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quinta-feira, janeiro 31, 2013

A questão das trocas entre o ọ̀run (órun) e o àiyé

Parte 2 de 2

A troca de favores usando o Órun (ọ̀run) e o Àiyé
Chegamos, por fim, a talvez uma das questões mais primárias disso tudo que é o contínuo processo de troca entre o ọ̀run (órun) e o àiyé, que domina o dia a dia das pessoas.
Esclarecendo a todos o Órun (ọ̀run) é o espaço supernatural e o àiyé é o espaço natural. O Órun (ọ̀run) é o lugar onde habitam os espíritos e o àiyé é basicamente o mundo terreno. A troca significa que no àiyé as pessoas procuram através de liturgias e oferendas oferecer coisas esperando receber em troca disso favores dos espíritos do Órun (ọ̀run).
É como os católicos que fazem promessas para obter favores em troca de penitências (aqui uma relação de sofrimento, no qual o Órun (ọ̀run) católico exige que a pessoa sofra e se puna para atendê-la?) ou os neo-pentecostais com sua doutrina de teologia da prosperidade, na qual deus “em pessoa” vai atender a tudo o que eles pedem, inclusive as maldades que pedem colocando nomes e fotos das pessoas dentro da bíblia.
As trocas, então, não são uma exclusividade de nenhuma religião e sim na natureza humana.
No Candomblé, este mecanismo domina tanto, a visão da pessoa que se associa a uma casa, como também a forma como a sociedade vê as casas e isso é muito ruim. É no mínimo curiosa a a mentalidade que se constrói de que os espíritos e divindades no Órun (ọ̀run) estão ali, ávidos por receberem ebós e rapidamente, a troco de umas bolas de farinha ajudar as pessoas no àiyé.
Sem dúvida a visão do mundo de cada religião é distinta e isso direciona a forma como as pessoas vivem. Se você pega uma religião encarnacionista e cármica como o budismo e kardecismo, por exemplo, que pregam que viver é um sofrimento e você nasce, na realidade, fazendo um “curso” de sofrimento para não mais renascer, esta pessoa vai pautar sua vida justamente seguindo esta sina, de “viver” essas dificuldade para que elas não apareçam mais e também sendo forçosamente caridosos para acumular pontos positivos nessa vida.
Eu acho que o budismo deve fazer um bom trabalho nas pessoas, buscando o melhor delas, apesar de eu não gostar da filosofia como um todo. Mas o Kardecismo não tem filosofia do budismo e se caracteriza pela orientação à caridade, na maior parte das vezes não sincera, como uma obrigação de vida. Contudo, o que eu quero dizer aqui, mais uma vez, e enfaticamente, é que a pratica sincera de uma religião direciona a forma como as pessoas vivem e como encaram a sua existência.
A religião Yorùbá tem como característica dizer para as pessoas que elas nascem para ser felizes e elas devem viver felizes. Ela também reconhece que o mundo tem muitas dificuldades e coloca o divino, através de orixá (Òrìṣà) e outros espíritos disponíveis para ajudar as pessoas a vencer os obstáculos que as impedem se ser felizes.
Desta maneira o Candomblé tem esta veia assistencialista na sua estrutura. Mas o objetivo disso não é no que isto se transformou na prática. A religião quer as pessoas felizes e ela suporta isso através do equilíbrio e reposição de axé (aṣẹ́), que é a forma como a religião entende que você obtêm as condições para ter condições para resolver seus problemas. A religião entende que a pessoa deve ter energia, uma boa cabeça para tomar boas decisões, um bom caráter, ética e sorte na vida. Mas acima de tudo a religião diz que a pessoa deve ter boas pernas, porque sem boas pernas você não realiza nada.
A visão dela é muito direta, nós temos que resolver nossos problemas, o preguiçoso não vai ter nada na vida. Não adianta você se sentar e esperar que as coisas ocorram, se você quiser realizar alguma coisa faça algo por vocês. Se quiser ter dinheiro, trabalhe, se quiser comer, plante, se quiser resolver problemas e conflitos busque a solução. Não existe incentivo para a preguiça, para a leniência e para a pessoa resolver seus problemas com trocas e feitiços.
Existe uma frase muito boa que diz que seu orixá (Òrìṣà) não vai impedir que você chore suas lágrimas, mas, vai estar junto de você para enxugá-las. As trocas entre o Órun (ọ̀run) e o Àiyé existem, sempre com este sentido de dar a você as melhores condições para realizar, trabalhar, ter saúde, ter determinação e também para eliminar dificuldade ou negatividades que não lhe pertencem.
Se você passa anos plantando e regando um problema, você vai colher o seu problema. O que saiu da sua mão é seu, usufrua dele. Não adianta esperar ajuda divina para uma coisa que você mesmo criou para você. Mas, existem situações que não nos pertencem, existem problemas que não procuramos, existem negatividade que nos são direcionadas por outras pessoas por sentimentos que não fomos responsáveis diretos e nem por nossas ações.
Essas coisas, que não nos pertencem e que não cultivamos, são as coisas que são mais facilmente resolvidas pelo sistema de troca.
Mas, o ser humano é muito obtuso e muito focado em seus objetivos. A maior parte não esta interessada em “viver” sua religiosidade. A vida do praticante do Candomblé é dominada pelo sentido de alia naquela casa ela estará próxima deste processo de troca contínua de bens e favores entre o ọ̀run (órun) e o àiyé com o objetivo de resolver todos os seus problemas materiais.
O supermercado religioso do Candomblé é a tônica principal da compreensão que se estabelece do que seja a religião dos orixá (Òrìṣà) e isso é tão forte que permeia o grupo dos frequentadores e mais, se alastra por toda a sociedade. As casa da religião são rotuladas como casas de trabalho, lugares onde se paga para resolver problemas e, na maioria delas sem muita ética envolvida.
Assim, baseado no fato de que a pessoa é dedicada ao seu orixá (òrìṣà), que vai no seu terreiro para varrer o chão e passar roupa, ela entende que é merecedora de favores do plano divino. Oferendas e ebós são os elementos de troca que buscam dar coisas para que a pessoa receba em troca favores, que vão resolver o seu problema, trazer benefícios e criar atalhos para a sua vida.
A questão do comportamento, do mérito como base para se poder alcançar algo na vida ficam sempre para segundo (ou nenhum) plano. Entende-se que o processo mágico das oferendas ou de obrigações é o mais do que necessário para se obter o que precisa. Entendesse que uma pessoa que faça seu santo vai ter que receber em troca emprego, dinheiro e uma vida melhor. Se isso não foi alcançado é porque o sacerdote que procurou é ruim, seu santo foi mal feito, etc...
O mais incrível é a pessoa entrar para uma religião que ela imagina que as divindade que ela acha tão maravilhosa se vendem por um punhado de grãos para fazer qualquer coisa, ou mesmo, que ficam lá sem ter o que fazer a não ser facilitar a vida das pessoas aqui no àiyé.
O merecimento, ou a falta dele, é sempre lembrado como motivo para justificar o não benefício, geralmente por quem vendeu a liturgia para o favor ser atingido. Nessa hora a pessoa não obteve porque não merecia. Mas nunca lembrado quando o contrário ocorre, quando o benefício é atingido, nesse momento o mérito é de quem fez a liturgia. A medida do sucesso na obtenção de benefícios e prosperidade é a que justifica a permanência de alguém em uma casa. Se as coisas não vão bem elas se vão.
Afirmo que este é um desvio da religião. Ela não existe com essa finalidade e essas almas pobres que assim se situam estão completamente perdidas em relação ao o que é a religião. Não tenho dúvida que esta distorção de visão começou quando as pessoas começaram a comercializar o axé (aṣẹ́). O que deveria ser uma coisa restrita para as pessoas de uma casa passou a estar à venda para quem pudesse pagar.
O sacerdote usando os conhecimentos a que tem acesso se transformou apenas em um feiticeiro, um fazedor duvidoso de favores. Na vida real, como no cinema, toda força mágica tem 2 usos, o do bem e o do mal. A comercialização de ebós e feitiços é apenas um mau uso disso, é o uso do lado ruim.
Um religioso, um sacerdote é uma pessoa do bem. Ele não pode se prestar a anunciar serviços mágicos ao alcance de qualquer pessoa.
Na minha visão uma religião baseada em um sistema de trocas é o caminho certo para o seu fracasso. As pessoas que se envolvem com uma religião como o Candomblé não podem viver com essa perspectiva. Uma religião não pode se focar ou incentivar esse comportamento porque jamais as pessoas vão se encontrar ou entender o que estão fazendo lá.
Mais ainda, a falta de estrutura religiosa que permita a frequência e participação de pessoas não iniciadas em terreiros junto com a contínua pressão para que todos sejam iniciados é uma problema crônico que mais afasta do que aproxima.
O Candomblé não será uma religião se não criar categorias para diversos níveis de envolvimento e iniciação. Quando os terreiros tiverem que conviver harmoniosamente com pessoas que não querem ou que jamais farão o seu orixá (Òrìṣà) eles conseguiram enfim achar um caminho religioso para sia existência. Hoje essa convivência é um estágio intermediário no qual a pessoa é continuamente empurrada ou incentivada a trocar de status de abian para iyawo.
A manutenção de terreiros através de clientelismo religioso é mais um outro mal. Esse processo de troca entre ọ̀run (órun) e aiyé deve acabar e isto ser um bem intrínseco da religião e não explícito. O aspecto da troca esta presente em todas as religiões em maior ou menor grau. Você dedica tempo, fé e recursos e espera do ọ̀run (órun), do sagrado, um retorno para a sua vida. Isso é natural, mas, algumas religiões moldarem isso com sabedoria, como a católica outras transformaram isso na sua bandeira como os evangélicos, mas que junto com a promessa de benefícios traz uma enorme dose de doutrina, dogma, moral e ética.
A perspectiva materialista
Na umbanda e Candomblé isso fica quase apenas na perspectiva materialista. O principal exemplo desse paradigma é a Umbanda. Como já expliquei aqui antes a Umbanda por si só não se caracteriza nenhuma religião. È um processo de possessão voltado em princípio para ajudar outras pessoas mas que deve se basear em alguma doutrina religiosa, qualquer uma porque a pratica da Umbanda exige mediunidade e não uma crença religiosa específica. Assim existem muitas umbandas, cada uma com uma combinação e entre comum apenas a incorporação com espíritos.
Os médiuns e principalmente os frequentadores se fixam sempre na solução de problemas da vida e materiais. A frequencia é determinada por isso e todos os que ali estão querem resolver algo novo toda semana. “Macumba boa é aquela que funciona”. As respostas a pergunta chave geralmente se traduzem em algo do tipo que a pessoa esta ali para elevação espiritual, mas essa resposta não sobrevive a uma segunda pergunta do tipo o que significa para ela essa elevação espiritual, como aquilo se traduzira na vida dela?
Esse problema não é exclusivamente do Candomblé. Esta muito presente também nos neo-pentecostais, contudo, apesar do muito excessos eles conseguem algum equilíbrio entre a realização espiritual e o sentimento de realização material. Tanto que as pessoa migram do Candomblé e Umbanda para eles.
Existe um tipo de pessoa e uma determinada faixa da população que coloca claramente essa questão material na frente da sua religião. Elas na realidade vão estar sempre buscando alguém que resolva os seus problemas e serão uma população migratória entre doutrinas e casas na busca de solução.
O circulo virtuoso
Eu poderia traduzir assim o circulo virtuoso. Uma pessoa que se dedica a essa religião deve encontrar base e orientação para através do contato com esse divino, através de exemplos e através de orientação, atingir um equilíbrio em sua vida na forma como a conduz e na forma como dedica o seu tempo para objetivos de realização. Equilíbrio é a principal palavra que traduz essa religião.
Uma pessoa religiosa é aquela que vive nesse mundo com a fé no divino. Uma fé forte e presente que a faz saber que sua vida existência esta sendo submetida e é controlada por uma força maior do que a dos homens, por uma lei maior do que a dos homens. Assim essa pessoa vive com a convicção de que não esta sozinha nesse mundo, o divino no ọ̀run (órun) esta sempre a zelar por ele. Uma pessoa de fé sabe que o mundo e as coisas são controladas pelo divino e não pela mesquinharia dos homens.
Essa pessoa vai se transformar em uma pessoa melhor para consigo mesma obtendo equilíbrio na forma como vive sua vida e se dedica a seus objetivos com ética e carater. Os seu orixá (òrìṣà) e ori vão buscar não somente ajudá-lo nesse equilíbrio como também ajudá-lo a enfrentar as diversidades de sua vida, amenizando problemas, e tornando-o transparente para seus inimigos. A própria conduta dessa pessoa, equilibrada consigo mesmo vai evitar que ela cria inimigos para sí.
O seu ori vai protegê-lo dos ajogun, os males que estão nesse mundo e que fogem ao nosso controle. A sua boa conduta vai permitir que oportunidades de abram em sua vida, que ele as veja e que consiga se aproveitar delas. Os caminhos dessa pessoa se abrem através do seu mérito como pessoa e através da proteção do divino para aquelas coisas que não forem plantadas por você mesmo.
Você como uma pessoa melhor vai ter condições de ajudar sua família e trazer também para ela esse equilíbrio. Mais pessoas assim serão beneficiadas por sua ação. O benefício para a família é um dos principais objetivos que uma pessoa deve ter em sua vida, seja por mantê-la unida seja por ve-la prosperar.
Uma vez atingido esse estágio você tera condições de ajudar a sociedade que o cerca, tendo assim conhecimento e experiência para transmitir para outras pessoas, ajudando a transformar e melhorar o mundo em que vive.
Uma pessoa religiosa deve ter uma pratica diária dessa religiosidade. A oração é o elemento de ligação entre o aiyé e o ọ̀run (órun). As palavras empregadas e sua repetição é o que o fazem. Uma pessoa deve de Fé deve estar ligada ao ọ̀run (órun) e deve ter em sua vida a pratica da oração.
Além disso a pessoa que vive com Fé deve se lembrar desse divino ao longo do seu dia. Seja quando tem uma dificuldade seja quando algo de bom ocorre com ele porque o mesmo ouvido que serve para ouvir pedidos de proteção e ajuda também server para ouvir agradecimento.
Uma pessoa de Fé deve ter uma pratica religiosa diária e semanal para si que não dependa do sei terreiro para que ela busque através dessa ligação com o ọ̀run (órun) o equilíbrio e o Iwa pele que vão trazer tudo de bom para a sua vida.
Uma pessoa de Fé deve saber como se dirigir a seu orixá (òrìṣà) e Ori e como receber deles as mensagens que precisa para poder viver melhor o seu dia e vida.

terça-feira, janeiro 29, 2013

A questão das trocas entre o ọ̀run (órun) e o àiyé

Parte 1 de 2

Enquanto eu não publico o texto sobre o Cosmo Yoruba, como havia antecipado, nesse período de início de ano vou republicar versões revisadas de textos importantes que já foram publicado no Blog. Este aqui é um deles.
Sugiro ler com atenção.
Existe uma questão que sempre me perseguiu e talvez aconteça o mesmo com outras pessoas que estejam preocupadas com a religiosidade em si, aquela que deve estar presente nas pessoas que praticam uma religião. Essa questão é a capacidade que deve ter o crente de qualquer religião em poder responder a uma pergunta muito simples, talvez a coisa mais elementar que é: O que ele faz dentro da religião? Qual a finalidade dele na religião? O que a religião traz para sua vida? Como a religião se incorpora na sua rotina diária? Qual o benefício de ter uma religião.
Parece um coisa muito simples de ser respondida por uma pessoa que se diz sacerdote, seguidor ou crente de uma religião, principalmente quando essa pessoa tem o objetivo de explicar isso para uma pessoa que não faça parte desta mesma religião. Não se trata de proselitismo. Um crente tem que ter a capacidade de motivar ou de explicar as suas motivações para um não crente, não com a intenção de convencer o outro a adotar a sua religião, mas, pelo menos, conseguir explicar os seus motivos nessa religião.
É claro que vou apresentar aqui a minha versão para isso e basicamente, é esta a questão de fundo que motiva tudo o que eu estou escrevendo. Contudo, antes disso, gostaria de explorar um pouco mais esse drama. Sim, o drama, no qual se transforma essa questão.
Eu penso que é muito normal a uma pessoa que esta dentro de uma religião ter a capacidade de se expressar sobre os motivos que a levam a estar lá e que benefícios a religião traz à sua vida de uma maneira que, não só a pessoa pode explicar sua opção, como também, convencer outras desse caminho.
Não considero que essa seja uma questão culta, acadêmica ou teórica. Pelo contrário, acredito que estamos lidando com a questão mais simples que uma pessoa religiosa pode se confrontar.
A minha decepção é observar que isso é algo muito simples quando lidamos com evangélicos, católicos e muçulmanos, mas, quando estamos lidando com o Candomblé e com a Umbanda isso se torna, sem exagero, um transtorno mental. Deixando de lado a boa vontade e simpatia e se concentrando na argumentação em si, eu, até hoje, ouvi muito poucas, raríssimas, pessoas, que podiam se explicar sem caírem em lugares comuns, frases decoradas que não convenciam nem elas mesmas do que estavam fazendo.
Por exemplo, no caso do Candomblé qualquer resposta depois de alguns segundos de silêncio, uma expressão perplexa e aquele olhar profundo e perdido.... resulta em umas frases como: Eu amo meu orixá (òrìṣà) ou meu orixá (òrìṣà) é tudo para mim, O orixá (òrìṣà) é quem me dá caminho, etc... Nada de errado com essa manifestação de fé e carinho muito apropriadas a uma religião iniciática onde o orixá (òrìṣà) deve desempenhar um papel muito exemplar no imaginário do seguidor, mas, de forma nenhuma serviriam para explicar a alguém o motivo daquilo tudo ou convencer a sim mesmo do que esta fazendo.
No caso da Umbanda, o mais comum é a velha definição de que ela esta ali para ter uma evolução espiritual, mas, prosseguindo com mais perguntas sobre o mesmo tema, não se consegue que a pessoa defina com clareza o que é esta evolução espiritual para ela. Responder a primeira pergunta sobre um assunto exige um muito pouco de conhecimento e muitas vezes serve como resposta, até mesmo uma embromação, mas responder 3 ou 4 perguntas sucessivas sobre o mesmo assunto, aprofundando o tema, exige saber de fato o que se esta falando. Assim, me transtorna um pouco ver tanta fé nas pessoas, se dedicando dias e noites a uma religião sem que se pudesse perceber se elas sabiam o que as mantêm ali.
Atenção, de novo, isso não pode ser um paradigma. Não podemos dizer que é complicado demais para as pessoas sem cultura ou formação como as que eram e ainda são encontradas no Candomblé (isso tem mudado muito). Isso é apenas um estereótipo preconceituoso, e uma simplificação grosseira para justificar comportamentos inexplicáveis. Os evangélicos são um população equivalente, em termos de classe social e educação (aliás muito piores porque para exercer uma religião daquelas só sendo muito idiota) e, estes, tem um domínio muito grande da sua religiosidade e também da sua teologia.
Vocês podem estar imaginando: e daí? Qual a significância em se saber definir isso em palavras se o que importa é o que está no coração? Claro, essa é uma boa fuga para essa questão, mas, se fosse assim mesmo, só uma questão de se expressar oralmente, eu tenho certeza que a gente não veria tanta gente deixando o Candomblé e a Umbanda para se transformarem em Evangélicos, deixando anos de dedicação para trás, sem significado nenhum e acreditando de fato que na Igreja conseguiu se encontrar com Deus, como já ouvi e li o relato de muitos. Sério, não estou exagerando. Não estava buscando definições acadêmicas ou formais, estava buscando apenas uma explicação que me convencesse de fato.
E mais, conversei com várias pessoas para entender como era a vida religiosa dela depois da sua iniciação ou mesmo para aquelas não iniciadas e que apenas frequentam um terreiro. Para meu espanto, fora a presença em obrigações aquilo era sempre um grande vazio interno.
Vejam, estar presente em obrigações ou no seu terreiro fazendo tarefas domésticas não significa necessariamente que se esta tendo um vida religiosa. Existe muitos religiosos que vivem enclausurados em igrejas e conventos, mas, o trabalho doméstico é apenas uma necessidade em relação vida em comunidade, elas dedicam muito do seu tempo a religiosidade pessoal ou coletiva.
Mas o que eu esperava obter? Como já disse resposta simples, sinceras e refletissem o envolvimento da alma daquela pessoa com a religião que ela adotou, que fosse uma coisa tão simples e natural e ao mesmo tempo calorosa que desse a quem ouvia a vontade de também participar daquela vida e crença religiosa. Que me permitesse compartilhar uma visão otimista da religião tornando as pessoa em seres humanos melhores.
Mas porque essa decepção?
A falta de orientação religiosa
Olha muitos motivos existem. O primeiro deles sem dúvida é a falta de formação e orientação religiosa dos ditos “sacerdotes” de Candomblé. De Umbanda então nem pensar. Eles abrem a boca para se auto nomearem sacerdotes de uma religião sem ao menos terem uma conduta consistente que justifique o emprego desses termos, seja o de sacerdote, seja o de religião.
Além disso, apesar de nossos inúmeros esforços em caracterizar de forma diferente, o Candomblé esta hoje muito mais para uma religião mágica ou uma pratica mágica do que uma religião. Como religião a sua prioridade são os ritos e liturgias e esse tema domina a formação e a preocupação das pessoas. Só o rito importa, só a forma e fazer melhor do que outro e saber mais ritos e segredos litúrgicos transforma aquele pseudo-sacerdotes em pessoas melhores.
A qualificação de um sacerdote virou apenas o seu domínio por ritos e estes nem sempre podem ser totalmente associados a ritos religiosos. O dia a dia é dominado pela pratica da magia para a obtenção de favores, para a correção de erros sem um questionamento do mérito de quem pede ou da moral do que é feito.
Esse assunto, o da pratica mágica aética ( na maior parte das vezes) e da ritualística é o que domina qualquer conversa envolvendo os praticantes e sacerdotes. Uma visita ao “dial” do rádio deixa isso bem claro. Encontramos programas católicos – poucos – evangélicos – muitos - e os de Candomblé. Enquanto nos primeiros existe uma preocupação com a pregação da palavra de Deus, do verbo, para os últimos é apenas uma hora de comércio e relacionamento.
Desta maneira a religião que existe e na qual se baseia o Candomblé se perde e é esquecida. Os conceitos religioso, a teodiceia a teogonia ou mesmo a coisa mais simples, que é como eu iniciei qual o sentido para isso na vida das pessoas, o que esses sacerdotes pensam que estão trazendo para essas pessoas que os seguem, são apenas fragmentos, não ligados, que são ditos com brevidade, sempre, mais no sentido de mostrar que existe um fundamento maior por trás de tudo, a religião de fato, mas que ele nunca explica (não sabe o que falar), servindo apenas como uma isca ou como uma elemento para despertar curiosidade e respeito. As pessoas entram na busca desse conhecimento que nunca vem, ai abandonam a religião, porque racionalmente reconhecem que esta religião tira delas mais do que dá.
A grande responsabilidade por isso é a própria formação dos referidos sacerdotes, completamente voltada para o rito e o ganho pessoal através da pratica da religião. A preocupação por criar essa orientação religiosa de fato não existe e como a gente sempre diz, que só se pode dar aquilo que recebe, eles pouco ou nada tem a dar. Os que se incomodam com isso acabam usando os conhecimentos que adquiriram de outras religiões como o catolicismo ou o do Kardecismo para terem algum discurso religioso. Esse discurso passa então a ter nenhuma relação ou vinculo com sua própria religião. Além disso a pratica mágica indiscriminada e sem ética e moral e que visa o seu ganho financeiro próprio acaba retirando dele todo o sentido de ética e moral que qualquer religião deve ter. Como essa pessoa vai pregar, ensinar ou cobrar algo de seus seguidores se a sua pratica diária esta envolvida em fins que são completamente não éticos?
Mas muitos podem se levantar contra essas palavras e dizer que nem todos são assim, simples feiticeiros e que sua pratica mágica e litúrgica tem sim uma base ética. OK, como em tudo existe exceção vamos aceitar que de existem esses grupos, mas, mesmo para esse grupo as afirmações principais se sustentam: a falta de orientação da base religiosa, a valorização da prática mágica e litúrgica.
A realidade do Candomblé é que apesar de ser uma tradição de uma religião de fato, de os seus ditos sacerdotes terem alguma noção disso e eles se autodenominarem sacerdotes e religiosos, a formação religiosa deles é nenhuma. Dessa maneira a sua capacidade de transmitir religiosidade para outros é igualmente nula. O que eles transmitem são ordens comuns, bom senso baseado em conveniência própria e conceitos religiosos que aprenderam de outras religiões basicamente a católica e espiritismo, que no fundo vira mais um sincretismo porque se junta com alguns conceitos que eles aprendem da religião africana.
No caso da Umbanda é um pouco distinto, porque a Umbanda é apenas uma pratica ritual de fato, e a religião por trás disso pode ter muitas origens, sendo que a mais comum é o espiritismo que deriva do catolicismo. Como o espiritismo Kardecista é bastante doutrinado e codificado a tarefa dos seus sacerdotes é bem simplificada mas igualmente mal executada.
Mas deixemos de lado um pouco essa questão que é farta de assunto e exemplos, e na minha visão indefensável para voltarmos para o praticante individual.
A vida religiosa de um praticante é então dominada pela ritualística e submissão hierárquica com pouco ou nenhuma orientação religiosa. Sua dedicação é dominada pela participação em obrigações próprias, de outros ou coletivas onde o seu papel varia de nenhum a algum. Toda a iniciativa ritual em um terreiro é dominada por poucos, um ou dois na maior parte das vezes cabendo aos demais o papel de figuração ou coro.
A rotina religiosa é repleta de festejos que criam assim um direcionamento estético e vaidosa para a presença da pessoa uma vez que não tendo ela um papel ou não consumindo o seu tempo com reflexões religiosas essa pessoa passa a dedicar o sei tempo ao culto do seu Ego e da sua vaidade no que faz. A vaidade é o que domina o Candomblé hoje.

terça-feira, janeiro 22, 2013

Como determinar a orientação do Odù  no eerindinlogun 





Este é um daqueles temas que neófitos podem ter dificuldade para entender. Vou tratar aqui de uma característica usada na interpretação do oráculo do Jogo de búzios, usando uma abordagem crítica a um processo erroneo que é feito no Candonblé.

Nem sempre dá para escrever para todos. Alguns temas vão acabar se dirigindo para pessoas que já pertençam à religião. Mas, se você já pertence e não entender esse texto aqui e outros que presumirem isso, fique preocupado, porque você obrigatoriamente já deveria saber do que eu estou falando. Acho que você esta indo na sua casa de Candomblé só para comer a merenda.


Quem já teve contato com o Candomblé através de um jogo de búzios pode entender o que vou explicar. Pessoas que já sejam do Candomblé, sejam Abians (semi neófitos) ou iniciados certamente conhecem este assunto e vão entender a explicação que vou dar.

Este tema é assunto colateral que dá continuidade de outras postagens já feitas sobre o uso de oráculos na religião. Mais diretamente é a continuidade da postagem sobre designação de Odus negativos que é feita no Candomblé

A postagem a que me refiro esta em

http://blog.orunmila-ifa.com.br/2012/11/odus-negat-ivos-no-candomble-fazendo.html

Para melhor entender este assunto eu recomendo algumas postagens importantes do Blog:

Para entender o que é Odù

http://blog.orunmila-ifa.com.br/2011/07/odu-energia-de-olodumare-o-que-e-odu.html

Para entender mais do oráculo:
 
http://blog.orunmila-ifa.com.br/2012/05/o-jogo-de-buzios-e-ifa-parte-1.html

http://blog.orunmila-ifa.com.br/2011/12/o-oraculo-e-fe-os-oraculos-permitem-nos.html

 
Ha algumas postagens atrás eu fiz um crítica a pessoas que se anunciam como jogando Búzios através de Odu mas que desconhecem regras básicas para essa manipulação, inclusive a mais elementar que é a determinação se o Odu é positivo ou negativo.

Quem não leu ainda eu recomendo, tem informações interessantes para quem se interessa por oráculos. Eu não faço nenhum exagero, o que eu relato é o que existe por ai.

Como eu já disse, quando falei sobre jogo de búzios, a questão da junção de Odu com búzios no Candomblé é majoritariamente apenas um esforço de marketing. Um olhador que ofereça seus serviços "na praça", não pode hoje dizer que não joga por Odu. Isso virou uma etiqueta obrigatória na oferta dos serviços de vidência, sem adicionar qualquer conteúdo novo ao que esta pessoa já fazia. Dizer que joga por Odù não melhorou e nem piorou o jogo dela.


Mas, isso causa um efeito ruim, como já disse no Blog. Primeiro é que se desvaloriza a tradição do jogo de búzios no Candomblé, que sempre foi feito (e bem feito) sem essa falsa etiqueta. O segundo é que se tira a identidade do uso de Odu no Oráculo. As pessoas apenas anunciam que usam uma coisa torta sem ter domínio nem propriedade para isso, criaram uma "coisa" que foi esse jogo de búzios por Odu do Candomblé.

Quanto mais eu ouço pessoas no rádio, leio o que se escreve e vejo o que se joga eu tenho mais certeza das coisas que afirmo aqui.

Mas este assunto já foi tratado, aqui no Blog, longamente:

Voltando ao tema desta postagem, temos que resgatar alguns conceitos básicos de Odu. O primeiro é que um odu pode ser apresentar em 2 formas: Ire e Ibi ou Ire e osogbo ou Ire e Àyẹ̀wò. Cada tradição chama de uma forma. Eu vou usar aqui a forma Ire e Ibi.

Um Odù é um contêiner de energia com muitas mensagens, algumas similares outras nem tanto.

Em uma consulta, através de Odù, primeiro se tira o Odù principal. Este Odü é o que determina toda a interpretação da consulta. Os elementos adicionais, que se seguem a esta determinação, apenas vão detalhar e especificar o assunto para aquela pessoa em particular.

Após o olhador determinar qual é o Odù principal ele deve determinar a sua orientação. Não se trata aqui de saber se é positivo ou negativo e sim de saber a sua orientação. Esta é a primeira bobagem que se fala quando não se entende com o que esta lidando, com Odù, é claro.

Como eu disse o Odù tem eu seu corpo literário muitas mensagens e significados. Eles não acontecem todos ao mesmo tempo. Temos que determinar qual mensagem se aplica aquela situação.

Para auxiliar a interpretação do Odù principal, para o caso em questão, é necessário o suporte de outras informações. A primeira delas é entender a orientação do Odù. A segunda será a agregação de significados desse Odù, que determinou esta orientação, na interpretação do Odù principal.

Em ifá, a determinação da orientação, é parte obrigatória do processo de consulta, na realidade não tem consulta sem isso, mas, no uso dos búzios esse processo se perdeu ou, mesmo, nem foi aprendido por muitos que hoje usam os búzios.

Muita gente deduz pelo próprio Odù se ele é positivo ou negativo, criando desta forma uma convenção, própria, de Odù sempre positivo e outros sempre negativos. Outras pessoas podem usar características da caída para determinar isso e outras, ainda, a sua própria intuição. Tudo isso esta errado.

Grosseiramente falando, ou melhor, traduzindo o que se faz a orientação positiva do Odù é chamada de Ire e a negativa de Ibi (ou os outros nomes), mas devemos usar sempre a expressão orientação e não positivo e negativo. Muitos Bàbáláwo não aceitam que Ifá possa prever o mal para a pessoa e, assim, eles usam uma expressão alternativa para o estado de Ibi, que se chama Àyẹ̀wò, um questionamento. Os cubanos não falam Ibi, eles usam  Osogbo, que significa que não é Ire.

Para se determinar a orientação do Odù deve-se usar o processo do ìbò que vem a ser um dos pilares do oráculo de Ifá. O uso do ìbò é uma forma de envolver diretamente o orí do consulente na consulta do oráculo, criando, assim, uma interatividade. Não devemos aceitar um processo de Ifá sem a interação com o consulente e sem o uso do ìbò para isso.

Infelizmente a prática de usar o ìbò junto com o consulente, foi extinta com os búzios e esta deixando de ser feita até mesma em Ifá. Pura preguiça.

O processo de ìbò é um tipo de consulta que busca uma resposta binária, sim ou não. Em Ifá tradicional através do ọ̀pẹ̀lẹ̀ ou dos ikin pode-se ainda usá-lo para a escolha de uma entre várias alternativas simultâneas, mas em owó-ẹyọ mẹ́rindílógún ele é usado apenas para uma decisão entre 2 alternativas.

Antes de entender o processo de consulta deve-se entender o que significa de fato os estados do Odù:

IRE


Quando um Odù vem em ire, ele traz com ele bênçãos que estão associadas com as características mais positivas. Esta energia vem para oferecer benção, fortuna, novas oportunidades, um fluxo de entrada de energia e de evolução.

Em um escopo mais amplo, a pessoa para a qual o Odù vem em ire entende que a energia será presenteada pelo Odù em duas maneiras. Uma forma sutil ou explícita no seu ego. Este entendimento cria um equilíbrio. A natureza de ire reflete um estado de harmonia ou equilíbrio com a energia do Odù até mesmo se a pessoa de modo consciente não reconhece que isto esta o estará ocorrendo.

O objetivo do Oráculo é restaurar e manter o balanço na vida de cada indivíduo, reequilibrando suas energias. Um Odù que vem em ire confirma que a pessoa esta favorecida com este estado de equilíbrio.

IBI


Africanos não gostam de algumas palavras. Assim usam para significar Ibi, a palavra Àyẹ̀wò. Os Cubanos usam a palavra Osogbo que significa que não é Ire.

Um Odù que surge em estado de Ibi frequentemente traz com ele os aspectos mais negativos de sua natureza. O termo negativo implica pelo menos parcialmente uma conotação imprecisa que requer melhor clarificação. As energias operando em estado de Ibi tendem a serem mais desafiadoras para o pessoa e traz com ela obstáculos, problemas ou lições que poderão ser difíceis para aprender ou entender. Ibi pode indicar uma falta de balanço, equilíbrio ou resistência no aspecto metafísico de relacionamento entre a pessoa e a espiritualidade.

A pessoa pode ser dita estando em um estado de falta de entendimento dos desafios e e lições apresentados por este Odù de forma que se caracteriza um desequilíbrio destas energias que afetam a sua vida. Um iniciante pode temer o surgimento do estado de Ibi, mas com o tempo ele irá entender que este receio não tem mérito.

Ibi é com o um amigo sábio que é candidamente honesto. Ele se apresenta para oferecer pílulas amargas que são duras de engolir, mas este remédio trará à pessoa uma oportunidade para ganhar e aumentar o entendimento de si mesma e sua compreensão do seu papel no mundo de uma forma ampla. Ibi não é uma alguma coisa para ser temido, mas ao invés disso estudado e entendido. Debaixo desta corrente de energia desconexa se deposita uma oportunidade de recuperar o equilíbrio uma vez que o desafio que é apresentado é aceito e entendido.

Quando examinado sob um ponto de vista mais amplo, Ibi proporciona o equilíbrio necessário para se atingir o estado de ire, sem esta dose de amargura a pessoa não poderia ser capaz de apreciar a doçura de sua vida




Assim, após determinarmos o Odù principal o passo seguinte é saber a sua orientação. Isso é feito não por advinhação e nem por regra tipo a que estebelece que um odù será sempre positivo ou negativo. Isso não é feito pela conveniência do olhador. O oráculo é um processo transparante.

O Ìbò será usado e 2 caídas de búzios definem qual o Ìbò selecionado e qual o estado do Odù. Dessa forma se entende como aquele Odù esta se manifestando na vida da pessoa. alem disso o Odù que escolheu o Ìbò vai se incorporar a interpretação, sendo usado para explicar ou detalhar o principal.

Dois Ìbò são dados para o consulente segurar nas suas mãos, sem que o olhador saiba em que mão estão. Um deles significa SIM e o outro NÃO.

É feita a pergunta ao Oráculo:  O Odù é Ire?
 
As 2 caídas são feitas e escolhem uma das mãos fechadas. Quando a mão se abre o tipo de ìbò determina se a resposta é sim ou não. Se for SIM o odù esta em Ire. Se for não esta em Ibi.

O olhador não consegue desta forma controlar a resposta. O Oraculo decide sozinho e o consulente participa desta resposta.

Outros processo se seguem para melhorar o entendimento: 1) se aquele odu ja esta se manifestando na vida da pessoa ou não; 2) se é necessário um ebó ou oferenda; 3) qual o tipo do Ire ou Ibi; 4) qual a sua origem.

Juntando todas essas informações o olhador pode enfim interpretar o Odù para o consulente.

Observem que todas as perguntas ao oráculo devem ser respondidas com o ìbò. Os jogos no quais o olhador faz a pergunta e ele mesmo responde sozinho não são jogos que seguem Odù e a metodologia de Ifá. Estes casos são válidos para o jogo de búzios, mas não para o jogo de búzios com Odù.

Oráculo não é adivinhação, é um processo transparente de comunicação com o divino e que qualquer pessoa que entenda pode acompanhar uma consulta.


O Cosmo Yoruba vem ai...

segunda-feira, janeiro 14, 2013

A banalização do orixa através do jogo


 Sempre foi muito comum os relatos de pessoas que vão fazer uma consulta a um jogo de búzios  e uma das primeiras coisas que recebem é a designação de qual é o orixá daquela pessoa.

Esse evento é tão comum como também as chacotas que se faz em relação a isso. Uma vez em uma comunidade do Orkut, tinha um topico com as pessoas relatando jocosamente isso, dizendo quantos orixás já tinham dado para elas em jogos diferentes.

Gente, a abordagem é essa mesma, jocosa. Tão tolo como dar o orixá de alguém por um jogo comum é aceitar isso como verdade.

Não, Orixás não aparecem em jogos comuns.

Não posso aqui dizer nada para as pessoas da primeira parte da frase, as que dão o orixá pelo jogo. Mas posso explicar algumas coisas para a da segunda parte.

Orixá é uma coisa muito íntima e própria da pessoa. Não é uma coisa como signo que todo mundo sabe o seu a partir de sua data de nascimento. Em um jogo de búzios qualquer orixá pode responder para ajudar a pessoa que esta se consultando, mas, isso não significa que seja o Orixá da pessoa. Esse é o Be-a-Ba do jogo. Os Orixás estão, todos,  por nós. 

Descobrir o Orixá de uma pessoa é um processo longo. Muitas vezes a pessoa fica em uma casa muito tempo sendo observada e somente quando vai fazer uma feitura ou um obrigação mais séria pode se determinar isso.   

Eu lembro a todos que a designação de Orixá para pessoas assim como o próprio Orixá são coisas que pertencem APENAS ao Candomblé. Isso não faz parte da Umbanda e umbandista que dá orixá para os outros é mais um maluco. Sim, as pessoas devem entender que a Umbanda é um religião brasileira e não faz parte da matriz africana. Existe muitas correntes de Umbanda, muitas mesmos, tantas que nem dá para definir. Existe uma específica que é mais africanizada, que usa atabaques e nomes de orixá. Mas isso é apenas um sincretismo pobre. Não existe vinculo, é apenas cosmético. A Umbanda é uma religião brasileira. Existe uma postagem no blog sobre isso, em breve vou re-editar.

Abian é a designação usada no Candomblé para os simpatizantes, pessoas que participam sem terem sido iniciados. Lembro que, como a religião católica, o Candomblé é iniciático. Considera-se que Abian não tem orixá. O orixá de uma Abian é Ori, uma divindade pessoal. Esse é o protocolo correto que deve ser adotado em casas sérias.

Um abian deve ter um fio de conta branco, somente. Poderá continuar como abian por muitos anos e nesse tempo até poderá se intuir em qual deve ser o Orixá daquela pessoa, mas, a determinação do orixá mesmo somente na sua iniciação, quando ocorrera uma preparação e rituais que permitirão isso ser feito.

Normalmente é até expontâneo, o Orixá vai se manifestar.

Seguindo a mesma base, é importante que se entenda que cada pessoa tem apenas 1 orixá. A gente vem ao mundo ligado a 1 orixá e a nosso guardião, o nosso Ori, que é uma divindade pessoal, cada um tem a sua (como se fosse um "anjo da guarda").

Esse conceito de Orixá Pai e Mãe (espirituais), é uma completa bobagem no que diz respeito ao Candomblé, que é a única e original religião de Orixá. Esta invencionice só existe na Umbanda, que como já disse não sabe nada de Orixá.

Na verdeira religião de Orixá, a pessoa é de fato ligado intimamente a somente a um Orixá, mas, também tem um segundo, contudo esse segundo, mais próximo, pode ser de qualquer gênero, inclusive do mesmo gênero do primeiro...

A composição de Ori e Orixá, ambos pessoais, é uma parte muito íntima de cada um e não é para ser de domínio público. Um Abian em uma casa tradicional, vai se reportar a seu Ori, Olodumare  e os demais Orixás, principalmente o da casa, mas, não é uma pessoa para ter seu Orixá designado.   

A designação bem como o culto ao seu Orixá é o que se obtêm com a iniciação. Se a pessoa quer se aprofundar na religião e no culto do seu próprio Orixá deve então se iniciar. É completamente inadequado ter abian cultuando o seu orixá ou mesmo se preocupando com a qualidade do seu orixá. Este é um processo muito sério e litúrgico e ninguém deve iniciar um processo desse já tendo como meta que Orixá é o seu. 

É bastante comum o caso de pessoas que entram para fazer um Orixá e saem com outro. Isso é fruto de uma pre-determinação que não deve existir.  Ou mesmo o caso de pessoas que saem feitas de um Orixá de depois, em um lugar sério vão ter que fazer de novo, o orixá correto.

O que eu quero que vocês entendam é que existe o procedimento correto que é este que eu estou descrevendo e existe o que é feito por ai.  O correto é que Orixá pertencem apenas ao Candomblé, não se determina Orixá em Umbanda porque Umbanda não tem Orixá. O correto é que o não iniciado em uma casa de Candomblé é um Abian, e Abian não tem orixá designado, se ele quiser ter Orixá designado tem que se iniciar.

Não existe nenhum problema na pessoa ser abian. Ela não será menor ou não estará ligada ao seu Orixá. A gente nasce com um Orixá e não precisamos de nada e de ninguém para nos ligar a ele.

Por esta razão, sabendo desta complexidade todo, é que eu digo que é idiota essa coisa de a pessoa sentar na frente de uma mesa de jogo de búzios e receber um Orixá. Isso só tem credibilidade se a pessoa não conhece a religião. Mas se conhece minimamente entende que isso é ridículo.

Existe um processo das pessoas adivinharem o Orixás das pessoas. Isso é feito por aparência e personlidade (arquétipo). É a mesma coisa de você adivinhar o signo de alguém. Não existem tantos Orixás para dar para as pessoas de modo que o índice de erro é grande mas de vez em quando você pode acertar.

Mas, isso não pode ser levado a sério e muito menos uma pessoa que joga búzios pode fazer isso. É irresponsabilidade, porque aquela pessoa, deveria ser um sacerdote e deveria saber que não deve fazer aquilo.

Essa designação, na minha opinião só serve para criar vínculos comercias, para criar simpatias e dependências.

Mas, existem coisas piores.

A primeira é a pessoa sair do jogo inclusive com a qualidade do Orixá. Orixás tem variações. Um mesmo Orixá por ter "personalidades" um pouco diferente, como se fosse um tempero. Isso faz parte da individualização. Determinar a qualidade de um Orixá é muito mais profundo do que determinar o Orixá e isso ser feito em uma consulta de búzios, muito pior ainda.

A segunda é a pessoa ir para um Babalawo, em uma consulta de Ifá e essa pessoa também dizer o Orixá dessa pessoa. Olha, se isso acontecer, levanta e vai embora.  Vai ser melhor para você, vai se aborrecer menos.

O objetivo de uma pessoa que em uma consulta comercial de búzios ou de Ifá afirmar para uma pessoa que ela é de um determinado Orixás, é apenas um continuidade da atuação comercial de vender consultas de oráculo. Esta sendo buscanda uma forma de criar uma ligação, um interesse adicional, coisas para fazer e quem sabe despertar medos.

Essa banalização de Orixá não contribui em nada com as pessoas. Não resolve os problemas dela e não melhora sua vida. Pelo contrário, pode trazer problemas e fazer ela perder dinheiro para os espertos que lidam com isso. Assim você vai ficar mais infeliz e mais pobre.

Não seja vaidoso. Seja humilde. É a vaidade que faz as pessoas tomarem as decisões erradas e serem enganadas. Determinar Orixá não te ajuda em nada. Quando você tem um problema, qualquer que se levantar para te ajudar é bem vindo. O seu Ori e seu Orixá sempre estão com você e sempre vão te ajudar. Se mais alguém se oferece, ótimo!

Outra coisa, Orixá não é signo astrológico. Não se determina pela data de nascimento e nem pelo nome.

quinta-feira, janeiro 10, 2013


Serão os Orixá (Òrìṣà) elementos da natureza ?

Parte 4 de 4


A ORIGEM DOS ORIXÁ (òrìṣà) SEGUNDO A RELIGIÃO YORUBA

Eu vou fazer uma abordagem tradicional e bem direta sem rodeios e nem invenções. Minha referência são os versos do Odù oxétuwa.

Esta religião tem um corpo literário que não é muito conhecido aqui no Brasil e no Candomblé. O conhecimento religioso esta registrado em versos que são divididos em 16 capítulos. Cada capítulo corresponde a um Odù. Assim são 16 Odù e cada Odù tem um conjunto variável de histórias contadas em versos. Podemos dizer que cada Odù pode ter até 16 histórias, em versos e tamanhos diferentes que podem ir de poucas linhas até páginas.

Isso é o corpo literário de Ifa (Ifa divination poetry ou Ifa Literary corpus). Esses versos contêm as informações sobre a religião. Tudo o que se diz da religião deve ter referência em um verso e Odù.

Como eu disse para vocês algumas palavras em Yorùbá tem vários significados. Este, o de serem os capítulos do corpo literário de Ifá é um dos significados para Odù.

O grande problema Yorùbá era que eles não tinham lingua escrita. Foram os europeus que criaram uma representação escrita para o muito simples e por isso complicado idioma tonal Yorùbá. Por esta razão o corpo literário de Ifá era guardado por pessoas, Babalawo que dedicavam sua vida a decorar esses versos. Somente no século XX é que houve um intenso trabalho voltado para registrar esse corpo poético em gravações e em registro escrito, para evitar que se perdesse, mas, em função da colonização e escravagismo, muito já se perdeu.

A referência que irei usar para explicar porque os Orixá não são elementos da natureza porque não tem esta função é um verso do Odù Oxétuwa. Eu não vou registrar aqui o texto, é bem extenso mas esta no blog no link a seguir.


http://blog.orunmila-ifa.com.br/2010/01/o-texto-seguir-e-transcricao-do-odu-ose.html

Eu recomendo que seja lido, ele contêm inúmeros conceitos e fundamentos importantes. Este texto foi extraído originalmente do livro Os Nago e a Morte, mas, existe em outras obras de autores diferentes, incluindo o Nigeriano Wande Abimbola. Essa é um versão que esta no Blog é completa com inserções de outras versões que eu li.

Dessa maneira, este texto é confiável e necessário para quem quer entender esta religião. Lembro a todos que o estilo de aprendizado da religião não é a cátedra e sim vocês lerem os versos de Ifá para poderem construir o seu entendimento.


É longo, mas, tem que ser lido.

A história narrada se temporiza após a gênese. O mundo já estava criado e sendo populado por Olódùmarè, a alta divindade suprema Yorùbá. Em outra oportunidade abordamos a Gênese segundo a religião Yorùbá.

Neste Odù fica claro que Olódùmarè criou o mundo, populou-o com os homens e enviou os òrìṣà (orixá) para poderem ajudar os homens na sua vida, na superação das dificuldades.

Eram 16 e havia somente uma mulher entre eles, Óxun, que representa o poder feminino original.

Desta forma, se os òrìṣà (orixá) foram enviados para suportar os homens de calamidades naturais, os Ajogun, não poderiam eles mesmos serem os próprios elementos da natureza, conforme a visão das religiões pagãs europeias.

Este Odù estabelece uma distinção muito clara entre as divindades de Olódùmarè, suas funções e a natureza, desvinculando um de outro.

Na religião Yorùbá as divindade são chamadas de Irunmole. Um sub-grupo dos Irunmole são os òrìṣà (orixá). Os òrìṣà (orixá) estão ligados a nós, mas, existem divindade, Irunmoles que não estão ligados a nós.

Dentro do grupo dos òrìṣà (orixá), existe ainda a divisão deles em 2 tipos de orixás. O primeiro grupo são os orixás originais, divindades da criação, que já existiam na Gênese e faziam parte do grupo de 16 que foi enviado por Olódùmarè O outros grupo são os ancestres divinizados, pessoas, homens, que ganharam muita importância e relevância junto ao povo de foram divinizados, se transformaram em Orixás.

É importante entender que as pessoas humanas, homens e mulheres podem ser divinizados e se transformarem em òrìṣà (orixá). Por essa razão as pessoas fazem parte de um grupo privilegiado no cosmo Yorùbá, como vocês vão ver quando eu explicar isso.

Assim, vamos fazer uma revisão do que eu disse até o momento. No texto do Odù Oxétuwa, que vocês DEVEM ler, esta claro que Olódùmarè enviou os òrìṣà (orixá) para suportar a vida humana na terra, devido às muitas dificuldades que as pessoas iam encontrar aqui. Esta abordagem, documentada em versos de Odù completamente confiáveis, desvincula completamente os òrìṣà (orixá) de serem elementos da natureza, porque o mundo já estava criado e eles foram enviados depois, junto com a humanidade.

Além disso o conjunto de divindade Yorùbá não é formado por um grupo fixo, pré-determinado e cada um com funções específicas. Existiram os primeiros 16 que foram enviados para criar o mundo, mas, existem muito mais Irunmoles do que esses 16. Os òrìṣà (orixá) representam um subconjunto dos irunmole e eles são vinculados a nos suportar.

O conjunto de òrìṣà (orixá) não é finito. Ele pode ser composto por divindades originais mas, também, por humanos que devido a sua relevância se divinizam e se tornam òrìṣà (orixá).

Tomemos por exemplo as divindades femininas que tiveram uma origem comum somente em um Orixá, Óxun, a única que estava na criação. Oya que muitos consideram como sendo o vento não poderia o sê-lo porque ela é claramente um ancestre divinizado, e o vento já existia antes dela. Antes de Oya ser divinizada junto com Xangô o vento da existe a milhares de anos e nunca prescindiu de Oya que era apenas uma mulher.

Oya (Ọya), bem como todas as divindades femininas são cultuadas e associadas com o elemento água. Assim Óya esta ligada ao Rio ògùn e Óxun ao rio com seu nome, Yemanja, outra divindade bem conhecida, também esta ligada a um rio, Olokun ao mar, as ajé são as que possuiam os 7 rios da terra na sua criação, Iyewa também a agua e até Nana que nem é Yorùbá esta ligada a água. Observe então que existe uma tendência dos Yorùbá associarem divindade femininas a rios, não necessariamente a água.

O elemento água, especialmente esta ligado a Oxun, é o único elemento que sozinho pode gerar e sustentar a vida e esta associado sempre a existência de vida. Tudo isso tem origem em Oxun.

Se a água é um Orixá, qual ele será? Não a água não é um orixá.

Ṣàngó (Xango) é dito ser o fogo, mas a real ligação dele com o fogo foi a capacidade que adquiriu de manipulá-lo, o que também foi feito por Ọya segundo um mito conhecido por todos no Candomblé. Ṣàngó (Xango) também esta associado com trovões e raios, sim, mas por manipulá-los porque ele é considerado a justiça de Olódùmarè, ou a sua ira, e joga os raios contra pessoas que de tão ruim que foram não merecem mais viver. Igualmente após a sua morte o mito diz que ele jogou raios contra as pessoas que diziam que ele tinha se enforcado.

No mito da criação, a terra foi criada por Olódùmarè e só havia a agua. Ele deu a bolsa da existência contendo os elementos que seriam plantados e depois espalhado para formar a terra. Depois de tudo criado, conforme o odù oxetuwa os òrìṣà (orixá) foram enviados para suportar a vida ensinando os homens a se relacionar com o divino.

Os elementos, a terra, a vegetação, foram trazidos do Órun pelos Orixás da criação.

Assim sendo o que ocorre é que os òrìṣà (orixá) como representantes ou intermediários de Olódùmarè e os homens passaram a ter poderes sobre determinados elementos da natureza, que eles trouxeram, que vão desde a água a doenças, mas, isso na sua forma controlada e organizada e não na sua forma violenta.

Uma coisa é ter controle sobre uma coisa na sua forma suave outra é ser ou ter controle total. Assim por mais que se faça uma oferenda um furacão, um tsunami, um terremoto e uma seca não poderão ser evitados. Essa é uma manifestação descontrolada da força da natureza, os òrìṣà (orixá) ajudará os homens a se prevenir ou superar as consequências disso.

Isto esta descrito no texto do Odu Oxétuwa e coloca um ponto final nesta relação.

FINALIZANDO

Para quem chegou até aqui, como eu disse e repeti várias vezes a religião é composta de elementos muito importantes, alguns intangíveis como o iwa pele e o nosso destino, outros lembrados mais indiretamente atualmente que é a ancestralidade. Este ultimo se perde um pouco devido a que nem todos de uma mesma família seguem a religião e uma casa de santo esta longe de representar uma família espiritual, mas, mesmo que a gente não se lembre a ancestralidade é uma das bases da nossa vida.

A religião que a gente adota é complexa em parte porque existem de fato conceitos pouco claros, na origem, ou que se tornaram complexo devido a junção aqui no Brasil de várias correntes religiosas e regionais distintas.

Infelizmente só recentemente surge um esforço de teologizar a religião e mesmo este esbarra na polêmica e no preconceito. Outras correntes religiosas, as cristãs contam com linhas filosóficas que procuram aprofundar as questões teológicas e sua interpretação. Infelizmente esta religião aqui não contou com isso na Africa e no novo mundo esbarra em uma babel pior ainda.

Eu acho que não cabe discutir liturgias, mas, não podemos em função disso nos abster de discutir todo o resto independente de sabermos ou não as respostas.

... sem querer ser chato, mas enfatizando, assim, na formo que eu vejo o cosmo yoruba, baseado em textos de odù que eu consegui ler até hoje, em mitos que eu li ou ouvi ao longo de anos, o òrìṣà (orixá) não faz parte da ordenação das forças naturais do mundo em que vivemos. Este ordenamento é atribuído a Olódùmarè que como o deus distante (ou tornado distante) faz com que a natureza e o mundo funcione.

Os òrìṣà (orixá) conforme aparecem nas histórias e explicitamente no odù óxéotuwa e Ogbe Meji, são os braços e mãos de Olódùmarè no aiye. Sofrem aqui com os mesmos fonomenos naturais que sofremos e não demonstram nunca controlar a natureza.

Eles primariamente são a sua ligação do divino com nós, para nos ajudar e proteger. Nosso ori é feito com nosso òrìṣà (orixá). Os òrìṣà (orixá) surgem em todas as histórias representando papéis comuns como se fossem pessoas comuns, com as mesmas perfeições e imperfeições que temos de modo a que possamos nos espelhar e entender o conhecimento que passam.

São também a instância direta, junto com o ori e a ancestralidade, que recorremos para resolver nossos problemas, ligados ao nosso sucesso na nossa vida como a necessidade de termos saúde, de termos família, mulher, filhos, oportunidades, trabalho, dinheiro e podermos com nossa prosperidade darmos seguinto a nossa vida e atingir o destino que estabelecemos antes de iniciar essa nova encarnação.

Como braços e mãos de Olódùmarè os òrìṣà (orixá), conforme eu comentei no início disso tudo, alguns deles tem algum controle sobre elementos da natureza. Mas como elementos podemos considerar um todo, de vegetais, minerais, doenças, até fenômenos da natureza, e estes sao usados não de uma forma reguladora, mas como instrumentos de sua necessidade e ação em exercer a sua missão junto a nós.

Eu não consigo ver um òrìṣà (orixá) sem o mesmo estar relacionado com nossa vida, ficando longe do significado que tem os deuses naturais das tradições europeias e greco-romanas (não tenho conhecimento suficiente para citar outras).

O entendimento da metafísica desse cosmo deve passar pela lembrança que temos vários entidades e espiritos além dos òrìṣà (orixá). Este conjunto esta longe de ser perfeito e complementar, existem coisas que parecem redundantes ou que não são complemente racionais, mas, como sabemos é um povo muito simples, agrário e que não teve unidade, continuidade e pensamento filosófico próprio para poder explorar e documentar cada faceta da rica cultura e religião.

Por todos os argumentos que longamente descrevi a introdução desta visão de Orixá elemento da natureza não se adapta a religião Yoruba. Foi colocada por estrangeiros. A Religião Yoruba tem poucos elementos ligando a religião e a natureza. Sol, lua e estrelas nem fazem parte de mitos.

A religião é complexa, mas, o povo é bem mais simples. Os estranhos é que tem preguiça de aprender, preferem inventar.


A próxima postagem será sobre o cosmo Yoruba. Não perca. Pode demorar um pouco mais, mas, será um texto de referência.