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sexta-feira, junho 21, 2019

Nova postagem e vídeo


No Youtube, no canal do blog, um novo vídeo postado, encerrando os vídeos sobre intolerância religiosa.

Paganismo e monoteismo

Ficou grande mas tem questões importantes.

Postei texto sobre a cerimônia de IMORI, que mais uma vez, vai ajudar aos babalawo descompreendidos a saber o que fazer e o que falar. O texto é importante, tem informações importantes e explica a cerimônia.

Eu ainda não tenho estatística mas até o momento, o que aprendi é que se essas cerimônia fossem feitas teríamos menos crianças desajustadas e adultos perdidos. A cerimônia de nascimento, o ikoxewaiê (Ikọsẹwaye) é importante, porém, mais ainda, muito mais ainda, é essa  de Imori que pode evitar disturbios sérios das crianças.

Essas cerimônias confirmam o que digo que a religião é muito mais do que regras e dogmas, a religião além da fé traz conhecimentos importantes para uma vida melhor.

CERIMÔNIA DE IMORI


A cerimônia de IMORI é uma das 2 liturgias da religião Yorùbá que se ajustam a necessidade que a sociedade tem de integrar a religião a ela, através das cerimônias sociais. Cada religião tem suas liturgias baseadas na sua teologia e dogmas, liturgias são cerimônias internas da religião, atos preparatórios, iniciáticos ou parte de atos iniciáticos que visam atuar sobre o indivíduo dentro do contexto de integração dele ao divino, a deus e o mundo supernatural que nos rodeia.
Uma liturgia é um ato formal da religião dentro do seu contexto e objetivo e visa dessa forma adicionar algo ao indivíduo, visa dar-lhe elementos do mundo supernatural ou integrar o indivíduo ao mundo supernatural. Estou aqui estendendo o conceito formal da palavra, que são atos do ofício religioso isso é claro e simples, mas por que executá-los?
A necessidade de execução de qualquer liturgia parte do entendimento que temos que ter que qualquer religião convive com a realidade da existência de um mundo natural, o que vivemos e um mundo supernatural, o que não vemos mas que cremos que ele exista. A religião, cada uma delas, estabelece que existe este mundo supernatural e o define e estrutura, além disso estabelece regras e forma de usá-lo e de nos integrarmos a ele.
O verdadeiro sentido de uma religião está na nossa integração com esse mundo supernatural. A grande diferença entre você dizer que acredita em um deus, em algum deus e fazer isso dentro de uma religião é que a religião tem dentro dela os instrumentos que ensinam os seus seguidores a interagir e se beneficiar do mundo supernatural. O grande benefício que a religião traz não é nos ligar a deus, isso é bobagem, o grande conhecimento que ela traz é ter dentro dela entre mais coisas o ensinamento de como interagimos como mundo supernatural.
Cada religião vê e define para nós esse mundo supernatural. Cada religião tem sua visão de como ele é, como funciona e como usamos suas energias, forças e elementos. Isso inclui o nosso papel no mundo natural, uma vez que todas elas colocam nossa existência no mundo natural como temporária e o mundo supernatural como permanente.
Alguns podem entender que esse modelo temporário-permanente é uma fuga das pessoas para ter uma perspectiva mais ampla para a própria existência, mas, não é isso o que veem todas as religiões. Teríamos então que entender que no mundo todo em todas as épocas as pessoas tiveram o mesmo impulso de desenvolver a mesma ideia o que seria isso sim, um delírio.
Cada religião tem uma proposta distinta para o ser humano e essa proposta é baseada no entendimento metafísico que ela traz. Na sua metafísica ela define o mundo supernatural, seus recursos, benefícios, usos, elementos, perigos e demais componentes. O seu núcleo é a crença que ela nos propõe para integração do físico e do metafísico. No seu ofício ela estabelece a forma como isso é feito.
Em função disso uma pessoa sem o suporte de uma religião entenderá deus apenas como uma ideia pessoal, uma parte de sua consciência de indivíduo que ele mesmo usa para se analisar ou se motivar. Sem a religião ele não terá acesso às liturgias que visam nos beneficiarmos do mundo supernatural para viver nossa vida.
Esta visão que estou passando se aplica a todas as religiões. As religiões têm sentido de existirem não para dizer quem é o deus e como ele é, elas são a forma de lidar com supernatural que esta contido na sua visão metafísica junto com o seu entendimento de deus. A explicação ingênua de que a religião estabelece o caminho para você chegar a deus se desfaz facilmente com a visão de que as pessoas não precisam dela para isso, basta entenderem e crerem nele, isso é óbvio. Contudo, essa é apenas isso mesmo, uma explicação simplória para o entendimento rápido. O contexto verdadeiro é que na religião esta contido a integração físico-metafísico.
Em função disso a dimensão litúrgica tem uma importância muito maior do que apenas atos formais. O que a pessoa pode é não ter o conhecimento real das liturgias e seus propósitos ou pode não ter acesso as liturgias para profundas da religião, mas elas não são formalismos decorativos. Uma grande diferença entre a religião Yorùbá e a católica é que a primeira é explicita em dar contato às pessoas as suas liturgias e ao uso do supernatural. Isso ocorre porque, faz parte da crença básica, que o supernatural existe para nos ajudar com nossa vida natural.
A Igreja católica já foi assim também no passado mas se afastou desse modelo na idade média, adotou outra linha. Hoje a religião Yorùbá e outras que adotam essa linha de beneficiar as pessoas com o supernatural e integrar ele a nossa vida são vistas como místicas e como voltadas para a magia, induzindo as pessoas a confundirem as religiões com as práticas seculares de magia que fazem uso do supernatural sem estar associado a nenhuma religião.
Vamos entender que o supernatural existe com ou sem o entendimento das religiões e que cada uma estabelece um modelo do que seja esse supernatural. Não podemos dizer qual é o modelo certo ou mais correto. Sabemos através das religiões, todas elas, que existe um supernatural mas como ele é, isso ainda fica sem resposta. Nesse sentido sempre existiram pessoas que se utilizam dele mesmo não pertencendo ou em nome de alguma religião. Essas pessoas são os videntes, feiticeiros, magos, bruxas e outros grupos.
As cerimônias introdutórias
Quando um indivíduo nasce existem algumas cerimônias envolvidas na introdução dele à sociedade. Essas cerimônias podem ser meramente sociais como parte da cultura da sociedade ou fazerem parte da religião.
Cerimônia de Imori
Depois de pisar no mundo, através da cerimônia de Ikọswaye o ritual seguinte feito para a criança é o “conhecimento da cabeça” - IMORI, que deve ser idealmente realizado até o terceiro mês após o nascimento. “O objetivo desta cerimônia é conhecer a ”cabeça interior” - Ori inu, ou personalidade que o espírito ou alma trouxe para o mundo, de forma que os pais possam ajudar a criança a coordená-los. A medida que o tempo passa a cabeça interior domina a alma e os dois se tornam um, fundidos em uma personalidade unificada” (Drewal, Yorùbá ritual, p. 56).
Esta visão de integração descrita por Margareth Drewal no excelente livro Yorùbá Ritual, é muito interessante, são poucas palavras com muito conteúdo. Refletem a visão que lhe foi passada por um Bàbáláwo, Óxitóla (Ọ̀ṣit), e que para minha felicidade, vão ao encontro de algumas percepções anteriores e são mais uma peça no quebra-cabeça da complexa teologia Yorùbá.
O conceito de Ori inu é mais complexo e não vou abordar aqui, mas destaco algumas coisas importantes que vão ao encontro da minha percepção. No modelo Yorùbá vemos a presença do espírito ou alma, émi (Ẹ̀mí) para os Yorùbá, que é dada por Olódùmarè para todos nós. O émi (Ẹ̀mí) é a centelha de vida.
Nós nascemos através do emi (èémí), o sopro de vida, mas nossa personalidade de fato, a pessoa que somos se caracteriza pelo Ori inu e se incorpora depois. Na teologia Yorùbá são de fato momentos distintos. Um é nossa jornada na preparação do nascimento através da formação do Orí inu, que constitui quem somos e o que trouxemos para essa vida. O outro é o emi (èémí) dado por Olódùmarè ao corpo moldado. Na teologia Yorùbá são momentos bem distintos e a análise indicava que a junção disso era um momento separado. A descrição de Drewal vem a coroar esta interpretação
Como Drewal descreve o que aprendeu com o Bàbáláwo Óxitóla (Ọ̀ṣit), existe uma gradual integração do Ori inu com o espírito do corpo e que gradualmente o Ori inu domina o espírito e eles se tornam apenas um.
Essa proposta de modelo, que eu endosso, nos leva a várias afirmações. Por exemplo a questão de descendência, de quando ocorre a incorporação do descendente no corpo em gestação. Também permite entendermos melhor a questão de incorporação uma vez que separa em 2 entes a pessoa, o espírito que vem com o corpo e o Ori inu que se adiciona, o que dá espaço para entendermos que um outro poderia ser inserido nesse modelo de controle do espírito, justamente o que se apossa do elegun no ato de incorporação.
Também pode justificar certos problemas como altismo, quando poderíamos supor que esses dois entes, espírito e Ori inu, não se integram, e, ainda, outros estados mentais nos quais existe saúde física mas confusão mental.
Voltando ainda ao contexto, é nesse período inicial de vida em que as 2 cerimônias importantes do recém-nascido e somente nesse período podem ser realizadas. A razão está explicada pelo processo de junção do Ori inu com o espírito. Nos primeiros dias e nos primeiros meses o Ori inu ainda está mais ligado ao órun (Ọ̀rún) do que ao àiyé, ou seja, está ainda ligado ao supernatural estabelecendo uma ponte entre o natural e o supernatural. Por esta razão somente nesse período podemos realizar essas cerimônias uma vez que em período posterior elas perdem a razão por se tornarem ineficazes.
Para a execução do Imori, na noite anterior, fitas brancas e pretas devem ser colocadas em cada pulso, cotovelo, joelho, tornozelo e pescoço da criança, como um sinal para alertar o espírito para se preparar para o ritual.
O ritual é realizado no início do dia, de preferência.
Ele se inicia na frente da casa, com a oferenda de um pequeno sacrifício de bebida e dendê na capela dos Bàbáláwo ancestres (oju orere) e usando-se o Obi para determinar se foi aceito.
Os pais da criança trazem oferendas representando as 2 famílias.
O Bàbáláwo coloca as oferendas em cada lado do opon (Ọpọ́n Ifá), sendo que as oferendas do pai ficam no lado direito e da mãe no lado esquerdo. O Bàbáláwo abre a consulta a Órunmilá (Ọ̀rúnmìlà) e marca no opon (Ọpọ́n Ifá) o primeiro signo de ifá, ogbé méjì. Ele pegará a criança e tocará a cabeça no chão e depois no opon (Ọpọ́n Ifá), fazendo assim a introdução da cerimônia de Imori.
A seguir o Bàbáláwo exibirá a criança pedindo a benção das divindades e ancestres, pedindo a ajuda deles por toda a vida da criança. Ele espalhará um pouco de Gin sobre a criança para acordar o Ori inu e procederá então a rezar no opon (Ọpọ́n Ifá) os 16 Odù méjì.
A próxima etapa é jogar água no chão e dar para a criança beber e seguindo a ela, a mãe e o pai. Depois disso o mesmo é feito com o Gin.
A próxima etapa é feita com 2 gravetos finos e compridos que ficam em cada lado da família. Os gravetos do lado masculino (iṣẹmokunrin) devem ser de Akoko e o do lado feminino (iṣẹmonbirin) devem ser de uma árvore frutífera. O Bàbáláwo mistura o pó no opon (Ọpọ́n Ifá) com os gravetos e reza. Ele fala com os pequenos gravetos que o pai e a mãe foram abençoados com aquela criança. Se aquela criança veio da família paterna que Ifá diga para nós. Se veio da família materna que Ifá diga para nós, se veio de uma divindade, que ifá diga para nós.
Depois disse ele apresentará a criança a todos e rezará para ela desejando uma vida longa e feliz. Ele, em sequeência, toca então os gravetos nos ikins, na testa da criança e no chão e agita os gravetos no ar para cada uma das origens que ela poderá ter.
O Bàbáláwo sacará os ikins 3 vezes para cada um das 3 origens, definindo assim pelo Odù mais sênior qual a origem predominantes. Nesse ponto devemos destacar que o processo é complexo porque prevê que devem ser obtidos 3 Odù sênior em sequência para definir qual a origem correta.
Na sequência o Bàbáláwo deve determinar que divindade ou ancestre a criança representa. Durante este processo é esperado que a criança durma, mostrando que o espírito do ancestre ou divindade possuíram a criança. Se a criança não dorme isso significa que o Ori inu e o espírito não se harmonizaram. Tal como a criança ele, o Ori inu, esta amedrontado e ficará continuamente em confusão com a alma, não deixando a criança em paz.
O Bàbáláwo deve mais uma vez usar os ikins e os ibo com os 5 símbolos da sorte e do infortúnio para dizer quais serão os maiores problemas que ela enfrentará na vida.
Por fim, o Bàbáláwo deve preparar as folhas que certificam que a criança passou pelo ritual do IMORI. Este ritual também é chamado de Iwoye que é um nome genérico usado para qualquer cerimônia onde se obtêm um título.
Em 3 folhas devem ser colocados os elementos dos sacrifícios que foram oferecidos. O Bàbáláwo marcará no opon (pn ifá) Ifá os 16 signos principais de Ifá e depois de rezar para cada um deles jogara um pouco do pó nas folhas. Quando concluir ele esfregará um pouco do pó na cabeça da criança. Antes de fechar o pacote de folhas, ele tocará as folhas nos ikins, na testa da criança e na boca. O pacote de folhas será embrulhado usando as fitas que foram colocadas na criança à noite.
O pacote bem embrulhado é colocado em um prato branco no centro do opon (pn ifá) e será gira no sentido dos ponteiros do relógio e depois no sentido contrário. Girando em um sentido e depois no outro, o Bàbáláwo perguntará para a audiência se “a criança já chegou no mundo ou se a criança ainda não chegou no mundo”. Os pais devem responder que a criança já chegou ao mundo. Girando mais uma vez o prato o Bàbáláwo deve dizer que a criança deve aproveitar todas as coisas boas no mundo.
O pacote é colocado em uma cabaça e entregue para a mãe, o Bàbáláwo joga o pó no prato e é feita uma prece para que a criança tenha vida longa e prosperidade. O pó se torna a representação material da prece e pode ser usado para a mãe fazer banhos para a criança.



segunda-feira, junho 10, 2019

O comércio em torno do jogo de búzios

(esse texto faz parte de um texto maior ainda em elaboração sobre o jogo de búzios) 

 

E o que é isso? Existem sacerdotes e feiticeiros. Existem pessoas dedicadas a sua religião de fato, que se focam em orixá (Òrìṣà) e nas suas liturgias, são pessoas com uma casa que tem atividade permanente dedicada a orixá (Òrìṣà) e atuam de forma ética e sacerdotal de fato.
Existem também os feiticeiros, aqueles que por ego ou importância comercial dizem ter uma casa de Candomblé (terreiro) mas que ali fazem uma prática mista, com consultas de umbanda com exu e pombo-gira, às vezes giras de Umbanda, porta aberta para fazer trabalhos de qualquer natureza ética, incluindo o malefício a outros. Mantêm uma atividade de Candomblé com Xirês voltados para atrair clientes e manter a sua relação social dentro da comunidade de sacerdotes.
Essas pessoas colocam sempre muito dinheiro na realização dos seus Xirês de Candomblé. Suas casas são arrumadas, os orixá (Òrìṣà) bem vestidos, muitos Ogans e um serviço farto de comida após o xirê.
A presença de outros sacerdotes é importante, para mostrar a sua inserção e relevância no meio, aliás essa troca de gentilezas, de sacerdotes frequentando a casa de outros, é assunto a parte para a psicologia. Existe um círculo próprio desses sacerdotes que devem convidar e serem convidados para os xirês dos outros. Nesses eventos, eles são recebidos com pompa e circunstância, se tornam vistos pela assistência e têm o seu ego inflado, porque são tratados como autoridades.
Mas isso é, majoritariamente, um jogo comercial porque esses grandes eventos nos quais existe um xirê (toque para os orixá (Òrìṣà) são sempre acompanhados de um serviço de comida para toda a assistência. Isso ocorre em dias festivos ou não, na verdade em dias festivos o aspecto laico é maior e, o foco, é a festa e não o orixá (Òrìṣà).
Esses eventos, pequenos ou grandes servem para mostrar à assistência a grandeza e poder do dono da casa. Uma casa próspera é a do sacerdote que trabalha mais, tem mais clientes, ganha mais dinheiro com o que faz e dessa forma sendo o mais bem sucedido será a melhor pessoa para se consultar. Se você tiver um problema para resolver a indicação é ir na casa da pessoa mais bem sucedida.
Os “eventos-Xirês” não existem para manter o axé da casa em atividades, trazendo os orixá (Òrìṣà) para abençoar as pessoas e a casa com sua presença, renovando o axé da casa. Eles existem como obrigação para o atendimento comercial do sacerdote e seus clientes de jogo, são parte da atividade comercial do jogo de búzios.
Esses Xirês são dessa maneira um evento feito para atender aos clientes do dirigente. Não dá para uma casa de Candomblé com foco religioso sustentar uma atividade como a que essas pessoas sustentam.
Um dos componentes, como já citei, desse complexo espetáculo de horrores é a presença de sacerdotes convidados, pessoas igualmente conhecidas, que mostram para a assistência que o dono da casa é conhecido e tem prestígio para trazer outros conhecidos e “famosos”. Os famosos podem também ser os clientes famosos. Tudo isso é parte do espetáculo comercial.
Os espetáculos legitimam o dono da casa, como legítimo e prestigioso sacerdote e também os convidados da mesma forma. Ao ir, os convidados, estão, na verdade, legitimando tudo o que o dono da casa faz. Mas, ao ir, os convidados, também estão se expondo para os consumidores de jogo de búzios. Esse é um círculo vicioso onde você convida e é convidado.
Para essas pessoas, ao se falar de fazer o Orixá (Òrìṣà) de alguém a primeira coisa que tratam é do tamanho da festa, porque a casa tem um padrão e se quiser fazer lá vai ter que pagar uma festa do porte que a casa faz. Essas casa estão continuamente em festa.
O principal objetivo dos feiticeiros é de fato vender obrigações e adquirir filhos de santo. Uma obrigação é muito mais cara do que um jogo e alguns ebós e além disso transforma a pessoa em cliente para o resto da vida.
O importante para esses feiticeiros travestidos de sacerdotes é ter esta atividade vistosa de Candomblé para justificar sua posição. Para eles o importante é atrair clientes e transformar clientes em filhos de santo, na verdade, é o comércio de feituras de orixá (Òrìṣà) que concorre com o comércio principal que é o do jogo de búzios e das consultas com guias de umbanda, normalmente exu e pombo-gira.
Não existe nenhuma razão para uma casa de Candomblé ter dentro de suas atividades o trabalho com essas entidades de Umbanda. Isso não faz parte e apenas mostra que o foco da atividade da casa é comercial. As consultas estarão associadas ao uso de um oráculo de búzios rasteiro, feito para, mais uma vez, dar legitimidade de Candomblé a atividade comercial do sacerdote.
O que ocorre é sempre uma dobradinha, ao consultar o guia de umbanda, ele as vezes pede algum trabalho ou faz alguma coisa ali presente, mas, normalmente indica que a pessoa deve procurar o pai-de-santo em outro horário para ele fazer um jogo de búzios, permitindo ao pai-de-santo cobrar duas vezes (ou uma, as vezes a consulta é de graça ou de baixo valor, sob a alegação de que a Umbanda é caridade), uma pela consulta ao exú e outra pelo jogo de búzios que é de onde vão sair os trabalhos a serem feitos.
O jogo de búzios vira então apenas um complemento da consulta que foi feita pela entidade de Umbanda, sendo usado para indicar os trabalhos cobrados a serem feitos. Esse é um formato muito comum e ruim, é orientado para o comércio.
Todos os sacerdotes que vi serem questionados em porque mantinham consultas e trabalhos com exu e pombo-gira junto com sua dita atividade de Candomblé alegaram a mesma coisa, um discurso comum, que eram muito gratos com aquelas entidades e que não poderiam abandoná-las.
Isso é uma total bobagem.
Elas já teriam virado as costas para elas no momento em que decidiram ir para o Candomblé, onde não existe o trabalho com esses guias.
Eles mantêm os guias por alguns motivos. O primeiro deles é puramente comercial, ganham dinheiro através desse guias de forma muito mais simples do que com uma casa de Candomblé. Além disso dinheiro sem ética porque esses guias são usados para trabalhos sem finalidade ética.
Outro é despreparo. Nada ou pouco sabem de Candomblé e se não tiverem esses guias de Umbanda não vão ter nada para fazer. Outro é porque dizer que são de Candomblé é apenas alegórico, eles gostam de poder dizer que são de Candomblé mas que amam a Umbanda e querem ter e usar todo o aparato decorativo que o Candomblé pode oferecer e que não encontram na Umbanda.
Essas pessoas não amam e nunca amaram a Umbanda. Elas amam o dinheiro.
As indicações da baixa qualidade da relação do sacerdote com o divino passam por isso que expliquei. Esses xirês realizados com muita opulência, seja para festas ou saídas de orixá (Òrìṣà), com muita aparência sempre são uma indicação forte de que aquilo é palco para a casa atrair pessoas. Pessoas que fazem trabalhos de qualquer natureza ética são apenas feiticeiros. Pessoas que anunciam em jornal, gastando assim muito dinheiro na sua promoção terão obrigatoriamente a necessidade de ganhar dinheiro com o que fazem.
Não vou entrar aqui no mérito das dificuldades em ter uma casa de Candomblé funcionando junto com guias de Umbanda, dificuldades do ponto de vista do supernatural.
Os fatores que indicam um bom ou mal lugar para consultar búzios são muito evidentes e simples, alguns podem não saber do que eu disse ou não terem prestado atenção, mas, podem se perguntar, se isso é assim evidente porque as pessoas continuam a ir nessas pessoas? Simples, se merecem, elas estão em busca também da falta de ética.
Não se pode falar de Jogo de Búzios no Candomblé sem falar sobre esse contexto comercial e esse é o motivo de eu citar isso tudo.

Novo vídeo no Canal do Youtube

O tema ainda é intolerância religiosa. Neste quinto vídeo é abordado a questão do preconceito contra a religião por ser acusada de ser para a prática de feitiços

O quarto vídeo será publica nos próximos dias. Ficou pronto mas resolvi refazer

Parte 5
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segunda-feira, junho 03, 2019

Por que um oráculo é necessário em uma religião?

 

Por que um Oráculo é importante?
No caso da religião yorùbá, a importância disso é teológica e envolve um evento supremo. De acordo com a teologia da religião Yorùbá, é Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) a única divindade que compartilha junto a Olódùmarè o destino de cada pessoa. Cada pessoa antes de nascer, vai a Olódùmarè pedir o seu destino, na verdade estabelecer com ele o que ela vai fazer na vida, que objetivos vai buscar. Este momento no qual cada pessoa no mundo espiritual, no órun (Ọ̀rún), tem contato direto com Olódùmarè, se ajoelhando à sua frente é único e especial. Em nenhum outro momento temos acesso a Olódùmarè. Mais ainda, nenhuma divindade, exceto Exu (èṣù) e Órunmilá (Ọ̀rúnmìlà) tem acesso a Olódùmarè, mas, nós, nesse momento único e especial nos prostramos diante dele para pedir a ele nosso destino.
Este é o sentido desta divindade em especial, Órunmilá (Ọ̀rúnmìlà) e não outra, estar ligado ao oráculo e sendo ele conhecedor do destino das pessoas. É esse evento que torna relevante um oráculo através de Órunmilá (Ọ̀rúnmìlà) de um outro que seja através de outra divindade, outro orixá (òrìṣà).
Muita atenção nisso, aqui esta a razão teológica desta discussão.
Esta religião diferente de outras não entende que a vida é única, acredita em várias encarnações, não acredita que a gente vive para nunca mais encarnar, não acredita que a vida é um sofrimento, não acredita que temos carmas a sofrer.
Esta religião acredita que vivemos porque queremos viver, que vivemos em família e acima de tudo que vivemos para sermos felizes. Esta religião acredita na vida.
Olódùmarè esta, totalmente, comprometido com nossa felicidade.
Mas a vida no mundo é dificil, existe o mal que está nas pessoas, existem os Ajogun (fome, doença, perda, morte, etc…) existem as ajé (feiticeiras).
Para poder fazer frente a todos os problemas imprevistos, Olódùmarè em seu compromisso com a nossa felicidade, ele nos dá um oráculo para nos comunicarmos e os orixá (òrìṣà) para nos suportar.
Nessas informações que passei está o motivo teológico da existência do oráculo nesta religião (talvez em qualquer outra religião). O oráculo é o suporte que Olódùmarè dá a cada pessoa, através da religião, para que ela tenha sucesso na vida, a vida que ela pediu a Olódùmarè.
Olódùmarè, o deus, a divindade suprema, nos concede a vida e junto com isso todo o suporte para que tenhamos sucesso nela. Junto com a presença dos orixá (òrìṣà), cujo sentido é nos suportar na nossa vida, o oráculo é o instrumento divino que devemos usar quando precisamos de ajuda.
O oráculo na religião é a forma que os crentes têm para se comunicar com deus, diretamente ou através de seus representantes. O oráculo é sempre um instrumento de ligação e comunicação entre o mundo natural e o supernatural, entre o homem e o divino. Através dele, comunicamos nossos problemas insolúveis e buscamos a ajuda do divino, de deus, para seguirmos nossa vida aqui na terra, no àiyé.
Nesta religião quando rezamos a deus ou quando o procuramos, a resposta de deus não é o silêncio. Nossas preces são atendidas pela presença dos Orixá (òrìṣà), os ministros de Olódùmarè no àiyé e pelas mensagens que obtemos do oráculo. Deus fala com a gente.
O Candomblé não trata apenas com fiéis ou frequentadores. Existe uma legião de pessoas, consulentes que o procuram para resolver seus problemas de vida sem que pertençam ou queiram pertencer ao Candomblé e a religião de orixá (Òrìṣà).
O Babalorixá ( Bàbálórìṣà) e a Iyalorixá (Ìyálòrìṣà) atendem esses consulentes não apenas por questões comerciais, para ganhar dinheiro. Atendem porque faz parte dessa religião ajudar a todas as pessoas a atingirem os seus objetivos. Existe um compromisso de deus, Olódùmarè, em termos sucesso na vida, principalmente em sermos felizes, como explicado anteriormente e assim, o sacerdote da religião deve ajudar a todos que o procuram.
Olódùmarè assiste a todas a pessoas. Deus é único ele não faz distinção. Não existe nesta religião a figura de um deus raivoso e vingativo que escolhe um único povo como seu preferido e passa por cima dos demais.
Ele não vai atender apenas aos candomblecistas e deixar todos demais de fora, esse conceito de deus é tolo, deus é para todos, não importa a religião.
As oferendas e sacrifícios são uma continuidade do oráculo e visam como disse no início, nos ajudar em nossa vida a resolver questões possíveis através do supernatural.
Sua religião não tem um oráculo?
Na visão de sua religião, deus não esta comprometido com sua felicidade imediata?
Sua religião não oferece recursos para através do supernatural você ter ajuda na solução de problemas?
Então, lamento, ela tem uma visão muito restrita e menos útil.
O divino é o mesmo para todos, a diferença entre as religiões é como elas nos orientam nessa relação.
A questão comercial no Candomblé envolve o que o sacerdote vai cobrar, se vai cobrar e quanto vai cobrar por isso é um problema a parte.
Existe um outro uso do oráculo e que envolve questões teológicas da casa e dos membros, mas esse é um uso específico e menor considerando o atendimento a consulentes.