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quinta-feira, julho 18, 2019

O panorama do oráculo no Candomblé

O objetivo do texto a seguir é tratar do oráculo de forma mais localizada ao uso que o Candomblé dá para ele, dessa forma, algumas informações podem já ter sido tratadas antes, mas, é necessário repetir no contexto atual.
O Oráculo por excelência do Candomblé é o owó ẹyọ mẹ́rindílógún, o jogo de 16 Búzios, mas a forma de usá-los, na prática, muda bastante ainda mais se comparado com o oráculo de Ifá que possui um método padronizado entre os Bàbáláwo. Como ele é feito majoritariamente pelo Babalorixá (Bàbálòrìṣà) (ou Iyalorixá (Ìyálòrìṣà) não repetirei toda vez os 2 nomes, mas entendam que tudo se refere aos dois) existe sempre um enorme componente de mediunidade envolvida na consulta. Assim, no mundo real, os Búzios são majoritariamente usados através da vidência do olhador e depois pela chamada fala dos Orixá (òrìṣà) que combina caídas de búzios com orixá (Òrìṣà), apesar de a interpretação por Odù ter se popularizado.
Historicamente o oráculo através do jogo de búzios (owó ẹyọ mẹ́rindílógún) é a ferramenta básica de um sacerdote de orixá (Òrìṣà). Ifá nunca teve presença relevante no Brasil, os búzios podem indistintamente serem usados por homens e mulheres enquanto que Ifá é um culto masculino, com a presença de mulheres em algumas funções específicas e secundárias. As mulheres não recebem iniciação para trabalhar com os instrumentos principais dos Bàbáláwo, o Opele (Òpẹ̀lẹ̀) e Ikin. Além disso um Bàbáláwo não tem incorporação de forma que ou uma pessoa é um Bàbáláwo ou um Babalorixá (Bàbálòrìṣà).
O jogo de búzios (owó ẹyọ mẹ́rindílógún) é então o oráculo majoritário no culto de orixá (Òrìṣà) e todas as fontes que eu tive acesso, além de minha própria experiência, elogiam em larga escala o mesmo para esse uso. Isso quer dizer que, mesmo com a opção do uso de Ifá, o jogo de búzios (owó ẹyọ mẹ́rindílógún), sempre será o instrumento preferido. Nós sabemos por nossa prática no Brasil que os Búzios são excelentes como oráculo geral e esse conceito também existe na África Yorùbá.
O uso desse instrumento no Brasil, assim como em outros lugares que pesquisei, o jogo de búzios (owó ẹyọ mẹ́rindílógún), sofre muitas variações. A gente tem que considerar inicialmente o fator Umbanda. Um enorme contingente de pessoas que são Babalorixá (Bàbálòrìṣà) no Candomblé já foram Pai de Santo de Umbanda (muitos escondem isso) e lá eles trabalhavam fortemente com vidência, de maneira que essas pessoas têm a clarividência e aurividência muito aflorada. É possível, inclusive, que a totalidade deles não deixe de trabalhar com seus guias de Umbanda mesmo estando no Candomblé (essa é uma afirmação apenas baseada em observação).
Muitas dessas pessoas na Umbanda tinham o seu jogo de búzios (apesar de o jogo de búzios não fazer parte da Umbanda) que não era nada mais do que, para a maior parte das pessoas, um exercício de mediunidade com os guias intuindo, falando ou trazendo vidência ao Pai de santo dos problemas que o consulente trazia. Essa prática nunca teve vínculo com Ifá, apesar de muitos chamarem assim o seu oráculo (sem saber o que isso queria dizer de fato).
A Umbanda, tradicionalmente, não tem jogo de búzios. O Oráculo da Umbanda são os seus guias, que, incorporados nos médiuns, falam com as pessoas o que elas precisam ouvir. Mas a Umbanda é muito sincrética e absorve muita coisa. O jogo de búzios na Umbanda é o resultado principalmente do uso da mediunidade do olhador, mais algum conhecimento e habilidade de usar os búzios que pode ir sendo desenvolvido.
Assim, apesar de os búzios não fazerem parte da Umbanda essa prática se difundiu bastante porque permitia ao médium ou dirigente darem consulta sem estarem incorporados. Eu posso falar que já fui a 2 jogos de búzios na Umbanda que eram muito, muito bons. Dessa forma o jogo de búzios se afirmou aqui no Brasil como um oráculo de excelência, atendendo a todos os usos que foram necessários.
Voltando ao Candomblé, existe uma baixíssima qualidade de transmissão de conhecimento. Existe uma enorme facilidade em se vender obrigações e nenhum compromisso em continuar com o processo de formação para fazer a formação de uma pessoa para ela ser um Babalorixá (Bàbálòrìṣà) ou simplesmente um sacerdote da casa. As pessoas pagam suas obrigações e anos de submissão, para serem depois um Babalorixá (Bàbálòrìṣà) com sua própria casa, onde ele dê suas ordens e faça tudo como quer.
O conceito de comunidade é um pouco discreto, o terreiro é de fato uma comunidade bastante ampla e integrada, mas, centrada apenas em um Babalorixá (Bàbálórìṣà) ou melhor, em apenas um sacerdote alfa. Apesar de o Candomblé ser iniciático e todos serem direcionados a fazerem o orixá (Òrìṣà) (não sendo a participação de não iniciados, abians, incentivada), se a pessoa adquire maioridade, após cantar seus 7 anos e, dessa forma, se tornar um égbon (Ẹ̀gbọ́n), o caminho dele é ficar contido na sua atividade religiosa na casa que o formou ou sair e abrir sua própria casa. O terreiro oferece pouco espaço para, mesmo tendo um sacerdote principal, ter outros égbon (Ẹ̀gbọ́n) que possam atuar como sacerdotes na mesma casa, caso esses que gostariam de exercer aquilo que passaram anos se preparando sem terem a total responsabilidade de abrir uma casa.
Não acredito que todos os iniciados querem ser Babalorixá (Bàbálórìṣà) e ter sua casa, as pessoas percebem que isso da muito trabalho, mas, o investimento de tempo e dinheiro na iniciação e formação é desproporcional em relação as atividades. Como eu defendo não dá para todo mundo se iniciar e cantar seus anos.
Dessa maneira uma casa de Candomblé é um lugar com somente um sacerdote alfa e os demais membros, mesmo que já considerandos formados, ou seja, mais velhos (égbon (Ẹ̀gbọ́n)), tem funções menores. Caso alguém se destaque acaba saindo, fora o fato de que, pelo menos aqui no Brasil, todo mundo quer é ter a sua própria casa onde possa fazer “tudo do seu jeito”. Se por um lado isso expande a religião, de outro isso faz casas mais fracas, porque nem todo mundo que sai tem condições disso.
A razão dessa divisão de casas não é religiosa, é a meu ver, apenas falta de capacidade do sacerdote alfa, dono da casa, em lidar com essa situação. Não faz muito sentido, o tempo todo, incentivarem ou forçarem as pessoas se iniciarem e depois, esses iniciados, perderem espaço na casa que os fez. O correto para os terreiros era ter muitos abians, incentivar o chamado “abianato” e apenas iniciar as pessoas que demonstrassem real interesse, necessidade ou vocação para o sacerdócio.
O oráculo é a porta de entrada de qualquer pessoa no mundo sacro do Candomblé. Tudo é feito a partir do oráculo e tudo é feito com o oráculo. Não pode existir um Babalorixá (Bàbálòrìṣà) que não tenha um oráculo na mão.
Para quem não sabe a razão dessa afirmação que faço, entendam que no Candomblé o orixá (Òrìṣà) não fala. De fato, isso é uma afirmação para o Candomblé de origem Yorùbá, creio que no Candomblé Jeje não é dessa maneira. Mas, na tradição de Candomblé que eu comento, a tradição Ketu (yorùbá), Orixá (Òrìṣà) não fala, ele não vem ao Àiyé para dar consulta ou orientação. Tudo o que é feito em uma casa sai do conhecimento do dirigente e do jogo de búzios, principalmente desse segundo.
Mais ainda, todos os trabalhos, oferendas e ebós são originados do jogo de búzios de clientes, assim como a realização de obrigações para os membros da casa. Dessa maneira quem controla o oráculo controla a porta da casa e as finanças da casa.
Se a pessoa sai da casa que estava, por qualquer razão e decide abrir a sua, vai ter que ter capacidade de usar um oráculo ou não será um Candomblé. O ensino dos Búzios em terreiros é dessa forma uma das coisas mais restritas e seletivas. O processo de formação do sacerdote não é seletivo, a pessoa se candidata, é sempre aceita e segue cumprindo seus anos. Mas, só vai ser alguma coisa se tiver acesso às liturgias, que é algo que pode aprender observando (como todo mundo faz). Contudo, jogar búzios não é assim. Além de aprender, o Candomblé tem a cerimônia de lavar as vistas para a pessoa receber o jogo. Isso só é reservado para quem o dirigente da casa decide dar.
Assim sendo as pessoas que saem da casa sem terem tido a simpatia do dirigente para receberem o ensinamento e decidem abrir sua casa tem que se virar com o que tem e com o que sabem da maneira como puderem, lembrando que nada é de graça.
Em função disso temos muita variação de qualidade no oráculo dentro do Candomblé e o principal tipo de oráculo, aqueles que os Babalorixá (Bàbálòrìṣà) conseguem usar com mais facilidade, é o baseado quase sempre em mediunidade.
Em grande parte dos casos, a quantidade de búzios não se restringe a 16 (como deveria ser), as pessoas usam a peneira, pano ou mesmo o opon (Ọpọ́n ifá) e decoram a mesa com uma pilha de guias que mal sobra espaço para se deixar cair os búzios, a ainda, pedras, cristais, conchas, moedas, favas, figas, pirâmides, velas, copos com água, imagens de orixá, imagens de santos, calendário de são Jorge, as vezes dentes de animais e ossos e por ai vai. Isso tudo é decorativo, não torna o jogo melhor.
Esse tipo de uso lembra muito os oráculos dos Bantu.
Assim os búzios caem, mas, as informações, de verdade, vêm majoritariamente através da mediunidade do olhador. Nesse tipo de uso nem passa pela cabeça de ninguém considerar que se está trabalhando com Ifá ou com Órunmila (Ọ̀rúnmìlà).

O jogo de búzios de orixá (Òrìṣà)

O uso mais tradicional do jogo de búzios no Candomblé é o baseado em orixá (Òrìṣà). O olhador interpreta através da quantidade de búzios caídos abertos, qual o orixá (Òrìṣà) que está falando naquela caída e associa a mensagem a ser falada ao consulente ao arquétipo do orixá (Òrìṣà).
Esta é a forma mais tradicional e original do uso dos búzios. Entende-se que os arquétipos comportamentais dos orixá (Òrìṣà) determinam o tipo de mensagem que deve ser passada ao consulente e também o orixá (Òrìṣà) que está falando no jogo. Alguns olhadores estendem isso e consideram que quem responde é o orixá (Òrìṣà) da pessoa, o que leva a erros enormes.
Os arquétipos comportamentais é uma coisa real no Candomblé, existe de fato, apesar de muita gente questionar a validade disso. Aproxima muito Orixá (Òrìṣà) com signo de zodíaco, onde cada signo corresponde a um comportamento e personalidade. Eu faço parte dos que rejeitam os arquétipos, mas que eles existem, existem (hahahah).
Neste tipo de uso dos búzios o importante mesmo é o orixá (Òrìṣà) que está respondendo. Existem olhadores que chegam a dizer que tal pessoa pertence ao orixá (Òrìṣà) que respondeu nas suas caídas ou mesmo no que mais respondeu. Sem nos preocuparmos com aspectos qualitativos, a consulta gira sempre em torno de orixá (Òrìṣà) e qualquer consideração é feita considerando um ou mais orixá (Òrìṣà).
Além do arquétipo de orixá (Òrìṣà) outros elementos são usados, como proximidade dos búzios com os tai objetos colocados no tabuleiro e também formações gráficas feitas pelas caídas. O conjunto disso forma a mensagem que o jogo, ou seja, a caída passa para o olhador falar. Sem dúvida é uma interpretação muito subjetiva e a maior parte dos olhadores tem um código próprio para interpretar as informações da caída. Algo que eles adquirem com o tempo, aprendem com eles mesmos, com o próprio jogo.
Esse viés do olhador aprender com o próprio oráculo é muito comum e natural. Mesmo com Bàbáláwo e Ifá é a mesma coisa. Claro que os instrumentos são diferentes mas a forma como os Odù se apresentam e se confirmam passa a ser um elemento de interação entre o Bàbáláwo e o seu oráculo.
É importante que todos entendam uma informação importante. A relação entre o Bàbáláwo e o seu Ifá e o olhador e seus búzios é uma coisa viva e contínua. Não existe por parte dos dois, Bàbáláwo e olhador de búzios, um comportamento de mera confiança cega, fé cega, na consulta ao oráculo. Somente um idiota acredita em algo sem ter retorno daquilo que faz, mesmo a fé tem duas vias. Dessa forma, o oráculo desenvolve um comportamento que permite, por diversos sinais e resultados, ao olhador ter certeza de que não está vendo as coisas apenas pelo acaso, o olhador tem a certeza de que está recebendo respostas precisas e confirmadas.
No jogo de búzios tradicional, como citei o olhador desenvolve ao longo do tempo sinais que significam mensagens, formações gráficas e posições de caída. Tudo em uma caída tem significado para o olhador e seu jogo, de forma que a relação dos dois é muito pessoal e particular. Por essa razão temos duas consequências. A primeira é que é impossível a dois olhadores interpretarem o mesmo jogo. A segunda que ensinar a ler búzios também é uma coisa complicada.
Não podemos deixar de lembrar do componente de mediunidade ou vidência. Junto com isso que já descrevi, o componente mediúnico do olhador é um peso importante. Além das informações que ele obtêm no jogo através da caída dos búzios, a mediunidade fornece detalhes importantes para a consulta e esse conjunto faz o jogo de búzios um oráculo extremamente rico em informações para o consulente, quando tudo funciona certo.
O problema do componente mediunidade é que ele é variável e nem sempre funciona a contento. O olhador que fica dependendo disso para jogar terá um problema se a mediunidade não estiver presente e ativa na hora do jogo. Os motivos para isso ocorrer são reais e variados, vão desde ao olhador não ter se preparado direito para o dia de jogo até a espiritualidade do consulente não estar aberta a esta consulta.
Sim, isso é importante de saber. A consulta de oráculo depende sempre do próprio consulente, da sua necessidade. Um oráculo não é um processo de extrair a força informações do consulente, passando por cima do próprio consulente. Um consulente, como todas as pessoas, tem uma espiritualidade que o cerca e o protege. É claro que essa ligação pode estar fraca e dessa maneira o consulente exposto, além disso o consulente foi ali de própria vontade, mas, se o consulente tem uma espiritualidade que o protege, esta pode não estar aberta a uma consulta não desejada.
O consulente pode querer aquilo, mas sua espiritualidade, seu “anjo da guarda” e orixá (Òrìṣà) podem não concordar ou gostar onde ela vai. Nesses casos o jogo estará restrito ou fechado ao olhador que trabalha esperando a mediunidade falar com ele. Já vi isso ocorrer, o olhador fica sem ter o que falar ou erra muito no que fala, chega a ser constrangedor.
Uma saída do olhador, nesses casos, é dizer que o jogo está fechado para aquela pessoa e que ela tem que fazer ebós para isso abrir, ebós pagos é claro. Outra saída que já vi é o olhador falar que existe uma “disputa de orixá” pelo consulente, enfim, várias coisas podem ser inventadas para justificar a ausência da informação vinda da mediunidade.
Porém a saída dos olhadores mais espertos é simples, ele está acostumado com as consultas, sabe o que as pessoas vêm consultar e muita gente, mas muita gente mesmo, fala demais, elas dizem o problema que têm e já dão indicação do que querem ouvir. Não resta muita coisa ao olhador, que quer ganhar dinheiro, do que indicar que deve ser feito aquilo que a pessoa espera que seja dito.
Observem que como citei a Umbanda, não existe de fato muita diferença entre um jogo de búzios na Umbanda e no Candomblé. Usando essa base de Orixá (Òrìṣà), informações da caída e principalmente mediunidade os jogos de búzios feitos na Umbanda e no Candomblé serão muito similares sob o ponto de vista do consulente.
O que vai mudar é que o olhador de Umbanda e Candomblé podem fazer referências diferentes a orixás, são apenas ilustrativas e ao o que fazer como resultado da consulta, mas, em princípio, não espere nenhuma mudança de qualidade entre uma consulta a um olhador de Umbanda e Candomblé. Em ambos os casos eles poderão dar um bom panorama dos problemas que o aflige.
Baseado no conhecimento de cada um e da religião que eles praticam eles vão ilustrar o que falam com mais ou menos histórias e referência que eles conhecem, mas, não espere que vai ter no Candomblé mais informações sobre as suas questões do que na Umbanda. O que importa mesmo é a capacidade do olhador com seu oráculo e a sua qualidade como sacerdote, isto é a qualidade de sua ligação com o divino, o supernatural.
Aliás esse é um fator importante que sempre deve ser considerado pelo consulente, a qualidade da ligação do sacerdote com o divino, com sua religião. É um fator difícil de ser avaliado pelo consulente mas não impossível. A qualidade do oráculo sempre estará ligada a qualidade do sacerdote.

O comércio em torno do jogo de búzios

E o que é isso? Existem sacerdotes e feiticeiros. Existem pessoas dedicadas a sua religião de fato, que se focam em orixá (Òrìṣà) e nas suas liturgias, são pessoas com uma casa que tem atividade permanente dedicada a orixá (Òrìṣà) e atuam de forma ética e sacerdotal de fato.
Existem também os feiticeiros, aqueles que por ego ou importância comercial dizem ter uma casa de Candomblé (terreiro) mas que ali fazem uma prática mista, com consultas de umbanda com exu e pombo-gira, às vezes giras de Umbanda, porta aberta para fazer trabalhos de qualquer natureza ética, incluindo o malefício a outros. Mantêm uma atividade de Candomblé com Xirês voltados para atrair clientes e manter a sua relação social dentro da comunidade de sacerdotes.
A presença de guias de Umbanda não é regra mas também não é exceção, mas sempre é um indicador importante de uma casa voltada para a atividade comercial. O aspecto principal é ter uma atividade de jogo de búzios continua e intensa. Lembro que já disse que no Candomblé quem controla os Búzios controla financeiramente a casa e assim uma intensa atividade de búzios significa mais clientes, mais trabalhos e mais ebós.
Um sacerdote profissional para ter dinheiro precisa trabalhar com os búzios, sem eles ele não ganha dinheiro. Nesse sentido a casa deixa apenas de receber pessoas que precisam de ajuda na vida ou saúde, passa a receber pessoas que querem comprar todo o tipo de facilidade através do supernatural. O perfil do consulente é típico e bem conhecido, os problemas são sempre os mesmos para homens e mulheres.
Os Babalorixá (Bàbálórìṣà) que trabalham assim, colocam sempre muito dinheiro na realização dos seus Xirês de Candomblé. Suas casas são muito arrumadas, os orixá (Òrìṣà) bem vestidos, muitos Ogans e um serviço farto de comida após o xirê.
A presença de outros sacerdotes é importante, para mostrar a sua inserção e relevância no meio, aliás essa troca de gentilezas, de sacerdotes frequentando a casa de outros, é assunto a parte para a psicologia. Existe um círculo próprio desses sacerdotes que devem convidar e serem convidados para os xirês dos outros. Nesses eventos, eles são recebidos com pompa e circunstância, se tornam vistos pela assistência e têm o seu ego inflado, porque são tratados como autoridades.
Mas isso é, majoritariamente, um jogo comercial porque esses grandes eventos nos quais existe um xirê (toque para os orixá (Òrìṣà) são sempre acompanhados de um serviço de comida para toda a assistência. Isso ocorre em dias festivos ou não, na verdade em dias festivos o aspecto laico é maior e, o foco, é a festa e não o orixá (Òrìṣà).
Esses eventos, pequenos ou grandes servem para mostrar à assistência a grandeza e poder do dono da casa. Uma casa próspera é a do sacerdote que trabalha mais, tem mais clientes, ganha mais dinheiro com o que faz e dessa forma sendo o mais bem sucedido será a melhor pessoa para se consultar. Se você tiver um problema para resolver a indicação é ir na casa da pessoa mais bem sucedida.
Os “eventos-Xirês” não existem para manter o axé da casa em atividades, trazendo os orixá (Òrìṣà) para abençoar as pessoas e a casa com sua presença, renovando o axé da casa. Eles existem como obrigação para o atendimento comercial do sacerdote e seus clientes de jogo, são parte da atividade comercial do jogo de búzios.
Esses Xirês são dessa maneira um evento feito para atender aos clientes do dirigente. Não dá para uma casa de Candomblé com foco religioso sustentar uma atividade festiva como a que essas pessoas sustentam.
Um dos componentes, como já citei, desse complexo espetáculo de horrores é a presença de sacerdotes convidados, pessoas igualmente conhecidas, que mostram para a assistência que o dono da casa é conhecido e tem prestígio para trazer outros conhecidos e “famosos”. Os famosos podem também ser os clientes famosos. Tudo isso é parte do espetáculo comercial.
Os espetáculos legitimam o dono da casa, como legítimo e prestigioso sacerdote e também os convidados da mesma forma. Ao ir, os convidados, estão, na verdade, legitimando tudo o que o dono da casa faz. Mas, ao ir, os convidados, também estão se expondo para os consumidores de jogo de búzios. Esse é um círculo vicioso onde você convida e é convidado.
Para essas pessoas, ao se falar de fazer o Orixá (Òrìṣà) de alguém a primeira coisa que tratam é do tamanho da festa, porque a casa tem um padrão e se quiser fazer lá vai ter que pagar uma festa do porte que a casa faz. Essas casas estão continuamente em festa.
O principal objetivo dos feiticeiros é de fato vender obrigações e adquirir filhos de santo. Uma obrigação é muito mais cara do que um jogo e alguns ebós e além disso transforma a pessoa em cliente para o resto da vida.
O importante para esses feiticeiros travestidos de sacerdotes é ter esta atividade vistosa de Candomblé para justificar sua posição. Para eles o importante é atrair clientes e transformar clientes em filhos de santo, na verdade, é o comércio de feituras de orixá (Òrìṣà) que concorre com o comércio principal que é o do jogo de búzios e das consultas com guias de umbanda, normalmente exu e pombo-gira.
Não existe nenhuma razão para uma casa de Candomblé ter dentro de suas atividades o trabalho com essas entidades de Umbanda. Isso não faz parte e apenas mostra que o foco da atividade da casa é comercial. As consultas estarão associadas ao uso de um oráculo de búzios rasteiro, feito para, mais uma vez, dar legitimidade de Candomblé a atividade comercial do sacerdote.
O que ocorre é sempre uma dobradinha, ao consultar o guia de umbanda, ele as vezes pede algum trabalho ou faz alguma coisa ali presente, mas, normalmente indica que a pessoa deve procurar o pai-de-santo em outro horário para ele fazer um jogo de búzios, permitindo ao pai-de-santo cobrar duas vezes (ou uma, as vezes a consulta é de graça ou de baixo valor, sob a alegação de que a Umbanda é caridade), uma pela consulta ao exú e outra pelo jogo de búzios que é de onde vão sair os trabalhos a serem feitos.
O jogo de búzios vira então apenas um complemento da consulta que foi feita pela entidade de Umbanda, sendo usado para indicar os trabalhos cobrados a serem feitos. Esse é um formato muito comum e ruim, é orientado para o comércio.
Todos os sacerdotes que vi serem questionados em porque mantinham consultas e trabalhos com exu e pombo-gira junto com sua dita atividade de Candomblé alegaram a mesma coisa, um discurso comum, que eram muito gratos com aquelas entidades e que não poderiam abandoná-las.
Isso é uma total bobagem.
Elas já teriam virado as costas para elas no momento em que decidiram ir para o Candomblé, onde não existe o trabalho com esses guias.
Eles mantêm os guias por alguns motivos. O primeiro deles é puramente comercial, ganham dinheiro através desse guias de forma muito mais simples do que com uma casa de Candomblé. Além disso dinheiro sem ética porque esses guias são usados para trabalhos sem finalidade ética.
Outro é despreparo. Nada ou pouco sabem de Candomblé e se não tiverem esses guias de Umbanda não vão ter nada para fazer. Outro é porque dizer que são de Candomblé é apenas alegórico, eles gostam de poder dizer que são de Candomblé mas que amam a Umbanda e querem ter e usar todo o aparato decorativo que o Candomblé pode oferecer e que não encontram na Umbanda.
Essas pessoas não amam e nunca amaram a Umbanda. Elas amam o dinheiro.
As indicações da baixa qualidade da relação do sacerdote com o divino passam por isso que expliquei. Esses xirês realizados com muita opulência, seja para festas ou saídas de orixá (Òrìṣà), com muita aparência sempre são uma indicação forte de que aquilo é palco para a casa atrair pessoas. Pessoas que fazem trabalhos de qualquer natureza ética são apenas feiticeiros. Pessoas que anunciam em jornal, gastando assim muito dinheiro na sua promoção terão obrigatoriamente a necessidade de ganhar dinheiro com o que fazem.
Não vou entrar aqui no mérito das dificuldades em ter uma casa de Candomblé funcionando junto com guias de Umbanda, dificuldades do ponto de vista do supernatural.
Os fatores que indicam um bom ou mal lugar para consultar búzios são muito evidentes e simples, alguns podem não saber do que eu disse ou não terem prestado atenção, mas, podem se perguntar, se isso é assim evidente porque as pessoas continuam a ir nessas pessoas? Simples, se merecem, elas estão em busca também da falta de ética.
Não se pode falar de Jogo de Búzios no Candomblé sem falar sobre esse contexto comercial e esse é o motivo de eu citar isso tudo.

O jogo de búzios na Umbanda

Em relação ao que já comentei, abre-se uma questão em relação aos olhadores de Umbanda, que tem oráculos e guias. Na Umbanda as entidades como preto-velhos, caboclos, exú e pombo-gira fazem parte da Umbanda a dão consultas seja nas giras ou fora delas. Sim, esse é o formato da Umbanda e não o do Candomblé, eu citei o que não é certo no Candomblé, mas, o que será certo na Umbanda?
Na Umbanda as entidades é que são o oráculo, elas deve dizer ao consulente o que ele quer saber e se for necessário fazer alguma coisa elas também dizem o que fazer. Posteriormente serão elas mesmas que farão os trabalhos indicados. Essa consulta pode ser na gira ou particular, isso depende da casa, quando existe uma exploração comercial da consulta a entidade em vez de falar tudo o que tem dizer na gira, apenas indica que a pessoa deve voltar outro dia para uma consulta privada. Quando não existe essa consulta comercial na própria gira a pessoa tem sua consulta.
A questão do trabalho a ser feito é diferente, dificilmente vai poder ser realizado na gira de forma que normalmente será cobrado e feito em um dia separado. Isso é normal, mas têm casas que não fazem exploração comercial da Umbanda e fazem os trabalhos na própria gira ou fora dela, sem cobrar nada.
O jogo de búzios entra nesse contexto como um processo adicional, separado da consulta às entidades de Umbanda. É como você fazer a consulta sem que a entidade esteja incorporada. O dirigente opta por trabalhar dessa maneira evitando assim estar continuamente trabalhando incorporado. Se o consulente não conseguiu falar com a entidade, não pode ir no dia de gira ou não entendeu direito o que foi dito ela pode recorrer ao jogo de búzios do dirigente para fazer sua consulta.
Na Umbanda o que não podemos esquecer é que o jogo de búzios não pode substituir ou complementar a consulta com a entidade. A entidade de umbanda é o oráculo e eles devem ter a capacidade de dizer o que é necessário. Em uma casa podem ter entidades que não deem consulta, sendo isso reservado para uma ou outra entidade específica, isso é normal. A designação de qual ou quais entidades falam abertamente é de cada casa.
Uma entidade tem que fazer tudo, dar a consulta, indicar o trabalho e fazer o trabalho. O jogo de búzios é uma opção adicional do dirigente para atender pessoas. Tem gente que gosta ou quer apenas trabalhar incorporado e outras que não querem fazer desta forma e sua participação consciente como sacerdote é relevante importante em uma consulta.
Temos que lembrar que o trabalho incorporado nem sempre é consciente, existem médiuns que lembram de tudo, outros que lembram de lampejos e outros que não lembram de nada. Quando o dirigente decide trabalhar com o jogo de búzios ele está fazendo uma opção de ele mesmo ser o agente da mensagem ou consulta. Isso é reservado para aquelas pessoas que tem mais capacidade como dirigente, pessoas que tem conhecimento e sabem como lidar com consulentes e problemas.
Assim, no caso da Umbanda, o jogo de búzios é opcional, mas mostra um dirigente capacitado para tratar das questões e que não quer deixar isso apenas para as entidades. É claro que tudo tem 2 vias, alguns podem dizer o contrário que o dirigente quer jogar para poder controlar o que vai ser dito e o que vai ser pedido como trabalho. Infelizmente, essa opção, é real.
O mundo real não é simples, não é para amadores. Lidar com a falta de ética e com charlatanismo é muito complicado. As pessoas devem sempre estar atentas a tudo.
O charlatanismo se manifesta na Umbanda desde a forma na qual ha pessoas que fingem, estar incorporados até os que fingem consultar búzios, tudo isso voltado para enganar explorar as pessoas. O que eu lembro a todos é que existem, de fato, os consulentes enganados e aqueles que pedem ou querem ser enganados. A ética do olhador é tão pequena quanta a ética dos consulentes que os procuram, os semelhantes se atraem.
Todo esse ambiente complexo é o oposto de uma consulta de Ifá onde tudo é padronizado para que vários Bàbáláwo possam interpretar juntos a consulta, participando e interagindo entre si e com o consulente. Em Ifá não tem muito espaço para criatividade e mediunidade, o que o Bàbáláwo deve dizer é algo que todos os Bàbáláwo conhecem. Claro que o conhecimento do Bàbáláwo, sua capacidade de interpretar as histórias, sua capacidade de interagir com o consulente para se aprofundar de fato nas questões dele, fará com que consultas de Ifá seja mais ricas e úteis do que outras.
Se você tiver anotado o resultado na consulta, com os Odù que saíram e sua sequência, pode levar a um outro Bàbáláwo, a qualquer tempo, para ele interpretar o mesmo jogo para você.
É claro que Ifá não é exceção ou garantia de qualidade, existem os espertos e enganadores, não se iluda, que podem adotar o mesmo processo de falar e indicar ao consulente o que ele quer ouvir, além da tradicional prática de indicar mais coisas a fazer do que é necessário e falar o que quer falar e não o que o oráculo indica.
O objetivo de citar Ifá aqui, não foi para fazer qualquer juízo de valor, é apenas ilustrar uma diferença em relação a abordagem da mediunidade, onde o formato do jogo de Ifá é feito para a padronização do resultado e a interpretação conjunta e atemporal sem uso da mediunidade, enquanto que o jogo de búzios seja pelo uso da mediunidade ou pelas interpretações pessoais de caídas é um processo mais difícil de ser reproduzido ou compartilhado.
Como já citei e repito, Ifá não é melhor do que o jogo de búzios, é diferente e para abordar problemas correntes da pessoa necessidades imediatas ou para questões litúrgicas envolvendo orixá (Òrìṣà), o jogo de búzios é insuperável. É rico em informações e o componente de mediunidade adiciona informações e valor.

O uso de Odù no jogo de búzios

A forma de interpretar búzios mudou no Candomblé com o uso de Odù. Iniciando na década de 90 do século passado (adoro falar assim), com a introdução do conceito de Odù no Candomblé. O processo já foi descrito, neste texto, e iniciou com o ensino do Yorùbá e o conhecimento dos nativos locais do Brasil de livros de antropólogos estrangeiros documentando a religião, literatura que eles ainda não conheciam.
O estudo do Yorùbá virou apenas um pretexto e passou na verdade a ser usado para conhecer mais essa literatura e entendimento da religião como existia fora do Brasil. O processo ocorreu na Bahia, São Paulo e Rio de Janeiro, mas foi no Rio que esse movimento ganhou volume.
Surgiu, como já expliquei anteriormente, toda uma nova doutrina de Ifá para o Candomblé que não estava ligada às escolas de Ifá tradicionais, de Cuba e Nigéria. Era o Ifá do Candomblé, a nossa legítima jabuticaba. O texto anterior explica isso com riqueza de detalhes e aqui faço apenas a menção histórica desse fato e momento.
Observem que nessa época não havia aqui no Brasil nem o Ifá cubano nem o Nigeriano e o Candomblé criou o seu próprio conhecimento de Ifá.
Não vou deixar de mencionar que no Brasil já existiram Bàbáláwo, mas, os existentes, morreram sem dar continuidade a formação de novos. Órunmila (Ọ̀rúnmìlà), Ifá e Odù nunca foram desconhecidos ao Candomblé, que é muito completo em seu conhecimento, mas, eram conhecidos e não interiorizados nos ritos.
Conversando com pessoas do nordeste, essas me disseram que o sítio Nago de Pai Adão no Recife tinha uma ritualística ligada a Órunmila (Ọ̀rúnmìlà). O tema é conhecido mas não tem documentação consistente sobre a qualidade ou origem disso, o que se sabe é que havia isso e ponto. Alguns poucos e fracos trabalhos acadêmicos mostram no máximo um jogo de búzios voltado para Orixá (Òrìṣà).
Lembrando a todos que os Nagô não são parte do Candomblé, são uma tradição separada da matriz afro-brasileira. Aliás o nordeste tem manifestações distintas e ricas da religião afro-brasileira, como o Nago, o Tambor da Mina, a casa Fanti Ashanti e a Casa das Minas. Essa última sem descendentes e que deve acabar.
Uma grande diferença na manifestação religiosa do Maranhão é que foi para lá toda uma corte completa, que foi expulsa do território Jeje e levou rei, rainha e sacerdotes. Não se tratava de escravos e sim de pessoas livres, com um aparato completo e consistente da religião.
Voltando ao Candomblé, em torno da última década de 90, haviam 2 fontes de informações sobre Odù que foram usadas para compor a base do Ifá do Candomblé. A primeira foi o livro do Bernard Mapouil, “A advinhação na antiga costa dos escravos” e a segunda foi o material de Agripina Souza, entender isso é a base para compreender o que se faz hoje no Candomblé.
O texto de Agripina Souza, do Òpó Àfònjá, compostos de manuscritos sem origem definida mas que eram descritos com tendo origem na tradicional oral Yorùbá, trazida da África para o Brasil.
Esse material era composto por um conjunto de história para cada um de 16 Odù, nomeados como falado no jogo de búzios no Brasil, lembrando que existem variações no nome de Odù usado nos búzios entre todos os lugares que existe o Jogo.
Esse material manuscrito esteve na mão de algumas pessoas que os publicaram. Verger os usou, Wilifried Feuser também em um livro junto com José Martiniano da Cunha. Nesse caso o material devia ser do Martiniano, mas Wilifried corretamente citou como pertencendo a Agripina.
Depois o material foi duplamente publicado, quase simultaneamente, por Reginaldo Prandi que o obteve de Agenor Miranda e por José Beniste.
O Prandi foi apenas quem publicou em livro citando como fonte o Agenor. Agenor que fez fama no Candomblé devido a ser iniciado, olhador de búzios e professor do Pedro II em uma época que pessoas de Candomblé mal tinham seu estudo básico concluído, tinha o mal habito de criar histórias sobre si mesmo, inventar cargos e obrigações. Ele tinha seus méritos mas usava sua posição para inventar o que não tinha e o que não era. Nesse caso, disse que o material era dele, uma mentira crassa (ele tinha esse hábito de mentir) uma vez que o material era de Agripina e não era inédito.
José Beniste publicou referências a esse material, não a transcrição integral em seu livro O Jogo de Búzios. Ele obteve o material diretamente de Agripina a quem era ligado no Opo Afonja (ele era Ogan do terreiro) e citou no livro que sua fonte, o material sobre Odù pertencia a ela Agripina.
Esse material compunha um viés mais clássico de origem Yorùbá de fato, mas, não eram instruções de como jogar búzios através de Odù. O Material de Agripina eram apenas histórias ligadas aos Odùs e que para serem usados, de acordo com o método de Ifá devem ser interpretadas.
O material de Agripina, dessa maneira, mais clássico em relação a origem Yorùbá, tinha pouca utilidade para os olhadores locais. Ele não era absolutamente completo, até porque o acervo de Ifá é muito maior do que aquilo, mas, já era uma base para o caminho correto. Além disso o material não explicava como devia ter ser usado.
Não tenho dúvida que a maior parte das pessoas que os olhou não entendeu o que fazer com aquilo.
José Beniste em seu excepcional livro se preocupou em explicar o método de Bamboxê (Bámgbóṣé) e como as histórias deveriam ser usadas. O livro do Beniste é uma base fabulosa e único material brasileiro que documenta o método de jogar búzios com Odù que foi deixado por Bamboxê (Bámgbóṣé).
O método de Bamboxê (Bámgbóṣé) não foi o formato mais popular do jogo de búzios, sem dúvida era o que mais se aproximava de Ifá, seja pela mecânica de jogo como pelas histórias e forma de interpretar, mas, como tudo o que é complexo não fez sucesso. Além disso não havia quem pudesse explicar isso para outros, apenas pessoas ligadas as casas aprendiam, aliás como era o formato do Candomblé.
É importante observar que as 2 publicações que citei apenas transcreveram as histórias dos Odù, somente o livro do Beniste explicou como se usava os búzios com aquelas histórias.
Em relação as variações no nome de Odù no jogo de búzios o Reginaldo Prandi escreveu um bom texto que documenta isso e está publicado no livro “As senhoras do pássaro da noite”. Não existe, no jogo de búzios, uma nomenclatura comum para os Odù de cada caída. A maior parte das caídas recebe o nome de Odù Méjì, mas, várias caídas recebem o nome de ómon odu (Ọmọ Odù), Odù filho. Os nomes, como citei mudam, e um dos motivos é a falta de entendimento no ouvir e falar, mudam apenas porque são falados errados e de uma pessoa para outra acabam virando outra coisa. O Beniste uma vez fez um comentário muito curioso, ele disse que muita gente no Candomblé de antigamente não tinha os dentes da frente e vários outros e essas pessoas falando aquelas palavras elas viravam outras.
O texto do Prandi foi publicado no livro “As Senhoras do Pássaro da Noite”, uma excelente coletânea de textos reunidos por Carlos Eugênio Marcondes.
Devido a essas grandes dificuldades o principal material que gerou a forma de interpretar Odù que o Candomblé usa, foi baseado no livro do Mapouil.
As pessoas que tomaram contato com esse livro na década de 90, em Francês, aproveitaram o desconhecimento do livro e a dificuldade em ler o livro em Francês, para traduzir o seu conteúdo e gerar a partir dele o método de Ifá do Candomblé. Vários autores usaram a mesma fonte ou apenas se copiaram reproduzindo Odù da forma como esta no livro.
E foi ai que nasceu nossa jabuticaba.
Posso destacar uma referência importante que foi Antônio Penna com seu Meridilogun Kawrí (cujo título já é uma agressão a língua Yorùbá, porque está errado), além de outros como o Fernandes Portugal e o Adilson, entre outros (esse publicaram livros), como precursores da nossa Jabuticaba. O que eles produziram principalmente o livro do Penna, que foi o mais conhecido, reflete o livro do Mapouil e virou o padrão do Candomblé.
A partir desse material do Mapouil vários outros foram produzidos na forma de apostila e adotados gradativamente pelos sacerdotes de Candomblé. Em um momento do Candomblé haviam os que jogavam os búzios da forma normal, por orixá (Òrìṣà) e os que faziam por Odù, esses por Odù passaram a ser os mais conceituados. A diferença principal é que os que jogavam por Odù tiveram acesso e leram para aprender, os demais ou não tinham acesso ou não conseguiam ler e entender para poder mudar o seu jogo.
Jogar ou não por Odù não mudava a qualidade do jogo de búzios, apenas gerava um diferencial que aproximava o jogo de búzios de Ifá.
O cenário foi mudando e o jogo por Odù se transformou em uma exigência mercadológica e todo mundo passou a jogar por Odù, mesmo que no fundo continuasse a usar a referência de orixá (Òrìṣà), ele tinha que dizer que estava jogando por Odù. Apesar de nomear os Odù na caída, as pessoas associavam o Odù a orixá (Òrìṣà) e dessa forma continuavam a fazer como faziam antes. Teve gente que adicionou interpretação outros apenas adicionaram nomes e problemas.
O problema nisso é que o livro do Mapouil não trata do contexto Yorùbá. É um livro feito baseado no Dahomey, no Fá. São fartas as referências geomânticas, que podem ter sido a origem do Ifá, como muitos alegam, mas que os Yorùbá já as haviam abandonado.
Dessa forma o Candomblé adotou como Ifá na verdade o Fá do Dahomey e é por isso que quando chegara aqui os cubanos e Nigerianos vimos que era muito diferente.
Haviam outros 2 livros na época que podem também ter sido usados, eu não creio, que era o livro da Judith Gleason, “A Recitation of Ifa, Oracle of the Yorùba” e o livro do Bascom, “Ifa Divination”. Contudo esses livros eram bem mais complicados porque representavam bem o Ifá Yorùbá e isso não era muito complicado para os nativos locais entenderem (o livro da Judith é bem complicado). É igual ao material da Agripina. O foco nas histórias não era o que interessava às pessoas, elas não entendiam o sentido disso. O livro do Mapouil era mais direto e objetivo com significados diretos aos Odù e desta maneira fácil de entender e usar.
Um outro material que faz bem parte do nosso Ifá do Candomblé foi publicado pelo Doté Heraldo de Xango, que em edição própria publicou “Um mistério Chamado Odu” e “Um Mistério Chamado Odu II”. O primeiro livro é pequeno e é bem a repetição simplificada do material de Odù compilado do Mapouil, mais do mesmo, mas o segundo é uma publicação bastante interessante. Representa um material sobre ebós de Odù que contempla trabalhos para os 16 Odù.
Esse material é muito especial eu já vi uma versão manuscrita do mesmo que foi possivelmente a fonte que o Heraldo usou. O Heraldo produziu um bom livro desses ebós que representam a forma como o Candomblé tratava Odù. A versão do Candomblé para Odù é que os ebós de Odù nunca levam sangue, não tem sacrifício animal e não podem ser feitos de noite.
Os ebós compilados pelo Heraldo são uma coleção de oferendas muito relacionadas com a relação Odù-Orixa que é muito básica no Jogo de Búzios por Odù. Assim como o jogo de Odù associa uma caída de búzios com orixá (Òrìṣà) o Odù no Candomblé também associa orixá (Òrìṣà) com Odù, de forma que temos a mesma coisa: caídas = orixá (Òrìṣà).
Esse material do Heraldo é a única referência escrita e de fácil acesso que conheço com esse acervo inestimável de ebós de Odù. Eu joguei búzios por um longo tempo e usava esses ebós de Odù que são muito bons.
Apesar desse Ifá brasileiro que o Candomblé desenvolveu ser uma jabuticaba e ser baseado no Fá, ou melhor ser basedo no que está no livro do Mapouil, isso não tira a sua funcionalidade e efetividade.
Os jogos efetivamente funcionam e igualmente os ebós. Nós apenas desenvolvemos um Ifá aqui do nosso jeito.
O que o Odù adiciona nesse jogo são interpretações, significados. Na forma original a caída é associada ao orixá (Òrìṣà) e o significado disso é o arquétipo do orixá (Òrìṣà). Esse modelo tem que ser complementado pela mediunidade e pela formação gráfica senão fica sem sentido para o consulente.
Contudo o melhor material sobre o uso de Odù no Candomblé é obtido através de uma apostila apócrifa chamada “ODÚ: ÒMÓ ODÚ, REZAS, MÉTODOS, CARACTERÍSTICAS, PERSONALIDADES E ÒRÌSÁS”. Esse material supera tudo o que foi escrito e publicado em livros. É um material completo em todos os aspectos e é de graça.
Se você quer conhecer como é o jogo de búzios por Odù pelo método tradicional usada de forma geral, incluindo o uso de numerologia (que não faz parte de Ifá) você encontra nessa apostila. Os demais livros que eu listei são desnecessários, exceto o segundo livro do Heraldo de Xango, que continua sendo insubstituível.
Um dos elementos externos trazidos no Ifá do Candomblé é a numerologia e tem gente que inclusive faz Odù só com números, a partir de nome, de data de nascimento, etc... Aliás, não existe essa relação de Odù e número, isso foi um sincretismo. Dessa maneira não tem nenhuma utilidade fazer contas com nomes e data de nascimento e querer associar isso à pessoa. Inclusive é muito comum se usar a expressão de se determinar o Odù de nascimento através da data de nascimento. Isso é tão verdadeiro como se determinar o orixá (Òrìṣà) da pessoa de acordo com o dia da semana em que ela nasce, ou seja, não existe isso.

Os Ogãs e o jogo por Odù

No Jogo com Odù a caída ganha outro significado, um significado próprio e o orixá (Òrìṣà) é adicionado a isso. As formações gráficas da caída ainda são relevantes e a mediunidade complementa. O jogo por Odù, dessa maneira dá ao olhador mais tranquilidade e menos dependência à mediunidade, na verdade o jogo por Odù trouxe para o jogo de búzio um novo grupo de olhadores, os Ogans, que no modo anterior não tinham espaço devido ao método e com o uso de Odù ganharam outro significado.
A estruturação do jogo através de Odù, usando o método do Fá, permitiu que pessoas que não usavam a mediunidade passassem a usar com muita tranquilidade e eficiência o oráculo dos búzios. Com o Odù o olhador não depende mais de mediunidade, mas, ainda conta com intuições, que é a sugestão mediúnica. Nem tudo de um jogo está na mesa, a intuição do olhador trabalha junto, mas, ter uma mediunidade de intuição é algo que muitas pessoas têm e adquirem.
Claro que como tudo o que se faz no contexto sacro isso depende de designação, preparação e estudo, você tem que ter a legitimidade do divino, dos orixá (Òrìṣà) para os representar em um oráculo, mas é algo que é acessível, principalmente para Ogãs que são preparados.
Não me referencio a Ogãs como aqueles que tocam os tambores, esses, os tocadores de tambor e alágbè, são um tipo particular, que na maioria das vezes não são exclusivos de uma casa, tocam onde se paga para tocar e tem muita mobilidade. Os tocadores de tambor são importantes mas não necessariamente preparados. As casas têm outro tipo de Ogã que até pode tocar mas pertencem ao Egbe (Ẹgbẹ́) da casa e são preparados iniciaticamente para funções sacras e liturgias.
Esse grupo de pessoas, preparadas e dedicadas, acabava naturalmente tendo outras aspirações na religião e buscavam aprender o jogo de búzios. Eu já mencionei esse caso antes, neste texto, e isso era um problema em uma casa porque concorreria com o sacerdote principal, mas, fora da casa muitos Ogãs tinham essa atividade e eram tolerados pelos sacerdotes.
Esse grupo de olhadores que não eram sacerdotes incomodavam muito gente. Muitos babalorixa e Iyalorixa não aceitavam essa situação e os criticavam com algum cuidado, uma vez que eles eram legítimos na religião e eram representantes diretos de orixá (Òrìṣà).
Essa é uma situação importante de ser mencionada.
Um Ogã é uma pessoa que pertence a uma casa, está diretamente ligado a ela, mas, não tem dependência da casa, ele não está ligado ao sacerdote da casa como estão os ìyawó, Abian e égbon (Ẹ̀gbọ́n). Os ogãs são escolhidos por Orixá (Òrìṣà) e dessa maneira são ligados ao orixá (Òrìṣà), serão Ogãs em qualquer lugar que forem, sendo que normalmente sua presença é reconhecida pelo orixá (Òrìṣà) manifestado. Eles podem e devem fazer o que o sacerdote pede, desde que isso não vá contra o que o orixá (Òrìṣà) quer. Um Ogã responde ao orixá (Òrìṣà) que o escolheu e não deve obediência a um sacerdote acima do orixá (Òrìṣà). Além disso um Ogã pode até participar de mais de uma casa (não é comum) e tem liberdade de ir e vir.
Devemos entender que a denominação Ogã é as vezes usada genericamente. O Ogã de fato é aquele que foi escolhido como tal por um orixá (Òrìṣà). Ele é suspenso pelo orixá (Òrìṣà) e depois é confirmado como tal, manifestando na confirmação a sua opção pela escolha feita. Como Ogã ele já é considerado um “mais velho” e não tem que cumprir nem os anos nem as obrigações de iniciados normais.
Depois de escolhido a ele poderão ser designadas ou não em uma casa para funções sacras. Uma casa tem muito poucos Ogãs, o processo de escolher um Ogã pertence a um orixá (Òrìṣà) e é bem seletivo. Ogã não é um nome genérico que se dê a uma pessoa que pertença a uma casa, homem, e não rode de orixá (Òrìṣà), Ogã é uma escolha, um cargo dado por designação divina. Tem muita gente que é chamada de Ogã sem ser de fato.
Existem Ogãs que tocam, que são apenas isso, tocadores de tambor. São importantes, uma casa não funciona sem eles mas eles não precisam ser da casa para tocarem, hoje em dia com a falta de Ogãs, muitos sacerdotes têm que contratar o trio ou quarteto de tocadores. Note que, genericamente um tocador de atabaque é um Ogã, mas, não necessariamente ele foi escolhido para ser isso, ele pode ter aprendido a tocar atabaque e passado a ser tratado como Ogã.
Existem Ogãs que são escolhidos pelo dirigente por sua conveniência ou necessidade. Mesmo sem terem sido indicados pelo Orixá (Òrìṣà) o sacerdote faz a liturgia de confirmação. Isso ocorre por afinidade ou porque o sacerdote precisa. O que é estranho nisso é, por que o orixá (Òrìṣà) não o escolheu, mesmo sendo necessidade do sacerdote?
Temos também um caso muito interessante que são os Ogãs escolhidos por encomenda, geralmente pessoas importantes e que recebem o cargo honorificamente. Para esses casos, incrivelmente o orixá (Òrìṣà), no dia marcado e esperado, suspende o Ogã. Isso é curioso porque normalmente não se consegue prever quando um orixá (Òrìṣà) vai escolher e suspender um Ogã e desta forma isso beira a enganação.
Mas considerando o grupo legítimo, o dos Ogãs que foram escolhidos pelo Orixá (Òrìṣà) eles são os legítimos representantes destes e tem o seu axé (àṣẹ́)
Por essa razão é que os Ogã podem pegar em um jogo de búzios. Se o orixá (Òrìṣà) deu essa faculdade para eles, ser Ogã e também ter o jogo, eles podem usá-la. Não poderão fazer isso na casa do sacerdote porque a casa é dele e dificilmente ele vai permitir mais alguém na casa dele jogando, mas podem ter sua própria prática independente, apesar de os sacerdotes criticarem ou questionarem, eles tem legitimidade. Descobrir se o orixá (Òrìṣà) os suporta no uso do Jogo é uma coisa que o Ogã tem que descobrir por si mesmo. Ser ogã não condiciona ninguém a automaticamente poder jogar búzios.
A reação dos sacerdotes contra os Ogãs que jogam esta ligada a competição no mercado comercial do jogo de búzios, além disso, a maior parte dos sacerdotes se considera o todo poderoso do Candomblé e não admitem que outro tipo de pessoa possam competir com eles e com seus poderes.
Observe que em uma casa é o sacerdote que dá o acesso ao elegun, o filho de santo, a faculdade de usar o jogo de búzios. Tradicionalmente isso é um poder transferido, é um axé que é dado por liturgia controlada pelo sacerdote. Mas, no caso dos Ogãs, isso não ocorre.
Apesar de antes do advento dos Odù no jogo de búzios existirem Ogãs que os usavam, esses eram poucos. O maior volume de entrada foi com a estruturação que o uso de Odù possibilitou seja para a consulta como para os ebós e que possibilitou olhadores que não dependiam mais de mediunidade, no máximo de intuição e, claro, o conhecimento da forma de jogar. Sem o uso de Odù o jogo pelos não médiuns fica bem complicado.
Hoje no Candomblé a forma majoritária de jogar é através de Odù. Seja usando a interpretação do Odù como apenas usando o nome e fazendo a interpretação por orixá (Òrìṣà) e mediunidade, mas, todo mundo diz que usa Odù. Em torno de Odù criou-se uma nova área de conhecimento no Candomblé com coisas boas e invenções.
Na área das invenções temos as pessoas que tratam os Odù como se fossem divindades e as que por essa razão fazem assentamento de Odù, principalmente do Odù Obara para atrair prosperidade. Isso tudo é outra jabuticaba do Candomblé.

E o jogo por Odù funciona?

Perfeitamente.

Não existe dependência de mediunidade para se usar o oráculo como muitos podem achar, existem dependência do divino.

O mecanismo mais interessante nisso tudo e muito estranho e louco de entender é a ligação do olhador e seu jogo. O supernatural é muito interessante. O jogo se adapta ao olhador, aos seus critérios, conhecimento e forma de jogar.

O uso por Odù cria para todos um método de jogo e interpretação comum e o oráculo se adapta a esse conhecimento do olhador, passando a se configurar dessa maneira. Não existe oráculo sem intervenção do supernatural, no nosso caso, a que consideramos ser divina, porque nós acreditamos que vêm de nossas divindades.

Não existe oráculo sem fé, aliás, o oráculo é a maior demonstração de fé que pode existir, é um ato de fé de 2 pessoas, a que joga os búzios e a que se consulta. O oráculo só existe porque se estabelece uma relação de Fé verdadeira entre o olhador e seu instrumento e entre o consulente e o olhador.

O olhador para jogar búzios tem que ter conhecimento do método do jogo e interação com o supernatural. Existe um período de aprendizado do método do jogo que é antecedido pela coisa mais importante que é a ligação supernatural-olhador ou divino-olhador. Sem essa ligação o oráculo é impossível.

Com o aprendizado de um método, a ligação supernatural-olhador se ajusta a ele e com treino e prática o olhador desenvolve o seu oráculo baseado em uma interação com comportamentos definidos para as caídas e isso substitui a dependência de mediunidade para usar o jogo de búzios.

Para quem joga dependendo apenas de mediunidade isso deve ser um impacto ou barreira. Imagine uma pessoa que quando joga búzios, na verdade, está usando usa mediunidade, é sua vidência que fala com ele. Essa pessoa, que joga assim, tem que passar a acreditar que, de fato, ao deixar cair os búzios é o supernatural que define como eles caem.

Já vi bom olhadores que nunca ensinou ninguém a jogar. O motivo era óbvio, como ele vai ensinar alguém a jogar se ele joga com sua mediunidade?

O impacto da chegada de Ifá

Com a chegada dos cubanos e africanos no Brasil no final de década de 90, houve lentamente uma alteração no panorama de consulta ao oráculo. Eu já tratei disso anteriormente e não voltarei ao tema, mas, existem coisas ainda a serem ditas.
O primeiro comentário é que aquelas pessoas que criaram a nossa jabuticaba de Odù, que foram o Penna, o Portugal e o Adilson (entre outros), que editaram livros e outros que fizeram apostilas, todos posteriormente se iniciaram em Ifá e deixaram de usar os materiais que criaram e promoveram. Essas pessoas simplesmente, deixaram isso para trás e foram atrás do Ifá tradicional, iniciando com cubanos e depois procurando os africanos.
Esses brasileiros, autores dos livros e apostilhas, que já conheciam o Ifá que o candomblé criou e com um pouco de convivência com o Ifá cubano logo perceberam que ele era apenas um pouco melhor do que o que eles já faziam no Candomblé e de olho no mercado consumidor foram para o Ifá Nigeriano, que os legitimava mais, por ser africano. Essa é uma característica básica dos oportunistas, não estão interessados na prática e sim na forma.
Adilson Martins, o Adilson de Oxalá, se iniciou no Ifá cubano mas teve como signo de awofakan Ogbe bara e esse signo no Ifá cubano não permitia que a pessoa fosse Bàbáláwo. Isso foi um grande impacto para ele. A saída foi procurar no mercado de São Paulo os Bàbáláwo nigerianos (inicialmente o Rio era um mercado dos cubanos e os nigerianos foram para São Paulo) que o iniciaram como Bàbáláwo. Os nigerianos quando estão fora da Nigéria e Benin não querem saber de regra nenhum eles iniciam qualquer coisa para qualquer coisa, o que eles querem é dinheiro.
O Penna foi iniciado em Ifá e teve como signo Irete Meji, O Portugal tambem se iniciou com signo Odi ka.
Heraldo de Xango era Babalorixá (Bàbálórìṣà) e assim permaneceu.
E esse foi o destino dos principais criadores do Ifá do Candomblé, todos eles procuram o Ifá tradicional e deixaram suas obras feitas como estavam e fizeram outras mais africanizadas ou cubanizadas.
Assim a jabuticaba brasileira perdeu seus precursores (ou inventores) continuou sendo usada e difundida através da mãos de outros, os Babalorixá (Bàbálórìṣà) e Iyalorixá (Ìyálòrìṣà) e Ogãs que passaram a usar no seu jogo de búzios a interpretação de Odù.
Ficamos assim com uma situação interessante aqui no Candomblé, que eu quero comentar porque é bem diferente do que existe em Cuba. Em relação as tradições da diáspora no novo mundo Cuba e Brasil são um paralelo comparativo interessante sempre de se fazer, mais ainda porque os cubanos estão vindo para cá.
Lá o jogo de búzios usa os patakis (estórias) que eles criaram para o seu Ifá, como devem saber, os Cubanos não usam os versos tradicionais de Ifá, eles criaram estórias próprias, patakis que são totalmente adaptados a sociedade, a sua cultura e forma como veem a teogonia da religião. Esses patakis não são únicos entre o Ifá e o culto de orixá (Òrìṣà), mas, são altamente compartilhados.
Destaco a existência dos patakis porque os Cubanos mudaram bastante a teologia e teogonia em sua tradição religiosa. Uma tradição religiosa de fato adapta e melhora a cultura e povo onde ela se assenta, é uma evolução da prática da religião, mas, os cubanos, na minha avaliação foram além disso.
Entretanto, voltando aos oráculos, sem dúvida o jogo de búzios cubano é bastante influenciado pelo Ifá cubano e, como aqui, existem variações na forma de jogar e tem algumas formas muito similares com o ifá no que diz respeito ao uso de Odù.
Aqui no Candomblé essa compatibilidade não existiu. Pelo lado do método de Bamboxê (Bámgbóṣé), existe, mas, pelo lado mais popular, do Odù que derivou do Maupoil, é bem distinto do que verificamos quando o Ifá veio para cá. É certamente isso que fez os precursores do Jogo de Búzios com Odù do Candomblé deixarem isso para trás e procurarem o Ifá tradicional.
O Ifá cubano e depois, também, os africanos, têm inundado o Rio de Janeiro de iniciados para Ifá. É uma multidão de awofakan e apetebi (Apẹ̀tẹ̀bí), incluindo Iyalorixás que incrivelmente procuram Ifá para virarem apetebi (Apẹ̀tẹ̀bí), que é uma função inferior a que ela já tem.
A razão para essa procura de Ifá é simples, com um processo curto e pago a pessoa que não era nada passa a ter um título para se autodenominar. Nada especial a pessoa precisa fornecer, nem capacidade, nem tempo nem designação divina, ela tem apenas que ir numa consulta onde invariavelmente vão dizer que ela pode ou que deve se iniciar, pagar por aquilo e em 3 dias viram Awofakan. Com um pouco mais de dinheiro e 7 dias viram Bàbáláwo.
Depois vão ter que aprender alguma coisa e podem sair por ai dando consulta com oráculo (ou não, as vezes basta o título).
No Candomblé isso, como expliquei é impensável. Relembrando, para você pegar em um jogo sendo iniciado, somente depois que cantar os seus 7 anos (isso pode levar mais de 7 anos para ocorrer) e se o sacerdote o ensinar e lavar suas vistas. Essa é a forma correta disso ocorrer.
A pessoa tem que ter o suporte do sacerdote e claro vocação divina para aquilo, suporte dos orixá (Òrìṣà) seja para olhar os búzios como para ter vidência. Eu já vi alguns sacerdotes que não tinham jogo, como também, iniciados que viravam egbon sem receber o jogo, isso não era automático ou obrigatório.
O grupo dos Ogãs era outro que lateralmente se destacava, eram iniciados, tinham designação divina porque seletivamente tinham sido escolhidos e buscavam aprender e jogar os búzios, mas, mesmo assim, era pequeno número de Ogãs que jogavam, se envolver nisso era muito seletivo, é possível, mas envolve ter a vocação, ter o suporte de orixá (Òrìṣà), aprender e ter tempo e lugar para praticar, tudo isso sozinho sem ninguém para apoiar.
Observe que no caso do Candomblé as pessoas que legitimamente lidam com o oráculo são um grupo muito selecionado. Existe um processo de seleção natural que passa pelas iniciações, a vocação, designação e aprendizado amplo da religião e do supernatural.
Quando uma pessoa pegava o jogo para usar ela já tinham muitos anos de formação na casa, já tinha amplo conhecimento de orixá (Òrìṣà) e suas características e manifestações, conhecia os ebós e demais liturgias, tinha participado de vários casos e situações, conhecia folhas, tinha recebido o axé através de suas obrigações de formação e principalmente tinha suporte de retaguarda.
O mesmo ocorria com os Ogãs, eles eram pessoas designadas por orixá (Òrìṣà), cumpriam obrigações e participavam de tudo em uma casa em um processo de formação e aprendizado muito mais acelerado do que os eleguns, porque eles não esperavam os 7 anos para participar das liturgias e aprender.
Um olhador de búzios do Candomblé que cumpriu legitimamente seu tempo para isso é uma pessoa preparada em todos os aspectos, principalmente a designação divina, porque é uma pessoa que foi previamente escolhida pelo divino.
Vejam, eu citei antes que existem olhadores de búzios fora do Candomblé e principalmente os que usam majoritariamente mediunidade para jogar búzios, essas pessoas de Umbanda ou videntes em geral não fazem parte desse grupo de olhadores de Candomblé que para ter acesso ao jogo de búzios passou por anos de iniciações a aprendizado. O processo deles é diferente a sua vidência é nata.
Tenho que ficar lembrando isso o tempo todo no texto porque o mundo real é complexo, as coisas não são binárias.
O que o Ifá cubano e nigeriano fazem é o oposto disso.
A abordagem que esses estrangeiros trouxeram, aos meus olhos, é absolutamente comercial. Pode ser que na terra deles os critérios sejam outros, aqui não tem critério nenhum.
Não podemos desconsiderar que esses migrantes vêm atrás de dinheiro para viver ou para ganhar. Os cubanos vêm morar aqui e precisam viver disso. Os nigerianos nem sempre vêm morar, a maior parte vêm ganhar dinheiro e volta. Não vai ser apenas fazendo consulta e ebó que vão ganhar dinheiro, as iniciações dão muito mais dinheiro.
Eu imaginava que um Bàbáláwo teria que ser selecionado por escolha divina de Órunmila (Ọ̀rúnmìlà), como no Candomblé e que o iniciador deveria, apesar disso, escolher quem ele acolheria para ter o compromisso de ensinar essa pessoa, tipo aquelas relações mestre-aprendiz. Ilusão minha, não é nada disso. O processo é bem simples.
A pessoa vai no jogo e logo o Bàbáláwo fala para ele que ele têm que ser iniciado ou que pode ser iniciado. No ifá cubano um monte de Odù tem até mesmo a indicação de que a pessoa como parte da solução de seus problemas deve ter o seu próprio Ifá. O Bàbáláwo é o primeiro incentivador a iniciações.
A venda de iniciações é muito mais lucrativa do que ficar apenas fazendo jogo e ebó.
Os cubanos têm um processo comercial bastante interessante. Eles começam com a formação do sacerdote iniciante, o noviço, chamado de awofakan. Assim em qualquer jogo comum ele pode dizer que a pessoa pode ser awofakan ou apetebi. Qualquer um pode ser, isso é distribuído a granel. É o que eles chamam de “adoradores” de Ifá.
Contudo não dá acesso a nenhum aprendizado especial, se quiser aprender algo, têm que pagar ao Bàbáláwo para ele te ensinar e ele além disso vai ficar fazendo ou inventando um monte de cerimônias complementares para serem feitas. Um awofakan é como um iyawo, é um cliente cativo. A mim isso parece muito mais um processo de escolha arbitrária do Bàbáláwo ou do consulente do que do divino.
Para ser um Bàbáláwo a pessoa tem que ter feito o awofakan e depois gastar bem mais dinheiro, mas, é um processo de apenas 7 dias. Não é barato, mas, muito mais barato do que se tornar um égbon (Ẹ̀gbọ́n) no Candomblé que além de dinheiro exige muito tempo e sacrifícios pessoais.
Esse processo de Ifá cria uma fábrica de Bàbáláwo. Como é típico dos cubanos mesmo sendo Bàbáláwo você precisa ir comprando mais cerimônias e assentamentos. Entretanto, não existe seletividade no processo de fabricação de Bàbáláwo. A pessoa com dinheiro e vontade pode obter o que quiser.
Isso não é diferente do processo de inciar pessoa para orixá (Òrìṣà) no Candomblé. É a mesma coisa, o Babalorixá (Bàbálórìṣà) pode em um jogo “catar” qualquer um para ser iniciado dizendo que orixá (Òrìṣà) quer ele e aquilo é a salvação da vida dele. Só que, no caso do culto de orixá (Òrìṣà), você não forma alguém e dá um título de Babalorixá (Bàbálórìṣà), você faz iniciados que podem a vida toda se dedicarem apenas a isso, ser um iniciado.
O processo de seleção natural em uma casa de Candomblé é bastante apurado, somente pessoas com dedicação, vocação e tempo adquirem funções em uma casa, a maior parte pode passar a vida toda apenas participando da casa.
Vejam, a busca de gente para iniciar é feita tanto no Ifá como no Candomblé, não dá para dizer que sejam diferentes.
A grande diferença para o grupo do Candomblé em relação a Ifá é que lá o processo passa pela intervenção divina, seja pelo grupo dos elegun como pelo grupo dos Ogã. O divino manifestado no iniciado é que legitima a escolha das pessoas.
Além disso é um processo longo, para você ser alguma coisa vai levar muito tempo.
O processo de Ifá é uma de fábrica de iniciações, motivadas pelas pessoas ou pelo Bàbáláwo, produz é um grupo de pessoas pouco preparadas, com pouco ou nenhum conhecimento de Orixá (Òrìṣà), liturgias e folhas e pior que se metem com isso a tirar suas frustrações do culto de orixá (Òrìṣà).
Eu participei dos 2 cultos e não tem comparação, no Ifá tudo é muito mais simples para a pessoa rapidamente ganhar um título.
Dessa maneira, na minha visão, a chegada do Ifá no Brasil não serviu para melhorar a qualidade do oráculo, ou da religião, pelo contrário, abriu mais uma comércio de jogos, ebós e iniciações.
O fato de antes não termos Bàbáláwo e agora termos, não fez nenhuma diferença para os cultos de orixá (Òrìṣà) que continuam a ter um processo seletivo muito mais qualitativo.
Em relação aos consulentes, apenas abriu-se um novo grupo de olhadores de oráculo, com os mesmos defeitos dos anteriores.
Veja não vejo muita diferença entre uma consulta de meia hora com um olhador usando búzios ou com um Bàbáláwo usando Opele (Òpẹ̀lẹ̀) e falando de Odù através de pré-interpretações. Na verdade acho que a consulta com búzios é até mais rica, em informações, para o consulente.
Eu vejo sim diferença entre búzios e Ifá se o Bàbáláwo usa os Ikin e faz consultas que duram de 3 a 4 horas, contando e interpretando histórias junto com o consulente, usando o Ìbò para definir as respostas com o consulente.
A maior parte dos Bàbáláwo usa Opele (Òpẹ̀lẹ̀), que é um instrumento para velocidade e não baixa Ifá, como a gente diz, não usa o Ìbò, ou seja, ele sozinho determina o sim e o não das respostas e, ao lidar com Odù, ele utiliza a forma já interpretada do significado do signo, muito similar ao que se faz no jogo de búzios por Odù do Candomblé.
Eu tenho experiência nas 2 coisas, no jogo de búzios por Odù e na consulta de Ifá, sinceramente, usando o Opele (Òpẹ̀lẹ̀), as chances de serem equivalente é muito grande. Dessa forma para os consulentes Ifá é mais uma opção de oráculo.
Na prática quebrou o monopólio da religião que era dos Babalorixá (Bàbálórìṣà).
Voltando aos iniciados de ifá, tem um subgrupo bastante complicado nesse conjunto que são as pessoas que foram para Ifá porque não conseguiram prosperar no Candomblé, seja porque não adaptaram a regras e as casas ou não tinham paciência e disciplina para aguardar o tempo ou não foram privilegiadas pelo divino.
Essas pessoas acabaram tendo 4 destinos. Antigamente eles tinham que ir para a Umbanda e abriam casas misturando Umbanda e Candomblé de modo a ter uma casa que funcionasse com o pouco conhecimento que tinham, mas que permitissem a eles superar suas frustrações no Candomblé. É um grupo ruim, porque criava as casas de umbandomblé, omolokô e mais recentemente casa de Angola onde pode tudo (samba do crioulo doido).
Com a entrada dos estrangeiros, muitos passaram a ir para a santeria local, com critérios de qualidade muito pequenos onde fazem o que querem dizendo que são de orixá (Òrìṣà), ou para a RTY – religião tradicional yorùbá. A RTY fica mais em SP, mas é a mesma coisa, um culto de orixá (Òrìṣà) feito no Brasil com gente despreparada e onde pode tudo, recebendo os desajustados do Candomblé em busca de títulos e legitimidade.
Minha crítica a esses cultos de orixá (Òrìṣà) estrangeiros é consciente. São estrangeiros e não estão adaptados ao Brasil como o Candomblé está. Fora a questão da qualidade religiosa em si da tradição, quando comparada com o Candomblé, que não vou detalhar aqui, a grande diferença é que eles oferecem um culto mais simples, menos regras, menos exigências, etc…
Assim a gente se depara com a falta de necessidade de existir isso, depois com a inadequabilidade deles à nossa sociedade e por fim a oferta alternativa deles baseada na facilidade.
Os outros 2 destinos são se iniciar em Ifá com cubanos ou nigerianos.
Os problemas desse subgrupo de pessoas que se frustrou no Candomblé e que procurou esses caminhos foi porque eles precisavam legitimar suas posições. São pessoas que não tinham adquirido posições formais ou conhecimento, se sustentam com ar e encontram nos estrangeiros uma forma de serem alguma coisa sem terem que passar pelos ritos, tempos ou escolhas divinas.
Veja, o Candomblé não é perfeito, tem vários motivos para as pessoas se frustrarem, grande parte desses motivos está nas motivações das próprias pessoas para procurá-lo. Contudo, de fato, as coisas nele são longas e demoradas e grande parte dessas pessoas que não se adaptam e procuram os estrangeiros é porque quer facilidade ou precisa apenas se legitimar.
Por que facilidadade? Hoje em dia a sociedade mudou, ha alguns anos, é a geração mimimi, aquela acostumada a ter tudo na mão, aprendizado farto e disponível, informação para todo o lado. Não tiveram que procurar conhecimento, escavar para aprender. Encontraram e encontram um monte de gente para aceitar e justificar sua preguiça e incompetência no que fazem e em aprender. Tudo sempre na mão e total costume em receber tudo pronto com as pessoas se esforçando para que eles aprendam algo.
Gerações e gerações de gente mimada, mimizenta e frequentam shopping center, estragadas para a vida real, gente que quer exigir sem dar esforço em troca, que quer se formar sem estudar, que quer sair da faculdade e virar presidente de empresa. Acham que todo mundo tem direito a tudo ou acesso a tudo. É isse tipo de pessoas que foram formadas nos últimos 25 anos.
Esse tipo de pessoa, forjada nessa forma podre, não aceita dogmas, regras e nem hierarquia, não tem paciência ou persistência, esta acostumada com livros e vídeos de auto-ajuda convencendo ela que a preguiça recompensa.
O que é legitimar? Simples, tem pessoas que se anunciam a sociedade como sendo uma coisa que não são ou que não tiveram a formação adequada para isso. É gente que tem casa de umbanda mas queria ser de Candomblé, é gente que tem casa de Candomblé mas que nunca teve formação completa. É gente que inventou feitura e obrigações de anos, que se deram cargos sem nunca ter recebido nada de ninguém. É gente que é vidente, joga búzios mas que nunca fez sua formação no Candomblé, e por ai vai. São pessoas que sustentam uma posição e não tem retaguarda que justifique, que inventam que foram iniciadas e pagaram seus anos sem nunca terem feito isso.
Esses estrangeiros de orixá (Òrìṣà) e Ifá são um caminho para eles regularizarem tudo isso.
Eles vão para esses cultos de estrangeiros e pagam para receber os títulos que não tem.
Um exemplo clássico e simples que me vem sempre, é um conhecido ativista de movimento negro, acadêmico, sempre lotado em algum gabinete politico no Rio de Janeiro, com um monte de cargos naquelas comissões de nome grande e que devem fazer alguma coisa, mas que nunca teve posição na religião, ou, pelo menos, uma que ele próprio achasse importante destacar. Ha poucos anos se ligou a um desses africanos, que bastava olhar o facebook dele para ter certeza que era muçulmano. Não importa, deve ter pago um bom dinheiro porque o africano só aparecia com roupas caras nas fotos. O ativista então virou Bàbáláwo e agora usa esse título e junto com mais um assunto para falar, ele ganhou um status diferente, mas no seu facebook, nas fotos, não aparece mais o seu iniciador.
É muito curioso ver pessoas que nunca foram de nenhuma tradição afro-brasileira, nunca tiveram atividade ou relevância, ai a pessoa vira Bàbáláwo através de um africano, faz uma ou duas viagens turísticas à África e passa a ser um especialista na religião, ensinando, montando rádio na internet, canal no Youtube e tudo o que for possível.
Vejam muita gente de Candomblé já foi a Nigéria e Benin, mas, como turistas mesmos, foram la ver os lugares originais da religião. Eles não vão lá para comprar obrigação ou para voltar especialistas em qualquer coisa.
O pior de tudo mesmo é essas pessoas acharem que porque são Bàbáláwo são melhores que outras pessoas mais velhas e com muito mais anos de iniciados, é não saber o que são anos e anos de iniciação.
Mas, deixando de lado esses aspectos mundanos e mesquinos, uma das mudanças importantes que a chegada de Ifá no Brasil promoveu foi consolidar a situação dos olhadores que usam o jogo de fato para interpretar, que tem um método e que tem uma base comum para aprender e falar com as pessoas.
Antes o grupo que fazia isso era restrito a um conjunto pequeno de Ogãs que se viraram para jogar búzios, mas que, para fazer isso, enfrentavam a oposição dos Babalorixá (Bàbálórìṣà) e Iyalorixá (Ìyálòrìṣà). Com a chegada dos Bàbáláwo a situação se consolidou, uma vez que os Bàbáláwo não jogam através de mediunidade, sabem ensinar aos demais, tem uma base comum e método para interpretar o oráculo e, principalmente, não dependem de nenhum Babalorixá (Bàbálórìṣà) ou Iyalorixá (Ìyálòrìṣà) para exercer isso.
Os Bàbáláwo começaram a estabeleceram um novo equilíbrio de poder na sociedade religiosa afro-brasileira. Eles trazem o seu oráculo, trazem uma alternativa para se consultar os orixá (Òrìṣà) sem ter que passar pela mão de um Babalorixá (Bàbálórìṣà) ou Iyalorixá (Ìyálòrìṣà). O Babalorixá (Bàbálórìṣà) que era o todo poderoso na religião, aquele que saiba tudo e que só ele podia falar, passou a ter que lidar, com os Bàbáláwo que também falavam em nome da religião, com conhecimento da religião e com seu próprio oráculo, sem contar, também, os sacerdotes de orixá (Òrìṣà) estrangeiros que vem concorrer com o mercado local.
Existem essas mudanças no equilíbrio social, mas, a mais importante, a meu ver é consolidar os olhadores que não dependem mais de mediunidade para ter um oráculo. Em termos de religião isso foi o mais importante.
Minha visão que já fui de Candomblé é que não ter tido Ifá aqui antes não fez a menor diferença, pelo contrário, temos um culto melhor de orixá (Òrìṣà) por causa disso. Se tivéssemos Ifá talvez isso prejudicasse a qualidade do nosso culto de orixá (Òrìṣà).
A entrada de Ifá na sociedade, como mais uma opção na matriz afro-brasileira ainda é bem recente, para ter efeitos amplos.

O futuro do Ifá e do Candomblé

É muito difícil prever essa relação de Ifá com o Candomblé. Vai depender de muita coisa.
A primeira coisa que eu tenho a dizer é que tudo será melhor com informação e entendimento real da religião.

A âncora disso será o grupo de pessoas de Candomblé, Ogãs principalmente, que forem para Ifá mantendo sua tradição original de orixá (Òrìṣà) do Candomblé. Vou explicar a seguir porque estou direcionando o futuro a esse grupo específico.

Babalorixá (Bàbálórìṣà) não podem ser Bàbáláwo. Pessoas rodantes, que recebem orixá (Òrìṣà) não são feitos Bàbáláwo. Podem ser iniciados como awofakan, mas não serão Bàbáláwo e um awofakan não representa Ifá, somente um Bàbáláwo representa Ifá, somente o Bàbáláwo tem atividade em Ifá.

Se cubanos ou africanos transformam um Babalorixá (Bàbálórìṣà) em Bàbáláwo fazem isso por dinheiro e dessa maneira isso é uma iniciação questionável. 
 
Os cubanos têm umas cerimônias que eles fazem em Ifá para inibir a incorporação de modo que um rodante pudesse ser iniciado, isso valeria para pessoas de umbanda, que incorporam guias de umbanda, eles também não podem ser Bàbáláwo.

Não sei se essas cerimônias funcionam, para mim isso é criar uma situação que não pode existir de fato, para mi isso é enganação. Assim como é enganação, ou melhor, ilegítimo pessoas que incorporam em umbanda serem iniciadas em Ifá, virarem em Bàbáláwo e continuarem a trabalhar com guias de Umbanda.

Mas isso ocorre. Um dos primeiros brasileiros iniciados Bàbáláwo pelos cubanos era homosexual e incorporava guias de Umbanda. Dessa maneira essas coisas ilegítimas ocorrem o tempo todo.

Ambas as tradições de Ifá têm restrições para iniciarem como Bàbáláwo pessoas homosexuais. Aqui no Brasil podem contrariar isso porque eles vêm aqui para ganhar dinheiro e não fazer o que é certo. Vejo muito brasileiro mimizento querendo discutir isso, mas, é inútil, como já disse é uma geração de gente mimizenta, mimada e preguiçosa. O fato é que essa regra existe.

Igualmente não existe a iniciação de Iyanifá, feita para mulheres que seriam os equivalentes femininos dos Bàbáláwo. Eu acompanho esse assunto ha muitos anos, mais de 18 e sei o que se falava antes e o que se faz agora.

As iyanifá são uma invenção de africanos para ganhar dinheiro de estrangeiros. Sim existe essa figura na religião, era raríssima porque somente mulheres velhas podiam ser iniciadas (sem mestruação) e mesmo assim com uma prática totalmente restrita. Tudo era tão ruim que ninguém queria isso.

Com a ida os estrangeiros pagando em dólar, tudo passou a ser feito.

Assim, sendo, Iyalorixá (Ìyálòrìṣà) ou èkéjí não tem caminho em Ifá, se tiverem será apenas como apetebi (Apẹ̀tẹ̀bí) que é uma função menor e sem importância. Uma Iyalorixá (Ìyálòrìṣà) ou èkéjí que se iniciem para ser apetebi (Apẹ̀tẹ̀bí), sinceramente, é gente que não entendeu nada de Candomblé e muito menos de Ifá.

Dessa forma o grupo dos eleguns, dos Babalorixá (Bàbálórìṣà) e das Iyalorixá (Ìyálòrìṣà) é um grupo fechado e o relacionamento deles com Ifá será sempre um desvio de função.

O grupo que resta então é o dos Ogãs. Eles já são um elemento de ligação no Candomblé entre o divino, os sacerdotes e o Egbe (Ẹgbẹ́). Eles conhecem a participam de tudo, tem acesso as pessoas e as liturgias. As pessoas desse grupo se forem para Ifá e mantiverem no Ifá todas as usas práticas de orixá (Òrìṣà), não usando as práticas que cubanos e africanos trazem de seus próprios cultos poderão ser o elemento de ligação entre Ifá e o Candomblé. 
 
Como informação eu digo que nem tudo o que um Bàbáláwo faz é necessariamente exclusivo de Ifá. Toda a relação com orixá (Òrìṣà) é feita com conhecimento externo do culto de orixá (Òrìṣà). Assim na tradição cubana eles ensinam para os noviços a forma como eles lidam com orixá (Òrìṣà) no Lukumi. Eles ensinam inclusive a cosmogonia, teogonia e teologia da forma como os Lukumi entendem e que é completamente distinta da visão do Candomblé.

Não existe compatibilidade nenhuma entre o culto de orixá (Òrìṣà) de Cuba, o Lukumi e o Candomblé. São água e óleo.

Assim, os brasileiros, oriundos do Candomblé que forem para Ifá devem ter o cuidado de usarem o conhecimento que já tinham e a prática que já tinham e não absorver nada do culto de orixá (Òrìṣà) dos estrangeiros.

Observe que sempre me refiro ao grupo legítimo do Candomblé, aqueles que faziam parte da estrutura formal das casas e que tinham acesso ao conhecimento. Não adianta a pessoa ser tocadora de tambor, não participar de obrigações e liturgias de uma casa e ir para o Ifá, ela vai zerada sem saber nada e não vai ser elemento de ligação nenhum.
Os Ogãs são então o grupo que poderá fundamentar um Ifá brasileiro, integrando esse Ifá com as raízes do Candomblé e a africanização que temos aqui. Esse grupo poderá colocar o Ifá ao lado do Candomblé e integrado ao culto de orixá (Òrìṣà).

O grupo das pessoas não iniciadas, laicas ou de Umbanda que vão para Ifá, não representam nenhum elemento de ligação com os cultos de orixá (Òrìṣà) já existentes, pelo contrário eles entram no lado da divisão.

O Ifá cubano e africano não tem nada a ensinar ao Candomblé, tem que aprender.
O que Ifá de natural e valioso é a intimidade de usar o oráculo sem medo ou receio, a intimidade de quem consulta o divino de fato e não usa mediunidade. 
 
Ifá poderá ajudar a muitos sacerdotes que não tem fluência no uso do oráculo, bem como pode haver integração entre os consulentes de Ifá e do Candomblé e até mesmo de Umbanda. 
 
Se Ifá focar na sua função principal que é a consulta ao oráculo ele terá utilidade e sinergia com o Candomblé. O uso do oráculo no Candomblé é sempre cercada de muito mistério, um mistério que o Bàbáláwo não tem porque só faz isso.

Esse é mais um desafio que o Candomblé está faceando. A sua primazia na posse de um Oráculo esta definitivamente com os dias contados e o culto de Ifá irá de forma definitiva tomar para si, como tem feito, a propriedade de ser o oráculo de Ifá em detrimento a forma oracular pouco estruturada que usa o mesmo nome no Candomblé.
Como eu disse ao longo de todo esse texto isso não é uma verdade, o oráculo do Candomblé tem bases dogmáticas para se impor como um oráculo alternativo ao de Ifá e ser considerado um oráculo mais preciso e eficaz para lidar com orixá (Òrìṣà) e com as pessoas. A comprovação disso é encontrada nos versos desses 2 Odù que eu transcrevi e mais no Odù ọ̀ṣẹ́túrá, Ogbè-ògúndá, Ọ̀sá méjì, Ìrẹtẹ̀ méjì.
O Candomblé tem ainda mais outros desafios: a formatação do Candomblé para ser uma opção religiosa de fato; A integração de pessoas vindas de classes sociais e níveis culturais mais evoluídos; O bloqueio da sua degradação dogmática devido a entrada em massa de pessoas vindas de Umbanda que trazem uma anarquia teológica; a estruturação de uma forma de transmissão de conhecimento que separe o que é teologia de liturgia; a incapacidade das casas de se estruturarem para permanecer com as pessoas depois que eles fazem os seus 7 anos e são obrigadas a se anularem evitando assim a proliferação de casas com pessoas sem condições de as manterem.
Existem muitos tipos de problemas e que dependem de elementos diferentes do supernatural. O Candomblé, a Umbanda e Ifá tem espaço para conviverem e se integrarem.