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sexta-feira, setembro 27, 2019

Qual a diferença entre Ifá e jogo de búzios?

Está é uma questão bastante interessante que pode ter respostas teóricas e práticas. Eu inclusive vejo uma linha bem longa de explicações, mas, tentarei encurtar isso ao máximo.
Ambos, Ifá e búzios, são oráculos que pertencem a mesma religião, mas a cultos diferentes. Ambos tem a mesma finalidade, orientar as pessoas no seu dia a dia, trazendo ajuda para entender o que fazem errado, o que está errado e o que elas devem fazer para mudar sua vida ou corrigir os problemas.

É para isso que um orácula serve na religião.

Como oráculos, ambos representam o ponto máximo da fé das pessoas em deus, na forma de Olódùmarè e são o compromisso de deus com o nosso sucesso nesta vida. Existe de verdade uma aliança de deus com nossa vida no Àiyé, não uma arca, mas uma aliança de fato, para que nossa vida seja próspera, feliz e cheia de realizações. O oráculo é o instrumento que faz parte desta aliança.

Como Bàbáláwo me sinte orgulhoso de trabalhar, ser um operário, nessa aliança entre deus e as pessoas.

Já comentei isso em outros textos. Este é o sentido teológico de um oráculo. Deus está preocupado com o nosso bem estar.

O oráculo de Ifá pertence ao culto de Ifá e o oráculo de buzios pertence ao culto de orixá (Òrìṣà). O culto de Ifá é um culto especializado em oráculo, a única atribuição de um Bàbáláwo é cuidar do oráculo, da comunicação entre as pessoas e o divino. Mas, ter um oráculo não é privilégio do Bàbáláwo, o Babalorixá (Bàbálórìṣà) ou Iyalorixá (Ìyálòrìṣà) também têm porque tudo nessa religião depende de oráculo.

Dessa maneira, qual a diferença?

Como eu disse, ambos são oráculos e atendem a qualquer pessoa, não existem privilégios especiais no mundo, deus está para todos os seres humanos, não existe na minha concepção um deus que escolhe pessoas ou 12 tribos apenas e ignora todo o resto da humanidade.

O que eu vou falar a seguir, sobre os oráculos, são apenas aspectos práticos baseado na minha longa convivência com os 2 oráculos, seja como consulente ou como operador (olhador ou Bàbáláwo).

Como é minha opinião vai ter gente que poderá discordar, mas, sobre isso cada um escreva o que acha que deve escrever.

Se o seu interesse é ver coisas relativas a Orixá (Òrìṣà), como obrigações e oferendas o oráculo a ser usado é o de búzios. Se você quer saber se fez obrigações corretas ou se foi iniciada para o orixá (Òrìṣà) correto e a qualidade certa, Búzios é o oráculo onde os orixás falam. Procure um Babalorixá (Bàbálórìṣà) ou Iyalorixá (Ìyálòrìṣà) para tratar disso.

Essas são dúvidas comuns mas perigosas porque podem levar você de encontro ao seu iniciador. Cuidado antes de entrar nesse caminho sem volta. Procure um bom olhador e uma pessoa ética que não demonstre nenhum interesse em capturar você para a casa dele.

Para tratar desses assuntos você tem que falar com uma pessoa que tenha conhecimento de orixá (Òrìṣà) e do culto de orixá (Òrìṣà), um Bàbáláwo não é uma pessoa para você tratar disso, em nenhum caso. Jamais procure estrangeiros para isso. O oráculo para isso é o jogo de búzios.

Em Ifá quem fala é Órunmila (Ọ̀rúnmìlà). Assim em uma casa de orixá (Òrìṣà), de candomblé, os búzios devem ser o oráculo para ser usado para se tratar com orixá (Òrìṣà). Existem inúmeras questões para isso principalmente envolvendo os iniciados.

Se a pessoa quer saber algo ligado a orixá (Òrìṣà) não adianta procurar um Bàbáláwo, só vai arrumar problema para a vida dela.

Em relação as pessoas laicas, não ligadas a religião, principalmente, ou mesmas as iniciadas que quiserem tratar de coisas relativas a vida delas, eu considero Ifá, quando bem feito o oráculo mais completo e profundo. Um bom Bàbáláwo tem, através de Ifá, explorar as questões e problemas mais profundamente. Um Bàbáláwo tem essa oportunidade, ele pode não aproveitar, mas, o oráculo permite isso.

Se o consulente quer tratar de questões simples do dia a dia, problemas, e orientações do dia a dia mais imediato e que não requerem uma avaliação mais profunda de suas questões, o jogo de búzios é muito melhor.

Suas repostas são objetivas, cheias de contexto, os búzios permitem uma interpretação mais completa, trazem mais informações e possibilitam um diálogo bastante interativo. Considerando que a maior parte dos Babalorixá (Bàbálórìṣà) ou Iyalorixá (Ìyálòrìṣà) usam ainda sua mediunidade nas consultas de búzios, as possibilidades deste oráculo são excelentes.

O problema aqui é o mesmo que citei em Ifá. Pessoas mal intencionadas, despreparadas para uso do oráculo, que não se dedicam e não se preparam para o seu uso. Nesses casos corre-se um grande risco de ser enrolado pelos olhadores.

Como eu disse antes, é necessário fé, mas, também, uma visão crítica do processo para você estar 100% satisfeito e não ser enganado.

Você também pode ir a Ifá para resolver questões simples e imediatas, não tem problema, um Bàbáláwo usando o opele (Ọ̀pẹ̀lẹ̀) Ifá é quase igual a um olhador de búzios, rápido e objetivo, mas, você não vai ter a parte da mediunidade do olhador para complementar.
Eu vejo em ifá um uso muito superior quando a consulta é feita com Ikins, mas os Bàbáláwo não gostam disso, preferem usar o opele (Ọ̀pẹ̀lẹ̀) ifá que é um processo rápido.
Uma boa consulta de búzios pode demorar 1 hora ou um pouco mais. Uma boa consulta de Ifá com ikins vai demorar umas 4 horas, mas, como opele (Ọ̀pẹ̀lẹ̀) Ifá demora a mesma 1 hora.

Em relação ao formato das consultas, os búzios são sempre muito direto, o olhador vai dizendo os problemas e você confirma se é aquilo ou não. As coisas nos búzios têm muito significado.

Em ifá não é assim, deveria ser bem mais complicado. O formato correto é o Bàbáláwo te contar histórias e você interpretar as histórias para eles e falar como seu sente com elas, se você se identifica com elas, etc..

Essas histórias são os famosos versos de Ifá. A dificuldade é entender as histórias e contá-las. Os poemas são bem típicos dos yorùbá, contêm referência difíceis de entender e são metáforas e parábolas. Tem que ter um bom nível de interpretação de texto e de abstração para entender os versos.

Todo mundo acha lindo os versos de Ifá, mas usar eles que é bom mesmo ninguém quer.
Isso leva um bom tempo, é um processo de análise gradual que vai se aprofundando e faz surgir as verdadeiras questões do consulente. Mas isso demora.

A gente sempre fala que em ifá a pessoa não pode ser burra. Tem que ser inteligente, tem que saber interpretar, tem que saber abstrair, criar cenários, tem que saber falar com a pessoa que está na sua frente.

A maior parte dos Bàbáláwo não usa a interpretação de versos, eles usam o opele (Ọ̀pẹ̀lẹ̀) Ifá e não trabalham com histórias e com a interpretação conjunta. Eles vão direto nos significados e pré-interpretações que tem em relação as caídas do opele (Ọ̀pẹ̀lẹ̀) Ifá (Odù). Nesse formato, as coisas funcionam, mas eles ficam igual ao jogo de búzios que trabalha da mesma maneira, com significados prontos para as caídas, tem muito Bàbáláwo que concorre com búzios no mesmo tempo e no mesmo jeito de interpretar o oráculo, mas, não tem a mediunidade para complementar.

Dessa maneira ambos os oráculos são bons.

Concluindo, se quer lidar com coisas de orixá (Òrìṣà), vá nos búzios, se quer tratar de coisas imediatas de sua vida, decisões e orientações pode ir em ambos, mas se quer avaliar sua vida de forma mais profunda, só Ifá vai te dar isso.

Em qualquer caso, para ter sucesso, tem que ter um bom olhador. Mais ainda, não falei seu problema, o oráculo tem que falar.

COMPLEMENTO:  complemento

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