquização do culto Jeje, como mostrado por Parés, foi configurada por decreto, fazendo um espelho da religião Yoruba.

Recomendo muito a leitura deste livro do Parés.

O livro do Mapouil é importante para entender um aspecto do nosso Candomblé, vou abordar isso no texto que estou fazendo sobre a história de Ifá no Brasil. 

Mas antecipando, a forma de Ifá que existe no candomblé, com um entendimento próprio de Odù, que é diferente do que os Cubanos e Africanos trouxeram, é devido as pessoas na década de 90 terem usado esse livro como base para estruturar isso.

Só que esse livro é sobre Fá, sobre Vodun. 

Isso explica como surgiu também essa grande mistura de vodun e Orixá. 

Mas basta abrir o livro na sua Parte II e você vai achar o Ifá que o Candomblé usa.

Eu queria ter mais tempo para poder explorar todos esse temas, mas, vamos nos virando com o que dá tempo.

















Canal no Youtube


Leitores, o canal no youtube continua ativo e em atividade, não deixe de conhecer.

Basta ir para www.youtube.com e procurar por "blog orunmila-ifa"

https://www.youtube.com/channel/UCT6-_PIUB2B9tnIo3NqGszg

Use o botão de inscrição para ter acesso mais fácil e se clicar no sininho vai receber um email avisando de novos vídeos.

Não deixe de se inscrever também aqui no blog, basta clicar no seguir.

Não deixe de ler o ultimo texto do blog que é um dos muito bom e aborda uma questão importante.

A religiosidade Yorùbá no Candomblé e Ifá
A questão das trocas entre o ọ̀run (órun) e o àiyé
Existe uma questão que sempre me perseguiu e talvez aconteça o mesmo com outras pessoas que estejam preocupadas com a religiosidade em si, aquela que deve estar presente nas pessoas que praticam uma religião.
Essa questão é a capacidade que deve ter o crente (aquela pessoa que diz professar aquela religião e que frequenta uma casa, igreja, templo) de qualquer religião em poder responder a uma pergunta muito simples, talvez a coisa mais elementar que é: O que ele faz dentro da religião? Qual a finalidade dele na religião? O que a religião traz para sua vida? Como a religião se incorpora na sua rotina diária? Qual o benefício de ter uma religião.
Parece um coisa muito simples de ser respondida por uma pessoa que se diz sacerdote, seguidor ou crente de uma religião, principalmente quando essa pessoa tem o objetivo de explicar isso para uma pessoa que não faça parte desta mesma religião. Não se trata de proselitismo. Um crente tem que ter a capacidade de motivar ou de explicar as suas motivações para um não crente, não com a intenção de convencer o outro a adotar a sua religião, mas, pelo menos, conseguir explicar os seus motivos nessa religião.
É claro que vou apresentar aqui a minha versão para isso e basicamente, é esta a questão de fundo que motiva tudo o que eu estou escrevendo. Contudo, antes disso, gostaria de explorar um pouco mais esse drama. Sim, o drama, no qual se transforma essa questão.
Eu penso que é muito normal a uma pessoa que está dentro de uma religião ter a capacidade de se expressar sobre os motivos que a levam a estar lá e que benefícios a religião traz à sua vida de uma maneira que, não só a pessoa pode explicar sua opção, como também, convencer outras desse caminho.
Não considero que essa seja uma questão culta, acadêmica ou teórica. Pelo contrário, acredito que estamos lidando com a questão mais simples que uma pessoa religiosa pode se confrontar.
A minha decepção é observar que isso é algo muito simples quando lidamos com evangélicos, católicos e muçulmanos, mas, quando estamos lidando com o Candomblé e com a Umbanda isso se torna, sem exagero, um transtorno mental. Deixando de lado a boa vontade e simpatia e se concentrando na argumentação em si, eu, até hoje, ouvi muito poucas, raríssimas, pessoas, que podiam se explicar sem caírem em lugares comuns, frases decoradas que não convenciam nem elas mesmas do que estavam fazendo.
Por exemplo, no caso do Candomblé qualquer resposta depois de alguns segundos de silêncio, uma expressão perplexa e aquele olhar profundo e perdido.... resulta em umas frases como: Eu amo meu orixá (òrìṣà) ou meu orixá (òrìṣà) é tudo para mim, O orixá (òrìṣà) é quem me dá caminho, etc... Nada de errado com essa manifestação de fé e carinho muito apropriadas a uma religião iniciática onde o orixá (òrìṣà) deve desempenhar um papel muito exemplar no imaginário do seguidor, mas, de forma nenhuma serviriam para explicar a alguém o motivo daquilo tudo ou convencer a sim mesmo do que está fazendo na religião.
No caso da Umbanda, o mais comum é a velha definição de que ela está ali para ter uma evolução espiritual, mas, prosseguindo com mais perguntas sobre o mesmo tema, não se consegue que a pessoa defina com clareza o que é esta evolução espiritual para ela.
Responder a primeira pergunta sobre um assunto exige um muito pouco de conhecimento e muitas vezes serve como resposta, até mesmo uma embromação, mas responder 3 ou 4 perguntas sucessivas sobre o mesmo assunto, aprofundando o tema, exige saber de fato o que se está falando. Assim, me transtorna um pouco ver tanta fé nas pessoas, se dedicando dias e noites a uma religião sem que se pudesse perceber se elas sabiam o que as mantêm ali.
Atenção, de novo, isso não pode ser um paradigma. Não podemos dizer que é complicado demais para as pessoas sem cultura ou formação, como as que eram e ainda são encontradas no Candomblé (isso tem mudado muito). Isso é apenas um estereótipo preconceituoso, e uma simplificação grosseira para justificar comportamentos inexplicáveis. Os evangélicos são uma população equivalente, em termos de classe social e educação (aliás muito piores porque para exercer uma religião daquelas só sendo muito idiota) e, estes, tem um domínio muito grande da sua religiosidade e também da sua teologia.
Vocês podem estar imaginando: e daí?
Qual a significância em se saber definir isso em palavras se o que importa é o que está no coração? Claro, essa é uma boa fuga para essa questão, mas, se fosse assim mesmo, só uma questão de se expressar oralmente, eu tenho certeza que a gente não veria tanta gente deixando o Candomblé e a Umbanda para se transformar em Evangélicos, deixando anos de dedicação para trás, sem significado nenhum e acreditando de fato que na Igreja conseguiu se encontrar com Deus, como já ouvi e li o relato de muitos. Sério, não estou exagerando. Não estava buscando definições acadêmicas ou formais, estava buscando apenas uma explicação que me convencesse de fato.
E mais, conversei com várias pessoas para entender como era a vida religiosa dela depois da sua iniciação ou mesmo para aquelas não iniciadas e que apenas frequentam um terreiro. Para meu espanto, fora a presença em obrigações aquilo era sempre um grande vazio interno sem explicações ou entendimentos. Aquela rotina de prática religiosa, se transformava em significado final da religião.
Vejam, estar presente em obrigações ou no seu terreiro fazendo tarefas domésticas não significa necessariamente que se está tendo uma vida religiosa. Existem muitos religiosos que vivem enclausurados em igrejas e conventos, mas, o trabalho doméstico é apenas uma necessidade em relação vida em comunidade, elas dedicam muito do seu tempo a religiosidade pessoal ou coletiva. A maior parte a rotina que envolve a presença em terreiros se traduz apenas em suporte às tarefas domésticas de uma casa compartilhada e não em prática religiosa.
Mas o que eu esperava obter?
Como já disse resposta simples, sinceras e querefletissem o envolvimento da alma daquela pessoa com a religião que ela adotou, que fosse uma coisa tão simples e natural e ao mesmo tempo calorosa que desse a quem ouvia a vontade de também participar daquela vida e crença religiosa. Que me permitisse compartilhar uma visão otimista da religião tornando as pessoas em seres humanos melhores.
Mas porque essa decepção?
A falta de orientação religiosa
Olha muitos motivos existem. O primeiro deles, sem dúvida, é a falta de formação e orientação religiosa dos ditos “sacerdotes” de Candomblé. De Umbanda então nem pensar. Eles abrem a boca para se auto nomearem sacerdotes de uma religião sem ao menos terem uma conduta consistente que justifique o emprego desses termos, seja o de sacerdote, seja o de religião.
Além disso, apesar de nossos inúmeros esforços em caracterizar de forma diferente, o Candomblé está hoje muito mais para uma religião de magia ou uma prática de magia do que uma religião. Como religião a sua prioridade são os ritos e liturgias e esse tema domina a formação e a preocupação das pessoas. Só o rito importa, só a forma e fazer melhor do que outro e saber mais ritos e segredos litúrgicos transforma aqueles pseudo-sacerdotes em pessoas melhores.
A qualificação de um sacerdote virou apenas o seu domínio por ritos e estes nem sempre podem ser totalmente associados a ritos religiosos. O dia a dia é dominado pela prática da magia para a obtenção de favores, para a correção de erros sem um questionamento do mérito de quem pede ou da moral do que é feito.
Tenham em mente que a prática do Candomblé envolve de fato as consultas ao oráculo, as liturgias posteriores a essa consulta e a realização de ritos e liturgias nos membros (obrigações) mas a vida em uma religião ou casa religiosa (terreiro) não pode ser resumir a isso. Antes de seguir vou explicar isso.
É um fundamento desta religião que a aliança que temos com deus, a nossa arca da aliança, é que deus nos ajuda e suporta em nossa vida. Antes de nascermos vamos a deus que pedimos para nascer de novo e explicamos qual será o nosso objetivo nessa vida. Olódùmarè, deus, nos concede a vida e nos dá instrumentos para vivermos e atingirmos nossos objetivos. Ele criou também os orixá (òrìṣà) para nos suportarem e serem o elemento de ligação com ele.
A aliança que temos com deus, Olódùmarè, é que vivemos para sermos felizes e que temos que ser pessoas boas, corretas e honradas, temos que ter um caráter exemplar e sermos úteis para a sociedade que vivemos.
Dessa forma a religião nos ensina e serve como esse elemento de reunião entre nós e os orixá (òrìṣà) e além disso existe um oráculo para que possamos nos comunicar com deus, com as divindades, com nosso anjo da guarda e ancestres para obter orientações e pedir ajuda. A existência de um oráculo e dos orixá (òrìṣà) deixa claro que nesta religião não existe essa visão de onisciência e onipresença de deus, como outras pregam.
Como parte da aliança de deus com a nossa vida feliz, o oráculo serve de instrumento para recebermos as bençãos de deus e ele indica que tipo de manipulações mágicas do supernatural devem ser feitas para podermos ter ajuda em nossos problemas. Essas manipulações das forças do supernatural são os ebós, trabalhos e liturgias que são feitos nos terreiros como consequência da consulta aos oráculos (búzios ou ifá).
Dessa maneira um terreiro é um lugar onde, como expliquei, podemos nos reunir com os orixá (òrìṣà) através dos Xirês, quando eles vem ao àiyé e podemos “vêlos” manifestados e ter contato com eles e receber suas bençãos (axé (aṣẹ́)). Também é onde podemos consultar o oráculo e fazer as manipulações mágicas do supernatural.
Um terreiro é deste forma um local com muito mais atividade religiosa do que um templo ou igreja e a razão disso está completamente fundamentada nos princípios da religião. O terreiro faz o que faz porque a religião assim o demanda.
Tenho que lembrar a todos que uma das coisas que torna essa religião tão mais atrativa é esse sentido que temos nela contato com o divino, nós interagimos com os Orixá (Òrìṣà). As divindades não são figuras remotas que vemos em imagens ricamente decoradas, o Candomblé não tem imagens para representar Orixá (Òrìṣà). Imagens não fazem parte do nosso relicário, se alguma casa coloca imagens é apenas porque quer, as imagens de Orixá (Òrìṣà) não fazem parte de uma casa. Eles são representados por seus símbolos uma vez que eles estão constantemente presentes no nosso meio.
As preces que fazemos não são falas que se perdem no silêncio sem nenhuma resposta. Nós nos comunicamos com o nosso divino e somos atendidos. Nós temos o oráculo e a presença de Orixá (Òrìṣà), que no candomblé de raiz yorùbá não fala mas gesticula.
Dessa maneira os terreiros são lugares simples, mas, sob o ponto de vista religioso são um ponto de encontro real e efetivo do crente com a sua religião e tem funções muitos maiores do que outros templos, tem uma utilidade prática muito maior e muitos mais atividades litúrgicas.
Explicado isso fica mais fácil de entender um dos objetivos de uma religião que é o de nos ensinar a usar o supernatural e nos conectar com o divino. O Candomblé e seus terreiros dão pleno significado a essa definição, fica bem evidente entender porque a religião é necessária e porque não basta apenas acreditar em deus. Você precisa de todo o conhecimento da religião para primeiro, entender a proposta de sentido de vida que ela te oferece, isto é, o entendimento que esta religião te oferece para entender o supernatural e o significado dele, em nossas vidas, e depois te conectar com o divino através do oráculo e dos Xirês e, por fim, executar os procedimentos de manipulação do supernatural.
Claro que a base para tudo isso é entender que existe um supernatural, um divino, acima de nós, que essas energias e divindades podem ser acessadas e manipuladas e que deus quer que sejamos felizes em nossas vidas.
Aqueles que não acreditam no supernatural e no divino são os ateus e, claro existem religiões que não se propõe ou não entendem que existem energias a serem manipuladas. Na verdade as religiões que dizem que você apenas deve rezar não estão totalmente erradas, de fato rezar é um importante elemento de conexão com o divino e com o supernatural, o hermetismo e a alquimia já falaram disso, mas, existem formas também mais efetivas do que apenas rezar.
Depois de toda esta explicação espero que tenha ficado claro que ter um oráculo e fazer os ebós é parte importante e fundamental de uma casa religiosa de Candomblé e que isso esta completamente alinhado com a base religiosa e tem como objetivo nos ajudar em nossa vida.
A tradição de atender pessoas comuns, que não fazem parte da casa, para o oráculo e ebós é comum, antiga e não é nenhum absurdo. A religião está aberta a todos, não existe motivo para um sacerdote deixar de atender que precisa porque Olódùmarè é deus para todos nós. O atendimento de consulentes sempre foi uma forma também de sustentar o terreiro. Dessa forma não existe nenhum tipo de restrição a isso.
Tem religiões que tem dízimo e recolhem contribuições no culto. O Candomblé não faz nada disso, mas, atende a pessoas com problemas na vida.
A execução das chamadas obrigações religiosas também faz parte da religião, são necessárias para a formação de sacerdotes. A pessoa para poder ser um intermediário entre os Orixá (Òrìṣà) e nós e fazer as manipulações energéticas do supernatural (ebós) tem que se preparar para isso.
Eu tenho um texto no blog que fala sobre essa questão de necessidade de obrigações e iniciações, de forma que, procure esse texto para saber minha opinião à respeito disso.
Dessa forma, fechando o assunto, ter um oráculo em funcionamento, fazer ebós e fazer obrigações são atividades importantes e necessárias de um terreiro de Candomblé.
A questão que trago aqui é que além disso um terreiro também é um lugar de formação religiosa, de transmissão de valores de formação humana. Tem que ser um lugar onde as pessoas vão também rezar e vão aprender o que a religião tem a oferecer para elas na sua formação do caráter ideal. É um lugar onde as pessoas tem que ir para conhecer qual é a proposta de visão transcendente para nossa vida na terra.
É nesse aspecto que os terreiros falham completamente. Eles se focam totalmente na primeira parte que descrevi, na prática da religião e deixam sem significado esta segunda parte que é o que as igrejas e templos se concentram porque não tem a primeira parte.
Um outro aspecto que deriva do foco apenas na primeira parte, da ação, é o desvio das funções de um terreiro e de seu dirigente da religião para se focar apenas nos ganhos é a ação sobre a espiritualidade.
Em Ifá o odù que nos traz ensinamento sobre isso é o odù IKA MEJI. O entendimento desse odù explica perfeitamente o que ocorre nos terreiros. Ika Meji é a inspiração religiosa, é a respiração profunda antes de rezar, é o acumular do axé (aṣẹ́), é quem lembra que a reza e palavra através dos oriki, versos de odù, provérbios, etc..) são o cavalo do oro o axé (aṣẹ́) não manifestado. Ika Meji fala do axé (aṣẹ́) latente do próprio ser que pode ser usado para crescer ou destruir.
Existem 2 signos filhos que representem bem esta situação, Ika Ogunda e Ogunda Ika. O primeiro representa esta essência de Ika meji, a de se concentrar na espiritualidade e religiosidade para acumular o axé (aṣẹ́), a ponto entre o ọ̀run (órun) e o àiyé, o equilíbrio, enquanto que ogunda ika é seu oposto quando a ação predomina a espiritualidade e se sente dificuldade em se conectar com o divino. Em ogunda ika a pessoa se perde em ações e se afasta do divino.
É o que ocorre em terreiros que apesar serem o ponto de contato com Orixá (Òrìṣà), se ocupa massivamente na atividade do oráculo, na execução de ebós, obrigações e no desvio disso, a prática mágica sem ética voltada para o enriquecimento pessoal.
Esse assunto, o da prática mágica aética ( na maior parte das vezes) e da ritualística é o que domina qualquer conversa envolvendo os praticantes e sacerdotes. Uma visita ao “dial” do rádio deixa isso bem claro. Encontramos programas católicos – poucos – evangélicos – muitos - e os de Candomblé. Enquanto nos primeiros existe uma preocupação com a pregação da palavra de Deus, do verbo, para os últimos é apenas uma hora de comércio e relacionamento.
Desta maneira a religião que existe e na qual se baseia o Candomblé se perde e é esquecida. Os conceitos religioso, a teologia e a teogonia ou mesmo a coisa mais simples, que é como eu iniciei qual o sentido para isso na vida das pessoas, o que esses sacerdotes pensam que estão trazendo para essas pessoas que os seguem, são apenas fragmentos, não ligados, que são ditos com brevidade, sempre, mais no sentido de mostrar que existe um fundamento maior por trás de tudo, a religião de fato, mas que ele nunca explica (não sabe o que falar), servindo apenas como uma isca ou como um elemento para despertar curiosidade e respeito. As pessoas entram na busca desse conhecimento que nunca vem, ai abandonam a religião, porque racionalmente reconhecem que esta religião tira delas mais do que dá.
A grande responsabilidade por isso é a própria formação dos referidos sacerdotes, voltada para o rito e o ganho pessoal através da prática da religião.
A preocupação por criar essa orientação religiosa, de fato, não existe e como a gente sempre diz, que só se pode dar aquilo que recebe, eles pouco ou nada tem a dar. Os que se incomodam com isso acabam usando os conhecimentos que adquiriram de outras religiões como o catolicismo ou o do Kardecismo para terem algum discurso religioso. Esse discurso passa então a ter nenhuma relação ou vinculo com sua própria religião. Além disso a prática mágica indiscriminada e sem ética e moral e que visa o seu ganho financeiro próprio acaba retirando dele todo o sentido de ética e moral que qualquer religião deve ter. Como essa pessoa vai pregar, ensinar ou cobrar algo de seus seguidores se a sua prática diária esta envolvida em fins que são completamente não éticos?
Mas muitos podem se levantar contra essas palavras e dizer que nem todos são assim, simples feiticeiros e que sua prática mágica e litúrgica tem sim uma base ética. OK, como em tudo existe exceção vamos aceitar que de existem esses grupos, mas, mesmo para esse grupo as afirmações principais se sustentam: a falta de orientação da base religiosa, a valorização da prática mágica e litúrgica.
A realidade do Candomblé é que apesar de ser uma tradição de uma religião de fato, de os seus ditos sacerdotes terem alguma noção disso e eles se autodenominarem sacerdotes e religiosos, a formação religiosa deles é nenhuma. Dessa maneira a sua capacidade de transmitir religiosidade para outros é igualmente nula. O que eles transmitem são ordens comuns, bom senso baseado em conveniência própria e conceitos religiosos que aprenderam de outras religiões basicamente a católica e espiritismo, que no fundo vira mais um sincretismo porque se junta com alguns conceitos que eles aprendem da religião africana.
No caso da Umbanda é um pouco distinto, porque a Umbanda é apenas uma prática ritual de fato, e a religião por trás disso pode ter muitas origens, sendo que a mais comum é o espiritismo que deriva do catolicismo. Como o espiritismo Kardecista é bastante doutrinado e codificado a tarefa dos seus sacerdotes é bem simplificada mas igualmente mal executada.
Mas deixemos de lado um pouco essa questão que é farta de assunto e exemplos, e na minha visão indefensável para voltarmos para o praticante individual.
A vida religiosa de um praticante é então dominada pela ritualística e submissão hierárquica com pouco ou nenhuma orientação religiosa. Sua dedicação é dominada pela participação em obrigações próprias, de outros ou coletivas onde o seu papel varia de nenhum a algum. Toda a iniciativa ritual em um terreiro é dominada por poucos, um ou dois na maior parte das vezes cabendo aos demais o papel de figuração ou coro.
A rotina religiosa é repleta de festejos que criam assim um direcionamento estético e vaidosa para a presença da pessoa uma vez que não tendo ela um papel ou não consumindo o seu tempo com reflexões religiosas essa pessoa passa a dedicar o sei tempo ao culto do seu Ego e da sua vaidade no que faz. A vaidade é o que domina o Candomblé hoje.
A troca de favores usando o Órun (ọ̀run) e o Àiyé
Chegamos, por fim, a talvez uma das questões mais primárias disso tudo que é o contínuo processo de troca entre o ọ̀run (órun) e o àiyé, que domina o dia a dia das pessoas.
Esclarecendo a todos o Órun (ọ̀run) é o espaço supernatural e o àiyé é o espaço natural. O Órun (ọ̀run) é o lugar onde habitam os espíritos e o àiyé é basicamente o mundo terreno. A troca significa que no àiyé as pessoas procuram através de liturgias e oferendas oferecer coisas esperando receber em troca disso favores dos espíritos do Órun (ọ̀run).
É como os católicos que fazem promessas para obter favores em troca de penitências (aqui uma relação de sofrimento, no qual o Órun (ọ̀run) católico exige que a pessoa sofra e se puna para atendê-la?) ou os neo-pentecostais com sua doutrina de teologia da prosperidade, na qual deus “em pessoa” vai atender a tudo o que eles pedem, inclusive as maldades que pedem colocando nomes e fotos das pessoas dentro da bíblia.
As trocas, então, não são uma exclusividade de nenhuma religião e sim na natureza humana.
No Candomblé, este mecanismo domina tanto, a visão da pessoa que se associa a uma casa, como também a forma como a sociedade vê as casas e isso é muito ruim. É no mínimo curiosa a a mentalidade que se constrói de que os espíritos e divindades no Órun (ọ̀run) estão ali, ávidos por receberem ebós e rapidamente, a troco de umas bolas de farinha ajudar as pessoas no àiyé.
Sem dúvida a visão do mundo de cada religião é distinta e isso direciona a forma como as pessoas vivem. Se você pega uma religião reencarnacionista e cármica como o budismo e kardecismo, por exemplo, que pregam que viver é um sofrimento e você nasce, na realidade, fazendo um “curso” de sofrimento para não mais renascer, esta pessoa vai pautar sua vida justamente seguindo esta sina, de “viver” essas dificuldades para que elas não apareçam mais e também sendo forçosamente caridosos para acumular pontos positivos nessa vida.
Eu acho que o budismo deve fazer um bom trabalho nas pessoas, buscando o melhor delas, apesar de eu não gostar da filosofia como um todo. Mas o Kardecismo não tem filosofia do budismo e se caracteriza pela orientação à caridade, na maior parte das vezes não sincera, como uma obrigação de vida. Contudo, o que eu quero dizer aqui, mais uma vez, e enfaticamente, é que a prática sincera de uma religião direciona a forma como as pessoas vivem e como encaram a sua existência.
A religião Yorùbá tem como característica dizer para as pessoas que elas nascem para ser felizes e elas devem viver felizes. Ela também reconhece que o mundo tem muitas dificuldades e coloca o divino, através de orixá (Òrìṣà) e outros espíritos disponíveis para ajudar as pessoas a vencer os obstáculos que as impedem se ser felizes.
Desta maneira o Candomblé tem esta veia assistencialista na sua estrutura. Mas o objetivo disso não é no que isto se transformou na prática. A religião quer as pessoas felizes e ela suporta isso através do equilíbrio e reposição de axé (aṣẹ́), que é a forma como a religião entende que você obtêm as condições para ter condições para resolver seus problemas. A religião entende que a pessoa deve ter energia, uma boa cabeça para tomar boas decisões, um bom caráter, ética e sorte na vida. Mas acima de tudo a religião diz que a pessoa deve ter boas pernas, porque sem boas pernas você não realiza nada.
A visão dela é muito direta, nós temos que resolver nossos problemas, o preguiçoso não vai ter nada na vida. Não adianta você se sentar e esperar que as coisas ocorram, se você quiser realizar alguma coisa faça algo por vocês. Se quiser ter dinheiro, trabalhe, se quiser comer, plante, se quiser resolver problemas e conflitos busque a solução. Não existe incentivo para a preguiça, para a leniência e para a pessoa resolver seus problemas com trocas e feitiços.
Existe uma frase muito boa que diz que seu orixá (Òrìṣà) não vai impedir que você chore suas lágrimas, mas, estará junto de você para enxugá-las. As trocas entre o Órun (ọ̀run) e o Àiyé existem, sempre com este sentido de dar a você as melhores condições para realizar, trabalhar, ter saúde, ter determinação e também para eliminar dificuldade ou negatividades que não lhe pertencem.
Se você passa anos plantando e regando um problema, você vai colher o seu problema. O que saiu da sua mão é seu, usufrua dele. Não adianta esperar ajuda divina para uma coisa que você mesmo criou para você. Mas, existem situações que não nos pertencem, existem problemas que não procuramos, existem negatividade que nos são direcionadas por outras pessoas por sentimentos que não fomos responsáveis diretos e nem por nossas ações.
Essas coisas, que não nos pertencem e que não cultivamos, são as coisas que são mais facilmente resolvidas pelo sistema de troca.
Mas, o ser humano é muito obtuso e muito focado em seus objetivos. A maior parte não está interessada em “viver” sua religiosidade. A vida do praticante do Candomblé é dominada pelo sentido de alia naquela casa ela estará próxima deste processo de troca contínua de bens e favores entre o ọ̀run (órun) e o àiyé com o objetivo de resolver todos os seus problemas materiais.
O supermercado religioso do Candomblé é a tônica principal da compreensão que se estabelece do que seja a religião dos orixá (Òrìṣà) e isso é tão forte que permeia o grupo dos frequentadores e mais, se alastra por toda a sociedade. As casas da religião são rotuladas como casas de trabalho, lugares onde se paga para resolver problemas e, na maioria delas sem muita ética envolvida.
Assim, baseado no fato de que a pessoa é dedicada ao seu orixá (òrìṣà), que vai no seu terreiro para varrer o chão e passar roupa, ela entende que é merecedora de favores do plano divino. Oferendas e ebós são os elementos de troca que buscam dar coisas para que a pessoa receba em troca favores, que vão resolver o seu problema, trazer benefícios e criar atalhos para a sua vida.
A questão do comportamento, do mérito como base para se poder alcançar algo na vida ficam sempre para segundo (ou nenhum) plano. Entende-se que o processo mágico das oferendas ou de obrigações é o mais do que necessário para se obter o que precisa. Entendesse que uma pessoa que faça seu orixá vai ter que receber em troca emprego, dinheiro e uma vida melhor. Se isso não foi alcançado é porque o sacerdote que procurou é ruim, seu santo foi mal feito, etc...
O mais incrível é a pessoa entrar para uma religião que ela imagina que as divindade que ela acha tão maravilhosa se vendem por um punhado de grãos para fazer qualquer coisa, ou mesmo, que ficam lá sem ter o que fazer a não ser facilitar a vida das pessoas aqui no àiyé.
O merecimento, ou a falta dele, é sempre lembrado como motivo para justificar o não benefício, geralmente por quem vendeu a liturgia para o favor ser atingido. Nessa hora a pessoa não obteve porque não merecia. Mas nunca lembrado quando o contrário ocorre, quando o benefício é atingido, nesse momento o mérito é de quem fez a liturgia. A medida do sucesso na obtenção de benefícios e prosperidade é a que justifica a permanência de alguém em uma casa. Se as coisas não vão bem elas se vão.
Afirmo que este é um desvio da religião. Ela não existe com essa finalidade e essas almas pobres que assim se situam estão completamente perdidas em relação ao o que é a religião. Não tenho dúvida que esta distorção de visão começou quando as pessoas começaram a comercializar o axé (aṣẹ́). O que deveria ser uma coisa restrita para as pessoas de uma casa passou a estar à venda para quem pudesse pagar.
O sacerdote usando os conhecimentos a que tem acesso se transformou apenas em um feiticeiro, um fazedor duvidoso de favores. Na vida real, como no cinema, toda força mágica tem 2 usos, o do bem e o do mal. A comercialização de ebós e feitiços é apenas um mau uso disso, é o uso do lado ruim.
Um religioso, um sacerdote é uma pessoa do bem. Ele não pode se prestar a anunciar serviços mágicos ao alcance de qualquer pessoa.
Na minha visão uma religião baseada em um sistema de trocas é o caminho certo para o seu fracasso. As pessoas que se envolvem com uma religião como o Candomblé não podem viver com essa perspectiva. Uma religião não pode se focar ou incentivar esse comportamento porque jamais as pessoas vão se encontrar ou entender o que estão fazendo lá.
Mais ainda, a falta de estrutura religiosa que permita a frequência e participação de pessoas não iniciadas em terreiros junto com a contínua pressão para que todos sejam iniciados é um problema crônico que mais afasta do que aproxima.
O Candomblé não será uma religião se não criar categorias para diversos níveis de envolvimento e iniciação. Quando os terreiros tiverem que conviver harmoniosamente com pessoas que não querem ou que jamais farão o seu orixá (Òrìṣà) eles conseguiram enfim achar um caminho religioso para sia existência. Hoje essa convivência é um estágio intermediário no qual a pessoa é continuamente empurrada ou incentivada a trocar de status de abian para iyawo.
A manutenção de terreiros através de clientelismo religioso é mais um outro mal. Esse processo de troca entre ọ̀run (órun) e aiyé deve acabar e isto ser um bem intrínseco da religião e não explícito. O aspecto da troca esta presente em todas as religiões em maior ou menor grau. Você dedica tempo, fé e recursos e espera do ọ̀run (órun), do sagrado, um retorno para a sua vida. Isso é natural, mas, algumas religiões moldarem isso com sabedoria, como a católica outras transformaram isso na sua bandeira como os evangélicos, mas que junto com a promessa de benefícios traz uma enorme dose de doutrina, dogma, moral e ética.
A perspectiva materialista
Na umbanda e Candomblé isso fica quase apenas na perspectiva materialista. O principal exemplo desse paradigma é a Umbanda. Como já expliquei aqui antes a Umbanda por si só não se caracteriza nenhuma religião. È um processo de possessão voltado em princípio para ajudar outras pessoas mas que deve se basear em alguma doutrina religiosa, qualquer uma porque a pratica da Umbanda exige mediunidade e não uma crença religiosa específica. Assim existem muitas umbandas, cada uma com uma combinação e entre comum apenas a incorporação com espíritos.
Os médiuns e principalmente os frequentadores se fixam sempre na solução de problemas da vida e materiais. A frequência é determinada por isso e todos os que ali estão querem resolver algo novo toda semana. “Macumba boa é aquela que funciona”. As respostas a pergunta chave geralmente se traduzem em algo do tipo que a pessoa está ali para elevação espiritual, mas essa resposta não sobrevive a uma segunda pergunta do tipo o que significa para ela essa elevação espiritual, como aquilo se traduzira na vida dela?
Esse problema não é exclusivamente do Candomblé. Esta muito presente também nos neo-pentecostais, contudo, apesar do muito excessos eles conseguem algum equilíbrio entre a realização espiritual e o sentimento de realização material. Tanto que as pessoa migram do Candomblé e Umbanda para eles.
Existe um tipo de pessoa e uma determinada faixa da população que coloca claramente essa questão material na frente da sua religião. Elas na realidade vão estar sempre buscando alguém que resolva os seus problemas e serão uma população migratória entre doutrinas e casas na busca de solução.
O circulo virtuoso
Eu poderia traduzir assim o círculo virtuoso. Uma pessoa que se dedica a essa religião deve encontrar base e orientação para através do contato com esse divino, através de exemplos e através de orientação, atingir um equilíbrio em sua vida na forma como a conduz e na forma como dedica o seu tempo para objetivos de realização. Equilíbrio é a principal palavra que traduz essa religião.
Uma pessoa religiosa é aquela que vive nesse mundo com a fé no divino. Uma fé forte e presente que a faz saber que sua vida existência esta sendo submetida e é controlada por uma força maior do que a dos homens, por uma lei maior do que a dos homens. Assim essa pessoa vive com a convicção de que não esta sozinha nesse mundo, o divino no ọ̀run (órun) esta sempre a zelar por ele. Uma pessoa de fé sabe que o mundo e as coisas são controladas pelo divino e não pela mesquinharia dos homens.
Essa pessoa vai se transformar em uma pessoa melhor para consigo mesma obtendo equilíbrio na forma como vive sua vida e se dedica a seus objetivos com ética e caráter. O seu orixá (òrìṣà) e ori vão buscar não somente ajudá-lo nesse equilíbrio como também ajudá-lo a enfrentar as diversidades de sua vida, amenizando problemas, e tornando-o transparente para seus inimigos. A própria conduta dessa pessoa, equilibrada consigo mesmo vai evitar que ela cria inimigos para sí.
O seu ori vai protegê-lo dos ajogun, os males que estão nesse mundo e que fogem ao nosso controle. A sua boa conduta vai permitir que oportunidades de abram em sua vida, que ele as veja e que consiga se aproveitar delas. Os caminhos dessa pessoa se abrem através do seu mérito como pessoa e através da proteção do divino para aquelas coisas que não forem plantadas por você mesmo.
Você como uma pessoa melhor vai ter condições de ajudar sua família e trazer também para ela esse equilíbrio. Mais pessoas assim serão beneficiadas por sua ação. O benefício para a família é um dos principais objetivos que uma pessoa deve ter em sua vida, seja por mantê-la unida seja por vê-la prosperar.
Uma vez atingido esse estágio você tera condições de ajudar a sociedade que o cerca, tendo assim conhecimento e experiência para transmitir para outras pessoas, ajudando a transformar e melhorar o mundo em que vive.
Uma pessoa religiosa deve ter uma prática diária dessa religiosidade. A oração é o elemento de ligação entre o aiyé e o ọ̀run (órun). As palavras empregadas e sua repetição é o que o fazem. Uma pessoa deve de Fé deve estar ligada ao ọ̀run (órun) e deve ter em sua vida a pratica da oração.
Além disso a pessoa que vive com Fé deve se lembrar desse divino ao longo do seu dia. Seja quando tem uma dificuldade seja quando algo de bom ocorre com ele porque o mesmo ouvido que serve para ouvir pedidos de proteção e ajuda também serve para ouvir agradecimento.
Uma pessoa de Fé deve ter uma prática religiosa diária e semanal para si que não dependa do sei terreiro para que ela busque através dessa ligação com o ọ̀run (órun) o equilíbrio e o Iwa pele que vão trazer tudo de bom para a sua vida.
Uma pessoa de Fé deve saber como se dirigir a seu orixá (òrìṣà) e Ori e como receber deles as mensagens que precisa para poder viver melhor o seu dia e vida.

quarta-feira, maio 01, 2019

NOVO VIDEO NO CANAL  DO YOUTUBE


Tradições Religiosas


https://youtu.be/7OPzy2m7giw

A matriz religiosa afro-brasileira


Esse blog fala de Candomblé e Ifá mas existe um tema importante que é o que esta além do Candomblé no Brasil.
O candomblé, como já é extensivamente explicado em outro texto deste BLOG, é o culto de Orixá (òrìṣà) no Brasil. Ele é composto, na verdade não por uma unidade, mas sim por vários cultos distintos e estes tem raízes religiosas bem diferentes, isto é, cultos que representam matrizes religiosas originais distintas e por esta razão não deveriam ser nomeados juntos. Mas, aqui no Brasil, essa diversidade religiosa afro-brasileira recebeu o nome comum de “Candomblé”.
É importante estar atento para o fato de que nem tudo que faz parte da dita matriz religiosa afro-brasileira é Candomblé.
A matriz afro-brasileira é bem maior do que o Candomblé, que é apenas o mais conhecido em grandes centros do sudeste. Existem outros cultos afro-brasileiros como o Batuque, o Tambor da mina, o Xambá (creio que já extinto) e o Xangô (ou Nagô) que não ficam debaixo do mesmo guarda-chuva chamado de Candomblé.
O Candomblé, possivelmente a mais conhecida tradição afro-brasileira, deve ser entendida nas suas 2 tradições, A tradição jeje e a Tradição Yorùbá, com o Ketu, o Efon o Ijexá e outros. Dessa maneira temos 5 tradições religiosas afro-brasileiras, creio que existem mais ou existiram mais, a casa da mina é uma delas mas, não vou inserir aqui, vou manter como sendo as 5: Candomblé Jeje, candomblé Yoruba, Batuque, Xangô e Tambor da mina.
Cada uma delas tem origem na religião Yorùbá ou do Dahomey, uma religião africana e representa a especialização da religião no Brasil.
Minha lista pode estar incompleta mas também podem considerar cultos que não são afro-brasileiros como tais.
Eu já abordei com detalhes esta diversidade religiosa afro-brasileira em outro texto, como já citei, recomendo que este texto seja lido para que as pessoas que não tem intimidade ou conhecimento deste contexto religioso possam entender isso.
Eu, aqui no Blog, me foco na teologia religiosa do Candomblé Yoruba, esse é um Blog voltado para isso, para teologia e especificamente, dentro do Candomblé, para a teologia Yorùbá. Neste sentido o meu foco é a religião Yorùbá e não a religião do Dahomey, do grupo Jeje.
Vamos de novo, como eu já citei, Candomblé é uma denominação bem genérica para coisas que podem ser diferentes, parecem iguais, são todas afro-brasileira, mas, em termos de religião representam coisas distintas.
Eu, em meus textos, quando falo de Candomblé me refiro sempre ao conjunto de cultos ligados a religião Yorùbá (culto de orixá (òrìṣà) e Ifá). É muito comum eu trazer aqui visões novas para temas que já são conhecidos por pessoas do Candomblé, muitas pessoas, por pertencerem ao Candomblé, já tem um conhecimento ou mesmo nada sabem do que eu trato, isso é natural.
O que as pessoas do Candomblé tem que compreender é que se a casa a que elas pertencem esta ligada a raiz religiosa Yorùbá, como as casas de Ketu, Efon, Ijexá, por exemplo, então, o que eu estou falando é algo que elas devem prestar atenção.
Se elas pertencem a raiz religiosa Jeje então nada aqui se aplica a eles, podem ler como curiosidade, mas não é a religião deles.
O meu contexto religioso para o Candomblé, contempla 2 grupos religiosos bem distintos e fortes, o grupo Yorùbá e o grupo Jeje. O outro grupo, muito citado por ai, é uma mistura de coisas desses 2 com coisas de bantu e desconheço qualquer referência que legitime eles como uma tradição religiosa bantu, são apenas uma colagem, essa é minha visão após anos de convivência.
Esta é a razão de eu ter que mencionar essa diversidade. Como a palavra Candomblé designa coisas diferentes, muitas pessoas podem não entender ou saber disso e podem também estar ligados a cultos que não tenham ligação com a religião Yorùbá.
Assim, aqui o tema é a religião do grupo Yorùbá, mas atenção, como já disse isso não define a matriz afro-brasileira que é bem maior. Nosso país é muito grande mesmo.
Não posso deixar de mencionar a Umbanda como um destaque, visto que sua popularidade a torna referência para muitas pessoas que conhecem a Umbanda e não conhecem o Candomblé.
A Umbanda é uma religião brasileira, ela não faz parte do contexto afro-brasileiro. Essa não é apenas uma afirmação minha é a história da Umbanda que mostra isso e qualquer pessoa que conheça o assunto sabe disso.
A Umbanda é altamente sincrética e com o passar de muitos anos ela absorveu alguns cultos afros que acabaram desaparecendo. Todo o grupo Bantu que promovia a Quimbanda ou a Macumba acabou, sua prática foi superada pela Umbanda.
Esse grupo Bantu, de origem africana, não fazia parte da matriz religiosa Yoruba-jeje, era um grupo distinto, de prática religiosa bem pobre e objetiva voltada para a troca de favores e mercantilização desta atividade eram os feiticeiros. Uma parte se travestiu de culto de Orixá (Òrìṣà) e virou o Omolokô. Outro, a maioria se transformou em casas de Umbanda, assim se autodeclarando.
Foi esse grupo que ao ser duramente digerido pela Umbanda trouxe a africanização do formato da Umbanda e essa africanização estética faz as pessoas pensarem que a Umbanda seja parte do contexto afro-brasileiro. Não é, mesmo tendo incorporado alguns elementos africanos, como os tambores, a Umbanda é um culto e religião distinta e brasileira.