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quarta-feira, fevereiro 18, 2015

A busca de Ifá para legitimar o que não se tem


Um outro aspecto que me trouxe um impacto ainda maior nessa relação da Santeria com nosso culto de orixá mas que é muito complicado de explicar. É uma situação muito sutil e vou tentar explicar aqui correndo o risco de não ser entendido.

Observei que existe uma prática dentro da esfera do ifa cubano, no Brasil, na qual as pessoas que vem do candomblé onde eram ekeji ou ogan, se transformaram em santeros e passam a "fazer santo" e outras liturgias nas pessoas e para as pessoas.

Está “entre aspas”, porque é feito "santo" do jeito cubano e este jeito não tem nada a ver com o candomblé, assim eu tenho cuidado ao usar essa expressão “fazer o santo”, porque para nós resulta em uma coisa e do jeito deles resulta em outra.

Observem que apesar de estarmos falando de ifá aqui isso não se refere a Bàbáláwo. Estou falando de neo-sacerdotes lukumi. São mulheres, mediuns de incorporação ou homosexuais que, iniciam pelo ifá, mas que não tem caminho de Bàbáláwo no Ifá cubano, então, viram santeros.

Qual o problema disso?

Essas pessoas, de acordo com o critério do nosso culto de orixá não teriam direito a fazer este tipo de coisa, mas, na santeria ganham direitos que jamais teriam.

Os ogans principalmente são um grupo muito particular, porque eles tem acesso a conhecimento nas casas de Candomblé, podem circular e participar de círculos mais restrito. Nem todos claro, mas, muitos, acabam tendo um conhecimento acumulado grande.

Essas pessoas no Candomblé nem sempre tinham um espaço relevante em uma casa. Um terreiro não tem tantas oportunidades assim para a pessoa crescer na hierarquia e isso também leva muito tempo. O grupo de egbon é grande o suficiente para ser agraciado com cargos e funções e são pessoa que além de rodantes cumprem uma longa jornada de tempo e obrigações.

Para muitos, conhecimento não é tudo, tem também que vir junto da vaidade e do reconhecimento. Existem aqueles que acreditam que podem ser ou fazer mais ou os que não estão dispostos a seguir regras e hierarquias.

Dessa forma Ifá é um porto certo no qual eles podem seguir “carreira” e se tornarem um “Baba”, com casa e afilhados, coisas que dentro da ética e moralidade religiosa jamais poderiam atingir no Candomblé.

Ifá será assim um grande legitimador de ambições. Junta-se a fome com a vontade de comer. As pessoas buscam um espaço e encontram cubanos e nigerianos secos para venderem isso para eles.

Mas existem 2 grupos que podem ter alguma decepção, os homosexuais e as mulheres. Para estes o Ifá cubano não reserva muitas opções. Mulheres serão apetebi e os homosexuais não serão Bàbáláwos. A saída passa então ser a santeria....

Antes de aprofundar nisso vamos a uma explicação mais geral sobre candomblé porque nem todos necessariamente fazem parte.

Existem pessoas que incorporam o orixá, sao seus eleguns, ou, literalmente, como os africanos dizem, o orixa “os monta”. Existem pessoas que não tem essa capacidade, não nasceram para isso.

Do grupo de pessoas que não são eleguns, uma quantidade reduzida será ogan ou ekeji em uma casa. Ser ogan ou ekeji não é sinônimo de não incorporar. Esses nomes são títulos, cargos, que representam escolhas dos orixás e as pessoas recebem cargos nas casas que pertencem.

A estas pessoas serão dadas funções e responsabilidades, será feita a ligação com a casa e muitas terão funções que lidam com liturgias. Lidar com liturgias é algo muito sensível no Candomblé. Poucos são os que aprendem e fazem algo. Muito poucos.

Nem todo ogan é escolhido por um orixá. Existem muitos dirigentes que escolhem pessoas por sua vontade. Sempre foi muito tradicional a escolha de pessoas importantes e influentes na sociedade para esses cargos, com o intuito de ajudarem e protegerem a casa. Muitos ogans representam escolhas do dirigente.

Muitas pessoas aprendem a tocar ilu e viram "ogans" que circulam de casa em casa tocando para quem pague. Tocar o ilu e cantar deveriam ser atividades ensinadas e aprendidas por ogans da casa, assim como ser o asogun ou babalasayin. Seria parte do ofício do ogan na casa, de atribuições.

Existem nas casas então essa tradição de dar cargo de Ogan como uma representatividade simbólica e também existem aqueles que pertencem a comunidade e vão receber funções. Muitas pessoas de fora não sabem disso. Os estrangeiros pouco entendem o que seja um Ogan, eles não tem isso. Tem no máximo o Alabê.

A Ekeji seguem um caminho similar. São pessoas que são previamente escolhidas para esta função, pleo Orixá ou pelo dirigente. Uma Ekeji nunca será uma rodante, um elegun, mas, é uma escolha, um cargo, assim não é sinônimo de pessoa que não roda com orixá, como muitos pensam.

A função da Ekeji é cuidar do Orixá, acompanhar sua preparação, sua performance no salão bem como pode assumir outras funções na casa.

Esses 2 grupos de pessoas, Ogans e Ekejis, são um grupo especial, são escolhidos pelo Orixá e terão funções e privilégios diferentes. Eles nasceram diferentes, não incorporam com Orixá e o próprio Orixá os colocou em uma posição especial. Por princípio eles respondem ao Orixá e não ao dirigente da casa.

Mas apesar disso nem sempre eles vão poder fazer tudo o que querem e ter a importância que acham que merecem. Nunca terão o mesmo status de um rodante ou de um dirigente. Haverá sempre o grupo que vai estar fortemente integrado nas atividades e obrigações da casa e que por isso jamais vão pensar em deixar a casa, mas, outros poderão achar que poderiam ser algo mais. É esse grupo, o dos frustrados, é que vai para o Ifá.

Ifá passa a ser uma opção para legitimar aquilo que eles não tem ou que não nasceram para ter.

Ai, quando a gente observa que, pessoas que no nosso culto de orixá não nasceram para ter o direito de fazer liturgias de Orixá e que também não vão ter o direito de serem Bàbáláwo, acabam virando Santeros, sacerdotes de orixá como os Babalorixás, fazendo liturgias de iniciação eu fico chocado.

Está claro que ou o Orixá errou ao escolher aquela pessoa ou essa tal de santeria é uma coisa café com leite, uma vez que a pessoa não pôde ser sacerdote no nosso culto de Orixá porque não e rodante, não pode ser Bàbáláwo também e pode ser Sacerdote Santero?

Será que ser Santero é uma consolação? Ou será desprovido de critério?

No Candomblé você não pode dar o que não tem, dessa forma, a pessoa para ser Babalorixá ou Iyalorixá tem que ser rodante. Só um rodante pode fazer outro rodante.

Como confio nos Orixás e também eu respeito muito a Santeria, e já conheci Santeros respeitáveis e distintos (também já pesquisei um pouco em literatura sobre eles), eu acho mais prudente manter uma distância em relação a prática aqui no Brasil.

Porque, no fim a gente tem que decidir se ou o Orixá acertou ou o “Santo” acertou. Prefiro ficar com os primeiros.

Mais recente eu observo também um outro tipo de grupo que procura as iniciações de Ifá. São pessoas que se dizem de Candomblé ou de Umbanda que buscam iniciações para da mesma forma legitimar o que elas não fizeram. Não fizeram as obrigações que deveriam fazer no culto de orixá, ou não adquiriam o direito para exercer determinada função pelo culto de orixá e procuram Ifá para comprarem uma iniciação e passarem a ter uma filiação.

As pessoas de Umbanda dificilmente se adaptam ao rigor do Candomblé. Tem no Ifá e na Santeria uma ótima fuga para adquirem um status que não tem sem se submeter a nada.

Procurar os cubanos e Nigerianos é fácil, com dinheiro se compra tudo deles.

Nós brasileiros temos que ficar atento. Os estrangeiros estão competindo no mercado de iniciações, ebós e venda de feitiços e amarrações como os locais já fazem. Eles não trazem nada de especial em termos de ética. Para procurar eles tenha sempre muito cuidado e atenção, o mesmo que deve ter com os nossos nativos.



Texto anterior da sequencia  cuidados que devemos ter em relacao

Cuidados que devemos ter em relação a Santeria


De nosso lado, nós aqui no Brasil temos um comportamento que não podemos repetir com os cubanos. Vou falar de Candomblé porque é o que conheço, mas, o mesmo se aplica aos demais cultos de orixá.

No candomblé o sacerdote de uma nação acaba conhecendo outras nações. Muitos conseguem ser multiespecialistas, porque no fundo a base comum é muito grande. Temos uma grande complexidade no candomblé, são 3 etnias, 2 religiões, 2 cultos e muitas nações diferentes. Apesar desta variedade, temos no candomblé muito sincretismo interno e as pessoas, com as devidas restrições, acabam aprendendo o seu e um pouco dos outros.

Em função disso, nossa longa história de convivência nos permitiu compartilhar algum conhecimento comum e dessa forma muitas pessoas entendem a diversidade do candomblé, sabem comentar um pouco sobre os outros e alguns até mesmo tem bastante conhecimento. Com isso nos acostumamos a tratar o candomblé como um todo e comentar sobre isso, apesar de o candomblé ser uma grande heterogeneidade.

Esse conhecimento cruzado trouxe um efeito negativo que foi o das pessoas acharem que todo o candomblé seja uma coisa só e facilmente integrável e intercambiável, gerando assim problemas litúrgicos e outras confusões teológicas, mas isso é algo com o qual já lidamos ha bastante tempo.

O mesmo comportamento não pode ser repetido para a santeria. Santeria não é candomblé, não tem nada a ver. Não podemos tratá-los como parte do nosso todo e achar que entendemos eles e que eles nos entendem. Nós não os entendemos e eles não nos entendem.

Não podemos tratá-los como se fossem iguais, como mais uma nação e estender o conhecimento que temos para eles buscando apenas as diferenças. Esse comportamento serve, com restrições, apenas para o candomblé mas não serve para a santeria. Nada do que sabemos ou fazemos serve para eles.

As pessoas de Umbanda tendem a se impressionarem com o Candomblé e demais cultos de Orixá. A Umbanda é uma grande prática com pouca teoria. Os cultos de orixá tem uma grande teoria e uma prática infinitamente menor, mas, as pessoas de apaixonam pelo conhecimento que não tem. Muitas, anos mais tarde, vão descobrir que perderam tempo saindo da Umbanda ou do Catimbó e indo para o Candomblé, por exemplo,

O mesmo fenômeno pode ocorrer com pessoas da Santeria. São cubanos e brasileiros bobos que saem agressivamente se promovendo e falando isso e aquilo de odu e dizendo nomes que as pessoas não conhecem. Pessoas menos preparadas se impressionam, mas esse farol todo é apenas lixo.

Dito esse monte de coisas que coloquei aqui e nos 2 textos anteriores, surge em fim a primeira questão.

Eu não tenho dúvida que os cubanos e brasileiros santerizados não sabem nada de candomblé, isso é claro para mim. Uns porque nunca souberam os outros porque já se confundiram com o pouco que sabiam.

Será que eles se preocupam em deixar isso claro quando lidam em suas consultas com pessoas que sejam do Candomblé ou de outro culto de orixá?

Eles deixam claro que não fazem parte do candomblé? Que não são iguais ao candomblé? Que não entendem de candomblé?

Será que eles deixam esta grande diferença de lado e se comportam, junto aos iniciados que o procuram, ou mesmo aos curiosos, como se fossem parte do mesmo conjunto?

Percebem o problema?

Uma coisa é como eles se comportam no atendimento a pessoas comuns, que nunca passaram por nada. Este é um caso simples. Mas e se a pessoa é de um culto de orixá, praticante?

Qualquer um pode ir a Ifá. Ifá está aberto a todas a pessoas. Um Iyawo, Egbon ou Ogan ir a Ifá não significa que ele esteja insatisfeito com sua casa e seu culto, apenas diz que essa pessoa quer consultar com um outro tipo de oráculo ou quer uma consulta com uma pessoa que não o conheça.

Essa pessoa não deve ir a Ifá para tratar coisas de orixá e mesmo que fosse, caberia ao Bàbáláwo se posicionar de forma a não entrar nesta área. Se a pessoa, então, vai para tratar de assunto de sua vida, não cabe a Bàbáláwo inserir a questão de Orixá no assunto, não é ético ou correto.

Ele não deve comentar, ensinar ou criticar.

Este procedimento deve ser adotado por qualquer Bàbáláwo, seja ele cubano, cubanizado ou brasileiro ligado ao nosso culto de orixá. Isso é chamado de ética. Se o Bàbáláwo conhece apenas a santeria o assunto deve ser proibido, porque essa pessoa nada tem a adicionar.

Ifá tem enorme contribuição à vida das pessoas. Um bom ifá será sempre um esplêndido instrumento de deus, Olodumare, para nos ajudar na nossa vida. O Bàbáláwo tem muito o que se preocupar e deve deixar Orixá para o culto de Orixá.

Se a pessoa entra em Ifá para ser Bàbáláwo mas carrega uma frustração de não ser Babalorixá, isso é muito ruim. A pessoa tem que saber o que ela é e o que ela não é. Se ela não sabe quem é como vão ajudar a outros.






Texto anterior da sequencia:  Os babalawo e o culto de orixa o que

Texto seguinte da sequencia: Ifá para legitimar o que não se tem

segunda-feira, fevereiro 16, 2015

Os Bàbáláwo e o culto de Orixá

Revisão 2


O que impede um Babalawo brasileiro de trazer para dentro do seu Ifá as práticas que aprendeu no Candomblé ou no seu culto de orixá, para lidar com as divindades, de esú a egungun?

Nada

A questão é se essa pessoa aprendeu alguma coisa de fato que possa trazer. Nem todo mundo que era de Orixá sabe alguma coisa.

Antes de seguir, preciso fazer um comentário importante, que faz parte de nossa riqueza e complexidade. Não temos apenas 1 culto de orixá. O Candomblé é extenso e complexo mas ele não representa sozinho o culto de Orixá no Brasil e muito menos a religião Yoruba.

Além do Candomblé com sua complexidade temos ainda o Batuque, o Xango e o Mina. Posso até estar esquecendo de algum. A realidade é que a religião Yoruba e o culto de Orixá no Brasil é representado por mais de uma corrente. Como tenho origem no Candomblé, é natural para mim citar ele como a referência mas entendam que onde se lê Candomblé pode se ler os demais cultos e Orixá.

Já escrevi sobre essa complexidade, podem procurar no histórico do Blog.

Seguindo, o Bàbáláwo aprende a trabalhar o Ifá. Aprende a entender os Odù, aprende a trabalhar com seu Opon e instrumentos, aprende suas cerimônias ou liturgias de Ifá, mas, depois disso existe uma grande intersecção com o culto de orixá.

Voltando, é a mesma religião, assim Esu, Ori, Orixá e egungun são os mesmos.

Se a pessoa tem conhecimento de como se lida com essas divindades no seu culto de Orixá, se já aprendeu isso antes e sabe fazer, nada a impede de continuar a fazer. Somente a estupidez pode impedi-la.

Vejo isso de forma mais séria, se a pessoa era de Orixá, sabia o que fazer e fazia isso no seu culto, o seu primeiro compromisso é com a forma e formato que ela adotava no seu culto de Orixá. Isso vai de usos, limpeza e proibições.

Nada também impede que um Bàbáláwo brasileiro, procure o contato com uma casa de Candomblé ou de outro culto para realizar aquilo que não sabe ou aprender o que precisa. Não ignoro que aprender algo no Candomblé é bem difícil, falta a boa vontade para isso, mas o Bàbáláwo tem o que dar em troca.

Não podemos esquecer que para alguns orixás que ela vai lidar aqui no Brasil, como Ori, Oxumarê, Logun edé, Obá e por ai vai ele nem vai encontrar referência em Cuba. Se o Bàbáláwo não aprendeu no seu culto de Orixá ou tiver apoio, vai ficar sem saber.

Digo mais, o entendimento e a liturgia que temos para Ori no Candomblé é única e completa. Cubanos não tem a menor ideia, ou melhor, já tem, dizem que já sabiam mas não é verdade. Fazem ainda uma coisa qualquer bem mal feita. Os nigerianos não conheço, mas, não imagino que seja diferente. Por que uma pessoa vai procurar conhecimento liturgia de Ori fora do Candomblé?

Eu vejo como muito natural que os Cubanos apliquem no seu Ifá em relação a orixá o que aprenderam em sua terra e no seu culto de orixá, a santeria. É óbvio que eles devem fazer da forma como aprenderam. Também acho natural que se eles tem que ensinar algo a alguém que façam da forma como aprenderam.

Entretanto isso não descarta outras alternativas, a primeira delas será eles buscarem uma integração com o culto de Orixá da região que estão, como eles fazem em cuba com a Santeria. Se vão viver aqui não vão transformar isso aqui em Cuba, é o contrário eles tem que se adaptar aos nossos cultos.

Acho muito mais natural que os Brasileiros que entram para a tradição cubana, separarem a parte de orixá da parte de Ifá e os brasileiros devem procurar o seu apoio no Candomblé ou seu cuto de Orixá. O nosso culto de Orixá é muito bom, o melhor, mas, antes de tudo é o nosso culto de Orixá.

O pior, para mim é claro, é ver brasileiros que se esforçam para falar nossa língua com sotaque de cubano, isso mesmo…. Tem algo mais lastimável que ouvir brasileiro falando português como se fosse um cubano?

A ideia de integração não é absurdo ou irreal, pelo contrário. Para ser efetiva depende também do Candomblé se abrir para entender o que Ifá pode lhe trazer e como Ifá não concorre com eles. Ifá é muito pequeno para concorrer com os diversos cultos de Orixá, mas, adiciona um valor perdido, um culto que esquecemos.

Ifá não é imprescindível, mas, agrega valor.



O Culto de Orixá dos cubanos, o Santo.


Para aqueles que não conhecem a estrutura que estou comentando, existem algumas coisas que devem ser explicadas. A primeira é que existe um culto de orixá e o culto de Ifá, são segmentos diferentes e especializados. O de orixá cuida de orixá e tem um aspecto bastante abrangente na vida das pessoas, porque Orixá é muito abrangente no nosso dia a dia. O culto de ifá cuida apenas do oráculo de ifá.

Santero cuida de santo (orixá pelos cubanos) e Bàbáláwo cuida de ifá. Lá em cuba a informação que tenho é que de forma geral os babalawo tratam do culto e liturgias Orunmilá e exu. Os santeros de orixá. Isso não é uma regra, é uma convenção deles. De fato, não é o correto que essas coisas se cruzem. Babalawos não fazem santo e santeros não consultam ifá. Essas afirmações sempre trazem discórdia e polêmica, entretanto a gente deve dizer o que tem que dizer, cabe aos outros explicarem suas ações.

O culto de orixá em cuba chama-se lukumi, ou santeria e é bastante padronizado, existe uma unidade, uma “regla”. Além disso a ilha deles é muito pequena para ter muita variedade. No Brasil o culto de orixá é coberto pelo conjunto do candomblé, pelo Batuque, pelo Xangô do Nordeste e pelo Tambor da Mina (espero não ter esquecido de algum). Como eu disse em outra postagem, a religião Yoruba no Brasil é um conjunto amplo de tradições e não uma unidade. Cuba é uma ilha muito pequena e com uma população muito reduzida se compararmos com o Brasil. Somos um continente em termos de tamanho e eles, comparativamente, um estado pequeno, um pouco pior, porque são uma ilha.....

A complexidade cultural e religiosa deles é muito pequena. Eles fazem apenas muito barulho. Muito barulho pouca informação e pouco conteúdo. Os cubanos, de Ifá ou da Santeria jamais vão entender o nosso culto de Orixá. É muito vasto e complexo para eles. Como disse em outro texto eles vão ter dificuldade aqui no Brasil de entenderem o que é um Orixá de verdade. No Candomblé quando alguém incorpora com orixá nos vemos Orixá mesmo, para eles cubanos, a incorporação é muito mais rara e eles veem como um egun na pessoa, eles não acreditam que Orixá incorpora em ninguém.

As pessoas que não são de Candomblé ou nunca viram poderiam incorporar as ideias deles por falta de conhecimento e experiência. Nós sabemos com o que trabalhamos e sabemos fazer a diferença.

Nós aqui temos um diferencial muito importante, a Umbanda, que tem um amplo espectro de guias, de vários níveis de evolução e energia, indo dos mais elementares e baixos até aos mais próximos de orixá, mas tudo isso em um sistema hierarquizado e muito bem organizado. A Umbanda é uma religião brasileira, não é parte do Candomblé ou de outro culto de orixá, mas, consegue funcionar e integrar a sua hierarquia a este culto.

Temos eleguns e Iyalorixás que já passaram por várias casas de orixá e também pela Umbanda. Nós aqui conhecemos egun em todas as suas formas de manifestação no Aiye e sabemos fazer a diferença entre orixá e egun. Os médiuns e eleguns sabem diferenciar, explicar definir e filtrar com quem trabalham. Estamos em outro patamar de entendimento do supernatural.

Além disso incorporar com Orixá é a regras para os eleguns dos cultos de Orixá, temos um longo processo de iniciação para que isso ocorra, não fazemos iniciações em 7 dias. Nossa experiência nos faz saber com o que lidamos e mais, nos faz saber a diferença entre essas coisas. Eles, os santeros não tem nada disso.

Lembro que a Umbanda foi um grande divisor de águas neste contexto religioso. Ela acabou com a feitiçaria banto, o chamado baixo-espiritismo cuja prática era dominada pelo charlatanismo e feitiçaria de poucos propósitos, para uma forma de práticae culto na qual ideais e dedicação substituíram o mercantilismo. A Umbanda reuniu dentro dela uma ampla hierarquia de espíritos e os colocou debaixo da mesma ideologia religiosa, além de estabelecer uma ordenação hierárquica da prática no nível espiritual. Apesar de carecer de uma melhor formatação para os praticantes que se sentem atraídos pelo aspecto exterior do Camdomblé, em relação ao mundo espiritual ou supernatural a Umbanda trouxe opções e organizou sua prática.

A capacidade e a complexidade da Umbanda em lidar com o mundo supernatural é muito grande, muito superior ao dos cultos de orixá. Mas a Umbanda pode se integrar perfeitamente com os cultos de orixá, sem prejuízo da Umbanda e dos cultos de orixá, é um ecumenismo não um sincretismo.

Claro que a capacidade das pessoas varia muito e gente inábil faz dessa capacidade de integração e complementação um desastre, criando os monstros que temos por ai, como os Omoloko, Umbanda traçada e Angolas.

Em muitos aspectos a presença da Umbanda prescinde a necessidade do culto de egungun para nós no Brasil. O Culto de egungun existe, mas fora a parte de curiosidade e culto de orixá e a Umbanda o substitui. A Umbanda nos trouxe uma enorme compreensão do mundo supernatural que existe entre a energia mais baixa de um espírito perdido à energia mais elevada de um Orixá. Os Orixá de Candomblé ou dos outros cultos não pertencem a Umbanda, mas encontram nela uma base e uma continuidade.

Sem dúvida nenhuma a Umbanda nos fez ter uma prática religiosa muito melhor e superior. Saímos do animismo fetichista africano, que dominava a nossa cena urbana do princípio do século XX para uma religião brasileira que organizou o mundo supernatural.

O que os cubanos têm em cuba é o Palo e a macumba, principalmente o primeiro. O Palo é o baixo-espiritismo, como tínhamos ha mais de 100 anos atrás. Dessa maneira, mais uma vez eu digo que nossa complexidade cultural e religiosa é desconhecida pelos cubanos. Se algum dia eles conseguirem entender o Candomblé, o que não vai ocorrer porque eles cresceram com formatação ideológica da Santeria na cabeça, eles não vão conseguir saber o que é a Umbanda. As bases de comparação dele são muito pobres, seja a Santeria como o palo e similares.

Suponho que muitos de vocês devem estar se perguntando porque o texto tomou esse rumo e onde quero chegar. O que busco explicar aqui é o que já falei muitas vezes. Temos uma complexidade cultural e religiosa aqui muito grande e autossuficiente. Nós temos a ensinar e não a aprender com os cubanos. Eles trazem para o Brasil uma prática de orixá muito mais pobre do que a que temos, em relação ao que temos aqui, a opção nativas deles é um retrocesso.

Em relação ao culto de Ifá, o que eles trazem é adequado. Como tudo de Cuba eles simplificam e misturam coisas, mas Ifá é Ifá mesmo, em cuba, Nigéria ou no Brasil.

O culto de Ifá tem 2 tradições religiosas diferentes. A cubana e a nigeriana. Apesar de ambas serem ifá, elas tem diferenças litúrgicas.

Aqui no Brasil não tínhamos ifá. Hoje temos o ifá cubano e o nigeriano, a escolha e podemos fazer o nosso Ifá Brasileiro, retirando a parte Santeria do Ifá deles e melhorando a parte Yoruba, principalmente rezas e histórias de Odù.

Assim espero que neste ponto do texto, fique claro para os leitores que:

  • O culto de orixá é distinto do culto de Ifá. 
  • Os sacerdotes não são os mesmos. 
  • Temos no Brasil uma prática bastante antiga de orixá que é muito consistente e nos permite saber claramente como é que deve ser feito o culto a orixá. Podemos não ter histórico de ifá, estamos aprendendo isso, mas o que diz respeito a orixá é de nosso completo domínio.
  • Dentro do Ifá, além de liturgias e conhecimento específico de Ifá existe a necessidade de se fazer coisas para Orixá.
  • Os Babalawos brasileiros podem aplicar no seu Ifá as práticas de orixá dos cultos de Orixá
  • Existem diferenças grandes no culto de Orixá do Brasil e de Cuba.

Os Santeros e os Santos


Lembro a todos que "santo" é a forma como os lukumi (santeros) cubanos chamam os orixás. A santería é bem diferente do candomblé, apesar de terem como origem a mesma religião yoruba.

As pessoas precisam entender que os caminhos de evolução é que determinam o formato final e não a origem. Não adianta terem tido a origem no mesmo lugar se tomaram caminhos diferentes na sua evolução. Se comparado com o Candomblé, com o que conhecemos de Orixá, a santeria tem uma forma muito distinta de ver orixá, tem uma teogonia um pouco diferente, tem Orixás que eles criaram lá, etc.

No meu modo de ver eles se comparam a umbanda omoloko que a gente tinha ou tem por aqui, não no aspecto de incorporação, porque lá isso é menos comum, mas no entendimento da religião e das divindades como uma mistura do original com uma coisa própria deles, extremamente sincrética. O culto de orixá deles, a santeria, incorpora muito a sociedade deles e em demasia o catolicismo, dificilmente alguém do candomblé, que se aprofundar, poderá se identificar com a forma como eles entendem e lidam com orixá.

Você não vai encontrar neles coisas muito básicas no nosso entendimento, como xirê, conceito, teologia e pratica de Ori, qualidade de Orixá, o conceito de terreiro (a comunidade), o conceito e processo de feitura de orixá e até mesmo a necessidade da incorporação do orixá para a sua presença no Aiye.

O Candomblé é um culto no qual a presença do orixá incorporado, no Xire, dançando com as pessoas e até mesmo cantando (como ocorre em algumas tradições) é primordial. Existem tradições brasileiras, dentro do Candomblé e fora dele (como o Xango do nordeste) no qual o Orixá incorpora e convive com as pessoas longas horas.

O Candomblé tem convenções ou dogmas no qual em determinados momento ou liturgia o Orixa ira se manifestar para fazer ou receber o que fazem. O Elegun de orixá é uma figura importante.

Nada disso faz parte da Santeria. As coisas dele são feitas de “cara limpa”, eles rezam ou cantam e pronto, está feito. Você tem que acreditar (haja fé...).

Outras diferenças importantes poderiam ser destacadas e incluem a visão do culto de egun dentro do culto de orixá deles. Eles acham normal, orixá e egun para eles estão muito próximos e ligados. Para nós são distantes, 2 cultos separados.

Vocês podem então estar se perguntando, porque nos santeros isso está tão próximo e com a gente tão distante?

Simples, para eles não tem Orixá incorporado, é um egun de uma mãe de santo ou pai de santo que incorpora na pessoa. Por isso que egun e orixá estão tão próximos para eles e tão distantes para nós. Por isso é que eu chamo o nosso de orixá e o deles de “santo”.

Além disso eles lá tem o Palo, uma forma de macumba e tem também a macumba dos Bantus, que aqui acabou e foi substituída pela Umbanda. Lá eles tem a forma de macumba pré-umbanda, e sendo uma ilha pequena com um povo reduzido essas coisas se misturam. Sem dúvida a Santeria tem muita influência do Bantu, dos Cambinda, coisa que não ocorre no Candomblé.

A Umbanda foi também um processo muito forte que acabou com o universo de macumbas, quimbandas e feitiçarias que existiam.

Não estou neste momento fazendo nesse momento qualquer juízo de valor sobre essas diferenças. Estou apenas destacando que existem diferenças fundamentais que, para quem não tem intimidade com a teologia pode não ser percebida ou parecer importante, mas, para mim, me faz dizer que são água e óleo.

Essa diferença teológica gera uma questão importante e que está sendo desprezada largamente por todos podendo trazer consequências ruins para nós no Brasil. Nós podemos fazer uma auto-crítica e achar que temos coisas a melhorar e corrigir no candomblé, essas coisas dizem respeito principalmente a comportamento das pessoas e organização, mas, não temos nada a mudar na religião e no culto de orixá. São muitos anos de uma prática consistente que apresenta resultados concretos.

A santeria não adiciona nada ao candomblé, não temos nada a adicionar, mudar ou copiar. Repito eles são uma outra “coisa”. Eles do jeito deles e nós do nosso.

Se os cubanos estão felizes com o que fazem ótimo para eles. Por gentileza digam a eles que sejam felizes assim e digam mais, digam que eles não tem capacidade ou propriedade para comentar nada do candomblé.

Não coloquem na mesma cabaça a Santeria e o Candomblé.

O que os Babalawos cubanos trouxeram para cá, para lidar com a parte orixá, foi essa santeria e é em relação a isso que temos que ter cuidado.







Texto anterior na sequencia: A ligacao entre ifa e o culto de orixa






segunda-feira, fevereiro 09, 2015

De volta às Postagens...


Aos que acompanham, lamento a interrupção, mas, questões sacerdotais que impediram de manter as publicações.

Estou retomando e espero manter o Ritmo...  que não é fácil.

Lembrem-se de indicar o Blog para outras pessoas. Passem o link do blog, publiquem o link que gostarem no FB, etc....


A Ligação entre Ifá e o Culto de orixá

Revisão 2


Este é mais um daqueles textos que demoram muito tempo para serem feitos. Foi reescrito muitas vezes, etc.. É muito difícil chegar a um bom termo em alguns temas, nos quais você tem que relatar o que vê e dizer o que pensa.

Tudo isso começou com a observação da forma como o ifa cubano traz junto de si a prática de orixá deles, cubanos, a santeria, e como algumas coisas têm se desenvolvido aqui no Brasil. Resolvi escrever sobre isso, mas, o texto tomou um rumo mais amplo e por isso me tomou mais tempo.

Lembro também que sempre “pinto” o que eu escrevo com cores bem fortes. Isso é para ir no ponto que importa, chamar atenção para o aspecto que está sendo comentado. Vejo muito texto que você não entende onde as pessoas querem chegar. Claro que o mundo real é bastante complexo e existem várias situações, casos e exceções e nenhum texto captura tudo isso, por isso o que importa mesmo é tratarmos do ponto principal.

Quando comparado com o Candomblé, nosso culto de Orixá, a forma como as coisas são feitas e tratadas no Ifá cubano e dos cubanos em geral, sempre me trouxe muita distância e estranheza. Eram coisas muito diferentes na prática para lidar com o mesmo divino, a mesma religião. Isso não tinha haver com Ifá, era a parte de Orixá que era muito complicada de eu aceitar, mas, mantive comigo, afinal eram coisas de cubanos e eu demorei um tempo para conseguir separar o que eram coisas que os babalawo faziam que era Ifá mesmo e as que eram Orixá e Palo.

Uma das “pérolas” mais hilárias que ouvi era quando fazia um comentário sobre a forma como fazemos com orixá aqui e vem a resposta dizendo que no Ifá é diferente e não se pode fazer daquele jeito.

Que estupidez, eu pensava, que coisa de idiota, como uma pessoa nem pensa no que está falando.

Como esses estrangeiros querem se introduzir aqui se não respeitam o nosso culto de Orixá e se não querem entender minimamente o que temos e o que fazemos. Eu vou até mais além, sendo muito crítico fico na dúvida se eles entendem o que é orixá de fato.

Este texto será longo e essas afirmações serão explicadas.


Ifá e o culto de Orixá


A primeira informação importante para todos é que Ifá não está dissociado do culto de orixá. Isso foi uma constatação muito interessante e motivante para mim. Ifá é um culto que pertence a mesma religião (Yoruba) que tem um culto de Orixá. Aliás, a gente vai encontrar na religião Yoruba 3 cultos, o de Orixá, o de Ifá e o de Egungun.

São cultos distintos porque tem foco em divindades diferentes, tem liturgias distintas e tem objetivos complementares, mas, fazem parte da mesma religião, compartilham as mesmas divindades e a mesma teogonia. São separados mas vejo-os fazendo parte de um todo.

Não me perguntem como Ifá se integra com o culto de jeje - Não sei. Quando a pessoa vai a Ifá ela vai na religião Yoruba.

O Jeje representa uma outra religião dentro do Candomblé e um culto com divindades diferentes. O jeje tem Vodun e a religião Yoruba tem Orixá. Conheço muito pouco desta religião, mas, o pouco que conheço me faz recusar esta abordagem medíocre que faz correlação de 1:1 entre Orixá e Vodun. Não concordo que isso seja assim.

Ifá é um oráculo Yoruba. Está ligado a uma teogonia Yoruba, a uma teologia Yoruba e a divindades Yoruba. Tudo em Ifá gira em torno de orixá e da teogonia Yoruba que é diferente da teogonia do Jeje. Quem no Candomblé é de uma nação Yoruba, se vira com facilidade, o pessoal de jeje não sei como faz.

Isso significa que a pessoa não pode ir a Ifá? Não, apenas saiba que vai sair de lá com indicação de coisas para fazer no contexto Yoruba e de suas divindades. Se isso não for problema para ele, então não existe problema. Como estou falando aqui de ecumenização, ou seja, de integração de cultos, no caso do Candomblé temos que ter atenção na raiz da religião.

Claro que a maior parte das pessoas que conheço ou situações que vi indicam que isso não é problema. O que mais tem é “Doté de orixá” e casa de jeje que toca ketu e só faz orixá Yoruba ou faz Vodun como se fosse orixá, só troca o nome. Raro é uma casa que seja Jeje, essa ortodoxia existe mais na nossa cabeça o mundo real é uma bagunça.

Se o Doté ou Doné já é de orixá então o resto todo também o será. A coisa começa da raiz, se a raiz começa com Orixá porque o resto será diferente?

Usando uma expressão que ouvi e gostei, o que temos mais e mais, é o Candomblé popular, não é o Candomblé de nação. As pessoas praticam de qualquer jeito e de qualquer forma. Raros são aqueles preocupados com religião e culto, preocupados com nação e ortodoxia, preocupados em dar consistência no papel da religião na vida das pessoas.

O Candomblé popular é aquele que acontece. As pessoas fazem e ganham dinheiro com ele.

Para aqueles que pensam que isso é um problema dos tempos modernos, não é, pelo contrário, os tempos modernos só melhoraram o Candomblé. A divulgação de informação, a facilidade de reconhecer erros, a penetração em uma camada da população mais preocupada em ter uma religião mudaram para melhor a qualidade do Candomblé.

A perda de conhecimento que o Candomblé teve em sua prática hermética e em guetos era fruto de pessoas com poucos valores e ética, que se preocupavam somente com elas e mais nada. O ganho de qualidade, ética e moral do Candomblé tem sido muito grande e o salvou. Claro que todo crescimento e evolução tem seus defeitos e problemas, mas cada vez a gente tem coisas menos séria ou escandalosas para lidar. A transparência e o acesso à informação mudam para o bem.

Ha muito tempo que já deixei de lado essa posição ingênua de que os "antigos" é que faziam certo. Coisa nenhuma, como eu disse, não sejamos ingênuo. Claro que até podiam entender muita coisa que não sabemos hoje, como também desconhecer coisas que sabemos hoje.

Sua incapacidade em preservar a religião é que levou a perda. Não tenho dúvida que essa mesma herança histórica foi a que expulsou o culto de orixá da Africa. A diáspora negra foi uma solução e não um problema. Ela permitiu que os Orixá se preservassem, porque se dependesse dos africanos já teria acabado.

Essa herança cultural, histórica étnica é que fez com que eles não preservassem sua religião e continuassem submetidos e escravizados apesar do absurdo número de africanos no Brasil. Eles estavam mais preocupados em se dar bem, em se libertar e ter escravos do que mudar algo.

O Candomblé do início do século refletia o mesmo. Desunião e feudalismo.

Voltando ao tema, em ifá existem liturgias próprias de Ifá e que não encontraremos no culto de orixá. O Babalawo trabalha de uma forma distinta do Babalorixá, contudo, Ifá se apoia ou mesmo depende fortemente do culto de Orixá.

Sim, Ifá é o oráculo de orunmilá, mas o que ocorre em nossas vidas, a ação, passa por Ori e principalmente por Orixá. Orixá é a divindade que influencia nossa vida de forma positiva e é quem nos socorre como resultado da consulta a Ifá. Orunmilá não está dissociado dos demais Orixá, ele é o Oráculo, mas nossa vida ainda é orientada diretamente pelos Orixá.

A ação do Oráculo na nossa vida se inicia com Orunmilá e Esu, mas continua e se manifesta com os Orixá. Isso está no odu Oseotuwa. São os orixá os principais motores da nossa transformação e socorro. O Oráculo como intermediário e instrumento de diagnóstico determina ações que serão suportadas por Orixá e egungun.

Esta é a religião Yoruba. Esta é a teogonia. Assim, Ifá não é isolado ou independente ele se integra aos demais cultos de forma bastante natural.

Claro que o Babalawo tem uma forma própria de fazer o que precisa com seus Odù e Opon, mas algumas coisas podem ser ditas:

— existem situações de oráculo que indicam diretamente ou por bom senso que o consulente deve procurar o culto de orixá;

— a maior parte das oferendas à orixá pode ser feita da forma como a pessoa já faz no culto de orixá.

O acesso aos Orixá é determinado quando se especifica o ebó ou oferenda que é necessário. Não lembro se já falei aqui sobre a anatomia de uma consulta a Ifá, creio que sim. Após determinar o Odù que traz a mensagem a pessoa, o Babalawo determina qual o ebó que será necessário para fazer aquilo se manifestar na vida da pessoa.

Nesta fase da consulta podem ser determinados ebó de Ifá com tabuleiros, cerimônias específicas de Ifá e as oferendas a Orixá. Sim, no caso da rama cubana o Babalawo sempre determina que orixá esta respondendo em socorro aquela pessoa. Isso não é nada diferente do que um babalorixá faz no seu culto de orixá com o merindinlogun.

Nesta etapa é determinado o que o Orixá precisa para ajudar a pessoa. O que quer que seja oferecido ao Orixá se torna uma oferenda a orixá e não mais importa como será feita. O Bàbáláwo pode fazer da forma como sabe, mas o consulente, se for de um culto de Orixá e souber o que fazer, também pode fazer a sua maneira ou de qualquer maneira que se chegue ao orixá. É aqui que entra o culto de orixá.

Os Bàbáláwos cubanos vão fazer isso da forma como aprenderam, seja em Ifá ou na Santeria, não tem problema nisso. Mas não pode haver qualquer tipo de objeção aos brasileiros poderem fazer isso da forma como aprenderam no seu culto de Orixá ou através de uma casa de Orixá.

O divino é o mesmo. Você pode através de cada religião e culto aprender formas distintas de atingir ao divino. Essa é a função da religião. Os cubanos aprenderam de uma forma e farão como sabem. Os brasileiros dos diversos cultos de Orixá podem ter alternativas a estas formas.

Mas aquele que diz, como já ouvi, que a forma se fazer uma oferenda para um determinado Orixá é somente do jeito dele representa a voz do ignorante. Pior um pouco, não respeita a sua religião ou não entende que faz parte de uma única religião.

Estou usando aqui a referência dos cubanos mas isso vale para os nigerianos e seus filhotes de criação brasileiros. É a mesma coisa.

Próximo texto da sequencia:  os babalawo e o culto de orixa