Pesquisar este blog

domingo, maio 31, 2015

O que é Ifá



Gente, hoje ainda será publicado o texto sobre o que é Ifá. Tive um atraso essa semana mas já está sendo concluido.

segunda-feira, maio 18, 2015

Ifá é Religião?


O título deste texto é uma dúvida que passa pela cabeça de muitas pessoas, incluindo nesse grupo Bàbáláwos. Isso mesmo, existem pessoas que tem dúvida do que Ifá é, mas ainda, tem Bàbáláwo que tem certeza de que não é religião.

Esse grupo de pessoas não consegue identificar a estrutura e prática de Ifá como religião e, talvez, devido ao aspecto universal de Ifá que pode ajudar a qualquer pessoa independente da religião dela, podem entender que isso transforma Ifá em uma ciência ou mesmo agnóstico.

Não é isso, Ifá é religião.

Este Blog não podia se furtar de entrar nessa discussão, é claro, e vamos aqui contribuir para que os Bàbáláwo encontrem o seu caminho. Não vou fazer nenhum texto denso e hermético, vou dar a abordagem mais simples possível.

De um certo ponto de vista, entendo essa dúvida. Para pessoas não ligadas à religião Yoruba, não é fácil reconhecer ou aceitar uma nova religião. É muito fácil ouvir por ai Babalorixás e Iyalorixás se referindo a religião delas como uma seita, é fácil ver Iyalorixás tradicionais da Bahia pertencendo a irmandades católicas e tomando bença para padres.

Em um ambiente onde temos uma religião muito bem organizada e influente na sociedade e ao mesmo tempo sacerdotes que não se reconhecem e se submetem a essa mesma religião, torna-se difícil esperar que pessoas laicas à religião a reconheçam como tal.

Neste mesmo contexto, temos ainda a herança dos bantus com videntes e feiticeiros que vendem favores possíveis e impossíveis da mais baixa ética para a sociedade que  avidamente procura soluções sem ética para assuntos imorais.

O microcosmo afro-brasileiro ainda é dominado pelo mercantilismo e falta de religiosidade sincera. A teologia da prosperidade, característica das seitas neo-protestantes, sempre foi a tônica das pessoas que procuram cultos afro-brasileiros.

Mas esse panorama está mudando. Novos entrantes procuram a religião Yoruba  como uma religião de fato, trazem novos padrões éticos e não tem o foco no vil mercantilismo de trocas. A informação é mais fácil e acessível e pessoas descobrem que existe uma religião por trás da liturgia.

Claro que ainda vamos ter o grupo inicial, este que dominou a cena até agora e que contribuiu para espalhar a visão de que é uma religião desprovida de caráter e moral (para entender o que eu digo aqui, antes de me criticar, sugiro ler o livro, Candomblés de São Paulo de Reginaldo Prandi, pode ser baixado em forma de PDF gratuitamente). Mais uma vez repito, herança de miseráveis, gente que precisava de enganar outros para viver e da prática Bantu do baixo espiritismo. Muito mudou e ainda vai mudar, mas ainda temos um bom caminho à frente.

Não me crucifiquem por dizer isso. Todo mundo sabe que é isso. Claro que existem boas pessoas e lugares decentes. Não estou dizendo que todo mundo é ruim e não presta, estou dizendo apenas que existe essa divisão e que o lado ruim (na minha opinião claro, porque pode ter gente que acha isso normal), é muito visível.

Neste contexto social, como falei, não é fácil para pessoas olharem para isso e imaginar que ali existe uma religião. Em uma sociedade populada de videntes, adivinhos, tarólogos, "ciganos", jogadores de búzios e macumbeiros em geral, como supor que um Babalawo, que é mais um manejador de Oráculo, seja algo diferente? Seja um religioso? Um sacerdote?

Mesmo as pessoas que se dispõe a ser Babalawo, podem se ver apenas como videntes qualificados. Será que eles tem acesso a informação para entender que fazem parte de uma religião? Será que elas entendem que existe uma Teologia, uma cosmogonia, uma teogonia e uma teodicéia própria suportando aquela prática? Será que elas sabem que além de liturgias que devem aprender que elas também representam uma teologia?

Será que eles não se veem apenas como a pessoa que recebe um cliente, interpreta com a ajuda do cliente o problema dele (na maior parte das vezes você nem precisa fazer nenhum esforço, a pessoa senta na sua frente e já fala o problema dela e diz o que você precisa dizer para fazer ela feliz...) e vai fazer um ebó para resolver o problema, recebendo dinheiro por esse trabalho?

Primordialmente é uma relação de consumo. problema -> $$ -> solução (?)

Não sei se todos tem acesso a informação e conhecimento de que aquilo ali deveria ser uma religião. Não apenas os Brasileiros mas também cubanos. Quanto a Nigerianos, não convivo com eles, não posso dizer, não confio de forma alguma no caráter dos que vem para cá mas me faltam elementos para qualificá-los.

Defendendo um pouco essas pessoas, Babalawos, que não sabem que fazem parte de uma religião, a forma de aprender o Ifá cubano não ajuda. Os tratados são um instrumento religioso muito ruim. Não são as escrituras sagradas, não contém os versos originais de Odù conforme define a religião e traduzem uma visão muito deturpada da teogonia. 

Isso mesmo, vou repetir, tratados cubanos não contém os versos de Ifá.

Eles são muito práticos, permitem ao Babalawo ir rapidamente a interpretação do oráculo e na busca da solução mágica, mas, não ajudam ao Babalawo ver o que fazem como uma religião. Apesar de eu reconhecer que são um bom instrumento para o Babalawo, eu sou muito critico no que diz respeito a visão religiosa. Se eu não já conhecesse os Orixás e seus mitos através do Candomblé e o meu contato inicial fosse através dos pataki (histórias dentro dos Odù) cubanos eu teria uma péssima visão de Orixá, na verdade teria uma visão decepcionante.

Mas vamos voltar ao nosso tema.

O argumento mais simples e idiota que posso usar para com os Bàbáláwo (não com as pessoas) é que uma vez que eles se declaram como “sacerdotes” de Ifá não existe possibilidade de Ifá não ser uma religião. Não lembro de ver Bàbáláwo se autoproclamando como vidente, eles fazem questão de se pronunciar como sacerdote de Ifá.

Para quem tem dúvida vamos ao que está na wikipedia:

Sacerdote ou Sacerdotisa (do latim Sacerdos – sagrado; e otis – representante, portando "representante do sagrado") é uma autoridade ou ministro religioso, habilitado para dirigir ou participar em rituais sagrados de uma religião em particular. Eles também têm a autoridade ou o poder de administrar os ritos religiosos, em especial, os ritos de sacrifício e expiação de uma divindade ou divindades. Seu cargo ou posição é chamado de Sacerdócio, um termo que pode também se aplicar a essas pessoas coletivamente

Assim, se o Bàbáláwo não é parte de uma religião ele deve se autodenominar vidente, olhador, adivinho. Eu sou não sou olhador, eu sou, Bàbáláwo e sacerdote de minha religião. Mas as pessoas podem ser o que quiserem, se o objetivo de alguma pessoa que se consagrou Bàbáláwo é apenas ganhar dinheiro com a prática da sua ciência e curandeirismo, então é mole, não precisa dizer que é sacerdote.

O que ele não pode fazer é dizer que os demais são como ele, eu não sou como esses, eu sei o que sou e onde estou.

Mas vamos esquecer que a resposta a essa pergunta pode ser dada pelos próprios Bàbáláwo ao se apresentarem como sacerdotes. Vamos entender porque Ifá é uma religião.

Em primeiro lugar Ifá é parte de uma religião. Ele não é a religião por sí mesmo. Ifá é uma culto que faz parte da religião Yorùbá. Esta religião que surgiu em uma área que hoje pertence em parte ao Benin e em parte a Nigéria, a região Yorùbá. Esta religião tem uma estrutura bem completa e complexa e se espalhou pela região em volta dela de forma bem ampla. Foi trazida ao novo mundo durante a diáspora negra.

Esta religião é dividida em 3 cultos principais: O culto de Orixá, o culto de Ifá e o culto de egungun. Cada um desses cultos tem uma especialização e um objetivo. O Culto de Orixá cuida da pessoa e da família. O culto de egungun, no qual as pessoas se comunicam com ancestres, cuida da comunidade e o culto de Ifá é dedicado ao oráculo da religião.

A especialização de Ifá é o oráculo e só. O Bàbáláwo é uma pessoa dedicada a ser um mensageiro entre o divino e nós. O trabalho do Bàbáláwo é aprender a interpretar a forma como deus fala com a gente através do oráculo.

Mas, para melhorar o entendimento vamos a origem do oráculo. A questão é, por que o oráculo de Ifá existe na religião?

Simples, o oráculo representa o compromisso de deus, de Olodumare, com a nossa vida, com o nosso sucesso e nosso bem-estar. A preocupação de deus, Olodumare, com a gente é tanta que ele criou os Orixá para nos ajudarem e o oráculo para que possamos nos orientar em nossa vida. Deus quer que a gente seja feliz.

A religião Yorùbá é encarnacionista, acreditamos que vamos viver muitas vezes, vamos renascer continuamente. Existe um mundo espiritual, o Orun, e um mundo natural ou físico o Aiye, que é onde estamos agora. Antes de nós nascermos, novamente, ainda no Orun nós estabelecemos objetivos para nossa nova vida e antes de irmos para o aiye, para nascermos, nós nos ajoelhamos na presença de deus, Olodumare tendo como testemunha somente uma divindade Òrúnmìlà. Òrúnmìlà é o único testemunho de nosso destino, somente ele e deus sabem o que planejamos para nossa vida.

Deus sabe que a vida no aiye é bem difícil, que existem dificuldades, acidentes, incidentes, catástrofes naturais, imperfeições congênitas e pessoas que podem atrapalhar esse nosso destino. Dessa maneira ele encarregou os Orixá de cuidarem de nós e Òrúnmìlà de ser o mensageiro entre as pessoas, os orixás e deus.

O culto de Ifá é dedicado exclusivamente a uma divindade, a Òrúnmìlà. O Bàbáláwo em sua vida vai cultuar somente esta divindade que é a divindade que responde em seu oráculo. Òrúnmìlà, como testemunho de nosso destino junto a deus é o único que sabe o que planejamos para nossa vida, de forma que, quando temos uma dificuldade que não conseguimos resolver, vamos ao oráculo da Ifá, para que através de Òrúnmìlà possamos nos comunicar com o divino, com ele, Òrúnmìlà, que sabe o nosso destino e com os orixás que nos assistem na nossa vida.

O que torna o oráculo de Ifá especial para as pessoas é o conceito de Òrúnmìlà ter sido a testemunha de nosso destino, ele sabe o que nós planejamos para nós mesmos.

Esta é uma explicação religiosa. Esta explicação é feita dentro do contexto da religião, é a religião que da sentido a importância do oráculo de ifá. Existem muitos oráculos e videntes, muitos deles muito bons, mas, é esta história de Òrúnmìlà ser o testemunho do nosso destino, o eleri ipin, que torna o oráculo importante, sem esta história Ifá seria como búzios, cartas, tarot e outros.

Dessa maneira, Ifá é um culto que faz parte de uma religião.

Eu não consigo definir Ifá de outra maneira. Não acho que seja uma ciência, não acho que seja uma "coisa", para mim é religião.

Como toda religião, não existem exclusividades. Esta religião está disponível para ajudar a todas as pessoas. Todas as pessoas foram até deus antes de nascer, assim acreditamos. Dessa maneira, qualquer pessoa pode ser ajudada por Ifá. Você não precisa fazer parte da religião, esta religião, assim como as demais, visam o bem das pessoas e não existem escolhidos, todos somos os eleitos de deus.

Ao ir a Ifá você não é obrigado a se converter para a religião Yorùbá. Você não terá que cultuar Orixá. O Bàbáláwo, como um sacerdote falará com você citando versos dos textos sagrados da religião, contará mitos que fazem parte da religião com metáforas equivalentes às parábolas e vai dar a você orientações baseados nos valores da religião. Se você quiser ser ajudado o Bàbáláwo irá ajudá-lo através de Òrúnmìlà, exu e dos orixás, porque esse é o caminho da religião, mas, você não precisa mudar sua religião.

Não confunda assim o aspecto universalista da religião com o fato de Ifá ter sua existência exclusivamente justificada pela religião Yorùbá.

Sou Bàbáláwo, sou sacerdote, faço parte de uma religião, Ifá é parte de uma religião, aberta a ajudar qualquer pessoa.


No próximo texto eu vou explicar o que é Ifá. Sim, eu sei explicar o que é Ifá.

sexta-feira, maio 08, 2015

Como determinar a orientação do Odù em Ifá

Revisão 2


Este é um daqueles temas que neófitos podem ter dificuldade para entender. Eu lamento quando as pessoas têm dificuldade para entender os temas escolhidos, não é minha intenção ser hermético ou elitista, mas, existem assuntos que precisam ser abordados.

Eu estou republicando vários textos sobre Odù e já falei sobre os Odùs negativos no Candomblé, já expliquei também o que é Odù e já comentei sobre os tais Odù de nascimento. Não posso deixar de comentar novamente sobre Odù negativo porque em outro texto eu critiquei a forma como pessoas do Candomblé assustam consulentes com isso.

Eu disse que não existem Odùs negativos por definição e, em Ifá, o que fazemos é determinar a cada consulta como aquele Odù veio. Este texto vai explicar o que isso significa e como fazemos isso.

Para quem não leu ainda eu recomendo que vejam os textos anteriores, tem informações interessantes para quem se interessa por oráculos.

Partindo do ponto que todos entendem o que é um Odù (se não sabem devem ler o texto explicativo anterior), um odu pode ser apresentar em uma consulta de 2 formas: Ire e não ire, ou como as pessoas gostam de dizer positivo ou negativo. São 2 informações distintas, a primeira é o Odù, a segunda que o complementa é como ele se manifesta. Essas 2 informações são independentes, qualquer Odù pode vir e em qualquer estado, ou melhor, receberemos o Odù adequado à consulta no estado que representa a situação.

Eu não gosto de chamar de positivo e negativo. A gente diz que ele vem trazendo bençãos, quando vem em Ire ou vem removendo problemas quando vem no outro estado. Devo lembrar que o Odù não traz nenhuma negatividade. Já comentei isso. Ele sempre traz uma solução para você. O problema você já tem, ele vem apenas nos indicar qual o problema.

Um dos estados é o IRE, que seria equivalente ao “positivo”. Em IRE um Odù vem trazendo bençãos para o consulente, bençãos que ajudarão o consulente no que tem que realizar, viver ou conquistar. É como se você já estivesse bem e precisasse de um empurrão de axé para realizar o que deseja.

Todo mundo gosta de receber um Odù em IRE, claro. Acima de tudo isso diz que aquela pessoa está bem e que Òrúnmìlà lhe traz mais bençãos.

Quando não está em IRE ele está no outro estado que tem vários nomes. Seria equivalente ao estado “negativo”, mas minha posição sobre isso é outra e vou repetir aqui. Um Odù JA-MAIS e negativo ou traz negatividade. Um Odù sempre é uma coisa boa, sempre é uma energia positiva, o que muda é o que ele vem resolver.

Assim, o outro estado é chamado pelos africanos de Ibi ou Àyèwò e pelos cubanos de osogbo. Cada tradição chama de uma forma. Neste estado ele está indicando que vem TIRAR um mal de você, uma negatividade.

Muitos Bàbáláwo não aceitam que Ifá possa prever o mal para a pessoa e, assim, eles usam uma expressão alternativa para o estado de Ibi, que se chama Àyẹ̀wò, um questionamento. Os cubanos não falam Ibi, eles usam Osogbo, que significa que não é Ire.

Dessa maneira eu vejo que o Odù pode estar trazendo positividade ou removendo negatividade.

Lembrem que um Odù é um “contêiner de energia” com muitas mensagens, algumas similares outras nem tanto.

Em uma consulta, através de Odù, primeiro se tira o Odù principal. Este Odù é o que determina toda a interpretação da consulta. Os elementos adicionais, que se seguem a esta determinação, apenas vão detalhar e especificar o assunto para aquela pessoa em particular.

Após o olhador determinar qual é o Odù principal ele deve determinar a sua orientação. Não se trata aqui de saber se é positivo ou negativo e sim de saber a sua orientação. Esta é a primeira bobagem que se fala quando não se entende com o que esta lidando, com Odù, é claro.

Como eu disse o Odù tem eu seu corpo literário muitas mensagens e significados. Eles não acontecem todos ao mesmo tempo. Temos que determinar qual mensagem se aplica aquela situação.
Para auxiliar a interpretação do Odù principal, para o caso em questão, é necessário o suporte de outras informações. A primeira delas é entender a orientação do Odù. A segunda será a agregação de significados desse Odù, que determinou esta orientação, na interpretação do Odù principal.

Em ifá, a determinação da orientação, é parte obrigatória do processo de consulta, na realidade não tem consulta sem isso, mas, no uso dos búzios esse processo se perdeu ou, mesmo, nem foi aprendido por muitos que hoje usam os búzios.

Muita gente deduz pelo próprio Odù se ele é positivo ou negativo, criando desta forma uma convenção, própria, de Odù sempre positivo e outros sempre negativos. Outras pessoas podem usar características da caída para determinar isso e outras, ainda, a sua própria intuição. Tudo isso esta errado.

Para se determinar a orientação do Odù deve-se usar o processo do ìbò que vem a ser um dos pilares do oráculo de Ifá. O uso do ìbò é uma forma de envolver diretamente o orí do consulente na consulta do oráculo, criando, assim, uma interatividade. Não devemos aceitar um processo de Ifá sem a interação com o consulente e sem o uso do ìbò para isso.

Infelizmente a prática de usar o ìbò junto com o consulente, foi extinta com os búzios e está deixando de ser feita até mesma em Ifá. Pura preguiça.

O processo de ìbò é um tipo de consulta que busca uma resposta binária, sim ou não. Em Ifá tradicional através do ọ̀pẹ̀lẹ̀ ou dos ikin pode-se ainda usá-lo para a escolha de uma entre várias alternativas simultâneas, mas em owó-ẹyọ mẹ́rindílógún ele é usado apenas para uma decisão entre 2 alternativas.

Antes de entender o processo de consulta deve-se entender o que significa de fato os estados do Odù:


IRE
Quando um Odù vem em ire, ele traz com ele bênçãos que estão associadas com as características mais positivas. Esta energia vem para oferecer benção, fortuna, novas oportunidades, um fluxo de entrada de energia e de evolução.

Em um escopo mais amplo, a pessoa para a qual o Odù vem em IRE entende que a energia será presenteada pelo Odù em duas maneiras. Uma forma sutil ou explícita no seu ego. Este entendimento cria um equilíbrio. A natureza de IRE reflete um estado de harmonia ou equilíbrio com a energia do Odù até mesmo se a pessoa de modo consciente não reconhece que isto está ou ocorrerá.

O objetivo do Oráculo é restaurar e manter o balanço na vida de cada indivíduo, reequilibrando suas energias. Um Odù que vem em IRE confirma que a pessoa está favorecida com este estado de equilíbrio.


IBI / Àyèwò / Osogbo

Africanos não gostam de algumas palavras. Assim usam para significar Ibi, a palavra Àyẹ̀wò. Os Cubanos usam a palavra Osogbo que significa que não é Ire.

Um Odù que surge em estado de Ibi frequentemente traz com ele os aspectos mais negativos de sua natureza e é isso que devemos considerar ao analisar as mensagens do Odù. As energias operando em estado de Ibi tendem a serem mais desafiadoras para a pessoa e traz com ela a ajuda a obstáculos que devem ser removidos, problemas a serem solucionados ou lições que poderão ser difíceis para aprender ou entender.

O Odù em IBI não é duro ou difícil, duro é a situação que a pessoa já está ou o caminho que ela vai ter que trilhar.

Ibi pode indicar uma falta de balanço, equilíbrio ou resistência no aspecto metafísico de relacionamento entre a pessoa e a espiritualidade.

A pessoa pode ser dita estando em um estado de falta de entendimento dos desafios e e lições apresentados por este Odù de forma que se caracteriza um desequilíbrio destas energias que afetam a sua vida.

Ibi é com o um amigo sábio que é candidamente honesto. Ele se apresenta para oferecer pílulas amargas que são duras de engolir, mas este remédio trará à pessoa uma oportunidade para ganhar e aumentar o entendimento de si mesma e sua compreensão do seu papel no mundo de uma forma ampla. Ibi não é uma alguma coisa para ser temido, mas ao invés disso estudado e entendido. Debaixo desta corrente de energia desconexa se deposita uma oportunidade de recuperar o equilíbrio uma vez que o desafio que é apresentado é aceito e entendido.

O Ìbò será usado e 2 caídas de búzios definem qual o Ìbò selecionado e qual o estado do Odù. Dessa forma se entende como aquele Odù está se manifestando na vida da pessoa. Além disso o Odù que escolheu o Ìbò vai se incorporar a interpretação, sendo usado para explicar ou detalhar o principal.

Dois Ìbò são dados para o consulente segurar nas suas mãos, sem que o olhador saiba em que mão estão. Um deles significa SIM e o outro NÃO.

É feita a pergunta ao Oráculo: O Odù é Ire?

O Bàbáláwo ira tirar 1 ou 2 Odù e em função da senioridade deles escolherá uma das mãos sem saber o seu conteúdo. Quando a mão se abre o tipo de ìbò determina se a resposta é sim ou não. Se for SIM o Odù esta em IRE. Se for não está em IBI.

O babalawo não consegue desta forma controlar a resposta. O Oraculo decide sozinho e o consulente participa desta resposta.
Outros processos se seguem para melhorar o entendimento: 1) se aquele Odù ja está se manifestando na vida da pessoa ou não; 2) qual o tipo do Ire ou Ibi; 3) qual a sua origem.

Juntando todas essas informações o olhador pode enfim interpretar o Odù para o consulente.

Observem que todas as perguntas ao oráculo devem ser respondidas com o ìbò. Os jogos nos quais o olhador faz a pergunta e ele mesmo responde sozinho não são jogos que seguem Odù e a metodologia de Ifá.

Oráculo não é adivinhação, é um processo transparente de comunicação com o divino e que qualquer pessoa que entenda pode acompanhar uma consulta.

terça-feira, maio 05, 2015

Livros sobre Ifá

Muitos querem aprender Ifá ou sobre Ifá. São duas coisas bem diferentes.

Eu posso dizer que a primeira coisa é bem mais difícil, a segunda mais fácil. Aprender Ifá significa entender o que é Ifá ou o que faz um Bàbáláwo. Eu vou explicar essas duas coisas em próximos textos para desmistificar o assunto entre os interessados.


Já aprender sobre Ifá é entender a religião Yoruba e as propostas desta religião para a nossa vida. Ifá é religião, é um culto que faz parte de uma religião. O objetivo desse culto é o oráculo, a comunicação entre nós e deus para orientar nossa vida e nosso sucesso da nossa vida.

Na busca de conhecimento sobre Ifá você vai passar por 2 aspectos. O primeiro é compreender a cosmogonia, teogonia, teologia e teodicéia que envolvem a religião Yoruba, ou seja, aprender a religião para poder ser um representante desta religião junto às pessoas. A segunda é entender os elementos teológicos da prática do culto de Ifá.

O que diferencia muito Ifá, o culto do oráculo, do Culto de de Orixá, o culto à vida das pessoas, é que Ifá além de liturgias e técnicas também tem um corpo literário para basear suas propostas, ensinamentos e informações.

Os livro que vou apresentar à seguir não são uma lista muito extensa, mas contém excelentes informações para que você possa entrar nesse mundo.

Algumas pessoas que leem o Blog comentam para mim que acham muito difícil alguns temas, que entendem alguma coisa, etc. Eu me esforço para ser inteligível, aliás me esforço em 2 objetivos. O primeiro é ser claro, objetívo e inteligível. O segundo é apenas publicar informação de qualidade, conteúdo decente.

Os livros a seguir vão permitir você aprender sobre Ifá. Eles também, como o meu BLOG, não tem uma abordagem didática sequencial, eles tem valores intrínsecos por aspectos diversos que eu explicarei. Esse é o grande problema de se aprender lendo livros sobre um tema. Você tem que desprender um grande esforço lendo, entendendo, juntando e pensando sobre o que leu. Você vai adquirindo peças de um quebra cabeça. A cada livro você acha mais algumas e cabe a você ir montando esse quebra-cabeça.


Algumas pessoas montam o quebra cabeça mais rápido ou melhor do que outras. Dessa forma, ler a mesma literatura não faz 2 pessoas equivalentes em conhecimento, tudo vai depender de como cada uma entender e processa o que aprendeu, lembrando que coisas se repetem entre livros e você tem que caçar o conhecimento novo.

Contudo, podem acreditar que esta é a seleção mais decente de livros sobre Ifá que vocês vão encontrar. Eu compro sistematicamente livros sobre o tema, me arrependo de muitos. Esses ai valem o dinheiro investido.

Infelizmente não temos opções decentes em Português. Você não encontra nem para os versos de Ifá. Eu tenho os livros em português que existem sobre Ifá, os de edições públicas e dos autores, se não estão ai é porque não vale a pena.

Alerto que quem quer aprender Ifá deve esquecer os livros cubanos que são sobre tratados. Já falei aqui sobre a inutilidade de aprender sobre Ifá lendo tratado. Além disso, depois de comprar vários livros, não encontrei nada que valesse a pena ter.


Ifá O orixá do destino – Ivan H. Costa – Português – Editora Icone


Certamente o melhor livro sobre Ifá em português que vocês vão encontrar. Não está mais sendo editado e só vão encontrar em sebos.

Ele aborda várias coisas de Ifá, de história a técnicas de leitura de Odù. Nesse ponto ele é bastante heterogêneo, porque mistura conhecimento com técnica. As duas coisas dele são muito boas. Não esgota o assunto mas te dá uma boa visão geral, leia com atenção.

Eu iniciaria por esse livro.



Yorùbá Theology and Tradition – The worship – Ayo Salami – Inglês – edição do autor

Outra pérola. Em língua inglesa é o livro que eu recomendo para primeira leitura. A aquisição não é fácil, vocês devem procurar o autor.

Muito bom. Ele fala de Ifá e de religião Yorùbá. Passa por conceitos importantes da religião, fala de orixás e outras divindades (sob o ponto de vista africano), fala sobre Ifá através de versos - como deve ser feito.O livro tem muita informação, deve ser lido bem devagar e estudado. 


Não deixe de ter esse livro.


Ifá an exposition of Ifá literary corpus – Wande abimbola – Inglês – Athelia Henrietta

É um clássico. Abimbolá não é bom no ensino de técnicas de Ifá, essa não é a preocupação dele, mas, os livros dele contêm uma das melhores seleções de versos de Ifá. Nos livros dele a gente começa a entender os versos e seus significados. Ele explica religião através dos versos.

O livro explica o formato dos versos, como devemos ler e interpretar, como reconhecer bons versos e passa pelos temas mais importantes da religião através de versos. Esse livro não pode faltar a um Bàbáláwo.



Ifá the key to its understanding – Fasina Falade – Inglês – Ara Ifá Publishing

É um belo livro, com páginas de boa gramatura e capa dura. Ensina Ifá através dos versos. O livro aborda elementos de ifá, liturgias e conceitos usando a tradicional abordagem de mostrar o conhecimento em versos.


É um livro grosso, com algumas partes longas e até chatas, mas são importantes. Ele fala sobre Ifá através de versos e na metade final ensina a técnica do ebó riru. Foi bastante interessante isso.

Mais uma vez, é um livro para se ler devagar. O 
Bàbáláwo tem que ter esse livro.


Ifá Divination – William Bascom – Inglês – Indiana University Press


Outro clássico. Muitos versos, mas, descolados das explicações. Diferente dos anteriores ele não associa as explicações aos versos. Ele explica as coisas de depois tem uma coleção de versos.

O Bascom é talvez o livro mais conhecido de todos. Ele é bom. Não é o melhor mas, sem dúvida, é muito bom.


The Healing Power of Sacrifice – Chief Priest Yemi Elebuibon – Inglês – Athelia Henrietta


É um livro pequeno, mas, muito bom. Infelizmente o autor é muito econômico nas explicações, mas, tem uma boa cobertura de temas, explicações de qualidade e versos.
Não pode faltar ao Bàbáláwo. Tem versos importantes para liturgias.

É um livro curioso porque fala um pouco de assuntos selecionados mas tudo o que fala é de boa qualidade.

Eu recomendo que encontrem e comprem. Não sei se vai ser fácil.


Ifism The complete Work of Orunmila – Osamaro Ibie – Inglês – Athelia Henrietta

Este livro fala sobre os 16 Odù Meji. Contudo traz no início explicações sobre a religião que são muito boas. Eu gosto muito dos livros do Ibie, tenho todos os publicados e são um conteúdo importante no entendimento da religião. É uma das minhas coleções preferidas.


A edição é belíssima, com capa dura e folhas de boa gramatura. Ibie foi reverendo antes de voltar a África e escrever sobre Ifá, ele conta a história dele no livro. Alguns torcem o nariz sobre isso mas eu gosto muito do livro.

Existe uma gênese da religião. Uma história muito interessante e que eu não conhecia. Como não vi mais ninguém contar a mesma história guardei essa versão para mim, contudo o Luiz Marins citou a mesma história transcrita na revista Odù creio. 


A recitation of Ifá, Oracle of the Yorùbá – Judith Gleason – Inglês – Grossman Publishers


Bom, nem todo muito gosta da Judith. Ela tem uma abordagem bem analítica do tema, meio matemática, mas, esse livro é bom. Não é excelente, mas tem alguns conhecimentos importantes sobre a estrutura dos Odù.


Eu vejo valor no conhecimento que ela traz e na sua abordagem, nos faz ver os Odù e sua forma de se representar de uma maneira estruturada.

Como em todo livro você deve saber que cada um tem alguma coisa importante para você. Todos tem um conhecimento bom e relevante em algum lugar. A gente tem que saber pescar isso.


Sixteen Great Poems of Ifá – Wande Abimbola – Inglês – Unesco


Mais um clássico, eu diria que é um senhor clássico. São 16 poemas longos sobre temas escolhidos, foi o livro precursor do outro livro indicado nesta lista dele. Os versos são imperdíveis, se você conseguir comprar, compre.



Oráculos Yoruba: dos búzios ao Obi - Marcos Arino - Portugues - Kindle store

É o meu livro. Tenho outros para fazer, alguns já quase prontos mas não é fácil, trabalhar, cuidar da família, ser babalawo e escrever um blog.

Este livro é fruto de anos de pesquisa a prática, explica claramente a utilização de oráculos auxiliares a Ifá e que são importantíssimos no dia a dia. Recomendo ser lido. Existem alguns livros sobre Obì, apenas um deles bom como o meu. Mas o meu aborda mais temas. Claro que antes de fazer esse livro eu consultei os demais, não copiei nada, os textos são todos originais.

Estou indicando porque de fato é um livro de qualidade sobre o tema e um Babalawo ou mesmo Babalorixá não podem deixar de saber usar bem esses oráculos.


The Diloggun: The Orishas, Proverbs, Sacrifices, and Prohibitions of Cuban Santeria - Ocha ni lele - Inglês

É um livro sobre búzios e escrito por um cubano. As pessoas podem torcer o nariz para essas duas coisas, mas, tudo tem exceção, este é uma delas.

Excelente livro para entender a técnica de jogo de Ifá. O autor fala sobre a técnica para se usar búzios, mas, se você trocar os búzios pelo Opele você aprende a usar o Opele. A técnica esta correta e bem descrita, você vai entender como se usa o oráculo de Ifá. 

O livro é uma bela edição, formato grande e capa dura. Contém uma relação de versos simplificada e voltada para o uso dos búzios, mas que é equivalente a Ifá. O livro é muito bom. Foi o melhor livro sobre búzios que eu encontrei e que me permitiu entrar no mundo de Ifá em função do autor usar a mesma técnica de Ifá para os búzios. É um dos poucos livros desta lista que te ensinam Ifá.... 




Esta é a lista.

Não se decepcionem com o tamanho reduzido, tenho todos ou quase todos os livros de Ifá. Esses são os que valem o seu dinheiro. Você vai aprender mais gastando menos. Se não esta nesta lista é porque não vale o dinheiro. Existem livros ruins de fato, mas tem outros que você consegue pegar alguma coisa, o problema é o quanto se paga ou o quanto se tem que ler para pegar pouca informação. Esses ai tem excelente relação custo x tempo x conhecimento.

Ler livros não vai revelar nenhum segredo ou te tornar um Babalawo. Vai ter fazer certamente um Babalawo melhor. O que é Ifá e o que é necessário para se tornar um Babalawo eu vou abordar em futuros textos.

Existem outras 2 listas que vocês devem ter. A primeira é a de livro sobre a religião Yorùbá. Você tem que aprender a religião para poder saber Ifá. A segunda é a lista de livros sobre Orixá. É importante aprender orixá para não se perder. Estarei publicando essas listas. Tem uma terceira lista bem pequena que é onde você pode encontrar os versos de Ifá. Quem sabe eu publico essa também, vou pensar nisso.