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sábado, novembro 08, 2008

A questão das trocas entre o ọ̀run (órun) e o aiyé

Existe uma questão que sempre me perseguiu e talvez aconteça o mesmo com outras pessoas que estejam preocupadas com a religiosidade em si, aquela que deve estar presente nas pessoas que praticam uma religião. Essa questão é a capacidade que deve ter o crente de qualquer religião em poder responder a uma pergunta muito simples, talvez a coisa mais elementar que é: O que ele faz dentro da religião? Qual a finalidade dele na religião? O que a religião traz para sua vida? Como a religião se incorpora na sua rotina diária? Qual o benefício de ter uma religião.

Parece um coisa muito simples de ser respondida por uma pessoa que se diz sacerdote, seguidor ou crente de uma religião, principalmente quando essa pessoa tem o objetivo de explicar isso para uma pessoa que não faça parte desta mesma religião. Não se trata de proselitismo. Um crente tem que ter a capacidade de motivar ou de explicar as suas motivações para um não crente, não com a intenção de convencer o outro a adotar a sua religião, mas, pelo menos, conseguir explicar os seus motivos nessa religião.

É claro que vou apresentar aqui a minha versão para isso e basicamente, é esta a questão de fundo que motiva tudo o que eu estou escrevendo. Contudo, antes disso, gostaria de explorar um pouco mais esse drama. Sim, o drama, no qual se transforma essa questão.

Eu penso que é muito normal uma pessoa que esta dentro de uma religião ter a capacidade de se expressar sobre os motivos que a levam a estar lá e que benefícios a religião traz a sua vida de uma maneira que, não só a pessoa pode explicar sua opção, como também, convencer outras desse caminho.

Não considero que essa seja uma questão culta, acadêmica ou teórica. Pelo contrário, acredito que estamos lidando com a questão mais simples que uma pessoa religiosa pode se confrontar.

A minha decepção é observar que isso é algo muito simples quando lidamos com evangélicos, católicos e mulçumanos, mas, quando estamos lidando com o Candomblé e com a Umbanda isso se torna, sem exagero, um transtorno mental. Deixando de lado a boa vontade e simpatia e se concentrando na argumentação em sí, eu, até hoje, ouvi muito poucas, raríssimas, pessoas, que podiam se explicar sem caírem em lugares comuns, frases decoradas que não convenciam nem elas mesmas do que estavam fazendo.

Por exemplo, no caso do Candomblé qualquer resposta depois de alguns segundos de silêncio, uma expressão perplexa e aquele olhar profundo e perdido.... resulta em umas frases como: Eu amo meu orixá (òrìṣà) ou meu orixá (òrìṣà) é tudo para mim, O orixá (òrìṣà) é quem me dá caminho, etc... Nada de errado com essa manifestação de fé e carinho muito apropriadas a uma religião iniciática onde o orixá (òrìṣà) deve desempenhar um papel muito exemplar no imaginário do seguidor, mas, de forma nenhuma serviriam para explicar a alguém o motivo daquilo tudo ou convencer a sim mesmo do que esta fazendo.

No caso da Umbanda, o mais comum é a velha definição de que ela esta ali para ter uma evolução espiritual, mas, prosseguindo com mais perguntas sobre o mesmo tema, não se consegue que a pessoa defina com clareza o que é esta evolução espiritual para ela. Responder a primeira pergunta sobre um assunto exige um pouco de conhecimento, funcionando, como resposta, até mesmo uma embromação, mas responder 3 ou 4 perguntas sucessivas sobre o mesmo assunto, aprofundando o tema, exige saber de fato o que se esta falando. Assim me transtorna um pouco ver tanta fé nas pessoas, se dedicando dias e noites a uma religião sem que se pudesse perceber se elas sabiam o que as mantêm ali.

Atenção, de novo, isso não pode ser um paradigma. Não podemos dizer que é complicado demais para as pessoas sem cultura ou formação como as que são encontradas no Candomblé. Isso é apenas um estereótipo preconceituoso, e uma simplificação grosseira para justificar comportamentos inexplicáveis. Os evangélicos são um população equivalente, em termos de classe social e educação,e estes tem um domínio muito grande da sua religiosidade e também da sua teologia.

Vocês podem estar imaginando: e daí? Qual a significância em se saber definir isso em palavras se o que importa é o que está no coração? Claro, essa é uma boa fuga para essa questão, mas, se fosse assim mesmo, só uma questão de se expressar oralmente, eu tenho certeza que a gente não veria tanta gente deixando o Candomblé e a Umbanda para se transformarem em Evangélicos, deixando anos de dedicação para trás, sem significado nenhum e acreditando de fato que na Igreja conseguiu se encontrar com Deus. Como já ouvi e li de vários. Sério, não estou exagerando. Não estava buscando definições acadêmicas ou formais, estava buscando apenas uma explicação que me convencesse de fato.

E mais, conversei com várias pessoas para entender como era a vida religiosa dela depois da sua iniciação ou mesmo para aquelas não iniciadas e que apenas frequentam um terreiro. Para meu espanto, fora a presença em obrigações aquilo era sempre um grande vazio interno.

Vejam, estar presente em obrigações ou no seu terreiro fazendo tarefas domésticas não significa necessariamente que se esta tendo um vida religiosa. Existe muitos religiosos que vivem enclausulados em igrejas e conventos mas o trabalho doméstico é apenas uma necessidade em relação vida em comunidade, elas dedicam muito do seu tempo a religiosidade pessoal ou coletiva.

Mas o que eu esperava obter? Como já disse resposta simples, sinceras e refletissem o envolvimento da alma daquela pessoa com a religião que ela adotou, que fosse uma coisa tão simples e natural e ao mesmo tempo calorosa que desse a quem ouvia a vontade de também participar daquela vida.

Mas porque essa decepção?

A falta de orientação religiosa

Olha muito motivos existem. O primeiro deles sem dúvida é a falta de formação e orientação religiosa dos ditos “sacerdotes” de Candomblé. Eles abrem a boca para se auto nomearem sacerdotes de uma religião sem ao menos terem uma conduta consistente que justique o emprego desses termos, seja o de sacerdote seja o de religião.

Além disso, apesar de nossos inúmeros esforços em caracterizar de forma diferente, o Candomblé esta hoje muito mais para uma religião mágica ou uma pratica mágica do que uma religião. Como religião a sua prioridade são os ritos e liturgias e esse tema domina a formação e a preocupação das pessoas. Só o rito importa, só a forma e fazer melhor do que outro e saber mais ritos e segredos litúrgicos transforma aquele pseudo-sacerdote em alguém melhor. A qualificação de um sacerdote é o seu domínio por ritos e estes nem sempre podem ser totalmente associados a ritos religioso. O dia a dia é dominado pela pratica da magia para a obtenção de favores, para a correção de erros sem um questionamento do mérito de quem pede ou da moral do que é feito.

Esse assunto, o da pratica mágica aética ( na maior parte das vezes) e da ritualística é o que domina qualquer conversa envolvendo os praticantes e sacerdotes. Uma visita ao “dial” do rádio deixa isso bem claro. Encontramos programas católicos – poucos – evangélicos – muitos - e os de Candomblé. Enquanto nos primeiros existe uma preocupação com a pregação da palavra de Deus, do verbo, para os últimos é apenas uma hora de comércio e relacionamento.

Desta maneira a religião que existe e na qual se baseia o Candomblé se perde e é esquecida. Os conceitos religioso, a teodócia a teogonia ou mesmo a coisa mais simples, que é como eu iniciei qual o sentido para isso na vida das pessoas, são apenas fragmentos não ligados que são ditos com brevidade mais no sentido de mostrar que existe um fundamento maior por trás de tudo, a religião de fato, mas que raramente é explicado, servindo mais como isca ou como elemento para despertar curiosidade e respeito. As pessoas entram na busca desse conhecimento que nunca vem.

A grande responsabilidade por isso é a própria formação dos referidos sacerdotes, completamente voltada para o rito e o ganho pessoal através da pratica da religião. A preocupação por criar essa orientação religiosa de fato não existe e como a gente sempre diz, que só se pode dar aquilo que recebe, eles pouco ou nada tem a dar. Os que se incomodam com isso acabam usando os conhecimentos que adquiriram de outras religiões como o catolicismo ou o do Kardecismo para terem algum discurso religioso. Esse discurso passa então a ter nenhuma relação ou vinculo com sua própria religião. Além disso a pratica mágica indiscriminada e sem ética e moral e que visa o seu ganho financeiro próprio acaba retirando dele todo o sentido de ética e moral que qualquer religião deve ter. Como essa pessoa vai pregar, ensinar ou cobrar algo de seus seguidores se a sua pratica diária esta envolvida em fins que são completamente não éticos?

Mas muitos podem se levantar contra essas palavras e dizer que nem todos são assim, simples feiticeiros e que sua pratica mágica e litúrgica tem sim uma base ética. OK, como em tudo existe exceção vamos aceitar que de existem esses grupos, mas, mesmo para esse grupo as afirmações principais se sustentam: a falta de orientação da base religiosa, a valorização da prática mágica e litúrgica.

A realidade do Candomblé é que apesar de ser uma tradição de uma religião de fato, de os seus ditos sacerdotes terem alguma noção disso e eles se auto-nomearem sacerdotes e religiosos, a formação religiosa deles é nenhuma. Dessa maneira a sua capacidade de transmitir religiosidade para outros é igualmente nula. O que eles transmitem são ordens comuns, bom senso baseado em conveniência própria e conceitos religiosos que aprenderam de outras religiões basicamente a católica e espiritismo, que no fundo vira mais um sincretismo porque se junta com alguns conceitos que eles aprendem da religião africana.

No caso da Umbanda é um pouco distinto, porque a Umbanda é apenas uma pratica ritual de fato, e a religião por trás disso pode ter muitas origens, sendo que a mais comum é o espiritismo que deriva do catolicismo. Como o espiritismo Kardecista é bastante doutrinado e codificado a tarefa dos seus sacerdotes é bem simplificada mas igualmente mal executada.

Mas deixemos de lado um pouco essa questão que é farta de assunto e exemplos, e na minha visão indefensável para voltarmos para o praticante individual.

A vida religiosa de um praticante é então dominada pela ritualística e submissão hierárquica com pouco ou nenhuma orientação religiosa. Sua dedicação é dominada pela participação em obrigações próprias, de outros ou coletivas onde o seu papel varia de nenhum a algum. Toda a iniciativa ritual em um terreiro é dominada por poucos, um ou dois na maior parte das vezes cabendo aos demais o papel de figuração ou coro.

A rotina religiosa é repleta de festejos que criam assim um direcionamento estético e vaidosa para a presença da pessoa uma vez que não tendo ela um papel ou não consumindo o seu tempo com reflexões religiosas essa pessoa passa a dedicar o sei tempo ao culto do seu Ego e da sua vaidade no que faz. A vaidade é o que domina o Candomblé hoje.

A troca de favores

Chegamos por fim a talvez uma das questões mais primárias disso tudo que é o contínuo processo de troca entre o ọ̀run (órun) e o aiyé. A vida do praticante dessa religião é dominada pelo sentido de que trocas contínuas de bens e favores entre o ọ̀run (órun) e o aiyé são destinadas a resolver todos os seus problemas materiais. O supermercado religioso é a tônica da compreensão que se estabelece. Assim, baseado no fato de que a pessoa é dedicada ao seu orixá (òrìṣà), que vai no seu terreiro para varrer o chão e passar roupa, ela entende que é merecedora de favores do plano divino. Assim oferendas e ebós são os elementos de troca que buscam dar coisas para que a pessoa receba em troca favores, que vão resolver o seu problema, trazer benefícios e criar atalhos para a sua vida.

A questão do comportamento, do mérito e base para se poder se alcançar algo de fato ficam sempre para segundo (ou nenhum) plano. Entende-se que o processo mágico das oferendas ou de obrigações é o mais do que necessário para se obter o que precisa. Entendesse que uma pessoa que faça seu santo vai ter que receber em troca emprego, dinheiro e uma vida melhor. Se isos não foi alcançado é porque o sacerdote que procurou é ruim, seu santo foi mal feito, etc...

O merecimento é sempre lembrado como motivo para justificar o não benefício, geralmente por quem o fez, mas nunca lembrado quando o contrário ocorre, o benefício é atingido. A medida de atingimento de benefícios e prosperidade é a que justifica a permanência de alguém em uma casa.

Na minha visão a base da religião nesse sistema de troca entre o ọ̀run (órun) e o aiyé são uma das principais causas de problemas que se tem. As pessoas que se envolvem em religiões como o Candomblé e a Umbanda não podem viver com essa perspectiva. Uma religião não pode se focar ou incentivar esse comportamento porque jamais vai se encontrar.

Mais ainda, a falta de estrutura religiosa que permita a freqüência e participação de pessoas não feitas em terreiros versus a contínua pressão para que todos sejam feitos é uma questão fundamental. Essa não será uma religião se não criar categoria de envolvimento e iniciação. Quando os terreiros tiverem que conviver harmoniosamente com pessoas que não querem ou que jamais farão o seu santo eles conseguiram enfim achar um caminho religioso para sia existência. Hoje essa convivência é um estágio intermediário no qual a pessoa é continuamente empurrada ou incentivada a trocar de status de abian para iyawo.

A manutenção de terreiros através de clientelismo religioso é mais um outro mal. Esse processo de troca entre ọ̀run (órun) e aiyé deve acabar e isto ser um bem intrínseco da religião e não explícito. O aspecto da troca esta presente em todas as religiões em maior ou menor grau. Você dedica tempo, fé e recursos e espera do ọ̀run (órun), do sagrado, um retorno para a sua vida. Isso é natural, mas, algumas religiões moldarem isso com sabedoria, como a católica outras transformaram isso na sua bandeira como os evangélicos, mas que junto com a promessa de benefícios traz uma enorme dose de doutrina, dogma, moral e ética.

A perspectiva materialista

Na umbanda e Candomblé isso fica quase apenas na perspectiva materialista. O principal exemplo desse paradigma é a Umbanda. Como já expliquei aqui antes a Umbanda por si só não se caracteriza nenhuma religião. È um processo de possessão voltado em princípio para ajudar outras pessoas mas que deve se basear em alguma doutrina religiosa, qualquer uma porque a pratica da Umbanda exige mediunidade e não uma crença religiosa específica. Assim existem muitas umbandas, cada uma com uma combinação e entre comum apenas a incorporação com espíritos.

Os médiuns e principalmente os frequentadores se fixam sempre na solução de problemas da vida e materiais. A frequencia é determinada por isso e todos os que ali estão querem resolver algo novo toda semana. “Macumba boa é aquela que funciona”. As respostas a pergunta chave geralmente se traduzem em algo do tipo que a pessoa esta ali para elevação espiritual, mas essa resposta não sobrevive a uma segunda pergunta do tipo o que significa para ela essa elevação espiritual, como aquilo se traduzira na vida dela?

Esse problema não é exclusivamente do Candomblé. Esta muito presente também nos neo-pentecostais, contudo, apesar do muito excessos eles conseguem algum equilíbrio entre a realização espiritual e o sentimento de realização material. Tanto que as pessoa migram do Candomblé e Umbanda para eles.

Existe um tipo de pessoa e uma determinada faixa da população que coloca claramente essa questão material na frente da sua religião. Elas na realidade vão estar sempre buscando alguém que resolva os seus problemas e serão uma população migratória entre doutrinas e casas na busca de solução.

O circulo virtuoso

Eu poderia traduzir assim o circulo virtuoso. Uma pessoa que se dedica a essa religião deve encontrar base e orientação para através do contato com esse divino, através de exemplos e através de orientação, atingir um equilíbrio em sua vida na forma como a conduz e na forma como dedica o seu tempo para objetivos de realização. Equilíbrio é a principal palavra que traduz essa religião.

Uma pessoa religiosa é aquela que vive nesse mundo com a fé no divino. Uma fé forte e presente que a faz saber que sua vida existência esta sendo submetida e é controlada por uma força maior do que a dos homens, por uma lei maior do que a dos homens. Assim essa pessoa vive com a convicção de que não esta sozinha nesse mundo, o divino no ọ̀run (órun) esta sempre a zelar por ele. Uma pessoa de fé sabe que o mundo e as coisas são controladas pelo divino e não pela mesquinharia dos homens.

Essa pessoa vai se transformar em uma pessoa melhor para consigo mesma obtendo equilíbrio na forma como vive sua vida e se dedica a seus objetivos com ética e carater. Os seu orixá (òrìṣà) e ori vão buscar não somente ajudá-lo nesse equilíbrio como também ajudá-lo a enfrentar as diversidades de sua vida, amenizando problemas, e tornando-o transparente para seus inimigos. A própria conduta dessa pessoa, equilibrada consigo mesmo vai evitar que ela cria inimigos para sí.

O seu ori vai protegê-lo dos ajogun, os males que estão nesse mundo e que fogem ao nosso controle. A sua boa conduta vai permitir que oportunidades de abram em sua vida, que ele as veja e que consiga se aproveitar delas. Os caminhos dessa pessoa se abrem através do seu mérito como pessoa e através da proteção do divino para aquelas coisas que não forem plantadas por você mesmo.

Você como uma pessoa melhor vai ter condições de ajudar sua família e trazer também para ela esse equilíbrio. Mais pessoas assim serão beneficiadas por sua ação. O benefício para a família é um dos principais objetivos que uma pessoa deve ter em sua vida, seja por mantê-la unida seja por ve-la prosperar.

Uma vez atingido esse estágio você tera condições de ajudar a sociedade que o cerca, tendo assim conhecimento e experiência para transmitir para outras pessoas, ajudando a transformar e melhorar o mundo em que vive.

Uma pessoa religiosa deve ter uma pratica diária dessa religiosidade. A oração é o elemento de ligação entre o aiyé e o ọ̀run (órun). As palavras empregadas e sua repetição é o que o fazem. Uma pessoa deve de Fé deve estar ligada ao ọ̀run (órun) e deve ter em sua vida a pratica da oração.

Além disso a pessoa que vive com Fé deve se lembrar desse divino ao longo do seu dia. Seja quando tem uma dificuldade seja quando algo de bom ocorre com ele porque o mesmo ouvido que serve para ouvir pedidos de proteção e ajuda também server para ouvir agradecimento.

Uma pessoa de Fé deve ter uma pratica religiosa diária e semanal para si que não dependa do sei terreiro para que ela busque através dessa ligação com o ọ̀run (órun) o equilíbrio e o Iwa pele que vão trazer tudo de bom para a sua vida.

Uma pessoa de Fé deve saber como se dirigir a seu orixá (òrìṣà) e Ori e como receber deles as mensagens que precisa para poder viver melhor o seu dia e vida.

sábado, julho 05, 2008

O que é Odù?

Primeiro, a palavra não significa destino. O significado desta palavra Yoruba é o de uma coisa grande para conter algo dentro, como um container ou uma grande cabaça. Esta, como outras palavras Yoruba, como àṣẹ (axé), pode ser usado com mais de um significado na prática.

Não existe nenhuma relação entre odù e números.

Isso é uma invenção, um sincretismo. Eu não vou tratar disso aqui, para mais detalhes:

http://olodumare-orunmila.blogspot.com/2008/04/rndnlgn-if-uma-questo-que-sempre-tenho.html

O primeiro é que são marcas gráficas, formadas por traços verticais. assim cada odu é formado por uma seqüência de traços duplos e simples ordenados verticalmente em 2 colunas. Um odù somente é representado por uma marca gráfica e jamais por um número.

Odù também é o nome dos poemas de Ifá, ou corpo literário de Ifá. Os poemas estão agrupados em conjuntos por cada Odù e cada um dos 256 odù pode ter até 16 conjuntos de versos. No mundo real essa quantidade é variável, porque não se possui todos os versos e muito menos os versos são os mesmo sempre, cada escola de Ifá pode ter seu conjunto próprio de versos. Assim quando alguém cita tal verso do odù tal, huuuum......, isso pode ser só do conhecimento dele rsrrs.

Por fim em termos metafísicos, odù são os símbolos sagrados que contêm o axé ( àṣẹ - força. força vital) de tudo na existência. Nas religiões e no mundo místico em geral existe uma similaridade em relação ao uso de grafismo ou de selos e signos para invocar poderes divinos forças sobre-naturais. Seu significado parece se assemelhar aos signos e selos cabalísticos, para quem os conhece. Eles são em sua representação gráfica mapas que traduzem o movimento dinâmico de energia e se identificam com forças primárias do mundo. Os Odù são como mandalas trancedentais que marcam as energias ativas e inativas que estão presente em uma determinada situação com um determinado indivíduo com grande precisão.

Tudo o que existe ou existirá nasce através de um Odù, a energia primária, incluindo os orixá (òrìṣà) e seus axé (àṣẹ). Odù é como uma cabaça de energia cósmica que é enviada por Olódùmarè e que será transformada através dos orixá (òrìṣà) no axé (àṣẹ) que vai transformar nossa vida ou que vai repor o que perdemos. É através do Odù que os orixá (òrìṣà) e nossa ancestralidade fala e se expressa. Ele é a linguagem e o poder original que o mundo espiritual se manifesta sobre nós e que vem em resposta a nossas questões de vida.

Odù é ao mesmo tempo o diagnóstico para os problemas que temos e a resposta para corrigí-los. A consulta a Ifá materializa as marcas gráficas através do babalawo, o mensageiro de Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) e essa é a chaves para movimentar a energia do mundo.

O Odù é igual a homeopatia, por ser um diagnóstico da situação que você esta a tradução da usas mensagens ou significados pode representar o mal, ou como melhor chamamos a situação de desequilíbrio que o consulente esta passando, assim alguns associam o Odù a causa dos seus problemas. Não é verdade, ele é o espelho que reflete a sua situação de desequilíbrio de axé (àṣẹ). Ao mesmo tempo o Odù é o remédio para essa situação, ou seja, ele não é somente um símbolo que traduz uma informação ele é também a energia que se manifestará na vida da pessoa corrigindo os seus problemas. Dessa maneira o reflexo ou tradução do mal é o que também vai curá-lo. Você como uma pessoa culta conhece o princípio da homeopatia e vai entender esse minha metáfora de ponto de ônibus.

Como eu disse um odù é a resposta de Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) a sua situação e dependendo do seu objetivo de vida e com a ajuda dos orixá (òrìṣà) vai socorre-lo. Essa energia primária vai ser usada pelo babalawo através dos ebó (ẹbọ) de ifa, que são diferentes dos de candomblé, e através do orixá (òrìṣà) que responderão naquele momento em seu auxilio, irão te ajudar.

Mas, MUITO mais do que ebó (ẹbọ) você tem que entender o que o odù diz o que esta errado em sua vida. Por isso que existem histórias, mitos, patakis, ésé para mostrar isso. O babalawo acima de tudo tem que trabalhar esse aspecto em você, fazer você entender o que esta acontecendo e a origem dos problemas para que você se ajude.

A solução de tudo vai depender de ações suas no sentido de corrigir comportamentos, forma de vida, decisões que você tomou, pessoas que você afetou, lugares que você vai, pessoas que você convive, etc... É claro que energias negativas que estão com você, omo arayie (obsessores), feitiços (ajé, oxo..) , etc. vão ser neutralizados, mas você deve ficar longe da fonte disso senão vai ser uma coisa interminável.

Assim, essa negatividade ou positividade que pode se traduzida pelo Odù, não ficam flutuando ai e te pegam por acaso. Esta é uma questão que as pessoas perguntam sempre, como aquele Odù pegou elas, ou quem andou aquele Odù para elas. Não é assim. Os seus atos e omissões, suas ações e forma de viver vão te trazer uma situação que será representada por um Odù naquele binômio causa-solução que eu expliquei. O Odù é a linguagem de Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) para falar com a gente.

Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) se manifesta através do odù, ele é o meio de comunicação e ao ser obtido por um babalawo ele já esta disponível e atuando sobre a vida de quem o consulta. Cabe ao babalawo através dos ẹbọ (ebó) e sacrifícios direcionar e controlar essa energia para que ela se manifesta da forma positiva que é sempre enviada. o Odù é sempre uma força básica, primária e sempre necessita ser direcionado através do babalawo e dos orixá (òrìṣà) que nos assistem.

Ao se sentar em oráculo e consultar Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) se recebe um odù e a influência na nossa vida já é imediata. Este é o motivo que os babalawo dizem para se ter muito cuidado ao se lidar com odù. Não se deve invocar essa energia sem saber como manipulá-la, não se deve grafá-la sem o devido conhecimento, não se deve cantá-la sem saber o que se faz depois.

Para isso a pessoa que trabalha através de odù deve ter acumulado o axé (àṣẹ) para isso. Mas se estamos tratando de uma mesma religião de um mesmo olodumare e de uma mesmo Orunmila (Ọ̀rúnmìlà), qualquer sacerdote pode receber um odù porque esta é a forma de trabalho de Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) .

Como ele influencia a nossa vida?

Primeiro, a figura teológica de nos colocarmos diante de Olódùmarè para escolhermos nosso destino, ou objetivo de vida, como se queira chamar, sendo que podemos ser atendidos ou não e recebermos dele outros objetivos, tendo Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) como testemunha, é menos controversa e mais aceita.

Assim como também é pouco controverso o processo de escolhermos nós mesmos o nosso Ori na casa de ajala e essa escolha depender não da sorte mas sim do cuidado dos nossos ancestrais conosco. Mas, 2 pontos podem apresentar distintos entendimentos que é o caso do Odù & orixá (òrìṣà), vamos então voltar nisso.

Em relação ao orixá (òrìṣà) existem algumas visões sobre como se define que orixá (òrìṣà) você terá na sua vida. Eu acredito que seja um ponto não discordante o conceito de que o orixá (òrìṣà) faz parte do nosso Ori e temos apenas um.

Essa coisa de que a data de nascimento, tipo o dia da semana definir o nosso orixá (òrìṣà), é uma bobagem muito conhecida, assim como nós possuirmos um pai e uma mãe orixá (òrìṣà) ser outra bobagem. Esses 2 conceitos são enganos que são repetidos por muitas pessoas e tradições religiosas e muita gente os tem como verdade. Atenção, não são verdades. Outro mito que também vamos desconsiderar a visão de que seja por acaso, isto é, o orixá (òrìṣà) nos escolhe aleatoriamente, ou por simpatia ao nascermos.

Minha opinião é que podemos orbitar entre 2 visões. A primeira é que o orixá (òrìṣà) seria nos designado em função do objetivo que que escolhemos para nossa vida e que Olodumare aceitou. O orixá (òrìṣà) seria assim um elemento facilitador na nossa vida e as características do orixá (òrìṣà) virão a nos ajudar em nosso objetivo.

Outra visão é o orixá (òrìṣà) ser um reflexo de ancestralidade, ser uma herança hereditária. Assim se somos filhos de um Orí de um orixá (òrìṣà) com um Orí de outro orixá (òrìṣà) nossos filhos seriam também ligados a um ou outro orixá (òrìṣà). Essa cadeia de vinculo poderia se estender um pouco mais distante nas ancestralidade mas o orixá (òrìṣà) dos descendentes seriam o reflexo dos seus predecessores. Como uma herança genética. Esta visão não cria uma repetição contínua do mesmo orixá (Òrìṣà), pelo contrário em função da sua ancestralidade pode haver uma variação significativa nos orixá (Òrìṣà) de cada novo Orí.

Eu não tenho ainda um opinião mais firme sobre isso, prefiro a segunda apenas pelo aspecto de poder preservar a característica de o orixá (Òrìṣà) ser uma facilitador na nossa vida mas também reforçar a família e a linhagem familiar, mas, nenhuma dessas visões implica em nenhum problema ou atrapalha qualquer coisa.

Tanto podemos ter um orixá (òrìṣà) que nos ajude como qualquer orixá (òrìṣà) de família iria nos ser tão útil em qualquer missão de vida quanto outro, porque, essa coisa de especialização de orixá (òrìṣà) em funções, não é bem assim na prática e que também podemos sempre a recorrer a qualquer orixá (òrìṣà) independente de qual seja o nosso orixá (òrìṣà) original.

Temos que lembrar que o orixá (òrìṣà) mais importante é o nosso ORI, é ele que esta antes de qualquer orixá (òrìṣà) e para nós é mais importante do que qualquer orixá (òrìṣà) inclusive o nosso próprio, aquele que faz parte do nosso Orí.

Um outro ponto novo é a inclusão do Odù nesse processo. Isso pode ser menos concensual. Como existe um Odù de nascimento, que raramente conhecemos porque ele só será verificado no nascimento, nós temos que reconhecer que temos uma influência de um Odù em nossa vida, um Odù nato.

Se vamos nos iniciar religiosamente nós receberemos outros Odù. Assim na iniciação do Iyawo se determina qual o odù daquele iyawo. Dessa forma como a iniciação é um novo nascimento, ganha-se um novo Odù de nascimento. Será sempre um odù meji porque é assim que o Candomblé o faz. Essa informação acaba sendo pouco usada mas é uma informação relevante e somente irá aparecer no processo da feitura do iyawo.

Para o Babalawo é a mesma coisa. Ele irá ter um Odù como Awo e o mesmo ou outro como Babalawo. Ai pode surgir a questão, mas para que tanto odù? Afinal qual é o odù?

A resposta é muito simples: Estamos em todos esses casos lidando com a mesma coisa e com a mesma finalidade. No caso do babalawo o odù é o signo divino que marcará a sua vida como awo, como sacerdote, ressaltando as suas qualidades e defeitos, as coisas que fará melhor e também as coisas que não deverá fazer, ou seja, as coisas que vão trazer axé (àṣẹ) para ele ou vão tirar axé (àṣẹ) dele.

Um sacerdote de ogbe-ogunda estará alinhado com o seu odù, ou seja, atraindo axé (àṣẹ) quando estiver ajudando o ori de outras pessoas a encontrarem o seu rumo de vida, ou quando estiver ajudando essas pessoas a a afastar ou a controlar a influencia das ajé que forem invocadas contra ela, etc..

Fazendo isso ela vai estar realizando aquilo para o qual o seu Odù foi destinado. Se procurar fazer outras coisas ela vai estar trabalhando em áreas ou atividades menos afins à energia do seu odù e talvez assim perca mais axé (àṣẹ) do que ganhe.

Os odù se incorporam na vida das pessoas para então ajudar na condução dos seus objetivos de vida. Dessa maneira um Awo de Ifa recebe um Odù porque essa energia, essa marca lhe será util na condução de sua vida religiosa, vai ajudá-lo.

Observe que foi o mesmo motivo que levou o Odù a ser designado para o nosso ori antes de virmos ao mundo. É devido a esse paralelo que eu acho que sim, recebemos um odù antes de nascermos e esse odù é para ajudar a realizarmos os nosso objetivos de vida.

O que faz uma explicação factível é ela ser coerente. Assim os processo são similares, o odù que recebemos antes de nascermos é como o odù que o sacerdote recebe. Enquanto o sacerdote recebe um Odù para ser sia marca espiritual ajudando-o e orientando-o nesse caminho, o Odù que recebemos ao nascermos é a mesma coisa para a nossa vida. Temos um objetivo a realizar e o Odù nos dará a mesma coisa.

A mesma coisa vale para o orixá (òrìṣà). O orixá (òrìṣà) que temos é muito importante na vida religiosa que vamos levar. Mas veja, uma coisa é o orixá (òrìṣà) para uma pessoa comum, laica, outra para um sacerdote, uma pessoa que se iniciou para levar a diante uma missão diferente da vida comum.

Todo mundo que esta no meio sabe que o sacerdote de cada orixá (òrìṣà)) é diferente, a casa de cada tipo de orixá (òrìṣà) é distinta e ao mesmo tempo semelhante entre si e o tipo de pessoas e problemas que um sacerdote de um determinado orixá (òrìṣà) atrai para si esta muito ligado ao próprio orixá (òrìṣà), ao axé (àṣẹ) desse orixá (òrìṣà).

Assim, Odù é uma energia que recebemos para nos ajudar em algo.

No caso de uma consulta a Ifa é a mesma coisa. Ao consultarmos Ifá recebemos um Odù, aquele odù ira temporariamente ajudar aquele consulente nos problemas que ele tem, não necessariamente aqueles que ele veio resolver, mas o que Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) entende que ele tenha.

Dessa maneira eu considero que o ciclo fecha e os fatos tem coerência com o conceito. Isso pode voltar a uma questão que me pareceu presente na sua postagem, o que é um Odù. Veja, de novo, Odù é uma energia primária, elementar que orunmila, ou olodumare que é quem tem poder para gerar uma energia desse tipo nos envia através de Orunmila (Ọ̀rúnmìlà).

Odù não é uma divindade adicional. Odù não é como Oxun, Xango, Oxala, Ogun que são elementos ativos que manipulam àṣẹ (axé).

Reforçando o que já escrevi: Odù é uma energia primária que vem para o aiye através de uma consulta a Ifa. Ela será conduzida e canalizada para o benefício do consulente através dos orixá (òrìṣà) e através dos procedimentos que o Babalawo irá realizar. Essa energia para nos beneficiar de forma precisa, benéfica e rápida (no seu tempo) precisa de um operador qualificado.

Os orixá (òrìṣà) se utilizam dessa energia do Odù para atuarem sobre nós de forma que o odù vai ser então convertido nesse axé (àṣẹ)) deles.

Por essa razão eu não vejo como útil essa procura de que orixá (òrìṣà) corresponde a que odù. Muitos orixá (òrìṣà) trabalham com muitos Odù. Em relação aos Odù meji, que são apenas 16 então fica muito difícil dizer quem não pode trabalhar com que odù.

Okanran é um odù de Exu? E se eu disser que é através de Okanran meji que nós chamamos Xango? Que odù é o de Xango, ou diferente que Odù Xango não se apresenta? A mesma coisa para Oxalá ou Oxun.... E Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) esta em todos.

Assim o meu entendimento é esse Odù não é uma divindade uma agente ativo de olodumare. Os orixá (òrìṣà) e irunmoles o são. Eles atuam sobre nossas vidas, seja nativamente ou seja porque precisamos. Os orixá (òrìṣà) são os elementos que vão trabalhar e canalizar a energia dos Odù para nós.

Eu sou sempre muito cuidadoso em comparações, mas, não posso deixar de informar que um conceito muito similar existe no ocultismo e na Kabalah. Existem energias vindas de Deus, energias primárias que são invocadas através de rezas e signos e que são trazidas para o nosso benefício ou em nosso socorro, assim, não estamos lidando com algo completamente sem referência. Esse é um conceito que é facilmente aceito por outros estudiosos de ciências ocultas ou místicas. Por isso que eu acho que tem sido tão popular mundialmente.

domingo, junho 22, 2008

Serão os Òrìṣà (Orixá) elementos da natureza ?

Existe um conceito generalizado que associa òrìṣà (orixá) a elementos da natureza e depois de me debruçar sobre esse assunto analisando referência teológicas e mais ainda textos de odù eu tenho uma opinião completamente divergente e gostaria de apresentar aqui. Na minha conclusão isso é um sincretismo europeu, ou seja, uma forma de expressar um conceito de outras visões religiosas, as quais inclusive eu já tive muito contato, com a religião africana.

Então veja, Ṣàngó (Xango) é um eborá, um òrìṣà (orixá) divinizado e não um dos òrìṣà (orixá) originais assim, como ele poderia ser o fogo ou o trovão, que é um elemento que existe desde o início dos tempos. O vento é ọya, mas ela também é divinizada, assim, o vento já existia antes dela ela não pode ser o vento,uma força da natureza. Ọ̀ṣun (Oxun) é uma irúnmalẹ̀ (irunmalé) um òrìṣà (orixá) original da criação e poderia sim estar ligada com a água ou ser agua, como a gente mesmo diz, mas Ọ̀ṣàlá (Oxalá) é o ar, por que? ele pode ser o firmamento ou o alá que cobre a todo o mundo, mas, de novo acho que é uma visão muito onírica dos òrìṣà (orixá), um sincretismo com religiões européias como a bruxaria tradicional, wicca, ocultismo, etc...

Assim, essa ligação de uma divindade com os elementos da natureza existe em algumas tradições religiosas, muitas delas politeístas puras de fato, mas não acho que seja consistente e repetitiva na religião africana. A mim me parece mais uma forma de sincretizar a religião africana com formas politeístas ou animistas com as quais a religião africana foi forçosamente comparada. Assim, de novo, como sempre eu digo é o sincretismo que de novo nos prejudica e enfraquece, só que as pessoas acham isso bonito e romântico e resolvem repetir a adotar.

É tipo assim se as religiões que foram classificadas como pagãs na europa tem como deuses as forças da natureza então como o a religião africana é pagã tem que ser o mesmo. Mas não necessariamente assim.

Por esta razão, dizer que os òrìṣà (orixá) são as forças da natureza como eu canso de ouvir é o mesmo que dizer que Ṣàngó (Xango) é São Jerônimo, Ọya é Santa Barbara, Ògún é São jorge. É o mesmo que ouvir babalorixá explicando a vida e a reencarnação usando a doutrina espírita.

Eu não parei muito tempo para aprofundar isso, até porque estou longe de ter esse tempo ou ter a competência para isso, mas acho que no caso da religião africana giramos em torno da energia vital, o àṣẹ (axé), aquilo que permeia tudo, que nos dá força, que nos movimenta, que nos traz saúde, prosperidade, etc. De novo nesse caso um conceito bastante amplo e com muitas facetas para designar uma só coisa, bem típico dos conceitos poderosos e profundos dessa religião mas muito pouco elaborado.

No caso do àṣẹ (axé) um dos aspectos importantes é a afinidade entre a energia de àṣẹ (axé) com as divindades e com odù. Existem combinações que fazem bem para o àṣẹ (axé), o amplificam, o diminuem ou o prejudicam. Assim tudo tem àṣẹ (axé) porque tudo tem energia e/ou vida. Assim òrìṣà (orixá) usam a energia de odù para atuarem e tanto podemos acreditar que qualquer òrìṣà (orixá) pode usar a energia de qualquer odù como também existe uma ligação mais forte entre determinados odù e òrìṣà (orixá), eu não sei a resposta mas sou mais pela primeira. Existe elementos da natureza que estão dentro do domínio de determinadas divindades e assim elas se manfestam junto com eles, mas tudo o que eu vi me mostra que não existe voo solo, e assim muitas divindades se manifestam em um mesmo fenômeno ou força. As oferendas contêm materiais que são do domínio de diferentes òrìṣà (orixá) e serão transformados em axé, mas existem muitos materiais comuns a vários ou muitos. As folhas certamente são um tipo especial de material porque é vida e contêm àṣẹ (axé) vivo assim existe uma ligação mais intima e fundamental. Mas montar essa matriz não é algo simples porque eu vejo sempre muitas superposições e complementaridades.

Essa ligação, com àṣẹ (axé), elementos, odu, òrìṣà (orixá), ori e nós é o que é importante. É o que nos fortalece ou nos enfraquece, mas isso acaba ficando prejudicado ou esquecido e as pessoas se lembram de ficar ligando òrìṣà (orixá) com elementos de natureza que não nos interessa. Pelo menos eu não consigo ver o sentido ou importância dessa ligação, exceto por uma curiosidade inconsistente que dá certo para algumas coisa e errado, acho que é somente um esforço sincrético uma deformação no nosso conhecimento. De novo, eu estou dizendo isso não só porque eu acho isso ou tenho antipatia por isso, mas, porque de fato eu não consigo encontrar essa ligação em nenhum texto de odù ou mito. Assim, sempre em muitas histórias existe a ligação de odù e òrìṣà (orixá) com um monte de elementos naturais, mas, e dos quatro elementos eu não vejo.

A ORIGEM DO SINCRETISMO

Conforme mencionei anteriormente não existe nada que eu tenha lido ou ouvido que remeta a ligação de òrìṣà (orixá) como sendo elementos da natureza. Vou me explicar adiante, mas, minha opinião que isso se trata apenas de sincretismo que foi feito com boa o má intenção, não importa uma vez que ambos são perniciosos, com tradições pagans da Europa e Itália onde o panteão dos deuses dessas tradições era associado com este tipo de elemento.

Conforme já comentei antes a igreja católica criou uma denominação genérica e sem nenhum significado absoluta para qualquer outra religião que não fosse Abraamica, ou seja, que tivesse origem em Abraão patriarca que gerou as correntes do Judaismo, cristianismo e islamismo. Todas essas 3 tem o mesmo Deus e a mesma origem. Os Judeus não reconhecem ninguém, os cristão reconhecem a parte formal do Judaismo que é o antigo testamento e os mulçumanos os mais recentes, século VII, reconhecem as anteriores, inclusive Jesus, mas não a trindade católica.

Para os Cristão que dominaram o mundo à força da espada o que não era católico era Pagão, eles só não tiveram coragem de chamar os Judeus de Pagãos, mas criaram o termo herético, para aqueles que divergissem da interpretação teológica oficial de Roma... Assim pagão, não tem significado religioso, é tudo o que não e católico, essa é uma definição clássica vão encontrar em qualquer lugar.

Os abraamicos consideravam o seu Deus o único e defenestravam qualquer outro tipo de manifestação religiosa. A partir do século XV a igreja católica baniu toda as praticas que mostrassem similaridades com simpatias, encantamentos e feitiços. A igreja medieval era totalmente esotérica, mas para se afastar disso eles baniram completamente essas
práticas, de modo a poderem a partir do século XV dominar os seus fiéis através do temor ao mal, ao diabo e a perseguição ao pecado. Assim estudiosos do aspecto do Mal na religião correlacionam o surgimento da força do diabo com a necessidade de um controle mais rigoroso da sociedade pela forma política uma vez que esse temor e domínio não existiam anteriormente. Igualmente isso coincidiu com os papas-generais, guerreiros que literalmente com a espada não mão construiram Roma e a Igreja que conhecemos hoje. O próprio celibato, que não havia dizem que foi devido a igreja passar a ter posses. Eles não queriam se envolver em disputas judiciais com esposas de padres, bispos e papas. Enfim a força da reforma, de Lutero e Calvino, obrigaram a igreja a mudar sua posição e adotar políticas mais ativas.

No centro de tudo isso ficaram as religiões de fato politeístas que tinham uma interpretação diferente da divindade e dos seus poderes. As correntes celtas e bruxaria tradicional viam a terra como centro de tudo assim a natureza era o sagrado e seus poderes eram invocados através de nomes que os traduziam. Os politeísmos clássicos não tinham a idéia de uma divindade superior o poder era compartilhado e uma coisa influenciava a outra. A vida era mais simples e mais lúdica. esse mesmo tipo de religião ocorria em Roma e também na grécia. Assim duas coisas co-existiam, o politeísmo no qual o poder sobre a natureza era exercido por multiplas fontes e um grande número de deuses que traduziam esses poderes que eram a natureza em si. O uso da palavra Panteão esta assim associado não somente a um número grande de deuses mas também ao politeísmo. Essas religiões passaram a ser então a tradução da palavra paganismo e essa palavra apesar de não significar originalmente.

A expansão européia para a Africa expôs os europeus sufocados por séculos de opressão religiosa a um novo conjunto de culturas e também de religião. Os métodos científicos estavam longe de terem sido os mais corretos e éticos, assim como os primeiros a irem para a Africa estava longe de serem os cultos e eruditos e sim os comerciantes e militares.

A interpretação e análise do que eles encontraram foi assim um misto de simplificação e sincretismo. Acredito que longe deles se preocuparem em entender de fato as culturas locais, a sua idéia de superioridade tornava todo o resto menos importante. Dessa maneira aliado a incapacidade deles em se comunicarem livremente com os nativos devido a lingua a religião encontrada na Africa por similaridade foi associada ao que já encontravam no paganismo Europeu. Não houve uma preocupação de de fato se entender o que se encontrava.

A religião Africana por sua vez não é simples. Esta e estava longe de ter uma perfeita uniformidade ou mesmo estar pronta a se adaptar aos padrões classificatórios europeus. Assim entre 2 opções básicas monoteísmo e politeísmo, foi considerada politeísta em vista da quantidade de Deuses encontrados. E desta forma sendo politeísta e considerando a natureza cheia de espíritos, tinha que ser Pagam.

Mais recentemente esta questão tem sido revisitada e novas classificações tem sido criadas para se classificar culturas e religiões mais complexas, mas, para o povo comum pode ser que isso nunca chegue assim, a cultura dominante no mundo ocidental é a Abraamica e assim, ou você é monoteísta ou politeísta.

Em função disso a religião africana ganhou o cunho de paganismo e seus Deuses são forças da natureza. Entretanto não existe nada que de valor a isso. Apesar de a america do norte exercer forte influência nos aspectos de usos e costumes e algumas facetas culturais, o esoterismo e as nossas tradições não cristãs são oriundas da europa. Assim o kardecismo é francês e criou toda uma visão espiritual confundindo o próprio Candomblé que não tem nenhuma relação com esse.

O esoterismo europeu é fortemente influenciado pelos cultos ditos pagãos, como os celtas, stregheria e com o renascimento da bruxaria na forma da Wicca. Outro aspecto são a irmandades gnósticas como roza-cruzes, thelema e por ai vai. Tudo isso exerce forte influência sobre a nossa sociedade no aspecto esotérico e em função da deficiente formação religiosa dentro do Candomblé fez com que, na minha visão, esses conceito de força da natureza se estabelecesse dentro do próprio Candomblé. Os que não gostam de eu dizer que a formação religiosa do Candomblé é deficiente devem observar que o acesso a mitos ou poemas de Ifa é restrito ou inexistente. O hábito de discutir teologia no Candomblé não existe, você não consegue juntar 3 babalòrìṣà (babalorixá) sem que seja para eles rasgarem seda entre eles, poucos estão dispostos a colocar em questão o que sabem ou o que pensam, exceto se for uma cátedra onde ele fala e outros ouvem. Assim podemos ter um grupo de especialistas espalhados por casas mas um legião de outros que pouco acesso tiveram ou tem e mesmo assim abrem-se casas como se nunca viu. É claro que essas pessoas tem que se virar com algo ou com o que tem. É neste campo que essas concepções florescem, assim como o que mais existe é pai de santo que responde perguntas usando os conceitos do kardecismo-espirita, afinal eles vão dizer o que? Que não sabem?

É claro que a vertente conhecimento não é o forte do Candomblé. A vertente forte é a devocional, a fé. Para isso você não precisa saber o que é, você sente o que é e você também acredita porque sente e vê. A resposta mais comum para quando se pergunta uma coisa do tipo o que é o Candomblé ou o que é o òrìṣà (orixá) ou qualquer coisa de aspecto mais teológico será algo que começa com "eu amo meu òrìṣà (orixá)..." e por ai vai uma torrente de expressões de sentimento e fé. Isso reflete o que ela sabem, e elas sabem o que sentem.

Esse é o jeito pelo qual esse tipo de sincretismo é aceito e prolifera. Assim como os africanos fizeram no passado com os antropólogos, as pessoas sabem o que é, elas sentem o que é, e se esta definição, de elemento da natureza satisfaz o inquisidor, que o seja. Isso não impede entretanto que em espaços ou oportunidades como essa a gente possa visitar ou revisitar questões como essa, ou a reencarnação ou o conceito de nascimento e destino, as proibições, etc... evitando assim que da nossa própria boca saia coisas como o Karma.

É claro que saber ou não o que parece certo não faz uma pessoa fazer melhor um santo do que outro. àṣẹ (axé) e roncó é outra coisa, mas, não tem nada demais a gente poder tratar dos assuntos com outra base.

POLITEISMO e MONOTEISMO

A gente pode voltar a essa discussão depois, mas, esta é uma discussão um pouco complicada porque é muito poluída por preconceitos.

Em termos de definição para uma religião ser politeísta não importa a quantidade de divindade e sim a qualidade delas e de sua relação. Em uma religião politeísta não existe uma divindade superior as demais, todas tem o mesmo poder e não existe assim uma força reguladora do conjunto.

O Candomblé, como outras, não é politeísta porque existe uma relação bem cara de hierarquia entre Olódùmarè e as demais divindades. Assim possuir divindades, originais ou divinizadas não transforma uma religião em politeísta, senão, o catolicismo com seus santos e sua trindade também o seriam, mas ninguém ousa fazer isso.

Em função de preconceito, conforme eu já me expliquei anteiormente, as religiões abraamicas tem esse interesse histórico em diminuir e marginalizar as demais religiões, conforme eu disse todas denominadas pagãs. Assim eles de forma ignorante simplificam essa discussão a um modelo muito simplista do que é ou não monoteísta ou politeísta baseado no modelo de referência deles, que está longe de ser consistente e conceitualmente correto. Assim o preconceito domina essa a conversa toda a ponto de as pessoas que não gostam da abordagem cristã procuram sem saber porque dizer que não fazem parte de uma religião monoteísta, como se isso fosse um problema ou solução. As cristã que querem dar prosseguimento ao preconceito histórico contra as outras correntes religiosas chamam as demais de politeísta como se isso fosse correto ou mesmo uma ofensa. A maior parte do ignorantes assim prefere aceitar duas definições carregadas de preconceito e ignorância que é chamar a sua religiao de seita e dizer que é politeísta.

Para os cristãos, seita é uma coisa menor um pedaço da religião verdadeira, e isto está correto uma vez que o termo nasceu do judaísmo onde as seitas são tradições que divergem da interpretação tradicional das suas escrituras e politeísmo remete ao velho testamento, quando os próprios judeus adoravam Deuses zoomórficos, na forma de animais como o carneiro. Isso para eles era um episódio negro e assim poiteísmo é um pejorativo.

Pessoas que pertencem a uma outra religião devem primeiro se informar para poderem primeiro entenderem a si mesmo e também poderem discutir com elementos de outras religiões, ao invés de aceitarem tacitamente rótulos inadequados, seja pelo aspecto que é um uso inadequado de conhecimento seja porque a finalidade é de fato ofender. Assim temos uma dupla ignorância.

AS SEMPRE CONTROVERSAS FONTES DE INFORMAÇÃO

Os antropólogos que estudaram a Africa ao longo do século passado e talvez o anterior se preocupavam muito mais com o aspecto da sociedade. Eles não tinham formação ou a formulação religiosa como um fim, mas entendiam que não poderiam falar sobre o povo sem falar sobre a religião uma vez que uma coisa permeava a outra. É como hoje em dia a gente estudar um pais mulçumano. As dificuldades de comunicação e a preocupação dos africanos estudados em agradar aqueles que os pagavam levaram a respostas e interpretações equivocadas. Assim os próprios yorubas foram em parte responsáveis pela visão que se criou da religião deles.

Posteriormente na medida em que africanos foram sendo educados na europa e tiveram acesso as ciências humanas e sociais bem como ao que foi feito sobre eles, eles voltaram a africa para fazer os seus próprios estudos. Idowu em seu livro "African Traditional Religion" fescreve 3 fases nos estudos sobre os africanos. A primeira a da ignorância a segunda onde quem escreve já passa a respeitar que existe uma diferença cultural e que existe de fato uma cultura não conhecida mas comparável a deles no lado "nativo" e a terceira onde finalmente entram em cena os escritores africanos.

É claro que em vista da enorme fragmentação que existe na base de conhecimento sobre a religião africana existe muito pouco consenso. Existem muitas verdades, existem mentiras que de tanto serem repetidas viram verdades e é claro existe a competição pela autoria do conhecimento. Da mesma forma todos querem que sua verdade seja a certa. Assim existe um grupo de autores teológicos que são muito questionados devido a sua origem cristã. São pessoas que se formaram padres e voltarem ao Continente para escrever sob sua religião natural.

Sobre eles temos que fazer algumas considerações. Primeiro julgar todos eles devido a sua origem como sem credibilidade é apenas preconceito. Mesmo aqui no Brasil, pessoas de origem pobre somente tinham no passado uma forma de estudar que era em colégios religiosos e até mesmo seguindo a carreira religiosa. O acesso a educação de qualidade era praticamente impossível. Da mesma forma eu considero que muitos africanos passaram pelo mesmo. A sua educação somente foi possível ao se transformarem em pastores, quando tiveram a oportunidade de até mesmo se transformarem em acadêmicos. Dessa forma é muito comum que uma pessoa para se dedicar a estudar uma religião sob o aspecto teológico tenha passado por uma educação cristã, mas isso não significa que o que eles escreva esteja comprometido ou não tenha valor.

O método de se fazer isso e o conteúdo revelam a intenção. Se não for assim temos que considerar que todas as obras de antropólogos são inválidas ou questionáveis uma vez que somente se fizermos uma investigação detalhada da vida pessoal dele poderemos desvendar suas intenções. Eu acho impossível ser assim e prefiro me ater ao conteúdo em si. Isso esta longe de ser um comodismo, ou simplificação ou ingenuidade, mas, temos que sair do outro lado e para isso eu preto atenção ao conteúdo e é claro à comparação do conteúdo. Em relação aos escritores estarem escrevendo repetindo os anteriores, ou seja, um escreve uma coisa e os seguintes re-escrevem o que este fez de forma que estamos tratando do mesmo conteúdo original equivocado e não da confirmação do conhecimento através de fontes diferentes, eu lembro que isso é uma pratica de todo mundo. Todos usam a bibliografia como referência para não terem que refazer estudos e se alguém repete algo é porque concorda com aquela abordagem.

Assim, se formos considerar isso um equívoco temos então que jogar tudo o que existe fora. No caso da cultura africana estamos diante de uma impossibilidade de re-estudo
em vista de que, a cultura original deles foi destruída pelo escravagismo, por eles não terem lingua escrita, pela morte dos que sabiam, etc.. Assim em determinados momentos a única forma é crer nos registro que foram feitos porque refazê-los é impossível.

Assim mesmo essa questão bem simples, como, o que é o òrìṣà (orixá) que todo mundo deveria saber ou dizer se reverte ainda hoje de polêmica. É claro que qualquer um que seja de uma casa de Candomble sabe o que é um òrìṣà (orixá), porque ele o vê nascer, ele o sente, e ai esta manifestado o aspecto sentimental e devocional, essa é a parte fácil. O que nos é difícil é discutir questões filosóficas e teológicas com nós mesmo e com outros e isso nos leva a sempre ficar isolados ou discutindo e rebatendo as mesmas coisas, que são o malefício, o sacrifício, etc..., questões menores porque não se discute o que é comum nas religiões que é a fé e o significado disso na nossa vida.

A ORIGEM DOS òrìṣà (orixá)

Eu vou fazer uma abordagem tradicional e minha referência é o texto do
Odù oxetuwa. Para não se ter dúvida eu carreguei o texto desse odù existe um texto neste Blog com o mesmo

Eu recomendo que seja lido ele contêm inúmeros conceitos e fundamentos importantes. Este texto foi extraído originalmente do livro Os Nago e a Morte, mas existe em outras obras, contudo essa é um versão completa com inserções de outras versões que eu li.

Neste odù fica claro que Olódùmarè criou o mundo, populou-o com os homens e enviou os òrìṣà (orixá) para poderem ajudar os homens na sua vida, na superação das dificuldades. Eram 16 e havia somente uma mulher entre eles Ọ̀ṣun (Oxun), que representa assim o poder feminino original. Desta forma se os òrìṣà (orixá) foram enviados para suportar os homens inclusive de calamidades naturais não poderiam eles serem os próprios elementos da natureza, conforme a visão das religiões pagãs européias. Este odù estebelece uma distinção entre as divindades de Olódùmarè, suas funções e a natureza.

Tomemos por exemplo as divindades femininas que tiveram uma origem comum em Ọ̀ṣun (Oxun). Como eu já disse antes, Oya que muitos consideram o vento não poderia o sê-lo porque ela foi claramente um ancestre divinizado, e o vento já existia antes dela. Ọya bem como todas as divindades femininas são cultuadas e associadas com o elemento agua. Assim Oya esta ligada a Rio ògùn, òxun ao rio com seu nome, Yemanja a rio e lagos e inclusive mar, Olokun ao mar, as ajé são as que possuiam os 7 rios da terra na sua criação, iyewa e até nana que nem é yoruba. O elemento agua que é de Ọ̀ṣun (Oxun), mas que também é o único elemento que sozinho pode gerar e sustentar a vida e esta associado sempre a existência de vida. Tudo isso tem origem em Ọ̀ṣun (Oxun). Ṣàngó (Xango) é dito ser o fogo, mas a real ligação dele com o fogo foi a capacidade que adquiriu de manipulá-lo, o que também foi feito por Ọya segundo o mito. Ṣàngó (Xango) esta associado com trovões e raios, sim mas por manipulá-los porque ele é considerado a justiça de Olódùmarè ou a sua ira e joga os raios contra pessoas que de tão ruim que foram não merecem mais viver. Igualmente após a sua morte o mito diz que ele jogou raios contra as pessoas que diziam que ele tinha se enforcado.


No mito da criação que todos conhecem a terra foi criada por Olódùmarè e só havia a agua. Ele deu a bolsa da existência contendo os elementos que seria plantados e depois espalhado para formar a terra. Depois de tudo criado, conforme o odù oxetuwa os òrìṣà (orixá) foram enviados para suportar a vida ensinando os homens a se relacionar com o divino.

Assim sendo o que ocorre é que os òrìṣà (orixá) como representantes ou intermediários de Olódùmarè e os homens possuem poderes sobre determinados elementos da natureza que vão desde a agua a doenças, mas, isso na sua forma controlada e organizada e não na sua forma violenta. Uma coisa é ter controle sobre ou é ser ou ter controle total. Assim por mais que se faça uma oferenda um furacão, um tsunami, um terremoto e uma seca não poderão ser evitados. Essa é uma manifestação descontrolada da força da natureza, os òrìṣà (orixá) ajudará os homens a se prevenir ou superar as consequências disso.

O COSMO YORUBA

Os òrìṣà (orixá) são parte de um conjunto de divindades e não todo ele. Nós que os cultuamos acabamos nos concentrando neles mas não podemos ignorar todo o resto. Devemos nos lembrar que uma religião explica o mundo que vivemos através de uma estrutura metafísica e composta de elementos religiosos. É o contraponto da ciência para a qual tudo tem uma explicação determinística e pode ser sintetizado em equações e previsibilidade. Em um mundo onde não havia ciência a religião é quem explica ao homem o sentido de sua existência e também tudo o de bom e ruim que lhe acontece. Se o seu apoio o mundo é algo sem sentido ou senso, de forma que as pessoas para conseguirem viver tem que se apoiar em uma ou outra.

No Cosmo Yoruba como em outras religiões temos um sistema metafísico que suporta toda a existência, assim as primeiras forças que se destacam são Olódùmarè e Èṣù (Exu). Olódùmarè é o criador de tudo, fonte da existencia, designador dos destinos e quem julga nossa vida. Èṣù (Exu) representa mais de uma coisa. A primeira é o axé. Èṣù (Exu) é considerado o axé em si, o movimento a força que põe a vida em ação. Além disso ele é o policial de Olódùmarè e da religião, é uma força neutra acima do bem e do mal que se encarrega de verificar que tudo seja feito certo e que o àṣẹ (axé) das oferendas façam o seu efeito. Também pune com o destino não evitado aqueles que falham no cumprimento de sua obrigação. Ele não é a favor ou contra ninguém.

A terceira força é Ọ̀rúnmìlà (Orunmila) porque é o mensageiro de Olódùmarè e dos òrìṣà (orixá). É Ọ̀rúnmìlà (Orunmila) que estabelece a comunicação entre o divino e o físico.

Depois temos outros grupos mais conectados:

  • Ori

  • os ancestrais, a base de toda essa religião e que representam a sequencia da vida na terra.

  • Os òrìṣà (orixá)

  • Os espiritos

  • Ajé que são um elemento regulador da existencia evitando que tudo seja bem demais ou ruim demais. De fato um espírito que pode ser utilizado para o bem ou para o mal representando assim a ação dos homens.

  • os ajogun que são as coisas ruins (a morte, a guerra, a perda, a
    doença, a paralisia, a feitiçaria, as maldições, os problemas...

Conforme comentei em outras ocasiões os yoruba acreditam que tudo que é grande ou significativo é um espírito, assim uma montanha tem um espírito em si, uma arvore, como o iroko é um espirito, um grande lago tem um espirito nele, o vento tem vários espiritos (nenhum é oya...) esta é a forma como os yoruba explicavam o mundo onde viviam, assim os espíritos estão presentes em tudo e torna o mundo um elemento vivo. Este tipo de divindade é o que pode gerar essa relação com os elementos da natureza, mas observe, não são òrìṣà (orixá), são espiritos, e são associados com tudo como uma forma de os yoruba traduzirem as reações do mundo que os envolve.

Por uma questão de hábito ou correlação podiam até mesmo receber oferendas, uma vez que os òrìṣà (orixá) os recebiam, mas não me recordo de ter lido uma só linha de odù onde um desses espíritos recebesse algo Os odù nos relacionam com os òrìṣà (orixá) e na proteção contra os ajogun e ajé. Assim conforme meu entendimento esses espíritos não são parte do culto principal da religião, fazem parte do entendimento do mundo por um povo agrário e sem ciência, mas estão longe de representarem um panteão de Deuses.

Àjẹ́ (Ajé) é uma parte chave nesse quebra-cabeça. Sua existência explica a ação do mal ou do bem na sua forma mais direta. É o mal de uma pessoa contra outra e elas, conforme todos os odù onde aparecem passam por cima dos òrìṣà (orixá) e desta forma de sua proteção explicando porque mesmo uma pessoa devota e portadora do àṣẹ (axé) do seu òrìṣà (orixá) será afetado pela ação da Àjẹ́ (Ajé) que são provocadas por outros serem humanos. A imagem que se tem de Èṣù (Exu) aqui no Candomblé em parte deveria ser creditada a Àjẹ́ (Ajé). A ação dos guias de Umbanda e da Macumba que podem fazer o bem ou o mal de acordo como são usados, para nós no Candomblé tem que ser explicado pela ação da Àjẹ́ (Ajé) que é desta forma uma força neutra. Para entender ajé eu recomendo ler, com calma, Verger.

Os ajogun representam as piores forças da natureza ou a consequencia delas na sua forma mais bruta. São apaziguados com oferendas e desta forma através de Èṣù (Exu) e também são forças superiores a proteção dos òrìṣà (orixá).

Os òrìṣà (orixá) são divindades criadas e enviadas por Olódùmarè. Definir o que é um òrìṣà (orixá) seria como definir o que é um anjo. No nosso caso òrìṣà (orixá) representa a representação de Olódùmarè na terra e os òrìṣà (orixá) possuem forças e propriedades designadas por esse. Eles se dividem em 2 grupos, os primordiais criados por Olódùmarè e os ancestres divinizados. Aos òrìṣà (orixá) cabe a assistência e proteção aos homens e conforme mito também conhecido, quando houve a separação do orun e do aiye eles não mais puderam transitar entre os 2 mundos livremente. Para isso teriam que contar com uma pessoa o elegun que seria preparado para ser essa ponte. Assim sem elegun não temos òrìṣà (orixá) de forma que onde não existem homens não existira a divindade.

Assim os òrìṣà (orixá) sendo eles primordiais ou não são manifestações reais do divino, eles se fazem presente junto de nós e são representados nos mitos e odù atuando como pessoas, sugeitos as mesmas coisas que qualquer um se sujeita. Devemos lembrar que essas estórias são metáforas e não expressão da realidade. É através delas que entendemos como nos comportar, que exemplos seguir, as consequencias de atos ruins, etc..

Ori e òrìṣà (orixá) representam a presença do divino em nossas vidas, nos orientado e protegendo, não sendo superiores a forças maiores do mundo que nos cerca, mas, sendo de uma forma muito vísivel para nós o exemplo de como devemos ser. Os òrìṣà (orixá) são a manifestação humana do divino, a mais próxima e a mais palpável que nos faz sentir protegidos, ouvidos e assistido por Olódùmarè. Eles são parte de nosso ori, assim junto com ori que é a principal divindade que nos assiste, junto com nossos ancestres que fazem parte do ori, todos temos um orixá que nos acompanha no nosso elemento mais fundamental, nosso ori.

Sem um iniciado o òrìṣà (orixá) não se manifesta no aiye, o sacerdote feito, é a ponte entre o aiye e o orun é a ligação do homem com o divino, não só para aquela pessoa mas para todas que a cercam, assim a feitura e a participação ativa na religião tem um sentido muito maior do que a própria satisfação pessoal. Os elegun são a presença do òrìṣà (orixá) na vida da terra e enquanto existirem elegun, enquanto existirem babalawo o divino estará junto da humanidade na forma dos òrìṣà (orixá).

Se os òrìṣà (orixá) fossem as forças da natureza então eles já estariam aqui e não seria necessária essa ponte qe representa o elegun. Alguém poderia dizer que não que a iniciação é uma preparação da pessoa para podert incorporar um òrìṣà (orixá), mas, eu respondo que o mito não diz isso, diz sim o que eu mencionei.

O pessoal da Umbanda, sempre muito confuso com tudo, e os Lukumi (cubanos) são os primeiros a dizer que os elegun não incorporam um òrìṣà (orixá) porque sendo eles elementos da natureza teriam uma força tremenda e assim uma pessoa, um elegun, não poderia os incorporar. Essa é de fato a visão de quem acredita que os òrìṣà (orixá) são elementos da natureza.

Mas o Candomblé não pensa assim. No Candomblé os elegun de fato incorporam os òrìṣà (orixá), ou sua energia como se queira. Desta feita para seguir com esse entendimento temos que desconsiderar que òrìṣà (orixá) sejam os elementos da natureza e sim divindades que tem o controle sobre alguns elementos.

Assim na concepção que eu tenho, os òrìṣà (orixá) tem estreita ligação com os homens e não são forças desconectadas de nós. O cosmo yoruba não é muito simples mas o òrìṣà (orixá) tem um papel estreito com a raça humana e isso esta no nosso dia a dia e também nos textos de odù. A gente que vive isso todo o dia sabe o que e como é um òrìṣà (orixá). Sabe também o que é a natureza e suas forças sejam boas ou mas e a gente não confunde isso, não?

Então na forma que eu vejo os òrìṣà (orixá) dentro da concepção metafísica da religião são a ligação do divino com o homem, são reais e não concepções abstratas e inatingíveis, mas fazem parte da ordenação divina e representam a ação de forças que são superiores a nós, o divino, na assistência a nossa vida, seja pela nossa saúde, pela nossa prosperidade como pela nossa proteção. Não são absolutos mas são a parte mais significativa para nós no equilíbrio das forças que dominam o nosso mundo e dia a dia.

FINALIZANDO

Para quem chegou até aqui, como eu disse e repeti várias vezes a religião é composta de elementos muito importantes, alguns intangíveis como o iwa pele e o nosso destino, outros lembrados mais indiretamente atualmente que é a ancestralidade que se perde um pouco devido a que nem todos de uma mesma família seguem a religião e uma casa de santo esta longe de representar uma família espiritual, mas, mesmo que a gente não se lembre a ancestralidade é uma das bases da nossa vida.

A religião que a gente adota é complexa em parte porque existem de fato conceitos pouco claros, na origem, ou que se tornaram complexo devido a junção aqui no Brasil de várias correntes religiosas e regionais distintas. Infelizmente só recentemente existe um esforço de teologizar a religião que esbarra na polêmica e no preconceito. Outras correntes religiosas contam com linhas filosóficas que procuram aprofundar as questões e interpretações essa religião aqui não contou com isso na Africa e no novo mundo esbarra em uma babel pior ainda. Eu acho que não cabe discutir determinadas liturgias mas não podemos em função disso nos abster de discutir todo o resto independente de sabermos ou não as resposta.

... sem querer ser chato, mas enfatizando, assim na formo que eu vejo o cosmo yoruba baseado em textos de odù que eu consegui ler até hoje, em mitos que eu li ou ouvi ao longo de anos, o òrìṣà (orixá) não faz parte da ordenação das forças naturais do mundo em que vivemos. Esse ordenamento não é explícito ou atribuído a Olódùmarè que como o
Deus distante (ou tornado distante) faz com que a natureza e o mundo funcione.

Os òrìṣà (orixá) conforme aparecem nas histórias e explicitamente no odù óxéotuwa são os braços e mãos de Olódùmarè no aiye, mas na sua ligação com nós. Assim nosso ori é feito com nosso òrìṣà (orixá). Os òrìṣà (orixá) surgem em todas as histórias representando papéis comuns como se fossem pessoas comuns, com as mesmas perfeições e imperfeições que temos de modo a que possamos nos espelhar e entender o conhecimento que passam. São também a instância direta, junto com o ori e a ancestralidade, que recorremos para resolver nossos problemas, ligados ao nosso sucesso na nossa vida como a necessidade de termos saúde, de termos família, mulher, filhos, oportunidades, trabalho, dinheiro e podermos com nossa prosperidade darmos seguinto a nossa vida e atingir o destino que estabelecemos antes de iniciar essa nova encarnação.

Como braços e mãos de Olódùmarè os òrìṣà (orixá), conforme eu comentei no início disso tudo, tem controle sobre elementos da natureza, assim eles os usam e controlam na sua forma calma e ordenada. Mas como elementos podemos considerar um todo, de vegetais, minerais, doenças, até fenomenos da natureza, e estes sao usados não de uma forma reguladora, mas como instrumentos de sua necessidade e ação em exercer a sua missão junto a nós.

Eu assim não consigo ver um òrìṣà (orixá) sem o mesmo estar relacionado com nossa vida, ficando assim longe do significado que tem os deuses naturais das tradições européias e greco-romanas (não tenho conhecimento suficiente para citar outras).

Assim o entendimento da metafísica desse cosmo deve passar pela lembrança que temos vários entidades e espiritos além dos òrìṣà (orixá). Este conjunto esta longe de ser perfeito e complementar, existem coisas que parecem redundantes ou que não são complemente racionais, mas, como sabemos é um povo muito simples, agrário e que não teve unidade, continuidade e pensamento filosófico próprio para poder explorar e documentar cada faceta da rica cultura e religião.

Eu concordo com os críticos que podemos, veja, podemos, em algum grau, hoje, estar lidando com conceitos documentados e de alguma forma manipulado por aqueles estrangeiros que os estudaram, é muito difícil encontrar um analista isento, mas, agora é tarde tanto para evitarmos isso como para querermos dizer que existem outras verdades. A verdade sera a soma de todas essas mentiras que sao contadas temos que buscar alguma coerência nisso tudo, contando com isso com as inúmeras fontes, lembrando também para os críticos que qualquer literatura sobre assunto teve origem na tradição oral de forma que apesar de escrita é o reflexo da tradição oral, não sendo assim pior ou menos importante do que essa.

Em relação ao distânciamento que se criou de Olódùmarè a ponto de muitos criticarem sua real existência, eu lembro que, o distanciamento pode ter sido fruto apenas do apego, carinho e amor aos òrìṣà (orixá) de modo que esta relação devocional acabou afastando e deixando distante a presença e culto a Olódùmarè. Igualmente a multiplicação linear do número de òrìṣà (orixá) em cada região, seja pela divinização ou seja somente pelo estabelecimento de qualidades que estivessem mais de acordo com as tradições locais contribuiu para isso.

Hoje estamos muitos centrados no culto ao òrìṣà (orixá) a ponto de eu mesmo ter que reconhecer, contrario a minha vontade, que aqueles que dizem que Candomblé é um culto ou uma seita e não uma religião tem os seus motivos. A centralização de tudo em torno do culto aos òrìṣà (orixá) é uma realidade de forma que é isso o que se ve. A externalização do sincretismo com essa identificação de òrìṣà (orixá) com santos católicos assim como a imensidão de Candombecista que se acha espirita e usa as teses do evangelho kardecista para se explicar é outra. Só falta agora iyawo e babalorixa participar de congresso e reunião espirita. Sugiro que vão vestidos à carater.

É por essa razão que eu sugiro que os críticos de uma teologia mais centrada na existência de uma alta-divindade - Olódùmarè podem não estar certos. Eu considero que a cosmogonia composta de Olódùmarè, Èṣù (Exu), Ọ̀rúnmìlà (Orunmila), ancestrais, orixa, espiritos, aje, ajogun, etc.. quando colocada em uma perpectiva mais ordenada e adequada para dar coerência a tudo o que precisamos. Contudo o sincretismo e influencias externas tornaram isso muito complicado (ou chato) hoje e dia, como por exemplo o próprio verger em seu livro òrìṣà (orixá) citar que as pessoas consideram que ogun, Èṣù (Exu) e oxossi são irmãos e filhos de yemanja. Eu não vou nem me ater a essa coisa de filho e irmão, mas Èṣù (Exu) não pode estar nivelado assim, muito menos ogun, assim, pode me jogar pedra, mais isso não ajuda.

Nesse ponto a falta do pensamento teológico e da escrita, bem como o escravagismo as invasões e introdução do cristianismo e islamismo foram fatores que levaram a isso.

Eu lembro ou informo que o islamismo é uma religião muito forte e simples e adotada por pessoas de todas as classes sociais. Mas ela é composta de uma base escrita, o alcorão que são poemas que foram ditados diretamente pelo arcanjo gabriel a mohamed. São versos.

Complementar a isso existe o registro escrito da tradiçao oral, o hadith e Sana que complementam o alcorão com interpretações e complementos e finalmente a charia é o código de ética. A existência do alcorão faz com que cada crente tenha a NECESSIDADE de aprender a ler para poder ele mesmo, ler, estudar e repetir as palavras do profeta e de Deus. Mais ainda,em todo o mundo os versos do alcorão e suas rezas devem ser ditos em árabes, a lingua original.

Assim o divino e a tradição oral convivem juntos com a literatura e a farta filosofia mulçumana a Falsafa. Como no caso dos Yoruba a religião invade a vida comum, a arte, a dança, a música e a literatura.

Assim, religião e tradição oral não são antagônicos ao registro escrito, pelo contrário lhes dão força.

domingo, abril 27, 2008

Eerindinlogun (ẹẹ́rìndínlógún) é Ifá?

Uma questão que sempre tenho observado ser bastante polêmica nos dias de hoje é sobre se o eerindinlogun (ẹẹ́rìndínlógún) é Ifá. O que esta no núcleo dessa questão, junto com vários aspectos colaterais e acessórios é se ele representa uma comunicação de Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) entre o aìyé e o orun (ọ̀run). Sim, na minha opinião o eerindinlogun (ẹẹ́rìndínlógún) pode ser Ifá e pode trazer as mensagens de Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) através de Odù.

Essa discussão, creio eu ficou mais intensa nos últimos anos devido ao estabelecimento do culto de Ifá no Brasil e com o surgimento dos primeiros Babaláwo brasileiros que, mais do que se preocupar em fazer dinheiro vendendo obrigações, estão inseridos na cultura da religião e participam de fóruns e grupos de discussão virtuais.

Como muitas questões práticas, essa simples afirmação, de que eerindinlogun (ẹẹ́rìndínlógún) é Ifá, envolve alguma complexidade porque o mundo real é complexo na sua composição e é essa complexidade que alimenta essa polêmica porque muitas vezes estamos falando de coisas distintas e nem todos tem o mesmo entendimento básico da questão que está sendo tratada. Não tenho a pretensão de esgotar o assunto, mas vou dar minha opinião de forma ampla.

A questão do culto às divindades

Em primeiro lugar, temos a questão do culto especializado ao oráculo, que é novo no nosso ambiente cultural e que deu uma nova dimensão a essa discussão. Ifá é um culto diferente do Candomblé. É um culto especializado e orientado a uma divindade, Orunmila (Ọ̀rúnmìlà), o elerii (ẹlẹ́rií) ìpin, testemunho dos destino de todos nós. Os sacerdotes de Ifá se dedicam a ser os mensageiros de Orunmila (Ọ̀rúnmìlà), que por sua vez é o mensageiro dos orixa (òrìṣà) e de Olódùmarè, o Deus supremo dos Yorùbá. No que pese ser impossível praticar a religião sem que todos os orixa (òrìṣà) estejam envolvidos os sacerdotes de Ifá se dedicam exclusivamente a uma única divindade Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) e tudo deles gira e torno dele. Ifá é Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) e é também o nome do oráculo através do qual Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) fala conosco.

No Brasil, não tivemos o culto da Ifá. Esse foi um culto que não veio e não foi trazido posteriormente, como acabou ocorrendo com o culto de eegún. Temos assim muito bem estabelecido, com qualidade, o culto de orixa (òrìṣà), através do Candomblé das nações (nago, ketu, jeje, ijexá, hansa, mina, tapa e muitas outras) e temos o culto de eegún, com casas exclusivas para um e para o outro.

O Candomblé é um tradição religiosa baseada em uma matriz teológica africana. Ele contudo não reflete exatamente o que existe na África porque é uma tradição originada através da diáspora negra. Esse processo, a diáspora criou mais do que uma tradição religiosa, no nosso caso o Candomblé, mas também o lukumi em Cuba e o Voodoo no Haiti. Todas essas tradições desenvolveram conceitos próprios e até práticas. Não acho que mudaram nada mas, na ausência de acesso ao dogma original,seja por questões de distância ou de língua, tiveram que se vira com o que tinham e sabiam. Além disso o sincretismo influenciou diferentemente cada uma dessas tradições.

Uma tradição é um movimento muito comum em qualquer religião. Não se trata de uma degradação, pelo contrário, é uma especialização, uma melhoria, um formato que atualiza e adiciona riqueza cultural. Quando a criatividade é demasiada isso gera de fato uma nova religião ou uma prática que se distancia demais da matriz teológica original para que possamos chamá-la de tradição, assim, é sempre necessário um certo dogmatismo e fundamentalismo porque senão a religião se perde e acaba ocorrendo um processo igual ao da Umbanda, que não significa nada em termos religiosos.

Dentro dessa sua diferenciação o Candomblé reformatou o culto aos orixa (òrìṣà) em bases que eram as possíveis e também as necessárias para a nossa terra. E, um desses aspectos, foi a centralização do culto a todas as divindades em uma só casa, sob um único teto, além da qualidade multifuncional do sacerdote religioso, o Babalórìṣà.

O conhecimento que tenho do formato Africano, através de uma poucas fontes escritas ou orais, era de que o culto na África tinha uma certa especialização. Assim eram templos dedicados a uma divindade, o culto a uma divindade concentrado em vilas e até mesmo regiões e os sacerdotes especializados no culto de sua divindade. Um modelo muito diferente do nosso. O objetivo não é fazer comparações qualitativas até porque, o Candomblé é uma tradição muito bem sucedida e completa, preservando cultos que foram perdidos pelos africanos e com liturgias, orações e cantos muito mais completos que a tradição Lukumi (cubana), por exemplo.

Temos sim um problema interno de continuidade da tradição em vista da baixa qualidade da transmissão do conhecimento, da abertura por pessoas incapazes de novas casas, e do lixo que representa o sincretismo, mas, isso é assunto para outro dia. Entretanto isso são problemas cotidianos.

Dessa maneira, exceto pelo caso do culto eegúngun, que é separado do Candomblé e especializado neste tipo de espírito, a convivência com cultos especializados a divindades não é o nosso padrão de compreensão do universo liturgico no Candomblé.

Entretanto essa é uma realidade a encarar, compreender e aceitar uma vez que esse culto era e sempre foi muito distinto do culto aos orixa (òrìṣà). Em Cuba onde existe uma tradição da disáspora, o Lukumi, e Ifá eles são muito distintos. Existe uma certa mistura de rituais porque muitos Babaláwo foram Obariate e da mesma forma como acontece aqui com o povo que vem da Umbanda lá também ocorre e eles compartilham a mesma visão sincrética dos orixa (òrìṣà). Mas são casas separadas e cultos separados.

Desta feita eu quero registrar que estamos lidando com a mesma religião, os mesmos dogmas, divindades e princípios. Existe uma especialização de sacerdote, em Ifá os sacerdotes de especializam na divindade Ifá, ou Orunmila (Ọ̀rúnmìlà), e no Candomblé os sacerdotes cuidam de trabalham com todas as divindades.

O oráculo tem que estar presente em qualquer pratica dessa religião e se em Ifá um babalawo tem iniciação e aprendizado o mesmo acontece no Candomblé. Um sacerdote para poder ter o oráculo ele é iniciado no orixa (Òrìṣà) e recebe o jogo ritualmente. Depois passa anos praticando, aprendendo e desenvolvendo.

O culto a Orunmila (Ọ̀rúnmìlà)

No Candomblé eu posso dizer que, como outros irunmale (irúnmalẹ̀), Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) é uma figura distante pouco conhecida pelas massas, é uma figura “cult”. Faz parte daquele enredo “secreto” que domina a mesquinharia do conhecimento. As pessoas associam o oráculo a Exu (Èṣù) e a Oxun (Ọ̀ṣun) mas a Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) é coisa para entendidos.

Apesar de Orí ser um nome conhecido, e o Borí a cerimônia mais executadas, e talvez populares, do Candomblé eu não vejo com clareza as pessoas entendendo de fato o papel de Orí na sua vida ou mesmo o sentido de um Bọrí (Bori). Eu acho que isso se soma aquelas coisas repetidas por imitação ao infinito e digo isso porque apesar de todo mundo conhecer a palavra e o significado o sentido de Orí na vida das pessoas é substituído pelo orixa (òrìṣà). Essa situação já é muito boa porque entre os Lukumi (Cuba) a maior parte não tem nem idéia do que é Orí e como se cultua. O Candomblé é um culto centrado nos orixa (òrìṣà), isso tenho certeza de que todos concordam, o que aliás é muito bom.

Mas Ifá não o é, e nesse caso Orí assume uma outra proporção e por isso eu tive que iniciar este segmento citando-o. É claro que eu posso estar sendo aqui otimista ou fundamentalista demais, entretanto não dá para falar nisso de forma diferente. Não, antes que concluam isso, Ifá não é um culto a Orí. Ifá é um culto dedicado a Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) uma divindade cujo propósito de existência é ser o mensageiro entre o aiyé e o orun (ọ̀run).

Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) entre os irunmale (irúnmalẹ̀) é considerado o deus da sabedoria, ou o orixa (òrìṣà) da sabedoria já que aplicar “deus” para os irunmale (irúnmalẹ̀) ou orixa (òrìṣà) tem levado a devaneios sobre a natureza dessa religião. Dois nomes pode ser aplicados a esse irunmale (irúnmalẹ̀), o de Ifá ou de Orunmila (Ọ̀rúnmìlà). Simplificando essa parte, o nome Ifá é aplicado ao sistema oracular e ao irunmale (irúnmalẹ̀), a divindade e o nome Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) somente é aplicado à divindade. Nos versos do Odù surge um outro complicador porque nas histórias se diz que Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) consultou Ifá ou Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) consultou os Babaláwo, mas, ignorem isso, é apenas figura de expressão.

Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) é uma das mais importantes divindades da religião Yoruba. Sua atuação esta centrada no oráculo e nos ẹbọ corretivos e sua atuação junto às demais divindades e seres humanos gira em torno da transmissão de sabedoria e da humildade. O fato de não ser um orixa (òrìṣà) guerreiro talvez também explique a pouco popularidade no Candomblé já que os orixa (òrìṣà) tradicionais sempre tem que carregar uma arma branca na mão e são representados como musculosos e lindas beldades. Essas descrições jamais seriam adequadas para Orunmila (Ọ̀rúnmìlà).

Através de sua grande sabedoria, conhecimento e compreensão Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) coordena a atuação dos irunmale (irúnmalẹ̀) da religião Yoruba. Ele funciona como um intermediário entre os demais irunmale (irúnmalẹ̀) e as pessoas e entre as pessoas e seus ancestrais. Assim ele é a boca dos orixa (òrìṣà) que fala através do seu oráculo, o oráculo de Ifá.

Mas a fala de Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) não é uma coisa simples e direta como estamos acostumados nos oráculos que usamos no dia a dia ou mesmo através dos guias de Umbanda. Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) fala através de sinais e de histórias. Suas histórias são metáforas, parábolas e meias verdades que devem ser interpretadas.

Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) fala sempre através de um Odù. Existem 256 Odù e os sacerdotes de Ifá dedicam a sua vida a aprender a entender as mensagens de orunmilá através desses Odù, a aprender os versos de Ifá, poemas, os ésé, que contem através de metáforas os ensinamentos e mensagens para os consulentes. Além disso devem aprender a como fazer as rezas, os ébó, as folhas e até sacrifícios que permitirão ao odù atuar na vida das pessoas.

Assim, não se pode falar de Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) e de Ifá sem considerar que tudo isso gira em torno de Odù. Não sei se todos entendem o que é um Odù porque sem entender o que é um odù não se entende Ifá, mas volto nisso adiante.

Entre nós, no Brasil, Ifá é sinônimo de Oráculo e muita gente usa assim indistintamente sem as vezes entender a origem dessa palavra.

No culto de Ifá um Babaláwo se dedica consultar o oráculo para as pessoas e a fazer as ações decorrentes para poder corrigir o problema que Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) viu na vida da pessoa, não necessariamente o que a pessoas estava buscando lá. Quando a gente entre nessa área na qual um Babaláwo ou um Babalórìṣà, atende alguém e faz aquilo o que a pessoa quer ou que resolve o que a pessoa foi buscar estamos na área da feitiçaria e não da religião.

Uma babaláwo não é uma pessoa para fazer santo nos outros ou cuidar de orixa (òrìṣà) dos outros, para isso existem os Babalórìṣà. Um babaláwo trabalha através de Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) com rezas, elementos simples e muito através de Exu (Èṣù) e Osanyin (Ọ̀sányìn). Mas basicamente a vida de uma Babaláwo é consultar o oráculo.

Contudo existe uma coisa comum entre Ifá e Candomblé que é a teogonia a base da religião, que é a mesma. Ser um culto especializado em uma divindade não muda o contexto religioso que ele está situado. Para qualquer um estamos tratando da mesma matriz religiosa e nessa matriz o papel de Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) é reconhecido da mesma forma.

Na nossa teologia, antes de nossos espíritos virem para o aiyé, no orun (ọ̀run) nós nos ajoelhamos perante Olódùmarè para junto a ele pedirmos o nosso destino, que alguns preferem chamar de objetivo de vida. Nesse momento nós escolhemos o que queremos viver nessa vida, o que queremos realizar e qual o nosso objetivo ao nascer no aiyé. Olódùmarè pode concordar com o que pedimos ou não, ou pode ainda definir para nós outros objetivos de vida. Essa conversa é uma das coisas mais importantes para nós e dela poderá depender por exemplo qual será o nosso odù de nascimento, porque ele faz parte do nosso Orí e vai ser definido para nos ajudar na vida que vamos ter aqui no aiye. O nosso orixa (òrìṣà) também poderá ser definido nesse momento e também será escolhido de forma a nos ajudar com nosso objetivo de vida.

Nesse ponto cabe uma dúvida porque o odù com certeza depende de nosso destino escolhido e atribuído, mas o orixa (òrìṣà) não tenho certeza. Eu gosto da visão de que o orixa (òrìṣà) não tem restrições no seu poder e qualquer orixa (òrìṣà) que tenhamos vai nos ajudar igualmente. No meu íntimo essa idéia de especialização funcional de orixa (òrìṣà), como as pessoas gostam e chegam a dizer que profissão uma pessoa de tal orixa (òrìṣà) deveria ter, é uma idéia meio cartesiana muito simplificadora e racionalista. Assim não tem minha simpatia.

Uma outra opção é a que nascemos com algum orixa (òrìṣà) de nossa família, de Pai, mãe ou avós, assim uma mesma linhagem teriam filhos com orixa (òrìṣà) similares e claro sempre se casa com uma pessoa de fora da família e novas opções de orixa (òrìṣà) podem ser incluídas.

Mas o importante é que como eu sempre disse, nós aqui no aiyé somos a coisa mais importante de Olódùmarè. Esse mundo espiritual, os orixa (òrìṣà) existem para nos ajudar a viver e não para nos escravizar ou atrapalhar.

Essa nossa conversa com Olódùmarè tem apenas 1 testemunho: Orunmila (Ọ̀rúnmìlà). Assim ele é o único que pode saber o nosso destino. Algumas outras divindades podem fazer parte, uma delas é ajala, outra é onibode, oporteiro do orun (ọ̀run). Antes de descermos para o aiyé perante Onibode nós falamos o nosso destino e quando pretendemos retornar.

Mas para nós aqui Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) é o ẹlẹ́rií (elerii) ìpin, testemunho dos destino de todos nós e o mensageiro divino aquele que traz as mensagens de Olódùmarè e de todos os orixa (òrìṣà). Quando em nossa vida temos uma dificuldade que não conseguimos resolver, e isto está nos impedindo de seguir em frente, naqueles momentos em que não sabemos mais o que fazer, devemos recorrera a Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) consultando o oráculo de Ifá. Essa consulta é ao mesmo tempo um pedido de socorro e Orunmila (Ọ̀rúnmìlà), o ẹlẹ́rií (elerii) ìpin vai responder de forma a corrigir nossa vida para que possamos seguir com nosso destino.

Essa visão é o sentido religioso que eu conheço para o oráculo dentro de uma religião e esta visão é a mesma para o culto de Ifá ou dos orixa (òrìṣà). Dessa maneira não existem 2 testemunhos, só existe um testemunho, e ele é Orunmila (Ọ̀rúnmìlà), e existe para qualquer pessoa. Assim seja no culto de Ifá ou de orixa (òrìṣà) você tem que lidar com a mesma divindade, com Orunmila (Ọ̀rúnmìlà)

quer você do destino e não 2, se vamos a um oráculo de eerindinlogun para corrigirmos o nosso destino e vamos ter uma resposta para isso, quem está respondendo é Orunmila (Ọ̀rúnmìlà). Não pode ser Oxala (Òṣàlá) ou Xango (Ṣàngó) ou Oxun (Ọ̀ṣun) ou qualquer outro porque somente Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) é o testemunho de nosso destino.

O que é Odù

Odù é a base da comunicação de Orunmila (Ọ̀rúnmìlà), e como muitas palavras em yoruba ela é usada para várias coisas. Odù são marcas gráficas, assinaturas, que representam um símbolo. A este símbolo estão associadas histórias e versos que formam a famosa e tão pouco conhecida literatura de Ifá, poemas de Ifá, que eram transmitidos oralmente, mas que hoje já encontramos escritos. Esse conjunto não é completo, muita coisa se perdeu, ou uniforme cada escola de Ifá tem o seu que pode ter variações em relação a outras. É interpretação dessas histórias que podem estar na forma de mitos ou de poemas é que vem o significado de um Odù. A mensagem que um odù traz para nossa vida esta contida nas histórias que são associadas a ele.

Odù também é uma energia divina que vem de Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) para nós em resposta à consulta ao oráculo. Assim além de ser um símbolo gráfico, além de conter através de suas histórias significados para nossa vida um Odù também é a resposta a nossa aflição. Essa energia primária vem através do oráculo e será utilizada pelo Babaláwo junto com os orixa (òrìṣà) para nos ajudar.

Odù não é um caminho e nem significa caminho. A palavra Yoruba significa com recipiente grande para conter algo dentro, como uma cabaça.

Em termos quantitativos são 256 Odù. Existe uma matemática nesses números. São 16 figuras diferentes, feitas com a combinação de traços duplos ou simples. Como cada odù é formado pela combinação de 2 figuras, então teremos 16 x 16 = 256 odù. Nessas 256 figuras diferentes, aquelas onde o mesmo símbolo aparece repetido, são chamados dos Odù Méjì, ou principais. Esses Odù são ordenados de acordo com uma ordem arbitrária definida e Ifá que seria a ordem nos quais esses odù chegaram ao mundo. Existe ainda uma maior relevância para os 4 primeiros Odù. Os Odù que não são os Méjì são chamados de Omo (Ọmọ) Odù ou Odù filhos.

Toda a comunicação entre Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) e nós através dos Babaláwo é feita usando Odù.

O oráculo em Ifá

Em Ifá, a consulta ao oráculo é feito usando uma corrente com metades de semente chamada opele (ọ̀pẹ̀lẹ̀) ou com os caroços de dendezeiros chamados de ikin, esses são os instrumentos básicos de um Babaláwo. O processo da consultar é assim:

Usa-se o opele (ọ̀pẹ̀lẹ̀) ou os ikins para formar o desenho de odù, um dos 256 Odù, que é uma figura formada por 2 pernas. Cada uma das pernas é um dos 16 odù principais. Essa é a anatomia de um odù, uma formação gráfica composta por 2 partes, ou 2 pernas (ou patas com dizem os cubanos). Essa figura é traçada da direita para a esquerda assim se lê o nome do Odù da direita antes do da esquerda.

Os odù são compostos de uma coluna de traços duplos ou simples, no total de 4. Para se ter um odù SEMPRE tem que se ter 2 pernas ou seja as 2 partes dessa figura. Então

II.......I
II.......I
II.......I
II.......I

A figura acima corresponde ao Odù ogbe-oyeku (ogbe-oyeku (ogbè-ọ̀yẹ̀kú)) e esse é o décimo sétimo odù. antes dele estão os odù méjì. São chamados de méjì porque méjì significa (2). O numero 2 é èjì, mas em yoruba quando o numero é colocado depois do substantivo, ou seja quando ele é usado para contar alguma coisa adiciona-se o M na frente. Assim èjì é o número 2 e ogbe èjì é traduzido como 2 ogbe, ou 2 odù ogbe:

I........I
I........I
I........I
I........I

Dessa maneira o odù acima é o ogbè méjì, ou 2 ogbè, porque seria ogbè-ogbè mas não se fala assim, a gente fala ogbè méjì de maneira que ogbè-ogbè e ogbè méjì são a mesma coisa.

Assim, isso é um odù. Um odù sempre tem 2 pernas. SEMPRE, mesmo os méjì, lembrando que como eu já disse dezenas de vezes:

- Não existe ligação entre odù e número.

- Os odù são ordenados através de uma hierarquia, ou ordem de senioridade e essa ordem de senioridade serve para definirmos qual é o mais velho e por conseqüência qual ìbò escolhemos.

O relacionamento de odù com numero não tem nenhum fundamento. Anteriormente eu expliquei isso, isso é apenas fruto de sincretismo com a cultura árabe que foi exportada para a Europa, provavelmente. É um vinculo entre numerologia e Ifá e que não existe motivo ou fundamento. Dessa forma pertence as coisas da Umbanda que adora sincretismo.

Os primeiros 16 odù são os odù meji, indo de ogbe meji até orangun meji. Depois disso é feita uma combinação entre cada odù e os conseguintes, formando de ogbe-oyeku (ogbè-ọ̀yẹ̀kú) até ogbè-òfún e depois indo para oyeku-ogbe (ọ̀yẹ̀kú- ogbè) e na mesma lógica.

Para que eu estou explicando tudo isso? Para reforçar que NÃO existe odù que não tenha 2 pernas ou seja que não seja um dos 256 odù, formado por 2 partes. E repetindo, mesmo os odù meji, os 16 primeiros, que são os usados no merindinlogun tem que ter 2 pernas, porque Odù meji tem 2 pernas, lembram ogbè-ogbè = ogbè méjì.

Em Ifá o resultado de uma consulta a Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) é um odù. Um e somente um. Tudo se inicia com determinação desse odù. Com o opele (ọ̀pẹ̀lẹ̀) um processo rápido. Com os ikins mais demorado, mas o resultado é o odù que veio em resposta.

Temos o que se pode chamar de uma segunda parte da consulta que é a qualificação do odù. A seguir como já expliquei, se determina de está em ibi ou ire. Depois o tipo de ibi ou ire. e se for em ibi a origem desse tipo.

Com isso se completa a qualificação do odù que veio em resposta à consulta.

É claro que para ter essas resposta de ire ou ibi, tipo e origem se faz usando o Ibos e outras caidas do opele ou dos ikin para usando a hierarquia se selecionar a mão a ser aberta e o ibo, esse é o processo de Ifá. mas essa sequencia adicional de odùs são apenas para perguntas e seleções.

Assim toda a consulta é feita com apenas 1 odù. O babaláwo tem que interpretar esse odù ou melhor tem que junto com o consulente interpretar o odù e para isso existem os versos que transmitem as mensagens do odù, são varias mensagens em um mesmo odù os mitos/pataki e também os significados daquele odù.

Um odù carrega muita informação e existem, sim, odù adicionais que se usa para complementar o odù principal, mas, não quero confundir nem omitir, entretanto, não existem novas caídas de opele para isso. Esses Odù complementares são obtidos como parte do grafismo do Odù principal, como por exemplo sua sombra ou o Odù formado pela combinação da perna de um com a de outro e por ai vai dependendo da escola do Babaláwo. Entretanto, isso é penas para entender as mensagens, tudo o que vai se fazer esta ligado ao odù que foi obtido na primeira consulta. Assim concluindo aqui, em uma consulta somente um Odù é interpretado. Através dessa interpretação teremos o problema da pessoa e também a indicação dos ẹ́bọ.

O eerindinlogun (ẹẹ́rìndínlógún) e Ifá

A prática do oráculo no Candomblé tomou mais de um caminho ao longo da nossa história e sofreu influência diversas. A primeira coisa que eu lembro a todos é que Ifá e oráculo são sinônimos no Candomblé e muita gente pode até desconhecer que exista um culto separado destinado a Ifá ou a divindade Orunmila (Ọ̀rúnmìlà). Assim da mesma forma como Ifá e Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) são em certo aspecto sinônimos em Ifá, no Candomblé, Ifá e oráculo são sinônimos, sem que isso seja necessariamente vinculado a Odù. Assim, por muitos anos temos ouvido as pessoas chamarem o seu oráculo de Ifá sem que isso guardasse qualquer vínculo com o Culto de Ifá e com o Oráculo de Ifá. Hoje a gente saber que uso de Odù no oráculo do Candomblé é opcional e não dominado por muitos.

Mas vamos voltar a esse ponto mais adiante, para que a gente chegue em algum lugar vamos examinar primeiro a ligação entre o owó eyo (ẹyọ) merindinlogun (mẹ́rìndínlógún) e Ifá.

Com simplicidade, sem recorrer a textos de odù, vamos considerar que tudo é um mesma religião. Assim dentro do culto dos orixa (òrìṣà) ou do culto de Ifá estamos tratando da mesma religião. É o mesmo Olódùmarè é o mesmo aiyé é o mesmo orun (ọ̀run) são os mesmos orixa (òrìṣà). A Teogonia é a mesma. E nesse conjunto, como estamos todos falando com as mesmas divindades e acreditando na mesma metafísica, se recorremos a um oráculo para tratar da vida e do destino das pessoas e recebemos respostas sobre isso que nos permitem ajudar e orientar essa pessoa então. é Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) esta se manifestando em nossa vida.

Assim eu não vejo porque Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) não poderia falar através do eerindinlogun (ẹẹ́rìndínlógún). Se isso não ocorre nós temos que supor que todo Babalórìṣà é um enganador, o que não é verdade, nem todo Babalórìṣà é um enganador, e que não existe outro testemunho do destino, somente Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) tem essa informação.

Eu lembro que o oráculo do candomblé, o eerindinlogun (ẹẹ́rìndínlógún) sempre serviu e continuará servindo com louvor a tudo o que é necessário fazer em uma casa de santo. Esse oráculo representa sim uma forma autêntica e verdadeira de diálogo entre nós e o divino, entre nós e os orixa (òrìṣà), entre nós e Orunmila (Ọ̀rúnmìlà). Se não fosse assim tudo seria errado ou sairia errado, e não é isso o que ocorre.

A ligação entre Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) e o eerindinlogun (ẹẹ́rìndínlógún) existe nos versos do Odù Ogbè-Ọ̀sá, conforme transcritos por Wande Abimbola. Houve um tempo que Olódùmàrè convocou todo os 401 orixa (Òrìṣà) para o Órun (Ọ̀run), para para surpresa dos orixa (Òrìṣà) eles encontraram as Ajé (Àjẹ́) no Órun (Ọ̀run) e estas passaram a comer um por um. Mas como Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) havia feito um sacrifício antes de deixar a terra ele foi miraculosamente salvo por Oxun (Ọ̀ṣun) que substituiu Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) por carne fresca de cabrito (que Orunmila havia usado no sacrifício recomendado por Ifá).

Quando eles retornaram a terra eles se tronaram mais próximos do que nunca. Este foi provavelmente o tempo no qual Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) teve Oxun (Ọ̀ṣun) como esposa. Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) então decidiu recompensar Oxun (Ọ̀ṣun) e então ele colocou junto os 16 búzios e ensinou a Oxun (Ọ̀ṣun) como usá-los.

Este mostra como Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) e Oxun (Ọ̀ṣun) se tornaram unidos.

Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) disse que estava agradecido com o que ela fez por ele.

Foi uma coisa expecional.

Ele se esmerou no que dar a ele em agradecimento.

Esta foi a razão mais importante pela qual Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) criou os owó ẹyọ mẹ́rìndínlógún.

Ele então colocou-os nas mãos de Oxun (Ọ̀ṣun).

De todos os orixa (Òrìṣà) que usam os owó ẹyọ mẹ́rìndínlógún.

Não existe nenhum que tenha feito isso antes de Oxun (Ọ̀ṣun).

Esta foi a forma pela qual Ifá foi dado a Oxun (Ọ̀ṣun).

E foi pedido para ela usá-los

Como um outro meio de consutar o oráculo.

Isto foi como Ifá foi usado para recompensar Oxun (Ọ̀ṣun).

Desta forma Oxun (Ọ̀ṣun) também podia chamar Ifá.

Ninguém mais pode saber

porque Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) tomou Oxun (Ọ̀ṣun) como esposa.

Das diversas formas de oráculo

owó ẹyọ mẹ́rìndínlógún é a mais próxima de Ifá.


Assim de acordo com esse Odù foi Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) que criou o owó ẹyọ mẹ́rìndínlógún e se Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) é Ifá e o conhecimento de Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) é baseado em Odù e Ifá ele não poderia ter criado algo que não fosse parte do seu próprio conhecimento. Isso muda a versão de um mito popular de que Oxun (Ọ̀ṣun) teria obtido o owó ẹyọ mẹ́rìndínlógún de Exu (Èṣù) o que de fato teria como consequencia uma não ligação direta com Orunmila (Ọ̀rúnmìlà). Mas esse Odù Ogbè-Ọ̀sá deixa claro que Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) é o criador do owó ẹyọ mẹ́rìndínlógún.

Este Odù também vai mostrar a seguir que o owó ẹyọ mẹ́rìndínlógún recebeu o seu Àṣẹ do próprio Olódùmàrè:

A cada 16 anos

Olódùmàrè usava chamar os adivinhos da terra para um teste.

Para saber se eles estavam dizendo mentiras para os habitantes da terra.

Ou se eles estava dizendo a verdade

Este teste consistia em chamar Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) e outros olhadores da terra

Olódùmàrè diria o que ele ira ver neles.

Quando eles chegaram

Olódùmàrè pediu para eles consultarem o oráculo para ele.

Quando Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) terminou a consulta

Olódùmàrè perguntou: Quem é o próximo?

Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) disse que a próxima pessoa vinha a ser sua companheira

O qual era uma mulher

Olódùmàrè então perguntou:

Ela também é uma advinha, uma olhadora?

O qual Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) respondeu, “Sim, isto é verdade”

Olódùmàrè então pediu a ela para consultar o oráculo para ele

Quando Oxun (Ọ̀ṣun) examinou Olódùmàrè,

ela viu tudo em sua mente

Mas ela não disse para ele tudo o que viu

Ela mencionou a essência

Mas ela não disse as raízes do problema assim como faz Ifá

Olódùmàrè então perguntou a Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) o que era aquilo?

Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) então explicou a Olódùmàrè

como ele honrou Oxun (Ọ̀ṣun) com o owó ẹyọ mẹ́rìndínlógún

Olódùmàrè disse, “Esta tudo certo”

Ele disse que mesmo sabendo que ela não lhe contara tudo o que sabia

Ele daria a sua autoridade para ela

Ele adicionou “De hoje para sempre,

até mesmo quando o owó ẹyọ mẹ́rìndínlógún

não disse tudo detalhadamente

Qualquer um que desacreditar dele

sofrerá as consequencias imediatamente

Isso não precisará esperar até o dia seguinte

Este é o motivo pelo qual as previsões do owó ẹyọ mẹ́rìndínlógún ocorrem rapidamente

Esta foi a forma como o owó ẹyọ mẹ́rìndínlógún recebeu o seu Àṣẹ diretamente de Olódùmàrè


A transcrição desse Odù esta no artigo "The Bag of wisdom - osun and the origin of ifá divination" de Wande Abimbola.

Um outro verso contido no odù Okanransode, que foi transmitido pelo Babalawo Ifátóògùn, famoso sacerdote de Ìlobùú, conta a história do saco da sabedoria. Olódùmàrè jogou na terra o saco da sabedoria e pediu a todos os orixa (Òrìṣà) que procurassem por ele. Ele garantiu que o orixa (Òrìṣà) que o encontrasse seria o mais sábio de todos eles. Olódùmàrè mostrou como era o saco para todos os orixa (Òrìṣà) para que eles reconhecessem quando o vissem.Uma vez que Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) e Oxun (Ọ̀ṣun) eram íntimos eles decidiram procurar juntos.

Uma pessoa velha amarou um um fio de contas mas ele se abriu

Um sábio amarrou um fio de conta e el ficou frouxo

Somete uma pessoa que apoia suas costas em ikins

irá amarrar um fio de contas que irá durar

Ifa foi consuktado para Orunmila (Ọ̀rúnmìlà)

quando ele e Oxun (Ọ̀ṣun) foram procurar pela sabedoria

Foi Olódùmàrè que chamou as 401 divindades (da direita)

e as 201 divindades (da esquerda)

para se reunierem no Orun (Ọ̀run)

Quando elas chegaram lá

Ele disse que queria dar para elas profunda sabedoria e poder

Ele disse que que qualquer um poderia ver isto

que ele iria dar para o Ori deles

E esta seria a pessoa mais sábida na terra

Ele disse que 19 dias a frente

Ele jogaria o saco da sabedoria na terra

Mas se isso seria na floresta

ou seria no campo

Ou seria no rio

ou seria em uma cidade

ou seria em uma estrada

Ele não diria onde extamente seria

Olódùmàrè mostrou então a todos o saco da sabedoria

Ele disse “É isso”

Olhem bem

E observem bem.

Quando eles chegaram de volta a terra

alguns deles iniciaram a fazer sacrificios

Alguns fizeram remédios

Alguns planejaram a sua propria estratégia

Todos disseram “Essa coisa, serei eu quem vai achar”

Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) e Oxun (Ọ̀ṣun) costumavam fazer coisas juntos

Eles estavam sempre um na companhia do outro

Ambos adicionaram 2 búzios a 3

e foram consultar Ifá

Eles perguntaram aos babalawo para verificarem sobre ambos

A coisa que os orixa (Òrìṣà) estão procurando poderiam ser ambos eles as pessoas que a encontrariam?”

Os babalawo pediram a Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) e Oxun (Ọ̀ṣun) que fizessem um sacrifício

Com os grandes alakas que eles estavam usando

Cada um deles deveria oferecer um cabrito

e um rato domético

Bem como 201 ọ̀kẹ́ cheios de búzios para cada um deles

Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) disse a Oxun (Ọ̀ṣun) que eles deveriam fazer o sacrifício

Mas Oxun (Ọ̀ṣun) disse m “por favor, deixe me descançar”

Vá fazer o sacrificio com o seu alaka

Qual a relação disso com o que estamos procurando?

Oxun (Ọ̀ṣun) se recusou a fazer o sacrifício

Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) cujo outro nome era Àjànà,

pegou o seu alaka e ofereceu em sacrificio

Ele também usou um rato doméstico e dinheiro para o sacrifício

Eles então procuraram pelo saco da sabedoria mas não acharam

Todos os outros orixa (Òrìṣà) tmbém não encontraram

Eles procuraram em Ẹ̀gá ajá

Ele foram longe até Ẹ̀sà adìẹ

alguns foram ainda até Ìkọ Àwúṣẹ̀

alguns procurara também em Ìdòròmù Àwúṣẹ̀

Onde o dia vira noite

Mas ele não encontraram

Um dia um rato doméstico foi até o alaka que Oxun (Ọ̀ṣun) usava

E fez um buraco no bolso

No dia seguinte eles se consideraram prontos

e procuraram o saco da sabedoria mais uma vez

Então Oxun (Ọ̀ṣun) o encontrou!

Ela exclamou “Han-in este é o saco da sabedoria!”

Ela colocou então no bolso do seu alaka

Ela então foi embora apressada

Como ela estava atravessando florestas mortas e subindo por troncos

repentinamente o saco caiu do seu bolso

pelo buraco que o rato tinha feito

Oxun (Ọ̀ṣun) estava chamando Orunmila (Ọ̀rúnmìlà)

Dizendo “Orunmila (Ọ̀rúnmìlà), cujo outro nome é Àjànà

Venha rápidp, venha rápido

Eu vi o saco da sabedoria

Quando Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) estava indo ele viu o saco da sabedoria no chão

Ele então colocou no bolso do seu próprio Alaka

Quando ele chegou em casa

Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) disse: Oxun (Ọ̀ṣun) deixe-me ver o saco

mas Oxun (Ọ̀ṣun) disse que ela jamais mostraria para um homem

Mas se um homem precisasse ver

Ele teria que dar lhe 200 ratos

200 peixes

200 passaros

200 animais

e um monte de dinheiro

Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) implorou por muito tempo para ver o saco

mas ela não permitiu

Ele então retornou para a sua própria casa

Quando Oxun (Ọ̀ṣun) tentou pegar o saco no seu bolso

de maneira que ela o visse mais uma vez

Ela colocou a sua mão no bolso

e sua mão entrou dentro do buraco feito no fundo do bolso

Então Oxun (Ọ̀ṣun) foi encontrar Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) na sua casa

Ela começou a implorar a ele

Ela começou a agradar Orunmila (Ọ̀rúnmìlà)

Assim foi então como Oxun (Ọ̀ṣun) foi para a casa de Orunmila (Ọ̀rúnmìlà)

para viver com ele como marido

De maneira que ele pudesse ensinar para ela um pouco de sabedoria

Nos tempos antigos, quando uma pessoa se casava

Não era obrigatório para a esposa ir para a casa do marido viver com ele

Assim foi como os casais passaram a viver juntos

Quando Oxun (Ọ̀ṣun) tirou o seu alaka

ela colocou àṣẹ na sua boca e disse

daquele dia em diante nenhuma mulher ia vestir um alaka como os homens

Ela então jogou o seu alak no lixo

Depois de muitos pedidos de Oxun (Ọ̀ṣun)

Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) pegou um pouco de sabedoria e deu para ela

Este é o eerindinlogun (ẹẹ́rìndínlógún)

O qual Oxun (Ọ̀ṣun) faz uso

O saco de sabedoria é Odù Ifá,

os remédios e todas as demais profundas sabedorias do povo Yoruba



Assim vou destacar de forma bem objetiva o que o Odù Okanransode ensina:

  • Oxun (Ọ̀ṣun) foi a primeira a ter acesso a sabedoria de Ifá. Ela encontrou o saco de sabedoria e olhou para ele, assim ela obteve antes de Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) a sabedoria de Ifá. Devido a sua teimosia, falta de fé ou preguiça ela perdeu o saco para Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) que assim teve a posse dele por todo o tempo e a sabedoria e poder que Olódùmàrè prometeu. Mas não se pode ignorar o acesso que Oxun (Ọ̀ṣun) teve a Ifá.

  • Oxun (Ọ̀ṣun) foi viver com Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) e este lhe deu mais sabedoria de Ifá.

  • Esse odù nos dá também uma excelente explicação de porque somente homens tem acesso pleno a sabedoria de Ifá. Oxun (Ọ̀ṣun) se tivesse acesso teria omitido isso dos homens, Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) observando isso limitou o acesso de Oxun (Ọ̀ṣun) ao conhecimento de Ifá. Essa interpretação deve ser estendida aos homens em geral e as mulheres também, e não especificamente a Oxun (Ọ̀ṣun) e Orunmila (Ọ̀rúnmìlà). Oxun (Ọ̀ṣun) é a essência feminina e um odù é uma metáfora. Assim isso explica o papel de Babalawo e de Apetebi.

  • Outra lição é o mal destino que teve a ambição ou ganância no uso da sabedoria de Ifá. O desejo de Oxun (Ọ̀ṣun) era se enriquecer com essa sabedoria. Isso foi penalisado, assim a sabedoria de Ifá jamais deve ser usada para enriquecer ninguém.

  • Outro aspecto foi o preço a ser pago para se tornar sábio. Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) pagou o preço e se tornou sábio, Oxun (Ọ̀ṣun) não quis pagar e não obteve exito na sua busca. A sabedoria exige sacrifícios de bens.

Apesar disso tudo é inegável o vinculo de Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) com Oxun (Ọ̀ṣun) ou seja de Oxun (Ọ̀ṣun) com Ifá. Mesmo depois desse episódio Oxun (Ọ̀ṣun) e Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) ficaram mais próximos.

Unindo os versos de Okanransode com o de Ogbè-Ọ̀sá fica demonstrado e clara e evidente ligação entre Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) e o eerindinlogun (ẹẹ́rìndínlógún).

Os métodos de consultar Ifá

Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) fala através de odù, isso é definitivo. O owó eyo (ẹyọ) merindinlogun (mẹ́rìndínlógún) também obtem respostas através de Odù. Existem 2 formas. A primeira é a mais clássica que todos conhecem e que usa os 16 odù méjì: ogbè, oyeku (ọ̀yẹ̀kú), ìwòrì, òdí, obara (ọbàrà), okanran (ọkànràn), ìròsùn, owonrin (ọ̀wọ́nrín), ògúndá, osa (ọ̀sá), irete (ìrẹtẹ̀), òtúwà, oturupon (òtúrúpọ̀n), ìka, oxe (ọ̀ṣẹ́), òfún. Aqui no Brasil o método de banbogxe ficou mais conhecido mas hoje em dia existem outros. Pode-se ainda usar o owó eyo (ẹyọ) merindinlogun (mẹ́rìndínlógún) para ler um dos 256 odù, como os cubanos fazem e ensinam.

Eu vou transcrever abaixo um trecho do artigo "The Bag of wisdom - osun and the origin of ifá divination". O autor do artigo é Wande Abimbola um dos mais eminentes acadêmicos Nigerianos da atualidade que se dedicou a reconstituir a cultura de Ifá na africa. Sendo o autor Nigeriano e ao mesmo tempo 100% comprometido com Ifá, talvez até demais, isso o torna bastante isento, o texto a seguir é uma análise dele sobre a pesquisa e a interpretação dos odù Okanransode e Ogbè-Ọ̀sá que transcrevemos anteriormente:

"Por "Ifá Divination" nós queremos traduzir como Ifá e sistemas correlacionados de oráculo baseados em estórias e símbolos de Odù tais como Dida owo (uso do opele), etite-ale (uso do ikins), eerindinlogun (16 buzios), agbigba (um tipo de opele) e obi. O propósito desse artigo é examinar a íntima relação de Oxun (Ọ̀ṣun) com o oráculo de Ifá de duas formas, através dela mesma e através da instrumentalização de xetuura, seu filho. Nós iremos iniciar com a visão popular que envolve Oxun (Ọ̀ṣun) em Ifá no qual ela obteve o seu conhecimento de Ifá através de seu marido orunmila. Nós examinaremos então a importância de oxetuura para o sacríficio resultante do oráculo. Nas ultimas páginas deste artigo nós iremos então fazer a afirmação de que Oxun (Ọ̀ṣun) tem muito mais relação com Ifá do que os bablawo são capazes de admitir. Eu irei, claro, colocar a hipótese que que todo o sistema de Ifá iniciou a partir de Oxun (Ọ̀ṣun) e ela o deu para orunmila e não o contrário. Eu irei basear minhas afirmações em versos de Ifá. Eu também irei examinar a possibilidade que o eerindinlogun é mais antigo do que dida owo e etite-ale que são desenvolvimentos posteriores do oráculo de Ifá".

Assim, ele não deixa nenhuma dúvida de que o eerindinlogun (ẹẹ́rìndínlógún) é um sistema que se baseia nas histórias e simbolos de Odù, tanto quanto todos os outros. Isso é uma afirmação básica e não uma hipótese. É claro que como eu disse, precisa-se de fato usar o instrumento, os búzios, e o conteúdo, Odù com suas histórias e símbolos. O simples uso dos búzios não caracteriza um oráculo de odù e essa afirmação é devido as variações que são encontradas principalmente devido a mediunidade dos olhadores.

Como eu já repeti aqui, no Brasil tem vários métodos de jogar buzios. Um dos métodos é o famoso método que bangboxe trouxe para o Brasil, e que trouxe o odù para os buzios. É nesse método que encontramos as 4 caídas, onde aparecem 4 odù. A descrição do método foi feita de forma bem clara pelo Jose Beniste no seu livro O jogo de Búzios, dentro do universo de poucas obras que temos, é uma obra de referência no assunto. Entretanto eu tenho algumas observações sobre o uso desse método para trabalhar com Odù. Contudo, primeiro, eu quero lembrar que as pessoas que usam esse método hoje não guardam o seu formato inicial preservando as histórias associadas a cada odù. Essas histórias hoje estão em 2 fontes mas são todas originas da mesma pessoa, é o material da Iyalorixa Aninha.

O Verger publicou essas histórias, há muito tempo atrás, preservando inclusive o linguajar, mas a Aninha não gostou e ele nunca mais republicou o livro. Depois o Prandi publicou as mesmas histórias tendo como fonte o Agenor que tinha esse habito de dizer que as coisas dos outros eram dele, quando não eram, e era o mesmo material da Aninha já publicado pelo Verger. Depois disso o Beniste publicou essas histórias em uma forma interpretada no seu livro o Jogo de owó eyo (ẹyọ) merindinlogun (mẹ́rìndínlógún). Ele não publicou as histórias completas e sim uma interpretação do seu significado. Nesse livro cita a fonte de sua pesquisa e a autoria do material original.

Ao todo são 72 histórias. Cada odù até ika tem histórias, 4 ou 5, sendo que ejionile tem 8. Essas histórias foram chamadas de os caminhos dos odù, porque para um mesmo odù elas davam opções diferentes, criando assim caminhos de interpretação para aquele odù. Foi dai que eu acredito que uns gênios, entenderam que odù era caminho, mas, eu acho que eles confundiram as histórias que criavam os caminhos em cada odù com odù ser um caminho. O livro do Prandi-Agenor se chama Caminhos de Odù, porque o conteúdo de é apenas e unicamente as 72 histórias associadas a cada Odù. Então dai para entender que, Odù = caminho foi apenas um passo, de cego, é claro.

Mas observem, que em Ifá a estrutura de interpretação de um odù é a mesma. Só que a gente faz isso para 256 odù e não somente para 16. Também, não se tem todas as histórias de cada odù cada escola ou axé pode ter o seu conjunto e que pode variar em relação a outro. Mas também existem gênios em Ifá São aqueles que dizem que existem 2.046 odù. Não existem. De novo, a mesma genialidade que transformou odù em Caminho pegou as histórias que compoe um odù, que podem ser 16 para cada odù, em novos odù. Coisa de gênio, não? Mas não é. Um odù pode ter interpretações diferentes e as histórias trazem essas possibilidades. Se não fosse assim teríamos que considerar que todos os problemas da humanidade se resumiriam em 256.... rsrsrs

Dessa maneira a grande sacada do oráculo de buzios é fazer um Ifá mais simples ao invés de aprender 256 odù você aprende 16, ao invés de centenas de histórias você se concentraria em aprender 72. Se diz que o eerindinlogun (ẹẹ́rìndínlógún) seria nesse formato menos detalhado, que daria uma informação incompleta em relação à Ifá. Existe até um texto atribuído ao no Odù ògúndá-ìrẹtẹ̀ falando sobre isso. Mas o mesmo texto diz que a informação é conhecida e não seria apenas dita, possivelmente em função da quantidade menor de Odù.

Mas, no owó eyo (ẹyọ) merindinlogun (mẹ́rìndínlógún), temos que lembrar que temos muito mais recursos para nos ajudar na interpretação, além dos 16 Odù Méjì. O oráculo nos fala também através da posição que os búzios caem no ọpọ́n, em alguns grafismos que podem fazer e usando o recurso da sub-divisão das caídas nos chamados barracões. Assim a ferramenta de fato oferece muito mais opções do que o opele (ọ̀pẹ̀lẹ̀) e os ikin.

Existem muito pouco literatura sobre métodos de jogos com buzios. Se nós recorrermos a um clássico, o livro do Bascom 16 cowries, lá o método é o Salako tirar apenas um odù, uma única caída. Ele joga uma vez e faz uma correspondência entre buzios abertos e Odù O Odù que sair ele considera como sendo méjì, isto é, ele não faz uma segunda jogada para saber a outra perna. Joga-se uma vez e considera-se que a segunda perna é igual a primeira, formando assim um odù méjì. O livro então documenta inúmeros versos para cada odù criando assim um processo similar ao de Ifá Continua existindo a determinação de ire/ibi e tipo e origem e para isso são feitas caidas adicionais, mas ele sempre considera que é uma caída méjì. Essa é a característica do eerindinlogun (ẹẹ́rìndínlógún).

Os cubanos tem um processo distinto. Vi fontes diferentes com pequenas variações no processo mas é a mesma coisa. Os cubanos usam os buzios para tirar as 2 pernas do odù. Assim, eles jogam a primeira vez e tiram a perna da direita e jogam de novo e tiram a perna da esquerda. 2 caidas de buzios forma 1 omo odù, da mesma forma como em Ifá

Dessa maneira com o eerindinlogun (ẹẹ́rìndínlógún) você pode optar por trabalhar com uma configuração mais simples com Odù méjì ou uma mais completa com os 256 Odù. A ferramenta, o instrumento não o limita.

Dito isso tudo eu volto a colocar a afirmação que podemos dizer que Ifá fala também através do eerindinlogun (ẹẹ́rìndínlógún). Não existe nenhuma restrição conceitual a isso e apenas a prática pode separa uma coisa da outra. Por esses motivos não existe razão para que pessoas pré-estabeleçam que o eerindinlogun (ẹẹ́rìndínlógún) não é Ifá. Essa afirmação pura e simples ao meu ver mostra apenas desinformação e ignorância. O que temos que examinar de fato são questões de prática que podem desconectar o uso do eerindinlogun (ẹẹ́rìndínlógún) de Ifá e faremos um analise disso a seguir.

O oráculo no Candomblé

O Oráculo por excelência do Candomblé é o owó eyo (ẹyọ) merindinlogun (mẹ́rìndínlógún) , os Búzios, mas a forma de usá-los muda bastante. Como ele é feito majoritariamente pelo Babalórìṣà existe sempre uma enorme componente de mediunidade envolvida. Assim, no mundo real, os Búzios são usados através da vidência do olhador e depois pela chamada fala dos orixa (òrìṣà) que combina caídas de búzios com orixa (òrìṣà).

Historicamente o oráculo através dos owó eyo (ẹyọ) merindinlogun (mẹ́rìndínlógún) é a ferramenta básica de um sacerdote de orixa (òrìṣà). Os búzios podem indistintamente serem usados por homens e mulheres enquanto que Ifá é um culto predominantemente masculino, com a presença de mulheres em algumas funções específicas. As mulheres não recebem iniciação para trabalhar com os instrumentos principais dos babaláwo o opele (ọ̀pẹ̀lẹ̀) e ikin. Além disso um Babaláwo não tem incorporação de forma que ou uma pessoa é um Babaláwo ou um Babalórìṣà.

O owó eyo (ẹyọ) merindinlogun (mẹ́rìndínlógún) é então o oráculo majoritário no culto de orixa (òrìṣà) e fontes que eu tive acesso elogiam em larga escala o mesmo. Nós sabemos por nossa prática no Brasil que os Búzios são excelentes como oráculo e esse conceito também existe na África.

O uso desse instrumento, owó eyo (ẹyọ) merindinlogun (mẹ́rìndínlógún), sofre muitas variações. A gente tem que considerar inicialmente o fator Umbanda. Um enorme contingente de pessoas que são Babalórìṣà no Candomblé já foram Pai de Santo de Umbanda (muitos escondem isso) e lá eles trabalhavam fortemente com vidência, de maneira que essas pessoas tem a clarividência e aurividência muito aflorada. É possível que a totalidade deles não deixe de trabalhar com seus guias de Umbanda mesmo estando no Candomblé. Muitas dessa pessoas na Umbanda, tinham o seu jogo de búzios que não era nada mais do que um simples exercício de mediunidade com os guias intuindo, falando ou trazendo vidência ao Pai de santo dos problemas que o consulente trazia. Essa prática nunca teve qualquer vínculo com Ifá, apesar de muitos chamarem assim o seu oráculo (sem saber o que isso queria dizer de fato).

No Candomblé existe uma baxíssima qualidade de transmissão de conhecimento. Existe uma enorme facilidade em se vender obrigações e nenhum compromisso em continuar ou fazer a formação de uma pessoa seja para ela ser um Babalórìṣà ou simplesmente um sacerdote da casa. As pessoas pagam suas obrigações e anos de submissão para serem depois um Babalórìṣà com sua própria casa, onde ele dê suas ordens (o conceito de comunidade não inexiste, de fato). O oráculo é a porta de entrada de qualquer pessoa no mundo sacro do Candomblé. Tudo é feito a partir do oráculo e tudo é feito com o oráculo. Não pode existir um Babalórìṣà que não tenha um oráculo na mão.

Dessa maneira as pessoas tem que se virar com o que tem e com o que sabem da maneira como puderem, lembrando que nada é de graça. Em função disso temos muita variação de qualidade no oráculo dentro do Candomblé e o principal tipo de oráculo, aqueles que os Babalórìṣà conseguem usar com mais facilidade, é esse baseado apenas em mediunidade. Em grande parte dos casos a quantidade de búzios não se restringe a 16 (como deveria ser), as pessoas usam a peneira ou mesmo o opon e decoram a mesa com uma pilha de guias que mal sobra espaço para se deixar cair os buzios, a ainda, pedras, cristais, conchas, moedas, favas, figas, pirâmides, velas, copos com água, imagens de orixá, imagens de santos, calendário de são Jorge, as vezes dentes de animais e ossos e por ai vai. Isso tudo é decorativo, não tornar o jogo melhor.

Assim os búzios caem mas as informações vêm através da mediunidade. Nesse tipo de uso nem passa pela cabeça de ninguém considerar que se esta trabalhando com Ifá ou com Orunmila (Ọ̀rúnmìlà).

Existe um outro grupo que faz uma variação disso. Considera que usa Odù porque restringe-se a 16 Búzios e dá nome de odù para as caídas. Eles sempre uma associação entre Odù e orixa (òrìṣà) e isso se torna uma informação de primeira linha, sendo que as pessoas disputam por ai saber que orixa (òrìṣà) fala em cada Odù ou caída. Cada odù corresponde um ou mais orixa (òrìṣà) que “falam”. Em função do orixa (òrìṣà) que está falando e do arquétipo do orixa (òrìṣà), no conhecimento popular, aquela caída significa uma coisa. Uma caída com etaogunda, é associada com Ògún e dessa maneira você vai ter problemas com brigas, justiça, etc... Os Olhadores associam então essa correlação de Odù-orixa (òrìṣà) ou simplesmente caída-orixa (òrìṣà) com a sua mediunidade para responder ao consulente.

Neste tipo de uso dos búzios o importante mesmo é o orixa (òrìṣà) que está respondendo. Existem olhadores que chegam a dizer que tal pessoa pertence ao orixa (òrìṣà) que respondeu nas suas caídas ou mesmo no que mais respondeu. Sem nos preocuparmos com aspectos qualitativos, esse tipo de uso dos búzios, mesmo que nomeando o Odù que cai, jamais poderá ser considerado como Ifá assim como a associação de Odù com a quantidade de owó eyo (ẹyọ) merindinlogun (mẹ́rìndínlógún) aberto, mesmo que use algum padrão estabelecido, também não poderá ser Ifá ou Orunmila (Ọ̀rúnmìlà). A consulta gira sempre em torno de orixa (òrìṣà), e qualquer consideração é feita considerando um ou mais orixa (òrìṣà).

Existem outra pessoas que fazem diferente e se aprofundam mais na questão Odù, mas, observe a mediunidade está sempre presente. Ai entra nessa longa história aqui um outro elemento, o Bernard Mapouil que fez um livro muito interessante sobre oráculo, em francês, e que é um dos pilares para a interpretação de Odù no Candomblé. Existe um mesmo material que é usado por todo mundo que é derivado desse livro dele, que foi feito no Benin e não na Nigéria. Esse livro originou um conjunto de interpretações para cada odù. Assim de Okaran até alaafia, as pessoas decoram as mesmas pré-interpretações dos significados dos odù. É esse material que repetido com pequenas variações por todo mundo.

Como é uma coisa interpretada e mais fácil de ser usada do que interpretar na hora histórias e mitos, Normalmente as pessoas usam as 4 caídas do bangboxe com essas interpretações e ignoram as histórias do banbogxe, que ao meu ver ao longo do tempo, por deficiências de transmissão do método, a necessidade de usar, ou mesmo a forma de usar as histórias e de interpretar o Odù com elas se perdeu. Como também se perdeu o uso dos ìbò para poder interagir com o Orí do consulente.

Esse conjunto de Babalórìṣà associam à sua mediunidade, o oráculo com uma base de Odù mas que também, preponderantemente, inclui a famosa relação de orixa (òrìṣà) com odù que influi na interpretação e determina o que vai ser feito. Além disso entra um novo elemento, a numerologia, também herdada da Umbanda e tem gente que inclusive faz odù só com números, a partir de nome, de data de nascimento, etc... Aliás, não existe essa relação de odù e número, isso foi um sincretismo. Dessa maneira não tem nenhuma utilidade fazer contas com nomes e data de nascimento e querer associar isso à pessoa. Inclusive é muito comum se usar a expressão de se determinar o odù de nascimento através da data de nascimento. Isso é tão verdadeiro como se determinar a o orixa (òrìṣà) da pessoa de acordo com o dia da semana em que ela nasce, ou seja, não existe isso.

Dessa forma, elas dizem que usam o método do banbogxe, ou que jogam por Odù, mas ignoram 3 coisas muito básicas para se usar Odù. Primeiro usam muitos Odù para interpretar, segundo não usam as histórias e terceiro não usam o Orí do consulente para as respostas, não usam os Ìbò. Eu inclusive já ouvi uma pessoa que diz que usa esse método dizer que os caminhos dos odù é você determinar se o ebó vai ser na praia, no mato, na rua, na encruzilhada, etc...

Observem que, como eu disse no início, Ifá não é baseado em orixa (òrìṣà), é baseado em Orunmila (Ọ̀rúnmìlà), em Orí e no nosso destino. Eu considero que tão importante quanto Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) é Orí em uma consulta de oráculo. Não existe consulta de Ifá sem que o Orí participe diretamente nas respostas através dos Ìbò. Entretanto essa prática não existe mais no jogo de búzios, se existir é uma minoria, ou talvez raridade. É provável que o consulente nem pegue nos búzios antes de eles serem jogados para ele.

Então, é provável que o método de usar o owó eyo (ẹyọ) merindinlogun (mẹ́rìndínlógún) tenha se perdido com o tempo devido a deficiência na transmissão de conhecimento que existe no Candomblé e também, temos que reconhecer a falta de fontes de informação e aprendizado. O método e o sentido foi substituído pela vidência e nesse caso não fico somente com a crítica fácil, acho que foi uma forma de dar continuidade a isso em face as dificuldades. O que seria então um método com um tempo menor de estudo ficou gradativamente intuitivo.

Nesses casos, não posso considerar que estejamos trabalhando com odù e que isso seja Ifá, por mais que essas pessoas assim o pensem. Como última observação eu gostaria de lembrar que esses Babalórìṣà tem uma forma de interpretar o oráculo com os seus búzios muito pessoal, assim como pessoal e exclusivo é o conhecimento deles. O que eles sabem é só para eles.

É impossível, você colocar 2 babalorixa interpretando o mesmo jogo, assim como é impossível um Babalórìṣà chamar outro para ajudar ele no oráculo. Cada um só sabe ler o seu e não diz para o outro o que sabe ou o que não sabe.

Em Ifá é diferente, ou usando qualquer oráculo de odù você pode colocar 16 babalawo interpretando o mesmo odù, eles vão falar a mesma coisa e poderão discutir interpretações ou complementar as informações. É muito comum terem sempre 2 babaláwo em uma consulta, um ajudando o outro. Isso é possível porque eles estão tratando da mesma base de conhecimento e do mesmo processo.

Mas esse é o nosso caldo cultural e Ifá vem muito recentemente se adicionando.

Ultimas Palavras

Eu não tenho como objetivo ser panfletário para nenhum lado. Me interessa de fato a verdade, os fatos e os fundamentos. Para poder dar essas explicações colocando a minha opinião sobre esse assunto eu tenho me dedicado a muito tempo a essa questão, sempre buscando novos argumentos e novas formas de ver isso.

Eu considero que owó eyo (ẹyọ) merindinlogun (mẹ́rìndínlógún) pode ser usado para trabalhar em Ifá, com Orunmila (Ọ̀rúnmìlà), Odù e Orí. Isso pode existir pela teologia e também pela prática. Isso poder ser feito usando somente os Odù Méjì como também com os 256 Odù. Contudo nem todo mundo que usa búzios os faz pelo método de Ifá, aliás, na prática quase ninguém o faz. Para fazer isso é necessária uma outra aprendizagem e isso esbarra no comodismo ou mesmo na dificuldade de buscar esse conhecimento.

Eu tenho razões para supor que o método de Banbogxe era aderente ao método de Ifá e que isso foi perdido, sendo os seus mecanismos substituídos gradualmente pela mediunidade ou por essa coisa sem sentido que é a numerologia.

Hoje em dia temos uma nova opção com o estabelecimento em bases perenes do culto de Ifá no Brasil, mas não tem ajudado a atitude de muita gente de Ifá. Seja os nativos que entram no culto e se acham o próprio Deus, ou no mínimo acima do resto dos mortais, sejam de cubanos que vem com suas bases Ifá-lukumi sejam os africanos que vem, sei lá com que.

Esse é mais um desafio que o Candomblé esta faceando. A sua primazia na posse de um Oráculo esta definitivamente com os dias contados e o culto de Ifá irá de forma definitiva tomar para si, como tem feito, a propriedade de ser o oráculo de Ifá em detrimento a forma oracular pouco estruturada que usa o mesmo nome no Candomblé. Como eu disse ao longo de todo esse texto isso não é uma verdade, o oráculo do Camdonblé tem bases dogmáticas para se impor como um oráculo de Ifá e ser considerado um oráculo mais preciso e eficaz. A comprovação disso é encontrada no versos desses 2 Odù que eu transcrevi e mais no Odù ọ̀ṣẹ́túrá, Ogbè-ògúndá, Ọ̀sá méjì, Ìrẹtẹ̀ méjì e outros que eu pretendo consolidar e apresentar.

O Candomblé tem ainda mais outros desafios: a formatação do Candomblé para ser uma opção religiosa de fato; A integração de pessoas vindas de classes sociais e níveis culturais mais evoluídos; O bloqueio da sua degradação dogmática devido a entrada em massa de pessoas vindas de Umbanda que trazem uma anarquia teológica; a estruturação de uma forma de transmissão de conhecimento que separe o que é teologia de liturgia; a incapacidade das casas de se estruturarem para permanecer com as pessoas depois que eles fazem os seus 7 anos e são obrigadas a se anularem evitando assim a proliferação de casas com pessoas sem condições de as manterem.