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segunda-feira, abril 06, 2020

Novo vídeo no canal: O candomblé não tem ídolos

Novo vídeo no canal: O candomblé não tem ídolos



Veja no canal do Blog no Youtube um vídeo sobre a questão de imagens no Candomblé



LINK:  Candomblé não tem ídolos



sábado, abril 04, 2020

Entendendo a religião do Candomblé - Pt 11 - O mundo natural, o Àiyé

O mundo natural, o Àiyé


Ayél’ojà; òrun’ilé



O mundo físico é um mercado e o órun (Ọ̀run) é nossa casa, essa frase sumariza a visão para a relação orun-aiye e nossa vida.


A crença é baseada na existência temporal e da alma em um corpo humano que permite a essa alma trocar de dimensão, trocar o mundo supernatural pelo natural.


O corpo é um envelopamento temporário para a alma e permite a ela participar da vida no Àiyé que termina com o desencorpamento da alma, a morte, quando a alma se livra do corpo inútil e desgastado e retorna para casa, o seu lugar permanente.


A morte sob o ponto de vista Yorùbá não é nada trágico, é uma passagem de retorno para o órun (Ọ̀run), uma passagem assim como o renascimento. Uma sociedade cuja religião entende que estamos aqui de passagem não pode transformar a morte em nada mais do que uma partida. Nos versos de Ifá a situação de alguém morrer ou ser condenado a morte como consequência de erros é lugar-comum.


Nesse aspecto é muito importante destacar a participação do culto de Egúngún na sociedade Yorùbá. Os Egúngún representa a alma dos nossos ancestres que retornam do depois-da-vida, do além-vida, para interagir com seus descendentes vivos.


Os Egúngún são os espíritos que se preocupam com a comunidade. Eles aconselham e são usados para a solução de problemas comunitários.


Entre os Yorùbá existe a consciência de que tudo que vive irá eventualmente morrer, de maneira que os Yorùbá aceitam a morte como um preço que pagamos por viver.

Existe um ditado popular que diz que “Não existe nada que viva sem morrer” e ainda “A morte é uma dívida”.


Os Egúngún ajudam os Yorùbá a minimizar o medo da morte, ao lembrar a todos que a alma é eterna e que a vida se renova com um renascimento. Dessa maneira eles podem se concentrar nos seus negócios e em viver.


Vou mais adiante falar sobre a morte no ponto de vista Yorùbá.


O Àiyé é o mundo natural, onde vivemos e o que existe para ser explicado pela religião é o importante conceito do Axé (àṣẹ) que é o elemento de ligação entre o órun (Ọ̀run) e o Àiyé.

Axé (aṣẹ́) é um dos elementos de base desta religião, um dos seus pilares na vida no Àiyé

A religião entende que Olódùmarè quando nos cria coloca uma centelha de seu poder dentro de nós. Axé (aṣẹ́) é a energia que todos temos é a nossa quintessência e tem origem em Olódùmarè. Axé (aṣẹ́) nos liga a Olódùmarè e torna esse a divindade suprema por excelência. 


O axé (aṣẹ́) é dado por Olódùmarè para todas as coisas: As divindades, os ancestrais, os espíritos, humanos, animais, plantas, pedras, rios, palavras ditas em canções, rezas e pragas. Axé (aṣẹ́) é o poder que todos temos, ou mais amplamente, o poder que tudo no àiyé possui.

A definição que o uso da palavra axé (aṣẹ́) recebe dentro da religião é bastante ampla e, no estilo Yorùbá, uma mesma palavra é usada para descrever muita coisa, coisas importante e menos importantes. É um adjetivo muito usado por todas as pessoas no sentido de votos de sucesso e agradecimento. É como se você transmitisse para a pessoa que você fala que ela o axé (aṣẹ́) na forma de agradecimento ou que desejasse que aquela situação tivesse o axé (aṣẹ́) nela, etc... 

Além desse uso coloquial axé (aṣẹ́) é acima de tudo um pilar da religião e é isso que inclusive justifica o seu uso de forma coloquial. As palavras têm axé (aṣẹ́) de forma que desejar axé (aṣẹ́) para alguém é como se você dividisse o seu axé (aṣẹ́) com essa pessoa.

Cada ser no Àiyé, que é o mundo que vivemos, possui uma composição única de axé (aṣẹ́). Axé (aṣẹ́) é uma qualidade, uma virtude, dada por Olódùmarè de maneira que cada elemento do Àiyé tem uma propriedade ou poder distinto. No caso dos humanos entendemos que essa virtude original varia e as pessoas podem ter virtudes, ou capacidades distintas. O axé (aṣẹ́) que recebemos é distinto. 

A palavra “virtude” é usada por mim aqui para descrever esse poder mágico congênito, a propriedade particular ou comum a indivíduos ou materiais. 

Axé (aṣẹ́) é também a força da vida, a energia vital, que nos faz viver. Também é a força que nos faz ter a capacidade de interceder no mundo através de poderes supernaturais. 


Para não complicar vamos resumir que axé (aṣẹ́) como energia ele traduz:

  • A “virtude única” que Olódùmarè nos dá
  • A energia básica que todo ser tem e precisa para viver, a força do nosso corpo.
  • A força que nos dá a capacidade de interceder no mundo através de poderes supernaturais.

Podemos entender que, vendo de outra maneira, que existe uma parte comum e uma parte especial no axé (aṣẹ́). A parte comum é o aspecto de ser uma energia vital presente em todos os seres e que nos dá a vida. Neste ponto, axé (aṣẹ́) é um elemento básico e comum. 


A parte especial é a virtude que recebemos de Olódùmarè a força que temos e a a quintessência que nos permite transmitir isso.

Tudo no àiyé é um ser, não importa se animal, humano, vegetal ou mineral. O que existe tem axé (aṣẹ́). O axé (aṣẹ́) é uma força diferente dos quatro elementos, por isso podemos de chamá-lo de quintessência.



PRÓXIMO TEXTO:

- O AXÉ

quarta-feira, abril 01, 2020

Porque Tenho uma fé inabalável em minha religião

Porque tenho uma fé inabalável em  minha religião



Novo vídeo no Canal do Youtube do BLOG.


Não deixe de ver, é bem curto, mas cheio de fé

Explica o que mantêm minha fé nesta religião, porque tenho certeza de que o divino existe e porque essa foi a religião que escolhi.









https://youtu.be/Kh6PbRY7FSA

terça-feira, março 31, 2020

AVISO: DIFERENÇAS ENTRE O E-MAIL E O SITE

DIFERENÇAS ENTRE O E-MAIL E O SITE



Aqueles que se escrevem no Blog, são avisados de publicações novas através do seu email, recebendo uma cópia do conteúdo que foi publicado.

Isso é bom, mas, alerto que os textos no site são continuamente revisados e atualizados, várias atualizações importantes e vocês não vão receber isso por e-mail

Por e-mail vai sempre a versão inicial.

Assim, Não deixem de ir no site conferir a versão atualizada, eu mudo bastante coisa depois da publicação inicial e se você não der uma conferida não vai ver isso.

Entendendo a religião do Candomblé - Pt. 10 - Órun (Ọ̀run), o mundo espiritual

Órun (Ọ̀run), o mundo espiritual


Olódùmarè é concebido como o criador da existência, sem identidade sexual e distante da vida diária as pessoas, ele é representado pelas divindades e ele é a fonte do axé (àṣẹ), a energia vital que possibilita toda a existência.

É o axé (àṣẹ) a força que faz o sol iluminar, a lua e as estrelas brilharem, o vento soprar, a chuva cair e os rios fluírem. Ela dá forma ao disforme, movimento ao imóvel e vida as coisas vivas.


É Olódùmarè que mantêm as coisas funcionando, o mundo vivo. Não são os orixás a personificação das forças da natureza como querem alguns, essa tese é absolutamente contrariada pelo conceito de axé (àṣẹ) originado unicamente de Olódùmarè, além de existirem versos que justificam essa posição de não serem a natureza.


Olódùmarè não atua diretamente na humanidade, ele faz isso através de espíritos, divindades conhecidas como orixá (Òrìṣà). Cada orixá (Òrìṣà) personifica um axé (àṣẹ), um poder e, para alguns orixá (Òrìṣà) esse poder está em harmonia com forças naturais.
Cada criatura viva tem o seu próprio axé (àṣẹ), seja como ser vivo seja como um poder recebido de Olódùmarè, é esse axé (àṣẹ) única que dá, a cada elemento, um poder que poder ser compartilhado aqui no Àiyé.


Olódùmarè é o único que tem o poder de gerar o axé (àṣẹ), essa energia vital e para obtermos o axé (àṣẹ) temos que recorrer as coias que existem no Àiyé.


O orixá (Òrìṣà) Xangô (Ṣàngó), por exemplo é dito ter controle sobre raios e fogo, mas, ter o controle não o faz ser o próprio raio ou o próprio fogo. O orixá (Òrìṣà) Óxun (Ọ̀ṣun) tem muitos poderes de axé (àṣẹ), a prosperidade, a fertilidade a beleza, mas, outros orixá (Òrìṣà) feminino tem também os mesmos poderes. Mesma a associação com água, também Iemanjá (Yemọjá) está associada, Olóòkun está associado e vários outros.


Os orixá (Òrìṣà) são muitos e regionais., Eles não são os mesmos em todo o lugar da terra yorùbá, que, por sinal, é um lugar bem geograficamente contido. Aqui no Brasil ou no novo mundo, nós tivemos uma certa padronização de orixá (Òrìṣà) e as pessoas passaram a “viajar” nesse conceito de associar orixá (Òrìṣà) a uma finalidade ou especialidade ou mesmo a natureza.


Mas isso foi algo situacional, esse modelo não é refletido na origem. Essa especialização funcional de orixá (Òrìṣà) é apenas uma tentativa ruim de espelhar o modelo de divindades greco-romanas nos orixá (Òrìṣà). Os antropólogos eram preguiçosos e em vez de entender de fato a religião acharam mais fácil dizer que era igual à outra que já conheciam.


Dessa forma, devemos separar o poder dado por Olódùmarè aos orixá (Òrìṣà), como ministros dele, que tem a função de representá-lo e atuar com seus poderes junto a humanidade, com serem o poder da natureza em si. O controle do mundo e das forças naturais está na força do axé (àṣẹ) que emana de Olódùmarè, ele é o deus maior que tudo controla. Isso não é conclusão minha está em versos de Ifá.


Órun (Ọ̀run), a residência do sagrado, é populado por incontáveis forças tais como os orixá (Òrìṣà), ara órun (Ọ̀run) (ancestres), Oro, iwin, Ajogun (forças malévolas) e diversos outros espíritos. Essas forças são próximas aos humanos e frequentemente se envolvem em situações.


A principal divindade para os seres viventes no Àiyé, são os orixá (Òrìṣà) que foram as divindades designadas por Olódùmarè para cuidar da vida deles no Àiyé. A vida no mundo natural é bastante difícil, existem muitas dificuldades e o mal reside entre os viventes. Os orixá (Òrìṣà) dão apoio aos viventes para que estes possam ter uma vida prazerosa e atinjam os objetivos que traçaram junto a Olódùmarè.


A religião tem foco no culto aos orixá (Òrìṣà) porque foram eles os designados a nos ajudarem e nossa vida e são por isso os legítimos intermediários entre nós e Olódùmarè.


Esta é a razão de não nos preocuparmos com as demais divindades que podem existir no órun (Ọ̀run), elas não interessam. A divindade Exú (Èṣù), considerada um orixá (Òrìṣà), ocupa um papel importante porque é o único inrumolé (Irúnmọlẹ̀) que tem acesso a Olódùmarè, ele é o mensageiro e portador do axé (àṣẹ).

Existem várias tradições que fazem Exú (Èṣù) como orixá (Òrìṣà) nas pessoas, isso cabe a elas, sempre, mas eu não vejo sentido teológico nisso.


Os orixás não são caracterizados entre o bem e o mal. Todos as divindades, assim como os ara Àiyé, os viventes na terra, tem aspectos positivos ou negativos, forças e fraquezas. Os orixá (Òrìṣà) são caracterizados como uma representação humana de deus. Os orixá (Òrìṣà) nos aproximam de Olódùmarè porque vemos neles refletida a nossa natureza humana, em muitos aspectos. É o que é chamado de “analogia entis”, nós não temos uma bíblia, nós entendemos Olódùmarè e o que eles nos passa através de nossa identificação com os orixá (Òrìṣà) que se portam como nós em seus mitos.


O que diferencia cada orixá (Òrìṣà) e seu axé (àṣẹ) é sua natureza ou personalidade (ìwà). É o mesmo com a gente e, desta maneira, os orixá (Òrìṣà) são na verdade a manifestação mais humana de deus.


Não existe hierarquia entre os orixá (Òrìṣà), a sua importância é relativa e reflete a preferência da população local, tradição, familiaridade e outros fatores naturais. A importância de cada orixá (Òrìṣà) é relativa dependendo da região Yorùbá. Mesmo aqui, no novo mundo, também é assim, cada tradição escolheu aqueles que mas se identificava.


A vinda dos orixá (Òrìṣà) para o mundo natural somente pode ocorrer através dos seus seguidores que foram devidamente preparados para isso. A sua manifestação física é feita somente através dos seus iniciados, seus elégùn. A iniciação é um processo longo, mais de 30 dias que gradualmente prepara o seguidor para poder ser o receptáculo do orixá (Òrìṣà).


O processo iniciático apenas é concluído depois de 12 meses, neste período o elégùn estará sendo acompanhado. Contudo, o ciclo iniciático dura na verdade 7 anos, no mínimo. Claro que esse tempo é no Candomblé, outras tradições religiosas fazem essa iniciação em 7 dias, mas, não existe obrigação de o elégùn trabalhar com o orixá (Òrìṣà). O processo do Candomblé é para preparar elégùn de fato.


A capacidade de ser o hospedeiro do orixá (Òrìṣà) é um assunto polêmico e tratado de forma diferente pelas tradições religiosas. Os cubanos não entendem que qualquer pessoa possa receber um orixá (Òrìṣà), para eles quem incorpora nos seus elégùn  são santeros falecidos, os mortos.


Lá o culto a um “morto” faz parte do processo de iniciação, o iniciado além do orixá (Òrìṣà) tem que incluir algum “morto” no seu culto. Isso é o modo deles entenderem e é, possivelmente, devido a acharem que os orixá (Òrìṣà) sejam forças na natureza. Desta forma como poderia a água incorporar em alguém? Como poderia o fogo incorporar em alguém?


Essa questão de designar orixá (Òrìṣà) como sendo uma força na natureza, que é errada, eles são ministros de Olódùmarè, pode levar naturalmente a esse tratamento de desconsiderar a possibilidade de incorporação. Isso é uma consequência natural.


É assim com os cubanos e aqui no Brasil é assim com a Umbanda que fala a mesma coisa. A umbanda está sendo citada apenas porque vem dela o mesmo tipo de consideração, mas, lembro que e Umbanda não faz parte da matriz religiosa afro-brasileira e não tem nada a ver com orixá (Òrìṣà) ela é apenas muito parecida com os Lukumi. A tradição cubana criou uma teogonia própria e eles colocam isso dessa forma, orixá (Òrìṣà) não pode incorporar nas pessoas.


Na tradição deles, eles iniciam pessoas em 7 dias e não existe a obrigação de incorporar ninguém ao fim desse processo. A incorporação lá é uma situação rara e já vi muitos cubanos desacreditando de incorporações aqui no Brasil, para eles é tudo mímica, mas esse preconceito, é gerado pela forma como eles fazem lá. Eles dizem isso porque estão acostumados com as enganações deles lá, com os processos de 7 dias para iniciação.


O entendimento disso muda quando se entende que, em primeiro lugar orixá (Òrìṣà) não é elemento da natureza é uma divindade com axé (àṣẹ) dado por Olódùmarè  para ter controle sobre algumas coisas e forças, são poderes que Olódùmarè os deu. Além disso, orixá (Òrìṣà) são, acima de tudo, divindades humanizadas, são o reflexo da humanidade de Olódùmarè.


Cubanos acham que Aganju é um orixá (Òrìṣà) separado, nós aqui entendemos como uma qualidade (um sub-tipo) de Xangô (Ṣàngó). Mais à frente vou voltar nesse conceito de qualidade, mas, o Aganju cubano é o orixá (Òrìṣà) identificado com o vulcão. Contudo, na terra yorùbá não tem vulcão. Não tem nenhum vulcão nem perto de lá. Como os yorùbá iam inventar um orixá-vulcão? Já perto de cuba existem….


Eu vou sempre fazer essas referências de Cuba e Nigéria porque estou falando da religião, do cosmo e como as tradições fazem interpretações próprias da religião, tenho que citar para chamar a atenção para determinadas coisas, principalmente porque em cuba a religião tomou um desvio bastante maior, criando coisas próprias.


Não posso também desconsiderar que, atualmente, estamos cheios de cubanos e nigerianos falando e fazendo suas besteiras aqui, trazendo confusão, com as maluquices deles.


Uma dessas, é essa questão de orixá (Òrìṣà) que incorpora nas pessoas.
No candomblé entendemos que sim isso ocorre, como disse as pessoas são preparadas para isso e a pessoa iniciada, o elégùn, é a ponte que permite ao orixá (Òrìṣà) de manifestar aqui. Como eu disse, isso é importante e parte da religião, a humanidade de Olódùmarè se expressa através de nossa identificação com seus ministros, os orixá (Òrìṣà).


A questão do arquétipo comportamental, tão discutida e comentada envolve isso, a nossa identificação com o orixá (Òrìṣà), pessoas que são ligadas a um orixá (Òrìṣà) por nascimento, esperam que aspectos do arquétipo deste orixá (Òrìṣà) (personalidade) se manifestem nele também.


Uma das frases mais importantes que a gente ouve nos terreiros é, “o meu orixá (Òrìṣà)...”, “o meu Xangô (Ṣàngó)...”, “a minha Óxun (Ọ̀ṣun)...”. Porque isso é importante para as pessoas falarem assim, na primeira pessoa?  Porque existe um processo de individualização, que vou abordar mais tarde, no qual cada pessoa personifica uma divindade única e pessoal, não existe um orixá (Òrìṣà) igual para todo mundo, em cada pessoa aquela manifestação é diferente.


Isso então significa que a humanização da relação orixá-humano é completa, não, temos, nessa religião, signos de horóscopo, temos divindades que se moldam a nossa humanidade.


Os orixá (Òrìṣà) são representados nos mitos como humanos, como viventes no nosso mundo, no Àiyé. Os versos de Ifá e, principalmente, os mitos da religião, mostram os orixás se comportando, dando exemplo, tendo atitudes extremadas, por vezes se enganando e se corrigindo.


O orixá (Òrìṣà) é uma divindade humanizada que nos mostra através de seus contos épicos e mitos, como devemos proceder, que valores devemos ter, que erros não devemos cometer, que pessoas nós devemos ser para ser pessoas melhores.


Nós como todos os seres vivos temos o axé (àṣẹ) de Olódùmarè, mas os orixá (Òrìṣà), que são seus ministros, também, como nós, têm o seu axé (àṣẹ). Mas, têm isso amplificado, eles tem o poder de Olódùmarè para, através da magia do supernatural, mudar sutilmente nossa vida e o mundo.


Esse é meu entendimento para esta questão das divindades e nesse meu modo de ver não existe espaço nenhum para considerações de orixás serem a natureza ou seus elementos, como fogo, vento, ar, água, lama e outros que inventam.


Eu tenho um longo texto, que vou reproduzir à frente, que mostro que não existe na teologia da religião, nos versos de Ifá ou nos mitos, nada, absolutamente nada que justifique colocarem orixá (Òrìṣà) como elemento de natureza.


De outro lado tenho essa análise teológica aqui, que faço baseado nas fontes que usei (e estão citadas no fim) e na minha análise teológica do assunto.


Os orixás têm para nós uma importância muito maior do que serem apenas elementos da natureza, isso não bate com a teologia e com a liturgia. Tudo o que fazemos de iniciação e de individualização do ser humano vai contra esse tipo de conceito.
Assim, no Candomblé, uma de nossas tradições afro-brasileiras de orixá (Òrìṣà), nós entendemos que o orixá (Òrìṣà) se manifesta nos elégùn e isso é importante. É através dessa manifestação que o orixá (Òrìṣà) pode atuar no nosso mudo. Entendam isso, a incorporação não é apenas uma mímica desnecessária, uma coisa decorativa.


Tolos são os que acham que podem fazer coisas através de orixá (Òrìṣà) sem que você tenha um elégùn, que basta cantar ou rezar que eles aparecem. No Candomblé se vamos fazer alguma coisa para algum orixá (Òrìṣà) ou através de um orixá (Òrìṣà), a primeira coisa que fazemos é convocar um elégùn daquele orixá (Òrìṣà), uma pessoa iniciada e em 100% dos casos, bons, o orixá (Òrìṣà) se manifesta na liturgia.


Quando em uma casa temos um novo elégùn de algum orixá (Òrìṣà), começam a aparecer casos e situações para aquele orixá (Òrìṣà) resolver. Isso é automaticamente incrível. A gente é demandado para fazer o assentamento, ter as coisas do orixá (Òrìṣà) e ai os casos começam a aparecer para nós. É assim na prática.


Isso é o certo, é por isso que iniciamos pessoas, é por isso que precisamos de pessoas iniciadas, é por isso que essas pessoas são preparadas para que o orixá (Òrìṣà) se manifeste através delas.


Vamos aqui pensar um pouco, para que precisamos fazer feitura nas pessoas se não precisamos que o orixá (Òrìṣà) se manifeste? Se basta rezar para ele ou cantar para ele ou riscar um signo que ele estará presente? Então, para que pessoas são iniciadas, longamente, para poderem incorporar o orixá (Òrìṣà)?


As pessoas pensam que orixá (Òrìṣà) é igual demônio? Que você risca um ponto no chão, pinta umas cores, bota uma bandeirinha, risca um signo em uma tábua ou pano e o orixá (Òrìṣà) aparace no ar? É isso mesmo? Igual se chama demônios e espíritos ruins que vagam no nosso plano energético? Tipo feitiçaria ou quimbanda?


Eu não creio nisso.


Religião tem que fazer sentido, tem que ter uma lógica de lidar com o supernatural, tem que ter consistência, seguir uma coerência de ações litúrgicas, as coisas têm que se encaixar. Não é apenas mágica.


Assim, voltando, no Candomblé, sim os orixás incorporam nos elégùn. Existe um facilitador para isso que são os espíritos de Eré, que são considerados uma manifestação infantil do orixá (Òrìṣà), mas,na minha visão, não são nada disso, isso é só uma explicação ingênua.
Esse tema de Eré é um dos grandes mistérios ou segredos do Candomblé. Quem sabe não fala, quem não sabe inventa para não dizer que não sabe.


Não existe orixá (Òrìṣà) sem Eré. A casa pode não gostar de ter Eré e não aceitar sua manifestação, mas, Eré e orixá (Òrìṣà) caminham juntos no Àiyé. Os Eré são espíritos do Ẹgbẹ́ (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run) uma sociedade de espíritos que fica em um espaço espiritual entre o Àiyé e o órun (Ọ̀run) e que, desta forma, tem facilidade de transitar entre esses reinos. O Ẹgbẹ́ (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run) é uma sociedade que requer mais espaço para ser descrita e vou abordar mais à frente.


Os yorùbá descrevem o local deles como a floresta mágica de Awaiye, como citei, é um espaço do órun (Ọ̀run) no limiar entre o órun (Ọ̀run) e o Àiyé. Esta sociedade de espíritos infantis são a causa de vários problemas pelos quais as pessoas passam no Àiyé, seja simples ou graves. Muitos transtornos psicológicos e comportamentais que são tratados com remédios pesados têm origem nesta causa espiritual.


Este é um espaço de espíritos que se desgarraram das suas famílias, como vou explicar, vivemos em família seja no Àiyé como no órun (Ọ̀run), mas por diversos motivos que não cabem aqui, neste momento do texto, os espíritos se desgarram dessas relações familiares e ficam juntos na floresta de Awaiye formando uma sociedade. Como ficam muito próximo ao plano do Àiyé se metem demais na vida das pessoas, exercem influências.


Mas, esses espíritos, ainda estão sob os olhos dos orixá (Òrìṣà) e eles são pinçados para fazer uma ponte entre o orixá (Òrìṣà) no órun (Ọ̀run) e o elégùn aqui no Àiyé. Atenção, mantendo a isenção e honestidade, essa é uma tese minha. Assim se forem usar uma fonte, eu sou a fonte dessa afirmação, desse modelo cósmico e metafísico.


Mas, não estou inventando, eu junto informações que obtenho das fontes que cito e incluo minhas análises baseadas em observações e conversa com pessoas. Sobre esse tema conversei com muita gente, o conhecimento disso é parte da famosa cultura oral, aquela que a gente apenas descobre convivendo.


Desta maneira, os Eré são um elemento importante no processo de incorporação, é através deles que o orixá (Òrìṣà) vai até o elégùn e quando sai é o Eré que fica. Mesmo que isso ocorra de forma rápida, quase imperceptível, mas, o espírito Eré do Ẹgbẹ́ (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run) é que viabiliza a presença do orixá (Òrìṣà) no corpo do elégùn.


O Eré é assim um degrau intermediário que permite ao orixá (Òrìṣà) incorporar no elégùn. Ele faz a ponte energética.


E quando não existe o Eré no meio do caminho? Isso é a beleza desta explicação, no caso da Umbanda, não existe Eré, aliás, existem crianças, beijadas, que são espíritos independentes de outros, apenas mais um tipo de espírito. As beijadas são bem diferentes dos Eré em seu comportamento e postura, mas, muuuito diferente mesmo, seja pelo comportamento como pelas preferências de atividades e do que comem quando incorporados. As beijadas são a comprovação de minha tese.

Se comportam diferente e não tem ligação com orixá (Òrìṣà). As beijadas são como os demais espíritos de umbanda, são espíritos que têm um nível energético mais baixo, próximo do nosso e incorporam em pessoas com um tipo bem característico de incorporação.


A não existência de Eré na Umbanda, como ocorre no Candomblé, com a forte ligação Eré-Orixá explica para quem quiser entender que os tais “orixá” na Umbanda são de fato caboclos que se apresentam como orixá (Òrìṣà). Todos devem saber que esses espírito quando incorporam podem se apresentar como quiser, se ele quiser ser um preto velho será, se quiser ser um Exú (Èṣù) será, etc…


Como as pessoas que conhecem Umbanda de fato explicam, os “Orixá” da umbanda não são a mesma manifestação do Candomblé, aliás são completamente diferentes. Os “orixá” na Umbanda são caboclos se apresentando como “orixá”. Para isso não existe a figura do Eré, como eles já tem o nível energético adequado, esses espíritos não precisam do intermediário Eré.


Assim minha teoria se confirma de dois lados, primeiro eu explico a necessidade de ter o Eré para o Orixá (Òrìṣà) de verdade se manifestar no Candomblé e por conseguinte explico através da Umbanda que não existe relação com as beijadas e que os tais “orixá” de Umbanda não são os orixá (Òrìṣà) do Candomblé.


As pessoas sérias e experientes de Umbanda sabem disso, não estou falando nenhuma novidade. Só desavisados acham que a Umbanda é igual ao Candoemblé ou tem qualquer ligação.


A última confirmação de minha teoria vem através da incorporação. Os médiuns que trabalham ou já trabalharam na Umbanda e Candomblé são categóricos e enfáticos em afirmar que é totalmente diferente a incorporação de guias na Umbanda de orixá (Òrìṣà) de Candomblé. Essas pessoas, conheço inúmeras, descrevem como totalmente distinto e mais, dizem que a incorporação de Eré não tem nada a ver com a de Beijada na Umbanda.
Essas pessoas descrevem de forma bem distinta a forma como Orixá (Òrìṣà) de Candomblé incorpora e toma o seu controle e como os guias de Umbanda o fazem. É claro que estamos lidando com níveis energéticos distintos e divindades distintas. 


O mais interessante nesta religião é que a teoria se confirma na prática. Não precisamos ser cientistas e não precisamos fazer experiências. Não precisamos acreditar no impossível. Tudo o que falamos que deveria ser e como deveria ser ocorre no mundo real. É muito fácil ter fé.

Voltando ao Ẹgbẹ́ (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run), além de causar uns problemas para nós também tem essa finalidade de ponte energética, tipo uma ponte de eistein-rosen, por estarem entre as 2 dimensões, em um nível energético intermediário os Eré permitem ao orixá (Òrìṣà) no órun (Ọ̀run) vir ao Àiyé e se manifestar, eles são os intermediários energéticos e de comunicação. Não são o próprio orixá (Òrìṣà) infantil. Mas, neste cosmo de 2 dimensões separadas, o órun (Ọ̀run) e o Àiyé, os Eré fazem esta ponte de ligação.


De fato o orixá (Òrìṣà) tem uma natureza divina mesmo, ele não é um espírito comum, nesse ponto todos têm razão, mas mesmo sendo divino ele se faz presente através do espírito Eré, este sim mais próximo de nós. A simbiose Eré-orixá é que possibilita a incorporação e a tríade elégùn-Eré-Orixá é quem nós vemos manifestadas nos terreiros.
Isso é minha análise e conclusão, tem consistência com tudo o que eu já disse e desta forma acredite quem quiser.



PRÓXIMO TEXTO

- O AIYE, O MUNDO NATURAL

segunda-feira, março 30, 2020

AVISO: Novos videos



Essa semana, mais 2 vídeos no canal do Youtube, quarta e domingo, fiquem atentos, já estão programados.

domingo, março 29, 2020

EXPLICANDO O CANDOMBLÉ E A RELIGIÃO

EXPLICANDO O CANDOMBLÉ E A RELIGIÃO



No Youtube, no canal do BLOG, já disponível novo vídeo com explicação da teologia por trás do Candomblé e de sua prática.

Simples e direto, sem complicações.







https://youtu.be/VYmwP2fEfIA

terça-feira, março 24, 2020

Entendendo a religião do Candomblé e Ifá - Pt. 9 - Entre dois mundos

Entre dois mundos


Ayél’ojà; Ọ̀runn’ilè

O mundo físico é um mercado; o paraíso é nossa casa


Inicio esse assunto com essa citação yorùbá porque ela resume a visão dos yorùbá para a vida. O mundo que vivemos é o mercado, um lugar onde existimos, trabalhamos, divertimos. Imagine toda a complexidade de um mercado e o que pode encontrar e fazer nele. Modernamente podemos dizer que o mundo é um shopping center. O paraíso, tradução que usei aqui para o órun (Ọ̀run), o espaço espiritual, o “céu” é que é nossa casa, estamos aqui apenas de passagem para nos divertir.

É uma frase simples mas estabelece o contexto de que a vida humana no mundo natural é um formato temporário, uma aventura de negócios, na terra e quando o desencorpamento ocorre com a morte, nossa alma retorna para o nosso lar de verdade, o mundo espiritual, o órun (Ọ̀run).






 



Nossa vida é um contínuo fluxo de renascimento entre o órun (Ọ̀run) e o Àiyé. Isso tudo ocorre dentro da nossa linhagem familiar, renascemos através de descendentes e devido a isso precisamos ter família e gerar descendentes.

Para entender a religião de um povo, assim como suas expressões, temos que entender sua sociedade e sua vida. No pensamento yorùbá, a associação do mundo com o mercado deriva do seu entendimento que a terra provê o sustento, com materiais brutos para a vida e a economia. É uma sociedade simples, de fazendeiros, onde os homens são designados para a tarefa de produção e as mulheres dominam o varejo, a venda, o mercado. A mulher é a dona do mercado.


Mesmo na religião hoje, nós do novo mundo, não conseguimos entender algumas divisões da religião, mas, aos homens, cabem as tarefas brutas e vigorosas, cansativas. É por esta razão, somente, que homens tocam tambor e fazem outras coisas pesadas, não é que as mulheres não possam fazer, elas não querem. Não querem carregar aquilo e fazer o esforço de ficar horas tocando, carregar animais e outras atividades laborais. Igualmente os dançarinos Geledé (Gẹ̀lẹ̀dẹ́) também são homens por essa razão, aquilo é pesado, cansativo, as mulheres não querem fazer aquilo, aquilo não é para elas, trata-se de respeito e dignidade, não de machismo.


A metáfora yorùbá do mercado caracteriza-o como um lugar complexo, onde é necessário uma teia de relacionamentos sociais e negociações que requerem do indivíduo desenvolver qualificações especiais para que sua vida seja lucrativa.


A vida então é isso, a complexidade de um mercado, mas, poderão ser várias vidas, todas elas com objetivos diferentes, mas, sempre serão centradas na família.
Esta é uma religião familiar.


Nos versos de Ifá, frequentemente vemos pessoas sendo punidas com a morte, isso as vezes pode chocar as pessoas, mas, quando se compreende que os Yorùbá entendem a vida como temporária e renovável a gente percebe que não tem nada de grave para eles.
A vida é um ciclo, no qual ao indivíduos experimentam a sua vida no Àiyé, partem para o órun (Ọ̀run) e depois renascem.


Em relação aos espíritos e divindades eles ficam transitando entre os 2 mundos, o órun (Ọ̀run) e o Àiyé, mas existem regras e limitações. Entendam da seguinte maneira para nosso espírito vir ao Àiyé precisamos nascer e crescer. Só quando adultos temos plenas condições de dominar as energias do supernatural e a manipulação disso depende de nossa quintessência.


O trânsito entre os 2 mundos não é imediato e simples, depende de muitas situações e a religião tem como um dos objetivos explicar isso. O objetivo dessa religião não é ser uma religião de adoração, para você ficar rezando para morrer. O objetivo é ensinar a você a lidar com o supernatural para poder realizar o que planejou para essa vida.


A vinda para o Àiyé, o nascimento é rodeado de preparativos no órun (Ọ̀run). A jornada no Àiyé deve ser planejada e preparada. Temos obter o suporte para vida que se seguirá, caso queiramos ter sucesso nos objetivos, isso está descrito nos versos de Ifá, os preparativos para nascer. Tem muita gente que não se prepara, apenas vem para cá, nasce, essas são as pessoas que demonstram pouca responsabilidade os turistas nessa vida.


Os 2 reinos são muitos distintos, o mundo natural tem sua complexidade e imprevisibilidade. Vir para cá envolver se materializar nessa dimensão e essa transição é complexa, seria muito simples se pudéssemos apenas “aparecer” aqui, mas, não é assim. Os mundos natural e espiritual tem essências diferentes e é essa distinção que torna o mundo natural tão interessante.


A descrição dos yorùbá para o órun (Ọ̀run) é de um espelho do Àiyé. De fato existe o conceito de duplos, como se fossem 2 dimensões paralelas e que as coisas de um lado fossem refletidas no outro, incluindo nós mesmos. A religião entende que quando nascemos temos um duplo no órun (Ọ̀run), que age como nosso anjo da guarda. Ele não vêm ai Àiyé, o duplo e nós não vivemos juntos, mas de lá ele nos ajuda. O conceito de duplo é muito importante no cosmo yorùbá.


Assim, nosso espírito vem ao Àiyé para habitar um corpo criado para esta dimensão, mas, no órun (Ọ̀run) deixamos o nosso duplo que é nossa ligação com o órun (Ọ̀run) e nos liga com as demais divindades.


Muitos chamam esse duplo de Ori, mas isso é incorreto, o conceito de Orí é um pouco mais amplo e cobre várias coisas. O nosso duplo é o Enikeji, nosso “anjo da guarda”. Faço essa afirmação baseado no que leio nos versos de Ifá, não estou inventando nada. Temos um “anjo guardião” ou “anjo da guarda” que é nosso duplo.


A gênesis Yorùbá não explica o que levou Olódùmarè a criar o Àiyé. Ele criou como um reino distinto que se comunicava mas não era igual ao órun (Ọ̀run). O órun (Ọ̀run) deve ser entendido como um reflexo do Àiyé. O que está nos versos é que as pessoas moram no órun (Ọ̀run), tem suas casas, vivem com seus familiares e até consultam Ifá no Órun (Ọ̀run). Mas é uma vida diferente. Não existe nos versos descrição do mal, mortes e calamidades no órun (Ọ̀run). 


Para complementar essa vida tranquila Olódùmarè criou o Àiyé, um mundo natural, difícil, cheio de prazeres, desafios, realizações e emoções. O que passamos no Àiyé é parte de nossa jornada aqui. Mas o Àiyé é difícil, muito selvagem e para termos sucesso na nossa vida ele estabeleceu os orixá (Òrìṣà) como seus ministros.


A atuação plena no mundo natural é somente possível através do nascimento aqui. Você precisa nascer através de meios naturais, de elementos naturais do Àiyé, para poder ter atuação plena aqui e, mesmo sendo um espírito vindo do Àiyé, não consegue trazer tudo, você não vêm com memórias e conhecimento, essa transição é complexa, na minha visão, dimensões realmente distintas.


Seia fácil se fosse uma coisa simples, como basta estalar os dedos e aparecer aqui. Mas não é assim. Cito, para reforçar a minha opinião, o modelo católico no qual, eles dizem, que deus nasceu aqui na forma de homem para poder orientar a humanidade, hora, se no modelo dele de deus tão poderoso, supremo e criador de tudo, por que deus apenas não apareceu aqui? Vivo e adulto? Por que teve que nascer e crescer de forma natural?
E jesus, porque não vai e volta várias vezes?


Eles justificam isso com uma complexa teologia, muito blablabla para justificar o injustificável, que deus fez isso como uma “opção”. Sério?


Poderia até ser, mas, não combina em nada com a visão deles de deus, essa explicação é mais um arremedo para justificar o injustificável.


Esta referência que faço ao catolicismo é para reforçar esse modelo que estou explicando, no qual, o trânsito entre os dois mundos não é uma coisa simples e, para estar plenamente aqui, você deve ter nascido aqui. Não existe trânsito aberto entre as duas dimensões.
A atuação de espíritos aqui no Àiyé é feita com restrições. Para os orixá (Òrìṣà) estarem presentes no Àiyé, a religião prepara pessoas para ser essa ponte, os elégùn, ou seja, para estar presente no Àiyé e ter contato com as pessoas, é minha opinião que as incorporações são necessárias para que certas coisas possam ocorrer e para isso precisamos em uma casa ter os elégùn e ter eles no momento das liturgias.


Não tenho explicações completas e fundamentadas, mas, minha percepção diz que ações efetivas necessitam do axé (àṣẹ) que está aqui no Àiyé e da quintessência para essa transmissão e isso não se faz sem suporte local e físico. As oferendas são um elemento importante porque são um repositório de axé (àṣẹ) e a liturgia com a presença dos iniciados também.


Dessa forma a completa atuação mágica no Àiyé, com capacidade de fazer coisas exige um corpo físico no Àiyé. A minha experiência mostra que é um mito achar que as divindades ou outros espíritos (como os de umbanda) ficam ai no ar passeando e podem fazer o que quiserem. Não podem, precisam se materializar no Àiyé para ter acesso ao axé (àṣẹ). Assim a incorporação é necessária.


Outro exemplo, são os ebó (Ẹbọ) e liturgias que necessitam de um “operador” uma pessoa que execute. A necessidade disso é devido a ter que ter o corpo físico no Àiyé para poder manipular o axé (àṣẹ) aqui no Àiyé.


As liturgias e processos da religião são baseadas intensamento nessa ligação órun (Ọ̀run) Àiyé. O tempo todo isso é usado, as 2 dimensões energética diferente se fundem através das pessoas e também da música.


Além disso, existe mais entre o órun (Ọ̀run) e o Àiyé. São vários níveis energéticos diferentes que residem tipos de espíritos distintos e a proximidade destes níveis torna mais fácil a atuação no Àiyé. Assim os espíritos que residem em níveis energéticos para próximos de nós pode ter presença a atuação mais independente de médiuns.
No candomblé se diz que existem 9 órun (Ọ̀run) ou nove espaços celestiais sendo o próprio Àiyé um desses, mas, apesar dessa citação, esses espaços não são completamente claros ou documentados.


Babatunde Lawal no seu artigo chamado “ayél’ojà; òrunn’ilé – Imaging and performing yorùbá cosmology”, faz a seguinte citação que vou transcrever:


“.. a tradição oral yorùbá é vaga em relação a topografia da metade superior da cabaça cosmica (órun (Ọ̀run), ìsálòrun), e ainda, existe uma crença popular que existem muitos níveis (em torno de sete) e Olódùmarè ocupa o mais alto deles. Nos níveis mais abaixo estão, os orixá (Òrìṣà), os seres celestiais (ará órun (Ọ̀run)), as almas de crianças não nascidas e mortas (egbé òrun), a alma dos ancestres mortos (okú órun (Ọ̀run)) entre outros.”


As camadas descritas ai vão ao encontro do que eu conhecia através dos versos de Ifá e posso ainda adicionar uma camada Ìrònà, bastante referenciada em Ifá, que seria o limiar entre o Órun (Ọ̀run) e o Àiyé, e é o local das ajé (Àjẹ́).


A localização das ajé (Àjẹ́) no limiar do Àiyé, explica, dentro da minha lógica, a atuação intensa e independente das ajé (Àjẹ́) junto a nós, de forma punitiva e equilibradora. O nível energético delas é mais próximo do nosso.


Também muito próximo do Àiyé está o Ẹgbẹ́ (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run) a floresta mágica de Awaiye onde vivem essas crianças desvinculadas de suas famílias e que transitam ao Àiyé para chamar seus amigos que nasceram gerando o fenômeno dos Àbíkú.
Este local onde residem essas crianças esta citado nos mitos do livro de Alex Cuoco e também em um mito antigo descrito por José Beniste que fala do caçador que ouviu, escondido, as 3 crianças descrevendo que viriam ao mundo para morrerem (Àbíkú) narrando os eventos que as fariam retornar ao órun (Ọ̀run) prematuramente.


Esse mesmo mito é encontrado em versos de Odù Ifá que confirmam esta estrutura de existir um nível do Órun (Ọ̀run) para esses espíritos desgarrados. É interessante ficar atento a isso porque a regra nessa religião é que as pessoas vivem em famílias, assim quando você retorna ao órun (Ọ̀run), você retorna ao seu núcleo familiar. Contudo está claro que eventos podem alterar isso e surgirem essas almas desgarradas que passam a viver no Ẹgbẹ́ (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run).


Algum evento faz com que essas almas não mais retornem às suas famílias. Essa afirmação não é minha ilação, faz parte da religião. São essas almas desgarradas que se tornam Àbíkú, mas que também servem aos orixá (Òrìṣà) enquanto espírito de Eré. Os eré não vem dos níveis superiores do órun (Ọ̀run), vem desse nível inferior próximo ao Àiyé.
Essa afirmação faço devido a cultura oral, você tem que conviver com os eré para entender que eles estão nessa “floresta mágica” convivendo com outros espíritos similares a eles, todos eles mortos prematuramente.


Existem duas cerimônias que são feitas quando uma criança nasce. A primeira é a de ikoṣewaìyé que deve ser feita até o oitavo dia de nascimento e visa determinar o Odù de nascimento da criança. A segunda é a de Imori que visa determinar a origem da criança e estabilizar o espírito da criança no Àiyé, que deve ser feita até o terceiro mês. A primeira cerimônia tem que ser feito muito rápida porque nesse período a alma da pessoal ainda não está totalmente no Àiyé e assim é possível obter a informação do Odù de nascimento. O mesmo para o Imori, a alma deve estar ainda ligada ao órun (Ọ̀run) para termos a informação de nascimento


Nessa segunda cerimônia existem 3 origens que um espírito de nascido pode ter, o primeiro é a família do pai, o segundo a família da mãe e o terceiro é a criança trazida pelo orixá (Òrìṣà). Essas crianças trazidas por orixá (Òrìṣà) são esses espíritos que se prederam de sua linhagem e que são cuidados pelos orixá (Òrìṣà) e desta forma são trazidos novamente para entrar em uma nova linhagem.


Não tenho dúvida que esses espíritos trazidos por orixá (Òrìṣà) vem deste grupo de espíritos que fica nesse conjunto do Ẹgbẹ́ (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run). Ali estão aos espíritos perdidos das linhagens e que em sua manifestação ruim pode ser os Àbíkú.
Osamaro Ibie no seu livro ( IFISM THE COMPLETE WORK OF ORUNMILA, pag. 20), cita que no caminho do órun (Ọ̀run) para o Àiyé, “… tão logo eles passam pela últimas das 7 montanhas antes do limite do órun (Ọ̀run) eles entram em uma zona cinzenta, entre o órun (Ọ̀run) e o Àiyé, chamada de Hades, que é o lar das fadas (como Ibie chama esses espíritos infantis). Deste lugar eles se movem para uma zona escura, o limite entre os dois mundos, onde não existe nascer do sol, é chamado erebus. Muitos viajantes se perdiam nesta zona quando podia-se caminhar entre o órun (Ọ̀run) e o Àiyé. Eles agora se aproximam da escuridão do útero feminino… “


Como pode ser percebido, Ibie também coloca a floresta do Ẹgbẹ́ (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run) na zona cinzenta entre o órun (Ọ̀run) e o Àiyé o que permite aos espíritos que ai estão o trânsito para o Àiyé e a interferência no nascimento das crianças.


Os Ajogun também ficam nesta área cinzenta entre o órun (Ọ̀run) e o Àiyé e desta forma tem capacidade interferência sobre nós.


Quando eu falar sobre Orí vou tocar de novo nesse tema, mas, existe a explicação de que na jornada entre o órun (Ọ̀run) e o Àiyé, para nascermos, somos atacados pelos ajogun e podemos perder parte das coisas que Olódùmarè nos deu para ter sucesso na vida, Isso está documentado no Odù Ogbè Ogunda.


Assim, fechando esta zona intermediária temos nela:


    • ajé (Àjẹ́)
    • Ẹgbẹ́ (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run)
    • Àbíkú
    • ajogun


O útero feminino é a única passagem plena entre o órun (Ọ̀run) e o Àiyé e a mulher é desta forma o portão entre os dois mundos e o receptáculo do axé (àṣẹ) de Olódùmarè. É isso que a faz ser o elégùn preferencial dos orixá (Òrìṣà). Nesta religião todos tem funções, aos homens cabem várias funções importantes e as mulheres também cabem muitas atribuições importantes. Cada um é usado distintamente.


Em termos litúrgicos, a mulher é o elégùn preferencial é aquela que deve incorporar os orixá (Òrìṣà), devido a sua condição de mulher de ser um receptáculo de axé (àṣẹ). Já os homens, tem o poder masculino da ação e assim ficam com atribuições de manipulação do axé (àṣẹ), como fazer ebós e usar o oráculo.


Nesse conjunto de níveis dos órun (Ọ̀run) deve ser mencionado os que são destinados aos espíritos que foram pessoas ruins na vida, que cometeram crimes graves e foram punidos por Olódùmarè. Nessa religião damos conta a Olódùmarè do que fazemos no Àiyé  e existe punição. Esta punição pode ser inclusive de encerrar a vida no Àiyé, Olódùmarè tem os orixás que fazem a sua justiça, como Xangô (Ṣàngó), Ògún e Omolu.


Os espíritos punidos são separados de suas famílias e vão para o nível do órun (Ọ̀run) designado para eles, eles vão nascer na forma de animais, mas, o objetivo não é falar do pós-morte agora.


Resumindo o que disse, existe um trânsito entre o órun (Ọ̀run) e o Àiyé e ele tem complexidades distintas, mas, não deve ser entendido que exista uma “avenida” que permite o trânsito livre entre os 2 mundos, que são separados. É importante entender que dependendo do nível energético que está o espírito, este trânsito poderá ser mais fácil e, desta forma, não se pode entender o órun (Ọ̀run) como se fosse uma coisa única.



PRÓXIMO TEXTO:

- ORUN O MUNDO ESPIRITUAL

segunda-feira, março 23, 2020

Nota


Quem está acompanhando a sério de textos sobre a religião, que começou como "cosmo" e agora virou "Entendendo a religião", chamo a atenção para os próximos textos, que abordarão aspectos mais práticos, com informações importantes.

Entre dois mundos, O Orun e O Aiye, terão muita informação relevante. Não perca.

sexta-feira, março 20, 2020

Entendendo a religião do Candomblé - pt. 8 - A religião na vida da pessoa em sociedade

  Entendendo a religião do Candomblé - pt 9

A religião na vida da pessoa em sociedade

Esta religião é voltada para o indivíduo, mas, também para a sociedade, ela constrói o indivíduo e este bom indivíduo constrói uma boa sociedade.

Esta é a função da religião na sociedade. Construir pessoas melhores, através do Ìwà e essas pessoas construirão uma sociedade melhor, mais unida e harmônica.

Essa não é uma religião que tem como objetivo fazer a pessoas ficarem adorando a deuses e alimentando-os ou desejando morrer para encontrá-los. As divindades não precisam comer, não precisam de nada de nós. Não precisam de rezas e não precisam de adoração. Divindades são, divindades!

Nós é que precisamos da ajuda delas, do suporte delas e para isso precisamos rezar a elas, pedir a elas, levar nossos problemas a elas através do oráculo e através das oferendas obter para nós a reposição da energia do axé. Esse tema de reposição do axé vou abordar em detalhes mais a frente quando falar de ebós e oferendas.

Para entender a religião temos que subir nossa visão, não podemos entender essa religião imerso em uma infinidade de orixá ou em nos preocuparmos com liturgias, obrigações e oferendas. Saber isso ou entender isso não é entender a religião.

Esse texto tem esse objetivo e, assim, nesse ponto já é possível entender algumas coisas. A primeira é que como já ciei e expliquei a religião é uma das manifestações da sociedade que visam a sua união e harmonia. A religião existe para que as pessoas vivam bem juntas, se gostem, se protejam, resolvam seus problemas comunitários.

Para isso a religião tem ações, como os festivais, Xirês e rituais que movimentam o axé e trazem a harmonia e união.

Mas para que você tenha uma boa sociedade você precisa ter boas pessoas e assim a religião, através de seu código de conduta moral, buscar formar pessoas melhores, pessoas que tenham Ìwà, o bom caráter.

Dessa maneira ela trabalha nas pessoas para formar uma melhor sociedade.
Além disso a religião também trabalha no sucesso e felicidade das pessoas e isso vamos ver mais à frente.


PRÓXIMO TEXTO:

- ENTRE DOIS MUNDOS

terça-feira, março 17, 2020

Entendendo a religião do Candomblé e Ifá - Pt. 7 - O bom caráter no centro da religião

  Entendendo a religião do Candomblé - pt 7

O bom caráter no centro da religião 

 

A bem organizada sociedade Yoruba não foi forte o suficiente para resistir aos seus bárbaros invasores, sejam os árabes que iniciaram o processo de escravização comercial, como depois os europeus que fizeram isso trazendo em troca bens que levantaram a ganância.

Além disso, trouxeram as religiões, ambos os invasores, árabes e europeus e a perda da religião destruiu um dos pilares de sustentação desta sociedade.

Na vinda da religião para novo mundo também muito da essência se perdeu, divindades foram mantidas e suas liturgias, mas, os pilares da união coletiva e do caráter individual não foram compreendidos ou trazidos.

No Brasil, antropólogos que estudaram as tradições religiosas locais identificaram a religião como sem ética. Além disso todos os praticantes se ressentem continuamente da falta de união entre eles.

Mas isso é o que pode ser esperado quando você se preocupa apenas com o uso do supernatural para manipular a realidade, para fazer a magia. Sua religião vira um conjunto de atos, liturgias, práticas, rotinas. O ritual domina a religião e sobre tudo isso o comércio de axé (àṣẹ), de favores, de troca de benefícios ou de malefícios por dinheiro.
Se junto com a liturgia você não traz o sentido da religião, os seus valores morais e sua ética, tudo vira apenas animismo e fetichismo. Devoção em troca de poder.

Foi isso que acabou com a sociedade Yorùbá, trocar o seu bem estar, a união e a harmonia pelos bens que lhe foram oferecidos, as pessoas não perceberam que o maior bem que elas tinha era a vida, era a existência, era o Ìwà.

Eu fiz questão de abordar primeiro a estrutura da religião para tratar desses dois pontos importantes. União e caráter.

Vocês, a essa altura devem concluir que, após tudo o que eu disse que não haveria sentido as pessoas reclamarem dessas duas coisas, mas isso é um fato. Não existe união e a falta de ética é o que mais caracteriza a prática religiosa. Ela foi classificada como a religião onde não existe o pecado.

Isso tudo é verdadeiro e também falso, é apenas resultado de uma má formação da tradição religiosa que na sua vinda conseguiu captar os aspectos externos da religião, a estética, a música, o canto, a liturgia, mas não percebeu os aspectos mais sutis ligados a cultura do povo.


Ifogbontaayese. Onde ficou isso?

Como eu sempre afirmo, em contradição a muitos bobalhões que se referem as tradições religiosas no novo mundo, como sendo, não só uma religião e sim uma expressão da cultura do povo africano. Isso é uma imensa bobagem. Quem fala isso não sabe o que é religião ou cultura.

Cultura é muito complexa, está ligada ao povo, sua origem, sua formação e sua história. Não se importa ou absorve a cultura de um povo, você apenas captura pedaços disso, normalmente estéticos. No caso da religião você traz, também a parte mais externa a casca. O fruto se perdeu.

No novo mundo, a presença da religião não trouxe a meta da comunidade Yorùbá que é a união. Conforme eu expliquei antes, a religião é uma manifestação que contribui para a união, este é o objetivo, dela, ser um instrumento para formar o bom caráter nas pessoas e com isso trazer paz, ordem e harmonia para o povo.

A religião Yorùbá que eu aprendi a entender, não tem finalidade de cultuar deuses como um fim, ela é um instrumento para nos ajudar em nossa passagem pelo Àiyé.

Tem que ser entendido primeiro a visão metafísica de que nossa casa é o órun (Ọ̀run) e que a vida no Àiyé é uma aventura repleta de prazeres, sabores, sentimentos, emoções, riscos e realizações. Nossa alma é eterna, renascemos muitas vezes, mas para atingir nossos objetivos, para trazer beleza ao mundo natural, para sermos felizes e realizados precisamos viver bem em sociedade.

Esta não é a única religião no mundo que é reencarnacionista. O que diferencia as religiões é o sentido que elas dão a vida ou a forma como veem a nossa passagem aqui. Considerar que essa vida é única e que a alma, nossa essência vital, nossa consciência surge de uma monte de carne e ligações sinápticas é uma presunção de absoluta simplicidade.

Como o mundo surgiu? Em uma grande explosão? O Bing Bang? Depois a matéria inorgânica surgiu assim do nada, os átomos foram se unindo das formas mais diversas, formando compostos mais complexos, estruturas longas de carbono, aminoácidos, proteínas e ai, PLIM, a vida surge.

Ok, interessante, bilhões de anos e tudo isso acaba ocorrendo, bilhões de ano é muito tempo, de fato pode ocorrer muita coisa. Mas de onde saiu essa matéria toda? E essa explosão? Quanta matéria é necessária para forma galáxias imensas, estrelas gigantescas e bilhões de planetas?

Você tem explicação para tudo isso? Eu já pensei sobre isso tudo e não tenho.
Não adianta se beliscar, você existe.

Como eu já disse, quando a compreensão acaba, quando o que é racional termina a partir daí é o mistério.

Já tentaram acabar com deus de todo o jeito, e deus sempre aparece de novo. Religiões surgiram e sumiram, mas, deus e o divino sempre surge. Aceitar o divino e crer em deus, sinceramente, é a saída mais simples para você sair dessa confusão.

Mas não basta apenas isso, crer em deus e praticar uma religião. Assim como a crença religiosa nos dá uma luz de racionalidade para entender a vida, temos que estender essa compreensão um pouco mais e compreender de fato porque precisamos de uma religião e de deus na nossa vida.

A religião molda as pessoas e boas pessoas moldam uma boa sociedade.

Eu não quero com isso afirmar que somente pessoas religiosas são boas e que toda pessoa religiosa é boa. Em um mundo com muitas forças, opções, alternativas, tentações, a religião vai ao encontro de ajudar as pessoas e a sociedade a serem melhores. Além disso trazem as receitas para se usar o supernatural a seu favor.

A questão cultural da união e harmonia através do bom caráter e da maneira de trazer isso através de ações positivas para o ifogbontaayese, que faziam parte da religião foram parcialmente trazidas, mas definitivamente não compreendidas. É por isso que aqui as pessoas ainda se referenciam a religião como sem ética e as pessoas sem união.

Segundo Parés (xxxx, xx), os negros tinham duas opções, se ligarem…. Ou ficarem escravos em uma casa de Candomblé. Muitos escolheram fugir de uma nova escravidão e optaram pela religião da sociedade branca.

Ainda hoje o mal inicia nas casas de Candomblé, que estão longe de serem locais de união e harmonia. Não é esse o sentimento que reina nessas casas, onde os dirigentes, sejam Babalorixá (Bàbálórìṣà) ou Iyalorixá (Ìyálòrìṣà) ainda exercem suas funções através da submissão e controle. Como se pode esperar união entre pessoas da religião se nada do que se faz é para promover isso?

Quando a sociedade enxerga uma religião de animismo, fetichismo, feitiços e malefícios não está inventando nada. Não pode estar inventando quando 100% do tempo as pessoas da própria religião reclamam da falta de união, como o principal problema deles.

O que falta a religião no novo mundo? Simples Ìwà

As pessoas falam o tempo todo de axé (àṣẹ) o tempo todo de Orí como se essas coisas resolvessem todos os problemas. Não é isso, elas vão passar a vida todas correndo atrás de ebó (Ẹbọ) e de Bori.

O que elas deviam saber e o tempo todo repetir é:


Ìwà l’ewà – O caráter traz a beleza

Ìwà l’esin – O caráter é a essência da religião

Em função deste cenário eu devo parecer aqui um maluco falando de união, retidão moral e caráter.

De fato, em contradição a tudo o que se fala aqui da religião, o alvo definitivo do código de conduta Yorùbá é incutir em seus cidadãos os elementos do caráter ideal (ìwà pele).
Um provérbio popular diz:


O bom caráter é como um orixá

O mais que nós o cultivarmos

mais ele nos favorecerá.

Eles acreditam que um bom caráter gera admiração e amor e dessa maneira pavimenta nossa estrada para o sucesso na vida. Além disso um bom caráter adiciona beleza a uma pessoa.

A beleza no conceito Yorùbá tem dois aspectos. O externo (ewà òde) e a beleza interior (ewà inú). Nos seres humanos a beleza interior é sinônimo de virtude. Existe um provérbio popular que diz:


O caráter é a essência da beleza

Ìwà, o caráter é o melhor determinante para a natureza das pessoas, no modo de ver dos Yorùbá. O caráter denota a pessoa com atitude e comportamento que favorecem a união (àṣuwàdà) e isso como já expliquei é o objetivo primordial dos Yorùbá é este. 
 

Eles tem uma frase que materializa isso:



Ìwà l’èsìn

O caráter é a essência da religião



O seguinte verso ilustra isso que estou dizendo:


Se uma criança é bela mas não tem caráter

Ela não é mais do que uma boneca de madeira

O bom caráter é a beleza da pessoa

Uma mulher pode ser bela como um Egbara

Se ela não tem caráter

Ela não é melhor do que uma boneca de madeira

Um homem pode ser muito habilidoso

como um peixe na água
se ele não tem caráter ele não é melhor do que uma boneca de madeira

Um dos nomes que recebe olodumare é Olú Ìwà, o senhor do caráter e da existência. Uma pessoa ideal é designada como sendo Ọmọlúwàbí, o filho do senhor do caráter). Mesmo se uma pessoa não for fisicamente atrativa o seu bom caráter compensará isso.


Porque somos seres especiais nesse mundo?



Uma das perguntas teológicas importantes para serem respondidas é porque deus, Olódùmarè, nos dá privilégios nesse mundo, se tudo no mundo é criação de Olódùmarè, porque nós somos especiais?


Primeiro, não existe nenhuma referência que deus nos tenha criado sua imagem e semelhança, esqueçam essa frase. Como eu disse no início, temos no mundo duas grandes comunidades a humana e a selvagem.


Como já citei no início Olódùmarè criou a vida humana com almas permanentes para trazer beleza ao mundo e o Ìwà, o caráter ideal está no centro disso porque nos diferencia da comunidade animal, que não possui isso.


A palavra que define a essência dos seres é èda ou àbùbá. Èda é a essência natural dos seres vivos, denota suas características físicas e comportamentais e categoria os seres vivos.


Ìwà é o que transforma a natureza dos seres vivos trazendo para eles a beleza (ewà). Desta maneira é o Ìwà que nos faz diferentes da comunidade selvagem e nós, diferente deles temos a capacidade de trazer beleza ao mundo. Este é nosso papel, sermos boas pessoas e fazermos do mundo um lugar bom e belo para se viver, lembrando do conceito de beleza interior.


Ìwà é o que traz a beleza interior e não a exterior e é essa beleza interior que temos que buscar porque essa é a verdadeira beleza.


Assim 2 frases fazem agora muito sentido para vocês:


Ìwà l’ewà – O caráter traz a beleza

Ìwà l’esin – O caráter é a essência da religião


Com isso fica claro que não estamos tratando de uma religião sem pecado, não estamos tratando de uma religião sem ética. É o oposto disso.


PRÓXIMO TEXTO:

- O PAPEL DA RELIGIÃO NA VIDA DA SOCIEDADE