Pesquisar este blog

domingo, agosto 10, 2014

A Composição do Candomblé




As estrutura e formação das nações do Candomblé



O tema das nações de candomblé não é necessário para a definição e entendimento da religião, mas, é um assunto complementar importante e por isso está sendo abordado como um texto complementar.

Antes de me estender neste tópico tenho que reconhecer que este assunto de nações, como muitos outros no candomblé, representam um desafio a uma abordagem racional e cartesiana. As pessoas adoram simplificações, maniqueísmos e cartesianismo. Mas o mundo real não é assim. A teoria do caos é o que explica o mundo, não a de newton ou o método de descartes.

Eu já mostrei em outro texto o quanto o candomblé é diversificado e por isso é complexo. De certa forma, é injusto chamar toda essa riqueza cultural e religiosa de apenas “candomblé”, mas, é assim que fazem. A heterogeneidade é o que traz esta complexidade, fazendo com que seja, para muitos uma coisa difícil de ser aprendido ou entendido, aliás, é mesmo dificil.

Além disso, o contexto afro-brasileiro é muito maior. O candomblé é apenas uma das tradições. Existem outras tradições. Aqui tratamos de candomblé, e especificamente de uma parte dele.

Como eu disse, não existe um candomblé, existe o candomblé, formado por religiões, cultos e nações. É este contexto que o torna complexo. O assunto é tão simples ou tão complicado como qualquer religião. No caso do candomblé temos apenas que entender esta heterogeneidade para evitar falar de tudo ao mesmo tempo como se fosse apenas uma coisa.

Se a pessoa não entende que existe uma diversidade e também qual é essa diversidade ela vai se tornar ininteligível, como aliás muitos são. Ai está então a chave do principal problema que o candomblé enfrenta, a ignorância.

Digo isso não no sentido pejorativo da palavra, mas no sentido literal. As pessoas não compreendem de fato sobre o que estão falando e transformam qualquer conversa ou explicação em um pesadelo. Piora muito quando essas pessoas misturam ainda catolicismo e umbanda na mesma conversa.

Este texto aqui procura mostrar como é composta a diversidade do candomblé, para permitir que o assunto seja mais simples. Parece um paradoxo, não? Mas não é. A chave da simplicidade, da clareza e da objetividade está na pessoa focar o seu assunto no pedaço que pertence ou conhece. Na minha opinião, sob o ponto de vista religioso, não existe sentido em alguém adotar uma abordagem diferente. Falar sobre muitas coisas ao mesmo tempo ou comparativamente é coisa para antropólogo ou idiota mesmo, ou seja, os dois extremos.

Aqueles que não leram o texto sobre a composição do candomblé devem fazê-lo. Este texto aqui complementa este primeiro.

Agora, enfim, vamos ao que interessa.

No texto anterior, eu fiz 3 referências de divisões do candomblé que são importantes. A primeira é a religião base, existem duas, a Yoruba e a do Dahomey. Uma casa somente pertence a uma dessas religiões.

Eu não conheço a religião do Dahomey de forma que não posso falar sobre ela. Eu falo apenas do candomblé ligado a religião Yoruba.

A segunda referência, foram os cultos. As casas da religião Yoruba se dividem exclusivamente entre 1 de 3 cultos, o de Orixá, que é o principal e mais importante, o de Egungun e o de Ifá, este último é o mais recente e vagarosamente vai se integrar com o candomblé.

A seguir uma casa pertence a uma nação, que é uma especialização dentro da religião e também do culto, sendo que cada nação tem apenas um culto. Dentro da nação vamos ter, ainda, o conceito de “Axé” que liga a casa a uma das casas matrizes da sua nação.

Esta hierarquia vale para o culto de orixá. Para o culto de egungum e Ifá existe uma outra estrutura hierárquica própria a cada um deles e que é muito mais simples porque esses cultos não passaram pelo processo histórico de crescer junto com a nação brasileira, eles não formaram uma tradição religiosa.

Esta estrutura que eu comentei, parece bem natural, não? Religião, culto, nação e axé. Pois é assim mesmo e é desta forma que as casas devem ser entendidas, tomando-se, claro, a casa como o elemento de referência na formação e prática da religião.

Vamos de baixo para cima iniciando no elemento básico da prática da religião que é a casa. O individuo pertence a uma casa e somente a uma casa. Esta casa está ligado a somente um dos culto citados. Ou a casa é de orixá ou de Egungun ou de ifá. O culto está ligado somente a uma religião, assim, por exemplo, ele será o culto de orixá Yoruba ou culto de Vodun jeje.

Pausa para respirar.

Orixá e Vodun são divindades diferentes. Elas pertencem a RELIGIÕES diferentes!

Teologicamente falando, não se pode fazer comparações ou incluir na mesma conversa essas divindades como se fossem paralelos, separações linguísticas. Eu gostaria muito de conhecer a religião do Dahomey para poder falar mais desse tema, da mistura que pessoas desinformadas fazem dessas 2 divindades. Mas não tenho tempo agora para isso.

Assim uso uma lógica mais simples para minhas afirmações. São 2 religiões diferentes, ou seja, 2 teogonias, 2 metafísicas, 2 teologias, 2 cosmogonias, etc... Não dá para fazer equivalência de de-para. A realidade de as pessoas misturarem na sua casa tratamentos de Orixá e Vodun não pode se tornar uma regra. As pessoas podem chamar urubu de meu louro e cachorro de gato, isso não vai mudar a natureza deles. Cachorro será cachorro e papagaio será papagaio.

A mistura de Orixá e Vodun necessita de muito espaço para ser explicada, mas, no fim passa apenas por conversa misturada ou sincretismo litúrgico. A maior parte das pessoas fala sobre o que não sabe ou faz Orixá e chama de Vodun.

Mas, voltando ao nosso tema, as ligações de culto e religião, são suficientes para situar a casa no contexto teológico, contudo, em termos de formatação da prática da religião adiciona-se mais dois elementos que é a nação e raiz de axé.

Conforme eu citei, a nação é uma especialização do culto, que desenvolveu ritos e liturgias específicos para a sua prática religiosa. A nação não muda a religião ou culto e sim dá formato a prática disso no dia a dia. O agrupamento das nações seguiu uma origem étnica como também outros critérios menos claros de socialização.

Como exemplos de nações ligados à religião Yoruba podemos citar a mais conhecida a influente, o Ketu, mas também, o Efon, o Ijexa, o candomblé de caboclo, o xambá, o angola.

O angola pensa que é diferente. Dá nome diferente as suas divindades, usa uma língua diferente e usa os atabaques de forma diferente. Mas isso é só casca, basicamente copiaram o modelo ketu e fizeram uma “etnização”. Essa religião que eles praticam aqui não existe na África

O agrupamento da Nação é o primeiro nível de estruturação da prática religiosa e litúrgica. Ele dá os principais formatos litúrgicos na prática da religião e associa a casa às origens histórica dos povos africanos que vieram na diáspora. Com a difusão e dispersão do candomblé na sociedade, a nação tem apenas o sentido de ser o nível principal de estruturação da prática, perdendo o sentido de diferenciar e agrupar etnias

Nos aprofundando um pouco mais nesse microcosmo das nações encontramos o conceito de raiz de axé ou apenas “axé” que é uma especialização da nação e o conceito mais importante na qualificação das casas, mais relevante mesmo que o de nação.

Dentro das nações existem algumas casas matrizes principais que foram as fundadoras da nação e da própria religião. Dessas casas chamadas de matrizes saíram as pessoas que abriram as casas filhas ou descendentes, dessas casas filhas saíram outras pessoas que abriram outras casas e assim sucessivamente gerando uma grande árvore de descendência.

Nesse processo de ramificação, surgiram novas casas matrizes. Por cisão interpessoal, quebra da relação de descendência por falecimento ou mesmo origem histórica independente, como a separação entre Salvador e o Recôncavo, ou questões de Orixá mesmo, houve uma formação de raízes de axé. Grandes ou pequenos, não importa, existe uma diversidade nas raízes de axé.

Não falo aqui sobre as coisas erradas da prática da religião, senão teria que escrever uma enciclopédia, mas, não posso deixar de lembrar que um dos motivos que também pode gerar uma nova raiz de axé é a desonestidade teológica, a “marmotagem” como se diz no meio. Pessoas sem direito a abrir casas abrem e criam uma nova raiz sem estar ligados a ninguém, ou dizendo que estão ligados a uma casa que já acabou.

A regra diz que todas as casas de um mesmo “axé” devem seguir as mesmas regras, os mesmos ritos e mesma liturgia. Esses "axés" formam a espinha dorsal do candomblé. A casa, sem dúvida, é o elemento principal, aquele que é percebido pelas pessoas, mas o axé é o que, na ponta, dá formato a prática, aglutinando toda a teologia porque é o ponto de convergência da religião, do culto e da prática da religião. O axé define o padrão da prática litúrgica e também estabelece a cadeia hierárquica entre os sacerdotes.

quarta-feira, agosto 06, 2014

A Composição do Candomblé


Este texto fez parte de uma maior recém publicado sobre a religião Yoruba e o Candomblé. Contudo eu fiz uma revisão significativa de algumas partes e já atualizei na postagem do texto integral.

Estou publicando aqui em separado para que as pessoas possam rever.


A composição do candomblé


Lamento pelos textos introdutórios extensos, mas, como disse no primeiro texto, falar de Candomblé dá mais trabalho, é necessário primeiro desconstruir alguns conceitos ou explicar outros. Assim não dá para falar de religião de Orixá no Brasil sem antes explicar o que é o Candomblé.

De forma simplificada podemos dizer que o Candomblé é uma tradição religiosa que representa a religião Yoruba no Brasil. Ela não é a única, existem outras tradições desta mesma religião. Além disso esta colocação inicial sobre o candomblé já não é muito precisa, como vocês verão mais adiante, contudo, preciso iniciar esta explicação com algumas simplificações para que o assunto possa ser entendido.

O candomblé é muito mais do que uma tradição religiosa.

Contudo para poder entender o que ele é de fato, é necessário falar um pouco mais dele. É importante que seja entendido que é impossível falar de candomblé como se fosse uma coisa única. Esse nome, candomblé, abrange várias correntes e divisões.

Candomblé é o nome que recebe um amplo conjunto de tradições religiosas e cultos que se desenvolveram no Brasil a partir da Bahia e foi trazido pelos povos, de algumas etnias africanas, que vieram para o Brasil durante o que foi chamado de a diáspora negra, povos estes originários da África ocidental. Este grande e diversificado conjunto cultural se agrupa, de fato, não em torno de uma única religião base, mas sim de 2 religiões, a do, grupo Yoruba, que eu já citei e a do grupo jeje do Dahomey. O candomblé é então formado até hoje por 2 religiões distintas e não somente uma, em função disto não é possivel tratar o candomblé como um todo, apenas em partes.

Pausa para respirar....

Chamo muito atenção para este primeiro aspecto de que, dentro do candomblé, termos DUAS religiões diferentes sendo representadas.

Nova pausa para que reflitam sobre este parágrafo...

Aqueles que não acharam essa informação importante devem repensar a sua relação com a religião. Religiões distintas implicam em um divino distinto, uma relação diferente entre as pessoas e o divino, finalidades diferentes para a existência das divindades, uma visão metafísica da vida diferente, um sentido distinto para a existencia humana e valores e ética diferentes.

Compliquei um pouco, sem dúvida mas aceitem que ninguém pode ter 2 religiões. A pessoa não pode ser catolico e budista ou induista e muçulmano ou messianico e evangélico. Religião implica em filosofias diferentes, não apenas em acreditar em deus. Esse conceito pode ser um pouco dificil para os cristãos que são uma religião majoritaria no ocidente e que tem 3 religiões muito parecidas disputando as pessoas entre si, que sao o judaismo, islamismo e cristianismo. Para eles é tudo muito igua mas quando saimos deste contexto de religioes irmãs e vamos para um contexto pluri-religioso de fato, não se pode dividir.

Veja então a dificuldade em tratarmos do candomblé que é citado como se fosse uma coisa só e que na verdade é composto de 2 religiões diferentes.

Meus textos sempre cobrem apenas uma dessas religiões, a religião Yoruba e 2 cultos desta religião. Isso é apenas uma parte do candomblé.

O contexto afro-brasileiro, por sua vez, é ainda mais amplo. O candomblé com toda a sua complexidade é apenas uma parte deste contexto, existem outras tradições que as pessoas podem, até, estar achando que é candomblé. Mas eu vou abordar isso em um próximo texto.

A religião Yoruba, que é uma das religiões que existem dentro do candomblé, se manifesta através de cultos distintos. O principal, mais importante e mais conhecido culto é o de Orixá. Existe ainda o culto de Egungun e o culto de Ifá. Os cultos são subdivisões da religião com especialização litúrgica, cada um desses citados se dedicam a divindades diferentes ou melhor entendendo a objetivos teológicos diferentes.

As casas se identificam exclusivamente com uma religião e um tipo de culto, e este tem formato, liturgias e ritos diferenciados. Não existe possibilidade de uma casa se dedicar a mais de um culto ou raiz religiosa, quando essa regra é quebrada isto representa um erro e tenham atenção porque existem muitos mas muitos erros mesmo. Este texto não fala dos erros, fala do que é o certo, contudo, cuidado ao lidar com o dia a dia das pessoas e casas. Fala-se muita besteira e cometem-se muitos erros.

O culto de Orixá lida com os Orixás, o de Egungun com os ancestres falecidos e o de ifá se dedica apenas ao oráculo da religião.

Não se pode referenciar ao Candomblé como “um” candomblé. Quando alguém fala de candomblé, a primeira coisa que se deve entender é de “qual” candomblé se está falando.

Antigamente, esta diversidade levava as pessoas ao chamarem de candomblé de nações, porque haviam várias nações que eram representadas dentro dele. O conceito de nação é flexível e pode qualificar tanto o grupo religioso principal, como Yoruba e jeje, como também etnias que estabeleceram variações litúrgicas e ainda, reagrupamentos locais que também estabeleceram variações litúrgicas.

A tradição religiosa de candomblé é nomeada no singular apenas por razões históricas, de fato o termo unificado “Candomblé”, cuja origem etimológica não é conhecida, é somente uma simplificação muito grande e que leva as pessoas a suporem uma unidade religiosa que não existe.

O conjunto religioso formado pelo candomblé é de fato difícil para os brasileiros entenderem, mesmo para os seguidores, porque cada seguidor pertence a um microcosmo e não necessariamente conhece o todo, comumente conhece onde ele próprio está e alguma parte adicional.

No contexto brasileiro, além do candomblé, temos a umbanda, o espiritismo, o catimbó, o toré, o batuque, o xango, o tambor da mina e a casa da mina. Posso, ainda, estar esquecendo de alguém, visto o tamanho de nossa diversidade....

O espiritismo é de origem francesa e nada tem a ver com a África. A Umbanda, o Catimbó e o toré são brasileiros e nada tem a ver, também com a África. O Batuque no Sul e o Xango no Nordeste são tradições religiosas com origem Yoruba. O Tambor da mina e a casa da mina, no Norte são de Origem do Dahomey

Estas tradições, apesar de serem totalmente diferentes, aos olhos do leigo eles podem parecer que são todos uma coisa só ou que tem uma origem única ou mesmo que sejam Candomblé. Não são.

A verdade como eu mostro é que não tem nada em comum. O leigo certamente olha para esse conjunto, não o entende e chama isso tudo de afro-brasileiro ou de matriz africana, sem saber que, como eu disse, a África é um continente não um país e que neste conjunto encontramos ainda cultos brasileiros e ameríndios. Buscar semelhanças entre eles é insano e idiota.

As pessoas sempre buscam simplificação para superarem a sua preguiça ou ignorância, assim, em vez de entenderem a nossa riqueza cultural e religiosa fazem o pior, inventam algo que não existe usando explicações idiotas. Isso aumenta a confusão. Como um amigo falou, é muito fácil escrever sobre candomblé, você inventa o que quer e tem um monte de gente que ainda acredita. A mídia escrita e televisiva que é formada de 3% de jornalistas que tem neurônios, apenas torna isso pior chamando tudo que não é cristão de afro-brasileiro. Como já repeti inúmeras vezes o catolicismo é afro-brasileiro.

Eu imagino que os cubanos que estão vindo para o Brasil trazer o seu ifá e a reboque o lukumi que é a tradição de orixá deles, tem aumentado a confusão porque inserem um novo elemento neste “caldo”. Primeiro devemos lembrar que eles devem ter uma absurda dificuldade de entender o candomblé. A tradição deles, o lukumi, é unificado e tem inclusive uma regra de formato, todos fazem igual, ou com pequenas variações, afinal cuba é apenas uma pequena ilha. O candomblé é muito maior, rico, complexo e diversificado. Eles podem chegar aqui tentando traçar semelhanças entre o lukumi e o candomblé, mas falham, largamente, em entender uma coisa que está muito além do que eles podem entender.

O lukumi pode ser comparado, no máximo a um pequeno pedaço do candomblé, uma nação, como o Omolokô ou ao Angola que mistura religião Yoruba com Bantu, ou como a gente diz, candomblé com umbanda. O lukumi é uma mistura muito grande da origem yoruba com o bantu e o catolicismo. Não da para comparar com o candomblé. O que eles fazem é o mesmo que as pessoas de umbanda fazem ao tentar explicar ou entender o candomblé em função do que eles conhecem. Nem os umbandistas entendem o candomblé nem os cubanos, e ambos acham que sabem tudo e de fato nada sabem de nada.

Além da questão das nações, que criou inicialmente diversidade, o candomblé foi responsável por um processo de profundo de transformação da própria religião Yoruba, processo este que está sendo absorvido pela própria tradição africana. Na terra Yoruba, a religião e os cultos eram regionalizados e muito mais especializados, sendo agrupados em aldeias, cidades e famílias. Além disso as próprias divindades eram elementos de agregação. Enquanto no Brasil nós tivemos uma especialização em 3 cultos, na terra Yoruba, o culto era segmentado por divindade.

No Brasil, a estrutura Yoruba original era impossível de ser refletida. O modelo família, clã, aldeia e região era inviável devido a situação de escravos que as pessoas viviam aqui. O candomblé criou a figura do terreiro como ponto de união e substituição disso tudo, incluindo uma unificação litúrgica uma vez que um terreiro inclui, aqui, o culto a todos os orixás. O terreiro substituiu a família, o clã, a aldeia e o templo. A figura do terreiro reconstitui na tradição religiosa da Diáspora os elementos perdidos da sociedade Yoruba e sua constituição, no formato que tomou, foi um pilar importante na religião, mantendo melhor os vínculos teológicos originais do candomblé com a religião Yoruba.

Os lukumi de cuba, não tem o elemento terreiro ou mesmo egbe e isso explica bastante o distanciamento deles e a atitude agressiva que alguns grupos cubanos e de pessoas iniciadas por cubanos, tem tomados em relação a tradição Yoruba. A única explicação que eu encontro para a forma agressiva como cubanos de lukumi ou ifá se dirigem aos nigerianos ou seguidores da tradição Yoruba é, ou a necessidade de se justificarem no mercado religioso (de jogos, ebós e iniciações) ou um problema de autoestima por eles se acharem menores ou diferentes. Reconheço que não sei a causa, apenas posso imaginar.

Lamento os comentários que alguns podem não gostar. Não pretendo comentar sobre o Lukumi, Cuba é uma ilha pouco mais que o estado do Rio de Janeiro e com uma população equivalente. É impossível a gente querer comparar a riqueza cultural que temo no Brasil com uma ilha e população tão pequena.

Voltando ao candomblé, os 2 principais grupos religiosos presentes no candomblé são o Yoruba e o Jeje, cada um deles representa uma base religiosa distinta. Elas possuem similaridades, algumas ligações ou coisas em comum mas não são a mesma religião.

As diversas nações formam subdivisões do candomblé e pertencentes a uma dessas 2 religiões. Algumas pessoas podem estar notando, e estranhando, que não menciono o Angola no mesmo nível que o Yoruba ou jeje. Ele não está neste nível. O angola é uma nação de Candomblé, como as demais que serão citadas. O angola deveria pertencer ao grupo bantu e este grupo não tem uma base religiosa equivalente aos Yoruba ou Jeje. Eles são similares a umbanda, onde deveriam estar. O que ocorreu foi que, pessoas da bantu copiaram o modelo Yoruba, fizeram adaptações linguísticas e inventaram uma nação para eles, mais especificamente uma nação para uma religião que na áfrica nunca tiveram. Isso não os desmerece como uma tradição religiosa Yoruba. Mas eles são um grupo étnico que adotou a religião Yoruba e criou uma tradição própria para a etnia deles.

sábado, agosto 02, 2014

Entendendo mais o Brasil e a diversidade religiosa


O contexto afro-brasileiro


Não podemos falar de religião e candomblé sem esclarecer algumas coisas desse contexto afro-brasileiro que não ajudam a entender e ainda por cima atrapalham. A Diáspora negra trouxe para o Brasil uma salada de etnias e chamar isso tudo de africano, como se a África fosse um só país e um só povo é a pior ignorância que podemos cometer. É o mesmo que chamar de americanos os habitantes do Brasil, México, argentina, Estados Unidos, chile, etc….

Afro-brasileiro é uma expressão que para a pessoa que quer entender alguma coisa não diz nada. No meio de todos os povos que vieram para cá, haviam ate mesmos os Muçulmanos (os Malês), ou seja, pessoas que tinham uma religião abraâmica. Religião, classe social ou desenvolvimento humano não foram os fatores que determinaram a pessoa ou o povo ser traficado. Foi apenas uma questão de vencidos e vencedores.

O conceito de tradição religiosa não deve ser confundido com a expressão religião afro-brasileira ou religião de matriz africana. Enquanto a primeira tem significado prático e real as outras duas não contribuem com nada. As pessoas gostam muito de expressões, adjetivos e pleonasmos que tem pouco significado real. Recomendo a todos se fixarem no conceito que foi explicado de tradição religiosa e expurgar da sua mente esses outros dois.

Como existem muitos povos no continente africano essas expressões são genéricas demais e colocam no mesmo contexto coisas diferentes. Não se pode tratar a África, um enorme e diversificado continente, com diversos países, povos, culturas, etnias e religiões como uma coisa única.

Isso é um erro comum, resultado de ignorância e preconceito.

A pior expressão, entre as duas, sem dúvida, é essa de “matriz africana”. Acredito que o judaísmo, o islamismo e o catolicismo devem ser também enquadrados como de matriz africana, porque Egito, Arábia e oriente médio estão na África também.

Assim, qualificar uma religião como de matriz africana quer dizer o quê? Ou apenas existe a África oeste e subsahariana?

O rótulo afro-brasileira pode ser usado de forma mais comum, entretanto devemos atentar que é uma denominação genérica para indicar uma mistura, no contexto religioso não nos diz nada. Não coloquem tudo que é afro-brasileiro com o mesmo significado. É impossível colocar tudo o que se encaixa no rótulo afro-brasileiro no mesmo pacote, afinal o Brasil é grande e a África um continente.

Eu tenho certeza de que aqueles que já leram livros do Verger devem ter observado, sem entender ou dar atenção, a um mapa migratório, mostrando os fluxos de negro entre a África e o novo mundo. Esse mapa é para mostrar isso, a diversidade de etnias e consequentemente religiões e culturas que vieram para o Brasil e suas proporções demográficas. É isso o que configurou a nossa formação.

Por exemplo o grupo étnico Bantu, muito grande na África, também veio para o Brasil em grande número (foi inclusive o primeiro a vir) e não tem nenhum vínculo cultural ou religioso com o povo Yoruba. Estabeleceram-se fortemente no rio de janeiro e a macumba tem origem nele. Contudo, a macumba ou quimbanda, não existe mais, hoje faz parte do contexto da umbanda, assim como as influências do bantu se dispersaram ao longo do tempo, muito diferente do grupo Yoruba cuja influência cultural passou a traduzir a africanidade. Não da para colocar na mesma panela o bantu e o yoruba e falar de um como se estivesse falando do outro.

O Bantu, uma etnia africana auténtica, foi trazida em grande número para o novo mundo. Apesar disso, nao conquistou o mesmo status de relevância que os Yoruba conquistaram em nenhum lugar que conviveram juntos. Os Bantu estão muito associados com a prática de feitiçaria e incorporações. Em cuba geraram o Palo Mayombe, que existe até hoje como um culto autônomo. No Brasil eles foram antecedentes à Umbanda, formavam o que se chamava de quimbanda ou macumba. Tanto o Palo mayombe como a quimbanda são facilmente, e corretamente diga-se de passagem, identificadas com o que podemos chamar de feiticaria. A quimbanda se localizava na periferia do Rio de Janeiro, mas, não tinha qualquer vínculo com o culto de orixá ou vodum que existe no candomblé.

Com o surgimento da Umbanda em 1908, a quimbanda Bantu foi acabando como manifestação independente. A Umbanda, sendo uma religião brasileira nascida e desenvolvida no seio da sociedade nativa, era muito mais forte junto a população e extinguiu ou absorveu todas esses cultos pré-existentes. Análise deste processo é interessante mas não será feita aqui. Todos os cultos anteriores à umbanda foram incorporados e algumas de suas características foram absorvidas pela umbanda como um todo ou então gerando uma corrente específica dentro da umbanda.

Dessa forma esqueçam a participação Bantu na formação da tradicao religiosa do candomblé. O Bantu se uniu a Umbanda com a qual tem muito mais identidade.

A umbanda por sua vez não é uma coisa única. Falar sobre a umbanda é bastante complexo, como também é qualquer tentativa de simplificar ou de não tratar como uma religião própria e complexa. Simplificações e maniqueísmo, como muitos gostam de fazer vão levar apenas a erros graves de entendimento.

A umbanda nao faz parte do conjunto religioso do candomblé. Não tem vinculo com nenhuma das 2 religiões que fazem parte deste contexto.

Como a umbanda é tipicamente sincrética e na sua história absorveu muitos cultos ou então sofreu influência de mais de uma religião, ela é formada por várias correntes doutrinarias e liturgicas diferentes. Todas guardam o nucleo ideológico e teológico comum da umbanda, mas, formatam a sua prática de forma diferente.

Mais de uma corrente da umbanda buscou elementos africanos, com intensidades diferentes e no caso do Rio de Janeiro, a maior parte delas adotou tambores, a linha de exu e nomes de divindades africanas em sincretismo com os santos católicos. Isso gerou uma aparente identificação dela com o candomblé e com a denominação de ser afro-brasileira. Essas duas coisas foram feitas por pessoas que não conheciam o candomblé e também a Umbanda.

Estou me alongando nessa explicação sobre umbanda mas ela é necessária. Antes de falar da religião do candomblé é necessário colocar as coisas nos seus lugares, e nesse lugar não cabem a umbanda e o candomblé juntos.

Mesmo a dita umbanda africanizada, nem antes e nem agora, entendeu direito os conceitos yoruba do candomblé. Se você se der ao trabalho de comprar em sebos livros antigos de umbanda, percebe fácilmente o que estou afirmando. Existem enganos e equívocos aos montes. Foram apenas copiados aspectos estéticos. Nem a teologia, nem a prática e nem as palavras eram entendidas.

A aproximação da umbanda foi, como expliquei com a etnia Bantu. Não foi com o grupo Yoruba ou Jeje que são quem formam de fato raiz do candomblé. Apesar de a umbanda ter adotado nomes de orixas Yorubas na sua prática esse uso é simbólico e não a aproxima da teologia Yoruba.

Esta proximidade é estética e não teológica. A doutrina central da umbanda é a caridade e doação, além da boa conduta moral e ética. Os vinculos com o catolicismk são muito grandes e fortes, se sobrepondo aos demais e distorcendo as teologias que absorveu ou sincretizou para acomodar a teologia católica.

A umbanda é uma religião brasileira, basicamente católica, que absorveu muitas correntes religiosas e religiões. Não existe uma unificação e as casas de umbanda seguem linhas diferentes. Existem algumas mais africanizadas, outras mais próximas aos espiritismo, outras mais ligadas a filosofias orientais e por ai vai.

Existiu uma corrente bastante africanizada da Umbanda chamada Omolokô. Seria uma mistura de umbanda e candomblé. Muitos chamavam de umbanda Omolokô outros apenas de Omolokô. Por muitos anos foi um adjetivo para denominar uma casa que misturava candomblé e Umbanda.

De adjetivo virou pejorativo, não se usa mais essa expressão. A umbanda Omolokô foi apenas uma formação de pessoas de origem Bantu que tiveram que aderir a Umbanda mas que reagiam a doutrina da Umbanda que era pregada na época, isso na década de 40, no século passado.

Essas pessoas fizeram uma mistura do bantu, da umbanda e de coisas do candomblé. O Omolokô não era Candomblé, apenas copiava. Não havia integridade teologica, apenas oportunismo. Como expliquei o grupo Bantu nao tinha qualquer relação com o grupo Yoruba ou Jeje.

De forma pejorativa a expressão Omolokô foi usada para qualificar aquilo que era de fato. Uma mistura religiosa, uma junção litúrgica, fruto de conveniência de uma pessoa que criou isso e que queria ter um culto próprio onde eke pudesse fazer o que quizesse.

Quando falamos de umbanda o assunto não é simples e não vou extender isso. Mas minha posição é essa, as explicações são no sentido de explicar que apesar de muitas pessoas incluirem a umbanda quando mencionam religiões afro-brasileiras, isso é um erro em todas as dimensões que podemos analisar.