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quarta-feira, janeiro 15, 2020

Quando a vaidade cega a fé

Quando a vaidade cega a fé


Existem alguns assuntos chatos de serem tratados. Este é um desses. Este tema é dirigido aquelas pessoas que se chatearam com o Candomblé, que querem se aproximar ou que se afastaram.

Neste texto, vou incluir Ifá nisso também.

Eu digo a essas pessoas. O orixá é muito maior do que tudo isso.

Esta religião é incrível. Digo isso não com emoção mas com razão. Sou uma pessoa que se interessa por religião e já conheci ou vivi algumas delas. Estou nesta por opção e não por falta de opção.

Poucas religiões oferecem uma teogonia rica e também uma filosofia de vida tão satisfatória. A riqueza da teogonia é uma coisa que atrai as pessoas, porque as impressiona, mas elas deveriam se preocupar com a filosofia.

Vou então fazer alguns comentário preciosos para quem quer entender.

Vejam, muitos babalorixás são pessoas escolhidas por Orixá. Pessoas com vocação para a coisa, para lidar com pessoas e com a fé. Não falo aqui em erudição, esqueça isso, estou falando na capacidade humana de lidar com a diferença e com seres humanos. isso significa, paciência, tolerância e uma enorme atitude positiva. Poucos tem isso e muito poucos são os escolhidos.

Ser um sacerdote, de qualquer religião, não é uma coisa ligada a conhecimento. É ligada a vocação pessoal e designação divina. O Divino escolhe seus reais representantes. O escolhido terá que desenvolver o conhecimento sobre a religião, seus valores e sua moral. Mas, também é mais importante a capacidade de lidar com pessoas para transmitir isso.

Muita gente se declara Babalorixá ou Iyalorixá sem ter recebido isso do seu Orixá. Sim, entendam isso, o cargo de Babalorixá e Iyalorixá nesta religião, o chamado oye, é uma coisa que se recebe do divino, do Orixá. Não é uma coisa que que cada pessoa decida ter. Assim, aos montes, às centenas, pessoas se declararam como tendo um cargo que nunca receberam. Eles, apenas, foram atrás de quem os desse ou, igualmente pior,  simplesmente se declaram como tal, sem nenhuma base.

Esses são os piores enganadores. Porque não tem a capacidade de serem o que se declaram. Talvez, hoje em dia sejam a maioria.

O que estou dizendo é bem sério e vou dar informações complementares para que cada um entenda com quem se envolve.

A pessoa entra na religião como uma pessoa comum. Passa a frequentar uma casa e participar de eventos públicos. Com o passar do tempo ela se aproxima da casa e faz as primeiras liturgias de iniciação, se transformando em um Abian, um simpatizante e crente. As pessoas podem, ou melhor, deveriam se manter assim por muito tempo (anos). 

Na minha visão 90% das pessoas poderiam ser Abian em uma casa por toda a sua vida.

O estágio seguinte é ser um iniciado, um feito, um Iyawo. Este é um passo muito sério e muito importante e que muda a vida da pessoa. Não representa um aprofundamento da relação da pessoas com a religião, representa, apenas, um aprofundamento da relação da pessoa com a casa que ela frequenta, porque assume responsabilidades e se sujeita a uma rígida estrutura hierárquica.

Além disso, ninguém entra em candomblé porque quer ser babalorixá ou Iyalorixá! Você não pode determinar isso para você mesmo. Você apenas entra, é o divino que vai ter dar isso, não é uma opção que você faça.

Você não vai ter favores de orixá por ter sido iniciado. Você não vai ser mais religioso por ter sido iniciado.

Um Iyawo NÃO é uma pessoa mais devota ou crente à sua religião do que um Abian. É somente uma pessoa que escolheu um caminho específico para sua vida.

O processo de iniciação não é um processo simples. Ele leva 7 anos no mínimo para ser concluído. O motivo disso é que ele apenas se encerra quando se cumpre um ciclo de obrigações que complementam a iniciação.

A Feitura é a primeira obrigação. Depois disso existe a obrigação de 1 ano, depois a de 3 anos e por fim a de 7 anos. Com essas 4 obrigações se completa o ciclo de feitura do iniciado (outras obrigações são eletivas e não obrigatórias). Durante esse tempo o Iyawo será uma pessoa de baixa hierarquia em uma casa de Orixá. Ele terá acesso gradativo ao conhecimento (bem gradativo) e terá muito pouca participação em liturgias. Um Iyawo é apenas um Abian que esta em processo de formação.

Um Iyawo não participa de nada.

Mas o processo nem sempre se conclui em 7 anos. Aliás, nunca poderá ser concluído com menos de 7 anos. Devido a questões de calendário da casa, disponibilidade da pessoa em tempo e recursos financeiros, este ciclo de iniciação pode ser arrastar por muito mais anos. Mas, como eu disse, JAMAIS vai durar menos do que 7 anos, o normal é isso levar uns 10 anos.

Depois da última obrigação a pessoa troca de status na casa e passa a ser um Egbon, palavra Yoruba que significa um "mais velho". Só depois de ter alcançado este status é que a pessoa passará a ter acesso a conhecimento mais profundo da função sacerdotal. Isso se e somente se o Balaorixá ou Iyalorixá da casa se dispuser a ensiná-lo. De fato a formação de um sacerdote começa quando esta pessoa conclui o seu ciclo de iniciação com a obrigação de 7 anos, mas não tem data para ser concluída.

Ninguém é obrigado a ensinar nada a ninguém. Ser um egbon não te da acesso a nada se o responsável não quiser te ensinar.

Muito mais do que teoria o Candomblé é feito de prática. Assim a pessoa vai levar muitos anos para poder aprender com a pratica de casos reais.

Durante todo o tempo em que a pessoa é um Iyawo o Babalorixá da casa poderá perceber se o Iyawo terá ou não o Oye de Babalorixá dado pelo seu Orixá. Isso é um conjunto de observações que vão da vontade da pessoa, da sua aptidão para aprender e lidar com pessoas a finalmente a disposição do seu Orixá em que ele possa ser um sacerdote.

Observe que o Oye é importante porque designa que a pessoa poderá ter poderes (axé) para ter uma casa só para si. A maioria esmagadora das pessoas chega a condição de Egbon sem receber isso. Contudo isso não é uma problema, essa pessoa vai ganhar um cargo na casa em que esta e seguirá a sua religião da mesma forma.

Porque religião é muito mais do que cargos. Religião é feita para tornar você uma pessoa melhor.

Uma casa grande é uma casa forte.

Observe que durante todo o ciclo de iniciação a pessoa está ligada a casa e a pessoa que o iniciou. Este é um vínculo muito forte e não existe nesta religião a opção da pessoa simplesmente sair de uma casa para e ir para outra durante este ciclo. A pessoa pode se movimentar entre casas enquanto é Abian e depois que é Egbon. Durante o ciclo de iniciação a pessoa esta ligada a casa e não deve mudar isso. 

Cada pessoa deve pensar muito bem antes de iniciar uma feitura. NÃO pode existir o caso da pessoa que vai a um jogo de búzios e sai dali com iniciação marcada. Menos de 6 meses depois a pessoas já esta passando por um feitura!!  Isso é o primeiro erro capital que se comete, um erro para a vida toda.

NÃO existe isso na religião. Ninguém sai de uma mesa de jogo para uma iniciação. 

Isso é um absurdo.

Existem exceções, mas, uma iniciação é um processo de opção. Você vai escolher aquele caminho e também vai escolher a pessoa que irá iniciá-lo e a casa em que vai frequentar.

Você pode passar por muitas mesas de jogo antes de decidir fazer alguma coisa. Pode inclusive frequentar muitas casa durante muitos meses ou anos antes de tomar qualquer decisão. Anos e anos podem se passar antes de você decidir isso. Possivelmente você poderá tocar a sua vida como Abian passando apenas com Boris.

Se iniciar é uma decisão que deve partir de: entender o que isso significa para sua vida no sentido de o que aquilo vai adicionar em sua vida - Isto é o mais importante; quanto tempo vai ser envolver;  com quem esta se envolvendo.

Lembre-se de que, a questão de, com quem, é mais abrangente. Você deve avaliar a pessoa que o iniciará como também as demais pessoas da casa onde se iniciará. Você deve procurar um meio onde se sinta confortável.

O processo de iniciação é um processo longo e caro hoje em dia.

Explicado como é o processo de iniciação, podemos começar a entender a questão da vaidade nas casas.

A primeira questão, e mais simples de entender, é que existem por ai, aos milhares, pessoas que não tem o direito de serem Babalorixá e Iyalorixá. 

Ter o direito de abrir uma casa é algo dado pelo Orixá e isso é dado a quem tem capacidade para isso. Orixá não escolhe ao acaso.

Sim, existem pessoas que não receberam esse direito e que se auto-declararam Babalorixá. A Vaidade delas é mais forte do que razão. Essas pessoas, quando percebem que não vão receber naquela casa ou daquela pessoa esse Oye e não vão ter espaço para aprender a sê-lo, elas simplesmente saem da casa, pulando de casa em casa até achar alguém de este Oye para ela. Normalmente isso será uma troca financeira.

Existe também uma prática de trocar de casas e até mesmo de nação.... durante o período de iniciação com o objetivo de esconder iniciações não feitas. A pessoa passa por tanto lugar que você perde a origem dela. 

Mas a vaidade não tem limite e um dos casos mais comuns e pior é o de Pai de Santo de Umbanda que se acha o tal, e que decide que também vai ser de Candomblé. Mas veja, essa pessoas tem uma casa, é dirigente da sua casa, de Umbanda claro. Alguém acha que essa pessoa vai virar Iyawo e ficar 7 anos submetido a uma função de baixa hierarquia? Jamais.

Essas pessoas fazem apenas feitura e a obrigação de 1 ano, e somem da casa, se dizendo Babalorixá. Muitos nem se submetem  isso, apenas inventam que fizeram isso. Vão a uma casa em outra cidade ou estado, dão um Bori e voltam dizendo que foram feitas. Outras se dizem filhos de um Babalorixá que já morreu.

A maioria das pessoas que troca de casa, que dá obrigação e outro estado, que troca de tradição religiosa (ou nação para muitos) é para esconder sua origem. Existem sim casos de pessoas que tem que deixar sua origem (mais do que deveria existir), contudo, mudar sua trilha, dando cada obrigação com  uma pessoa diferente, inventando que brigou ou que o iniciador morreu ou se mudou é a forma mais comum de apagar uma história errada.

Também tem gente que toma a obrigação de 7 anos e abre uma casa. Veja, não dá para ser Babalorixá com 7 anos de feito. Você vai precisar de mais 7 para poder aprender a ser um.

A Vaidade faz essas pessoas passarem por princípios e sobre a ética para atingirem o status que querem.

Contudo, mesmo 
no grupo que recebeu isso por merecimento e direito temos o mesmo grave problema de vaidade.

Muitas delas são pessoas simples, mas que, quando chegam a essa posição passam a ter uma atenção ou um status que não tiveram antes. São bajuladas e se sentem muito importantes. Normalmente são mesmo, para aquelas pessoas que as querem bem.

Mas isto, a vaidade, as transforma. A reverencia e o tratamento que recebem na sua casa as fazem se sentir especiais. Dentro da casa delas, em uma função de candomblé elas são como reis ou como o próprio Orixá em terra - mas não são nada disso.

Cada vez mais essa vida de "glamour" as atrai e elas buscam então ficarem somente dedicadas para esta atividade, afinal, ali elas são tratadas como divindades e fora dos seus muros são pessoas comuns.

Depois elas começam a frequentar e convidar outras "divindades", claro! Ela trata um outro, como ela, de forma sublime e será também tratada por este como um superior. Assim  cria-se um circulo vicioso. Você tem que convidar e bajular para ser convidado e ser bajulado.

Tem que dar festas para ser convidado para festas!

Uma pessoa comum passa então a ser um Rei. Pior, gente, ele acredita mesmo nisso.

Imagine pessoas que são discriminadas na sociedade por opções sexuais normais ou mesmo esdrúxulas, por condição social e mesmo por falta de formação, dentro dos seus  muros e nos muros dos amigos, claro,  eles viram autoridades, com gente botando a cabeça no chão para eles.

Coloque neste contexto qualquer minoria ou maioria social, da no mesmo. Se, e somente se, o seu caráter não for muito superior ele irá se perder.

E o orixá? e a RELIGIÃO?  -   esqueça!

A satisfação pessoal e o glamour se tornam maiores. Mas, ela tem que ser mais importante, saber mais e falar mais complicado. Passam a inventar coisas.

A vida com Orixá não tem glamour. É de fato uma repetição. Os mesmos problemas com pessoas diferentes. Dar obrigação, fazer ebó, jogar, fazer orixá, etc...  Será sempre isso, mas, não tem o que inventar. Esse é o objetivo, ajudar pessoas. O novo são as pessoas que se ajuda.

É muito duro ser um babalorixá. Não justifica a popularidade que isso tem. É popular porque as pessoas estão erradas no que fazem!


Tomem cuidado também com as pessoas despreparadas. 

São pessoas que nunca receberam o cargo e nunca se prepararam para isso. Elas decidiram, vou ser Babalorixá (ou Iyalorixa, lembrem...). Essas pessoas nunca aprenderam como deveriam e o que deveriam.  Nunca ficaram em uma casa de candomblé para aprenderem o suficiente. Nunca receberam os necessário fundamentos e obrigações.

São pessoas estranhas à religião.

Quando uma pessoa se diz Babalorixá e continua tocando para Umbanda, dá consulta com guia de Umbanda, recebe Exu e Pombo-gira, é porque não entendeu a religião que ele entrou. Ele não entendeu o que é Orixá ou nunca soube.

Uma pessoa de Candomblé de verdade não busca a Umbanda para resolver seus problemas pessoais ou financeiros, ela resolve isso com seu Orixá e Exu.


Também temos o caso das pessoa que transformam ou criam desde o início uma casa de comércio religioso. O candomblé é feito de obrigações e ebós, tudo cobrado,  quanto mais filhos de santo mais dinheiro se ganha.

Além disso existem os "crientes".

Quando o filho de santo - FDS - vira cliente, a coisa acabou. Jamais podem ser nivelados.

Uma casa de orixá não pode tratar FDS como se fosse cliente. Se você encontra ou esta em uma casa assim, esta perdendo o seu tempo.

Claro que as coisas dão trabalho no Candomblé e claro que muitas vezes uma comunidade resolve manter o seu Babalorixá, mas, existe uma diferença entre isso e uma pessoa que não tinha profissão e qualificação e resolveu ganhar a vida como Babalorixá.

A pessoa que faz isso como profissão, vai sempre querer um carro novo, uma viagem nova, uma roupa nova, etc...


O ultimo caso relevante das pessoas que perdem a Fé (ou nunca tiveram) são aquelas que se "cansam" de cuidar de Orixá e ai começam a inventar. Querem cuidar de egun, de Ajé, de cigano, de tarot, de kabalah, e sei lá mais do que.

Essas pessoas apenas PERDERAM a sua fé.

QUEM TEM FÉ EM ORIXÁ NÃO PRECISA DE MAIS NADA.

E Ifá mudou isso??

Não piorou.

Esqueça designação divina, esqueça uma longa preparação, a pessoa entre e em 7 dias vira awofakan, mais um tempo, um monte de dinheiro e mais 7 dias vira Babalawo e ai, acha que é deus em terra.

Os neo-babalawo, imberbes, são a praga da religião. Não sabem nada em um dia, no outro são babalawo, decoram tratados, fazem turismo na África e viram especialistas em tudo, estão ai dispostos a ensinar a religião a todos e afirmam que Orixá nasce em um Odu e basta ele riscar e rezar um Odù que aquele Orixá já estará ali, do lado dele resolvendo tudo o que ele quer.

Olha, entendo perfeitamente o que essas pessoas dizem, mas, fui de Candomblé, eu vi como Orixá nasce de verdade, eu vi Orixá, só quem tocou, abraçou e sentiu o calor e candura  de um Orixá, junto com sua expressão e energia sabe o que é um Orixá.

Riscar um Odù e rezar para ele aparecer? Mais me parece aqueles filmes de invocação de demônios, se tudo fosse assim tão simples seria fácil, sem dúvida o Ifá cubano é igual a Umbanda, teve uma Iyalorixá que conviveu muito com cubanos me falava isso, aquele tambor deles era uma Umbanda, e da mesma forma os cubanos fazem aqueles pontos no chão, bandeiras, circulos coloridos para invocar Orixá, igual a Umbanda mesmo.

Mas como podem neófitos na religião receberem da mão de um homem, com a maior facilidade, sem nenhuma confirmação divina que não seja aquela própria pessoa que da´e cobra por isso (nada é de graça), se sentir como se fosse " o escolhido" e sair por ai dando aula e explicações como um especialista em tudo sem nunca ter sabido nada. A pessoa nunca teve nenhum reconhecimento, ganha um cargo e já se considera superior?

A vaidade cega a fé.

A vaidade leva a pessoa a aceitar cegamente coisas que se ela parasse um momento para refletir, ela própria entenderia que não poderiam ser. a vaidade de quem recebe e a vaidade de quem faz.

Títulos comprados, obrigações compradas, alakas vistosos, filás brilhantes, elekés gigantes não o fazem uma pessoa melhor. 

O que o faz uma pessoa melhor é a referência de pessoas que te consideram, pessoas que você mudou a vida.

Mas ao invés de fé o que essas pessoas procuram é atender sua vaidade, a vaidade de ser grande, a vaidade de ser importante e a vaidade de se impor.

 


quarta-feira, janeiro 08, 2020

Discussão sobre paganismos e politeísmo - O que não somos

Discussão sobre paganismos e politeísmo - O que não somos



Já é bastante trabalhoso defender o que é esta religião, frente aos conceitos teológicos das religiões Abraâmicas, como o catolicismos e os evangélicos.

Fica muito mais difícil quando se tem que primeiro desfazer o que não somos. De forma intencional ou por apenas ignorância, afirmações são feitas baseadas em modelos religiosas que não temos afinidades.

Esse vídeo aborda isso, como o preconceito nasce através da classificação errada da religião




domingo, janeiro 05, 2020

A Ligação entre Ifá e o Culto de orixá (Òrìṣà)



A Ligação entre Ifá e o Culto de orixá (Òrìṣà)



A primeira informação importante para todos é que Ifá não está dissociado do culto de orixá (Òrìṣà). 
 

Isso foi uma constatação muito interessante e motivante para mim. Ifá é um culto distinto e que pertence a mesma religião (Yoruba) que tem um culto de Orixá. Aliás, a gente vai encontrar na religião Yoruba 3 cultos: o de Orixá, o de Ifá e o de Egungun.


São cultos distintos porque tem foco em divindades diferentes, tem liturgias distintas e tem objetivos complementares, mas, fazem parte da mesma religião, compartilham as mesmas divindades e a mesma teogonia. São separados mas vejo-os fazendo parte de um todo.


Não me perguntem como Ifá se integra com o culto do Candomblé Jeje - Não sei. Quando a pessoa vai a Ifá ela vai na religião Yorùbá, desta forma Ifá esta ligado às tradições religiosas com origem na raiz religiosa yorùbá. Aqui no Brasil temos o Candomblé Ketu, o Batuque e o Xangô (Ṣàngó).


O Candomblé Jeje representa uma outra religião dentro do Candomblé e um culto com divindades diferentes. O jeje tem Vodun e a religião Yorùbá tem Orixá. Conheço muito pouco desta religião, mas, o pouco que conheço me faz recusar esta abordagem medíocre que faz correlação de 1:1 entre Orixá e Vodun. Não concordo que isso seja assim as raízes religiosas são bem distintas.


Ifá é um oráculo Yorùbá. Está ligado a uma teogonia Yorùbá, a uma teologia Yorùbá e a divindades Yorùbá. Tudo em Ifá gira em torno de orixá e da teogonia Yorùbá que é diferente da teogonia do Jeje. Quem no Candomblé é de uma nação Yorùbá, se vira com facilidade, o pessoal de Jeje não sei como faz.


Isso significa que a pessoa de Candomblé Jeje não pode ir a Ifá?


Claro que pode, Ifá apesar de estar ligado a uma religião pode ser usado para todas as pessoas da face da terra independente da religião que elas tenham. Ifá não é um oráculo litúrgico, é um oráculo para tratar da vida das pessoas.


Além disso, Ifá não trata de orixá (Òrìṣà), ele trata da pessoa.


Se a pessoa é de Jeje, apenas saiba que vai sair de lá com indicação de coisas para fazer no contexto Yorùbá e de suas divindades. Apesar de Ifá ser independente do culto de Orixá (Òrìṣà), a maior parte das coisas que faz é através da intersecção dos orixá (Òrìṣà).


Se isso não for problema para ele, então não existe problema. Como estou falando aqui de ecumenização, ou seja, de integração de cultos, no caso do Candomblé temos que ter atenção na raiz da religião.


Claro que a maior parte das pessoas que conheço ou situações que vi indicam que isso não é problema. O que mais tem é “Doté de orixá” e casa de jeje que toca ketu e só faz orixá Yorùbá ou faz Vodun como se fosse orixá, só troca o nome. Raro é uma casa que seja Jeje, essa ortodoxia existe mais na nossa cabeça o mundo real é uma bagunça.


Se o Doté ou Doné já é de orixá então o resto todo também o será. A coisa começa da raiz, se a raiz começa com Orixá porque o resto será diferente?


Assim essa designação de Candomblé tem pouco sentido para muita gente sem conhecimento. Para eles é tudo igual.


Usando uma expressão que ouvi e gostei, o que temos mais e mais, é o Candomblé popular, não é o Candomblé de nação. As pessoas praticam de qualquer jeito e de qualquer forma. Raros são aqueles preocupados com religião e culto, preocupados com nação e ortodoxia, preocupados em dar consistência no papel da religião na vida das pessoas.


O Candomblé popular é aquele que acontece. As pessoas fazem e ganham dinheiro com ele.


Para aqueles que pensam que isso é um problema dos tempos modernos, não é, pelo contrário, os tempos modernos só melhoraram o Candomblé. A divulgação de informação, a facilidade de reconhecer erros, a penetração em uma camada da população mais preocupada em ter uma religião do que ganhar dinheiro com ela e a rejeição do modelo de submissão do candomblé, mudaram para melhor a qualidade do Candomblé.

A perda de conhecimento que o Candomblé teve em sua prática hermética e em guetos era fruto de pessoas com poucos valores e ética, que se preocupavam somente com elas e mais nada. 

Tem gente que adora enaltecer, sem senso crítico, os "meus mais velhos", isso é uma moda no Candomblé, coisa da boca para fora, para platéia, mas nessas pessoas estão a origem de atitudes e práticas ruins. É falha a afirmação que antigamente o Candomblé era bom ou melhor. O Candomblé melhorou multo.

O ganho de qualidade, ética e moral do Candomblé tem sido muito grande e o salvou. Claro que todo crescimento e evolução tem seus defeitos e problemas, mas cada vez a gente tem coisas menos séria ou escandalosas para lidar. A transparência e o acesso à informação mudam tudo para o bem.

Ha muito tempo que já deixei de lado essa posição ingênua de que os "antigos" é que faziam certo. Coisa nenhuma, como eu disse, não sejamos ingênuo. Claro que até podiam entender muita coisa que não sabemos hoje (isso é uma ilação), como também desconhecer muitas coisas que sabemos hoje (isso é uma afirmação).

Sua incapacidade em preservar a religião é que levou a perda. Não tenho dúvida que essa mesma herança histórica comportamental foi a que expulsou o culto de orixá da África. A diáspora negra foi uma solução e não um problema. Ela permitiu que os Orixá se preservassem, porque se dependessem dos africanos já teriam acabado.

Essa herança cultural, histórica étnica é que fez com que eles não preservassem sua religião e continuassem submetidos e escravizados apesar do absurdo número de africanos no Brasil. Em lugares com uma proporção de 10 escravos para 1 branco, como que tudo ficava sem mudança? Eles, os negros, estavam mais preocupados em se dar bem, em se libertar e também ter escravos do que mudar algo. Essa história é pouco contada mas é real.

O Candomblé do início do século refletia o mesmo. Desunião e feudalismo.Uma casa de Candomblé era uma estrutura feudal, com um rei ou rainha declarado e os seguidores que deviam seguir o que ele falava sem piscar o olho.

Como menciona Parés no seu livro sobre a formação do Candomblé no Brasil, entre se submeter a uma casa de Candomblé, e ser uma escravo do dirigente e ir para uma irmandade católica e enfrentar algum preconceito mas pelo menos a possibilidade de inserção na sociedade, a maior parte preferiu o caminho da irmandade, senão o Candomblé seria a maior religião no país.

Alguém já pensou nisso? A população de negros era algumas vezes a de brancos, se os negros libertos optassem por sua religião o Candomblé seria a maior religião do Brasil.

Se o Candomblé não foi a religião de escolha é porque ele tinha e tem problemas viscerais sérios, mas, sem dúvida a necessidade de se estabelecer na sociedade fez os libertos procurarem a religião da sociedade e não manter sua exclusão ao adotar uma religião distinta. Claramente não buscaram a confrontação, mas, eu seria muito ingênuo em desconsiderar a falta de estrutura e a qualidade das relações no Candomblé.

Voltando ao tema principal, em ifá existem liturgias próprias de Ifá e que não encontraremos no culto de orixá. O Bàbáláwo trabalha de uma forma distinta do Babalorixá (Bàbálórìṣà), contudo, Ifá se apoia ou mesmo depende fortemente do culto de Orixá.


Sim, Ifá é o oráculo de Órunmila (Ọ̀rúnmìlà), mas o que ocorre em nossas vidas, a ação, passa por Ori e principalmente por Orixá. Orixá é a divindade que influencia nossa vida de forma positiva e é quem nos socorre como resultado da consulta a Ifá. Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) não está dissociado dos demais Orixá (Òrìṣà), ele é o Oráculo, mas nossa vida ainda é orientada diretamente pelos Orixá (Òrìṣà).


A ação do Oráculo na nossa vida se inicia com Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) e Exú (Èṣù), mas continua e se manifesta com os Orixá (Òrìṣà). Isso está no odu Oseotuwa. São os orixá os principais motores da nossa transformação e socorro. O Oráculo como intermediário e instrumento de diagnóstico determina ações que serão suportadas por Orixá e egungun.

Esta é a religião Yoruba. Esta é a teogonia. Assim, Ifá não é isolado ou independente ele se integra aos demais cultos de forma bastante natural.

Minha posição é que o nosso dia a dia pertence a nossa relação com Orixá (Òrìṣà). Ifá não pertence ao nosso dia a dia, não pertence ao dia a dia de ninguém. O culto das pessoas, o culto importante é o culto de Orixá (Òrìṣà).


Claro que o Babalawo tem uma forma própria de fazer o que precisa com seus Odù e Opon, mas algumas coisas podem ser ditas:


— existem situações de oráculo que indicam diretamente ou por bom senso que o consulente deve procurar o culto de orixá;


— a maior parte das oferendas à orixá pode ser feita da forma como a pessoa já faz no culto de orixá.


O acesso aos Orixá é determinado quando se especifica o ebó ou oferenda que é necessário. Não lembro se já falei aqui sobre a anatomia de uma consulta a Ifá, creio que sim. Após determinar o Odù que traz a mensagem a pessoa, o Bàbáláwo determina qual o ebó que será necessário para fazer aquilo se manifestar na vida da pessoa.


Nesta fase da consulta podem ser determinados ebó de Ifá com tabuleiros, cerimônias específicas de Ifá e as oferendas a Orixá. Sim, no caso da rama cubana o Bàbáláwo sempre determina que orixá esta respondendo em socorro aquela pessoa. Isso não é nada diferente do que um babalorixá faz no seu culto de orixá com o merindinlogun.

Nesta etapa é determinado o que o Orixá precisa para ajudar a pessoa. O que quer que seja oferecido ao Orixá se torna uma oferenda a orixá e não mais importa como será feita. 

O Bàbáláwo pode fazer da forma como sabe, mas o consulente, se for de um culto de Orixá e souber o que fazer, também pode fazer a sua maneira ou de qualquer maneira que se chegue ao orixá. É aqui que entra o culto de orixá.

Os Bàbáláwos cubanos vão fazer isso da forma como aprenderam, seja em Ifá ou na Santeria, não tem problema nisso. Mas não pode haver qualquer tipo de objeção aos brasileiros poderem fazer isso da forma como aprenderam no seu culto de Orixá ou através de uma casa de Orixá.

O divino é o mesmo. Você pode através de cada religião e culto aprender formas distintas de atingir ao divino. Essa é a função da religião. Os cubanos aprenderam de uma forma e farão como sabem. Os brasileiros dos diversos cultos de Orixá podem ter alternativas a estas formas.

Mas aquele que diz, como já ouvi, que a forma se fazer uma oferenda para um determinado Orixá é somente do jeito dele representa a voz do ignorante. Pior um pouco, não respeita a sua religião ou não entende que faz parte de uma única religião.

Estou usando aqui a referência dos cubanos mas isso vale para os nigerianos e seus filhotes de criação brasileiros. É a mesma coisa.

Dessa maneira, consolidando o que eu já disse: Ifá pode ser usado por qualquer pessoa independente da religião. Ifá é religião e faz parte de uma religião. Não existe consulta em Ifá que não resulte em uma oferenda a algum orixá (Òrìṣà) como caminho para socorrer aquela pessoa. 

É totalmente sem sentido a afirmação de que Ifá não é religião ou que seja independente do culto de orixá (Òrìṣà). É religião, apesar de poder ser aplicado a qualquer pessoas, deus esta para todos e não para apenas um conjunto de gente selecionada.


Além disso, existe muita coisa que de forma real é resolvida através de um Bori ou de liturgias ligadas a Ori. Antecipo em dizer que meu entendimento e relação com Ori é bem calma e equilibrada, tem gente que só fala de Ori e diz que tudo é Orí, mas, essas pessoas que assim falam entendem pouco da teologia. Tem muita coisa importante e muitos caminhos, Ori é um deles para determinadas situações.

Mas se você precisa fazer algo através desse caminho, lamento, só vai ter no culto de Orixá, aliás, só vai ter no Candomblé. Esqueça os cubanos, esqueça santeria e esqueça Ifá. Não sabem nada, não entendem e não sabem fazer.

O Bori feito através de Ifá é muito ruim, vergonhoso mesmo. Mal feito, mal elaborado e inefetivo, um placebo. Foi uma invenção dos cubanos que nem sabiam o que era Ori.Ja passei por isso e já participei de vários. Muito ruim, atualmente, não me chamem para isso, não vou.

Tem muito Bàbáláwo obtuso que fala aos 4 cantos que Ifá não é religião, mas, esse mesmo Bàbáláwo entende que orixá (Òrìṣà) é? Se entende então eu lembro que quase sempre Ifá passa por Orixá (Òrìṣà).

Apesar de ser religioso e de passar por orixá (Òrìṣà) como instrumento de manipulação do divino, do supernatural ligado ao divino, Ifá não muda sua religião. Você pode ser de qualquer religião, se consultar em Ifá, fazer ebó (Ẹbọ) e continuar na sua religião e na sua vida. Ifá não é proselitista.

Ifá não trata da vida religiosa de iniciados. Você pode ser de uma casa Jeje, Ketu ou Batuque e ir a Ifá. Você deve tratar coisas da sua vida. Para tratar questões de sua formação religiosa procure uma casa de orixá (Òrìṣà). Não traga para Ifá suas questões religiosas porque é inadequado e impróprio um Bàbáláwo tratar disso.

O Bàbáláwo é autônoma para fazer oferendas a orixá (Òrìṣà), ele não depende do culto de orixá (Òrìṣà) mas ele não deve se inserir em questões religiosas para as quais não tem conhecimento, formação e muito menos propriedade para falar. Se fizer isso só vai causar problema para ele e para a pessoa.

É muito ético um Bàbáláwo que recebe uma pessoa já iniciada em orixá (Òrìṣà) indicar que a pessoa procure sua casa para fazer as coias de orixá (Òrìṣà) que a consulta recomenda.

Se o Bàbáláwo fizer ele não cometerá nenhuma violação ética, mas ele não deve ser intrusivo, se ele não sabe o que pode ou não fazer com um iniciado então não faça nada.
Uma casa de ifá, um Bàbáláwo deveria ter ligação com uma ou mais casas de Candomblé, isso seria útil para ele para poder indicar pessoas.

Em relação aos 2 cultos, as casas de Candomblé não precisam de Ifá para seus trabalhos, o Candomblé tem seu oráculo, mas, todos sabemos que nem todo Babalorixá (Bàbálórìṣà) ou Iyalorixá (Ìyálòrìṣà) é fluente no uso do oráculo, assim, uma casa de Orixá (Òrìṣà) poderia, sim, contar com a ajuda de um Bàbáláwo para uso do oráculo, não junto a clientes, mas auxiliando o dirigente.


Não se trata de o Bàbáláwo ensinar algo ao Babalorixá (Bàbálórìṣà) ou mesmo de corrigir coisas que ele faz ou indicar coisas diferentes, trata-se do Bàbáláwo fazer apenas aquilo que ele sabe fazer que é usar o oráculo.


Alguns podem estranhar eu dizer isso do Bàbáláwo, mas, é isso mesmo. O que o Bàbáláwo sabe fazer é usar um oráculo, esse é o único trabalho e missão dele. Ele usa o oráculo com mestria e executa os ebós e oferendas indicados. É isso o que um Bàbáláwo faz, mais nada, o resto se houver é invenção.

Se a pessoa quer mais e acha que apenas cuidar do oráculo é pouca coisa, então esta no culto errado. O Bàbáláwo faz apenas isso e, minha opinião é que já é o suficiente para uma vida,.


Usar um oráculo para ajudar pessoa é muito difícil. Você tem que aprender muita coisa, mas muita coisa mesmo. O Bàbáláwo só faz isso, aprender com interpretar o oráculo e como resolver o problema das pessoas. Bàbáláwo que está interessado em fazer mais do que isso é apenas um comerciante vendendo bugiganga e placebos.

O que ocorre é que tem um exército de Bàbáláwo que não conhece os versos de Ifá, que não conhece teologia yoruba, que não conhece folha. Essas pessoas decoram tratados e saem repetindo as interpretações (ruins) já feitas. Para essas de fato, só cuidar de oráculo será pouco, vai acabar logo o que fazer.







quinta-feira, janeiro 02, 2020

A matriz religiosa afro-brasileira

A matriz religiosa afro-brasileira



Vídeo explicando o que é a matriz religiosa afro-brasileira, complementa longo texto que existe no blog.

Não deixe de ver no Blog o texto sobre a matriz religiosa afro-brasileira para entender o que isso quer dizer. 

O termo é largamente utilizado mas pouco explicado. Erroneamente, muita gente se refere as religiões como de matriz africana, o que é um erro, a matriz não é africana, é afro-brasileira. 








domingo, dezembro 29, 2019

O sentido da Vida

O sentido da Vida


Um novo ano se inicia

Desejo a todos os leitores desse meus textos que um novo cliclo se inicie e que todos tenham um espetacular e promissor 2020, com energias renovadas par amais uma rodada da vida.

Este é um Blog religioso de forma que me manifesto aqui sempre em acordo com a religião que represento.

Vivemos pela aventura, pelos prazeres, pela realização de objetivos, pelas emoções e pelo amor que temos à nossa família. A vida é uma jornada de realizações e sensações.

Depois de anos estudando é isso que eu posso dizer sobre o que essa religião transmite. 

Não vivemos para sofrer; não cometemos nenhum pecado original; não estamos pagando por erros de vida anteriores; não vivemos para evoluir e nunca mais encarnar de novo.

Vamos nascer, viver e morrer muitas vezes pelo prazer de vivermos juntos aqui neste mundo. Cada nascimento é antecedido de um objetivo, a gente define o que quer realizar, o que alcançar e que desafios superar. Mas, junto com isso, muito amor e muita felicidade.

Essa é a visão que esta religião tem para o sentido da vida.

O Candomblé e Ifá são baseados nesta religião, a religião da vida!

Tem gente que pode se decepcionar com isso, buscar uma visão maior um sentido supremo. Essas pessoas vivem infelizes o tempo todo.

Os espíritas, que são muitos, vivem para serem infelizes, vivem olhando o espelho retrovisor e tendo o cuidado de sofrer bastante aqui para sofrerem menos na próxima encarnação (???!!) e alcançarem a sua meta que é nunca mais nascer de novo (!!!). Eu acho esse modo de ver a vida muito infeliz.

Os católicos vivem para morrer. São controlados pelos pecados, sempre estão errados, mas a religião somente diz que, depois que eles morrerem, vão alcançar a salvação eterna junto a deus. A religião durante a vida promete para eles uma vida melhor para depois que eles morrerem. Eu acho péssimo viver para querer morrer ou uma religião que vai de ajudar depois de morrerem.

Os evangélicos acreditam que podem matar, se drogar, roubar, estuprar e fazer tudo de pior contra a humanidade, mas, podem se converter, ter o perdão de deus e assim ir para o paraíso. É a religião dos ex-bandidos, ex-drogados, ex-qualquer coisa. Além disso tudo de ruim que ocorre no mundo não é culpa deles, é apenas do diabo. Eles então vivem sem culpa, podem esmerdalhar tudo, culpar o diabo e depois virarem pastores.

A religião do Candomblé, essa que todo mundo joga pedra, não tem essa grandiosidade toda das demais. A gente não fala com deus (os católicos e evangélicos só aceitam falar com deus, o próprio), falamos com seus ministros, mas, pelo menos, a gente fala de verdade, não finge que deus ouve a gente. Os católicos acham que Jesus é deus e que ele veio a terra para viver e sofrer com eles (???), mas, vão para a igreja, rezam e conversam com deus e a resposta de deus para eles é o silêncio, mas, apesar disso eles se acham os superiores.

Nós, como disse, entendemos que não falamos com deus, e sim com os ministros que deus colocou aqui para representá-lo e cuidar da gente, mas, pelo menos, a gente fala com eles e eles nos respondem, aparecem e nos ajudam no que precisamos.

Os cristãos tem a arca da aliança, na verdade, deus deu ela aos Judeus, mas eles acham que é deles também (ou seria). Contudo, nós, entendemos que, de fato, temos uma aliança com deus que nos ajuda e nos socorre através do oráculos e dos Orixá, seus ministros, na nossa visão, deus, de fato, se preocupa com a gente e mostra isso com atenção, recursos e realizações. A nossa aliança com deus se estabelece quando nos ajoelhamos frente a olodumare e falamos a vida que desejamos ter no novo nascimento.

Nossa existência é baseada em emoções simples. Entendemos que vivemos porque gostamos de viver. Vivemos em família porque nos amamos. Vivemos pelo prazer de viver.

Vamos viver mais de uma vez, sim! Mas por que razão? Porque gostamos de viver aqui junto da família.

Viva a Vida!  

Jamais vamos, em nosso tempo, entender o milagre da vida de fato. Como surgimos do nada? Big Bang? ok, mas como surgiu o antes disso, como surge a consciência, a alma que coloca todo o corpo em funcionamento? Como apareceu a primeira poeira que fez o universo todo ser gerado?

Que sentido teria nossa vida? somos o que?

São perguntas demais e nenhuma resposta m nenhum lugar.


Assim eu entendo que podemos tornar as coisas mais simples, aplicar a Lâmina de Occan (um princípio filosófico) à vida e dessa maneira a explicação mais simples é a melhor. Não vivemos para a religião, vivemos e temos uma religião, acima de tudo por nossa opção, ninguém, nos obriga a isso. Eu preferi, depois de conhecer outras, aquela religião que fazia mais sentido em suportar a minha vida, aquela que trazia suporte, esperança, fé, devoção e felicidade. 

A visão de que nascemos para ser felizes, que deus quer o nosso sucesso e a nossa felicidade, que oferecerá recursos para nos ajudar, se, nós pedirmos e que vivemos pelo prazer de viver me pareceu bastante suficiente e natural. Nada de explicações complexas e mirabolantes.

O sentido da vida, é, viver, com tudo de bom e ruim que vem junto.

Que religião esta certa? eu não sei, não acredito que tenha nenhuma "errada", deus existe e o supernatural também. A religião é uma proposta de viver e como viver, assim, todas estão certas, cada um que viva com a perspectiva de sua religião traduz.

Dito isso tudo, meus votos vão ter mais sentido.


Que 2020 seja um novo ciclo de realizações, que vocês atinjam seus objetivos ou caminhem mais para os atingirem. Que sejam felizes e que, deus, olodumare, esteja sempre disponível para atender a seus pedidos de ajuda. Que vocês sejam éticos e gentis com as pessoas que o cercam e que seu Orixá cubra você de bênçãos e amor.

Viva e deixe viver. Ame e seja feliz. Seja útil a sociedade


Deus vai estar sempre entre você e seu destino e no vazio que existe entre cada passo que vai te que dar.








Segunda edição do livro Oráculos Yoruba dos Búzios a Obi

Segunda edição do livro Oráculos Yoruba dos Búzios a Obi



Leitores, quem não sabe fique sabendo agora, tenho, ha tempos, um livro publicado na Amazon no formato Kindle. Chama-se "Oráculos Yoruba: Dos búzios a Obi"

Esse livro chegou na sua segunda edição agora. Eu fiz uma revisão planejada para agora, corrigi alguns problemas de texto, inseri um índice (o melhor dessa edição) e adicionei alguns textos novos no final. O conteúdo em si não mudou. Olhei, olhei e não tem nada mais a adicionar.

Quem já tem o livro recebe automaticamente e gratuitamente a nova edição, isso é um dos benefícios da plataforma Kindle.

Para adquirir o livro basta ir no site Amazon.com.br ou Amazon.com e procurar pelo título ou pelo meu nome, Marcos Arino, facilmente acha o livro. O kindle é entregue por download e pode ser lido em tablet, celular e no computador, mas, o melhor meio para ler é comprar um leitor de kindle na Amazon.

Eu tenho 3, 2 paper white e 1 Oasis. São excelentes e veja tenho uma grande bibliografia em papel e sempre gostei de frequentar, comprar e escrever em papel, mas, de fato o kindle é ótimo. Você leva sua biblioteca junto de você e pode ler de dia ou de noite, pode ler no sol, inclusive, o leitor de Kindle é um livro.

Mas, falando sobre o livro, foi uma obra planejada e pesquisada por muitos anos. Usei exaustivamente os oráculos para poder colocar no livro tudo de importante sobre o uso deles. Consultei todas as obras existentes para poder entender as fraquezas e fazer um produto bom.

Tenho planos para ter uma edição em inglês e até um livro físico, mas, vamos ver, primeiro a edição em inglês.

Em relação a livros, será lançado em breve um com os melhores textos do Blog, na minha avaliação e os mais lidos. O objetivo desse livro é reunir os textos que considero como de referência em determinados temas.
 
Alguns outros também serão feitos (maiores e menores) com temas completos (A religião yoruba; A mulher em Ifá; Ori e o destino; abiku e egbe orun; Ajé; Xango e outros). Eu já tenho muito material quase pronto, tem um livro sobre Jogo de búzios que só falta a revisão. A diferença entre o livro e o Blog é que o livro vai ter uma abordagem de inicio-meio-fim, uma vez que no Blog os textos sempre vão direto em cada assunto.

Uma coisa que deve fazer é usar essa características de atualização gratuita do Kindle para adicionar conteúdo, assim, o livro com os melhores textos será atualizado na medida em que novos textos de referência surjam.

sexta-feira, dezembro 27, 2019

O que você precisa saber sobre consultas a Ifá

O que você precisa saber sobre consultas a Ifá



O objetivo desta postagem, assim como o do Blog é o de esclarecer e ensinar com informação atualizada e de boa fonte. O que eu escrevi nesta postagem representa a minha opinião sobre o tema. É baseado em minhas observações, experiências e análise.

Atenção este é um texto corajoso com opiniões fortes.

Este não é um assunto teórico e sim opinativo.

Os temas abordados nesta sequência serão os seguintes:

  • Por que as pessoas devem ir a Ifá?
  • Anatomia de uma consulta
  • O uso de ikin ou opele
  • O valor da consulta e de trabalhos adicionais
  • A questão de ire e osogbo
  • O uso de ìbò
  • A escolha de ebós e oferendas
  • Uso de estórias na interpretação
  • Bàbáláwos determinando orixá em jogo
  • Assentamentos e iniciações
Todos esse temas contidos no escopo da ida a uma consulta a Ifá.

Imagino que muitas pessoas, ou todas, devem ter, no mínimo uma grande curiosidade em se consultar no oráculo de ifá, eu já tive e isso me levou a primeira consulta, a curiosidade. Mas seja por necessidade ou por simples curiosidade de saber qual a diferença entre este oráculo e os demais, já conhecidos, como búzios, cartas e até consulta com guias de umbanda, eu gostaria de deixar aqui registrada a minha contribuição para que esta, a consulta a Ifá, seja uma boa experiência.

Observem que não entrarei em aspectos de medir a qualidade de quem procuram, isso cabe a vocês, antes de se definirem, procedam a um processo mínimo de buscar recomendações e opiniões, como aliás a gente deve fazer na nossa vida normal, antes de ir a algum lugar ou contratar algum serviço. Não encare ifá de forma diferente, essa coisa de sacerdote e de portador de valores puros ou elevados, representante de deus, é só na sua imaginação, o mundo real tem todo o tipo de pessoa exercendo esta atividade, sejam os bons, os mau-caráter ou os incompetentes.

Esta é então a minha primeira recomendação avalie bem o lugar para onde vai.

Qual a base teológica de consultar Ifá?

Além da curiosidade, as pessoas podem ter bons motivos para ir a Ifá. Conforme a teologia diz, Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) é o eleri ipin, o testemunho do nosso destino, aquele que está ao nosso lado quando nos ajoelhamos perante Olódùmarè e pedimos a vida que queremos ter no Àiyé. Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) testemunha aquilo que pedimos e também o destino que Olódùmarè nos dá. Esta informação pertence a nós, a Olódùmarè e a Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) somente. Porém quando nascemos nós esquecemos o que foi combinado. Sendo Olódùmarè um deus distante, Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) é o único que pode nos ajudar.

Na porta do salão de Olódùmarè esta elenini, a divindade do infortúnio. É um ajogun, um dos espíritos que apenas trazem o mal para as pessoas na sua vida no Àiyé. Ela ouve o que pedimos e fará tudo para nos atrapalhar, afinal ela é o infortúnio.

Conforme está no Odù Irosun meji, nos esquecemos nossos objetivos de vida, o dito destino, quando nascemos. Isso foi uma consequência do awo que ao ter problemas na sua vida, volta ao órun (Ọ̀run) para falar de novo com Olódùmarè. Este awo, Irosun meji, se prepara para esta viagem e com a orientação de ifá, engana elenini que sai da porta de Olódùmarè, para ir a cozinha fazer o seu café da manhã com elementos que o awo havia trazido através do seu ebó de ifá.

O awo refaz seus objetivos com Olódùmarè e sai correndo de volta ao Àiyé. Elenini percebe que foi enganada e corre atrás dele, mas quando percebe que não vai alcançá-lo lhe arranha as costas da cabeça até a cintura, fazendo assim a marca da coluna vertebral nos homens. Além disso ela faz com que as pessoas se esqueçam do que trataram com Olódùmarè. O awo Irosun meji ganha uma nova vida mas se esquece do que pediu a Olódùmarè.

Ifá, através de Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) serve para nos relembrarmos disso. Através de ifá Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) nos traz orientações baseadas no destino que pedimos a Olódùmarè. Dessa maneira ifá não é um oráculo comum que fala do passado e presente, ou um contador de fofocas. O que ele diz esta alinhado com o que nós mesmo estabelecemos para nossa vida. Nos momentos que temos dificuldade e precisamos de orientação, naqueles momentos em que já buscamos em nós as respostas e também toda a ajuda disponível sem sucesso, nós sempre teremos Órunmila (Ọ̀rúnmìlà, o eleri ipin, o testemunho do nosso destino para recorrer.

Além disso, temos a questão do Orí que vamos buscar no mercado de ìdó com Ajalá. Existe um fator de acaso na escolha do ori. Ajalá não faz todos os Orí bem-feitos. Esta situação está explicada em uma história bem conhecida do Odù Ogbe Yonu. Dependemos do acaso ou de uma cuidadosa preparação antes da escolha do Orí.

Por desconhecimento da teologia, existe um sobre valorização da questão do Orí, mas que não será aqui que vou explicar. O Orí inu, é o elemento importante para nossa prosperidade no Àiyé. Um bom Orí nos levará a prosperar rápido e com menos esforço.

Entretanto também temos que escolher no mercado de Ejigboromekun um bom iwa pele. Sem um bom iwa pele um bom Orí não trará prosperidade, isto esta explicado no odu Ogbe alara.

A escolha do bom Orí é explicada no odu Ogbe ogunda, na história de afawupe, o filho de Órunmila (Ọ̀rúnmìlà). Como está na história, quando não escolhemos um bom Orí, teremos que lançar mão dos ebós que compensarão este problema ao longo de nossa vida. Desta forma, através de Ifá nós determinamos também o que precisamos fazer para prosperar em nossa vida.

Você deve ir a ifá com essas indicações. Quando precisa tomar decisões importantes em sua vida, quando avalia que seus esforços não estão sendo recompensados, etc.. Ifá é o oráculo da vida, do destino, das grandes mudanças e revisões na nossa vida.

Para coisas comuns e normais, problemas no seu trabalho, com seu marido ou mulher e coisas assim, qualquer vidente pode ajudá – lo, talvez melhor do que ifá. Um bom jogo de búzios resolve nossas questões imediatas de vida. Se você tem questões da religião para resolver, coisas ligadas a orixá, obrigações então, o jogo de búzios, definitivamente, é o oráculo indicado.

Mas ifá está aberto a tudo e sempre vai ajudá-lo em qualquer situação, sejam as questões de vida bem como as mais simples.

Anatomia de uma consulta a Ifá

Para evitar decepções ou ansiedades desnecessárias, é importante entender o formato de uma consulta a Ifá, as suas fases. Entender isso permitirá a você tirar melhor proveito da consulta.

A consulta a Ifá é bem diferente das dos demais oráculos que vocês podem estar acostumados, como búzios, cartas ciganas e tarot, por exemplo. Esses últimos são bastante interativos e o olhador vai continuamente falando com a pessoa sobre o problema e a resposta do oráculo. A consulta termina junto com a manipulação do oráculo.


Ifá é muito diferente. A consulta começa após a manipulação do oráculo. Após uma breve abertura com rezas, o Bàbáláwo vai passar um bom tempo interagindo com oráculo determinando várias coisas até chegar nos ebós a serem feitos. Tudo isso é o Bàbáláwo e seu oráculo, sozinhos, sem que ele fale nada com o consulente. Ele poderá usar o consulente para interagir com o oráculo, mas este processo não implica em explicar ao consulente o que está ocorrendo.

Somente após ele concluir toda a interação com o oráculo e já com o ebó determinado é que ele vai falar com o consulente. 
 
Pode parecer estranho mas é assim que funciona. O Bàbáláwo precisa ter o cenário inteiro, composto do odù principal, detalhamento dele e do ebó para poder conversar com o consulente.


Fases da consulta a Ifá:

  • Abertura do oráculo
  • Determinação do odù principal
  • Determinação do estado do odù, tipo do estado e origem
  • Determinação do ebó
  • Explicação e discussão com o consulente sobre a consulta
  • Perguntas complementares do consulente
  • Aconselhamento final e encerramento. 
     
As 3 últimas etapas são as que permitem a interação do cliente na consulta. As etapas anteriores são de trabalho do Bàbáláwo com o seu oráculo. Ele precisa de um conjunto de informações para então poder conversar com o consulente.

Tenha paciência para esperar. Quando ele for conversar com você, então você terá todas as informações e poderá perguntar tudo o que quiser e o Bàbáláwo poderá usar o oráculo para respondê-lo, mas, existe um tempo de preparação que para o Bàbáláwo é rápido e para você pode parecer uma eternidade.

Além disso um Bàbáláwo não usa apenas informações de 1 Odù para falar com você, ele usa informações de, pelo menos 3 Odù. O que ele busca em cada Odù é parte do trabalho dele e para isso ele deve ter conhecimento e experiência. 
 
Interpretar Ifá não é simples e um bom Bàbáláwo leva muitos anos para se desenvolver porque precisa conhecer de muitos assuntos.

A sua conversa com ele é, então, o resultado de todas as informações que ele reúne, do Odù principal até os ebós. Por essa razão um Bàbáláwo não pode sacar um Odù e já ir falando, isso é um erro, se existe. Ele precisa montar um quadro com o que recebe.

O uso de ikin ou opele

Na primeira etapa da consulta o Bàbáláwo deve determinar o odù principal que será analisado, mas ele não é o único que será analisado. Ele é o principal, mas haverão outros complementares. Esta determinação é feita usando os ikins ou a corrente de opele (Ọ̀pẹ̀lẹ̀).

Os ikins são o principal instrumento do Bàbáláwo, eles representam o próprio Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) para o Bàbáláwo. O surgimento dos ikins é explicado no odu Iwori meji. Nele Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) após um desentendimento com um filho abandona o Àiyé. As pessoas depois procuram Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) para que ele volte, mas sem sucesso, Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) deixa então os ikins para representá-lo. Definitivamente esta história não encerra o tema e existem outras.

Muitos poderão observar que se os ikins surgiram após a volta de Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) para o Órun, o que Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) usava para consultar ifá? Eu lembro de ter lido uma referência a serem usados seixos de rio, mas, não posso citar esta referência, não me lembro onde foi e nem se pode ser considerada como válida.

Outra questão teológica importante seria discutir que, se ifá é Órunmila (Ọ̀rúnmìlà, como o próprio Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) consulta ifá? Mas essa conversa vai ficar para o texto sobre teogonia.

Referencias aos ikins em Ifá surgem em outras histórias e outros odu. A tradição cubana, no odu ogunda ika, faz ifá nascer no aiye nas mãos de um bebe que nasce de dentro de um elefante, morto por caçadores, sendo que a criança nasce com cabelos e barbas brancas e com 8 ikins em cada mão. Uma história bizarra como só os pataki conseguem produzir.

Sem nenhuma dúvida os ikins são a mais verdadeira e autêntica representação de Órunmila (Ọ̀rúnmìlà). Podemos dizer que no contexto do Bàbáláwo é a única coisa que representa Órunmila (Ọ̀rúnmìlà. Um Bàbáláwo somente precisa carregar os seus ikins consigo, mais nada.

Posteriormente à criação dos ikins Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) pede a Olódùmarè que lhe dê uma ajuda. O processo de consultar ifá era lento e a demanda das pessoas era muito grande. Olódùmarè envia a ajuda para ele, através de um escravo, de nome Alakan, que Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) compra no mercado e que ao se jogar no chão forma a combinação dos Odù com o corpo. Esta história faz parte do Odù Ogbe Meji. Opele depois trairá Órunmila (Ọ̀rúnmìlà, é transformado na corrente que possibilita consultas mais rápidas, esta história é narrada no Odù Obará Irosun. A história de opele e Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) é muito interessante e será contada em outra postagem.

Nesse caso podemos ter mais uma discussão teológica uma vez que se Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) fica claro nesta história que Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) usava ikins no Àiyé. Fica para outra vez.

Explicado isso, minha opinião é que se vocês vão a Ifá que seja para uma consulta com ikins. Vocês devem requerer isso quando marcar a consulta. Se o Bàbáláwo aparecer com opele (Ọ̀pẹ̀lẹ̀), depois que combinou antes usar os ikins, vocês levantem e vão embora. Os ikins é que são o instrumento principal do Bàbáláwo e a voz de orunmila.

Se o Bàbáláwo for cobrar a mais por isso, vocês podem querer pagar ou não. Lembrem-se que como em todo negócio sempre o que melhor negocia se da melhor. Ele é que está vendendo, você é o comprador, ele está tão ou mais interessado que você, porque a consulta é apenas a porta de entrada para outros negócios que ele vai tentar empurrar para você. Se não quiser pagar a mais digam que não quer pagar nada a mais ou coloque na sua cabeça o quanto está disposto a dar a mais, o Bàbáláwo que decida o que quer fazer.

Uma consulta a Ifá sempre é longa, coisa de 2 horas, e deve ser uma ocasião importante para você. Pode não ser para o Bàbáláwo, mas, para você é um momento importante, ninguém vai a Ifá para tratar de coisas banais, nem mesmo um Bàbáláwo consulta Ifá para ele ou com outro Bàbáláwo se não for um momento importante. Não será o ikin que vai tornar isso mais demorado. Aliás este é um fator importante, se você vai a ifá e sua consulta leva meia hora, então, foi ao lugar errado. Com prática o Bàbáláwo lida bem rápido com os ikins e isso compensa o tempo a mais que vai gastar (e gasta mesmo).

O uso generalizado do opele (Ọ̀pẹ̀lẹ̀) pelo Bàbáláwo é apenas uma grande conveniência. Ele não pode desprezar importância dos problemas dos consulentes. Mas ao lidar muito com o opele (Ọ̀pẹ̀lẹ̀) ele perde a prática de usar ikin.

O opele (Ọ̀pẹ̀lẹ̀) é ótimo em muitas situações. O Bàbáláwo o usa muito, é um instrumento bom, simples e rápido para sacar odù, sem dúvida. Quando se precisa fazer perguntas de sim/não em sequência e quantidade ou quando se vai lidar com consulta a problemas não complexos, decisões e orientações, o opele (Ọ̀pẹ̀lẹ̀) é ótimo. Como eu disse, Ifá suporta a gente nas questões importantes e também nas simples

Entretanto é minha visão que quando a pessoa procura ifá com questões importantes para ela e sua vida que o instrumento do Bàbáláwo deve ser o ikin. Mais do que isso, minha opinião é que o instrumento preferencial do Bàbáláwo é o ikin, deixando o opele (Ọ̀pẹ̀lẹ̀) para casos menores, problemas menores e também para agilizar o seu trabalho. Mesmo em uma consulta com ikin, o opele (Ọ̀pẹ̀lẹ̀) tem seu espaço, mas isso não é assunto para aqui, existe um texto neste Blog sobre isso e um vídeo no canal.

O valor da consulta e de trabalhos adicionais
 
O valor de uma consulta a Ifá está ligado ao mercado disso, o mercado de consulta a oráculos. Para este mercado não existe especialização o que importa é a eficácia, a rapidez que se resolvem problemas. Ifá não é eficaz, é eficiente, com o suporte de ifá você poderá resolver problemas da sua vida e decisões de maneira definitiva.

Não entre na idéia de que tudo que é bom é caro. Uma consulta a Ifá, se bem-feita vai te dar orientações e conselhos. É isso que você está pagando. Um Bàbáláwo não pode almejar ser rico. Ele pode almejar que em função da dedicação que Ifá exige e do prazer e realização que ele sente em fazer aquilo, que Ifá possa sustentá-lo. Todas as religiões sustentam os seus sacerdotes, ser um sacerdote remunerado por este ofício não é nada demais.

Pagar a um Bàbáláwo pela consulta é completamente natural. Os espiritas ( kardecistas ) que são elitistas e arrogantes, além de representarem um embuste ideológico, inventaram que a prática da religião deveria ser caridade, porque é um dom divino. Isso é tão fraudulento e elitista como era o barão de coubertain que criou as olimpíadas modernas somente para amadores (Ele apenas queria afastar, como fez por muito tempo as classes mais pobres da disputa).

Padres são remunerados, monges são sustentados, literalmente pelas comunidades onde vivem.

Ifá exige dedicação e gastos para se manter. Mesmo pessoas que trabalham e são Bàbáláwo precisam cobrar para fazer frente aos seus gastos devido a esta atividade religiosa. O Bàbáláwo tem que periodicamente se submeter a cerimônias e ebós devido ao exercicio da atividade como Bàbáláwo. Lidar com o supernatural, suas energias e os problemas das pessoas transfere para o Bàbáláwo, suascasa e vida energias que devem ser neutralizadas.

Assim, um Bàbáláwo cobra pelo que faz, mas, isso não é um trabalho para ser rico. Se você procura um Bàbáláwo que seja rico ou muito bem de vida em função do que faz, pensem muito bem, porque é você que vai pagar pela gasolina azul dele ( como a gente falava antigamente...).

Não use para Ifá o mesmo raciocínio que usa para médicos, onde quanto mais caro e mais difícil a consulta, melhor o médico é.

se você vai a Ifá de fato, não importa se a consulta custa R$1 ou R$10. Quem fala com você é Órunmila (Ọ̀rúnmìlà). O Bàbáláwo é o intermediário. O divino, Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) vai falar com você tão bem em uma consulta de 1 ou de 10. O que você tem que saber é se aquela pessoa é de fato um Bàbáláwo e se leva a sério o que faz.


Além disso, você pode anotar ou pedir para que sejam anotados os Odù da consulta e os Ebó. Isso é seu, você pagou por isso. Existe um padrão para essa anotação. Você pode levar isso para qualquer Bàbáláwo interpretar para você.

Essa é outra grande diferença entre Ifá e os outros oráculos. Uma vez feita a consulta, qualquer Bàbáláwo pode interpretar e fazer os Ebós. Se você não gostou desse, procure outro para fazer os ebós ou mesmo para que ele interprete para você. Nesse aspecto é igual a médico....você pode levar seus exames para validar o diagnóstico e receitas. Ifá é igual.

Fique atento porque os gastos de uma consulta não se esgotam no valor daquela consulta. Em quase todos os casos haverá sempre um ebó a ser feito, esse é o jeito de ifá. Pode ainda envolver oferendas ou sacrifícios a orixas, mas vou comentar a seguir isso. Nesse momento eu chamo a atenção que, a menos que você não vá fazer o ebó indicado ( ebó de ifa é uma coisa mais simples ) que o ebó vai custar pelo menos o mesmo que uma consulta.

Dessa maneira já vá montando o seu orçamento baseado nisso, você vai gastar no mínimo o dobro do valor da consulta, certamente mais, tudo vai depender do bom senso e ética do Bàbáláwo.

Observem, não estou dizendo aqui que todo Bàbáláwo é aético. Estou dizendo que vocês devem ficar atentos, não existe garantia de virtude. Isso é vida normal, mundo real, tem gente que nem é Bàbáláwo e finge que é.

A questão de ire e osogbo

Este texto não tem objetivo de explicar sobre o conteúdo da consulta e sim fazer recomendações e explicações gerais para quem vai a uma consulta. Mas, mesmo com este sentido não dá para não comentar sobre o estado do odù, devido a alta significância disso na relação de consumo cliente – Bàbáláwo. 
 
Após o Bàbáláwo determinar o odù principal ele deve determinar se ele veio trazendo ire ou osogbo / ibi. 
 
Muitos se referem a esta parte do processo sendo como determinar se ele está positivo ou negativo. Minha visão disso é diferente e vou explicar a seguir. Esta diferença de entendimento, que estou propondo agora, é significativa como um fator importante que afeta a relação consulente-Bàbáláwo. 
 
Como já ocorre no candomblé e com outros videntes, o jogo é apenas a porta de entrada para outros negócios. Vocês nunca devem perder esta perspectiva de negócio que está envolvida porque isso é, de fato, o que determina o resultado de muitos jogos. Entender isso facilita o entendimento do comportamento associado às pessoas nesta atividade oracular.

Não é a expectativa do olhador que o atende (seja ele Bàbáláwo ou outro) que a relação entre vocês se conclua com a consulta ao oráculo. Quem vai a um oráculo é porque tem problemas, não vai ali para bater papo, e o olhador é acima de tudo um profissional para resolver problemas através do supernatural. Para a muitos Bàbáláwos, o que ele faz não é um sacerdócio, bom, também é um sacerdócio (da forma como ele gostaria de se ver), mas sem nenhuma dúvida é uma profissão, ou também um negócio. 
 
O valor da consulta sempre leva em consideração o valor de mercado dela, mas não é com isso que o Bàbáláwo se mantêm. O mais relevante é a perspectiva de fazer novos negócios, de ebós a iniciações, após a consulta (como resultado dela). Isso é igual ao valor do jornal em uma banca de jornal. O valor que a gente paga não deve cobrir o custo do papel. O que permite o jornal ser impresso e circular são os anúncios que ele contém. Também como a TV que é de graça para nós, mas mantida pelos anunciantes. 
 
A gente vê na praça, videntes que dizem que a consulta dele tem um valor mínimo, incentivando assim as pessoas a procurá-lo. De fato, a consulta tem mesmo um valor baixo, na verdade o trabalho de venda dele será sobre o psicológico do consulente em função do que ele vai ver no jogo (sendo criativo ou não). Ele vai trabalhar as ambições e medos do consulente, independente dos problemas (e gravidade) que eles tenha de fato. Afirmo que essas pessoas são boas no que fazem, isto é, induzir as pessoas a gastarem dinheiro em trabalhos com eles e muitas vezes são também muito boas na sua vidência.

Outras inovam, dizem que o valor da consulta já inclui o trabalho posterior. Isso é só marketing. Tomem cuidado.
 
Com o Bàbáláwo não é diferente. 
 
Como eu disse quase toda consulta a Ifá leva a um ebó, claro, existem os casos que pode não ser necessário, mas o normal é ter mesmo e prefiro me dirigir a regra e não a exceção. A questão de ter o ebó é parte da estrutura do oráculo e é perfeitamente normal e esperado.

Devemos, em primeiro lugar, considerar que a consulta a Ifá, feita com o Ikin, já é um ebó. Esta é uma grande diferença entre ifá e outros oráculos.

A origem disto está na teologia explicada no inicio deste texto. Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) é o eleri ipin, o testemunho do nosso destino. Vamos a Ifá para recorrer a Olódùmarè através de Orumilá, quando precisamos de uma orientação em nossa vida para poder cumprir o nosso destino (ou objetivo de vida). Olódùmarè responde através de um odù. O odù não é apenas um sinal ou desenho, os sinais o representam, mas, uma consulta feita com um Bàbáláwo, traz o odù como a energia que Olódùmarè envia para nos ajudar. O odù é o axé de Olódùmarè que desde o momento da consulta através de Orumilá, Exu e principalmente dos orixá se manifestará na nossa vida.

O trabalho do Bàbáláwo é ser o intermediário disso e posteriormente, através do ebó conduzir e manipular este axé para que ele se manifeste em sua plenitude na vida de vocês e não seja perdido. O Bàbáláwo é um intermediário desta operação assim como o são os orixás que se apresentarão para ajudar a pessoa.

Quando Olódùmarè criou o aiye ele sabia que a vida teria interesses mas também dificuldades causadas pelos ajogun e ajé. Ele também sabe que o processo de nascimento pode ter falhas desde a escolha do Ori até a concepção física. Para que as pessoas pudessem superar tudo isso ele criou ifá. Ifá contém a palavra de Olódùmarè através dos seus versos e também os signos através das marcas de odù. Essas coisas transmitem o axé do Olódùmarè para as pessoas, as palavras de ifá rezadas a partir dos versos Invocam ou transportam o axé de Olódùmarè.

Desta maneira a própria consulta, com Ikins, já é um ebó. Por isso é importante o uso de ikin e por isso o Bàbáláwo deve rezar o odu que sai na consulta.

Toda esta explicação teológica é para dizer que não concordo com a visão ou forma de explicar, não importa, que as pessoas usam, inclusive as que se dizem Bàbáláwo, de que um odù traz uma negatividade e por isso o ebó é necessário, sem o que a pessoa ficaria com a negatividade com ela.

Essa visão sempre existiu no candomblé, com os babalorixás tocando o terror com os odu, dizendo que tal odu era terrível, o outro provocava isso ou aquilo, levando às pessoas a crerem que eles, os odù, eram uma coisa ruim que agarrava em você e você tinha que se livrar dela.

Isso continua em Ifá, após sacar o odù o Bàbáláwo deve determinar se ele vem no estado de bênção, ou ire, ou de mal, ibi. Os cubanos não usam a palavra ibi, usam osogbo, que significa que, não é ire. As palavras mudam mas são usadas da mesma forma.
O uso desta interpretação de odù positivo ou negativo visa sempre o mesmo, induzir o consulente a fazer o ebó. Como Bàbáláwo eu digo que você deve fazer o ebó recomendado. O odu e o ebó são uma resposta divina a sua súplica. Não fazer é desperdiçar o axé que Olódùmarè envia para você a seu pedido, uma vez que, se você vai a Ifá é porque pede ajuda.

Apesar disso eu, como todo mundo, sei que o objetivo do vidente, olhador ou Bàbáláwo é que você faca o ebó. Existe uma transação mercantil em curso entre você e ele, e ele não quer de você apenas o valor da consulta, ele quer muito mais. A consulta é uma porta aberta às oportunidades. Esta é uma sombra que não pode ser ignorada nesse processo.
Em função disso é que o entendimento da orientação do odù é importante, porque esta interpretação é o principal motor das ações direcionadas ao consulente.

Cada um deve avaliar no que acredita, o que eu posso fazer é dar a minha visão. Neste sentido minha interpretação é que um odu sempre é positivo porque ele é axé. O problema já está com você, o odu sempre vem para ajudá-lo. Se você não fizer o ebó vai ter desperdiçado o axé. Também não descarto em alguns casos, principalmente em Ire algum desequilíbrio temporário, porque axé demais também atrapalha.

Na minha visão quando o odù vem em ire ele traz bênçãos para você, axé para impulsionar sua vida, ajudá-lo a melhorar, realizar algo, etc... Quando ele vem em ibi (também chamado de osogbo ou ayewo) ele vem para retirar ou neutralizar um mal que o ronda, uma sombra em você, etc... o axé do odù será usado para zerar sua conta, deixá-lo sem a influência da energia negativa ou da eminência de uma situação desfavorável.

Dessa maneira odù sempre é uma energia boa. Ele pode vir para alavancar sua vida ou para retirar a negatividade que já existe.

Minha visão da religião é sempre positiva. Os orixá estão sempre para nos ajudar, para trazer o bem para nós. Eu não mistifico situações, não vejo orixás exigindo coisas, cobrando coisas ou punindo que não os adora. Vivo bem e sem problemas com essa minha visão. A teoria na prática é a mesma, ou melhor, o rito e a teologia são o mesmo.
Assim eu recomendo que não se assustem com essa questão de ire ou osogbo. Nenhum mal foi jogado sobre suas cabeças. Acreditem no oráculo, sigam as recomendações tenham fé em deus e nos orixá. Mas, vocês não precisam de gente prevendo o fim do mundo. Ajam com prudência e fiquem de olho vivo nas espertezas. Depois da consulta decidam o que querem fazer. Se a pessoa que consultaram não passou confiança ou o ambiente que ele está ou que se cerca não é confortável para vocês, não façam nada. Não aumente o tamanho do seu problema.

Decidam com racionalidade o que querem fazer. Não tomem decisões por medo.
Por fim, em anos fazendo Ifá eu posso fazer uma afirmação definitiva, NUNCA, Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) determinou um ebó (Ẹbọ) que aquela pessoa não pudesse fazer. Eu disse nunca.

Já atendi pessoas que não tinham condição de fazer nada e Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) nada pediu. Algumas vezes pediu orações, ou trouxe o Odù já manifestado. Eu nunca me preocupo com o que Ifá pedirá no ebó (Ẹbọ) porque sei que SEMPRE é algo que o consulente pode fazer.

Se você vai a um Bàbáláwo e o resultado é algo que você não vai poder fazer, vai ficar sem dinheiro ou ele diz para você vender coisas ou se endividar, aconselho a se levantar e ir embora.

O uso de ìbò

A questão do uso de Ìbò é um pouco técnica e mais profunda e não sei se todos vão compreender, mas, é importante comentar.

Uma das coisas que mais torna ifá um oráculo interessante para o consulente é o uso dos ìbò (ibô). Os ibô são objetos que o Bàbáláwo coloca em ambas as mãos do consulente e este os embaralha colocando cada um e uma mão mas escondidos do Bàbáláwo, que não deve saber em qual mão está cada Ìbò. O objetivo deles é servir para responder as dezenas perguntas de sim ou não que surgem durante a consulta. 
 
Um dos objetos significa SIM e o outro significa NÃO. A cada pergunta os objetos são novamente embaralhados. O Bàbáláwo define às cegas qual a mão o consulente deve abrir e, em função do conteúdo da mão, o tipo do ìbò, a pergunta será respondida com SIM ou com NÃO. O que o Bàbáláwo faz é usar os ikins ou opele para, através da ordem de senioridade dos odu determinar que mão deve ser aberta. O ìbò determina a resposta., mas, o Bàbáláwo não sabe a resposta antes da mão ser aberta.

Observem que é um trabalho colaborativo. Ifá diz ao Bàbáláwo qual mão deve ser aberta. Porém foi o consulente que colocou sem a ciência do Bàbáláwo, o ìbò que determina SIM ou NÃO. A resposta é o resultado do trabalho de ambos.

Chamamos isso de interação entre o oráculo e o Orí do consulente. Usando dessa maneira o Bàbáláwo não pode manipular as respostas, mas, acima de tudo o consulente participa do oráculo.

Os tipos de objetos são trocados de acordo com o tipo de pergunta, normalmente o objeto que significa NÃO é o mesmo, o que vai significar o SIM em cada pergunta é que muda. O objetivo do uso disso é fazer com que o oráculo interaja com o Orí com consulente, seu orixá individual e protetor. 
 
Existem Bàbáláwo que estão deixando de usar isso. Existe uma forma de fazer o processo sem o ibô, que o Bàbáláwo emprega quando está sozinho ou jogando para ele mesmo. O que noto e que esta simplificação acaba atraindo as pessoas. Veja, já é uma simplificação usar o opele (Ọ̀pẹ̀lẹ̀), será uma maior ainda você dispensar o ibô. Claro que as pessoas têm explicações para isso, mas racionalizar é um processo fácil. O complicado é fazer o que deve ser feito.

Minha opinião é que o uso do ìbò é uma segurança e evita que o Bàbáláwo invente o que fazer e crie problemas que não existem. Além disso é uma forma do consulente participar da consulta.

A escolha de ebós e oferendas
            
Após o Bàbáláwo ter determinado o tipo e origem do estado do odù, ele parte para definir o ebó. Esta definição pode variar entre tradições, escolas e ramas, mas basicamente passa por determinar primeiro os elementos que serão necessários no ebó de ifá e se além disso será necessária alguma oferenda para uma ou mais divindades que se apresentarem para te ajudar.    
 
O ebó de ifá é feito em cima do opon (Ọpọ́n Ifá) , o tabuleiro de ifá e é um processo composto de muitas rezas. A quantidade de elementos é bem menor do que comparado com o que se faz no candomblé e sua preparação bem mais simples.

As oferendas para divindades são convertidas em axé para você, orixá não come, quem come é seu corpo. Mas existe também o caso onde a oferenda é usada para aplacar ou afastar ajoguns ou ajés. Essas oferendas podem ser comidas votivas ou animais. Não existe regra, cada caso é um caso.

O grande problema nesta fase é o exagero. As pessoas pecam pelo excesso, assim, em vez de oferecerem pouco ou o mínimo necessário, iniciam oferecendo muito e fazendo questão de incluir animais. Não existe erro se a oferta é feita e o oráculo aprova. Contudo poderia também ter aceitado muito menos.

As coisas que alertei no assunto anterior, sobre os estados de Ire ou Osogbo e a forma de ver isso, interpretar isso e explicar isso ao cliente repercute aqui. Sem dúvida serão os "graves" casos de osogbo de determinarão muitos ebós e com muitas coisas. Por isso que expliquei a questão da orientação do Odù,

O que esta envolvido em grandes oferendas é sempre a mesma coisa, o vil metal, o dinheiro. Custa mais em material e custa mais na remuneração pelo serviço de executar aquilo. Quanto mais pessoas envolvidas, mais dinheiro. Ifá é diferente do candomblé neste aspecto. No candomblé as pessoas trabalham para a casa de forma que sempre a casa é quem recebe. Em Ifá no modelo cubano, não tem essa de casa e egbé. Cada um que vai la recebe para isso.

Eu digo que você deve fazer o que o oráculo indica, nem mais nem menos. Entretanto, dosar o que vai ser oferecido para aprovação é que são elas. Como eu alertei antes, toda vez que tem dinheiro envolvido você deve ficar atento. Isso, o dinheiro, muda tudo.
Na hora de determinar o ebó eu penso que sempre se começa com o pouco. 

Gradativamente se adiciona e uso de animais somente em último caso. Não que eu seja desses preocupado com animais, não sou, minha preocupação é com o consulente.
Não faça ebó como falta de opção. Faça se quiser e se confia na pessoa. Você pode desistir a qualquer momento.

A minha recomendação mais importante e valiosa é esta: se um ebó deu certo não adianta voltar lá pedindo um reforço. Não adianta fazer mais ebós ou fazer ebós maiores e mais complexos. Você não ganhará mais por isso. O ebó funciona na medida certa do que tem quer ser. Também traz o resultado certo que tem que trazer. Seria muito fácil se fosse assim, quanto mais ebó mais resultados, todo Bàbáláwo e babalorixá seria rico.

Uso de estórias na interpretação

A coisa mais importante em Ifá são as histórias dos odu. Elas são que tem as mensagens para o consulente. A consulta será tão boa e precisa quanto o Bàbáláwo se dedicar explorar e entender as estórias.

Você poderá encontrar Bàbáláwos que não se preocupam com as estórias. Isso ocorre porque nos tratados cubanos existem 2 tipos de informação. Existem uma série de pré – interpretações associadas a cada odu. Muitas pessoas se preocupam apenas em aprender isso fazendo que a consulta com elas fique muito objetiva. Os odus saem e elas já saem dizendo o que é o problema e, com suas respostas elas vão ajustando a interpretação delas. Como o ebó já foi tirado ela só precisa equalizar com você uma situação que você concorde, ai acabou.

Esse formato é igual ao dos babalorixás de candomblé. Eles fazem consultas com búzios de 15 minutos.

Mas ifá não é assim, ou melhor, não deve ser assim.

Você deve ouvir as estórias e interpretá-las junto com o Bàbáláwo associando as estórias a sua vida. As boas histórias deixam lições importantes para você. Acima de tudo o próprio consulente é quem analisa se aquela estória se encaixa na vida dele. O Bàbáláwo, através da visão do consulente sobre a estória consegue captar o que aflige aquela pessoa, quais são seus temores e os valores que ela tem.

A estória permite você avaliar sua vida e seu comportamento, suas ações e realizações. Ao se espelhar nos personagens e situações, você tem a oportunidade de fazer uma auto – avaliação. 
 
A percepção deste conjunto de coisas permite ao Bàbáláwo entender de fato a origem dos problemas do indivíduo. Ajudá-lo a entender a origem é o que permite a essa pessoa corrigir sua vida. As pessoas não conseguem por si só ver essa causa raiz. Elas veem os problemas que tem como uma conspiração da vida e das pessoas ao seu sucesso. Elas buscam no jogo alguém que, então, resolva esses problemas com ela, esses problemas que não são dela e que estão atrapalhando sua felicidade.

O Bàbáláwo de verdade estará em uma consulta sempre de olho nas causas raiz, buscará aquilo que Ifá tem a falar aquela pessoa e que está ligada ao destino dela. Por isso que eu digo que teologia é importante. Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) é o eleri ipin, o testemunho do nosso destino, o que ele tem de relevante a falar para nós esta ligado a isso e é esta característica que personaliza ifá. 
 
As pessoas vão a Ifá com um problema, mas, na consulta, ifá vai falar o que é importante para você saber. Depois o Bàbáláwo endereça o seu problema, mas, Ifá diz as pessoas aquilo que elas precisam ouvir para serem felizes e realizar o seu objetivo de vida.

O Bàbáláwo que em vez de focar nisso se ocupa com o imediato, não realiza a sua função como representante de Órunmila (Ọ̀rúnmìlà. Esse viés de interpretação é objetivo mas não é um bom ifá. Para fazer isso vá a um jogo de búzios ou cartas que eles vão ser até melhores.

Bàbáláwos determinando orixá em jogo.

Não tem nada pior, mais idiota e baixo do que Bàbáláwo que se mete a, em consulta a Ifá, dizer orixá e coisas de orixá, seja para abiãs como iniciados. Isso é um hábito ruim, sem ética e desprovido de fundamento.

Isso sempre foi feito pelos olhadores de búzios, babalorixás ou não. Nunca prestou para nada, sempre foi motivo de piadas e sempre foi baseado em arquétipos. As poucas vezes que alguém acertava era apenas coincidência. O objetivo disso sempre foi comercial. O olhador busca através disso, da determinação de orixá, de pegadas que permitam a ele prender o interesse do consulente, fazer ele voltar e comprar mais coisas dele. Orixá sempre é um gancho muito bom, as pessoas adoram, igual horóscopo.

A pessoa vai para uma simples consulta de búzios e já sai dali com orixá, qualidade e juntó. É mole? Ninguém com 3 neurônios pode acreditar nisso. Para que a feitura? Para que os ritos de feitura? Quem passa por uma feitura ou participa entende facilmente a bobagem que é essa coisa de orixá em jogo. Falo de feituras de verdade, não essa coisa de 7 dias.

No caso de ifá o que mais encontro é Bàbáláwo que não sabe nada de orixá, dizem que sabe, falam que sabem, acham que sabem, mas acreditam que só porque virou Bàbáláwo se transforma automaticamente em especialista. Especialista de coisa nenhuma. Alguns são pessoas que podem até ter convivido em uma casa de candomblé visto e aprendido alguma coisa ou até bastante, mas, não eram e não serão babalorixás. Não adianta se comportar como um babalorixá frustrado, e como Bàbáláwo querer fazer aquilo que cabe a um babalorixá de direito e com propriedade para lidar com isso.

Outros, nunca foram de candomblé, nunca conviveram em um terreiro. A pessoa entra pela porta lateral de ifá, sem saber nada, é instruído em algumas coisas de lukumi e passa a se achar alguma coisa. Inicialmente eu digo que o lukumi está mais para uma umbanda omoloko melhorada do que para um candomblé, mas isso é apenas minha opinião idiota. 

Os cubanos não podem responder a isso porque eles não conhecem nem candomblé, nem omoloko e muito menos umbanda. Assim eles nem sabem o que eu estou falando.
Contudo aceito que pessoas antigas de lukumi, cubanos nascidos e feitos nesta tradição conheçam orixá, do jeito deles, mas conhecem. Os ritos lukumi são muito sérios e é uma tradição de orixá com história e esás.

Entretanto, brasileiros que entram com o bonde andando, sem formação e experiência nada sabem de nada. Não se pode comparar um lukumi que cresceu dentro disso e um brasileiro que cai de paraquedas nisso.

Essas pessoas, brasileiros, não conhecem nem o lukumi e muito menos o candomblé, fazem o mesmo que o pessoal de umbanda que vai para o candomblé faz, mistura uma coisa com a outra e sai tocando como se fossem gente de verdade.

Dessa forma cuidado ao darem ouvidos a Bàbáláwos quando se trata de orixá. Não é a praia dele.

Assentamentos e iniciações

A última orientação que eu posso dar é relação a assentamentos e iniciações.
Cuidado ao receber como indicação de ifá que você tem que ser iniciar, que Ifá te da caminho ou que a solução de seus problemas passa pela iniciação. Isso é só armadilha, ou, pelo menos, uma interpretação criativa. Os tratados estão repletos de indicação de iniciações, poucas são as sinceras.

De fato, existe muito pouca contraindicação a uma pessoa ser iniciada, praticamente qualquer pessoa pode ser. Entretanto é uma liturgia que vai custar 20 vezes ou mais o valor de uma consulta ou ebó, dessa forma, mexe muito no bolso das pessoas e isso abre os olhos do Bàbáláwo.

Nesse ponto é onde o Bàbáláwo mexe com a vaidade da pessoa. Ele diz para o cara que Ifá do caminho a ele, que Ifá o quer ou que ele somente vai resolver a vida dele se ele se iniciar. A pessoa se enche de vaidade, como se aquilo fosse fato e fica cego para o óbvio, está sendo enrolado.

Pessoas se iniciam sem saber o que querem com isso ou o que fazer com isso. Pessoas se iniciam sem saber o que serão beneficiadas com isso. Pior ainda, pessoas se iniciam sem saber se vão aprender alguma coisa. Pessoas que não devem fazer parte de ifá, como homossexuais e mulheres se iniciam para satisfazer seu ego criando uma mentira para elas mesmas.

Quem ganha com isso é apenas o Bàbáláwo. Você só perde.

Cuidado também com assentamentos.

Os tratados cubanos estão recheados com recomendações de receber assentos de orixá, Exu e egun. Tudo se reverte à necessidade de receber um assento. A origem disso normalmente está em uma história na qual determinado orixá atuou e resolveu algo, dessa maneira isso é a interpretado como a indicação de ter um assento da divindade é extremamente importante.

O lukumi é uma tradição sem muita ênfase em incorporação. Eles iniciam as pessoas em 7 dias e não tem o conceito de terreiro. Assim, de fato, incorporar não é o forte, acaba reservado para os mais antigos. Tem também o conceito de que quem incorpora na pessoa é um egun e não o orixá. Neste contexto assentos ganham muita ênfase. Eles adoram fazer e dar assentamentos. Veja, não entro no mérito de isso ser bom ou errado, se valem para alguma coisa ou não. Digo que isso faz parte da cultura religiosa deles.
Nos tratados de Ifá cubano, distribui-se assento por qualquer motivo. Mas, essa distribuição não é gratuita, custa mais dinheiro.

No candomblé a visão é muito distinta, assentos são chamados de igbas e somente iniciados recebem. Ficam guardados no terreiro e não fazem parte do dia a dia da pessoa, são relíquias, representações no aiye do orixá, que no candomblé, na teoria e na prática, é orixá mesmo e não um egun. O candomblé entende que o iniciado é o assentamento vivo do orixá e este, junto com o ori e o terreiro são sua proteção. Desta forma a ênfase é no processo de iniciação e não em Igbas.

Não existe no candomblé o hábito de fazer assentamentos para não feitos, para consulentes. Até mesmo para os iniciados, receber um igba é uma coisa muito importante e reservada para obrigação. É considerado um grande momento de transmissão de axé. O Igba é considerado pelo Candomblé uma transmissão de axé para a pessoa com a ligação da pessoa ao axé da casa,

O processo de elaboração dos igbas do candomblé e dos assentos lukumi é muito distinto, o do candomblé é personalizado e profundo nas pessoas que participam profunda mente da sua elaboração, no lukumi é quase um objeto, você recebe sem nem ter visto ele ser elaborado, quando chega, está lá, pronto.

Enquanto no candomblé não existe sentido um igba longe da pessoa devido a ligação visceral entre pessoa de igba, do lukumi e consequentemente no ifá cubano, você aluga ou empresta o uso de assentamentos e tem até o caso de pessoas que roubam assentos de outras. Isso no candomblé é impensável por concepção.

Desta forma a visão de assento e igba são muito diferentes. Mesmo o chamado santo lavado no Candomblé, que tem uso restrito, mas se assemelha um pouco ao assento lukumi, por ser dado a pessoas não iniciadas é completamente visceral com a pessoa que o recebe. 
 
Mas, vou repetir, não estou questionando o que ou como o Lukumi faz suas coisas. O Lukumi é uma tradição legítima da religião Yoruba. O que estou fazendo é destacando algumas diferenças básicas entre como uma tradição vê uma coisa e como outra tradição vê essa coisa.

Estou buscando explicação do motivo da distribuição de assentamentos como uma prática adota no Lukumi e sem paralelo no Candomblé.

Apesar de eu falar de lukumi e candomblé, entendam que tudo o que se refere a lukumi está ligado a Ifá. Cuba é uma ilha pequena. Não existe muita variedade em nada. O ifá cubano usa o que o lukumi faz e no que diz respeito a orixá segue exatamente a mesma coisa.

Por essa razão é comum e normal encontrar nos tratados cubanos a recomendação de elaborar assentamentos para a proteção dos consulentes. Isso decorre de uma prática religiosa deles e de uma forma de interpretar o oráculo.

Mas como tudo em ifá é muito bem pago o problema disso está na cobrança que será feita para a elaboração dos assentamentos, afinal, nada é de graça em Ifá. Receber um assento é mais um vetor de aumentar a receita do Bàbáláwo.

Não caia nessa, você foi para uma consulta, não se envolva demais com aquela pessoa. O que você busca é ouvir os conselhos de ifá e fazer o ebó para se aproveitar do axé de Olódùmarè. Não faça nada além disso, não compre nenhum assentamento. 
 
Interpretar que em função de uma história que é usada para entender o Odu, em função do papel exercido por um orixá na história você tem que ter um assentamento dele é um excesso de criatividade mercantil. Considere ainda que os cubanos inventaram essas histórias com orixás como personagens.

Nos versos originais, normalmente os personagens são pessoas diversas, algumas que surgem apenas naquela história, mas, também aparecem Orixás. No cubano, todos os personagens são Orixás e são mostrados cometendo as maiores barbaridades, porque eles assumem o papel dos certos e dos errados.

Não vejo como natural a interpretação que indica dar um assentamento de orixá.
Sua relação com ela é de consulente-Bàbáláwo, não mude isso com facilidade. Você vai a esta pessoa para resolver assuntos e ter orientações não para virar afilhado ou filho de santo. Mantenha o foco na sua vida e os problemas que foi resolver.

Meu conselho é o seguinte: Nunca faça assentamentos. Nunca faça iniciações porque foram recomendadas em jogo.

Nesses muitos anos, NUNCA, nunca, eu tive que dar qualquer tipo de assentamento para uma pessoa e muito menos fazer iniciações. Considerando os problemas que eu ajudei as pessoas a resolverem, considero que isso é desnecessário e que esses assentamentos que cubanos e africanos fazem são apenas PLACEBOS para ganharem dinheiro e terem um cliente cativo.


Indicação de iniciação

Atualmente, nada pior do que Babalawo que na primeira consulta da pessoa diz que Orunmilá esta dizendo que a pessoa precisa de iniciar.

Igual no Candomblé, fisga a pessoa pela vaidade, a pessoa se acha iluminada e bastou sentar ali para Orunmila chamar ele para Ifá.

Sério, você vai acreditar nisso?

Acredita?, tá então pergunta para o Babalawo se, como é orunmila que esta dizendo isso, se ele vai ter iniciar de graça.