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domingo, junho 14, 2015

Cerimonias sociais



O catolicismo estabeleceu em nossa sociedade a prática de algumas cerimônias sóciais, que são de fato, liturgias da Igreja católica, todas elas importantes e internas, mas que se transformaram também em eventos sociais importantes na sociedade, tão importantes que a nossa sociedade se identifica com eles e os considera essenciais.

Fica mais para o final a discussão deste último aspecto.

Isso sem dúvida foi muito bom, para o catolicismo, na medida em que aproxima toda a sociedade da prática da religião. O que podemos considerar como extraordinário nos católicos é que eles transformaram as 2 principais cerimônias sociais, o Batismo e o Casamento, que são fundamentos importantes desta igreja como eventos públicos e parte integrante de nossa sociedade.

Quando eu digo extraordinário é devido a um aspecto que as pessoas pouco percebem ou conhecem da igreja católica, que é o fato de ela ser totalmente INICIÁTICA. Isso mesmo, como a religião Yorùbá, o catolicismo marca seus crentes com iniciações. Ela não é uma religião do tipo que, você está passando na porta da igreja e entra e reza. O catolicismo inicia as pessoas. Você só é considerado membro e praticante se tiver passado pelos ritos iniciáticos e não passar por ritos prévios inviabiliza ritos seguintes.

Dessa forma, jamais será casado se não tiver sido previamente batizado, quiçá no futuro se não for crismado. Você não pode ser padrinho de batismo se não foi crismado. Muitos se revoltam com exigências, mas, essas pessoas não percebem que estamos tratando de uma religião iniciática e não de um culto aberto e social.

Sem dúvida a igreja católica foi muito bem-sucedida no sentido que se inseriu visceralmente dentro da sociedade de uma forma tal que a sociedade a reconhece como religião verdadeira e reconhece seus ritos iniciáticos como primordiais para a sua própria vida social.

A igreja está certa, aproveitou o seu tempo de supremacia.

Muitos criticam a religião Yorùbá por suas obrigações e regras sem perceberem que já estão convivendo diariamente com outra religião igualmente iniciática e com a mesma estrutura, seja por obrigações ou por hierarquia.

Desta maneira as cerimônias sociais que listei são ritos litúrgicos internos da igreja católica, que são executados da forma como devem pela igreja, mas, são feitos de uma maneira pública, envolvendo e integrando a sociedade. São tão fortes que viraram referência e as pessoas procuram nas demais religiões os mesmos ritos, como se fossem natural.

A sociedade esta errada? Não, isso é cultura, as cerimônias viraram partes dela.

Mas, quando nós, religioso tratamos disso temos que ter cuidado.

Cada religião tem sua estrutura iniciática e teologia. Cada uma vê o mundo de uma maneira distinta, ou melhor, cada uma propõe uma forma distinta para você entender a sua vida. Este é o grande sentido de uma religião, estabelecer uma proposta filosófica para guiar a sua vida, com objetivos, metas, princípios e valores.

Por serem na verdade liturgias internas da religião, não será automático ou natural você encontrar em religiões diferentes as mesmas liturgias, lembrem-se as propostas são diferentes e liturgias são fundamentos religiosos.

A igreja católica foi muito bem-sucedida, como já expliquei em tornar suas liturgias em cerimônias sociais como se toda a sociedade fosse católica. Ela inseriu na cabeça de todos o seu formato, seus dogmas e suas teses teológicas. Mérito deles, afinal isso não faz mal as pessoas, contudo isso gera um problema para as demais religiões, ou melhor para as pessoas porque elas esperam encontrar em outra religião que elas escolham a mesma coisa.

Não vão!

Claro, são religiões diferentes e com forma distinta de ver o mundo e a vida.

Vamos exemplificar, na medida do possível para que esse ponto fique entendido. Não posso falar por todas as religiões, de maneira que vou me manter no binômio católico-Yorùbá .

O casamento. Sem dúvida é um grande evento social e religioso na igreja católica. Toda mulher sonha em ser noiva e sonha em entrar na igreja vestida de noiva, com tudo o que tem direito. O casamento é um grande laço e compromisso, segunda a igreja católica, é para sempre, o que deus uniu ninguém mais separa.

Esta cerimônia religiosa não existe na religião Yorùbá. Isso mesmo, vou repetir, não existe. O casamento é uma grande festa na sociedade Yorùbá, tem vários ritos e um formato elaborado, mas, não tem sentido religioso, não existe a coisa de “...que até deus os separe...” a participação religiosa na cerimônia tradicional Yorùbá é um detalhe.

Digo isso porque eu pesquisei e sei exatamente como é essa cerimônia. Como disse é uma cerimônia social, com pompa, mas social.

Decepcionado? Lamento.

Volto ao princípio, a igreja católica foi muito bem-sucedida em transformar suas liturgias internas em cerimônias sociais e isso entrou na cabeça das pessoas. Dessa forma a sociedade Yorùbá tem uma cerimônia tradicional (social) de casamento, com diversos ritos e um formato bem típico para eles, mas a religião Yoruba não tem isso. A participação dela é acessória, junto com outros elementos.

O Candomblé tem casamento? Não. 


Por que? O casamento sob sentido religioso não tem base na religião Yorùbá, 2 pessoas não se unem sob a tutela da religião. O casamento é uma cerimônia civil, da sociedade. Desta forma, não cabe a um Babalorixá ou Iyalorixá do Candomblé executarem uma cerimônia de casamento, não no formato que é feito no catolicismo, não existe laço a ser estabelecido.

Lembram o que eu disse? Liturgias e ritos de passagem de uma religião não encontram reflexo direto em outras, devido às religiões terem filosofias diferentes e dogmas distintos?


Quando a gente estuda ou apenas entende o que uma religião representa na vida das pessoas isso fica claro, Quando a gente vive achando que a religião católica é a única e as demais são seitas isso fica diferente, mais difícil de entender. Fica mais difícil ainda se a gente mistura os ritos sociais (ou laicos) com os ritos religiosos (ou sacros).

Não se pode buscar em uma religião a mesma cerimônia ou formato de outra porque cerimônias e liturgias estão baseadas em dogmas e fundamentos da religião e determinados ritos podem não ter sentido. Quando eu falar de batismo vou reforçar isso.

Dessa forma, na visão da religião Yoruba não existe casamento. Isto é uma união civil. Contudo não é um evento menos importante por ser apenas um evento civil, pelo contrário, é carregado de significados, passos e responsabilidades!


Como entender as pessoas que fazem casamento em Candomblé, como eu já vi em vídeos?

Entenda como quiser. Eu já disse que não tem. O que essas pessoas fazem é, primeiro não entender da sua religião, não entender de teologia da sua própria religião, ai eles copiam uma liturgia de outar religião e transformam em uma coisa deles inventando ritos e simbolismo.

Está cheio de gente mal-informada e despreparada se dizendo sacerdote de religião. A pessoa aprende a fazer ebó e dedica a sua vida a atender clientes. Ela se autodeclara tendo um título e um conhecimento que não tem. Essas pessoas que atendem clientes não necessariamente são sacerdotes e conhecem sua religião.

Mas o que fazer então?

Claro que temos que nos adaptar, a sociedade incorporou ritos religioso como ritos sociais e temos que responder a isso, mas não se faz isso dessa forma boba como se está fazendo, copiando o que outras religiões fazem.


É necessário algum esforço para se buscar uma forma de harmonizar o que a religião pode oferecer com o que a sociedade demanda. Em termos de casamento, temos que entender que existe um rito social laico bastante importante e que marca e união das pessoas. Podemos adicionar a este contexto algumas idéias e inserir uma participação religiosa no contexto.

No próximo post, logo a seguir, eu vou dar um exemplo sobre o batizado, depois comento sobre outras.

segunda-feira, junho 01, 2015

O que é Ifá?


Acredito que esta é uma das principais questões que envolve as pessoas em geral, entender do que estamos falando.

Antes de iniciar, preciso fazer algumas colocações.

Lembro que o compromisso deste BLOG é com a Informação, com qualidade, simplicidade e objetividade. Muita gente que sabe alguma coisa nesta religião tem problemas para explicar as coisas. Seja porque não sabe explicar, seja porque falta parte do conhecimento, seja porque sabe fazer mas não sabe o que faz, seja porque tem título e não sabe nada, seja porque não tem interesse em explicar nada.

Muita gente cria dificuldade para vender facilidade, outros criam problemas que não existem para vender solução que não se precisa.

Nunca posso esquecer daqueles que tem título, porque título se compra com dinheiro e não tem conhecimento porque para isso precisa esforço, estudo e inteligência. Ser um Bàbáláwo não torna ninguém um sábio, em princípio é alguém que pagou para ser isso. Está cheio de Bàbáláwos que decoram coisas, repetem automaticamente e são hábeis em fazer o que chamamos da parte mecânica, aquela que qualquer macaco amestrado aprende a fazer.

O que quero dizer com isso?  Simples assim, não de sua atenção a títulos. Preste atenção ao conteúdo da fala. A pessoa em um dia nada sabia e nada falava. Compra uma feitura de Ifá (isso não é um problema porque todo mundo compra, nada é de graça), mas, após ganhar o direito legítimo de usar o título de Babalawo, vira um falador despejando conhecimento.

Hora, se essa pessoa nada tinha a dizer antes porque passou a ter depois?

Enfim, dito isso, vou à seguir trazer a explicação mais objetiva possível sobre Ifá, despindo isso de todo o glamour que possa existir na cabeça de todos. Pretendo depois fazer uma comparação entre Ifá e Candomblé.


Ifá é parte de uma religião


Em primeiro lugar Ifá é parte de uma religião. Ele não é a religião por si mesmo. Ifá é uma culto que faz parte da religião Yorùbá. Esta religião que surgiu em uma área que hoje pertence em parte ao Benin e em parte a Nigéria, a região Yorùbá. Esta religião tem uma estrutura bem completa e complexa e se espalhou pela região em volta dela de forma bem ampla. Foi trazida ao novo mundo durante a diáspora negra.

Esta religião é dividida em 3 cultos principais: O culto de Orixá, o culto de Ifá e o culto de egungun. Cada um desses cultos tem uma especialização e um objetivo. O Culto de Orixá cuida da pessoa e da família. O culto de egungun, no qual as pessoas se comunicam com ancestres, cuida da comunidade e o culto de Ifá é dedicado ao oráculo da religião.

Em outro texto que comentei sobre a questão de alguns de que Ifá não seria religião. É religião, eu expliquei porque no texto, não vi ninguém explicar porque não era. 

A quem interessa que Ifá não seja o que é, isto é, parte de uma religião? Posso especular algumas alternativas: A pessoas que não tem fé, muito menos religiosa, e se interessam pelo comércio que ifá possibilita; pessoas que não conhecem, não aprenderam e não se interessam em estudar teologia, já estando dentro de Ifá a melhor opção é dizer que não pe religião; pessoas com múltiplas opções religiosas, quem não se identificou com nada ou se identificou com tudo, não reconhece uma religião; e por ai vai...

Existem em terras Yorùbá outros cultos como aspectos complementares ou colaterais deste culto, por exemplo o Gélédé. Não temos aqui. Em uma sociedade que já foi matriarcal mas hoje é extremamente dominada pela figura masculina, existe um culto dedicado a força feminina com um festival anual onde homens dançam vestidos de mulheres em uma reverência a energia feminina. Como estes poderemos ter outras variações e especializações que não nos interessam no novo mundo, temos que nos concentrar com o que já temos aqui e não em trazer a cultura de outra sociedade para cá. O Candomblé é a adaptação desta religião a nossa cultura.

A especialização de Ifá é o oráculo e só isso. O Bàbáláwo é uma pessoa dedicada a ser um mensageiro entre o divino e nós. O trabalho do Bàbáláwo é aprender a interpretar a forma como deus fala com a gente através do oráculo.

Mas, para melhorar o entendimento vamos a origem do oráculo. A questão é, por que o oráculo de Ifá existe na religião? Ou mesmo, poderíamos querer saber por que uma religião teria um Oráculo?


Os Videntes


O Oráculo não serve para sabermos do nosso futuro ou mesmo do nosso passado. O uso do oráculo para isso ou a existência de videntes dedicados a isso é apenas um uso colateral do supernatural. O Oráculo nos ajuda nos conhecermos para podermos construir um futuro melhor para nós mesmos.

O futuro é formado a cada dia baseado em muitas linhas de vida que se cruzam e entrelaçam. A cada momento decisões tomadas por nós e por outras pessoas podem mudar nossos caminhos e essas linhas. Não estamos sozinhos no mundo e não podemos esperar que apenas nossas decisões moldem o futuro da humanidade.

O futuro é uma terra desconhecida, já dizia Shakespeare em Hamlet ou o chanceler Gorkon (klingon) em Star Trek VI, e assim se preserva, talvez alguns possam especular onde essas linhas vão levar cada pessoa, mas a cada dia a cada momento milhões estão tomando suas decisões com lógica ou com emoção e mudando o rumo do futuro.

Conhecer o passado? Mais fácil, isso é bem conhecido para quem lida com o supernatural. Mas para que você precisa disso? A maior parte das pessoas usam disso como expediente apenas para obter a sua confiança antes de vaticinar conselhos e recomendações.

A técnica é simples, abre-se o leque de informações, quaisquer, quanto mais precisas melhores, sobre o passado apenas para impressionar quem houve. Falar sobre o que já ocorreu tem uma utilidade limitada, mas, é útil para quem quer demonstrar conhecimento. Uma vez que goza da confiança a pessoa usa essa confiança para projetar um futuro que, como eu já expliquei é incerto (muito diferente do passado), mas que, através disso, se consegue influenciar essa pessoa para tomar o rumo que se quer.

Este é o uso colateral do Oráculo, o que eu chamo de vidência. Tem pessoas muito boas nisso, boas mesmo, diz o que esta te acontecendo (presente-passado), diz o que te ocorreu (passado puro). A única coisa que as essas pessoas não podem fazer, jamais, é dizer o que você deve fazer.

A decisão do que fazer pertence somente, unicamente a própria pessoa. Videntes que tem ética e sabedoria JAMAIS te dizem que decisão tomar, essa é uma regra de ouro. Isso, decidir por você, é o que separa quem presta de quem não presta nesta atividade. Como eu falei, existem muito bons videntes, pessoas com o dom e que ajudam outras pessoas, assim como um bom Bàbáláwo faria, mas também existe o contrário.


O Oráculo dentro da Religião - Por que esta religião tem um oráculo?



A primeira questão que deve vir na cabeça de qualquer pessoa é, qual o sentido de um Oráculo em uma religião? Por que fazemos uma divinação?

Entendo que todos devem saber, ou supor, o que é um oráculo: um instrumento que fala sobre sua vida e sobre pessoas e fatos que o cercam e é procurado para podermos entender o que ocorre conosco.

O mais tradicional e comum uso de divinação é através de videntes, estes estão espalhados por todos os lugares e devem atuar desde que a humanidade existe. Mas, quando tratamos de religião é muito fácil as pessoas confundirem este uso dos videntes com a divinação no sentido religioso, ou mesmo, não entenderem que existe uma distinção.

Sem dúvida posso afirmar que a existência dos videntes laicos (laico é o que é não religioso) vulgariza o sentido do oráculo religioso. Dessa forma, a primeira coisa que temos que fazer é entender porque uma religião tem um oráculo.

Os videntes sempre estiveram por aqui. São pessoas com dons especiais que os permitem ter conhecimento sobre a vida das pessoas que os procuram. Esta é uma capacidade que nasce com eles e sua prática não obrigatoriamente os liga a uma religião. Eles podem ter a sua religião mas, a sua prática de vidência, é um dom pessoal que pode ser exercido sem qualquer contexto teológico.

O contexto teológico é aquele no qual as mensagens passadas aos consulentes está alinhada ou transmite valores e conceitos da religião a que pertence o oráculo. O olhador do oráculo deve se preocupar em transmitir mensagens e orientações que sejam alinhadas com a teologia de sua religião.

Os videntes, por sua vez, se comunicam com um mundo espiritual que nos cerca, o supernatural, e conseguem transmitir às pessoas que os consultam mensagens e informações que serão usadas por essas pessoas na condução de seus problemas e vida.

A prática da vidência é basicamente um processo mercantil que sustenta o vidente, sem dúvida. Mas, o importante não é o aspecto mercantil, isso é um detalhe, porque muitas vezes a divinação religiosa também é sustentada por uma transação mercantil. O que é relevante é que a prática da vidência em si, não serve a qualquer contexto religioso.

A falta do sentido religioso não os torna pior ou uma opção ruim. Pelo contrário, não existe correlação entre prática religiosa da divinação e qualidade de consulta. Videntes podem ser pessoas com dons extraordinários, que usados com ética e bom senso, podem se reverter em benefício para as pessoas que os consultam.

O que estou ressaltando aqui é divisão de 2 tipos de divinação. Aquela feita dentro de um contexto religioso e que tem, motivo, razão e propósito para existir, daquela divinação feita por videntes, que também servem às pessoas, mas, não através de uma religião.

As pessoas não podem sempre associar a prática da divinação ao contexto religioso africano, por exemplo, porque a prática da vidência existe de forma independente. Oráculos existem em muitas religiões, não somente nas africanas. Os videntes existem e trabalham de forma independente de uma religião. Como citei muitos terão sua própria religião e podem deixar isso explícito no seu local de trabalho, mas, a sua prática não implica necessariamente o contexto religioso.

Igualmente as pessoas não podem associar a prática mundana da vidência à divinação dentro de uma religião. Os métodos as vezes podem ser similares na aparência, mas o conteúdo e contexto são distintos. Claro que a finalidade de uma divinação é sempre a mesma, seja no âmbito sacro ou mundano, as pessoas procuram ajuda e orientação.

A minha insistência nesse ponto aqui, da dualidade de oráculos, deve ao fato que o charlatanismo existe em todos os segmentos e atividades da sociedade, do mecânico ao religioso. Onde existir gente necessitando de soluções e disposta a pagar para resolver os problemas que tem ou que criou, existirão pessoas para se usar disso.

Impossível afirmar que o charlatanismo está associado a prática da vidência e a virtude à prática da divinação religiosa. Seria muito simples e ingênuo estabelecermos um modelo maniqueísta. Não é assim no mundo real.

Assim, vamos nos fixar no ponto mais simples que é o de entender que temos a divinação religiosa e também temos os videntes laicos ou destinados aos assuntos mundanos. Ao ver um oráculo nunca associe ele a uma religião e também entenda que aquele instrumento mundano muitas vezes pode estar servindo a propósitos elevados dentro de uma religião.

O fato inegável é que, existe o mundo no qual habitamos e existe um mundo espiritual que nos cerca e permeia. É este mundo espiritual que serve aos videntes. As religiões trazem para esse mundo espiritual um contexto mais elevado e menos mundano na nossa existência.

O oráculo existe como parte de muitas religiões, eu posso até mesmo especular que sua existência dentro de uma religião, deve ser a situação normal, a regra, e a exceção, o anormal, é a religião não possuir um oráculo.




O Oráculo como forma de chegarmos a deus


Os oráculos dentro da religião nos permitem dialogar diretamente com o divino através de suas divindades. A divinação será empregada quando necessitamos da intervenção do divino em nossa vida e essa ajuda poderá ser feita através de perguntas e respostas diretas. Vamos exemplificar isso mais extensivamente adiante, mas, a base do oráculo está na Fé de que o divino nos assiste.

É um modelo muito exótico o de uma religião que não permite que seus seguidores tenham contato e orientação do divino, ou seja, que não tenha um oráculo. Tem que ser um exercício de fé cega, de fato, uma pessoa participar de uma religião que não lhe traz nenhum retorno do divino que ele cultua e acredita. A pessoa basicamente acredita, reza, adora e espera o retorno disso de forma subjetiva e muito sutilmente. A fé, neste caso, tem que ser baseada em uma crença unilateral que o divino o assiste e que tudo o que ocorre com ele é o que deveria ser e também já é o melhor possível.

A pessoa vive, entra para a religião para chegar a deus e esta religião diz para ele que isso só vai acontecer quando ele morrer ou no dia do juízo final. Como!?

Todos devem perceber que estou descrevendo o modelo cristão, um dos maiores críticos das religiões africanas. Sim, fé cega e nenhuma forma de interação com o divino. Notem que, não se trata aqui de crer ou não que existe um divino, um deus e suas divindades auxiliares, mas, de participar de uma religião na qual, o que você tem que fazer é, apenas, crer nele e rezar.

As respostas de deus às suas preces será, sempre, o mais absoluto silêncio.

Esta tese já foi explorada por filósofos e críticos. Voltaire escreveu o Livro “O Cândido” onde coloca em sua história as contradições da relação da igreja com a sociedade. Na figura de Pangloss o mestre de filosofia de Cândido (o personagem principal). Pangloss, expressava que tudo o que existia ou que acontecia era o que de melhor poderia haver. O mundo que tínhamos era o melhor que poderia existir e na nossa vida tudo já era o de melhor.

Este conceito de fé absoluta expressado por Pangloss, refletia uma das teses dogmáticas do cristianismo, a de que não poderia se aceitar que deus, Jeová, não nos desse o melhor ou que deus permitisse algum mal sobre nós. Esta tese foi ridicularizada em todo o livro com os personagens passando pelas situações mais esdrúxulas e terríveis e o Pangloss repetindo sempre a mesma coisa.

Mas, de fato, o cristianismo, possivelmente a maior religião do mundo, tem esse paradigma, de que o mal não pode vir de deus. Para poder fazer isso valer é inventado o impossível para justificar o injustificável, tudo fruto de uma concepção teológica equivocada.

Existem outros paradigmas que são encruzilhadas da fé na forma como os cristãos a veem, mas, o que é suficiente aqui é entender o contraponto de modelos para que passamos entender e justificar o oráculo dentro de uma religião.

A ausência de um oráculo, uma forma direta de se comunicar e receber orientações de deus, coloca os cristãos em uma situação muito extrema. Eles tem um divino no qual creem, mas, não obtêm deste divino qualquer tipo de orientação e ajuda que já não esteja escrita no seu livro sacro, a bíblia. Tudo que está ali, já escrito, é todo o retorno que eles tem do divino para suas vidas. O padre é a pessoa que pode lhes aconselhar baseado no que aprendeu da interpretação do livro sacro.

Assim, eles devem acreditar cegamente que suas vidas são as melhores possíveis e que lhes cabe rezar e adorar seu deus para que ele continue assim, silenciosamente e distantemente os ajudando. Eles devem crer, sob pena de estarem cometendo uma heresia, que deus sempre lhes dá o melhor possível, sem qualquer obrigação ou possibilidade de orientações adicionais.

Eu estou tornando extremo os meus comentários não no sentido de distorcer nada, porque não estou distorcendo, mas sim, deixar claro o que esta situação significa na prática. O uso da religião cristã como uma referência de contraponto é para facilitar o entendimento do motivo de uma religião ter um oráculo, já que esta é bem conhecida e não o tem.




O Oráculo na religião Yorùbá


A religião Yorùbá tem a figura do oráculo como um instrumento para que os crentes se comuniquem com deus. 

O oráculo na religião é um instrumento para a presença de deus na vida das pessoas. É ele que faz o divino presente e não distante. É o oráculo que responde à nossa fé e que dá elementos para que possamos ser bem-sucedidos nesta vida.

A religião Yorùbá é encarnacionista, acreditamos que vamos viver muitas vezes, vamos renascer continuamente. Existe um mundo espiritual, o Orun, e um mundo natural ou físico o Aiye, que é onde estamos agora. Antes de nós nascermos, novamente, ainda no Orun nós estabelecemos objetivos para nossa nova vida e antes de irmos para o aiye, para nascermos, nós nos ajoelhamos na presença de deus, Olodumare tendo como testemunha somente uma divindade Òrúnmìlà. Òrúnmìlà é o único testemunho de nosso destino, somente ele e deus sabem o que planejamos para nossa vida.

Deus sabe que a vida no aiye é bem difícil, que existem dificuldades, acidentes, incidentes, catástrofes naturais, imperfeições congênitas e pessoas que podem atrapalhar esse nosso destino. Dessa maneira ele encarregou os Orixá de cuidarem de nós e Òrúnmìlà de ser o mensageiro entre as pessoas, os orixás e deus.

Olodumare nos concede o destino pedido e nos dá para isso ferramentas que usaremos em nossa vida. Essas ferramentas serão o axé dele através do Odù de nascimento, o nosso orixá de orì, o nosso orì, o nosso anjo guardião e ainda permitirá que escolhamos outras coisas no Orun, como o Iwa e a possibilidade de lá, no Orun, realizarmos oferendas propiciatórias que nos preparam para esse nosso destino.

Existem pessoas que são negligentes nos preparativos para nascer e por isso mesmo vão ter uma vida mais complicada, seja pela dificuldade ou pela falta de rumo e objetivo, mas isso foi a escolha delas.

Olodumare tem com a gente todo o comprometimento em termos sucesso em nossa vida. Olodumare, deus, está comprometido que sejamos felizes e tenhamos sucesso e para isso, para que sejamos suportados ele estabeleceu a existência do oráculo de Ifá, através de Òrúnmìlà.

A nessa religião Yorùbá se baseia na presença contínua do divino na vida de seus crentes, na interação contínua de deus com eles e na certeza de suas intervenções e orientações individuais. O crente nos Orixá (Òrìṣà) vive junto com eles, se dedica a essa crença, segue orientações de vida e também se submete a regras. Contudo junto essa sua demonstração de Fé ele recebe dos Orixá (Òrìṣà) e de Olódúmarè.

Desta forma, quando sentimos que precisamos de uma ajuda para nossa vida, quando entendemos que algo esta errado e que não conseguimos com nossos recursos resolver o que fazer, entender o que ocorre com a gente ou qual o melhor caminho a tomar, temos o recurso de recorrer à nossa religião, e, usando o oráculo, pedir a ajuda de deus para nossa vida.

É muito importante observar que, esta religião não submete os homens ao divino. Não vivemos aqui de favor e não temos que prestar homenagens e oferendas para podermos viver em paz. Não existe submissão ou dependência. Nós vivemos com a ajuda do divino e não para o divino.

O oráculo de Ifá resume essa de uma forma extraordinária e por isso é um dos símbolos maiores da religião dos Orixás (Òrìṣà).

O oráculo significa a Fé do crente de que ele não está sozinho e que é cuidado e acompanhado por seu Orixá (Òrìṣà) e sua divindade pessoal. Revela que o divino intervêm ativamente e de forma individualizada na sua vida. Revela que a Fé nisso esta cima de tudo e que ele acredita e segue as orientações que o oráculo traz para ele. Revela que ele acredita que as mudanças na sua vida ocorrida após essa consulta advém da intervenção do Orixá (Òrìṣà) na sua vida.

Esta não é uma religião que tem um deus distante e que a dos seus crentes deve se basear na esperança de que ele o esteja ouvindo e na observação de sinais sutis de sua presença. Deus não existe porque os sacerdotes bradam para multidões palavras genéricas que são repetidas à exaustão, estas sim, velhas fórmulas que foram escritas por homens.

Quando a gente entende o oráculo na religião como parte deste processo de troca e de efetiva assistência da religião na nossa vida, não só como orientações e valores, mas, também, com orientações diretas no momento que precisamos, nós passamos a não compreender como pode existir uma religião sem oráculo.

O processo do Oráculo resume a da religião. Quem acredita no oráculo acredita em tudo o que a religião lhe oferece. O oráculo representa o compromisso da religião em nossa felicidade nesta vida que estamos vivendo. Representa o comprometimento da religião com o nosso sucesso e felicidade.

Como podemos acreditar que deus quer o melhor para nós, que quer o nosso bem se não temos um oráculo para nos ajudar e orientar quando precisamos?




O Oráculo de Ifá



O culto de Ifá é dedicado exclusivamente a uma divindade, a Òrúnmìlà. O Bàbáláwo em sua vida vai cultuar somente esta divindade que é a divindade que responde em seu oráculo. Òrúnmìlà, como testemunho de nosso destino junto a deus é o único que sabe o que planejamos para nossa vida, de forma que, quando temos uma dificuldade que não conseguimos resolver, vamos ao oráculo da Ifá, para que através de Òrúnmìlà possamos nos comunicar com o divino, com ele, Òrúnmìlà, que sabe o nosso destino e com os orixás que nos assistem na nossa vida.

O que torna o oráculo de Ifá especial para as pessoas é o conceito de Òrúnmìlà ter sido a testemunha de nosso destino, ele sabe o que nós planejamos para nós mesmos.

Existem Bàbáláwo que se acham especiais por causa disso. O que eles esquecem é que, eles não são Òrúnmìlà. Eles apenas interpretam o que Òrúnmìlà diz para o consulente, a gente pode dizer que Bàbáláwos são intérpretes ou estafetas. Um Bàbáláwo que acha é deus é como se fosse o porteiro do prédio achando que é o dono do prédio.

Sem dourar muito essa pílula, Ifá é um oráculo que possui instrumentos oraculares que são usados por sacerdotes chamados de Bàbáláwos. São 2 os instrumentos básicos de um Bàbáláwo, os Ikins, que é o instrumento principal e o Opele, que é o instrumento secundário e deve ser usado para acelerar o processo de consulta e dar agilidade ao Bàbáláwo.

O opele não deve substituir o Ikin. O Ikin é o instrumento sagrado e o símbolo de Òrúnmìlà.

Conforme descrito em uma história de Ifá, Òrúnmìlà tinha muitas consultas para fazer e precisava de trabalhar mais rápido. Pediu ajuda a Olodumare e este enviou para ele o Opele. Apesar disso, o Bàbáláwo deve ter critério no uso do Opele. O ikin é o instrumento sagrado e não o Opele, que é um instrumento auxiliar.

Instrumentos Oraculares servem para executar a conversa com deus estando, de um lado, o consulente com o problema e do outro Òrúnmìlà, com as informações que o consulente precisa saber. No meio dos dois está o Bàbáláwo o intermediário, aquele que opera o instrumento oracular e interpreta o seu uso com o objetivo de transmitir as mensagens de Òrúnmìlà.

É deste forma que o Bàbáláwo deve ser visto. É a pessoa que aprende a utilizar os instrumentos oraculares que são usados para que o consulente receba as informações de Òrúnmìlà. Seria ótimo se a gente pudesse falar diretamente com Òrúnmìlà, como se fosse uma consulta, mas não pode, assim, depende do Bàbáláwo para isso.

Vamos ressaltar, de um lado, você com seus problemas e dúvidas, do outro, Òrúnmìlà aquele que testemunhou junto a Olodumare o que você pediu para sua vida, nesta religião a divindade da sabedoria, no meio, o Bàbáláwo para traduzir e transmitir isso para você.

O que torna esta tarefa complexa, a interpretação do que Òrúnmìlà diz, é que o Bàbáláwo não é um vidente, ele não tem aurividência ou clarividência para ouvir e ver o que Òrúnmìlà diz para ele. A base da comunicação são símbolos gráficos, 256 sinais. Em uma consulta o Bàbáláwo usa um conjunto desses símbolos para interpretar o problema e entender a mensagem que deve ser dita.

Vamos, devagar, é isso mesmo, a cada símbolo estão associados significados, cabe ao Bàbáláwo usar um conjunto de Odùs (símbolos) para, através desses símbolos e possíveis significados, primeiro, entender o problema da pessoa, segundo analisar e definir o que deve ser dito para o consulente, terceiro, definir o que deve ser feito para ajudar a pessoa.

Junto com o consulente ele vai adequando às possíveis interpretações com aquela que tem mais significado para o consulente e desta forma reflete o real problema e o que deve ser dito a ele.

Mas as informações que o Bàbáláwo deve usar para isso não estão prontas, não existe um manual de usuário, no qual o Bàbáláwo possa estudar e decorar as informações de cada Odù. O que existe é a famosa “tradição oral”, isso mesmo, um enorme conjunto de histórias na forma de versos que relatam situações e eventos.

Cabe ao Bàbáláwo aprender esses versos e interpretá-los, buscando em metáforas entender o problema do consulente. É uma grande trabalho de interpretação e baseado em uma enorme subjetividade. Nada é objetivo e direto. O conhecimento de Ifá está deitado no berço de versos de uma literatura Yorùbá bastante regional e que requer informações sobre o povo, a cultura e a própria região para ser bem entendido.

Devido a esta estrutura, muitas vezes é adequado ter mais de um Babalawo em uma consulta. Cada um deles pode saber mais histórias ou oferecer um entendimento variante da questão, complementando ou corrigindo a interpretação. Uma consulta é, ou deveria ser um trabalho cooperativo.

Compreendeu a complexidade?

Não pode depender de Bàbáláwo idiota ou burro.

Existem? Claro!

Você acha que tem prova para ser Bàbáláwo? NÃO! A pessoa paga para ser Bàbáláwo.

Eu fiz um texto que vou republicar que explica a anatomia de uma consulta. Neste texto você entende como se dá o processo de interpretação do oráculo e o que faz o Bàbáláwo.

Não é um trabalho simples o do Bàbáláwo. Mas é uma base de conhecimento comum, por essa razão é que você vai poder ver vários Bàbáláwo juntos interpretando o mesmo jogo. Também não é um processo determinístico, a interpretação das histórias é compartilhada com o consulente para que o próprio consulente opine.

Os cubanos não usam os versos de Ifá. Tudo isso que todos conhecemos sobre ifá, de ser uma cultura oral, de ser a base teológica da religião, de ser formada por versos não se aplica aos cubanos. Eles não usam versos e muito menos africanos, eles criaram as suas próprias histórias que são chamadas de patakis. Tem a mesma finalidade, através de sua interpretação você analisa o problema da pessoa. Entretanto os cubanos foram além, eles criaram pré-interpretações das suas próprias histórias e incluíram nos chamados tratados. Criaram assim o tal manual de usuário, ou manual de uso rápido. O problema disso é que a qualidade dessas interpretações é questionável e os Babalawo desta tradição, pelo menos os brasileiros, estão ignorando o uso dos pataki, as histórias e isso vai contra o processo de Ifá. Mas esse não é o tema aqui.

Como muita coisa já foi dita vou fazer um resumo para continuarmos. Ifá é um oráculo religioso baseado no conhecimento que a divindade Òrúnmìlà tem de nossa vida em função dela estar em nossa companhia quando vamos a deus, olodumare, pedir o nosso destino.

Deus criou o oráculo de ifá, para através de Òrúnmìlà nos sermos orientados em nossa vida de forma termos sucesso.

O oráculo de Ifá é baseado no uso de 256 símbolos. Cada símbolo tem ligado a sí um conjunto de histórias na forma de versos e é na interpretação desses versos que são obtidas as informações que serão ditas para o consulente. Em uma consulta não é usado apenas a informação de 1 desses símbolos, normalmente 3 símbolos são usados, mas isso pode variar para mais ou menos.

Esta interpretação é simples? Não. Requer habilidade, sensibilidade, prática, criatividade e inteligência. Usar as pré-interpretações é muito mais simples, porém de baixa qualidade.



O que faz um Bàbáláwo?



O Bàbáláwo é o cara que manipula o oráculo. Ele é o operador do “telégrafo” com Òrúnmìlà. Cabe a ele receber os símbolos, interpretá-los e transmitir para o consulente o que sua interpretação indica.

O Bàbáláwo deve então se dedicar a aprender algumas coisas:

  • Deve estudar os 256 símbolos de Ifá e conhecer suas histórias e forma de interpretá-las. 

  • Deve aprender a mecânica do uso dos instrumentos oraculares de Ikin e Opele para uso dentro de uma consulta de ifá. 

  • Deve aprender a mecânica de fazer os ebós e trabalhos de ifá para poder dar sequência a recomendação das consultas. 

Existem 3 coisas que um Bàbáláwo aprender se quiser ou se esforçar muito e muitos Bàbáláwo podem nunca aprender direito por falta de formação:

  • Teologia da religião: Não faz parte de Ifá. Se a pessoa quiser vai ter que aprender isso por seus próprios recursos e organização. Não é automático aprender a teologia da religião quando se estuda os Odù. São coisas distintas, existem informações teológicas dentro dos Odù mas a maior parte do conhecimento esta fora deles.

    Além disso os Odù não são organizados de maneira didática, o objetivo dos versos do Odù é ter a cobertura para os problemas dos consulentes.

    Cubanos e pessoas ligadas somente ao Ifá cubano vão ter muita dificuldade de aprender e expressar a teologia, teogonia e cosmogonia Yorùbá. Esse conhecimento não existe ou é muito ruim, mas muito ruim mesmo, nas fontes deles. Elas misturarão o conhecimento de outras religiões ou se informarão em outra religião para poder se expressar usando uma teologia e teogonia. É bastante comum mesmo no Candomblé ver sacerdotes que não sabem falar da sua teogonia e recorrem da teogonia das outras religiões.

    Aqui no Brasil para o Candomblé existe uma dificuldade especial. Ifá esta ligado a religião Yoruba. A religião Yoruba esta ligado ao grupo KETU. No Candomblé temos outras matrizes religiosas além da matriz Yoruba. Os grupos do Candomblé ligados a Jeje e Angola deveriam estar muito desconfortáveis para lidar com Ifá que é construído para uma teologia e teogonia que não lhes pertence. Ifá é Yoruba, e é baseado em Olodumare-Orunmila-Exu, é também ORIXÁ. Não é vodum e não nkisi.

    Existe uma conversa citando "Fá" como uma coisa Jeje. Bobagem. No princípio do século XVIII a mãe de um rei Mahi, que possivelmente era Yoruba trouxe para as terra Mahi o Ifá Yoruba. Eles não tinham nada lá equivalente. Ifá foi inserido assim como algumas divindades Yoruba (vou narrar essas historia oportunamente).

    Veja não estou fazendo nenhum juízo de valor, isso ai é informação histórica.

    Fica fácil a gente entender porque existem pessoas que procuram separar Ifá de religião. Uma pessoa que venham de outra matriz religiosa, diferente da Yoruba jamais vão querer encarar Ifá como religião porque Ifá não representa a religião delas ou porque elas não aprenderam a religião que Ifá faz parte.

    Os cubanos também, porque eles estão muito distantes da teologia Yoruba. Eles criaram um culto próprio de orixá, com coisas e formas que só eles tem. Não tem diversos conceitos e usam outras que foram introduzidos tardiamente, na década de 50 quando começaram a chegar na ilha livros de antropólogos. A ligação deles com a religião Yoruba é infinitamente menor do que a ligação do grupo Ketu aqui no Candomblé.

    Muitos podem questionar, por que eu falo de teologia Yoruba? Porque ha anos estudo isso com muita intensidade e ao lado de Ifá.

  • Trabalhar com folhas: Folha é o coração dos fundamentos desta religião. Isto só se aprende com práticas e muitos anos. A pessoa que virou Bàbáláwo e não aprendeu isso antes vai ter muito trabalho para aprender isso depois. Some a isso o fato de que cubanos usam outra flora e com finalidades diferentes. Temos mais folhas que os africanos, mas temos muitas que tem lá e outras que não tem aqui.

  • Oferendas a orixá: Isto é um capítulo muito especial. As oferendas a orixá não fazem parte de Ifá e sim do culto de orixá. Tudo passa por orixá, mesmo no culto de Ifá. Cubanos usam o que é feito para orixá no culto deles e os africanos idem. Nós brasileiros devemos usar o que é feito no nosso culto de orixá.

    O primeiro aspecto aqui, é que se a pessoa nunca foi do culto de orixá vai aprender da forma dos estrangeiros. O segundo aspecto é que atender a pessoas no Brasil que já pertençam ao culto de orixá usando esse tipo de prática é péssima. 

Existem algumas coisas que Bàbáláwos podem estar fazendo e que não deveriam fazer:

  • Se meter em assuntos do culto de orixá para pessoas que façam parte ou já fizeram. Isso não é assunto para Bàbáláwo.
  • Distribuir assentamentos de orixá, exu ou iniciações de orixá. Os tratados cubanos e nigerianos estão recheados disso. Isso é apenas um caça-níquel.

Todo Babalawo sabe fazer tudo? Nem sempre. Os próprios nigerianos reconhecem que a pessoa pode se especializar em 2 aspectos do trabalho do Babalawo. Ele pode se aprofundar na análise dos Odù e na sua interpretação ou ele pode se aprofundar na proficiência na execução de ebós, cerimônias e oferendas. Ambas as áreas exigem conhecimentos diferentes e complementares.

Isso não significa que você vá encontrar Babalawos de um tipo ou de outro, um Babalawo faz as 2 coisas.



Resumo


Finalizando, um Bàbáláwo não é nativamente nenhum especialista em religião ou em teologia. Muito menos é um especialista em orixá, lamento decepcionar aqueles que constroem ou construíram uma imagem diferente.

Um Bàbáláwo é uma pessoa dedicada a uma divindade e um culto. O trabalho dele é aprender a mecânica do uso de instrumentos oraculares, lidar com isso com confiança e desenvoltura, aprender o significado dos símbolos de Ifá (signos de Odù), interpretar o significado para cada pessoa das mensagens de Òrúnmìlà e fazer os ebós indicados para ajudar a pessoa.

Esta é a rotina básica do Bàbáláwo.

Ifá é um oráculo. Ajuda você a entender o presente para que você possa construir melhor o seu futuro.


O Bàbáláwo pode ajudar muito o candomblé devido a sua intimidade com o uso do oráculo. 

O Bàbáláwo é o oráculo e o oráculo é o Bàbáláwo. Ele não se intimida com perguntas ou respostas. Enquanto que no Candomblé pouco se prepara e pouco de confirma e quando se faz isso usa-se uma cebola ou um instrumento voltado para sempre dizer sim, o Bàbáláwo é uma pessoa habituada e lidar com todas as respostas e encontrar solução para todas as situações.

O Babalorixá é o cara que sabe tudo, que tem que saber tudo, que não pode errar e que não pode ser questionado. O Babalawo não tem egos e vaidades, ele faz o que o oráculo manda, ele confirma tudo o que faz e ele é corrigido o tempo todo pelo oráculo. O Babalawo não se preocupa em ser corrigido, ele quer é fazer o que é certo em cada caso.


O Babalawo não segue receitas. Ele segue indicações e faz ajustes o tempo todo particularizando cada procedimento ao consulente.

Com o suporte de um Bàbáláwo, obrigações e trabalho pode fluir com mais precisão e firmeza. O Bàbáláwo ajuda a preparar, conduzir e confirmar. Ele não tem que se meter nos ritos do Candomblé ou trazer insegurança para ninguém, ele é uma pessoa cujo único trabalho é dialogar com o divino.