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quarta-feira, setembro 03, 2014

O Candomblé e a família



O candomblé é baseado em uma religião absolutamente familiar. O indivíduo e seu sucesso na vida é o centro da religião, mas a família e a sociedade vem logo a seguir. A família é muito importante na estrutura religiosa e a ancestralidade, o vínculo com o passado, é baseada nos laços familiares. A religião não separa o indivíduo da sociedade, pelo contrário integra-o com o presente, o passado e o futuro dessa sociedade.

Eu observo muitos pseudointelectuais usado a referência da ancestralidade, como uma posição “erudita” com frases de efeito, mas, é tudo espuma. Essas pessoas não tem a menor ideia do que seja ancestralidade para essa religião.

Hoje existe em muitas casas ou talvez até, na maioria delas, um desencontro entre a religião e a família. Isso vai de encontro (isto é, contraria) com o princípio básico da religião, uma vez que é inconcebível uma religião sem a família. Na continuação do texto eu explorarei este aspecto histórico buscando trazer reflexão sobre o tema.

O mundo real nos mostra que a prática de muitas casas não incentiva ou propicia uma prática familiar da religião.

Essas casas devem ser evitadas, elas não são um lugar adequado a religião.

Antes de fazer a explicação histórica do problema e suas causas raízes, de acordo com meu ponto de vista, vou direto nas recomendações.


Recomendações para escolher uma boa casa


A primeira coisa que qualquer pessoa deve ter atenção ao frequentar uma casa é, onde esta a família do dirigente? A família dele está na casa de orixá? Mulher e filhos estão na mesma religião do dirigente?

Se a pessoa não tem capacidade para convencer seus familiares frequentarem sua casa, por que você está indo la? O que você viu naquela casa ou pessoa que as pessoas mais próximas a ele não viram? Por que ele te convence a ir na casa dele se não faz isso com mulher, filhos e outros familiares.

Os demais membros da casa, frequentam com a família deles? Ou você é o único preocupado em levar sua família? Se não existe preocupação geral em trazer a família, você certamente está no lugar errado.

Você pode estar em uma casa que o dirigente é homo sexual. Isso não é por princípio nenhum problema, mas homo sexuais também tem família. A família dele está com ele?

Como eu citei, a orientação dele não é um problema, mas, também pode não ser um padrão para você. Em muitos casos pode ser mais conveniente você procurar uma casa mais alinhada com sua própria vida. O seu espaço religioso não pode representar uma disrupção com sua realidade, isso não da certo.

A casa é um ambiente familiar? É um lugar para o qual você levaria sua família sem restrições ou preocupações? Você vê sua família frequentando com você aquela casa?

As pessoas que frequentam a casa são pessoas similares a você em termos de valores, ética e moral? Você poderia conviver com essas pessoas fora da casa de orixá?

A sua casa religiosa não é um lugar para laboratório social. Ela deve ser sintonizada com sua vida, modos e comportamento. Ela tem que poder ser uma extensão natural da sua vida para que la a sua cabeça não fique em conflito ou praticando novos horizontes. Se você quer que isso dê certo tenha atenção a isto.

Se você falhar em responder a estas questões, reflita melhor e procure um lugar que vai propiciar mais chances de sucesso. É absurdamente alto o nível de frustração das pessoas com casas e isto traz muitos problemas.

Não tenha pressa sob nenhuma razão para escolher uma casa. Nenhum motivo ou pretexto devem acelerar o lento processo de escolha de uma casa para frequentar. Voltando ao tema deste texto, religião é uma prática familiar.

A origem da família espiritual.


A família espiritual, ou de santo, teve sua utilidade, mas causou mais problema que solução. O modelo que você deve ter para a religião é da prática familiar. Sua casa religiosa tem que ser um lugar compatível com sua vida. Não pode ser um lugar que você mergulhe em uma vida paralela.

A casa que você frequenta tem que permitir uma prática aberta da religião, uma que você e sua família possam ir sem serem obrigados a se iniciar o submeter a liturgias contínuas.

Você não pode ver sua opção religiosa como sendo um instrumento para solução de problemas, para troca de favores ou dispêndio de dinheiro.

Não confunda preconceito com opções. Você pode não ter preconceito contra a opção social das pessoas, mas não tem que transformar isso em sua opção. Você pode ter a opção de ter uma vida distinta e que fique sob o seu controle a educação que dá a seus filhos.

Nunca se submeta a ninguém. Uma coisa é respeitar a organização de uma casa que precisa dela para funcionar. Você deve entender o seu papel naquela estrutura e o que pode, não pode, deve e não deve fazer, mas nunca se esqueça que está ali por opção e não por falta de opção. Sua prática de religião deve ser um prazer e a relação entre as pessoas deve se dar pelo respeito.

Religião não é um exército e casa de orixá não é um quartel. A hierarquia que se estabelece no contexto religioso é necessária mas serve a religião. Na vida social a importância das pessoas se deve ao respeito que elas conquistam e não ao que elas exigem.

O candomblé é uma versão brasileira da religião Yoruba. Ele é uma "tradição religiosa" e por isso mesmo fez várias adaptações da prática da religião original Yoruba ao nosso povo em função de nossa cultura, história e sociedade. Essas adaptações não mudam a religião, apenas especializam-na. Um dos aspectos que tiveram que ser superados inicialmente, infelizmente, foi o aspecto da família. Digo infelizmente porque a solução acabou favorecendo o descolamento na religião do individuo da família e isso se propagou até hoje. É um dos casos em que o remédio trouxe efeitos colaterais permanentes.

Em primeiro lugar, temos que lembrar que a família dita carnal ou de descendência direta foi desconstruída pelo escravagismo. A formação das primeiras casas de candomblé não pôde ser feita em torno do núcleo familiar e dessa forma a família não pôde se reunir em torno do culto às suas divindades pessoais, familiares e seus ancestres, como é o modelo Yoruba. Essa minha afirmação não é totalmente precisa e vão existir vários casos de exceção, contudo serve como visão geral.

A separação da família teve apenas um efeito mais forte nos primeiros tempos da religião, possivelmente nos primeiros 40 anos, mas criou o conceito da família de santo para substituir a ausência da família carnal. O conceito da família substituta permitiu que se inserisse um “ambiente familiar” alternativo, com irmãos e pais. Dessa forma a religião pode ser praticada quardando o paralelo com a África. O terreiro era a casa familiar substituta e os membros os familiares.

A casa e família de santo trouxeram o ambiente de relações familiares da religião Yoruba para o candomblé e o ajudou a se construir de uma forma similar a origem africana.

Mas havia um outro aspecto, além do escravagismo, que contribuiu para a não união familiar em torno da religião, que foi o catolicismo que, como religião majoritária e de forte ascendência devocional sobre a população, dividia a preferência dos indivíduos e das famílias. Não temos a tradição social de obrigar a adoção da religião pelos filhos e o candomblé sendo uma religião iniciática com ritos fortes e fortemente discriminada, era muito mais difícil de ser adotado quando comparado com o catolicismo.

Imagine a situação difícil dos primeiros grupos que tinham acesso ao candomblé. Já sofriam uma grande restrição social por conta de sua vida e origem. Sofrer ainda preconceito por causa da religião ou mesmo perseguição policial real, era um pouco demais. Não era para todos e mesmo o pai mais crente nos orixás não gostaria de ver seu filho sofrendo por isso.

Além disso o catolicismo se impunha como a religião majoritária. Fortemente divulgada, fácil de ser praticada e altamente integrada a ritos sociais, como batizado e casamentos. Era impossível não se casar em uma igreja e a cerimônia era o sonho das mulheres.

Nada disso havia no candomblé, pelo contrário só haviam restrições e proibições.

Com isso tudo e mais coisas ainda que poderíamos divagar era difícil ter o candomblé como religião familiar, mesmo bem depois do fim da escravidão.

O lukumi, tradição religiosa cubana, que tem aparecido no Brasil junto com cubanos, tem todo motivo para ter se distanciado tanto da religião Yoruba. Eles tiveram a mesma concorrência do catolicismo e não tiveram a formação da família de santo e do terreiro. Acabaram construindo uma tradição que se distanciou muito da religião e teologia e hoje eles buscam se afirmar conflitando com os africanos.

Contudo, voltando a questão da família substituta, esta não era a solução perfeita. Ela, de fato, criava um núcleo familiar paralelo, necessário para a religião, mas, não estabelecia entre as pessoas a real cumplicidade, lealdade, tolerância e afetividade que existe no ambiente familiar real. A família substituta serviu ao propósito da religião mas não ao das pessoas. As casas de orixá se tornaram um ambiente nem sempre agradável onde imperava a convivência difícil e relações hierárquicas. A família espiritual, de família não tem nada.

Com o tempo a família substituta inibiu a própria família real de se integrar a casa de orixá. A estrutura substituta com sua hierarquia própria passou a não desejar mais os problemas que adviriam da integração da família real, com seus laços afetivos próprios, suas relações de lealdade particulares e sua hierarquia autônoma.

Quando a capacidade do dirigente está muito aquém do necessário para enfrentar este desafio, sobram restrições e a religião se perde. E isso ocorreu em larga escala. Foram estabelecidas regras proibindo o relacionamento entre pessoas da mesma casa e proibições a frequência a uma mesma casa de casais.

Além disso a capacidade de ensinar a religião e a prática dela se transformaram em um transtorno. Eram muitas regras e proibições. Somente a casa de orixá era lugar para a religião e da forma como o dirigente estabelecia. Erros, desvios ou esquecimentos na liturgia viraram problemas gravíssimos.

A consequência disso foi que esta religião através desse tipo de pensamento e prática adotou a linha do medo e do pecado que cercam e alimentam o cristianismo. A naturalidade e a felicidade do encontro com orixás foi trocado pelo medo e tensão. O orixá como uma divindade próxima a nós e que compartilha nossa felicidade foi tornada equivalente ao deus cristão, severo e raivoso.

Esqueçam esse modelo idiota.

domingo, agosto 10, 2014

A Composição do Candomblé




As estrutura e formação das nações do Candomblé



O tema das nações de candomblé não é necessário para a definição e entendimento da religião, mas, é um assunto complementar importante e por isso está sendo abordado como um texto complementar.

Antes de me estender neste tópico tenho que reconhecer que este assunto de nações, como muitos outros no candomblé, representam um desafio a uma abordagem racional e cartesiana. As pessoas adoram simplificações, maniqueísmos e cartesianismo. Mas o mundo real não é assim. A teoria do caos é o que explica o mundo, não a de newton ou o método de descartes.

Eu já mostrei em outro texto o quanto o candomblé é diversificado e por isso é complexo. De certa forma, é injusto chamar toda essa riqueza cultural e religiosa de apenas “candomblé”, mas, é assim que fazem. A heterogeneidade é o que traz esta complexidade, fazendo com que seja, para muitos uma coisa difícil de ser aprendido ou entendido, aliás, é mesmo dificil.

Além disso, o contexto afro-brasileiro é muito maior. O candomblé é apenas uma das tradições. Existem outras tradições. Aqui tratamos de candomblé, e especificamente de uma parte dele.

Como eu disse, não existe um candomblé, existe o candomblé, formado por religiões, cultos e nações. É este contexto que o torna complexo. O assunto é tão simples ou tão complicado como qualquer religião. No caso do candomblé temos apenas que entender esta heterogeneidade para evitar falar de tudo ao mesmo tempo como se fosse apenas uma coisa.

Se a pessoa não entende que existe uma diversidade e também qual é essa diversidade ela vai se tornar ininteligível, como aliás muitos são. Ai está então a chave do principal problema que o candomblé enfrenta, a ignorância.

Digo isso não no sentido pejorativo da palavra, mas no sentido literal. As pessoas não compreendem de fato sobre o que estão falando e transformam qualquer conversa ou explicação em um pesadelo. Piora muito quando essas pessoas misturam ainda catolicismo e umbanda na mesma conversa.

Este texto aqui procura mostrar como é composta a diversidade do candomblé, para permitir que o assunto seja mais simples. Parece um paradoxo, não? Mas não é. A chave da simplicidade, da clareza e da objetividade está na pessoa focar o seu assunto no pedaço que pertence ou conhece. Na minha opinião, sob o ponto de vista religioso, não existe sentido em alguém adotar uma abordagem diferente. Falar sobre muitas coisas ao mesmo tempo ou comparativamente é coisa para antropólogo ou idiota mesmo, ou seja, os dois extremos.

Aqueles que não leram o texto sobre a composição do candomblé devem fazê-lo. Este texto aqui complementa este primeiro.

Agora, enfim, vamos ao que interessa.

No texto anterior, eu fiz 3 referências de divisões do candomblé que são importantes. A primeira é a religião base, existem duas, a Yoruba e a do Dahomey. Uma casa somente pertence a uma dessas religiões.

Eu não conheço a religião do Dahomey de forma que não posso falar sobre ela. Eu falo apenas do candomblé ligado a religião Yoruba.

A segunda referência, foram os cultos. As casas da religião Yoruba se dividem exclusivamente entre 1 de 3 cultos, o de Orixá, que é o principal e mais importante, o de Egungun e o de Ifá, este último é o mais recente e vagarosamente vai se integrar com o candomblé.

A seguir uma casa pertence a uma nação, que é uma especialização dentro da religião e também do culto, sendo que cada nação tem apenas um culto. Dentro da nação vamos ter, ainda, o conceito de “Axé” que liga a casa a uma das casas matrizes da sua nação.

Esta hierarquia vale para o culto de orixá. Para o culto de egungum e Ifá existe uma outra estrutura hierárquica própria a cada um deles e que é muito mais simples porque esses cultos não passaram pelo processo histórico de crescer junto com a nação brasileira, eles não formaram uma tradição religiosa.

Esta estrutura que eu comentei, parece bem natural, não? Religião, culto, nação e axé. Pois é assim mesmo e é desta forma que as casas devem ser entendidas, tomando-se, claro, a casa como o elemento de referência na formação e prática da religião.

Vamos de baixo para cima iniciando no elemento básico da prática da religião que é a casa. O individuo pertence a uma casa e somente a uma casa. Esta casa está ligado a somente um dos culto citados. Ou a casa é de orixá ou de Egungun ou de ifá. O culto está ligado somente a uma religião, assim, por exemplo, ele será o culto de orixá Yoruba ou culto de Vodun jeje.

Pausa para respirar.

Orixá e Vodun são divindades diferentes. Elas pertencem a RELIGIÕES diferentes!

Teologicamente falando, não se pode fazer comparações ou incluir na mesma conversa essas divindades como se fossem paralelos, separações linguísticas. Eu gostaria muito de conhecer a religião do Dahomey para poder falar mais desse tema, da mistura que pessoas desinformadas fazem dessas 2 divindades. Mas não tenho tempo agora para isso.

Assim uso uma lógica mais simples para minhas afirmações. São 2 religiões diferentes, ou seja, 2 teogonias, 2 metafísicas, 2 teologias, 2 cosmogonias, etc... Não dá para fazer equivalência de de-para. A realidade de as pessoas misturarem na sua casa tratamentos de Orixá e Vodun não pode se tornar uma regra. As pessoas podem chamar urubu de meu louro e cachorro de gato, isso não vai mudar a natureza deles. Cachorro será cachorro e papagaio será papagaio.

A mistura de Orixá e Vodun necessita de muito espaço para ser explicada, mas, no fim passa apenas por conversa misturada ou sincretismo litúrgico. A maior parte das pessoas fala sobre o que não sabe ou faz Orixá e chama de Vodun.

Mas, voltando ao nosso tema, as ligações de culto e religião, são suficientes para situar a casa no contexto teológico, contudo, em termos de formatação da prática da religião adiciona-se mais dois elementos que é a nação e raiz de axé.

Conforme eu citei, a nação é uma especialização do culto, que desenvolveu ritos e liturgias específicos para a sua prática religiosa. A nação não muda a religião ou culto e sim dá formato a prática disso no dia a dia. O agrupamento das nações seguiu uma origem étnica como também outros critérios menos claros de socialização.

Como exemplos de nações ligados à religião Yoruba podemos citar a mais conhecida a influente, o Ketu, mas também, o Efon, o Ijexa, o candomblé de caboclo, o xambá, o angola.

O angola pensa que é diferente. Dá nome diferente as suas divindades, usa uma língua diferente e usa os atabaques de forma diferente. Mas isso é só casca, basicamente copiaram o modelo ketu e fizeram uma “etnização”. Essa religião que eles praticam aqui não existe na África

O agrupamento da Nação é o primeiro nível de estruturação da prática religiosa e litúrgica. Ele dá os principais formatos litúrgicos na prática da religião e associa a casa às origens histórica dos povos africanos que vieram na diáspora. Com a difusão e dispersão do candomblé na sociedade, a nação tem apenas o sentido de ser o nível principal de estruturação da prática, perdendo o sentido de diferenciar e agrupar etnias

Nos aprofundando um pouco mais nesse microcosmo das nações encontramos o conceito de raiz de axé ou apenas “axé” que é uma especialização da nação e o conceito mais importante na qualificação das casas, mais relevante mesmo que o de nação.

Dentro das nações existem algumas casas matrizes principais que foram as fundadoras da nação e da própria religião. Dessas casas chamadas de matrizes saíram as pessoas que abriram as casas filhas ou descendentes, dessas casas filhas saíram outras pessoas que abriram outras casas e assim sucessivamente gerando uma grande árvore de descendência.

Nesse processo de ramificação, surgiram novas casas matrizes. Por cisão interpessoal, quebra da relação de descendência por falecimento ou mesmo origem histórica independente, como a separação entre Salvador e o Recôncavo, ou questões de Orixá mesmo, houve uma formação de raízes de axé. Grandes ou pequenos, não importa, existe uma diversidade nas raízes de axé.

Não falo aqui sobre as coisas erradas da prática da religião, senão teria que escrever uma enciclopédia, mas, não posso deixar de lembrar que um dos motivos que também pode gerar uma nova raiz de axé é a desonestidade teológica, a “marmotagem” como se diz no meio. Pessoas sem direito a abrir casas abrem e criam uma nova raiz sem estar ligados a ninguém, ou dizendo que estão ligados a uma casa que já acabou.

A regra diz que todas as casas de um mesmo “axé” devem seguir as mesmas regras, os mesmos ritos e mesma liturgia. Esses "axés" formam a espinha dorsal do candomblé. A casa, sem dúvida, é o elemento principal, aquele que é percebido pelas pessoas, mas o axé é o que, na ponta, dá formato a prática, aglutinando toda a teologia porque é o ponto de convergência da religião, do culto e da prática da religião. O axé define o padrão da prática litúrgica e também estabelece a cadeia hierárquica entre os sacerdotes.

quarta-feira, agosto 06, 2014

A Composição do Candomblé


Este texto fez parte de uma maior recém publicado sobre a religião Yoruba e o Candomblé. Contudo eu fiz uma revisão significativa de algumas partes e já atualizei na postagem do texto integral.

Estou publicando aqui em separado para que as pessoas possam rever.


A composição do candomblé


Lamento pelos textos introdutórios extensos, mas, como disse no primeiro texto, falar de Candomblé dá mais trabalho, é necessário primeiro desconstruir alguns conceitos ou explicar outros. Assim não dá para falar de religião de Orixá no Brasil sem antes explicar o que é o Candomblé.

De forma simplificada podemos dizer que o Candomblé é uma tradição religiosa que representa a religião Yoruba no Brasil. Ela não é a única, existem outras tradições desta mesma religião. Além disso esta colocação inicial sobre o candomblé já não é muito precisa, como vocês verão mais adiante, contudo, preciso iniciar esta explicação com algumas simplificações para que o assunto possa ser entendido.

O candomblé é muito mais do que uma tradição religiosa.

Contudo para poder entender o que ele é de fato, é necessário falar um pouco mais dele. É importante que seja entendido que é impossível falar de candomblé como se fosse uma coisa única. Esse nome, candomblé, abrange várias correntes e divisões.

Candomblé é o nome que recebe um amplo conjunto de tradições religiosas e cultos que se desenvolveram no Brasil a partir da Bahia e foi trazido pelos povos, de algumas etnias africanas, que vieram para o Brasil durante o que foi chamado de a diáspora negra, povos estes originários da África ocidental. Este grande e diversificado conjunto cultural se agrupa, de fato, não em torno de uma única religião base, mas sim de 2 religiões, a do, grupo Yoruba, que eu já citei e a do grupo jeje do Dahomey. O candomblé é então formado até hoje por 2 religiões distintas e não somente uma, em função disto não é possivel tratar o candomblé como um todo, apenas em partes.

Pausa para respirar....

Chamo muito atenção para este primeiro aspecto de que, dentro do candomblé, termos DUAS religiões diferentes sendo representadas.

Nova pausa para que reflitam sobre este parágrafo...

Aqueles que não acharam essa informação importante devem repensar a sua relação com a religião. Religiões distintas implicam em um divino distinto, uma relação diferente entre as pessoas e o divino, finalidades diferentes para a existência das divindades, uma visão metafísica da vida diferente, um sentido distinto para a existencia humana e valores e ética diferentes.

Compliquei um pouco, sem dúvida mas aceitem que ninguém pode ter 2 religiões. A pessoa não pode ser catolico e budista ou induista e muçulmano ou messianico e evangélico. Religião implica em filosofias diferentes, não apenas em acreditar em deus. Esse conceito pode ser um pouco dificil para os cristãos que são uma religião majoritaria no ocidente e que tem 3 religiões muito parecidas disputando as pessoas entre si, que sao o judaismo, islamismo e cristianismo. Para eles é tudo muito igua mas quando saimos deste contexto de religioes irmãs e vamos para um contexto pluri-religioso de fato, não se pode dividir.

Veja então a dificuldade em tratarmos do candomblé que é citado como se fosse uma coisa só e que na verdade é composto de 2 religiões diferentes.

Meus textos sempre cobrem apenas uma dessas religiões, a religião Yoruba e 2 cultos desta religião. Isso é apenas uma parte do candomblé.

O contexto afro-brasileiro, por sua vez, é ainda mais amplo. O candomblé com toda a sua complexidade é apenas uma parte deste contexto, existem outras tradições que as pessoas podem, até, estar achando que é candomblé. Mas eu vou abordar isso em um próximo texto.

A religião Yoruba, que é uma das religiões que existem dentro do candomblé, se manifesta através de cultos distintos. O principal, mais importante e mais conhecido culto é o de Orixá. Existe ainda o culto de Egungun e o culto de Ifá. Os cultos são subdivisões da religião com especialização litúrgica, cada um desses citados se dedicam a divindades diferentes ou melhor entendendo a objetivos teológicos diferentes.

As casas se identificam exclusivamente com uma religião e um tipo de culto, e este tem formato, liturgias e ritos diferenciados. Não existe possibilidade de uma casa se dedicar a mais de um culto ou raiz religiosa, quando essa regra é quebrada isto representa um erro e tenham atenção porque existem muitos mas muitos erros mesmo. Este texto não fala dos erros, fala do que é o certo, contudo, cuidado ao lidar com o dia a dia das pessoas e casas. Fala-se muita besteira e cometem-se muitos erros.

O culto de Orixá lida com os Orixás, o de Egungun com os ancestres falecidos e o de ifá se dedica apenas ao oráculo da religião.

Não se pode referenciar ao Candomblé como “um” candomblé. Quando alguém fala de candomblé, a primeira coisa que se deve entender é de “qual” candomblé se está falando.

Antigamente, esta diversidade levava as pessoas ao chamarem de candomblé de nações, porque haviam várias nações que eram representadas dentro dele. O conceito de nação é flexível e pode qualificar tanto o grupo religioso principal, como Yoruba e jeje, como também etnias que estabeleceram variações litúrgicas e ainda, reagrupamentos locais que também estabeleceram variações litúrgicas.

A tradição religiosa de candomblé é nomeada no singular apenas por razões históricas, de fato o termo unificado “Candomblé”, cuja origem etimológica não é conhecida, é somente uma simplificação muito grande e que leva as pessoas a suporem uma unidade religiosa que não existe.

O conjunto religioso formado pelo candomblé é de fato difícil para os brasileiros entenderem, mesmo para os seguidores, porque cada seguidor pertence a um microcosmo e não necessariamente conhece o todo, comumente conhece onde ele próprio está e alguma parte adicional.

No contexto brasileiro, além do candomblé, temos a umbanda, o espiritismo, o catimbó, o toré, o batuque, o xango, o tambor da mina e a casa da mina. Posso, ainda, estar esquecendo de alguém, visto o tamanho de nossa diversidade....

O espiritismo é de origem francesa e nada tem a ver com a África. A Umbanda, o Catimbó e o toré são brasileiros e nada tem a ver, também com a África. O Batuque no Sul e o Xango no Nordeste são tradições religiosas com origem Yoruba. O Tambor da mina e a casa da mina, no Norte são de Origem do Dahomey

Estas tradições, apesar de serem totalmente diferentes, aos olhos do leigo eles podem parecer que são todos uma coisa só ou que tem uma origem única ou mesmo que sejam Candomblé. Não são.

A verdade como eu mostro é que não tem nada em comum. O leigo certamente olha para esse conjunto, não o entende e chama isso tudo de afro-brasileiro ou de matriz africana, sem saber que, como eu disse, a África é um continente não um país e que neste conjunto encontramos ainda cultos brasileiros e ameríndios. Buscar semelhanças entre eles é insano e idiota.

As pessoas sempre buscam simplificação para superarem a sua preguiça ou ignorância, assim, em vez de entenderem a nossa riqueza cultural e religiosa fazem o pior, inventam algo que não existe usando explicações idiotas. Isso aumenta a confusão. Como um amigo falou, é muito fácil escrever sobre candomblé, você inventa o que quer e tem um monte de gente que ainda acredita. A mídia escrita e televisiva que é formada de 3% de jornalistas que tem neurônios, apenas torna isso pior chamando tudo que não é cristão de afro-brasileiro. Como já repeti inúmeras vezes o catolicismo é afro-brasileiro.

Eu imagino que os cubanos que estão vindo para o Brasil trazer o seu ifá e a reboque o lukumi que é a tradição de orixá deles, tem aumentado a confusão porque inserem um novo elemento neste “caldo”. Primeiro devemos lembrar que eles devem ter uma absurda dificuldade de entender o candomblé. A tradição deles, o lukumi, é unificado e tem inclusive uma regra de formato, todos fazem igual, ou com pequenas variações, afinal cuba é apenas uma pequena ilha. O candomblé é muito maior, rico, complexo e diversificado. Eles podem chegar aqui tentando traçar semelhanças entre o lukumi e o candomblé, mas falham, largamente, em entender uma coisa que está muito além do que eles podem entender.

O lukumi pode ser comparado, no máximo a um pequeno pedaço do candomblé, uma nação, como o Omolokô ou ao Angola que mistura religião Yoruba com Bantu, ou como a gente diz, candomblé com umbanda. O lukumi é uma mistura muito grande da origem yoruba com o bantu e o catolicismo. Não da para comparar com o candomblé. O que eles fazem é o mesmo que as pessoas de umbanda fazem ao tentar explicar ou entender o candomblé em função do que eles conhecem. Nem os umbandistas entendem o candomblé nem os cubanos, e ambos acham que sabem tudo e de fato nada sabem de nada.

Além da questão das nações, que criou inicialmente diversidade, o candomblé foi responsável por um processo de profundo de transformação da própria religião Yoruba, processo este que está sendo absorvido pela própria tradição africana. Na terra Yoruba, a religião e os cultos eram regionalizados e muito mais especializados, sendo agrupados em aldeias, cidades e famílias. Além disso as próprias divindades eram elementos de agregação. Enquanto no Brasil nós tivemos uma especialização em 3 cultos, na terra Yoruba, o culto era segmentado por divindade.

No Brasil, a estrutura Yoruba original era impossível de ser refletida. O modelo família, clã, aldeia e região era inviável devido a situação de escravos que as pessoas viviam aqui. O candomblé criou a figura do terreiro como ponto de união e substituição disso tudo, incluindo uma unificação litúrgica uma vez que um terreiro inclui, aqui, o culto a todos os orixás. O terreiro substituiu a família, o clã, a aldeia e o templo. A figura do terreiro reconstitui na tradição religiosa da Diáspora os elementos perdidos da sociedade Yoruba e sua constituição, no formato que tomou, foi um pilar importante na religião, mantendo melhor os vínculos teológicos originais do candomblé com a religião Yoruba.

Os lukumi de cuba, não tem o elemento terreiro ou mesmo egbe e isso explica bastante o distanciamento deles e a atitude agressiva que alguns grupos cubanos e de pessoas iniciadas por cubanos, tem tomados em relação a tradição Yoruba. A única explicação que eu encontro para a forma agressiva como cubanos de lukumi ou ifá se dirigem aos nigerianos ou seguidores da tradição Yoruba é, ou a necessidade de se justificarem no mercado religioso (de jogos, ebós e iniciações) ou um problema de autoestima por eles se acharem menores ou diferentes. Reconheço que não sei a causa, apenas posso imaginar.

Lamento os comentários que alguns podem não gostar. Não pretendo comentar sobre o Lukumi, Cuba é uma ilha pouco mais que o estado do Rio de Janeiro e com uma população equivalente. É impossível a gente querer comparar a riqueza cultural que temo no Brasil com uma ilha e população tão pequena.

Voltando ao candomblé, os 2 principais grupos religiosos presentes no candomblé são o Yoruba e o Jeje, cada um deles representa uma base religiosa distinta. Elas possuem similaridades, algumas ligações ou coisas em comum mas não são a mesma religião.

As diversas nações formam subdivisões do candomblé e pertencentes a uma dessas 2 religiões. Algumas pessoas podem estar notando, e estranhando, que não menciono o Angola no mesmo nível que o Yoruba ou jeje. Ele não está neste nível. O angola é uma nação de Candomblé, como as demais que serão citadas. O angola deveria pertencer ao grupo bantu e este grupo não tem uma base religiosa equivalente aos Yoruba ou Jeje. Eles são similares a umbanda, onde deveriam estar. O que ocorreu foi que, pessoas da bantu copiaram o modelo Yoruba, fizeram adaptações linguísticas e inventaram uma nação para eles, mais especificamente uma nação para uma religião que na áfrica nunca tiveram. Isso não os desmerece como uma tradição religiosa Yoruba. Mas eles são um grupo étnico que adotou a religião Yoruba e criou uma tradição própria para a etnia deles.

sábado, agosto 02, 2014

Entendendo mais o Brasil e a diversidade religiosa


O contexto afro-brasileiro


Não podemos falar de religião e candomblé sem esclarecer algumas coisas desse contexto afro-brasileiro que não ajudam a entender e ainda por cima atrapalham. A Diáspora negra trouxe para o Brasil uma salada de etnias e chamar isso tudo de africano, como se a África fosse um só país e um só povo é a pior ignorância que podemos cometer. É o mesmo que chamar de americanos os habitantes do Brasil, México, argentina, Estados Unidos, chile, etc….

Afro-brasileiro é uma expressão que para a pessoa que quer entender alguma coisa não diz nada. No meio de todos os povos que vieram para cá, haviam ate mesmos os Muçulmanos (os Malês), ou seja, pessoas que tinham uma religião abraâmica. Religião, classe social ou desenvolvimento humano não foram os fatores que determinaram a pessoa ou o povo ser traficado. Foi apenas uma questão de vencidos e vencedores.

O conceito de tradição religiosa não deve ser confundido com a expressão religião afro-brasileira ou religião de matriz africana. Enquanto a primeira tem significado prático e real as outras duas não contribuem com nada. As pessoas gostam muito de expressões, adjetivos e pleonasmos que tem pouco significado real. Recomendo a todos se fixarem no conceito que foi explicado de tradição religiosa e expurgar da sua mente esses outros dois.

Como existem muitos povos no continente africano essas expressões são genéricas demais e colocam no mesmo contexto coisas diferentes. Não se pode tratar a África, um enorme e diversificado continente, com diversos países, povos, culturas, etnias e religiões como uma coisa única.

Isso é um erro comum, resultado de ignorância e preconceito.

A pior expressão, entre as duas, sem dúvida, é essa de “matriz africana”. Acredito que o judaísmo, o islamismo e o catolicismo devem ser também enquadrados como de matriz africana, porque Egito, Arábia e oriente médio estão na África também.

Assim, qualificar uma religião como de matriz africana quer dizer o quê? Ou apenas existe a África oeste e subsahariana?

O rótulo afro-brasileira pode ser usado de forma mais comum, entretanto devemos atentar que é uma denominação genérica para indicar uma mistura, no contexto religioso não nos diz nada. Não coloquem tudo que é afro-brasileiro com o mesmo significado. É impossível colocar tudo o que se encaixa no rótulo afro-brasileiro no mesmo pacote, afinal o Brasil é grande e a África um continente.

Eu tenho certeza de que aqueles que já leram livros do Verger devem ter observado, sem entender ou dar atenção, a um mapa migratório, mostrando os fluxos de negro entre a África e o novo mundo. Esse mapa é para mostrar isso, a diversidade de etnias e consequentemente religiões e culturas que vieram para o Brasil e suas proporções demográficas. É isso o que configurou a nossa formação.

Por exemplo o grupo étnico Bantu, muito grande na África, também veio para o Brasil em grande número (foi inclusive o primeiro a vir) e não tem nenhum vínculo cultural ou religioso com o povo Yoruba. Estabeleceram-se fortemente no rio de janeiro e a macumba tem origem nele. Contudo, a macumba ou quimbanda, não existe mais, hoje faz parte do contexto da umbanda, assim como as influências do bantu se dispersaram ao longo do tempo, muito diferente do grupo Yoruba cuja influência cultural passou a traduzir a africanidade. Não da para colocar na mesma panela o bantu e o yoruba e falar de um como se estivesse falando do outro.

O Bantu, uma etnia africana auténtica, foi trazida em grande número para o novo mundo. Apesar disso, nao conquistou o mesmo status de relevância que os Yoruba conquistaram em nenhum lugar que conviveram juntos. Os Bantu estão muito associados com a prática de feitiçaria e incorporações. Em cuba geraram o Palo Mayombe, que existe até hoje como um culto autônomo. No Brasil eles foram antecedentes à Umbanda, formavam o que se chamava de quimbanda ou macumba. Tanto o Palo mayombe como a quimbanda são facilmente, e corretamente diga-se de passagem, identificadas com o que podemos chamar de feiticaria. A quimbanda se localizava na periferia do Rio de Janeiro, mas, não tinha qualquer vínculo com o culto de orixá ou vodum que existe no candomblé.

Com o surgimento da Umbanda em 1908, a quimbanda Bantu foi acabando como manifestação independente. A Umbanda, sendo uma religião brasileira nascida e desenvolvida no seio da sociedade nativa, era muito mais forte junto a população e extinguiu ou absorveu todas esses cultos pré-existentes. Análise deste processo é interessante mas não será feita aqui. Todos os cultos anteriores à umbanda foram incorporados e algumas de suas características foram absorvidas pela umbanda como um todo ou então gerando uma corrente específica dentro da umbanda.

Dessa forma esqueçam a participação Bantu na formação da tradicao religiosa do candomblé. O Bantu se uniu a Umbanda com a qual tem muito mais identidade.

A umbanda por sua vez não é uma coisa única. Falar sobre a umbanda é bastante complexo, como também é qualquer tentativa de simplificar ou de não tratar como uma religião própria e complexa. Simplificações e maniqueísmo, como muitos gostam de fazer vão levar apenas a erros graves de entendimento.

A umbanda nao faz parte do conjunto religioso do candomblé. Não tem vinculo com nenhuma das 2 religiões que fazem parte deste contexto.

Como a umbanda é tipicamente sincrética e na sua história absorveu muitos cultos ou então sofreu influência de mais de uma religião, ela é formada por várias correntes doutrinarias e liturgicas diferentes. Todas guardam o nucleo ideológico e teológico comum da umbanda, mas, formatam a sua prática de forma diferente.

Mais de uma corrente da umbanda buscou elementos africanos, com intensidades diferentes e no caso do Rio de Janeiro, a maior parte delas adotou tambores, a linha de exu e nomes de divindades africanas em sincretismo com os santos católicos. Isso gerou uma aparente identificação dela com o candomblé e com a denominação de ser afro-brasileira. Essas duas coisas foram feitas por pessoas que não conheciam o candomblé e também a Umbanda.

Estou me alongando nessa explicação sobre umbanda mas ela é necessária. Antes de falar da religião do candomblé é necessário colocar as coisas nos seus lugares, e nesse lugar não cabem a umbanda e o candomblé juntos.

Mesmo a dita umbanda africanizada, nem antes e nem agora, entendeu direito os conceitos yoruba do candomblé. Se você se der ao trabalho de comprar em sebos livros antigos de umbanda, percebe fácilmente o que estou afirmando. Existem enganos e equívocos aos montes. Foram apenas copiados aspectos estéticos. Nem a teologia, nem a prática e nem as palavras eram entendidas.

A aproximação da umbanda foi, como expliquei com a etnia Bantu. Não foi com o grupo Yoruba ou Jeje que são quem formam de fato raiz do candomblé. Apesar de a umbanda ter adotado nomes de orixas Yorubas na sua prática esse uso é simbólico e não a aproxima da teologia Yoruba.

Esta proximidade é estética e não teológica. A doutrina central da umbanda é a caridade e doação, além da boa conduta moral e ética. Os vinculos com o catolicismk são muito grandes e fortes, se sobrepondo aos demais e distorcendo as teologias que absorveu ou sincretizou para acomodar a teologia católica.

A umbanda é uma religião brasileira, basicamente católica, que absorveu muitas correntes religiosas e religiões. Não existe uma unificação e as casas de umbanda seguem linhas diferentes. Existem algumas mais africanizadas, outras mais próximas aos espiritismo, outras mais ligadas a filosofias orientais e por ai vai.

Existiu uma corrente bastante africanizada da Umbanda chamada Omolokô. Seria uma mistura de umbanda e candomblé. Muitos chamavam de umbanda Omolokô outros apenas de Omolokô. Por muitos anos foi um adjetivo para denominar uma casa que misturava candomblé e Umbanda.

De adjetivo virou pejorativo, não se usa mais essa expressão. A umbanda Omolokô foi apenas uma formação de pessoas de origem Bantu que tiveram que aderir a Umbanda mas que reagiam a doutrina da Umbanda que era pregada na época, isso na década de 40, no século passado.

Essas pessoas fizeram uma mistura do bantu, da umbanda e de coisas do candomblé. O Omolokô não era Candomblé, apenas copiava. Não havia integridade teologica, apenas oportunismo. Como expliquei o grupo Bantu nao tinha qualquer relação com o grupo Yoruba ou Jeje.

De forma pejorativa a expressão Omolokô foi usada para qualificar aquilo que era de fato. Uma mistura religiosa, uma junção litúrgica, fruto de conveniência de uma pessoa que criou isso e que queria ter um culto próprio onde eke pudesse fazer o que quizesse.

Quando falamos de umbanda o assunto não é simples e não vou extender isso. Mas minha posição é essa, as explicações são no sentido de explicar que apesar de muitas pessoas incluirem a umbanda quando mencionam religiões afro-brasileiras, isso é um erro em todas as dimensões que podemos analisar.


terça-feira, julho 29, 2014

A religião Yoruba e o Candomblé

O modelo religioso do Candomblé

(Texto integral)


Uma das coisas que mais me preocupa e por isso direciona minhas ações, é a questão do entendimento das pessoas sobre o sentido e utilidade da religião na vida delas.

Sou uma pessoa que tem fé em deus, no meu caso, o vejo como Olodumare. Sou uma pessoa em paz com as religiões, não as vejo como um mal e não reservo a nenhuma delas, ou melhor a umas poucas, um tratamento pejorativo.

Não faço proselitismo de minha religião ou de qualquer outra, mas me dedico a manifestar minha fé no caminho religioso como um meio para termos uma sociedade melhor. Neste sentido busco resgatar na consciência das pessoas o sentido da religião na vida delas. Mais do que ter fé as pessoas também precisam entender qual o sentido prático de serem religiosas e de praticarem uma religião.

No caso do candomblé isso ganha uma dimensão ampliada porque a tarefa é dobrada. É necessário primeiro explicar a religião para as pessoas para, depois disso, falar sobre o sentido da religião na vida delas. Parece exagero? Não é.

Pensando bem o problema é triplicado, porque o candomblé tem um aspecto devocional muito grande e assim a gente tem que também desconstruir alguns dogmas e conceitos existentes.

Quando tratamos das religiões mais conhecidas e universais, falar sobre o sentido da religião na vida das pessoas é mais fácil, porque existe muita informação e fontes sobre a religião, assim você não tem que explicar a religião em si, basta discutir diretamente o assunto, o que faz tudo ser mais fácil. No caso do candomblé iniciar o assunto é muito mais difícil, como vou demonstrar a seguir.

O meu objetivo aqui neste texto é bem simples: Definir com poucas palavras a religião Yoruba para que as pessoas que não a conhecem possam entender.

Mas não é apenas isso, é principalmente definir a religião para que as próprias pessoas desta religião possam falar sobre ela e explicar para outras pessoas a sua própria religião. Parece estranho? Mas não é...

Mesmo para as religiões conhecidas não é fácil para uma pessoa defini-la, do zero, usando uma explicação simples. O que facilita a conversa sobre os temas religiosos é o fato que todo mundo já as conhece, aí as pessoas apenas falam de uma coisa ou outra, não sobre o geral.

No caso do candomblé é lamentável ver que pessoas quando questionadas sobre como é sua religião elas saiam com a clássica frase "... eu amo meu orixá .... " e com aquela expressão de desespero, do tipo “não me pergunte mais nada”.

Não estou sendo pretensioso ou arrogante. Estou explicando minha motivação para escrever. Esta é a realidade. Eu não faço parte do problema, faço parte da solução. Gastei muitos anos de estudo e prática para poder escreve sobre isso.

Este texto terá uma estrutura orientada para a facilidade e objetividade. O quanto você mais ler, mais entenderá, mas as definições serão feitas em ciclos. Cada ciclo detalha mais o anterior mas cada ciclo é completo e autônomo. Assim você poderá com poucas palavras definir a religião e com mais palavras explicar mais, tornar a definição melhor. Será que útil para uma conversa de 5 minutos em um cafezinho ou de meia hora. Mas qualquer pessoa deve ser capaz de definir sua religião com uma frase ou com uma cátedra.

Eu estudei muito, de muitas fontes para poder reduzir a complexidade a expressão mais simples possível. Não tenho dúvida de que muitos podem não gostar do meu ponto de vista, ou discordar. Não estou preocupado com isso, cabe a quem discorda se colocar, eu posso sustentar tudo o que penso.

O objetivo é tudo ser fácil, extremamente fácil para que você e qualquer um possa explicar junto.


Não será um texto único, mas um conjunto de textos, fáceis de serem lidos e entendidos. Existem também textos complementares, com mais informações para aqueles que se interessam. Quanto mais você ler, mais vai entender.

Tenho certeza que muitos não vão concordar com minhas opiniões. Mas não escrevo para essas pessoas, escrevo para aquelas que querem sinceramente entender alguma coisa. Não faço parte do grupo das pessoas que se beneficiam da confusão.

Quem tem outra opinião, é muito fácil, escreva um BLOG. Quem gostar do texto, faça referência a este BLOG.

Informo que o texto está todo completo. O motivo de publicar em parte é para facilitar a leitura, não deixe de acompanhar nos próximos dias o BLOG para ver as partes complementares.

1. Explicação objetiva: entendendo as tradições religiosas


Antes de iniciar o texto proposto eu tenho que abordar a questão das tradições religiosas. É muito necessário entender isso.

O candomblé é uma tradição religiosa que pertence a uma religião que tem origem na África, em uma parte da Nigéria, que é composta pelo chamado povo Yoruba. Esta é uma definição simples que pode ser usada por todos de forma geral, mas, saibam que ela é imprecisa por motivos que não posso explicar agora.

Uma tradição religiosa é uma expressão usada para definir um grupo religioso que se origina a partir de uma religião base. Uma tradição religiosa é uma especialização da religião, uma adaptação da religião base a uma mudança temporal, geográfica ou cultural. A tradição descende da religião base mas ela é uma evolução mas principalmente ela é uma especialização.

No caso do candomblé, como tradição religiosa, ele teve sua origem na chamada Diáspora negra, que trouxe negros da África para o novo mundo. Nem todos os lugares que receberam negros no novo mundo desenvolveram tradições religiosas.

O candomblé representa, assim, a adaptação da religião Yoruba para o Brasil e se diferencia da religião Yoruba na medida que regionaliza o culto de orixá para o Brasil nos aspectos geográficos, fauna e flora e também na cultura, etnia e história do povo.

Acredito (mas não posso afirmar) que o grupo étnico Yoruba foi o único que desenvolveu no novo mundo as tradições religiosas (foram várias). Isso se deu porque este povo tinha uma religião original forte, consistente e bem estabelecida, ou seja, uma religião de fato. Além disso a própria cultura social do povo se impôs nos lugares que receberam os Yorubas.

A religião Yoruba é então a base desse movimento de formação de tradições religiosas. Ela é uma religião original, não está ligada ou descende de qualquer outra religião. Ela tem teogonia própria, teologia própria, teodiceia própria e uma gênese própria. É uma religião autônoma com conceitos originais e diferenciados. Ela não tem um criador, ela nasceu com o povo Yoruba. Enfim, ela é uma matriz religiosa original, contudo, ligada ao povo Yoruba.

A tradição é assim, como expliquei, uma evolução da religião, adaptando-a à história, sociedade e cultura do povo que a adotou. Uma tradição é formada pela evolução da religião, uma adaptação dela a sociedade, não é uma invenção humana.

Existem outras tradições religiosas na religião Yoruba em função da Diáspora negra. O candomblé é uma tradição muito popular no Brasil, mas existem outras. Em cuba surgiu o lukumi e no Haiti o voo doo. Na Nigéria existe uma tradição chamada RTY – religião tradicional Yoruba (ou em inglês YTR) que é a expressão da religião para o povo Nigeriano.

Cada tradição religiosa representa a melhor expressão da religião Yoruba para um povo porque ela é formada pela junção da religião original com a cultura do povo onde se estabelece, com a sociedade, seus valores e sua história. Uma tradição é uma expressão religiosa muito mais rica do que quando pessoas de um lugar adotam uma tradição externa.

Por exemplo, brasileiros que adotam a tradição lukumi cubana, sempre vão ter feito uma escolha pior, bem burra, em vez de adotar a tradição do candomblé. Americanos que adotam o lukumi ou RTY porque não tem tradição própria sempre estarão em uma situação desconfortável porque seguirão uma tradição religiosa que não é condizente com a sua sociedade, serão valores muito diferentes, transcendendo a fé religiosa em si. Eles terão mais dificuldade em se adaptar.

Tudo isso em poucas linhas:

Resumindo, é importante considerar que existe uma religião matriz principal, do povo Yoruba, que é original, completa, autônoma e independente de outras do mundo. Esta religião originou tradições religiosas, desta mesma religião, no novo mundo. O candomblé é uma dessas tradições. Ela localiza uma prática da religião original ao Brasil e apesar de algumas variações resultantes do processo de formação da tradição religiosa, ela mantém o vínculo teológico integral com a religião Yoruba.

Para entender melhor todo este conjunto, leia o texto complementar “Entendendo a diversidade religiosa”.


2. A composição do candomblé


Lamento pelos textos introdutórios extensos, mas, como disse no primeiro texto, falar de Candomblé dá mais trabalho, é necessário primeiro desconstruir alguns conceitos ou explicar outros. Assim não dá para falar de religião de Orixá no Brasil sem antes explicar o que é o Candomblé.

De forma simplificada podemos dizer que o Candomblé é uma tradição religiosa que representa a religião Yoruba no Brasil. Ela não é a única, existem outras tradições desta mesma religião. Além disso esta colocação inicial sobre o candomblé já não é muito precisa, como vocês verão mais adiante, contudo, preciso iniciar esta explicação com algumas simplificações para que o assunto possa ser entendido.

O candomblé é muito mais do que uma tradição religiosa.

Contudo para poder entender o que ele é de fato, é necessário falar um pouco mais dele. É importante que seja entendido que é impossível falar de candomblé como se fosse uma coisa única. Esse nome, candomblé, abrange várias correntes e divisões.

Candomblé é o nome que recebe um amplo conjunto de tradições religiosas e cultos que se desenvolveram no Brasil a partir da Bahia e foi trazido pelos povos, de algumas etnias africanas, que vieram para o Brasil durante o que foi chamado de a diáspora negra, povos estes originários da África ocidental. Este grande e diversificado conjunto cultural se agrupa, de fato, não em torno de uma única religião base, mas sim de 2 religiões, a do, grupo Yoruba, que eu já citei e a do grupo jeje do Dahomey. O candomblé é então formado até hoje por 2 religiões distintas e não somente uma, em função disto não é possivel tratar o candomblé como um todo, apenas em partes.

Pausa para respirar....

Chamo muito atenção para este primeiro aspecto de que, dentro do candomblé, termos DUAS religiões diferentes sendo representadas.

Nova pausa para que reflitam sobre este parágrafo...

Aqueles que não acharam essa informação importante devem repensar a sua relação com a religião. Religiões distintas implicam em um divino distinto, uma relação diferente entre as pessoas e o divino, finalidades diferentes para a existência das divindades, uma visão metafísica da vida diferente, um sentido distinto para a existencia humana e valores e ética diferentes.

Compliquei um pouco, sem dúvida mas aceitem que ninguém pode ter 2 religiões. A pessoa não pode ser catolico e budista ou induista e muçulmano ou messianico e evangélico. Religião implica em filosofias diferentes, não apenas em acreditar em deus. Esse conceito pode ser um pouco dificil para os cristãos que são uma religião majoritaria no ocidente e que tem 3 religiões muito parecidas disputando as pessoas entre si, que sao o judaismo, islamismo e cristianismo. Para eles é tudo muito igua mas quando saimos deste contexto de religioes irmãs e vamos para um contexto pluri-religioso de fato, não se pode dividir.

Veja então a dificuldade em tratarmos do candomblé que é citado como se fosse uma coisa só e que na verdade é composto de 2 religiões diferentes.

Meus textos sempre cobrem apenas uma dessas religiões, a religião Yoruba e 2 cultos desta religião. Isso é apenas uma parte do candomblé.

O contexto afro-brasileiro, por sua vez, é ainda mais amplo. O candomblé com toda a sua complexidade é apenas uma parte deste contexto, existem outras tradições que as pessoas podem, até, estar achando que é candomblé. Mas eu vou abordar isso em um próximo texto.

A religião Yoruba, que é uma das religiões que existem dentro do candomblé, se manifesta através de cultos distintos. O principal, mais importante e mais conhecido culto é o de Orixá. Existe ainda o culto de Egungun e o culto de Ifá. Os cultos são subdivisões da religião com especialização litúrgica, cada um desses citados se dedicam a divindades diferentes ou melhor entendendo a objetivos teológicos diferentes.

As casas se identificam exclusivamente com uma religião e um tipo de culto, e este tem formato, liturgias e ritos diferenciados. Não existe possibilidade de uma casa se dedicar a mais de um culto ou raiz religiosa, quando essa regra é quebrada isto representa um erro e tenham atenção porque existem muitos mas muitos erros mesmo. Este texto não fala dos erros, fala do que é o certo, contudo, cuidado ao lidar com o dia a dia das pessoas e casas. Fala-se muita besteira e cometem-se muitos erros.

O culto de Orixá lida com os Orixás, o de Egungun com os ancestres falecidos e o de ifá se dedica apenas ao oráculo da religião.

Não se pode referenciar ao Candomblé como “um” candomblé. Quando alguém fala de candomblé, a primeira coisa que se deve entender é de “qual” candomblé se está falando.

Antigamente, esta diversidade levava as pessoas ao chamarem de candomblé de nações, porque haviam várias nações que eram representadas dentro dele. O conceito de nação é flexível e pode qualificar tanto o grupo religioso principal, como Yoruba e jeje, como também etnias que estabeleceram variações litúrgicas e ainda, reagrupamentos locais que também estabeleceram variações litúrgicas.

A tradição religiosa de candomblé é nomeada no singular apenas por razões históricas, de fato o termo unificado “Candomblé”, cuja origem etimológica não é conhecida, é somente uma simplificação muito grande e que leva as pessoas a suporem uma unidade religiosa que não existe.


O conjunto religioso formado pelo candomblé é de fato difícil para os brasileiros entenderem, mesmo para os seguidores, porque cada seguidor pertence a um microcosmo e não necessariamente conhece o todo, comumente conhece onde ele próprio está e alguma parte adicional.

No contexto brasileiro, além do candomblé, temos a umbanda, o espiritismo, o catimbó, o toré, o batuque, o xango, o tambor da mina e a casa da mina. Posso, ainda, estar esquecendo de alguém, visto o tamanho de nossa diversidade....

O espiritismo é de origem francesa e nada tem a ver com a África. A Umbanda, o Catimbó e o toré são brasileiros e nada tem a ver, também com a África. O Batuque no Sul e o Xango no Nordeste são tradições religiosas com origem Yoruba. O Tambor da mina e a casa da mina, no Norte são de Origem do Dahomey

Estas tradições, apesar de serem totalmente diferentes, aos olhos do leigo eles podem parecer que são todos uma coisa só ou que tem uma origem única ou mesmo que sejam Candomblé. Não são.

A verdade como eu mostro é que não tem nada em comum. O leigo certamente olha para esse conjunto, não o entende e chama isso tudo de afro-brasileiro ou de matriz africana, sem saber que, como eu disse, a África é um continente não um país e que neste conjunto encontramos ainda cultos brasileiros e ameríndios. Buscar semelhanças entre eles é insano e idiota.

As pessoas sempre buscam simplificação para superarem a sua preguiça ou ignorância, assim, em vez de entenderem a nossa riqueza cultural e religiosa fazem o pior, inventam algo que não existe usando explicações idiotas. Isso aumenta a confusão. Como um amigo falou, é muito fácil escrever sobre candomblé, você inventa o que quer e tem um monte de gente que ainda acredita. A mídia escrita e televisiva que é formada de 3% de jornalistas que tem neurônios, apenas torna isso pior chamando tudo que não é cristão de afro-brasileiro. Como já repeti inúmeras vezes o catolicismo é afro-brasileiro.

Eu imagino que os cubanos que estão vindo para o Brasil trazer o seu ifá e a reboque o lukumi que é a tradição de orixá deles, tem aumentado a confusão porque inserem um novo elemento neste “caldo”. Primeiro devemos lembrar que eles devem ter uma absurda dificuldade de entender o candomblé. A tradição deles, o lukumi, é unificado e tem inclusive uma regra de formato, todos fazem igual, ou com pequenas variações, afinal cuba é apenas uma pequena ilha. O candomblé é muito maior, rico, complexo e diversificado. Eles podem chegar aqui tentando traçar semelhanças entre o lukumi e o candomblé, mas falham, largamente, em entender uma coisa que está muito além do que eles podem entender.

O lukumi pode ser comparado, no máximo a um pequeno pedaço do candomblé, uma nação, como o Omolokô ou ao Angola que mistura religião Yoruba com Bantu, ou como a gente diz, candomblé com umbanda. O lukumi é uma mistura muito grande da origem yoruba com o bantu e o catolicismo. Não da para comparar com o candomblé. O que eles fazem é o mesmo que as pessoas de umbanda fazem ao tentar explicar ou entender o candomblé em função do que eles conhecem. Nem os umbandistas entendem o candomblé nem os cubanos, e ambos acham que sabem tudo e de fato nada sabem de nada.

Além da questão das nações, que criou inicialmente diversidade, o candomblé foi responsável por um processo de profundo de transformação da própria religião Yoruba, processo este que está sendo absorvido pela própria tradição africana. Na terra Yoruba, a religião e os cultos eram regionalizados e muito mais especializados, sendo agrupados em aldeias, cidades e famílias. Além disso as próprias divindades eram elementos de agregação. Enquanto no Brasil nós tivemos uma especialização em 3 cultos, na terra Yoruba, o culto era segmentado por divindade.

No Brasil, a estrutura Yoruba original era impossível de ser refletida. O modelo família, clã, aldeia e região era inviável devido a situação de escravos que as pessoas viviam aqui. O candomblé criou a figura do terreiro como ponto de união e substituição disso tudo, incluindo uma unificação litúrgica uma vez que um terreiro inclui, aqui, o culto a todos os orixás. O terreiro substituiu a família, o clã, a aldeia e o templo. A figura do terreiro reconstitui na tradição religiosa da Diáspora os elementos perdidos da sociedade Yoruba e sua constituição, no formato que tomou, foi um pilar importante na religião, mantendo melhor os vínculos teológicos originais do candomblé com a religião Yoruba.

Os lukumi de cuba, não tem o elemento terreiro ou mesmo egbe e isso explica bastante o distanciamento deles e a atitude agressiva que alguns grupos cubanos e de pessoas iniciadas por cubanos, tem tomados em relação a tradição Yoruba. A única explicação que eu encontro para a forma agressiva como cubanos de lukumi ou ifá se dirigem aos nigerianos ou seguidores da tradição Yoruba é, ou a necessidade de se justificarem no mercado religioso (de jogos, ebós e iniciações) ou um problema de autoestima por eles se acharem menores ou diferentes. Reconheço que não sei a causa, apenas posso imaginar.

Lamento os comentários que alguns podem não gostar. Não pretendo comentar sobre o Lukumi, Cuba é uma ilha pouco mais que o estado do Rio de Janeiro e com uma população equivalente. É impossível a gente querer comparar a riqueza cultural que temo no Brasil com uma ilha e população tão pequena.

Voltando ao candomblé, os 2 principais grupos religiosos presentes no candomblé são o Yoruba e o Jeje, cada um deles representa uma base religiosa distinta. Elas possuem similaridades, algumas ligações ou coisas em comum mas não são a mesma religião.

As diversas nações formam subdivisões do candomblé e pertencentes a uma dessas 2 religiões. Algumas pessoas podem estar notando, e estranhando, que não menciono o Angola no mesmo nível que o Yoruba ou jeje. Ele não está neste nível. O angola é uma nação de Candomblé, como as demais que serão citadas. O angola deveria pertencer ao grupo bantu e este grupo não tem uma base religiosa equivalente aos Yoruba ou Jeje. Eles são similares a umbanda, onde deveriam estar. O que ocorreu foi que, pessoas da bantu copiaram o modelo Yoruba, fizeram adaptações linguísticas e inventaram uma nação para eles, mais especificamente uma nação para uma religião que na áfrica nunca tiveram. Isso não os desmerece como uma tradição religiosa Yoruba. Mas eles são um grupo étnico que adotou a religião Yoruba e criou uma tradição própria para a etnia deles.

Tudo isso em poucas linhas

O Candomblé é uma denominação que cobre várias tradições religiosas, nem todas ligadas à mesma religião base. Algumas são ligadas a religião Yoruba, com as divindades chamadas Orixá e outras a religião do Dahomey com as divindades chamadas Vodun.

Esta diversidade religiosa é nomeada como sendo as nações do candomblé. Contudo, acima da nação esta a religião a qual ela é ligada. A nação personaliza o culto da religião para um determinado grupo de pessoas.

De norte a sul do Brasil existem tradições religiosas diferentes que são genericamente traduzidas como Candomblé, contudo descendem de, pelo menos, uma dessas 2 religiões distintas e trilharam caminhos diferentes na sua formação em termos de afastamento da teologia da religião base, sincretismo com outras correntes religiosas e formatos litúrgicos.

Esse rico contexto religioso que é chamado resumidamente de CANDOMBLÉ mostra a diversidade e profundidade de integração que são possíveis de serem obtidos levando em consideração a própria extensão do nosso território e diversidade do povo brasileiro.

Antes de se discutir candomblé deve se ter o cuidado de se situar de qual candomblé se está falando. Existem diferenças teológicas importantes e qualquer iniciativa de fazer um de-para de orixá e vodum e de ritos é apenas fruto de ignorância.

3. A conversa de cafezinho


Se você estiver em uma situação que tem alguns instantes ou minutos para explicar sua religião a alguém eu tenho minha sugestão:

O candomblé é uma tradição religiosa que tem como origem uma religião africana, sem um nome especial, que pertence ao povo Yoruba que ocupa atualmente uma parte da Nigéria. Ele é baseado na existência de uma divindade suprema, Olodumare, que criou e mantêm tudo o que existe. A religião diz que nascemos para ser felizes, para viver em família e em comunidade. Para nos apoiar na nossa busca de felicidade na vida, Olodumare nos dá uma divindade pessoal, que nos protege, e também as divindades chamadas de Orixás, que são seus representantes na nossa vida. Olodumare nos dá também um oráculo, Ifá, que usamos para nos comunicar e pedir ajuda a esses Orixás. Além disso ele nos ensinou ritos e liturgias que usamos para resolver nossos problemas e atingirmos o ideal de uma vida feliz e próspera. A presença dos orixás na nossa vida é festiva e prazerosa, vivemos em comunhão com eles. O Candomblé é uma religião encarnacionista. A morte encerra um ciclo de vida e após prestarmos conta do que fizemos em nossa vida para Olodumare, poderemos ter a oportunidade de voltar a viver em nova vida. A vida é uma aventura que vivemos porque queremos.

Esta é uma definição bastante objetiva. Poucas palavras escolhidas com cuidado para cobrir o que é essencial. Somente é abordado o que é importante. Se algum idiota vier com o tradicional questionamento sobre sacrifícios de animais sugiro responder apenas o seguinte:

Este é um aspecto que não tem nenhuma relevância no contexto religioso. O que as pessoas devem saber e se lembrar é que esta religião tem o indivíduo no centro de suas atenções. Tudo é feito para que a pessoa seja feliz nesta vida, mas sempre com a ajuda da sua família e sociedade. O indivíduo é importante mas a sua utilidade para a sociedade é maior. Os animais são criações de Olodumare como tudo o que existe. Como na nossa vida normal, eles são um alimento que é preparado e consumido em comunhão festiva com os orixás. O candomblé é a religião da vida e alimento é vida. A prática da religião foi feita para ser um momento alegre. Assim como os sacerdotes judeus preparam a comida KOSHER, os sacerdotes do candomblé também preparam o alimento a ser usado em suas festas. Os animais, secundariamente, são um elemento importante para salvar a vida das pessoas. Entretanto esta religião não e baseada em ritos com animais. Eles são raros. O que está presente no dia a dia das pessoas é o oráculo e a devoção a sua fé. As pessoas por ignorância ou preconceito não querem entender o que esta religião pode fazer de bem para a vida delas, perdem tempo com questões litúrgicas internas e que não estão no dia a dia das pessoas. Os judeus até hoje sacrificam cordeiros para o deus cristão. Os muçulmanos idem. Quantos dos que se preocupam em perguntar isso a um candomblecista, fazem o mesmo com um cristão ou maçom?

O texto ficou intencionalmente em um único parágrafo.

Minha opinião é que não devemos perder mais tempo do que o necessário para dizer isso e nada mais sobre sacrifícios. A religião tem aspectos mais importantes para serem conversados.

4. A Filosofia da religião - A proposta da religião para nossa vida


Toda religião pode ser inicialmente definida com uma ideia simples. Uma frase ou uma palavra podem resumi-la. Por exemplo, Islã pode ser definido por submissão, submissão a deus. Os católicos por devoção ou amor ao próximo.

Considerando que religião é para ser praticada por pessoas comuns, a filosofia por trás da religião tem que ser uma coisa fácil de ser entendida por qualquer pessoa. Não pode ser necessário a pessoa ser um teólogo ou sacerdote para saber o que a religião dele prega. Temos também entender que religião não está relacionada à ligação com deus.

Qualquer pessoa pode se ligar com deus de qualquer forma. Tem muita gente que se diz religiosa, ou crente em deus e diz que não faz parte de nenhuma religião. A pessoa simplesmente diz que crê em deus da forma dela. Esta certa, acreditar no divino e na existência de deus não implica em participar de uma religião.

Isso também não significa que essa pessoa se comunique com deus.

Uma religião não é a ligação a deus. Uma religião é uma filosofia de vida, ela estabelece uma proposta para você viver com você mesmo, com sua família e com a sociedade. A religião nos dá uma visão maior da vida, nos dá valores e ética.

A religião tem que necessariamente ser a palavra de deus. Religiões autênticas são anunciadas, elas nos foram trazidas pelo próprio deus ou por emissários dele. Religiões não são invenções humanas. Além da palavra de deus a religião nos ensina a nos comunicarmos com ele e também como devemos viver nossa vida.

Hoje em dia as pessoas se preocupam muito em não ter regras ou em quebrar regras. De fato uma religião é cheia de regras. Mas pessoas que não seguem regras ou acham que podem quebrar as regras não serão jamais pessoas boas para se conviver em sociedade.

Partindo da ideia de que qualquer pessoa pode entender a proposta de vida de uma religião e que isso é necessário para ele decidir seguir esta religião eu elaborei uma síntese da filosofia que existe na religião yoruba e que é usada pelo Candomblé. A seguir eu explicarei cada uma desses conceitos, mas primeiro vamos entender quais são eles.

Como mostrei esses conceitos se enquadram no círculo externo, na parte da teologia que todos podem entender.



  • Uma palavra e ideia resume esta religião, ela é EQUILIBRIO.


  • A religião Yoruba é baseada na existência de um deus supremo, Olodumare, que criou tudo o que existe e através do seu poder mantém o equilíbrio e o funcionamento do mundo natural. 


  • O centro da religião é a existência humana, a família e a sociedade. As pessoas nascem para serem felizes e viverem juntas. 


  • O indivíduo é o núcleo da filosofia da religião. A existência de uma pessoa é individual e única. A pessoa tem uma concepção exclusiva e personalizada para realizar seu destino. A religião privilegia esta meta e acompanha o individuo do nascimento até sua morte.


  • Para tornar a vida das pessoas mais agradável, frente as dificuldades da vida e do mundo, além de ser o seu intermediário na relação com essas pessoas, a divindade suprema, Olodumare, colocou um conjunto de divindades chamadas de Orixás e um oráculo chamado de ifá para suportar as pessoas ao longo de sua vida.


  • Esta religião é encarnacionista. As pessoas nascem, vivem, morrem e voltam a nascer através de seus descendentes. As pessoas renascem dentro da sua própria linhagem. Por esta razão é muito importante para a pessoa casar e ter filhos.

  • A religião envolve, conforta, convive e participa da vida das pessoas. As pessoas são abraçadas pela religião e sentem o divino em sua vida diária, orientado-os, suportando-os e falando com eles.

  • A religião vê a existência em 2 planos. O plano natural, ou aiye, que é onde vivemos, o mundo natural. Existe ainda o plano espiritual ou o Orun. A vida no plano natural, o aiye, é temporária, vivemos enquanto nosso corpo suporta, mas a existência no Orun é perene.


  • O conhecimento teológico da religião está contido em um largo conjunto de versos que contam histórias. É através de metáforas e parábolas que o conhecimento é transmitido.


  • A religião Yoruba é iniciática. Apesar da abrangência universal da sua teologia, que não condiciona sua prática para nenhuma etnia, existem liturgias e cerimônias para estabelecer ou reforçar a ligação das pessoas com o divino, entre o mundo natural e o espiritual. Essas liturgias estão ligadas ao conceito de axé e por conseguinte ao equilíbrio da pessoa.


  • O clero da religião Yoruba é uma estrutura formal, ampla e bastante hierarquizada. Existem cargos e especializações. O núcleo do clero se restringe ao microcosmo do Ile axé ou casa de orixá, mas o dirigente da casa responde ao seu iniciador, criando assim uma corrente hierárquica que vai até a casa matriz.

  • A religião estabelece um código de conduta baseado em valores, ética e moral. Este código é transmitido através do corpo literário, os versos de ifá e é bastante pragmático, direcionando a pessoa para uma vida correta consigo mesmo e útil para a sua família e comunidade. Não existe pecado contra o divino contra deus e os orixás. O que existe é o erro contra as pessoas, a família e a comunidade.

  • A religião tem um processo de incorporação no qual a energia do Orixá se apropria do corpo do iniciado. É através desta incorporação que o Orixá se manifesta no mundo natural para ajudar às pessoas. Esta manifestação ocorre em pessoas iniciadas para isto e não tem como finalidade a comunicação, que na religião é feita pelo oráculo.

No texto a seguir estão as afirmações que foram feitas anteriormente com uma rápida explicação sobre elas. Essas explicações são bem curtas e apenas ajudam a entender as afirmações principais.


Uma palavra e ideia resume esta religião, ela é EQUILÍBRIO.

Sua doutrina, em todos os aspectos, é voltada para se atingir o equilíbrio. Toda a simbologia da religião também traduz essa noção de equilíbrio. A religião entende que a pessoa está bem quando esta equilibrada. O equilíbrio se reflete no seu comportamento, nas suas atitudes, nas suas escolhas, na sua sorte e até na sua saúde. O equilíbrio é uma questão energética, da energia vital, chamada de axé e a manutenção do axé é um dos pilares da religião.

A religião é muito rica em liturgias, conhecidos por todos através dos nomes populares de ebó e oferenda. O que todos devem entender é que essas liturgias não são um fim. A religião se utiliza delas para equilibrar o axé das pessoas, de forma que o equilíbrio é que o fim. Nem mesmo a solução do problema é o fim. Será através do equilíbrio que a pessoa vai resolver seus problemas.



A religião Yoruba é baseada na existência de um deus supremo, Olodumare, que criou tudo o que existe e através do seu poder mantém o equilíbrio e o funcionamento do mundo natural.

O poder de Olodumare é supremo e inconteste. Ele não divide sua capacidade e supremacia com mais nenhuma outra divindade e todas as demais divindades foram criadas e subordinadas a ele.

Olodumare não interfere diretamente na vida das pessoas. Ele está acima de tudo e todos, mas criou um conjunto de divindades que são seus intermediários no trato com as pessoas. Tudo no mundo natural é criação de deus e tudo nesse mundo possui igualmente sua atenção e principalmente sua energia.

Esta não é uma religião monoteísta, porque somente a religião judaica-muçulmana-cristã o é. Não é uma religião politeísta porque existe uma divindade suprema. O que define uma religião politeísta não é a quantidade de divindades e sim a qualidade da relação entre elas.

Como muitas outras religiões na terra a religião Yoruba é Henoteísta, que é uma crença com muitas divindades na qual somente uma é a suprema. Mas isso é apenas uma informação técnica.



O centro da religião é a existência humana, a família e a sociedade. As pessoas nascem para serem felizes e viverem juntas. 

As pessoas nascem para viver uma vida em família, com realizações e objetivos. As pessoas nascem porque gostam de viver juntas. A vida é uma aventura com emoções, sensações, prazeres e realizações.

A religião orienta as pessoas na melhor conduta moral mas tem o compromisso maior de suportar as pessoas na realização do seu objetivo de vida.


O indivíduo é o núcleo da filosofia da religião. A existência de uma pessoa é individual e única. A pessoa tem uma concepção exclusiva e personalizada para realizar seu destino. A religião privilegia esta meta e acompanha o individuo do nascimento até sua morte

Entre a decisão de nascer de novo até o nascimento o indivíduo recebe de Olodumare todos os instrumentos necessários para ser bem-sucedido nas escolhas que fez. Estes instrumentos são o seu corpo, a sua divindade pessoal que vai zelar por ela acima de tudo, o axé (energia mágica de Olodumare), o orixá protetor que junto com a divindade pessoal acompanham o indivíduo por toda sua existência e elementos adicionais que são o ori, para a sua prosperidade e o seu caráter, ou iwa pele, porque uma pessoa para ser bem-sucedida de ter um com ori e um bom caráter.

A individualização é outro pilar da religião. A religião não massifica suas mensagens, pelo contrário, apesar do caráter social, existe uma enorme importância na formação e suporte a individualidade. O oráculo de ifá e o culto a divindade Ori são partes disso.

É importante as pessoas não perderem essas 2 dimensões: individuo e sociedade. Elas caminham juntas.


Para tornar a vida das pessoas mais agradável, frente as dificuldades da vida e do mundo, além de ser o seu intermediário na relação com essas pessoas, a divindade suprema, Olodumare, colocou um conjunto de divindades chamadas de Orixás e um oráculo chamado de ifá para suportar as pessoas ao longo de sua vida.

Os orixás, existem pelas pessoas e com as pessoas. Chamar orixá de deuses é uma imprecisão que leva a dar lhes uma dimensão maior e confundir suas atribuições. Orixá está associado às pessoas e a existência humana. Ele representa Olodumarê na relação com as pessoas.

O sentido da existência de um orixá é a vida humana. O orixá representa o compromisso de deus, de Olodumarê, com nossa felicidade. Orixás não são divindades criadas por Olodumarê para cuidar ou representar a natureza.

Orixá não é um deus secundário como no sentido greco-romano, que estabelece funções gerais e abrangentes com domínio sobre a terra e a natureza. Orixás existem para ajudar as pessoas a seguirem o seu caminho de vida permitindo que elas realizem os seus objetivos para esta vida, ou seu destino.

Olodumarê estabelece a existência de uma divindade pessoal, superior aos orixás, no que diz respeito à relação com o ser humano, enquanto que os orixás zelam pela pessoa e também pela família e sociedade.

Para permitir a comunicação entre deus e as pessoas, Olodumarê estabeleceu o oráculo de ifá que transmite a palavra de deus para as pessoas, grupos e até a sociedade.



Esta religião é encarnacionista. As pessoas nascem, vivem, morrem e voltam a nascer através de seus descendentes. As pessoas renascem dentro da sua própria linhagem. Por esta razão é muito importante para a pessoa casar e ter filhos.

Tudo o que a pessoa realizar em vida será pesado em seu retorno ao mundo espiritual. Mas ele somente prestará conta de seus atos e realizações a Olodumarê. Existem tratamentos diferenciados para quem foi uma pessoa boa ou má ou que foi importante ou não para sua família.

Os descendentes possibilitam a pessoa voltar a nascer. Esta visão do processo encarnacionista é muito importante porque torna o processo de encarnar integrado com a visão da religião para a família no centro das relações.

Não existe caráter evolutivo em viver, a religião entende que as pessoas vivem pelo prazer de viver. Não existe o conceito de “karma” ou da pessoa evoluir a cada encarnação para nunca mais encarnar. As pessoas sempre podem querer encarnar novamente, mas, isso pode ser afetado pela avaliação de Olodumarê da vida delas.



A religião envolve, conforta, convive e participa da vida das pessoas. As pessoas são abraçadas pela religião e sentem o divino em sua vida diária, orientado-os, suportando-os e falando com eles.

Esta não é uma religião contemplativa. A religião, através de suas divindades e oráculo, participa ativamente da vida das pessoas as orientando e suportando na busca do caminho da felicidade, da realização dos objetivos de vida e também da solução dos seus problemas.

Deus fala com as pessoas através dos orixás e do oráculo de ifá. A resposta de deus é audível ou visível. As respostas as preces das pessoas serão atos, ações, resultados e mudança no curso da vida. A fé nesta religião é recompensada com a resposta individualizada e com ações resultantes.

Os orixás, a magia, a medicina baseada em folhas e os poderes supernaturais são os elementos que socorrem as pessoas nas suas suplicas pessoais e como resultado da consulta ao oráculo de ifá. A religião não vê deus como onisciente e onipresente. É necessário que as pessoas o procurem através de suas preces e principalmente do oráculo da religião. É no oráculo que as suplicas e necessidades chegam a deus.

Através de liturgias Olodumarê fornece a energia que será usada pelos orixás e sacerdotes para concertar a vida das pessoas.



A religião vê a existência em 2 planos. O plano natural, ou aiye, que é onde vivemos, o mundo natural. Existe ainda o plano espiritual ou o Orun. A vida no plano natural, o aiye, é temporária, vivemos enquanto nosso corpo suporta, mas a existência no Orun é perene.

O aiye e o orun seriam espelhos de existência. A vida existe no orun e continua no aiye. A vida no orun é similar a vida no aiye, mas, aparentemente menos interessante e sem a aventura e o inesperado. A pessoa vem para o aiye porque quer uma vida diferente da vida no orun. O aiye é imprevisível e sensorial, mas, temporário. Quando morremos voltamos ao orun.

Por esta razão é que explico que o conceito do que é certo ou errado ou do que é permitido e tolerado é relativo. A existência no aiye é um paralelo a vida no orun, é temporária e as pessoas buscam a novidade e imprevisibilidade.



O conhecimento teológico da religião está contido em um largo conjunto de versos que contam histórias. É através de metáforas e parábolas que o conhecimento é transmitido.

Além desses versos existem mitos regionais que, também através de histórias, transmitem os fundamentos religiosos, os valores, a ética e a moral. Por fim, existem cantigas e estrofes (chamadas de orikis) que complementam essas informações.

As tradições da Diáspora criaram seus próprios mitos ou versões dos mitos originais para compensar a dificuldade no acesso à literatura original.

Esse corpo literário é equivalente aos livros da bíblia cristão ou mesmo ao Corão do Islã.

O povo Yoruba não tinha língua escrita, somente falada, até os meados do século XX. Este conhecimento teológico fazia parte da cultura do povo e era transmitido oralmente. O processo do escravagismo prejudicou muito a manutenção deste conhecimento, devido às guerras e a morte dos mais velhos nos navios. Os mais novos não tinham armazenado o conhecimento necessário.

Colonizadores europeus criaram uma representação escrita para a lingual, tonal, que era falada, permitindo um longo e lento trabalho de recuperação e documentação deste conhecimento. A falta do registro escrito prejudicou demais a cultura e religião Yoruba. Em termos teológicos prejudica até hoje devido à dificuldade em conhecer, transmitir e discutir a religião. Em ter os históricos a religião Yoruba ainda está no que seria o período pré-bíblia impressa da religião católica.



A religião Yoruba é iniciática. Apesar da abrangência universal da sua teologia, que não condiciona sua prática para nenhuma etnia, existem liturgias e cerimônias para estabelecer ou reforçar a ligação das pessoas com o divino, entre o mundo natural e o espiritual. Essas liturgias estão ligadas ao conceito de axé e por conseguinte ao equilíbrio da pessoa.

Muitas religiões também são iniciáticas. O catolicismo é a mais conhecida, a pessoa somente faz parte da religião se passar pelas cerimonias de batismo e comunhão.

A iniciação na religião Yoruba, tem vários níveis e finalidades. Nem todos necessitam ser sacerdotes, existem posições intermediárias. O objetivo das iniciações e liturgias é sempre o mesmo. Dotar o individuo das melhores condições e instrumentos para ele poder atingir os objetivos de sua vida. Além disso o corpo sacerdotal assume o compromisso de ajudar a outros indivíduos a realizarem seu destino.

Dessa maneira podemos dividir as liturgias e iniciações em 2 grupos principais. O primeiro é aquelas voltadas para beneficiar os indivíduos na sua busca por felicidade e realização. O segundo são as que preparam pessoas para ajudarem essas pessoas, do primeiro grupo a atingirem isso.

Enquanto o primeiro grupo beneficia o individuo, o segundo permite ao individuo beneficiar a sociedade que ele pertence. A plenitude da religião e seus benefícios práticos não são alcançados sozinhos. A religião se pratica em comunidade.

Esta é uma religião de família e comunidade, acima de tudo. Tudo é feito em grupo e existem muitos intermediários. O indivíduo é muito importante, como eu já disse, ele está no centro de tudo, mas, sozinho ele não chega a lugar algum. Para ter sucesso ele precisa da ajuda de muitos. Este exemplo está largamente documentado no corpo literário da religião, nos versos de ifá.

Não existe a relação solitária do individuo com deus. Os orixás, os vários, são os intermediários entre o individuo e deus, Olodumarê. Nada chega a deus sem a ação dos orixás e mais, não recorremos somente a um. Recorremos a todos e todos podem nos ajudar.

Os orixás, por sua vez, para se tornarem presentes no mundo natural necessitam dos seus sacerdotes, os eleguás. A presença do orixá, uma divindade no mundo natural é através da incorporação nos seus sacerdotes.

Também serão os sacerdotes que farão as liturgias de transferência de axé, a energia de Olodumarê, entre seres viventes, de todos os reinos. Axé é vida e força. Os sacerdotes transmutam axé dos elementos da terra para trazer equilíbrio. às pessoas. O axé não surge do nada, ele foi colocado por Olodumarê em cada ser vivente, animal, vegetal ou mineral e somente desses materiais pode ser obtido.

Desta maneira, para que a religião possa ser praticada e atue no benefício das pessoas são necessários sacerdotes. Os sacerdotes são preparados através de um longo processo iniciático e também de aprendizagem.

O indivíduo é o centro da religião, mas, somente através a comunidade é que a religião pode ser praticada em sua plenitude e eficácia. Uma andorinha sozinha não faz um verão. Tudo nesta religião é resultado do trabalho de muitas pessoas.

Tudo nessa religião inspira ao equilíbrio. O individuo é o foco, mas, os resultados e a prática da religião é uma ação comunitária. Não existe como referência a pessoa sozinha rezando para deus. A pessoa pede aos orixás e a prática da religião é uma atividade comunitária.

Como eu citei, para que pessoas sejam beneficiadas pela religião é necessário o trabalho de um grande grupo de pessoas que além de cuidar de sua vida, se dedicam a ajudar às outras pessoas.



O clero da religião Yoruba é uma estrutura formal, ampla e bastante hierarquizada. Existem cargos e especializações. O núcleo do clero se restringe ao microcosmo do Ile axé ou casa de orixá, mas o dirigente da casa responde ao seu iniciador, criando assim uma corrente hierárquica que vai até a casa matriz.

Não existe uma organização formal supra-casa de orixá. A organização geral é religiosa e baseada nos vínculos iniciáticos. A pessoa deve satisfação do que faz e como faz para a pessoa que o iniciou. Durante toda sua vida voltará a esta pessoa para realizar liturgias. A prática da religião na sua casa deverá seguir os padrões definidos pela casa de quem o iniciou e qualquer mudança devera ser autorizada.

Este princípio cria uma estrutura hierárquica piramidal típica, entre as casas até a casa matriz. Esta regra estrutural é bem clara e plenamente reconhecida por todas as pessoas, mas, muito desrespeitada na prática.

Intra-casas a estrutura é similar, mas, agora, mesmo na prática, plenamente respeitada. A figura principal de uma casa é o babalorixá. Abaixo dele existem cargos funcionais e honoríficos distribuídos entre os iniciados da casa. Uma casa tem inciados com formação completa, em formação, os não iniciados e os simpatizantes.

A hierarquia é definida pelo tempo de iniciação, idade e cargo na estrutura. Os cargos são tipicamente funcionais e necessários para o correto funcionamento da casa devido as inúmeras atividades que são necessárias para manter esta religião iniciática em funcionamento.



A religião estabelece um código de conduta baseado em valores, ética e moral. Este código é transmitido através do corpo literário, os versos de ifá e é bastante pragmático, direcionando a pessoa para uma vida correta consigo mesmo e útil para a sua família e comunidade. Não existe pecado contra o divino contra deus e os orixás. O que existe é o erro contra as pessoas, a família e a comunidade.

O conceito do que é certo ou errado é distinto do existente na moral cristã, isso faz muitos acreditarem que esta é uma religião sem pecados. Sim, não existe o conceito de pecado contra o divino ou contra uma lei divina. Existe o erro que você comete contra sua vida e às demais pessoas.

Toda pessoa presta conta de seus atos a deus, a Olodumarê. Isso quer dizer que existem parâmetros que definem o que é certo e errado. Em função de sua vida a pessoa pode, após sua morte, ir para uma parte do orun destinada as pessoas boas ou uma parte destinada a pessoas ruins. Pessoas ruins poderão ter como consequência a perda do vínculo familiar com sua linhagem, poderão também serem condenadas a voltar a vida como animais.

Boas pessoas receberão no Orun as bênçãos de uma boa vida e também o que é mais importante a lembrança dos seus descendentes que vão cultuá-los.

O mais grave erro que uma pessoa pode cometer é prejudicar outra pessoa a atingir o destino dela, o destino que ela pediu a deus. Esta é uma falta muito grave.

Não existe o paradigma do sempre certo versus o nunca errado, a nossa vida é a soma disso. A sombra e a luz são criações de deus, o bem e o mal também. O mal equilibra o bem, nunca se pode estar bem demais ou mal demais.

A ética, a conduta e a utilidade para a sociedade são valores absolutamente importantes, contudo a importância que se dá para o ganho ou perda é que é relativo. Ganhar ou perder fazem parte da vida. Um ganha e outro perde. Os papéis se invertem o tempo todo, mas, ao fim da vida a pessoa presta contas a Olodumarê sobre o que fez na sua vida. Todos prestamos conta de nossos atos e realizações. A avaliação de Olodumarê é o que pesará no seguimento de nossa existência.



A religião tem um processo de incorporação no qual a energia do Orixá se apropria do corpo do iniciado. É através desta incorporação que o Orixá se manifesta no mundo natural para ajudar às pessoas. Esta manifestação ocorre em pessoas iniciadas para isto e não tem como finalidade a comunicação, que na religião é feita pelo oráculo.

Este é um assunto mais complicado. Não posso deixar de abordá-lo, mas, não acho que vale a pena me estender nele. Em relação a tudo o que foi falado sobre a religião este é o tema menos relevante. Os demais são mais importantes para entender e explicar a religião.

Sim, existe a manifestação do Orixá no mundo natural através da incorporação em pessoas especialmente preparadas para isso. É um momento importante, cativante, que reforça a fé das pessoas na religião, que mostra para elas que elas não rezam para o silêncio e que como esta na teologia, deus, Olodumarê, responde a elas através dos Orixás.

A incorporação significa para o crente que tudo aquilo que falamos é verdade, que ela não está sozinha no mundo e que o divino, deus e os orixás, estão o tempo todo às assistindo e zelando. Nada é mais doce e mais terno do que abraçar um orixá. Orixá é puro amor e ao nos encontrarmos com eles reconhecemos o sentido do que fazemos.

A incorporação é a materialização da fé. As pessoas acreditam, rezam, louvam e agradam orixás. Os orixás em retorno se manifestam para as pessoas mostrando que eles não são pensamentos e sim divindades reais e presentes.

Este é o significado maior da incorporação do orixá em um momento de festa. No candomblé os orixás vem ao mundo natural em um momento festivo, cercados de música, canto e dança. Esta é a imagem que os orixás querem que as pessoas tenham deles. As pessoas se alegram, festejam e dançam junto com os orixás. A comunhão com o divino não é um momento sisudo ou de medo. É um momento alegre e divertido.

Os orixás não possuem imagens ou figuras no candomblé.

Os orixás não incorporam para falar ou dar consultas no candomblé. A comunicação com os orixás é feita através do oráculo. O candomblé não tem nada a ver com a umbanda, na umbanda as incorporações são o centro da religião e os guias incorporam para se comunicar com as pessoas. Entretanto este não é o modelo do candomblé.



NOTAS

Como expliquei o candomblé é heterogeneo, não é uma coisa única, eu falo aqui sobre a religião de origem Yoruba e por conseguinte do candomblé ligado a ela. Possivelmente na outra religião e no candomblé ligado a ela as coisas sejam diferentes, mas cabe a eles falarem deles.

Muitos podem observar que a prioridade que dou a assuntos é diferente. Os Orixás são uma parte da religião, importante sem dúvida, mas não o todo. A religião os contêm mas eles não são a religião. No dia a dia as pessoas falam de coisas muito confusas e misturadas, o meu texto não foi feito para essa confusão e sim para acabar com ela.