A MUDANÇA NA ORTODOXIA DE IFÁ
em relação a posição da mulher no culto
A palavra ortodoxia designa o conjunto de crenças, princípios e interpretações que uma tradição religiosa reconhece como corretos e fiéis à sua própria identidade. O termo não significa apenas “opinião verdadeira” em sentido abstrato. Em religião, ortodoxia é aquilo que uma comunidade considera estar de acordo com seus fundamentos, seus ensinamentos recebidos, sua memória sagrada e sua forma legítima de compreender o divino.
Toda religião desenvolve algum grau de ortodoxia, ainda que não utilize essa palavra. Sempre que uma comunidade distingue entre uma interpretação correta e outra considerada inadequada, entre uma prática legítima e outra estranha à tradição, já existe uma noção de ortodoxia.
A ortodoxia cumpre, portanto, uma função de preservação. Ela procura impedir que os ensinamentos religiosos sejam modificados de tal maneira que deixem de expressar aquilo que caracteriza a própria religião. Sem algum critério de continuidade, qualquer ideia externa poderia ser incorporada, qualquer conceito poderia receber um novo significado e, com o tempo, a religião poderia conservar seus nomes e rituais, mas perder sua estrutura teológica original.
Entretanto, ortodoxia não deve ser confundida com imobilidade absoluta. Uma tradição religiosa pode aprofundar seus ensinamentos, organizar melhor seus conceitos e responder a novas situações sem abandonar seus fundamentos. O desenvolvimento teológico é legítimo quando esclarece aquilo que já está contido na tradição. Torna-se problemático quando substitui seus princípios por ideias provenientes de outro sistema religioso ou filosófico, sem que essa substituição encontre fundamento em suas próprias fontes.
Por isso, a ortodoxia não é apenas repetição literal do passado. Ela é fidelidade ao núcleo da tradição. Uma formulação nova pode ser ortodoxa quando expressa, com maior clareza, uma realidade já presente nos mitos, nos versos, nos ritos e nos ensinamentos transmitidos. Da mesma forma, uma formulação antiga pode ser inadequada quando resulta de tradução equivocada, influência estrangeira ou interpretação incompatível com o conjunto da religião.
A ortodoxia deve ser reconhecida pela coerência entre as partes da tradição. Uma interpretação não pode ser considerada correta apenas porque foi repetida muitas vezes ou porque se tornou popular. Ela precisa concordar com a estrutura geral da religião, com sua compreensão do divino, do ser humano, do mundo, do destino, da vida e da morte.
Em uma religião baseada na transmissão oral, a identificação da ortodoxia exige cuidado especial. A ausência de um único livro sagrado não significa ausência de princípios. A tradição pode estar distribuída entre versos, mitos, orações, nomes sagrados, rituais, proibições, ensinamentos sacerdotais e formas de culto. A ortodoxia surge da convergência desses elementos, e não necessariamente de uma única declaração doutrinária.
Nesse contexto, nenhum verso ou relato deve ser interpretado isoladamente quando sua leitura entra em conflito com o restante da tradição. É necessário verificar se a interpretação encontra confirmação em outros versos, nos mitos, na prática religiosa e na estrutura teológica geral. Quanto maior for essa convergência, mais sólida será a afirmação de que determinado entendimento pertence à tradição.
Também é importante distinguir ortodoxia de ortopraxia. Ortodoxia refere-se principalmente à compreensão correta da religião; ortopraxia refere-se à prática correta. Uma pessoa pode repetir uma crença considerada correta, mas realizar inadequadamente seus ritos. Também pode executar corretamente um rito sem compreender plenamente seu significado. Em uma tradição religiosa completa, crença e prática devem permanecer ligadas, pois o rito expressa uma teologia e a teologia orienta o rito.
A ortodoxia não deve ser utilizada apenas como instrumento de autoridade pessoal. Nenhum sacerdote, autor ou comunidade local deveria declarar uma interpretação como ortodoxa apenas por preferência própria. A legitimidade de uma interpretação depende de sua fundamentação na tradição, e não somente da posição ocupada por quem a apresenta.
Isso não elimina a existência de diferenças entre linhagens, casas religiosas ou escolas de interpretação. Nem toda divergência constitui uma ruptura com a ortodoxia. Muitas diferenças dizem respeito ao método ritual, à linguagem, à organização do culto ou à ênfase dada a certos ensinamentos. Essas variações podem coexistir enquanto permanecem compatíveis com os princípios fundamentais da religião.
A ruptura ocorre quando uma interpretação modifica o significado dos elementos centrais da tradição. Isso acontece, por exemplo, quando seres, forças ou conceitos próprios de uma religião são redefinidos segundo categorias provenientes de outra, sem apoio nas fontes internas. Nesse caso, já não se trata apenas de uma variação de linguagem, mas de uma mudança teológica.
Assim, a ortodoxia religiosa pode ser compreendida como a preservação coerente da identidade de uma tradição. Ela não impede o pensamento, mas estabelece os limites dentro dos quais esse pensamento continua pertencendo à religião que pretende explicar.
No estudo da religião yorùbá, a ortodoxia deve ser buscada prioritariamente em seus próprios elementos: nos versos de Ifá, nos mitos, nos oríkì, nas práticas rituais, nos nomes e atributos das divindades e nos ensinamentos transmitidos pelas linhagens religiosas. Conceitos externos podem ser utilizados como instrumentos de comparação ou de explicação, mas não devem substituir as categorias internas da tradição.
Uma explicação pode empregar palavras provenientes de outra filosofia ou religião para tornar um ensinamento compreensível. Contudo, essa aproximação somente será legítima se preservar o sentido original do conceito yorùbá. Quando a comparação altera o conteúdo do ensinamento, ela deixa de ser uma explicação e passa a ser uma assimilação.
A ortodoxia, portanto, não exige que a religião permaneça incapaz de se expressar em novas linguagens. Exige apenas que, ao utilizar essas linguagens, ela continue dizendo aquilo que sempre reconheceu como verdadeiro sobre si mesma.
O poder feminino tem uma enorme importância em Ifá. Essa importância é tão grande que deve ser considerada como um poder básico e estrutural: sem o poder feminino, não existe o poder do Bàbáláwo.
Ifá é equilíbrio — isso está documentado no Odù Òdí Méjì. Equilíbrio é a palavra que define Ifá e, certamente, define também essa religião.
Nesse sentido, o paradoxo é que, apesar da enorme importância do poder feminino, Ifá é composto apenas por homens.
É o poder masculino que atua em Ifá. Não existe lugar em Ifá para uma mulher substituir ou fazer o que um Bàbáláwo faz. A liturgia e o sacerdócio são designados exclusivamente aos homens. Isso não define, por si só, a teologia da religião: trata-se de uma ortopraxia que, como veremos, deriva de sua própria estrutura metafísica.
Como já lembrei, Ifá é um culto religioso masculino. Isso é verdade em parte este livro foi feito para contrariar essa forte e factual afirmação.
Já participei de várias discussões e a qualidade dos argumentos é muito fraca. Do outro lado, dos opositores a Ifá ser exercido por homens, há apenas argumentos de que deve haver igualdade, de que não se pode fazer essa diferença e assim por diante. Só que isso não é sociedade civil, é religião — e religião tem dogmas, tradições, fundamentos e razões que têm origem na sua própria fundamentação.
Argumentar desta maneira é um equívoco, porque mostra apenas que a pessoa não entende o fenômeno religioso. Para trazer conteúdo a essa discussão farei um pequeno desvio temático em relação ao conteúdo principal do livro para que essa discussão posso ter bases melhores.
Religião é, em seu princípio, a palavra de Deus para nós. O sentido de uma religião é expressar as orientações de Deus sobre comportamento, valores e ética e, também, o conhecimento do supernatural, por meio do qual Deus nos suporta.
A divisão em cultos é uma forma de ortopraxia? Sim, mas tudo tem um sentido dado pela própria teologia.
Esses 2 últimos parágrafos têm uma densidade de informação muito grande, e eu preciso explicá-lo ponto a ponto. Minha justificativa é que se pretende entender religião tem que ver o contexto maior.
As religiões têm origem em Deus. Sim, Deus cria as religiões e fez isso no mundo todo, em sucessivas eras do tempo. Ao longo de toda a existência humana, houve religiões que nasceram naturalmente. Trata-se de um fenômeno humano, mas não de uma criação humana.
Atribuir ao homem a criação de Deus e da religião é uma profunda falta de conhecimento e de entendimento da natureza humana.
O processo de secularização iniciado na modernidade, fortalecido pelo humanismo, pelo Iluminismo e, posteriormente, pelo positivismo, reduziu progressivamente o papel atribuído à religião como fonte de conhecimento. No século XX, o positivismo lógico do Círculo de Viena levou essa tendência a uma formulação particularmente radical, ao rejeitar como cognitivamente significativas muitas proposições metafísicas e teológicas. Paralelamente, outras correntes do pensamento moderno passaram a explicar Deus e a religião como construções humanas, deslocando a discussão da compreensão do fenômeno religioso para a explicação de sua origem no próprio ser humano. Em vez de partir da possibilidade da existência de Deus para compreender a religião, parte-se de sua inexistência como pressuposto e se procura explicar por que o ser humano teria criado a ideia de Deus.
É evidente que existem pessoas que nascem para serem ateus. Elas precisam se justificar perante as outras porque encontram deus em toda a parte.
É necessário um grau muito grande de simplificação intelectual para acreditar que, ao longo de toda a história humana, em todas as partes do mundo, com povos que nunca se conheceram, a humanidade teria criado religiões como uma ideia artificial, uma coincidência coletiva e atemporal.
Porque essa é a explicação que é dada por pessoas que não querem reconhecer as religiões como legítimas. Eu tenho muita dificuldade para acreditar que pessoas realmente inteligentes e cultas possam se satisfazer com esse tipo de abordagem.
A religião é a estruturação das informações de Deus para nós. Temos uma vida de independência e total livre-arbítrio. Viver é uma aventura humana de almas perenes, que existirão após o fim desta vida humana. Livre-arbítrio não é uma expressão simples; é algo extremamente complexo em suas consequências e define a nossa relação com Deus.
Assim, nesse contexto de total livre-arbítrio da aventura humana, Deus escolheu se comunicar conosco por meio da religião. A religião é baseada na crença em Deus e é uma opção da vida humana. Ninguém é obrigado a adotar uma religião e, dessa forma, a crer em Deus. O ateísmo é uma manifestação legítima do livre-arbítrio.
Isso deve machucar os ateus: saberem que sua própria opção é parte da própria ação de deus.
A religião, por sua vez, é a expressão da existência de Deus e, por meio dela, da comunicação de sua palavra e de sua orientação. Mesmo em um contexto de livre-arbítrio, Deus nos deu a opção de aprendermos, por meio da religião, como devemos proceder em nossa aventura humana e qual tipo de suporte podemos esperar dele.
A razão de terem sido criadas muitas religiões é porque os povos são diferentes, e Deus precisa se comunicar com cada povo da forma como essas pessoas entendem a sua vida em sociedade. Cada religião representa uma especialização dessa comunicação.
Por meio da religião, Deus expressa, sempre, comportamento, valores, ética e moral. Deus nos orienta a sermos pessoas de honra e caráter, e esse é o conteúdo primário das religiões. As pessoas que não querem ser orientadas por esse padrão sempre reagirão às religiões e frequentemente as considerarão “castradoras”.
Deus não se interessa pelo que vamos alcançar em nossa vida, por nossos objetivos. Isso é problema nosso. Deus se preocupa em como vamos viver e como vamos atingir esses objetivos.
Livre-arbítrio implica o reconhecimento da independência em relação a Deus. Podemos ser e fazer o que quisermos. Não somos obrigados a fazer nada que Deus queira para nós e não seremos punidos por isso nesta vida. Essa independência é a base do livre-arbítrio, mas isso também significa que não há interferência direta de Deus em nossos problemas.
Esta é a razão, por exemplo de correntes cristãos mais obtusas negarem a existência do livre-arbítrio. Essas correntes querem estabelecer a prevalência de deus sobre nossa vida como se fôssemos marionetes em um teatro. Só que isso não existe!
Não posso fechar esse tema sem citar que essa minha visão abrangente sobre deus e a humanidade parece simpática, mas enfrenta grande rejeição devido ao que se chamou de “distinção mosaica” formulada brilhantemente por Jan Assmann1. Eu mesmo escrevi um livro inteiro para abordar esse tema (Qual é o melhor deus?”).
Levando a tese de Assmann às suas consequências teológicas, entendo que o que ele mostra é que o monoteísmo para se sustentar exige que as demais religiões não podem existir. Só pode haver uma visão de deus, a do monoteísmo judaico. A existência de uma outra cosmogonia e uma outra teologia não se traduzem em uma opção de entendimento, como eu expliquei, como explicações diferentes para a mesma coisa, para o mesmo deus.
A existência de uma outra opção significa diretamente a negação do monoteísmo e de toda a sua teologia. Para entender isso sugiro ler meu livro a respeito do tema.
Não é o tema aqui, mas eu rejeito a visão monoteísta. É um engano e foi uma criação humana, não uma inspiração divina.
O cristianismo ao adotar o monoteísmo judaico trouxe essa “distinção mosaica” e junto a obrigação de rejeitar as demais religiões para poder existir. É nesse contexto que muitos ou todos tem que também rejeitar o livre-arbítrio.
O entendimento que eu trago é que não somos marionetes e muito menos deus controla o mundo e a vida. Qualquer pessoa honesta reconhece isso, que existe uma distância entre deus e nossa vida e que no livre-arbítrio, a própria opção por não reconhecer deus, é parte da existência de deus.
O que todos podem reconhecer, com razoável facilidade, é que existe um suporte de Deus para nós. Não estamos sozinhos. Dentro de um escopo definido, alinhado aos objetivos previamente estabelecidos com Deus, podemos esperar algum tipo de ajuda. Para isso existe o supernatural que nos rodeia e as religiões nos ensinam como utilizar esse supernatural com ética e bons resultados.
Deus sustenta essa nossa vida. Existe, de fato, uma aliança entre Deus e todos nós, não apenas alguns, para que sejamos felizes em nossa aventura humana e esse suporte se dá por meio do supernatural, que faz parte do mundo natural.
Contudo, esse suporte será sempre restrito, ligado aos nossos objetivos de vida e condicionado ao nosso comportamento e ao nosso caráter, não é um botão de liga e desliga.
Uma boa religião e uma boa teologia são aquelas que propõe um modelo que seja aplicável para o mundo como ele é. Tudo o que ocorre no mundo tem que poder ser explicado pelo modelo. O mundo não pode ser dividido na parte que a religião explica e na parte que ela rejeita como sendo obra do diabo.
Igualmente não pode uma religião ter como teologia a afirmação de que o diabo é o dono do mundo e que somente se corrermos para deus seremos salvos. Isso não faz o menor sentido mas é o que metade do mundo deveria pensar que é a verdade, porque essa é a tese cristã.
A grande questão é que, hoje em dia, as pessoas têm enorme dificuldade em lidar com limites. Não sabem ouvir um “não”, não sabem seguir regras, hierarquias, tradições e nem mesmo compreendem o que é ortodoxia.
A ortodoxia vira um problema para a vida delas porque elas querem que a religião diga que elas estão certas e não o contrário. A ortodoxia religiosa e por fim a própria religião viram os vilões da sua vida, porque dizem que você deve ser outra pessoa.
A ortopraxia se integra a este contexto de negações. No caso da religião yorùbá ela organiza sua ortopraxia em cultos e os direciona para homens e mulheres. Isso, nos dias de hoje se torna uma questão ideológica, uma violação da igualdade e da liberdade, um atraso.
A especialização do sacerdócio em Ifá não nasce apenas uma conveniência administrativa, como a que ocorre no cristianismo. Tenho que citar mais uma vez o cristianismo e a religião católica porque essa contestação de Ifá tem, na minha visão origem na forma como a religião católica se estruturou e se justificou.
Na religião yorùbá a especialização do culto é devido a metafísica. É em função das capacidades, virtudes divinas que deus nos transmitiu em sua criação. Os cultos usam nossas propriedades naturais, nosso poder divino para escolher o sacerdote mais adequado e construir em torno dele o seu egbé (Ẹgbẹ́) de suporte.
Não é verdade que todos os cultos sejam somente masculino ou feminino. Sobre Ifá esse livro é para explicar isso. No culto de Orixá (Òrìṣà) o sacerdócio é feminino (ou deveria apenas ser) mas os homens têm funções importantes. O mesmo no culto de Eégún, no culto Gélede (Gẹ̀lẹ̀dẹ́), no culto de ajé (Àjẹ́), no culto Ògbóni.
A religião reflete a sociedade e a sociedade não é apenas de um sexo. A religião se foca na metafísica.
O cristianismo, em sua origem histórica possuía mulheres como sacerdotes, ou mestres como chamavam. Sempre foi um culto com presença feminina. Os judeus tem essa prevenção contra as mulheres mas o cristianismo nunca foi judaico, ele foi helênico.
Em algum momento a igreja excluiu as mulheres do sacerdócio e apresenta para isso justificativas fracas que são contestadas com facilidade. Igualmente a questão celibatária é objeto do mesmo tipo de crítica. A Igreja de Roma inventa um dogma e as pessoas contestam com facilidade.
O problema com isso é que quando uma outra religião define sacerdócio masculino as pessoas pensam que a motivação é a mesma e não se ocupam de entender as razões.
Mas religiões não tem compromisso com a modernidade da sociedade civil. O compromisso delas é mostrar ao ser humano quem ele deve ser e como deus pode ajudar ele nessa jornada.
A forma como as sociedades se organizarão é uma questão das pessoas. Organizações humanas não são o tema das religiões e você não tem que viver baseado em dogmas religiosos. Forçar isso é uma iniciativa humana, pessoas fracas e sem qualidade constroem relações de opressão baseadas em dogmas religiosos.
O que mostrarei aqui é que Ifá tem sacerdócio masculino mas a presença da mulher é base do culto, seja pela iniciação como o suporte da Apetebi (Apẹ̀tẹ̀bí). Além disso não existe proibição de mulheres aprenderem Ifá através de Odù.
Explicada essa minha visão sobre esse tema, voltemos ao conteúdo principal.
Em relação a ortopraxia, em Ifá, a presença da mulher é muito restrita — muito restrita mesmo. Sou direto quanto a isso. O culto majoritariamente feminino é o culto de Orixá (Òrìṣà) e o de ajé (Àjẹ́) (muito menor). É no culto de orixá, como no Candomblé, que a mulher tem lugar, importância e relevância, ficando os homens em segundo plano. O culto feminino é o egbé (Ẹgbẹ́) Imulé (Ìmùlẹ̀).
A participação sacerdotal masculina no culto de Orixá (Òrìṣà) é tardia (século XX) e, em muitos casos, um desvio histórico. As casas tradicionais, que são a raiz desse culto, não permitiam homens no sacerdócio. Isso mudou com casas-filhas e linhagens derivadas, que passaram a ordenar sacerdotes homens e razão disso foi econômica, os dirigentes, afastados das casas-mãe, em outras cidades precisavam ganhar dinheiro para sobreviver.
Apesar de terem se estabelecido com sucesso no culto de orixá, os sacerdotes sempre terão que lidar com um fato estrutural: não possuem útero, e o útero é base da comunicação Ọ̀run–Àiyé.
Observe que me refiro à função sacerdotal. Não existem cultos exclusivos para homens ou mulheres — religiões são para todos —, mas a função sacerdotal em cada culto é exercida de formas diferentes.
Atualmente, a ortodoxia sobre o tema da mulher em Ifá se perdeu. Até o final do século passado, havia clareza: não havia mulher em Ifá. Existia uma referência rara à Iyanifá, mas com inúmeras restrições — apenas mulheres que não menstruavam mais, sem uso de ikin e com atuação extremamente limitada.
Eram tantas restrições que poucas mulheres se interessavam. Em geral, eram mulheres de Bàbáláwo, de famílias tradicionais, e sua função era essencialmente decorativa, honorífica, sem atuação efetiva.
Na prática, consolidou-se a figura da Apetebi (Apẹ̀tẹ̀bí), com diferenças entre o Ifá nigeriano e o cubano.
No modelo nigeriano, a Apetebi (Apẹ̀tẹ̀bí) é, essencialmente, a esposa do Bàbáláwo. Esse é o padrão descrito nos versos. Seu papel é doméstico e familiar. Dentro dessa estrutura cultural, a autonomia econômica da mulher é esperada, e o papel do homem é limitado principalmente aos filhos.
No modelo cubano, houve uma adaptação. A Apetebi passou a ser um cargo ritual, não necessariamente vinculado ao casamento. Houve alguma valorização formal, mas, na prática, o que eu vi foi que sua função permanece auxiliar.
Essa realidade histórica não me foi contada — eu a observei diretamente.
Dessa forma, seja no modelo cubano ou nigeriano, não vejo, de forma clara, o que leva mulheres a buscar Ifá, considerando que não é um espaço que, historicamente, valorize sua dignidade sacerdotal.
Reconheço que essa descrição pode gerar desconforto, mas ela se baseia em fatos e práticas observáveis.
Hoje, esse cenário mudou, principalmente no contexto nigeriano, impulsionado por diferentes fatores. Na minha observação, porém, um dos fatores decisivos para essa flexibilização da ortodoxia foi econômico. A expansão de Ifá para o mercado religioso americano criou uma demanda pela abertura de funções religiosas às mulheres, contribuindo significativamente para essa transformação. Aliás, como já citei, processo semelhante ocorreu aqui no Candomblé em relação à introdução de homens no sacerdócio do culto de Orixá (Òrìṣà).
Isso torna o tema complexo. Já não se trata apenas do que é certo ou errado, mas do que passou a ser praticado.
Ainda assim, o poder feminino em Ifá é importante demais para ser ignorado.
É fundamental compreender que existem cultos masculinos e femininos nesta religião. O culto de Ìyá Nlá é feminino; o de Orixá (Òrìṣà), majoritariamente feminino (a participação masculina é uma invenção do século XX); o de Egúngún e o de Ifá, masculinos. Em todos eles há presença de ambos os sexos, mas a proeminência sacerdotal varia.
Este livro não trata da iniciação de mulheres. Esse é um tema colateral. O objetivo aqui é compreender o significado do poder feminino nesta religião e, especificamente, através de Ifá e não dos demais cultos.
Para isso, apresentarei textos, versos e histórias de Ifá que mostram a visão da própria tradição sobre a figura da mulher. Não se trata de invenção, mas de exposição do que está nos textos.
Esta é uma seleção minha. Consultei fontes e deixarei isso claro, mas escolhi o que considerei relevante.
Há um livro antigo, Apetebi, de Ifayemi. Não encontrei versão em português. Ele também faz uma seleção e apresenta comentários. É uma referência, embora, pessoalmente, eu não aprecie a forma como as histórias são resumidas.
O tratamento da mulher na sociedade e na religião é típico daquele contexto cultural. Por um lado, há reconhecimento de sua importância; por outro, há ausência de valorização proporcional.
Nos textos de Ifá, esse paradoxo aparece com frequência. A leitura dos versos revela, muitas vezes, um tratamento instrumental da figura feminina.
Essa postura também pode ser observada em práticas contemporâneas.
Nos versos, certos elementos assumem significados recorrentes: o carneiro como traidor, a tartaruga como inteligente e a mulher frequentemente associada a comportamentos problemáticos. Isso é parte da linguagem simbólica da tradição e precisa ser entendido dentro desse contexto.
Vejo muitas mulheres interessadas em Ifá, mas é necessário compreender o lugar que Ifá historicamente lhes atribui.
Hoje, por influência comercial, práticas estão sendo adaptadas. No caso nigeriano, especialmente, há uma abertura motivada por interesse econômico.
Os cubanos, por sua vez, mantêm o modelo da Apetebi (Apẹ̀tẹ̀bí) como função auxiliar.
Dito isso, vamos aos textos. Depois retomarei com mais comentários.
Espero que o leitor compreenda que estou descrevendo uma realidade observada e documentada, e não fazendo apologia de qualquer posição.
1Jan Assmann formulou a ideia de modo mais desenvolvido em 1997, no livro Moses the Egyptian: The Memory of Egypt in Western Monotheism, publicado pela Harvard University Press. Ali ele já usa a expressão “Mosaic Distinction” e dedica um capítulo à questão de sua superação.
Depois, em 2003, ele retomou e desenvolveu especificamente esse conceito no livro alemão Die Mosaische Unterscheidung oder der Preis des Monotheismus — literalmente, “A distinção mosaica ou o preço do monoteísmo”. Essa obra foi publicada em Munique/Viena pela Carl Hanser Verlag.