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sexta-feira, maio 29, 2020

Olóòkun e as crianças de orixá (Òrìṣà)

Introdução

Esta história sobre Olóòkun é bastante interessante. Foi extraída de um verso de Ifá e não diz respeito a Olóòkun ela tem uma mensagem poderosa que quero trazer aqui.

Como eu sempre falo mensagens tiradas de versos de Odù são muito complicadas porque uma mesma situação tem recomendações diferentes para pessoas diferentes dependendo do contexto. Existem poucas mensagens que são absolutas.

Essa aqui é uma pouco diferente e merece destaque.

O trabalho do Bàbáláwo é analisar essas história junto com o consulente e entender como isso se encaixa na vida e nos problemas dele. É um trabalho de detetive e psicólogo, as vezes de filósofo. Se Bàbáláwo não é para qualquer um.

Recomendo que leiam essa história e façam sua análise.

Antes disso, uma observação. Olóòkun é considerado um orixá (Òrìṣà) masculino em toda a terra yorùbá. A origem deste orixá (Òrìṣà) é no Benin (não é Dahomey) e na sua origem é masculino. Somente é Ifé ele é considerado feminino. Essa história possivelmente é de Ifé porque mostra orixá (Òrìṣà) como feminino.


Olóòkun e as crianças de orixá (Òrìṣà)

Em termos de acumulação financeira e de ativos, Olóòkun foi a divindade mais bem-sucedida criada por Olódùmarè. Ela possuía quatro quintos de todos os recursos na Terra. Ela controlava muito mais coisas na terra do que todas as outros inrumolé (Irúnmọlẹ̀), orixá (Òrìṣà) e seres humanos juntos. Ela era um orixá (Òrìṣà) muito honrada e respeitada. Seu festival anual também era o maior evento do mundo.

Sempre que ela convidava inrumolé (Irúnmọlẹ̀), orixá (Òrìṣà) e seres humanos para sua celebração, eles deveriam vir com, pelo menos, um de seus filhos. Quando os convidados chegavam à festa, algo acontecia que afetaria seus filhos. Quando chegava a hora de começar a cerimônia, as crianças que acompanhavam os pais, ou seriam levados pelo mar ou eles perderiam suas vidas se afogando no oceano. A maioria dos que participaram da cerimônia voltaria para casa sem os filhos e com uma longa e triste história para contar aos outros.

Chegou a data em que Olóòkun convidou todos os 401 inrumolé (Irúnmọlẹ̀) para sua festa anual. Todos eles deveriam vir com, pelo menos, um de seus filhos. Era impossível que eles se recusassem a comparecer porque esse não era o caminho das Divindades. Foi quando Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) finalmente decidiu ir para consultar Ifá: O que devo fazer para evitar a perda do meu filho se eu participar do festival anual de Olóòkun?

O Bàbáláwo disse a Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) para oferecer um ebó (Ẹbọ) om duas cabras adultas; uma seria para o ebó (Ẹbọ) e a outra seria entregue a Olóòkun ao invés de seu próprio filho. Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) foi instado a oferecer o ebó (Ẹbọ) antes da data do festival. O Bàbáláwo assegurou que, se fizesse isso, seu filho seria poupado. Ele também foi advertido a não para ir à cerimônia com qualquer um de seus filhos. Ele obedeceu.

No dia da cerimônia, todos os convidados vieram com seu filho. Somente Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) foi lá com sua própria cabra. Todos aqueles que o viram pensaram que ele era louco ou cínico. Todos foram instruídos a trazer ao menos um de seus filhos, então por que Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) veio com uma cabra ? Todos os convidados estavam totalmente convencidos de que Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) receberia a humilhação de sua vida naquele dia porque Olóòkun não acharia esse estranho senso de humor um caso engraçado.

Quando chegou a hora das crianças irem comemorar com Olóòkun, um por um, todos os convidados foram adiante e entregaram seus filhos. Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) também foi adiante, mas entregou sua cabra. Na presença dos pais, as crianças foram levadas para o mar. A maioria deles foi lavada enquanto os restantes se afogaram bem nos olhos de seus pais! A cabra foi abatida para consumo, também na presença de todos os convidados.

Antes do final da cerimônia, Olokun convocou Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) e todos os outros convidados para sua presença. Todos eles esperaram ansiosamente para testemunhar como Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) receberia o esculacho que ele merecia. Como ele ousa trazer com ele uma cabra quando todos os outros trouxeram seus filhos, eles se perguntavam?

Quando todos se reuniram, Olóòkun enfrentou Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) e Perguntou; "Por que você escolheu trazer uma cabra quando você deveria vir com um de seus filhos? Você pode se explicar a todo mundo aqui, o que está por trás de sua ação?

Todo o encontro ficou completamente silencioso. Eles queriam ouvir suas razões para se comportar de maneira tão engraçada. Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) pigarreou e com um sorriso, ele respondeu: “depois de deliberar profundamente com o meu Orí, concluí que isso me traria muita tristeza e agonia pelo meu filho amado a ser morto diante de meus olhos. É por isso que eu decidi trazer uma cabra comigo. Se a cabra fosse morta, como você fez, não me machucaria nem me causaria pesar como esse

faria se fosse a morte do meu próprio filho. Por isso não pude trazer minha

criança para esta cerimônia e ver meu filho morrer diante dos meus olhos.

Esse é o seu motivo?”, Perguntou Olóòkun. “Sim, essa é a minha razão”, respondeu Órunmila (Ọ̀rúnmìlà). Olóòkun então voltou sua atenção aos outros convidados que haviam perdido seus filhos. Ela então perguntou a eles ”por que nenhum de vocês raciocinou da maneira que Órunmila (Ọ̀rúnmìlà)? Nenhum de vocês é menos brilhante. Todos que são brilhante não são inteligentes. Aqueles que são inteligentes faltam entendimento. Aqueles que têm entendimento entre vocês não sabem como combiná-lo com sabedoria. Quem tem sabedoria não sabem como aplicar sua retrospectiva e previsão de qualquer maneira! Vocês são todos tolos! Vocês todos foram trazer seus filhos para o meu festival e toda vez que eles têm morrido.

Não foi suficiente a primeira experiência para ensinar a todos uma lição? Você não pode emprestar uma folha em retrospectiva? Por que nenhum de vocês poderia prever que isso no ano seguiinte teria o mesmo padrão do ano passado e do ano anterior? Você todos continuaram trazendo seus filhos aqui para serem mortos! Onde estão seus cérebros? De repente seu cérebro vazou de seus ouvidos? Vocês são os inrumolé (Irúnmọlẹ̀) ao quais os assuntos do mundo repousam em suas mãos? Vocês são todos tolos!

De qualquer forma, não se preocupe mais com isso. No próximo ano, traga seus filhos novamente e testemunhe eles serem mortos!

Ela então parou um pouco. A essa altura, os rostos de todos os convidados já estavam se contorcendo em enormes caretas de agonia. Muitos deles começaram a desejar o chão para abrir e engoli-los. Ela então perguntou: “quando todos vocês foram convidados pela primeira vez e vocês perderam seus filhos, por que você não usou a sua retrospectiva e avaliação quando você foi convidado novamente no ano seguinte? Se todos vocês tivessem decidido deixar seus filhos para trás em casa, o que poderia uma pessoa fazer contra 401 inrumolé (Irúnmọlẹ̀) depois de todos terem tomado uma decisão? Ela então declarou ”quando uma lei é feita, assim que alguém percebe que a lei não está no interesse do grupo, a única coisa razoável é revogar essa lei! Por quê todos vocês não usaram seu bom senso? Por esse motivo, todos vocês precisam elogiar Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) por usar seu discernimento, retrospectiva e previsão. Ele é o único que foi poupado de agonia entre vocês! Isso é tudo o que tenho a dizer a todos os presentes aqui hoje. Ofereço a todos um bom dia!

DESEJO QUE TODOS REFLITAM SOBRE ISSO NA VIDA DE VOCÊS.

domingo, maio 24, 2020

Nàná Buruku em Ifá

Introdução

A história a seguir foi retirada de um verso de Ifá documentado por Popoola. Estou destacando porque é bastante difícil encontrar histórias de orixá (Òrìṣà) em Ifá. Os personagens dos versos são Órunmila (Ọ̀rúnmìlà), Exú (Èṣù) e desconhecidos. As vezes outros inrumolé (Irúnmọlẹ̀) que não são orixá (Òrìṣà). A presença de orixá (Òrìṣà) é bem pequena.

As pessoas pensam diferente, que em Ifá está tudo da religião. Não é verdade. Existem sim alguns versos estruturais, importantes que trazem aspectos gerais da teologia e podem ser referenciados sem contextos. Contudo, versos tem contexto, dizem coisas diferentes para a mesma situação. Não se pode fazer o que muito Bàbáláwo descompreendido faz que é citar verso como se fosse sabedoria, como se fosse a bíblia, porque o conexto do verso e a mensagem mudam em função da pessoa e do problema. O mesmo problema pode ser indicações diferentes.

Encontrei então esta história de Nàná e estou mostrando aqui. Primeiro por estar associado a um verso, do Poppola (a fonte é importante) e segundo porque traz uma mensagem interessante e também permite conhecer um pouco do orixá (Òrìṣà), nessa versão do Popoola, claro.

Tenho outra fonte de mitos que orixá (Òrìṣà), uma muito boa, do Alex Cuoco e fica claro que Nàná e Ògún estão sempre envolvidos e em conflito.


NÀNÁ e ògún


Bùùkúù, também conhecido como Nàná Bùùkúù foi uma extremamente bem-sucedida mulher. Ela era muito rica. Ela tinha um grande número de seguidores. Ela era uma Orixá (Òrìṣà) de quem muitas mulheres gostavam. Ela guiou, guardou e apoiou Muitas mulheres. Bùùkúù, no entanto, não deu filhos às mulheres nem ela tomou seus filhos deles também. Ela simplesmente garantiu a proteção das mulheres seus filhos. Ela também os defendeu contra toda agressão, principalmente de seus maridos e vizinhos. Todos os homens bêbados e agressivos que tomaram prazer em violar as mulheres como uma maneira de deixar escapar suas próprias frustrações perceberiam que ter medo de Nàná Bùùkúù foi o começo de ter sabedoria.

Isso porque ela faria todo o possível para vingar qualquer violência ou humilhação contra as mulheres que eram suas seguidoras. Por esta razão, ela tinha um grande grupo de mulheres a seguindo. Associação ao seu grupo era para sempre. Isso a tornou ainda mais popular. Muitas mulheres idosas vêem isso como um santuário contra as famílias de seus esposos que vezes, gostam de enganá-las ou criar problemas para elas assim que o marido deles morria. Todos os seus seguidores estavam prontos para oferecer qualquer sacrifício que ela pedisse para fazer porque sabiam que os resultados desejados surgiriam assim que eles fizeram os sacrifícios.

Apesar desse sucesso, Bùùkúù não conseguiu ter seu próprio marido. O motivo disso foi porque sua reputação como um orixá (Òrìṣà) que protegia e defendia as mulheres contra a humilhação e violação de seus maridos foi muito intimidador para a maioria dos homens. Muitos homens não tiveram coragem de pedir a mão dela em casamento.

Em segundo lugar, ela era uma mulher extremamente orgulhosa, arrogante e egoísta. Além de precisar de um homem para engravidar e ter filhos, ela não encontrou outra razão para ela estar em um relacionamento com um homem. Ela considerava todos os homens muito chauvinistas e egocêntricos demais para o seu gosto. Para ela, os homens precisavam ser colocados em seu lugar. Por esse motivo, ela não tinha paciência para qualquer homem. Ela costumava ser encontrada gritando com eles e intimidando-os na menor oportunidade. Homens que estavam no seu bom senso fugiriam dela e ela não via nada de errado com isso.

Mesmo assim, ela precisava de um homem para, pelo menos, lhe dar seus filhos, mas quem poderia este homem ser? Ela não precisava amar o homem ou ser amada de volta, porque para ela, o amor verdadeiro não poderia ocorrer com qualquer homem de qualquer maneira. Ela não precisava respeitar o homem porque nenhum homem, segundo ela, merecia respeito de qualquer maneira. Ela também não precisava seguir nenhum conselho de um homem ou ouvir qualquer instrução porque, para ela, os homens não tinham senso de direção.

Havia apenas dois critérios que o homem deveria cumprir; primeiro, ele deve ser forte e saudável o suficiente para gerar seus filhos e dois, ele deve ter popularidade e grande seguidores. Esses critérios foram o que ela usou antes de estreitar sua procura até Ògún. Naquela época, Ògún estava morando em Ṣakí. Ògún tinha a reputação e o comportamento de um homem muito forte. Ele também teve o carisma de alguém que poderia fazer as coisas acontecerem. Isso foi um pouco agradável para Bùùkúù. Em segundo lugar, Ògún tinha muitos adeptos, homens e mulheres.

Desconhecido para muitos, não havia nada que Bùùkúù coloca-se em sua mente para alcançar que ela não conseguiria. Mesmo que muitas mulheres que estivessem procurando cônjuges compatíveis para elas, a procuravam para uma solução para seus problemas, elas nunca pensaram que ela teria a necessidade de um homem como as mulheres comuns. Foi por isso eles não se deram conta do fato de que ela precisava de um marido próprio para ela. Pessoas acreditavam que isso lhe convinha muito bem, porque ela não queria nenhum homem, mas ela não queria que seus numerosos seguidores soubessem que ela desesperadamente precisava de um homem para, pelo menos, torná-la mãe de filhos.

Para ter sucesso em seu plano, ela foi à casa de um Bàbáláwo para consulta. Ela queria que o Awo trabalhasse nesse projeto pessoal para que ela tivesse sucesso. Ela estava convencida de que não seria capaz de viver com a vergonha e a humilhação se ela fosse recusada por Ògún. Como ela poderia enfrentar seus inúmeros seguidores, se isso fosse ocorrer?

Durante a consulta de Ifa foi revelado que ela planejava se casar com um homem muito poderoso e importante. Foi dado certeza a ela de que teria sucesso em sua missão. Ela, no entanto, foi alertada para nunca menosprezar seu homem, porque isso faria a levar a consequências indesejáveis. Ela foi aconselhada a respeitar, amar, honrar e ouvir o marido quando ela se casasse. Ela foi informada de que isso seria a única maneira de garantir paz matrimonial, harmonia e sucesso. Ela também foi aconselhado a oferecer ebó (Ẹbọ) e alimentar Ògún, conforme recomendado.

Ela considerou as declarações do Bàbáláwo . O Bàbáláwo disse que ela iria ter sucesso em sua tentativa de se casar com Ògún. Nesse caso, qual a utilidade do ebó (Ẹbọ) que o Bàbáláwo recomendou? Se ela se recusasse a respeitar o marido, qual era a preocupação do Bàbáláwo nisso? Para esfregar ferimentos com sal, por que ela deveria a ir e alimentar o Òkè-Ìpọ̀rí de Ògún? Enfim, ela concluiu, apenas pessoas ocupadas como o Bàbáláwo a insultaria com tais recomendações; ela se levantou e simplesmente saiu sem dizer uma palavra, para a surpresa do Bàbáláwo.

A cerimônia de casamento entre Bùùkúù e Ògún foi o assunto de toda a comunidade por muito tempo. Bùùkúù no entanto deixou ninguém em dúvida sobre quem estava dando as ordens no relacionamento. Ela fez claro para todos os presentes perceberem que ela é a pessoa responsável por tudo. Enquanto isso, Ògún era totalmente cego a todos os seus planos e maneiras. Ele era simplesmente apaixonado por ela. Ele estava preparado para satisfazê-la e dançar suas músicas.

Quando ele percebeu que ela tinha vários seguidores indo à casa deles todos os dias a fim de encontrar soluções para seus problemas, ele até organizava as coisas para que ela sempre tivesse pessoas a ajudando. Essas pessoas a ajudariam a oferecer os sacrifícios exigidos por ajudar seus clientes e devotos. Ògún até lhe deu sua faca de aço para ela usar no abate dos animais que seus clientes e devotos tinham trazido para o sacrifício.

No entanto, tudo o que Ògún estava fazendo por Bùùkúù não a impressionou nem um pouco. Ela apenas traduziu essas ações para significar que Ògún, simplesmente, desempenhava suas funções como marido. Qual era o dever dele? Para Bùùkúù, o dever de Ògún bem como o dever de todos os homens para todas as mulheres, era apenas para fazê-la feliz e fazer tudo o que ela queria. Qualquer homem que não estava pronto para fazer uma mulher feliz e fazer o que quisesse, não teria espaço na vida de qualquer mulher. Ela também acreditava que não havia razão para qualquer mulher fazer um homem feliz porque o homem só acabaria se aproveitando disso e reinaria sobre a mulher.

Apesar de tudo o que Ògún estava fazendo por ela, ela não podia ver razão pela qual ela deveria cozinhar comida ou trazer água para beber ou tomar banho. Para piorar as coisas, sempre que Ògún tentava aconselhá-la, ela apenas mandava ele sair.

Demorou menos de três meses antes de Ògún se tornar motivo de chacota todos em Ṣakí. As outras esposas da casa de Ògún não podiam acreditar no que estava acontecendo com o marido. Aqueles que originalmente concederam a Ògún alta consideração e espeito ficaram tão horrorizados que perderam todo o respeito por ele.

Um dia, Ògún chamou Bùùkúù para uma discussão, a fim de esclarecer as coisas com ela. Ela não podia ser incomodada. Ela pediu a Ògún para encontrá-la em seu quarto, se ele achava que havia algo a discutir. Ela consentiu em discutir com ele depois de muita pressão de O®gu; ne a única maneira de a discussão ser feita era se ele concordasse em discutir as coisas com ela no quarto dela.

Assim que Ògún iniciou a discussão, Bùùkúù perdeu o interesse. Ela era tão desinteressada pelo que ele estava dizendo que, em um momento, Ògún ficou visivelmente irritado. Percebendo isso, ela simplesmente gritou: Se Ògún não estivesse satisfeito com o tratamento que ela estava lhe dando, ele estava livre para se enforcar ou, melhor ainda, joguar-se em uma lagoa ou poço. Ela não tinha tempo de dar a ele melhor tratamento. Além disso, ele tinha outras esposas que poderiam satisfazer suas necessidades tolas. Ela então gritou para ele sair do quarto dela. Ela amaldiçoou e abusou dele. Ela o ofendeu de uma maneira que ninguém, homem ou mulher, já havia conversado com Ògún antes. Ela então completou cuspindo em sua cara!

A essa altura, todos na casa e alguns vizinhos já tinham reunidos em torno de sua casa. Eles não podiam acreditar no que estavam vendo e ouvindo. Isso não poderia acontecer com Ògún. Este homem parado diante Bùùkúù não pode ser o Ògún eles sabiam. Não pode ser ele. Não deve ser ele!

Ela então começou a pressionar Ògún para sair do quarto. Essa foi a palha que quebrou as costas do camelo. Ògún ficou lívido de raiva! Ele começou a tremer por toda parte! Quando ele finalmente falou, Bùùkúù tornou-se oprimida pelo medo! “Eu não vou permitir que você me desrespeite em minha casa, não mais! Mesmo que o inhame batido de ontem não satisfaça a pessoa ou encha sua barriga, sua simples aparência não é suficiente para instilar medo na mente de alguém. Quem é Você? O que você representa? Quem te deu à luz? O que você quer? O que você está procurando? O que entrou na sua cabeça burra? O que mudou seu pequeno cérebro de cabeça para baixo? O que lhe dá essa temeridade? Você não tem algum medo? Quem você pensa que é? Você não consegue reconhecer seu companheiro? o que dá a você essa impressão inchada sobre você e seu valor? O que você é, pensando em si mesma? Onde estão suas maneiras? Onde está sua feminilidade? Onde está sua decência? Onde está o seu decoro? Onde está seu respeito próprio? ”

Ele então parou. A essa altura, toda a sala estava carregada. A expressão no rosto de Bùùkúù mudou de arrogância para raiva, de raiva para surpresa, de surpresa em confusão, de confusão em arrependimento, de arrependimento em medo, do medo ao horror!

Ele então disse a ela: “Vou poupar minha ira hoje. Vá e remova todo as suas coisas e saia da minha casa agora! Deixe todas as minhas coisas para trás. Isto inclui a faca de aço que eu lhe dei para abater os animais trazidos à você. A partir de hoje, você deixará de usar qualquer coisa que pertença a mim: facas, lâminas, machados, facas, enxadas, escavadeiras, cacos e assim por diante. Saia agora antes que eu mude de idéia sobre você!

Enquanto ele falava, ele tremia por toda parte. Bùùkúù estava suando. Ela não tinha ninguém para pedir em seu nome. Naquele momento, ela se lembrou de todas as coisas que o Bàbáláwo tinha dito a ela. Era tarde demais para fazer qualquer coisa sobre Isso agora. Ela se culpou por fazer coisas demais. Ela começou a arrumar todas os seus pertences e alguns de seus seguidores que foram atraídos para a cena ajudando-a em mudar suas coisas. A vergonha que ela não queria que acontecesse com ela era testemunhada por todos ao redor. Foi notícia na área por muito, muito tempo.

Isso se tornou uma lição para todas as mulheres arrogantes até hoje. Quando Bùùkúù, ela não tinha faca para abater ou esfolar seus animais. Ela portanto, começou a usar bambu para esfolá-los. A partir desse momento, Bùùkúù usaria apenas bambu afiado para esfolar seus animais desde que a ela era proibido o uso de qualquer faca ou qualquer coisa de metal pertencente a Ògún.

quinta-feira, janeiro 05, 2012

Iemanja e o Ori

Iemanja e o Ori


Veja uma versão mais completa e atualizada deste texto em:

Sobre Iemanjá e o Ori 


Essa versão aqui é mais antiga de 2012, veja a versão nova no link acima


Eu considero que nesse tema abordo um dos grandes desvios do Candomblé. Assim como o tema das pessoas associarem os Orixá (Òrìṣà) a elementos da natureza (altamente polêmico) e a associação de números a Odù (altamente popular). São 3 temas que merecem uma abordagem de questionamento em relação a religião Yorùbá e a tradição do Candomblé. Todos os 3 temas já foram abordados por mim. Esta versão aqui é uma expansão do texto original e quero usar essa questão de Oxalá (Òṣàlá) e Iemanjá para explorar um tema mais amplo e necessário.

Esse tema já foi abordado no Blog anteriormente de uma forma bem simples e objetiva. Esse texto aqui é bem mais detalhado e fala sobre muito mais coisas. Quem não quiser de dar ao trabalho de ler, pode ver a primeira versão ou ficar apenas na minha afirmação que: Iemanjá (Yemọjá) não é mãe de ori nenhum, essa coisa foi uma invenção porque não existe nenhuma referência na religião ligando Iemanjá (Yemọjá) a ser Iya Ori.

Quem quiser mais informações basta seguir lendo.

Esse BLOG pode ser lido por muita gente, mas não tenho como tratar do tema cobrindo toda a matriz afro-brasileira e suas nuances, de maneira que, o que digo aqui esta relacionado a raiz religiosa Yorùbá e a tradição religiosa do Candomblé Ketu e pode não ser adequado às demais tradições religiosas da matriz afro-brasileira.

Mas acharei muito curioso se isso foi igual nas demais tradições religiosas.

Antes de abordar o tema preciso ressaltar uma coisa que falo sempre. O Candomblé é uma tradição da diáspora e em função disso adotou aspectos que o diferenciam da forma como a YTR conduz o culto na Nigéria. É isso o que uma tradição faz em uma religião, assim a YTR ou qualquer outra tradição que possa existir na Nigéria ou no Benin, ou em outros lugares do novo mundo, podem adotar um formato para o culto e mitos um pouco distintos, sem que isso estabeleça uma religião distinta da nossa. Lá, fora daqui, eles fazem como querem o culto deles e isso é problema deles e não nosso.

Não existe subordinação do Candomblé ao culto Africano e à forma africana de praticar a religião. Os africanos do golfo do Benin fazem sua religião lá como eles querem e nós aqui o mesmo. O Candomblé é uma tradição religiosa ligada à religião africana do grupo Yorùbá, mas desenvolveu aqui no Brasil um culto próprio. O Candomblé pertence à mesma religião Yorùbá mas sua prática foi ajustada ao nosso povo e sociedade. O Candomblé não é derivado do culto tradicional, ele está ligado à religião.

Esse comentário é necessário para que ninguém pense que estou sugerindo que o Candomblé ou qualquer outra tradição religiosa da matriz afro-brasileira, esteja errado e deva mudar. Não tem que mudar nada. Entretanto, sim existem alguns aspectos que podem ser ajustados em função da religião, nunca do culto.

É claro que existe um processo de reafricanização presente no Candomblé, que ajusta, ou ajustou, ao longo tempo alguns entendimentos, mas isso, a reafricanização positiva deve ser adotada com cuidado porque, de forma alguma, pode interferir no processo de formação das nossas tradições religiosas locais.

Eu denomino de reafricanização positiva os ajustes que buscam corrigir desvios na teologia e teogonia e não aqueles que buscam mudar práticas, cultos, liturgias, ritos, formatos e elementos. O que procura mudar a tradição é a reafricanização negativa e é promovida por quem não entendeu o que é criar uma tradição religiosa ou o que significa matriz religiosa afro-brasileira ou querem fixar aqui tradições estrangeiras como Lukumi e YTR. 

Por que ajustar a teologia e teogonia são importantes?

A razão disso é prática, teologia e teogonia contêm informações importantes que estão contidas na religião e são úteis para saber como lidar com o supernatural e o sentido da religião em nossas vidas. Essas 2 coisas, lidar com o supernatural e trazer um sentido e compreensão maior da nossa vida e do nosso relacionamento com as pessoas e a sociedade são duas virtudes muito elevadas e importantes da religião e fazem parte da minha definição moderna de religião. 

Religião não se resume a adorar a um deus, louvar ele 5 vezes ao dia e querer morrer para se encontrar com ele. Nenhum deus precisa ser adorado o dia todo, o tempo todo ou estabelecer a adoração como forma de se relacionar. Deus não precisa disso e muito menos esse seria o sentido da vida das pessoas. Se existem religiões que tomaram desvios foram essas que fazem isso, possivelmente estão adorando a um demônio, de fato.

O tema aqui, deste texto diz respeito a isso e eu estou usando essa questão de Oxalá (Òṣàlá), Iemanjá e Orí para abordar isso.

A associação de Oxalá (Òṣàlá) como pai de Orí e principalmente de Iemanjá como mãe de todas as cabeças, a Iya Orí para muitos, é uma bobagem adotada no Candomblé. A razão disso é que não existe base na religião para isso e vou explicar aqui.

A causa deste desvio não é difícil de entender e é baseada em dois fenômenos importantes de entender. O primeiro é o que eu chamo de orixalização da teogonia e o segundo, que em parte gerou o primeiro, foi não vinda para o Brasil de partes da teologia, alguns conceitos da religião se perderam e criaram lacunas bem como provocaram o processo de orixalização.

Antes de iniciar eu preciso dar 2 definições muito importantes porque estou me referindo a 2 termos técnicos que tem que ser entendidos.

Teologia, tem várias definições:
  1. Teologia é o estudo crítico da natureza do divino, seus atributos e sua relação com os homens
  2. Teologia é o estudo da existência de Deus, das questões referentes ao conhecimento da divindade, assim como de sua relação com o mundo e com os homens.
  3. Ciência ou estudo que se ocupa de Deus, de sua natureza e seus atributos e de suas relações com o homem e com o universo. Conjunto dos princípios de uma religião; doutrina.
Para entendermos uma religião temos que entender sua teologia, que são seus princípios, seus dogmas e a explicação de sua proposta para nos relacionarmos com deus.
As religiões abraâmicas adotaram esse termos teologia como se fosse exclusivamente deles, muita gente traduz isso assim, mas a teologia é a visão geral proposta pela religião do nosso relacionamento com deus.

Entendam que deus existe sem as religiões, eu faço parte dos que acreditam que deus é único, mas é traduzido nos diversos povos através das religiões. Uma religião esta sempre fortemente ligada a um povo e sua cultura, é a forma daquele povo entender deus e sua relação com a gente e nossa vida.

Existem muito que questionam religiões universais, dizendo, com razão que não é possível separar a religião do povo que a criou. Isso é verdade, existem religiões que somente existem no seu povo original, como o Judaísmo e o Hinduísmo.

As religiões universais, que são exportadas mundo afora carregam dentro de si os valores e a ética do povo que a criou, isso não pode ser diferente. Algumas como o catolicismo passaram ao longo dos séculos por um processo de consolidação dessa universalização e criaram um conjunto próprio de valores e ética voltados para aqueles que as adotarem.

Teogonia:
      1. Teogonia significa "o nascimento dos deuses". Ela constituía, com os poemas de Homero, a cartilha na qual os gregos aprendiam a ler, a pensar, a entender o mundo e a reverenciar o poder dos deuses. De certa forma, a Teogonia é o mais antigo tratado de mitologia grega que chegou até nós.
      2. Theos, deus + genea, origem / Refere-se a gêneses dos Deus e sobre a origem do mundo. É um conjunto de deidades (conjunto de forças ou intenções que materializam a divindade), que formam a mitologia (estudo das lendas / história de uma cultura em particular), de um povo.
Claro que não estamos falando de religião grega, aliás isso tem sido um enorme estorvo para qualquer religião não abraâmica, o de ser sempre comparado a religião politeísta grega, mas, em religiões que tem um conjunto mais rico de divindades e que mesmo assim não são politeístas, o termo teogonia é útil para delimitar uma área de conhecimento.

A teogonia se aplica a religiões que tem o seu divino mais rico, não faz sentido junto às religiões abraâmicas. Com a teogonia entendemos a proposta da religião para nos relacionarmos com ela através de divindades menores ligadas ao deus principal.

Existe alguma dificuldade em lidar com esses termos porque as religiões abraamicas dominam o cenário intelectual e tudo é feito em torno delas, assim, é bastante difícil discutir e definir outras religiões sem recorrermos a neologismos ou definições próprias.
Em religiões que lidam com o supernatural e tem o compromisso de suportar a vida das pessoas no mundo, o entendimento dessas 2 coisas adquire aspectos muito mais importantes e práticos.

Eu quero lembrar a todos que enquanto as religiões abraâmicas se preocupam em salvá-lo através da morte, dizendo que somente após a morte você contra a paz e a tal “vida eterna” ao lado de deus (…!) o Candomblé, religião Yorùbá, se preocupa em salvar você aqui, em vida, em te dar uma vida melhor para você usufruir. Existe de fato uma aliança entre deus e nós pela nossa felicidade.

DIFERENÇAS COM A PRÁTICA NO GOLFO DO BENIN


Antes de as pessoas ficarem preocupadas com as variações que nossas tradições religiosas fizeram nos cultos, devem saber que mesmo lá no golfo da guiné, os mitos e o próprio culto religioso, são regionais e variações existem nos formatos de como a religião é praticada dependo de se estar em Ifé (Ilé Ifẹ̀), Óyó (Ọ̀yọ́), Obeokuta, etc... Inclusive, até a Teogonia pode mudar. Cada lugar destes dá maior ou menor importância a algum aspecto da religião e importância a Orixás distintos. Vejam, por exemplo, a questão de Odùduwà e Oxalá (Òṣàlá) em Ifé, onde o mito da criação do mundo (cosmogonia) foi alterado parta incluir Odùduwà no lugar de Oxalá (Òṣàlá) , uma alteração eminentemente política (ver Idowu).

Essa variação e multiplicidade de Orixá (Òrìṣà) é uma das características da religião. Orixá (Òrìṣà) podem ser muitos e distintos, com alguns deles sendo comuns a várias ou muitas áreas. A quantidade de orixá (Òrìṣà) não é relevante à religião, o que é importante é a sua existência. É por isso que dizem que tem 401 orixá (Òrìṣà) á direita. Os Yorùbá não tinham aritmética, assim quando eles dizem 400 querem apenas dizer que é uma quantidade muito grande (para ser contada). O número 1, em 401, dizem (J. Elbein), significar que sempre pode ter mais algum, assim, são muito e podem ser mais.

Não existe essa fixação em 16 orixá (Òrìṣà), somente, como temos aqui. Existe, aqui, uma convenção local que arredonda o número 16, tipo conta de chegar, mas isso é aqui. A realidade é que não existe número pré-determinado, nem 200, nem 400 e muito menos 16.

Creio que uma pergunta evidente pode vir a todos: Por que muitos orixá (Òrìṣà)?

A resposta não é complicada e também está ligada a questão de o que são os orixá (Òrìṣà).
Podemos responder: e por que não podem ser muitos? Qual o problema?

O fato de termos muitos orixá (Òrìṣà) não afeta a visão da religião de que existe um deus superior. Os orixá (Òrìṣà) são ministros de deus, e ser ministros significa que eles o representam e têm seus poderes para atuar junto à nossa vida.

Na sociedade Yorùbá a característica eminente dos orixá (Òrìṣà) é a regionalidade, lá tudo é basicamente família, linhagem e aldeia. Os orixá (Òrìṣà) os representam enquanto família e sociedade tribal, existe um enorme aspecto de ancestralidade envolvido nos orixá (Òrìṣà), uma das definições de orixá (Òrìṣà) é representar um ancestre comum.

Essa definição errada, que fazem aqui, de associar orixá (Òrìṣà) a elemento da natureza, lá no golfo, não cabe, orixá (Òrìṣà) está muito mais para ser um ancestre do que um elemento, a natureza pertence a Olódùmarè, o deus maior. 

O que os orixá (Òrìṣà) têm como ministros de Olódùmarè são suas forças, poderes de domínios, alguns se especializam em determinadas funções genéricas, como cuidar de crianças (orixá (Òrìṣà) das águas em geral), prosperidade (idem), vitórias (os guerreiros), colheitas, ética e moral (Xangô (Ṣàngó)), etc… Mas muitos fazem de tudo para as pessoas deles. De fato eles têm preferências de oferendas (comidas) ou poderes exclusivos, lembrando que orixá (Òrìṣà) é o aspecto humano de deus com o qual nós nos identificamos, eles fazem parte do se chama de analogia entis. A individualidade também é parte dos orixá (Òrìṣà) assim eles tem poderes diferentes e personalidade diferentes, os orixá (Òrìṣà) refletem muito a nossa própria humanidade.

Essa visão de que orixá (Òrìṣà) é natureza e uma bobagem mal copiada do modelo grego, lembram que eu já disse que todas as religiões não abraâmicas acabam sendo traduzidas como iguais a religião grega, sem terem nada haver com aquele modelo.

O candomblé, em sua formação, por exigência das características locais, realizou um processo de concentração dos cultos de diversos orixá (Òrìṣà) em uma única tradição religiosa e centralizados em uma única casa e sacerdote. Esse modelo nada tinha haver com o modelo Yorùbá do culto, altamente especializado. Devido à formação da população (de escravizados) aqui foi necessário configurar uma nova forma de culto, diferindo enormemente de como era a prática na origem.

O modelo que adotamos aqui levou naturalmente a desenvolver uma outra dinâmica na prática do culto e também foi altamente influenciado por um sincretismos interno entre grupos e entre raízes religiosas diferentes. Sem dúvida o Candomblé Jeje que já tinha esse modelo “familiar” com casas com várias divindades influenciou muito na formatação do Candomblé Yorùbá no Brasil.

De outro lado os ritos dos Candomblé Yorùbá também influenciaram a forma de como Candomblé Jeje se organizou localmente.

A realidade é que as tradições afro-brasileira do culto de Orixá (Òrìṣà) e Vodun, tiveram que se reorganizar totalmente, adaptando a religião a sociedade, valores, locais e materiais disponíveis. A religião em sua base continuou a mesma, mas, o culto foi ajustado à nossa população.

Esse processo de forma natural teve que ajustar os mitos da tradição oral e até mesmo a criar mitos e relações para poder estabelecer as bases da tradição afro-brasileira. 

Neste processo pesou esta adaptação mas também em grande parte o distanciamento da origem com aspectos e cultos que não foram lembrados e dessa forma não trazidos e implantados aqui. Não houve um processo altamente organizado de importar exatamente o que havia entre os Yorùbá, foi implantado o que as pessoas lembravam ou o que era mais relevante.

Lembro que o grupo do Candomblé Ketu se tornou muito relevante na matriz e influenciou os demais porque como parte do processo de reorganização da religião, pessoas libertas voltaram ao golfo da guiné para revisitar a religião e voltaram inclusive com pessoas para ajudar a formatação e adaptação da religião através da tradição de orixá (Òrìṣà). Esse trabalho, bem feito, influenciou outras tradições religiosas que copiaram muito do que o Candomblé ketu fazia.

Para ficar claro, o estabelecimento do Candomblé no Brasil é bem tardio em relação ao processo de vindas de pessoas escravizadas. O fluxo de escravização iniciou no século XVI indo até o século XIX, mas o registro da primeira casa de Candomblé na Bahia está em 1830. Antes disso o que haviam eram calundus que eram basicamente uma estrutura Bantu, familiar e voltada para curandeirismo e feitiçaria.

Como a escravidão somente acabou em 1889, durante todo o século XIX houve um fluxo de escravos libertos indo e vindo do golfo da guiné trazendo elementos, informações e pessoas para constituir a tradição de Orixá (Òrìṣà) aqui no Brasil, dessa forma as coisas não foram feitas de improviso, nem de memória, foram estruturadas.

É ilusório achar que a religião aqui foi organizada apenas baseada no que os escravizados lembravam, isso seria impossível, somente os mais jovens e inexperientes na religião eram trazidos como escravos.

Processo similar ocorreu em Cuba com o culto de Orixá (Òrìṣà), mas lá as mudanças foram muito mais profundas em relação a origem e as mudanças e criações que os cubanos fizeram foram muito maiores abrangendo os mitos, teogonia e até a musicalidade. Lá em Cuba devido a uma lei que obrigava a uma responsabilidade contínua com o escravizado independente da idade (velhos), somente pessoas muito jovens foram escravizadas, não eram levados pessoas experientes de maneira que o conhecimento da religião entre os escravizados era de pouco a nenhum.

Dessa maneira não é verdade a estória que cubanos contam aqui de que foram para Cuba, milhares de Bàbáláwo e que estes estabeleceram o culto de Ifá lá. Isso de fato é mentira, só foi para Cuba gente muito nova e isso explica porque a tradição religiosa de lá ficou tão diferente. Os Bàbáláwo foram também uma introdução bastante tardia.

No Brasil, apesar de tudo, o culto a orixá (Òrìṣà) se estabeleceu com sucesso em formato e prática. Foi um estabelecimento pleno, em toda sua plenitude e conservamos razoavelmente bem a ligação com a religião e melhoramos eficientemente o culto. As casas integrando todos os orixá (Òrìṣà), o Xirê, a organização, estética, limpeza e até a musicalidade que temos são muito superiores a forma como o culto é feito no golfo da guiné pelas tradições locais de orixá (Òrìṣà) (RTY). 

Minha opinião é que o Brasil teve e tem muito a ensinar, os africanos têm é que aprender como fazemos aqui o culto de orixá (Òrìṣà) e copiar o que fazemos. Isso já ocorre de fato, o Candomblé exporta para outras tradições o seu formato de culto. Os cubanos vieram aqui para aprender sobre Orí, um culto que eles não sabiam nada. Os africanos vieram aqui copiar o nosso formato de Xirê, de casas com mais de um orixá (Òrìṣà), entre outras coisas. A escritora Stephania Capone, se dedicou a estudar e a documentar isso nos seus livros, a África que veio se encontrar no Brasil.

A religião tradicional Yorùbá (RTY), que tem um culto diferente do nosso e tem na verdade que aprender e copiar o que nossas tradições desenvolveram. Eles tem que copiar desde aspectos estéticos como também ritos e padrões de limpeza. Digo mais, nós não temos nada a aprender com eles, só eles tem que aprender com a gente e a presença da RTY aqui é inadequada.

Lembro a todos que o culto de Orixá (Òrìṣà) no golfo da guiné não é majoritário na população, hoje, na melhor hipótese e nas melhores regiões não deve passar de 30% da população e existem lugares onde foi superado pelas religiões abraâmicas. A religião ressurge lá muito mais para atender ao comércio religioso com o novo mundo do que através da fé real do povo nos orixá (Òrìṣà).

É relevante a quantidade de pessoas que são muçulmanas de fato e se apresentam como sacerdotes da RTY ou de Ifá apenas para poder fazer comércio de religião. Não existe fé de fato por trás de parte da prática religiosa nas regiões do golfo da guiné (Benin e Nigéria).

Desta maneira achar que o que é praticado na África é um modelo para nós é uma enorme bobagem.

É neste contexto é que devemos entender a reafricanização, também como uma forma de evolução do que já temos.

RESUMO PARCIAL
Para não nos perdermos vamos fazer uma “freada de arrumação”.
O que eu disse até aqui é que uma coisa é a religião Yorùbá, a visão metafísica de deus e do divino e outra coisa são os cultos e tradições religiosas que estabelecem como a religião é praticada.
Existem uma tradição religiosa no golfo do Benin e temos as tradições religiosas da Diáspora. A prática da religião está longe de ser uniforme na pequena área Yorùbá da Nigéria e Benin e as tradições da diáspora adotaram uma prática adequada à localização em cada local.
Não existe ligação, dependência ou referência entre a RTY e o Candomblé, são práticas religiosas diferentes de uma mesma religião.

ORIXALIZAÇÃO


Mas, apesar de todo esse histórico da preparação do estabelecimento da tradição de religiosa do Candomblé Ketu, não foi possível trazer para cá todos os cultos ou mesmo tudo da religião. A religião Yorùbá não é simples, ela é bem completa e sofisticada e é composta de vários cultos separados que lidam com especializações diferentes da religião e além disso eles estão bastante integrados com a cultura e sociedade.

Algumas coisas foram impossíveis de vir e o que se estabeleceu aqui no Brasil, foi a tradição de orixá (Òrìṣà). Não quero com isso, mais uma vez, dizer que existe qualquer prejuízo na nossa prática e muito menos que a prática no golfo do Benin seja a mais completa, como já disse, lá é tudo regional e a prática não é uniforme, ainda mais hoje em dia no qual a religião tradicional é absolutamente minoritária. O que é feito no golfo está muito longe de ser referência para qualquer um.

Para entendermos o que eu digo, como partes que não vieram, em termos de culto, teríamos que falar extensivamente sobre isso e, mesmo assim, podemos chegar à conclusão de que, essas diferenças, não tem relevância real por serem práticas específicas ou outras que somente têm sentido naquela sociedade e não na nossa.
Eu acredito que houve um sentido real na tradição ter se estabelecido no Brasil da forma e formato como foi. As pessoas tiveram muito tempo para fazer isso e certamente discutiram o que fazer e decidiram fazer da maneira como foi.

Como eu já falei, as sociedades são diferentes, os valores são diferentes a ética é diferente, não se traz cultura de um povo, não se leva cultura de um povo para nenhum outro lugar.

Na criação da tradição religiosa afro-brasileira ocorreu um processo que eu chamo de orixalização da teologia e teogonia, no qual partes desses conceitos religiosas que foram omitidos, esquecidos ou apenas não trazidos foram substituídos por orixá (Òrìṣà) na função que seriam de um outro Inrumolé (Irúnmọlẹ̀). 

Inrumolé (Irúnmọlẹ̀) é o nome Yorùbá para espíritos e divindades é um nome geral. Orixá (Òrìṣà) é um tipo específico de divindade, um tipo que está ligado às pessoas, são os protetores das pessoas (ver isso no Odù oxéotuwa) e Inrumolé (Irúnmọlẹ̀) é o nome geral das divindades, principalmente aquelas que não tem a função de ser um orixá (Òrìṣà).

O contexto metafísico Yorùbá não é composto apenas de orixá (Òrìṣà) existem muitas outras divindades com atribuições diferentes e que compõe e rico contexto religioso. No processo de introdução da religião aqui ocorreu uma simplificação desse contexto e praticamente tudo ficou relacionado aos orixá (Òrìṣà). Estes que tem a missão específica de suportar nossa vida no Àiyé como ministros de Olódùmarè, acabaram resumindo nele todo o contexto metafísico da religião, a própria figura de Olódùmarè somente foi introduzida tardiamente.

Essa orixalização foi, dessa forma, um processo massivo de simplificação da teogonia, com efeitos sobre a teologia. As divindades se resumiram a orixá (Òrìṣà) e estes assumiram funções que seriam de outros criando assim, no orixá (Òrìṣà) uma concentração de poder e atribuições.

Certamente essa não é uma opinião unânime e muita gente pode entender diferente, mas, é o que penso.

A partir principalmente da década de 90 a religião passou por um ciclo de aquisição de novas informações, que não foi por acaso. Juntou a abertura da sociedade para o Candomblé e deste para a sociedade com a entrada de pessoas com educação formal de mais alto nível e também o acesso dessas pessoas a literatura internacional com mais informações sobre a religião.

A qualidade da informação em geral mudou, com Verger e outros autores de língua estrangeiras e com a redução da importância dos primeiros pesquisadores nacionais, como Nina Rodrigues, que não adicionavam qualidade ao contexto religioso.

Hoje em dia, os versos e mitos Yorùbá são mais conhecidos, assim como, o entendimento da teologia e da teogonia devido a mais pessoas terem estudado a religião com mais intimidade e esse conhecimento ter chegado até nós. Verger foi um dos precursores disso, da informação de boa qualidade já que muito porcaria foi e está sendo produzida. 

Dessa maneira, um dos aspectos positivos da reafricanização é quando desfazemos o processo de orixalização que a religião sofreu e restauramos a teologia com os personagens originais, seja através de adotarmos a narrativa correta como também o Inrumolé (Irúnmọlẹ̀) correto.

Um exemplo do processo de orixalização é Olókun. Este orixá (Òrìṣà) é muito importante na religião e seu culto não foi trazido ao novo mundo. Mesmo lá no golfo do Benin, ele assume uma sobreposição de funções no culto religioso em relação a outros orixá (Òrìṣà). Em Ifé é um orixá (Òrìṣà) feminino mas no restante da região Yorùbá é masculino. É considerado o orixá (Òrìṣà) primordial das águas, de todas as águas do mundo e sua origem e importância vêm a teogonia dos Bini, um povo distinto dos Yorùbá. É possível que tenha sido um culto “importado” pelos Yorùbá dos Bini.

Olókun esta, absolutamente, ligado a fartura e prosperidade. No Odù Ìworì Méjì no verso que narra a partida de Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) do mundo, o verso diz que ele atravessa o domínio de Olókun (o oceano) para chegar ao órun (Ọ̀run).

Aqui no Candomblé o seu culto não foi trazido. Ele é orixá (Òrìṣà) e não faz parte das divindades do Candomblé. Ele não é desconhecido, as pessoas sabem quem é, mas isso não as faz localizar no dia a dia do seu culto.

Aqui suas forças e domínios (mar) se confundem com Iemanjá (Yemọjá), por exemplo que é um orixá (Òrìṣà) predominante em Obeokuta. Para acomodar essa superposição com Iemanjá (Yemọjá) foi estabelecido que Olókun seria o domínio do mar profundo e de Iemanjá (Yemọjá) a costa, as águas rasas, mas isso é absolutamente uma acomodação local.

Essa acomodação de Iemanjá (Yemọjá) com a beira do mar possivelmente esta ligada a necessidade de conviver com Óxun (Ọ̀ṣun) que aqui no Candomblé ficou com as águas doces dos rios. Mas lá no golfo Iemanjá (Yemọjá) é também um orixá (Òrìṣà) de água e de rio. 
 
Vale alertar que estudando essa questão de orixá (Òrìṣà) de água ela não é de forma alguma simples, vários orixá (Òrìṣà) feminino estão ligados a água na região Yorùbá e são normalmente cultuados em locais diferentes. Existe uma palavra yorùbá para generalizar esse tipo de orixá (Òrìṣà), porque são vários, eles são chamados de ọlọ́mọwẹ́wẹ́.

Como eu disse antes e afirmo, existem muitos orixá (Òrìṣà). Na diáspora houve essa concentração e simplificação, reconheço que foi útil, mas, trouxe consigo esse processo de orixalização. Quando a gente se aprofunda na religião verifica que:
  • Existem muitos orixá (Òrìṣà).
  • Existem inrumolé (Irúnmọlẹ̀) que não são orixá (Òrìṣà).
  • Os mitos com os inrumolé (Irúnmọlẹ̀) são um pouco diferentes.
No processo de formação de nossas tradições, Óxun (Ọ̀ṣun) recebeu alta relevância (que de fato têm) e sua ligação foi estabelecida com as águas e com o Rio e Iemanjá (Yemọjá) foi designada para ter uma ligação com o mar. Olhando para a origem Yorùbá isso lá não é assim, Iemanjá (Yemọjá) é ligada com águas de Rio também, mas Iemanjá (Yemọjá) e Óxun (Ọ̀ṣun) têm cultos principais em regiões diferentes. O mar é considerado como ligado a Olókun, que na verdade domina todas as águas e não somente o mar profundo.

Neste caldo poderia incluir ainda Oya que lá nos Yorùbá também é associada com um Rio, mas em regiões distintas de Óxun (Ọ̀ṣun) e Iemanjá (Yemọjá) e, aqui, essa referência aquática, não existe. Nanã foi outro orixá (Òrìṣà) possivelmente importado dos Jeje, Dahomey, que aqui coube as águas barrentas, a água primordial que em princípio é de Olókun , o orixá (Òrìṣà) da água primordial.

Aqui, depois da orixalização, Olókun é conhecido e lembrado e tem ligação com o alto-mar, Óxun (Ọ̀ṣun) ficou ligada às águas doces e rios, sobrou para Iemanjá (Yemọjá) o mar costeiro, perto da praia. Creio que as lagoas ficaram com Nanã, não lembro se tem isso, mas as águas barrentas sem dúvida nenhuma.

Como podem ver é muita especialização para uma água só!
Não podemos também desprezar que mesmo aqui a importância dos orixá (Òrìṣà) é distinta, assim na Bahia Iemanjá (Yemọjá) assume uma importância maior, tudo lá é Iemanjá (Yemọjá), e aqui no Rio, outro centro importante do Candomblé a pedominância é de Óxun (Ọ̀ṣun), que é o orixá (Òrìṣà) mais importante e mais aqui no Rio as pessoas querem ser de Oxun mas não de Iemanjá (Yemọjá).

O objetivo não é detalhar isso, apenas mostrar que isso existe. Isso é apenas uma amostra do resultado na nossa tradição de termos reunido e concentrado em um mesmo culto orixá (Òrìṣà) que lá nos yorùbá são cultuados em regiões diferentes. Lá eles tem muitos orixá (Òrìṣà) e são regionais assim eles separam isso naturalmente. Nós unimos tudo isso e, além disso, acomodamos influências externas e sincretismos internos com outras tradições religiosas como a do Candomblé Jeje, que apesar de distinto influenciou e foi influenciado pelo Candomblé Ketu.

Nosso processo de consolidação teve que lidar com isso e acomodar essas junções e diferenças. Por essa razão que digo que não podemos comparar e questionar as nossas tradições versus a tradição religiosa Yorùbá. 
 
Esse pessoal que vai na África fazer turismo religioso e volta de lá cheio de especialidade e conhecimento criando canal e rádio no Youtube para aparecer de especialista sem ter conhecimento e experiência para isso e fica dizendo como os cultos são feitos na África, são apenas uns ignorantes em fraldas e que não tem ideia do que foi o processo de formação da nossa tradição religiosa própria e o que fizemos para acomodar em um mesmo culto influências de várias regiões e etnias.

Ai eu afirmo, que porcaria de RTY é essa que aqui adota um formato de culto de vários orixá (Òrìṣà) em uma mesma casa? Imitando o que nossas tradições desenvolveram ao longo de anos? A RTY é acima lá? Duvido só se também copiaram a diáspora.

RESUMO PARCIAL
Como parte do processo de formação da tradição local, uma casa reuniu orixá (Òrìṣà) de diferentes regiões e que no golfo do Benin tinham importância diferente em regiões diferentes. Muitos deles, lá no golfo, tem similaridades em relação ao objetivo do culto e finalidade de ser recorrer a eles.
Essa acomodação levou a necessidade de mudar as especialidades e domínios de cada um para acomodá-los no mesmo culto e mesmo assim existem sobreposições evidentes.
No geral a acomodação levou a pequenas alterações no entendimento dos orixá (Òrìṣà) que pode ter incluído transformar orixá (Òrìṣà) em qualidade de outro orixá (Òrìṣà) aqui.

Outro aspecto da orixalização que temos que abordar é que a religião tem em sua teogonia mais divindades do que somente orixá (Òrìṣà), como já falei, orixá (Òrìṣà) é um tipo especial de divindade, as divindades gerais são os inrumolé (Irúnmọlẹ̀). Os inrumolé (Irúnmọlẹ̀) assumem na teologia e teogonia funções específicas não ligadas a cuidar das pessoas, dessa forma, como repito sempre, orixá (Òrìṣà) cuida das pessoas.

Aqui no Brasil (como em outros países) os orixá (Òrìṣà) assumiram a predominância em tudo e substituíram, em geral, os inrumolé (Irúnmọlẹ̀). Esse é o principal processo de orixalização, houve uma redução de orixá (Òrìṣà), houve uma concentração deles em uma mesma casa e eles substituíram os inrumolé (Irúnmọlẹ̀), eles passaram a ser os “atores” de toda a teologia. 

Essa orixalização foi acompanhada de uma revisão de mitos para acomodar a participação do orixá (Òrìṣà) e não do inrumolé (Irúnmọlẹ̀) original, dessa forma, algumas interpretações mudaram. 
 
Cabe aqui comentar uma diferença bastante significativa nas tradições do Brasil e de Cuba, isso é minha observação. Não sei exato o aspecto histórico, apenas posso deduzir por poucas referências, mas, o Lukumi de Cuva se caraterziou por ter muitos orixá (Òrìṣà) de “comida”, orixá (Òrìṣà) que eles não tinham culto e iniciação e mantiveram a referência e a presença em oferendas. Dessa maneira os lukumi parecem ter implantado uma teogonia maior, mas, isso é ilusório, eles apenas mantiveram referências sem ter informações melhores, mais profundas e precisas do culto a esse orixá (Òrìṣà). Mesmo a parte de oferenda é uma adaptação aos recursos deles.

Um autor cubano é muito direto em dizer que em Cuba eles fazem bem, ou de fato, é Iemanjá (Yemọjá) e erinlé (ou oxossi) e que, todos, os demais que eles iniciam tem processos muito “parecidos” com esses.

O Candomblé, por sua vez, com pequenas exceções estabeleceu o culto dos orixás que de fato inicia, com ritos próprios e diferenciados e não tem essa figura de orixá (Òrìṣà) “de mesa”. Existem alguns orixá (Òrìṣà) que são conhecidos, falados e citados, mas isso não os inclui nos ritos, basicamente existe a informação, mas se as pessoas não têm “as folhas” elas não os incluem.

Isso é uma diferença importante e relevante, muita gente não entende isso e acha que os cubanos do Lukumi tem mais variedade do que nós, na verdade é o contrário, tudo deles é muito menor, menos detalhado e mais distante do original Yorùbá.

Acredito que o processo de criação do Candomblé, com as idas e vindas dos libertos contribuiu enormemente para essa questão de qualidade e aproximação com os Yorùbá. Veja por exemplo a parte oral, rezas e cantigas. Nos cubanos tudo parece uma rumba.
O processo de reafricanização positiva que eu mencionei é quele que restaura as partes da teologia e teogonia da religião original, adicionando informação e conteúdo e sem afetar a forma como o culto e a nossa tradição religiosa foram construídas.

É um processo de informação, enriquecimento e restauração sem afetar a nossa própria construção prática.

Espero que essa longa introdução tenha servido para nivelar o conhecimento dos processos que estão envolvidos nessa explicação. Falar que Iemanjá (Yemọjá) não é e nunca foi Iya Orí é fácil, mas, compreender baseado no que faço essa afirmação é mais difícil.

RELAÇÃO DE ORIXÁ COM ORÍ


Quando buscamos na teologia que está documentada atualmente a construção de Orí, não existe nenhuma menção a orixá (Òrìṣà), muito menos a Iemanjá (Yemọjá).

Antes de seguir, mais um parêntese é necessário. É claro que pessoas podem questionar a literatura que documenta a teologia, sim, tudo pode ser questionado, ainda mais se você não concorda. 
 
As referências que uso são de autores conhecidos, muitos deles da religião, que na minha avaliação tem conteúdo consistente com o que eu sei e lógica intrínseca nas afirmações que fazem, cujas as informações são confirmadas por outros autores e estes não me pareçam estar diretamente ligados entre sí e usem como referências versos e não apenas afirmações que dependam apenas de acreditar neles.

Mesmo assim, claro, tem gente que poderá concordar, de forma que não tem jeito, a unanimidade pode ser impossível e cada um faça sua avaliação.

Em primeiro lugar eu procurei entender a teologia em torno de Orí, consultando muitas referências e isso me permitiu construir um modelo baseado em versos documentados. Nenhum verso de Ifá liga Iemanjá a Ori. Ori é Ori. Uma consulta também a relatos de tradição oral, feitos por Nigerianos e Beninenses, não mostra nenhum tipo de ligação de Iemanjá com Orí. 
 
Os mitos de Ori são claros em relação a origem e o processo de criação, o envolvimento de Olódùmarè, de oxalá e de Ajalá. Eu lamento muito que muita gente hoje em dia fale sobre Orí sem saber nada disso, sem ter obtido informações mínimas ou ter conseguido entender o que leu.

O Candomblé foi muito pródigo e ter mantido o culto de Orí e disponibilizado para todos os seus seguidores, é possivelmente a principal cerimônia do Candomblé, mais importante do que a própria iniciação. 
 
O culto a Orí não existia no Lukumi cubano, eu constatei isso no início deste século, ninguém la sabia nada disso. Eles vieram aqui aprender para reproduzir e vender a cerimônia. Mesmo os africanos do golfo do Benin, pouco sabiam e o culto lá era muito restrito. Orí é uma coisa que as pessoas vêm atrás do Candomblé para fazer direito. Quem quiser acreditar que acredite, ninguém falou isso para mim, eu vi isso.

Apesar de bem equacionada a liturgia do Bori, aqui no Candomblé se desenvolveu uma relação com Iemanjá (Yemọjá) e com Oxalá (Òṣàlá). As duas são resultados dos processos que eu citei anteriormente, de que os inrumolé (Irúnmọlẹ̀) foram substituídos por orixá (Òrìṣà) e que mitos foram alterados ou criados para acomodar isso.

Essa acomodação não prejudicou a liturgia e nem a sua aplicabilidade, apenas era uma referência inadequada. O que abunda não prejudica, na maior parte dos casos. Com o processo de reafricanização positiva, pudemos entender isso e corrigir o entendimento com os mitos corretos, mas, mesmo assim, mesmo sabendo dos mitos de Orí as pessoas ainda insistem com essa ligação e chamam Iemanjá (Yemọjá) de Iya Orí.

Vejam isso é um erro, Iemanjá (Yemọjá) não tem nada a ver com Orí. Mas as pessoas que falam isso apenas seguem o que a orixalização introduziu.

Reginaldo Prandi relata explicitamente esse processo que eu chamei de orixalização do culto. Ele diz “Ajàlá está esquecido no Brasil, tendo sido substituído por Iemanjá, a dona das cabeças, a quem se canta, no xirê, quando os iniciados tocam a cabeça com as mãos para lembrar esse domínio, e na cerimônia de sacrifício à cabeça (Bori), rito que precede a iniciação daquela pessoa”

Existe um mito regional do culto de orixá (Òrìṣà) que diz o seguinte:

"Quando Yemoja veio do orun [mundo ancestral] para o aiye [planeta Terra], ao chegar descobriu que cada Òrìsà já tinha seu domínio na terra dos homens, e nada havia sobrado para ela. Queixou-se a Olodumare [deus criador], que disse a ela ser seu dever cuidar da casa de seu marido Obàtálá [rei das roupas brancas], de sua comida, de sua roupa, de seus filhos. Yemoja se revoltou. Ela não tinha vindo do Orun para o aiye para ser dona de casa e doméstica. E tanto falou, tanto reclamou, que Obàtálá foi ficando perturbado, até que finalmente enlouqueceu. Ao ver seu marido[nb 9] nesse estado, Yemoja pensou na atitude que Olodumare iria ter com ela quando chegasse do Orun. E procurou os melhores frutos, o óleo mais claro e encorpado, o peixe mais fresco, o iyan mais bem pilado, um arroz bem branco, os maiores pombos brancos, o obi mais novo, o melhor atare, ekuru acabado de cozinhar, ori muito bom, os igbin mais claros, orógbó macio, água muito fria, e com isso tratou a cabeça de Obàtálá. Ele foi melhorando com os ebós, e um dia ficou completamente curado. Olodumare chegou do Orun para visitar Obàtálá. Falou à Yemoja que havia visto tudo o que acontecera, e deu-lhe os parabéns por ter curado tão bem a cabeça de seu marido. Dali para frente, Yemoja iria ajudar os homens que fizessem más escolhas de ori [destino, força vital], a melhorar suas cabeças, com uma oferenda determinada pelo oráculo de Ifá, através de Orunmilá [deus do destino dos homens].

Como eu falei, sempre deve existir muito cuidado com fontes. A origem deste mito é da região de Obeokuta e nessa região o culto a Iemanjá (Yemọjá) é proeminente. Pessoas dessa região, como o excelente autor Baba Tunde Lawal, nos seus textos atribuem enorme importância a Iemanjá (Yemọjá) sobrepondo-a a outros orixá (Òrìṣà) em função e importância.

Eu comentei sobre isso no início deste texto e é por esta razão que toda aquela introdução é necessária, vocês tem que entender os diversos processos que existem em torno da religião. 
 
Diferente daqui onde temos um padrão no entendimento dos orixá (Òrìṣà) em todos o país independente da tradição, lá o culto é muito regional e, em cada região, as pessoas dão relevância ao orixá (Òrìṣà) da região, não existe como aqui orixá (Òrìṣà) nacional.

Da mesma forma como em Ifé (Ilé Ifẹ̀) o mito da CRIAÇÃO mundo foi acomodado (alterado) para incluir a participação de Odùduwà é natural que as pessoas busquem um papel mais relevante para o orixá (Òrìṣà) principal da sua regia da teologia.

O mito é bem mal feito. Iemanjá (Yemọjá) nunca foi esposa de Oxalá (Òṣàlá). Olódùmarè não vêm ao Àiyé. Iemanjá (Yemọjá) enche o saco de Obatalá até esse enlouquecer (?!) e depois ela o cura e fica assim sendo cuidadora das cabeças? Só se fosse uma psicopata. Aliás a fama de Iemanjá (Yemọjá) é estar ligada a pessoas de cabeça ruim, doidas, deve ser por isso que ninguém quer ser de Iemanjá (Yemọjá).

Eu desconsidero esse mito citado. É muito ruim.

A ligação com Oxalá (Òṣàlá) também é em substituição a Ajalá. Oxalá (Òṣàlá) molda o corpo humano completa, com cabeça inclusive, mas o Orí Inú é feito por Ajalá, um inrumolé (Irúnmọlẹ̀).

Ao entender corretamente a teologia, conforme está em versos de Ifá documentados por Wande Abimbola, uma vez feita a escolha do Orí o papel de Ajala se encerra. Ele não faz outro Orí e muito menos corrige o que foi feito. O processo de correção é feito no Àiyé através do oráculo e de oferendas, o Bori, é o Bori que corrige as imperfeições.

A menção de Ajalá e Oxalá (Òṣàlá) no Bori é apenas um respeito a eles que participaram da nossa criação.

Eu já ouvi Babalorixa, mal informado, dizendo em cama de Bori: “que ajala lhe molde um bom ori...” Infelizmente isso é apenas desconhecimento dele, não tem nada de grave. Está fazendo uma liturgia, muitas das vezes corretamente, sem entender os dogmas. Como esta no Odù Ogbe Ogunda, Ajalá já moldou e o acaso ou a falta de preparação podem levá-lo a escolher um Orí ruim.

Uma vez moldado o Ori, Ajala não vai mais fazer nada com o Ori. Acabou. O cuidado deve ser antes de escolher o Ori como está no Odù Ogbe ogunda.

Não quero abalar as crenças de todos, mas, um pouco de calma em generalizações. Uma delas é a de que Oxalá (Òṣàlá) seria pai de todos e Iemanjá (Yemọjá) mãe de todos.

A referência a Oxalá (Òṣàlá) pode ser justificada pelo fato dele ser o criador do corpo de todos, mas, é só isso. Cada pessoa esta ligada a um orixá (Òrìṣà) e é esse o orixá (Òrìṣà) importante na vida dela. Na verdade a gente está ligado a esse orixá (Òrìṣà) e ao nosso Orí, que é o nosso anjo da guarda. Orí é uma definição um pouco complexa, enquanto divindade pessoal, o anjo da guarda pessoal, Enikeji, junto com o orixá (Òrìṣà) são os que são significativos na nossa vida.

Esse conceito de pai de todo e mãe de todos é absolutamente sem qualquer referência real. Não existe vínculo de Iemanjá (Yemọjá) com Oxalá (Òṣàlá) e muito menos nosso com Iemanjá (Yemọjá) a menos que ela faça, de fato, parte de nossa vida.

Igualmente o Candomblé, pelo menos o Ketu, não tem o conceito de termos Pai e Mâe espiritual. Nós temos o nosso Orí, nosso Orixá (Òrìṣà) e um orixá (Òrìṣà) ajuntó, um segundo orixá (Òrìṣà) principal que nos acompanha. Contudo não existe divisão de gênero e ambos pode ser do mesmo gênero. Assim sendo não existe o conceito de orixá (Òrìṣà) pai e orixá (Òrìṣà) mãe, isso é inexistente.

No caso do Candomblé Ketu temos ainda o chamado “enredo” que são outros orixá (Òrìṣà) ligado a pessoa devido a laços dela e de qualidades. Não sei como isso é tratado em outras tradições religiosas da matriz afro-brasileira (jeje, Batuque, Xangô (Ṣàngó), etc..), mas no Ketu que está ligada a raiz religiosa Yorùbá é assim como eu disse. Não existe Pai e Mãe.
Nossa relação é com nosso orixá (Òrìṣà), com Orí, com o Ajuntó e em bem menor grau com o “enredo”.

Uma pequena pesquisa na internet vai retornar dezenas de resultados ligando a Umbanda a esta questão de Pai e Mãe espiritual e até mesmo, pasmem, orixá (Òrìṣà) de frente e juntó. Em se tratando de Umbanda isso tudo ai é absolutamente impensável, infelizmente a Umbanda tem um problema sério de identidade e fica querendo imitar o Candomblé sem ter nenhum vínculo com ele.

Na Umbanda existe essa consideração de Oxalá ser pai de todos e Iemanjá ser mãe de todos. Mas a Umbanda nada tem haver com o Candomblé e com Orixá (Òrìṣà).

Como curiosidade, informo que o Lukumi entende que cada pessoa tem um orixá pai e um orixá mãe. É por isso e por outras que quem já viu diz que eles parecem uma Umbanda