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quarta-feira, janeiro 13, 2021

O Égbé (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run) e os Àbíkú - A visão de Alex Cuoco [ Entendendo a religião Yoruba - Pt. 42]

 

A visão de Alex Cuoco

 

Alex Cuoco é um brasileiro que foi viver ainda jovem nos EUA. Ele publicou um livro excelente chamado “African Narratives of Orishas, Spirits and Other Deities”. É um equivalente ao livro do Prandi, “Mitologia dos Orixá”, mas o Prandi mistura muito no seu livro, ele inclui patakis cubanos e isso deturpa muito o que ele mostra.

O livro do Alex Cuoco é bem extenso, são quase 1.000 páginas, mas, contém bastante texto e Òrìṣà (Orixá). Neste livro ele tem muitos mitos sobre Àbíkú e um resumo no final. É sobre o que ele sintetizou em seu resumo que vou descrever a seguir, visto que é um resumo dos diversos mitos que estão no livro.

Segundo Alex, os Àbíkú são um fenômeno comum entre diversos povos da mesma região. Os yorùbá, Akan, Nùpe, Ìgbò, Hausa e Fante acreditam na mesma coisa. De fato existe um compartilhamento de crenças religiosas por povos desta região que, mesmo sendo de culturas diferentes e tendo cultos religiosos distintos, possuem muitas crenças em comum.

Eles acreditam que os espíritos Àbíkú residem em áreas desabitadas, florestas e áreas arborizadas, principalmente em torno de árvores de Ìrókò. Os Àbíkú ficam em trânsito entre o órun (Ọ̀run) e o Àiyé permanecendo por pouco tempo na terra.

Os Àbíkú fazem parte de uma sociedade chamada “Égbe (Ẹgbé) Ará órun (Ọ̀run)” que tem meninos e meninas e, cujos garotos, são liderados por uma deidade chamada Iyàjanjàsá e, as meninas, são chefiadas por uma deidade chamada Olóìkó. Contudo foi Ọlọ́fin Aláwaiyé aquele que trouxe eles para dentro do mundo pela primeira vez para a cidade de Awaiyé, em um grupo de 208 Àbíkú. É em Awaiyé que pode ser encontrada a floresta sagrada do Àbíkú onde os pais dos Àbíkú vão fazer suas oferendas de maneira a manter suas crianças no mundo. A cidade de fato existe.

Seguindo os textos bases, os Àbíkú vão do órun (Ọ̀run) para o Àiyé e declaram para Oníbodé suas intenções o tempo que ficaram no mundo (curto). Eles prometem a seus companheiros retornar independente dos esforços que seus pais façam para eles ficarem.

Quando o tempo de partida chega seus companheiros vão para o Àiyé para lembrá-los de suas promessas. No Àiyé os companheiros residirão em áreas como pântanos, rios, os muros das casas onde moram seus companheiros renascidos, nos banheiros das casas e nos quintais. Os quintais são os lugares preferidos porque é neste local que os yorùbá enterram as placentas depois que são colocadas em um jarra chamada de Isásùn a qual é coberta com folhas de palmeira e búzios. É a partir desses lugares que esses emissários chamam seus companheiros renascidos para voltar para casa ou ficam atormentando os que decidiram ficar.

O pacto entre os membros do egbe (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run) é bem sério e os Àbíkú que não renasceram farão de tudo para que ele seja comprido. Existe a capacidade dos pais, através de Ifá, fazerem o alma do filho de romper com essa sociedade e a alma pode, assim, se libertar desse ciclo de vidas curtas. Uma vez feito isso eles nunca mais serão importunados pela sociedade egbe (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run).

Como parte do pacto o Àbíkú renascido deve compartilhar aquilo que ganha com seus companheiros, desta forma, uma criança Àbíkú sofrerá de mal-nutrição, porque, o que come, será compartilhado entre seus companheiros. Os companheiros manterão contato com o renascido continuamente para que esse não esqueça de sua promessa. Os companheiros surgem em sonhos e poderão causar acidentes e doenças.

O Ṣáworo é um recurso usado para afastar os companheiros, trata-se de um cordão com um guizo amarrado, que é colocado no calcanhar das crianças e este barulho afasta os Àbíkú. O mesmo é considerado para roupas vermelhas. Além deste tipo com guizo, o Ṣáworo pode ter outros modelos. Muito anteriormente era feito com búzios, depois passou a ser anéis de ferro, mesmo se o guizo. Este modelo de apenas um anel de ferro, na verdade mais de um que fazem barulho quando a criança de move é, possivelmente o mais tradicional e conhecido.

Um recurso mais desesperado das mães é fazer pequenas incisões na pele da criança e esfregar pimenta para causar dor ao Àbíkú e eles deixar o corpo da criança. Nesse caso é considerado que o espírito Àbíkú reside no corpo da criança junto com a alma verdadeira e, desta forma, poderia ser expulso.

Quando uma criança Àbíkú morre é dado um péssimo tratamento para o corpo. Existem casos no qual ela não é enterrada, sendo deixada na floresta para apodrecer. Outras é enterrado em florestas distantes da casa dos pais. Ainda existe o hábito, como descrito no texto do Salami de mutilar o corpo da criança e a mãe invoca maldições e pragas para aquele Àbíkú, antes de enterrá-lo. Eles acreditam que o Àbíkú ficará com medo da mãe e não voltará assim como o corpo mutilado não atrairá mais. Também acredita-se que o corpo do próximo nascido poderá ser pesquisado se tem as mutilações que foram feitas no anterior, como também descrito no Salami.

 

 

... CONTINUA ....

quarta-feira, janeiro 06, 2021

O Égbé (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run) e os Àbíkú - A visão de Ayo Salami [ Entendendo a religião Yoruba - Pt. 41]

 

A visão de Ayo Salami

 

O Bàbáláwo Ayo Salami em seu livro “The Man & the Society” o qual eu recomendo que seja lido, assim como outras obras do mesmo autor que tem volume e qualidade de informação. Salami chega bem próximo da visão que eu entendo ser a mais coerente e ele traz confirmações importantes sobre minhas teses.

Eu não vou transcrever o texto dele, vou destacar o que ele traz de informação e o que eu vou listar está desta exata maneira no texto dele.

Salami reconhece que os Àbíkú não residem no órun (Ọ̀run) e desta maneira a dita sociedade egbe (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run) também não está no órun (Ọ̀run). Salami diz que o Àbíkú residem no espaço intermediário chamado de Ìrònà, e é deste espaço que os Àbíkú saem e voltam entre o o Àiyé. No Ìrònà eles formaram uma sociedade de iguais com suas próprias regras. É nesse mesmo espaço, o Ìrònà que residem a ajé (Àjẹ́).

Ele diz que hoje em dia o mito dos Àbíkú se misturou com o próprio entendimento da medicina, de modo que muitas mortes de crianças podem, de fato serem atribuídas a doenças e condições ruins de higiene, contudo, uma coisa não exclui a outra. Um Bàbáláwo tem que ter a capacidade de distinguir uma coisa da outra.

O grande destaque da sociedade egbe (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run) é de fato os Àbíkú. Àbíkú é uma palavra que significa “aquele que nasce para morrer”.

A característica de Àbíkú é nascer muito cedo, não necessariamente no parto e não necessariamente quando bebe ou criança. Um Àbíkú pode sim crescer e morrer mais velho, tudo depende do acordo que ele fez para o seu retorno.

Assim a visão no Candomblé que pessoas que sofrem aborto ou crianças de morrem durante o parto como sendo Àbíkú é errada. Abortos e mortes dentro do útero deve ser associados a atuação de ajé (Àjẹ́) e não de Àbíkú. Idem durante o parto. Um Àbíkú tem que nascer e para nascer não basta sair do útero, ele precisa respirar e cortar o cordão umbilical.

Salami afirma que a missão dos Àbíkú é causar sofrimento aos seus pais, mas a determinação da duração de sua vida e variável. O que é sempre forte é sua ligação com seu grupo que fica no Ìrònà.

A manutenção de um Àbíkú no Àiyé é bem difícil e não depende de recursos médicos, isso é trabalho apenas para um Bàbáláwo. Existe um ditado yorùbá que diz “Àbíkú sọ olóògùn dèké” que significa, os Àbíkú transformam a medicina em uma mentira. Não haverá solução para um Àbíkú que quer morrer.

Salami nos oferece sua versão para o verso do Odù Ọ̀ṣẹ́ Ògúndá, que é considerado o principal Odù ligado a Àbíkú. Mais uma vez, se quiser entender a religião tem que ler as histórias.

Eu sublinhei umas passagens importantes da história.

Um rei em particular cujo título é Oniki na cidade de Ìkilà estava sob o terror de Àbíkú. Ele tivera muitos filhos do que qualquer pessoa na cidade, mas nenhum deles sobrevivera. Quase todas as crianças morreram em seu primeiro dia na Terra; aquele que não morreu no primeiro dia morreu durante sua cerimônia de nomeação. Muitos morreram quando começaram a falar; a situação era tão ruim que ele consultou curandeiros. Eles tentaram tudo ao seu alcance, mas foi em vão. Apesar de todas as mortes, o rei não perdeu as esperanças. Quando a próxima de suas esposas ficou grávida, ele resolveu consultar Ifa. Ele pediu a Bàbáláwo que viesse e divinasse para ele. É por causa de Àbíkú que você chamou essa adivinhação, disseram a ele. Sim, ele respondeu em afirmação, sentando-se ereto na beira de sua cadeira. Então você tem que oferecer sacrifício a Ògún para que ele te deixasse; é apenas um Àbíkú que vem e vai, mas desta vez, qualquer um que vier até você não poderá retornar, concluíram os Bàbáláwo.

A princípio, o rei perguntou cinicamente que conexão havia entre Ògún e Àbíkú;

“- como esses dois estão conectados e qual é a função de um no outro?” Ele se perguntou.

Mas de alguma forma, ele foi persuadido a oferecer o sacrifício, o que ele fez. Enquanto isso, na casa de Oniki, havia um caçador itinerante particular que estava peregrinando com o rei: seu nome era Ọdẹ́bíyìí. Ele chegou por volta de quando o rei pediu a divinação. Seu método de caça era ir para as florestas profundas, fazendo um acampamento escondido no topo de uma árvore de onde ele pudesse veja todos os animais vagando para fazer um bom tiro.

Alguns dias após a oferta dos sacrifícios pelo rei Oniki, Ọdẹ́bíyìí foi para as florestas profundas como de costume, escondendo-se no topo de uma árvore. Quando estava prestes a cochilar, ouviu algumas vozes humanas abaixo. Furtivamente, ele estendeu o pescoço para saber o que estava acontecendo e ver quem estava falando. Ele viu um ser estranho que parecia uma mulher; ela tinha dezesseis seios e sentou-se em uma esteira preta que apareceu do nada. As criancinhas ao seu redor começaram a falar uma após a outra. Um diria que estava indo para a casa de Alárá, o outro diria que estava indo para a casa de Ajerò, outro para a casa de um rei na antiga cidade de Ìwó. A missão deles era roubar da respectiva casa para trazer de volta à sua sociedade. Mas um em particular atraiu a atenção da Ọdẹ́bíyìí; ele o ouviu dizer: Estou indo para a casa de Oniki. A esposa faria o parto hoje e eu entraria no útero para nascer em troca. Mas eu não ficaria por muito tempo antes de desejar que meus companheiros viessem para mim e me levassem de volta. Quando seria a hora? O estranho ser com dezesseis seios perguntou. Deve ser quando a primeira lenha que vai ser usada para fornecer calor para a mãe e o bebê queimar até virar cinzas. Mas se eles não permitirem que eu volte então, como todos vocês sabem que os humanos são cheios de truques que podem contornar meu objetivo, seria quando eu crescer até minha altura chegar ao topo da porta inferior; mas se as duas opções falharem, então vocês, meus amigos, devem vir e me levar de volta por qualquer método disponível para vocês.

Ọdẹ́bíyìí estava dentro do acampamento, observando tudo o que diziam como se estivessem encenando uma peça. Embora assustado, ele não disse uma palavra, nem fez qualquer movimento para despertar suas suspeitas. O Ògún a quem o rei ofereceu sacrifício não os fez perceber que havia alguém ouvindo tudo o que diziam. Logo após a última de suas deliberações, como um flash que vieram, todos eles desapareceram na colina de molde atrás da árvore sobre a qual Ọdẹ́bíyìí estava posicionada. Ele demorou para ver se viria mais alguma, nenhuma veio e já era tarde. Ele furtivamente desceu do topo e saiu da floresta na ponta dos pés. Alternando caminhada e corrida, ele deixou a floresta e assim que chegou aos arredores do palácio ouviu gritos de alegria. “- Que este fique com você”. “- Este não morrerá, ele pagara por todos aqueles que morreram anteriormente“. Parabéns Káábíèsí!. “- Este é o próximo rei visto que é um menino”. Os visitantes estavam chegando da esquerda e da direita.

“- Que tipo de coincidência é essa?” Ele se perguntou em voz alta. Ọdẹ́bíyìí entrou e rapidamente chamou a atenção do rei Oniki. Káábíèsí,

“- posso falar com você por um momento, por favor?”

“- Sobre o quê? “ Perguntou o rei.

Ọdẹ́bíyìí contou sua história ao rei, que ficou surpreso ao ouvir uma história que nunca tinha ouvido na vida.

De acordo com a sugestão de Ọdẹ́bíyìí, o rei ordenou que incontáveis toras de madeira fossem fornecidas para a mãe lactante, para que o fogo não se apagasse. Ele também ordenou que a porta que separava a câmara interna da sala fosse reconstruída para permitir que um adulto crescido passasse sem que sua cabeça tocasse o topo.

E assim a vida continuou na casa de Oniki; passou o medo de que a criança morresse no primeiro dia na Terra; a cerimônia de nomeação foi feita sem nenhum obstáculo (ao contrário das outras crianças que geralmente morrem na cerimônia de nomeação) e a criança foi chamada de "Mọ́lùmọ”. “- Oh, talvez ele tenha adiado sua morte para quando pudesse falar”, o rei se perguntou ; apreensivo, mas esperançoso sobre a criança que não tinha morrido.

À medida que Mọ́lùmọ crescia, o rei percebeu que ele ficaria na porta, na ponta dos pés, tentando ver se sua cabeça tocava o topo.

“- Então é verdade!” disse o rei para si mesmo.

Ele ordenou que a porta fosse completamente removida. “- Quando não houver porta, eu quero ver o que sua cabeça tocaria".

Passado o tempo que ele combinou com seus companheiros de seu retorno, os companheiros resolveram ir pegá-lo sozinhos. E foi assim que eles se reuniram em sua multidão e se dirigiram para a casa de Oniki.
Ao chegarem ao pátio, no meio da noite, eles irromperam em uma canção patética dizendo:

Mọ́lùmọ

The child of Oniki

Mọ́lùmọ

I call you again

You are the child of Oniki

Why did we not see you again?

Mọ́lùmọ ouviu a canção e respondeu de dentro da casa:

sou Mọ́lùmọ
O filho de Oniki
Eu sou o próprio Mọ́lùmọ
O filho de Oniki
Eu deveria ter ido antes desta hora
Meus companheiros
Ọdẹ́bíyìí o caçador foi aquele que me impediu

Os companheiros tentaram tudo o que podiam: causar confusão na casa de Oniki na esperança de causar a morte de seu companheiro, mas o sacrifício que os Bàbáláwo ofereceram no início neutralizou todos os seus esforços. Quando não conseguiram, eles partiram para sua residência e não vieram incomodar Mọ́lùmọ para sempre. E então ele se tornou uma criança sobrevivente de Oniki.

Eu marquei os seguintes trechos e vou comentar:

morreram em seu primeiro dia na Terra; aquele que não morreu no primeiro dia morreu durante sua cerimônia de nomeação. Muitos morreram quando começaram a falar;

Conforme já disse a criança precisa morrer para depois nascer. Existem outras histórias de Àbíkú onde a criança morre no dia do seu casamento. Desta maneira, não é verdade a crença de Àbíkú morra sempre jovem, bem como não é verdade que morra no útero.

a situação era tão ruim que ele consultou curandeiros. Eles tentaram tudo ao seu alcance, mas foi em vão.

Médicos não salvam.

sacrifício a Ògún

De acordo como encontro nos versos de Ifá, diversos inrumolé (Irúnmọlẹ̀) estão envolvidos na salvação de Àbíkú. Órunmila (Ọ̀rúnmìlà), sempre está, mas Ògún e iroko também podem estar envolvidos assim como Xangô (Ṣàngó).

Estou indo para a casa de Oniki. A esposa faria o parto hoje e eu entraria no útero para nascer em troca. Mas eu não ficaria por muito tempo antes de desejar que meus companheiros viessem para mim e me levassem de volta.

Vou abordar isso em outro lugar, mas, de acordo com o que eu encontro em Ifá a criança enquanto no útero é parte da mulher. O espírito que habitará o corpo só o faz junto com o Ẹ̀mí.

Os companheiros tentaram tudo o que podiam: causar confusão na casa de Oniki na esperança de causar a morte de seu companheiro,

Essa é uma característica da atuação do egbe (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run) e que pode ser observada por qualquer um.

O sacrifício feito pelo Bàbáláwo para impedir a morte dos Àbíkú é conhecido como Ẹbọ àrúyẹ ìpínhùn Sacrifício para terminar com a aliança.

Salami diz também que os Àbíkú se reúnem entre si no Àiyé. Eles fazem reuniões noturnas no pé de uma árvore. Nos versos de Ifá essa árvore é o Ìrókò. Essas reuniões contam com os espíritos que ficam no Ìrònà como também com os espíritos dos renascidos. Assim criança Àbíkú renascida, durante a noite, cairiam sono profundo, ficando imóveis e quase impossível de acordá-las. Nesses momentos seus espíritos estariam fora do corpo reunidos com seus amigos do egbe (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run).

Ayo Salami inclui mais uma história em seu relato que não se trata de verso e sim de um relato real, da vida real, o qual vou explicar a seguir bem resumidamente porque será importante quando eu fizer meus comentários.

Segundo Salami, ele testemunhou isso em 1982. Havia um casal juntos por 15 anos e com 3 filhos, não eram amadores ou principiantes em criar filhos. Mas, depois do terceiro o problema começou, a quarta criança, uma menina morreu na cerimônia de nome. Isso acabou com a festa mas o pai não queria que o sofrimento durasse até o dia seguinte. Eles justaram as pessoas fizeram uma cova e enterraram a criança. Logo a seguir ouviram um barulho na terra e abriram novamente para ver o que havia ocorrido, o corpo havia desparecido.

A mulher ficou grávida de nove e teve outra menina que também morreu na cerimônia de nome. O pai enterrou da mesma maneira mas infligiu marcas no corpo da criança e cortou a mão esquerda.

A mulher novamente ficou grávida, um menino agora e o pai tinha certeza que seria um Àbíkú e desta maneira não preparou nada de especial para a cerimônia de nome que seria no nono dia de nascimento. A criança nasceu sem a mão esquerda. Os médicos inventaram explicações, mas a criança morreu 2 anos depois em circunstância estranhas. Mais uma vez o pai enterrou e também tirou seus olhos. Pois bem a próxima criança nasceu sem a mão e cego, ela morreu poucos dias depois de nascer. Os pais desistiram de ter mais um filho.

Salami teoriza que os Àbíkú atacam as pessoas retirando do útero da mãe a alma que nasceria, assim eles seriam invasores e substitutos. As almas que são deslocadas do nascimento pelos Àbíkú vagam como fantasmas pelo Àiyé e devem ficar no Àiyé até o dia marcado para o se retorno, o dia original de sua morte.

Salami segue a crença do mal associado aos Àbíkú. Se considerarmos como ele diz os Àbíkú como um mal que se abate sobre a pessoa temos que classificar com Àbíkú como um mal teológico.

Nas suas explicações e análises dos versos ele não estabelece nenhuma explicação ou causa, chega mesmo a citar como se fosse o acaso, ao contar uma história de uma mulher que se encontra por acaso com uma criança no mercado e a partir daquele encontro passou a ser mais uma vítima de Àbíkú.

 

... CONTINUA ....

sexta-feira, janeiro 01, 2021

 

não deixe de acompanhar os textos que compõe o capítulo O Égbé (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run) e os Àbíkú

Como é um pouco extenso serão algumas publicações, mas, valem apenas, vai ser uma daqueles textos de referência que tem no Blog. 

O Égbé (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run) e os Àbíkú [ Entendendo a religião Yoruba - Pt. 40]


O Égbé (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run) e os Àbíkú

Você vai ler agora um texto poderoso, um dos textos importantes desse blog.

Esse é um tema bastante interessante, visto o grande grau de desinformação que existe sobre o mesmo, devido a falta de fontes confiáveis e o excesso de mistificação sobre o tema. Eu mesmo levei muitos anos para reunir fontes confiáveis e consistente e para entender esse assunto em si e dentro do contexto da religião. Este critério é importante, não basta conhecermos apenas o assunto, suas práticas, ritos e mitos, o conhecimento que temos também tem que se encaixar em relação ao restante da religião de forma consistente e harmônica. Este tem sido o critério adotado em todo esse livro.

O que vou fazer a seguir é dar uma explicação religiosa, baseado na teologia Yorùbá, de fenômenos que afetam muito a sociedade e que são vistos como malefícios, mas, são uma das páginas mais tristes da nossa relação como pessoas e almas com a estrutura metafísica.

Eu passei a considerar o egbe (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run) e principalmente os Àbíkú como uma componente do mal teológico, contudo, o que se abriu para mim foi o contrário, de verdugos passaram a serem vítimas do mal. Os Àbíkú são almas que temos que lamentar e ajudar, mas, isso, somente será para os muito fortes, os eleitos.

As famílias não são amaldiçoadas pelos Àbíkú, é o contrário, os Àbíkú foram amaldiçoados pelas famílias. As famílias foram eleitas para recuperar essas almas e precisam entender essa missão.

Eu vou expor a posição de alguns autores sobre o tema, opiniões que influenciam o entendimento da sociedade e depois vou fazer a minha análise e conclusões, mesmo ela vá de encontro a algumas posições dessas pessoas.

Antes que pensem que estou querendo complicar tudo, entendam que, para compreender essa religião, vocês devem de fato ler os versos e as histórias. Eu posso junto com isso fazer minhas análises e explicações, mas, é necessário conhecer a fonte da informação que transmitimos.

A visão de Verger sobre esse tema

De acordo com Verger, que coletou versos sobre o tema, se uma mulher, em terra yorùbá dá à luz uma série de crianças natimortas ou mortas em baixa idade, a tradição reza que não se trata da vinda ao mundo de várias crianças diferentes, mas de diversas aparições do mesmo ser (para eles, maléfico) chamado Àbíkú (aquele que nasce e morre) que se julga vir ao mundo por um momento para voltar ao país dos mortos, órun (Ọ̀run), várias vezes.

Ele passa assim, seu tempo, a ir e voltar do céu para o mundo sem jamais permanecer aqui por muito tempo, para grande desespero de seus pais, desejos de ter os filhos vivos.

Essa crença se encontra entre os Akan, onde a mãe é chamada awomawu (ela bota os filhos no mundo para a morte). Os ibo chamam os Àbíkú de ogbanje, os haussas de danwabi e os fanti, kossamah. Os Àbíkú são uma intercorrência popular e não um entendimento isolado.

Encontramos informações a respeito dos Àbíkú em oito itans (histórias) de Ifá, sistema de adivinhação dos Yorùbá, classificados nos 256 Odù (sinais de Ifá). Essas histórias mostram que os Àbíkú formam sociedades no egbe (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run), presididas por iyàjansà (a mãe-se-bate-e-corre) para os meninos e olókó (chefe da reunião) para as meninas, mas é Aláwaiyé (Rei de Awaiyé) que as levou ao mundo pela 1ª vez na sua cidade de Awayié. Lá se encontra a floresta sagrada dos Àbíkú, aonde os pais de Àbíkú vão fazer oferendas para que eles fiquem no mundo.

Quando eles vem do céu para a terra, os Àbíkú passam os limites do céu diante do guardião da porta, oníbodé órun (Ọ̀run), seus companheiros vão com ele até o local onde eles se dizem até logo. Os que partem declaram o tempo que vão ficar no mundo e o que farão. Se prometem a seus companheiros que não ficarão ausentes, essas crianças apesar de todo os esforços de seus pais, retornarão, para encontrar seus amigos no céu.

Os Àbíkú podem ficar no mundo por períodos mais ou menos longos. Um Àbíkú menina chamada "A-morte-os-puniu" declara diante de oníbodé órun que nada do que os seus pais façam será capaz de retê-la no mundo, nem presentes nem dinheiro, nem roupas que lhes ofereçam, nem todas as coisas que eles gostariam de fazer por ela atrairiam os seus olhares nem lhe agradariam.

Um Àbíkú menino, chamado Ilere, diz que recusará todo alimento e todas as coisas que lhe queiram dar no mundo. Ele aceitará tudo isto no céu.

Quando Aláwaiyé levou duzentos e oitenta Àbíkú ao mundo pela primeira vez, cada um deles tinha declarado, ao passar a barreira do céu, o tempo que ficaria no mundo. Um deles se propunha a voltar ao céu assim que tivesse visto sua mãe; um outro, esperaria até o dia em que seus pais decidissem que ele casasse; um outro, que retornaria ao céu, quando seus pais concebessem um novo filho, um ainda não esperaria mais do que o dia em que começasse a andar.

Outros prometem à iyàjanjasà, que está chefiando a sua sociedade no céu, respectivamente, ficar no mundo sete dias, ou até o momento em que começasse a andar ou quando ele começasse a se arrastar pelo chão, ou quando começasse a ter dentes ou ficar em pé.

É assim que nessas quatro histórias encontramos oferendas que comportam um tronco de bananeira acompanhado de diversas outras coisas. Um só dos casos narrados, o terceiro, explica a razão dessas oferendas:

“Um caçador que estava à espreita, no cruzamento dos caminhos dos Àbíkú, escutou quais eram as promessas feitas por três Àbíkú quanto à época do seu retorno ao céu.”

“Um deles promete que deixará o mundo assim, que o fogo utilizado por sua mãe, para preparar sua papa de legumes, se apague por falta de combustível. O segundo esperará que o pano que sua mãe utilizar, para carregá-lo nas costas se rasgue. A terceira esperará, para morrer, o dia em que seus pais lhe digam que é tempo de ele se casar e ir morar com seu esposo.”

“O caçador vai visitar as três mães no momento em que elas estão dando à luz a seus filhos Àbíkú e aconselha à primeira que não deixe se queimar inteiramente a lenha sob o pote que cozinha os legumes que ela prepara para seu filho; à segunda que não deixe se rasgar o pano que ela usar para carregar seu filho nas costas, que utilize um pano de qualidade diferente; ele recomenda, enfim à terceira, de não especificar, quando chegar a hora, qual será o dia em que sua filha deverá ir para a casa do seu marido.”

As três mães vão, então consultar a sorte, Ifá, que lhes recomenda que façam respectivamente as oferendas de um tronco de bananeira, de uma cabra e de um galo, impedindo, por meio deste subterfúgio, que os três Àbíkú possam manter seu compromisso. Porque, se a primeira instala um tronco de bananeira no fogo, destinado a cozinhar a papa do seu filho, antes que ele se apague, o tronco de bananeira, cheio de seiva e esponjoso, não pode queimar, e o Àbíkú, vendo uma acha de lenha não consumido pelo fogo, diz que o momento da sua partida ainda não é chegado. A pele de cabra oferecida pela Segunda mãe serve para reforçar o pano que ela usa para levar seu filho nas costas; a criança Àbíkú não vai achar nunca que esse pano se rasgou e não vai poder manter sua promessa. Não se sabe bem o porque do oferecimento de um galo, mas a história conta que quando chegou a hora de dizer à filha já uma moça, que ela deveria ir para casa do seu marido, os pais não lhe disseram nada e a enviaram bruscamente para a casa dele. Nossos três Àbíkú não podem mais manter a promessa que fizeram, porque as circunstâncias que devem anunciar sua partida não se realizaram tais como eles tinham previsto na sua declaração diante de oníbodé órun. Estes três Àbíkú não vão mais morrer. Eles seguiram um outro caminho. Comentamos esta história com alguns detalhes porque ilustra bem o mecanismo das oferendas e de sua função. Não é o seu lado anedolíco (de lenda) que nos interessa aqui, mas a tentativa de demonstração de que em país Yorùbá, a sorte (destino) pode ser modificada, numa certa medida, quando certos segredos são conhecidos.

Entre as oferendas que os retêm aqui, na terra, figuram, em primeiro plano, as plantas litúrgicas. Cinco delas são citadas nestas histórias:

  • Abíríkolo (crotalaria lachnophera, papilolionacaae)

  • Agídímagbayin (não identificada)

  • Ídí (terminalia ivorensis, combretacae)

  • Ijá àgborin (não identificada)

  • Lara pupa (ricinus communis - mamona vermelha)

Ainda mais duas plantas são frequentemente utilizadas para reter os Àbíkú e que não figuram nessas histórias:

  • Olobutoje ( jatropha curcas, euphorbiaceae)

  • Òpá eméré ( waltheria americana, sterculiaceae).

A oferta dessas folhas constitui uma espécie de mensagem e é acompanhada por ofó (encantamentos).

Em país Yorùbá, os pais, para proteger seus filhos Àbíkú e tentar retê-los no mundo, podem se dedicar a certas práticas, tais como fazer pequenas incisões nas juntas da criança e aí esfregar atin (um pó preto feito com osum, favas e folhas litúrgicas para esse fim) ou ainda ligar à cintura da criança um ondè, talismã feito desse mesmo pó negro, contido num saquinho de couro.

A ação protetora buscada nas folhas, expressa nas fórmulas de encantamento, é introduzida no corpo da criança por pequenas incisões e fricções, e a parte do pó preto, contida no saquinho do ondé, representa uma mensagem não verbal, uma espécie de apoio material e permanente da mensagem dirigida pelos elementos protetores contra os elementos hostis, sendo essa forma de expressão menos efêmera do que a palavra.

Em uma outra história, são feitas alusões aos xaorôs, anéis providos de guizos, usados nos tornozelos pelas crianças Àbíkú , para afastar os companheiros que tentam vir buscá-los no mundo e lembrar-lhes suas promessas. De fato seus companheiros não aceitam assim tão facilmente a falta de palavra dos Àbíkú, retidos no mundo pelas oferendas, encantamentos e talismãs preparados pelos pais, de acordo com o conselho dos babalaôs. Nem sempre essas precauções e oferendas são suficientes para reter as crianças Àbíkú sobre a terra. Iyájanjàsa é muitas vezes mais forte. Ela não deixa agir o que as pessoas fazem para os reter e porá tudo a perder o que as pessoas tiverem preparado.

Contra os Àbíkú não há remédios. Yiájanjàsá os atrairá à força para o céu. Os corpos dos Àbíkú que morrem assim, são frequentemente mutilados. A fim de que, dizem, eles percam seus atrativos e seus companheiros no céu não queiram brincar com eles sobretudo para que o espírito do Àbíkú, maltratado deste modo, não deseje mais vir ao mundo.

Essas crianças Àbíkú recebem no seu nascimento, nomes particulares. Alguns desses nomes são acompanhados de saudações tradicionais. Eles podem ser classificados: quer nomes que estabeleçam sua condição de Àbíkú; quer nomes que lhes aconselham ou lhe suplicam que permaneçam no mundo; quer em indicações de que as condições para que o Àbíkú volte não são favoráveis; quer em promessas de bom tratamento, caso eles fiquem no mundo. A frequência com que se encontra, em país yorubá, esses nomes em adultos ou velhinhos que gozam de boa saúde, mostra que muitos Àbíkú ficam no mundo graças, pensam as almas piedosas, a todas essas precauções, à ação de Òrúnmìlà, e à intervenção dos babalaôs.

ALGUNS NOMES DADOS AOS Àbíkú

Aiyédùn - a vida é doce

Aiyélagbe - Nós ficamos no mundo

Akúji - O que está morto, desperta

Bánjókó - Senta-se comigo

Dúrójaiyé - Fica para gozar a vida

Dúróoríìke - Fica, tu serás mimada

Èbèlokú - Suplica para que fique

Ilètán - A terra acabou (não há mais terra para enterra-lo)

Kòjékú - Não consinta em morrer

Kòkúmó - não morra mais

Kúmápáyìí - A morte não leva este daqui

Omotúndé - A criança voltou

Tìjúikú - Envergonhado da morte (não deixa a morte te matar)

ITANS de IFÁ

    É PRECISO CUIDAR DOS Àbíkú, SENÃO ELES VOLTAM PARA O CÉU

    OFERENDAS PODEM RETER Àbíkú NO MUNDO

    SUBTERFUGIOS PARA RETER OS Àbíkú NO MUNDO

    MOSETÁN FICA NO MUNDO

    OLÓÌKÓ É O CHEFE DA SOCIEDADE DOS Àbíkú

    ASEJÉJEJAIYÉ FICA NO MUNDO NA DÉCIMA SEXTA VEZ QUE ELE VEM

    OS Àbíkú CHEGAM PELA PRIMEIRA VEZ EM AWAIYÉ

    ÍYÁJANJÀSÁ NÃO DEIXA OS Àbíkú FICAR NO MUNDO

Estes itens completos são descritos numa edição da revista Afro-Ásia, 14 – 1983, sob o título (A SOCIEDADE EGBÉ ÒRUN DOS ÀBÍKÚ, AS CRIANÇAS NASCEM PARA MORRER VÁRIAS VEZES)

As cerimônias para os Àbíkú parecem ser pouco frequentes entre os yorubás, a única assistida por Pierre Verger, a cerimônia foi feita pela tanyinnon encarregada do culto aos deuses protetores de uma família tradicional do bairro Houéta. Num canto da peça principal, oito estatuetas de madeira com 20 centímetros de altura e eram colocadas sobre uma banqueta de barro.

Todos vestidos de panos da mesma qualidade, mostrando pela uniformidade de suas vestimentas, pertencer a uma mesma sociedade (egbé). Seis destas estatuetas representam ábíkús e as outras duas ibeji. As oferendas consistiam de oká (pasta de inhame) obèlá (espécie de caruru) èkuru (feijão moído e cozido nas folhas) eran dindi, eja dindin (carne e peixe fritos) que, depois da prece da tanyionnon e da oferenda de parte desta comida às estatuetas, foram distribuídas pela assistência. Uma sacerdotisa de Obatalá assistiu à cerimônia sublinhando as ligações que existem entre o orixá da criação, as pessoas de corpos mal formados, corcundas, alijados, albinos e aqueles cujo nascimento é anormal (àbíkú e ibeji).

Portanto ao contrário que muitos falam, nada tem a ver com a criança que já nasce "feita" no santo.

Comentários deste autor

Os textos de Verger são bons relatos e ainda são a base de quase toda a informação que circula. A seguir vou mostrar versões melhores. No caso do Verger o engano dele é quando ele cita que: “Quando eles vem do céu para a terra, os Àbíkú passam os limites do céu diante do guardião da porta, oníbodé órun (Ọ̀run)…

Os Àbíkú não voltam ao órun (Ọ̀run), seria impossível esse trânsito. Nesse ponto reside minha crítica ao Verger, ele de fato relatou, mas não quis se aprofundar no desenho do contexto metafísico e ainda brigou com a Juana Elbein quando ela fez isso.

 

....CONTINUA....

segunda-feira, novembro 02, 2020

Quem são os Ajogun? [ Entendendo a religião Yoruba - Pt. 39]

 

Quem são os Ajogun?

 

Eu quase me esqueci de abordar isso. Como mostrado nos capítulos iniciais, as forças negativas existem apenas no Àiyé, no mundo natural que é composto pelas coisas naturais e pelo supernatural, essas 2 coisas forma o Àiyé.

Os Ajogun são os inimigos beligerantes do homem, segundo Abimbolá. As forças supernaturais do mal, trabalham continuamente contra o interesse do homem em atingir os seus objetivos em vida, o seu destino.

Essa visão do Abimbolá é interessante, de acordo com ele a gente vem para o mundo para realizar nosso destino, nossos objetivos e existem forças negativas trabalham para nos impedir disso, dessa maneira a vida no Àiyé é de fato uma aventura na qual nós temos que lutar para atingir os objetivos que traçamos para a vida. De um lado nós com nossa vontade e determinação de outro as dificuldades naturais e supernaturais, isso não deixa de tornar a vida interessante.

Quem são os Ajogun? São muitos, os mais importantes são: a morte e sua esposa a doença (Ikú e Àrùn) que são responsáveis por tomar a vida e aflingir o homem com a doença, a perda (Òfò) que destrói ou carrega para longe as propriedades do homem, Égba (Ẹ̀gbà) que significa paralisia, a perda de todos os bens da pessoa, Éwon (Ẹ̀wọ̀n) que significa confinamento, aprisionamento, similar a paralisia, mas nesse caso a pessoa fica aprisionada dentro de si mesma, Éjo (Ẹjọ́) qie são os litígios, complicações legais, calúnias e tragédias e diversos outros em uma lista bastante criativa.

O que é importante e prático é compreender que a religião entende que existem força supernaturais que causam esses problemas. Nossa vida no Àiyé não é tranquila e, como diz Abimbolá, não foi construída para ser assim. Os Ajogun representam um tipo de mal teológico, apesar de para nós parecerem coisas naturais.

Ao trazer essas causas para a esfera supernatural a religião dá as pessoas um pouco de conforto porque elas se sentem mais otimistas com elas mesmas, afinal estão sendo atacadas por espíritos do mal. Ao estabelecer que são espíritos do mal a religião traz para a sua arena, a arena do supernatural, das liturgias, dos sacrifícios e dos ebó (ẹbọ) a possibilidade de resolver essas questões. Desta maneira estamos no campo do conforto, da fé e da esperança.

Se esses problemas não fossem espíritos do mal a religião nada teria a fazer a não ser rezar pela alma das pessoas, como fazem os católicos dizendo que quando eles morrerem estarão salvos ao lado de deus, caso, sejam bons cristãos a vida toda. Também tem os Kardecistas que vão dizer para seus seguidores que devem sofrer esses problemas em paz e calados, torcendo para essa vida acabar logo e eles poderem renascer sem esses problemas na próxima. Sinceramente não sei quem é mais idiota, fico na dúvida de dar mais estrelinhas.

Para mostrar a visão dos Ajogun pela religião foi destacar 3 versos interessantes que mostram como são vistos e como devem ser temidos. Mas a visão dos Ajogun não se restringe a isso, existem dezenas de Odù que retratam o conflito entre os Ajogun e a humanidade e a atuação dos Bàbáláwo para salvá-los.

O verso a seguir um homem foi assediado pela morte e foi salvo por um babalawo

Você é conhecido como Ọlálẹ́kun,

cujo outro nome é Òmìnìnkùn

Um elefante não pode ser virado para ser entalhado;

Aquele cujo nome é Atàtàbía-kun,

O homem baixo e terrível da noite.

Um cachorro macho significa honra,

Um àguàlà masculino é conhecido como a lua.

O filho de uma pessoa é uma fonte de contas okùn (riqueza).

O próprio filho é para ele uma fonte de toda a riqueza.

Enquanto as nádegas de seu filho não tiver decorados com contas,

Essa pessoa não enfeitará com contas a cintura do filho de outra pessoa.

O filho de uma pessoa é sempre tratado como seu próprio filho.

O oráculo de Ifá foi realizada para Ondẹ̀sẹ̀,

o homem de pele clara do morro de Àpà,

cuja casa era assombrada pela morte e doença,

cuja casa era persistentemente assombrada por todos os Ajogun.

Seu sacerdote Ifa, portanto, pediu que ele oferecesse bastante bùjé como sacrifício.

Eles pegou uma parte do bùjé e esfregou no corpo.

E ele se tornou uma pessoa muito negra.

Como resultado, o Ajogun não conseguiu reconhecê-lo.

Ele começou a dançar,

Ele começou a se alegrar.

Ele começou a elogiar seus sacerdotes Ifá enquanto seus sacerdotes Ifá elogiaram Ifá.

Gongos foram batidos em Ìpóró,

O tambor de Àtàn foi batido em Ikija,

Os agdavi foram usadas para produzir música melodiosa em Ìṣẹrimogbe

Ele abriu um pouco a boca,

E ele proferiu a canção de Ifa.

Enquanto ele esticava as pernas,

A dança os pegou.

Ele disse: ‘Morte, não mate o homem bùjé por engano.

Você que agora está fadado a confundir o homem com outra coisa.

Você que doravante deve confundir o homem com outro ser.

Doença, não aflija o homem bùjé por engano.

Você que agora está fadado a confundir o homem com outra coisa.

Você que doravante deve confundir o homem com outro ser.

Guerreiros do céu,

Vire as costas e se apresse,

Você que agora está fadado a confundir o homem com outro ser.

Desta maneira, através de Ifá a pessoa que estava ameaçada conseguiu se disfarçar e não ser reconhecido pelos Ajogun. Como sempre as soluções são bem simples, quase ingênuas, mas o todos devem entender é que o objetivo do verso é dizer que Ifá pode enganar os Ajogun.

Ao listar essa história quero mostrar a preocupação com os Ajogun e a sua natureza inevitável, você pode iludi-los mas não destruí-los.

O verso a seguir mostra uma outra pessoa sendo atacada pelos Ajogun e sendo salva por Exú (Èṣù).

Àtàtà-taìn-taìn.

Adivinhação ifá foi realizada para Ọlọmọ

O alto e robusto.

Todos os Ajogun estavam se movendo em torno de Ọlọmọ

Eles queriam matá-lo.

Ele foi convidado a realizar o sacrifício,

E ele o executou.

Um dia,

Morte, Doença e Perda se levantaram,

E partiu para levar a guerra à casa de Ọlọmọ. Eles encontraram Exú (Èṣù) fora de casa.

Enquanto tentavam entrar na casa de Ọlọmọ, Exú (Èṣù) colocava repetidamente farinha de inhame em suas bocas.

E é proibido a todos os Ajogun provar farinha de inhame. Quando a farinha de inhame tocou suas bocas,

Alguns deles morreram,

E alguns adoeceram,

Mas ninguém poderia entrar na casa de Ọlọmọ.

Quando Olomo ficou feliz,

Ele começou a cantar a canção dos padres Ifa.

Ele disse Àtàtà-taìn-taìn.

A adivinhação ifá foi realizada para Ọlọmọ,

O alto e robusto.

Morte que queria matar sacerdote Ifa,

Não posso mais matá-lo.

A morte se afastou da cabeça do sacerdote Ifa. A morte não come farinha de inhame.

Se a morte tentar comer farinha de inhame,

Sua boca fica rígida,

Suas mandíbulas estão travadas.

Doença que queria afligir o sacerdote ifá Não pode mais afligi-lo.

A morte não come farinha de inhame.

Se a morte tentar comer farinha de inhame,

Sua boca fica rígida,

Suas mandíbulas estão travadas.

Todos os Ajogun que quiseram atacar o sacerdote ifá não podem mais atacá-lo.

A morte não come farinha de inhame.

Se a morte tentar comer farinha de inhame,

Sua boca fica rígida,

Suas mandíbulas travaram.

O verso a seguir é um dos meus preferidos sobre esse tema. Mostra 3 coisas importantes. A primeira Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) se desfaz de suas coisas mais importantes para poder se salvar dos Ajogun, a segunda que Exú (Èṣù) é o intermediário entre todos os inrumolé (Irúnmọlẹ̀), ele é neutro de fato, não é uma força do mal, sua atuação é a de conduzir e acompanhar as coisas, a última é que ninguém, nem mesmo as divindades, no Àiyé estão imunes aos Ajogun.

Ọ̀dá-owó, sacerdote ifá de Kóro, Ààbò, sua esposa,

A filha deles na cidade de Ìjerò.

Assim como me falta dinheiro,

Eu também tenho segurança.

Adivinhação ifá foi realizada para Órunmila (Ọ̀rúnmìlà),

No dia em que três homens estranhos se hospedariam na casa do pai.

E Ifá não tinha nem mesmo uma concha de cauri que pudesse gastar.

Qrunmila chamou Ààbò, sua esposa,

para levar todos os seus pertences ao mercado para vender.

Quando Aabo chegou ao mercado de Èjigbòmẹkùn, o iìrọ̀kẹ de Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) que ele comprou por setecentos búzios,

Tinha o preço de cento e quarenta búzios.

Seu interruptor cerimonial de cauda de cavalo que ele comprou por seiscentos búzios,

Tinha o preço de cento e vinte búzios.

A capa ornamentada de seus instrumentos de adivinhação Ifá que ele comprou por 1.600 búzios,

Tinha o preço de vinte e um búzios.

Ààbò chorou,

Em vez de chorar alto.

Ela cantava poemas Ifá, em vez de soltar um grito de lamento.

Ela disse que o preço dos materiais era muito inferior ao preço de custo.

Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) também respondeu cantando poemas Ifá.

E a instruiu a ir e vender os materiais. Ààbò então vendeu os materiais com prejuízo,

E pegou o dinheiro para comprar comida para casa.

Os três visitantes estranhos - Morte, Doença e Exú (Èṣù)

comeram

E eles ficaram satisfeitos.

Observem que Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) se desfaz dos seus próprios instrumentos de Ifá para poder comprar comida e oferecer aos Ajogun para eles irem embora. Como diz no início do poema, é preferível não ter dinheiro do que não ter segurança.

Esta é, então a natureza dos Ajogun, forças do mal, poderosas que não podem ser vencidas. Elas podem ser desviadas e enganadas, nós fugimos delas mas não as enfrentamos.

quarta-feira, outubro 21, 2020

Os incidentes na vida e destino das pessoas [Entendendo a religião Yoruba - Pt. 38]

 

Os incidentes na vida e destino das pessoas

 

O ciclo de concepção e nascimento será abordado e detalhes mais adiante, ele é importante para entendermos o sentido de nossa vida, o conceito de Òrìṣà (Orixá) e a participação do Òrìṣà (Orixá) e nossa vida. Só quando entendemos o ciclo do nascimento é que ligamos os pontos da teologia para entender o papel do Òrìṣà (Orixá) em nossa vida e, mais profundamente, no estabelecimento da nossa individualidade. Este conceito, individualidade é um dos conceitos mais incríveis desta religião.

Deixando isso, então, para depois, vamos voltar a questão do mal teológico. Algumas coisas precisam ser esclarecidas sob o ponto de vista da religião, que são os dissabores do nascimento e destino. Vou fazer isso de forma bem objetiva porque são muitos casos.

Tudo o que vou explicar a seguir são conceitos que estão explicitamente descritos e explicados nos versos de Ifá. Eu não estou inventando nada nem criando explicações, estou usando a própria religião para explicar isso.

Todo mundo que nasce quer nascer perfeito, sem deformações, saúde mental, doenças pré-existentes, etc.. Todos querem ser um espírito pleno em um corpo perfeito, assim termos condições para executar tudo o que planejamos para nossa vida.

Não passa pela cabeça, de ninguém, que nascer com problemas seja uma benção ou mesmo que a pessoa desejou nascer assim. Apesar de nem tudo a gente encontrar definido nesta religião, temos então que fazer algumas ilações, baseadas em similaridades ou mesmo no pouco que conseguimos captar das narrativas e da cultura da sociedade. Nesse contexto, jamais encontrei nada que justifique uma pessoa querer nascer com qualquer problema.

Nunca vi nenhum mito ou qualquer verso que justifique eu acreditar que a religião entende que pessoas escolheram nascer com limitações ou que mães e pais desejem seus filhos com problemas.

Creio que somente vi isso, esse conceito de ser destinado a sofrer, com os kardecistas que dizem que as pessoas escolhem nascer infelizes ou viver infelizes para pagar seus karmas. Aliás, o nome Karma os Kardecistas tiraram da religião Indu, mas, eles empregam com um significado diferente. Na religião Indu, Karma e Dharma são conceitos similares ao do destino Yorùbá, que vamos ver mais tarde.

Voltando ao nosso tema, desta maneira, nascer com problema é um desvio. A religião explicitamente atribui a Oxalá (Òṣàlá), o Òrìṣà (Orixá) que cria o corpo das pessoas, os erros que levam a pessoas nascerem com problemas. Isso não é ilação, é fato. O mito diz que Oxalá (Òṣàlá) gosta de beber e quando ele bebe ele comete erros nos corpos das pessoas e assim as pessoas nascem com deformações. Isso é oficial, está na religião.

Vamos lembrar que essas histórias são metáforas, não são relatos históricos e não temos que nos preocupar que Oxalá (Òṣàlá), um dos Òrìṣà (Orixá) mais importante, seja um beberrão e com isso prejudique as pessoas, não vamos nos focar em valorizar que esta religião tenha divindades principais que sejam irresponsáveis.

Esse mito, essa historinha, nos diz que, sim, existe falha no processo de concepção, de criação do corpo e que existe uma aleatoriedade, que algumas pessoas nascem com problemas sem que isso tenha sido pedido por elas, elas não desejaram isso, foi uma ocorrência casual, nesse caso descrito como originado na distração do Òrìṣà (Orixá) que por ter bebido errou o fazer o corpo. Esse é o jeito de conciliar a explicação da religião com a realidade do mundo real.

Desta maneira, esse aspecto de, porque algumas pessoas nascerão, infelizmente, com problemas, é perfeitamente fixado. Não se trata de punição divina, todos tem o destino de nascer perfeito, mas, acidentes, dificuldades ou complexidades no processo de gestação vão gerar as imperfeições. A explicação teológica, simples, é essa que o Òrìṣà (Orixá) bebeu, ou seja, ele não queria fazer isso, ficou fora de si e fez por acidente. A explicação do mundo real, é similar, que existem genes, mutações, etc., tudo muito complicado também.

Meu comentário para esse caso é, o processo de nascimento é complexo, a formação de um novo corpo tem um índice de erros e falhas, ocasionadas por diversos fatores e não existe garantia divina que vamos nascer perfeitos. Certamente ocorre na maior parte dos casos, mas, sempre haverá um percentual de erro, não se tratando de um destino ruim.

Uma outra questão envolve a sorte de cada um na sua vida. Vamos ter pessoas que prosperam e pessoas que não prosperam e mesmo as pessoas que estarão na miséria ou viverão muito mal, outros que serão criminosos. São muitos aspectos mas estão ligados a coisas comuns.

Mais uma vez, não vou inventar nada, de acordo com a religião e seus mitos e, mais, de acordo com o que está amplamente documentado em versos de Ifá, centenas que eu já li, antes de nascermos temos que fazer uma grande preparação. Essa preparação diz respeito a estabelecermos objetivos, irmos a Ifá no órun (Ọ̀run) para lá no órun (Ọ̀run) nos prepararmos para a vida que vamos ter.

Fazemos isso por nós mesmos e também somos ajudados por nossos familiares. Nós nos preparamos para vir para cá e entre vários preparativos, temos que escolher o nosso caráter, personalidade e os recursos para sermos prósperos, o chamado Orí.

Orí é um conceito muito importante na religião, esta associado com a individualidade, mas, é um subconjunto da individualidade. Muita gente do Candomblé não conhece todos os conceitos teológicos ligados ao indivíduo e sobrevaloriza o Orí com se isso fosse tudo ou o mais importante, mas não é. É importante mas é uma parte do todo.

Orí é uma daquelas palavras Yorùbá que tem muitos significados e por isso é bastante complicada de definir e até de explicar, não pode explicar apenas uma coisa, tem que se explicar várias coisas. Não vou fazer isso agora, mas eu citei isso porque como parte desse processo de preparação no órun (Ọ̀run) que fazemos para o nascimento, nós “adquirimos” um Orí.

Orí é um elemento que está associado com a facilidade que temos que ter prosperidade em vida. Existem outros aspectos, mas esse é o principal. O processo de escolha de um bom Orí, tem um componente aleatório ou estatístico, como o caso de Oxalá (Òṣàlá) com o nosso corpo. Se falharmos em nos preparar adequadamente para vir ao Àiyé podemos “pegar” um Orí ruim. Se isso ocorrer teremos muita dificuldade em prosperar no Àiyé. Um bom Orí é resultado de preparação ou de “sorte” na escolha e isso insere, assim, uma aleatoriedade na vida de cada um.

Dessa maneira, quando as pessoas falham nos preparativos para a vida no Àiyé elas serão afetadas no seu desempenho na vida e é desta forma que a religião explica porque certas pessoas têm mais capacidade do que outras ou mesmo mais sorte. Tudo depende da preparação que elas fizeram para essa vida. Nosso insucesso ou pouco sucesso não foi um presente ou maldição de deus, foi algo que nós mesmos trouxemos para nossa vida.

Porque as pessoas falham nisso? Veja, como eu disse antes a vida no Àiyé é uma aventura, mas, exige planejamento, contudo, nem todos querem planejar. Muitos querem nascer sem planejamento, sem preparação e apenas contando com o acaso. Como sabemos é uma religião reencarnacionista e uma vida é apenas uma vida, outras haverão.

Pode parecer estranho mas e isso mesmo, nem todos nascem com objetivos e determinação para realizar algo, muitos nascem apenas por nascer, para serem turistas nessa vida.

Um outro aspecto que está explicado na religião é que além de um bom Orí, que significa facilidade para prosperar na vida, está fartamente documentado nos versos de Ifá a necessidade da pessoa ter boas “pernas”. Se a pessoa não tem boas pernas ela fica parada e não procura a sua sorte e prosperidade. O acomodado e preguiçoso sempre não será bem-sucedido. Existe, inclusive, nos versos, a referência de que a pessoa pode ter sido marcada por ajé (Àjẹ́) nas pernas na sua passagem pelo Ìrònà, o meio do caminho entre o órun (Ọ̀run) e o Àiyé que é o lugar onde as ajé (Àjẹ́) estão estabelecidas e assim passa a ter enormes dificuldades para prosperar e só quando, através de Ifá, remove isso consegue ter sorte na vida.

Outra situação é o dos que nascem em famílias pobres e sem recursos e nunca terão chance de realizar sonhos ou ter acesso as boas coisas da vida. Aqui o que a religião pode explicar é uma soma de coisas. A primeira é que se trata de linhagem familiar, as pessoas nascem nas suas famílias, suas linhagens e se seus ancestres falharam em trazer prosperidade para ser usada por seus descendentes então a vida de todos sempre será difícil.

A ancestralidade é uma coisa importante nessa religião, muita gente do Candomblé enche a boca para falar de ancestralidade sem nem saber do que está falando e do que isso significa. É gente que não sabe nada de nada e descobre que citar ancestralidade é uma frase chique e passa a usar. Isso vem de gente vazia.

A ancestralidade é um conceito que está presente na cultura Yorùbá, as pessoas têm família e tem descendentes. É um povo que se relaciona com o seu passado, quero dizer, se relacionava no passado, pelo menos isso está presente na literatura que aprendemos sobre eles, mas, o que eles são hoje, não faço a menor ideia. A sociedade se liga aos seus ancestres e a religião é muito importante nisso, vou explicar isso quando eu falar de Egúngún e Oro.

Aqui tenho que ser breve nesse assunto e, desta forma, você é hoje a construção de sua ancestralidade. Se seus ancestres se preocuparam em formar uma família e linhagem, se foram bons pais e avós que se preocuparam com seus filhos, netos, bisnetos, trinetos e tataranetos, então a família estará bem. Cada um que nasce têm que se preocupar com isso. Se não houve essa união e preocupação com linhagem e descendência então a ocorrência de famílias em situação de penúria será maior e isso não é culpa da religião, é culpa da sua execução de vida.

A religião faz sua parte, diz que família é importante, que ancestralidade é importante, que você deve ser uma boa pessoa para a sociedade, para sua família, para seus filhos e netos, justamente orientado a pessoa a crescer, a pensar no próximo e ser importante para os que seguirão a ele.

O culto de Egúngún representa essa lembrança de vida eterna, de que devemos ser cultuados por nossos parentes e familiares como uma pessoa boa e relevante, que devemos ter um bom caráter, trabalhar duro e realizar a prosperidade que todos esperam. A religião diz que temos que viver de forma exemplar para sermos lembrados e cultuados por nossos familiares com saudade e, dessa maneira, virarmos um Bàbá égun.

Digo e repito, essa religião tem em sua espinha dorsal a orientação para sermos pessoas boas, perfeitas como seres humanos. Se enganam os tolos ou idiotas que essa é uma religião sem ética.

Eu entendo que esse tipo de conhecimento e sentimento não foi introduzido aqui no Candomblé, as pessoas estão longe de entenderem isso e se comportarem na sociedade de forma adequada. Assim se uma família vive mal, não é por falta de orientação da religião, pelo contrário.

O próximo caso diz respeito aos problemas de parto. Uma das principais preocupações de toda gestante é com o processo de nascimento e o período de gestação. Em relação a isso temos algumas questões. A primeira diz, como já citei a questão a aleatoriedade, de que problemas podem ocorrer, devido ao acaso ou mesmo devido a vida desregrada e mal cuidada da gestante. A pessoa não preocupa com sua vida, corpo e saúde e depois sofre as consequências disso, mas, nem sempre é isso.

A gravidez está, sim, submetida ao mal teológico. As bruxas, as ajé (Àjẹ́) são as maiores responsáveis pelos problemas de gravidez e abortos. Lembro aos que tem algum entendimento que Àbíkú é aquele que nasce para morrer. Assim sendo, abortos não estão relacionados com Àbíkú e sim com ajé (Àjẹ́). Se não for devido uma causa muito natural então pode ser ajé (Àjẹ́). No Odù Ogbè Okanran, em Bascom, um verso descreve que ajé (Àjẹ́) bebe o sangue menstrual impedindo a mulher de ter filhos, mas, existem outras referências.

Um outro problema teológico é a dificuldade de engravidar ou esterilidade. A gravidez e a multiplicação da família é uma benção nesta religião. Com sinceridade, essa é a religião dos héteros e da família. O núcleo familiar é o centro da religião.

A religião oferece proteção para a fertilidade e para a gravidez de várias maneiras. Esterilidade sendo interrompida após sacrifícios e ebó (ẹbọ) está presente em todos os versos, quase todos. Este é o tema mais comum. Se a religião oferece centenas de liturgias para permitir a gravidez é porque ela, nem sempre, tem causas naturais. Se o problema pode ser resolvidos pelo supernatural é porque a origem da questão está no supernatural também. Nem toda solução é simples, podem ser questões que vão de impedimentos ligado ao destino pessoal de cada um até pragas, maldições ou feitiços.

Desta maneira a esterilidade e o aborto podem ser relacionados ao mal teológico.

Para finalizar eu explico que o objetivo dessas descrições e explicações foi mostrar o conceito de mal teológico, mas, também, mostrar que esta religião tem nos seus versos de Ifá, em mitos e na cultura da sociedade, explicações para as diversas situações que as pessoas passam por sofrimento e dificuldades na via.

Qual o sentido disso? Podem perguntar muitos que ainda não entenderam o objetivo disso. É simples, isso está no núcleo da missão das religiões. A religião tem que oferecer às pessoas esperança, conforto e também solução. As pessoas precisam entender de alguma forma o que se passa com elas de forma absoluta e de forma relativa às outras pessoas. O que faz as pessoas se inconformarem com sua vida não é a vida delas em si, somente, mas a vida das pessoas em volta dela.

A religião tem que oferecer um colo para elas, para elas não se sentirem derrotadas e infelizes, seus problemas precisam ser divididos e depois, a religião, deve oferecer a solução, a perspectiva de melhorar. A religião Yorùbá é feita também baseada nas 3 virtudes teológicas católicas: fé, esperança e caridade. Mas ela é muito mais efetiva em desenvolver essas virtudes junto às pessoas.

Sua efetividade está no aspecto de que elas fornecem a construção de entendimento, através de suas metáforas, mas, não apenas isso, ela entende isso como resultado de uma construção do supernatural e desta forma oferece uma solução através do supernatural para o problema. Assim sendo ou ela permite a pessoa entender o que ocorre com ela ou a ajuda a resolver. É isso o que uma religião deve fazer.

Religiões que desconhecem as necessidades das pessoas, que tentam se furtar de sua responsabilidade pelo mal teológico e que principalmente oferecem para as pessoas apenas a perspectiva do sofrimento contínuo e de que a vida eterna será melhor (o pós-vida dos católicos) ou que a próxima vida será melhor (os Kardecistas) basicamente são engôdos ao bem de nossa alma.

Alguns mais céticos podem argumentar que essas explicações são fantasiosas que é uma bobagem achar que bruxas marcam as pernas das pessoas ou que bebem o sangue menstrual e que existem explicações naturais e científicas para isso. Para essas pessoas eu digo que esse tipo de abordagem foi o que o círculo de Viena ofereceu como reação a séculos de domínio do cristianismo sobre a humanidade oprimindo, julgando e condenando pessoas. Lembro também que o nome da “ciência” para justificar as coisas é usado desde o século XVII e todos aqui sabem qual era essa ciência do século XVII. Se no século XVII aquela ciência tosca e idiota era usada para justificar as coisas, porque essa que temos hoje é melhor ou diferente?

Como expliquei no início o “vernier” do entendimento que regula a religião e a ciência para explicar o nosso mundo se move de um lado para o outro. Em um momento ele estava comprimindo a ciência, tudo era mistério, agora é o contrário, mas, o fato deste “vernier” estar assim não muda o mundo de verdade.

A religião tem a sua forma de explicar as coisas. Uma forma que qualquer pessoa pode entender, você não tem que ser cientista para entender a forma como a religião faz. Essa é grande diferença e, é claro, usar tudo o que o mundo natural e a ciência têm a oferecer para ajudar as pessoas e também oferecer o supernatural para resolver os problemas das pessoas.

Lembro a todos que não é incomum pessoas que tem problemas crônicos, que vão em médicos continuamente, tratando de tudo e de sintomas e somente se curam depois que passam por uma liturgia. São casos sem fim, normalmente é isso o que ocorre, a pessoa primeiro esgota o que a ciência pode fazer e ai ela, sem ter mais o que fazer vai no supernatural. Se o problema é sério, procure os dois, uma ajuda o outro.