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quarta-feira, junho 10, 2009

Você é espirita ou espiritualista?

O assunto não diz respeito diretamente a Ifá, mas tem relação com a religião e sua teologia. Estamos dentro da mesma matriz teológica e esse tema certamente já esteve ou esta presente na vida de todos.

Um Candomblecista não é espírita nem muito menos espiritualista. Até onde eu entendo, e pesquisei sobre isso, espiritualista é qualquer pessoa religiosa, independente da religião. É o oposto de não ter religião de não acreditar em Deus, de ser qualquer tipo e em qualquer intensidade de ateu.

O termo espiritualista tem sido usado meio sem sentido para mostrar uma variedade de espírita, aquele que não é bem um kardecista.

É interessante a dificuldade que as pessoas tem para se definirem. Bom, acho que muitas pensam que são mesmo espíritas, mas outras ficam na dúvida de como se expressar. Infelizmente eu não vejo nenhuma outra forma de classificar um Candomblecista que não seja como Candomblecista.

Se a pessoa não quer ser reconhecida como tal, é preferível dizer que é pagão, que significa ser "não cristão", a menos que o Candomblecista se ache um cristão, como muitos, inclusive Iyalorixás se acham e se declaram.

Olha, o catolicismo é uma religião muito bonita, iniciática como o Candomblé e direcionada para o amor ao próximo e caridade e a devoção incondicional. O catolicismo é uma religião para se sentir no coração e não nas escrituras, muito diferente dos malucos dos evangélicos. Dessa forma muito parecida com o Candomblé. Nada então mais simples do que o Candomblecista queira se achar cristão. Só que ele vai estar na
pratica errada...

Voltando ao espiritismo, é uma tradição religiosa baseada no catolicismos ou cristianismo, como se queira. Ele foi criado por uma pessoa com pseudônimo de Alan Kardec (não é o jogador do Vasco rsrsrs) e faz como toda seita uma releitura das escrituras cristãs.

O cristianismo é re-encarnacionista enrustido, porque ele admite a re-encarnação para Jesus mas não para nós, assim só Jesus pode re-encarnar. Já o espiritismo procura dar uma visão mais abrangente para o cristianismo adaptando a doutrina cristã a realidade dos espíritos desencarnados, etc...

Ele é assim baseado totalmente nas teses cristãs. É só qualquer pessoa ler os livros da Kardec, que já estão em domínio público e dessa maneira podem ser baixados na forma de PDF livremente, para se constatar o que eu estou afirmando.

Já por essa razão um Candomblecista Jamais poderia se intitular espírita, exceto se ele é um dos muitos Umbandistas desiludidos ou desinformados, do tipo que frequentou centro para comer merenda na cantina, que acham que o Candomblé é uma evolução da Umbanda, assim, tem muita gente que acha que inicia pela Umbanda e depois passa para o “estágio seguinte” que é o Candomblé.

O Candomblé é uma tradição religiosa distinta de uma matriz religiosa totalmente distinta da matriz do cristianismo. O cristianismo é o que se chama de uma religião semita ou abraamica, porque descende de Abraão. O Candomblé não tem nada haver com isso.

Assim aquilo que chamamos de teogonia, teologia, etc... que são os nomes que classificam um tipo de conhecimento, ou melhor de informação religiosa, são totalmente distintas.

Além disso o espiritismo é baseado em uma visão encarnacionista muito própria. Segundo os espíritos disseram para Kardec e ele relata nos seus livros, existe uma coisa chamada Karma e a gente vem aqui nesse mundo para pagar esses Karmas. Tudo de ruim que acontece na sua vida hoje é devido aos seus Karmas de outras vidas e se você passa por uma coisa ruim você tem que continuar passando para se livrar daquele Karma. A vida é um sofrimento só e a gente vive e re-encarna só para não ter que viver de novo. Além disso você deve procurar nas suas vidas passadas a explicação dos problemas que você tem nessa.

Os espíritas são assim pessoa muito infelizes.

O interessante é que esses espíritos que falaram com o Kardec devem ser orientais porque esse nome Karma é Hindu, mas não significa isso lá na religião deles, e essa idéia de mundo de sofrimento e de não encarnar mais é uma coisa Budista, sendo o budismo uma divergência do hinduismo.

Em relação ao Candomblé, graças a olodumare, não temos nada disso. A gente não tem Karma. A gente re-encarna porque gosta de viver e porque gostamos de viver com nossos familiares. O Candomblecista tem tudo para ser uma pessoa feliz, assim como o são os africanos. Eu transcrevi um texto do odù irosun iwori que mostra uma visão de vida muito distinta dessa ideologia espírita.

Vou transcrever aqui o comentário que um amigo, antropólogo fez:

"Marcos, eu li certa vez um comentário de Jesuíta que vive em Moçambique há mais de 25 anos e hoje reencontrei este texto aqui no meu computador. É um trecho de uma entrevista ao missionário Jesuíta Eric de Rosny, que inclusive se iniciou nos cultos tradicionais de Moçambique:

"Pergunta: O senhor tem se irritado frequentemente diante das pessoas que insistem em apresentar de maneira pessimista a realidade africana. O célebre livro de René Dumont diz que "A África negra começou mal". O senhor não concorda? Rosny responde - Começou mal politicamente. Começou mal economicamente. Mas o povo africano continua estranhamente sadio e surpreendentemente tolerante. A sua força reside na capacidade de viver o momento presente, aconteça o que acontecer.
Alguém chega para dizer que o pai está morre não morre. Ou que o filho foi expulso da escola porque não tinha dinheiro para os exames. Conta tudo, e, não passam mais de três minutos, já dá uma bela de uma risada. É isso que caracteriza os africanos e os salva da depressão: a capacidade de esquecer por um momento a miséria para dar uma saudável risada, para passar um minuto de alegria com os amigos, com a ajuda de uma cerveja, uma castanha, uma fruta. Nunca vi nada de semelhante nas sociedades ocidentais, onde o sofrimento parece que obedece a um programa."

É interessante porque quando vemos reportagens sobre a África de pessoas que estão interessadas em ver aquilo que a África tem de melhor, nos deparamos com uma coisa que está na base das religiões tradicionais daquele continente, inclusive os yorubás: a alegria de viver!

Lembro quando a Glória Maria fez aquelas reportagens na Nigéria, uma das coisas que a encantou foi a alegria daquele povo, que em meio a tanta diversidade, tem um profundo e duradouro sentimento de felicidade."

Lembro que a religião é um dos reflexos da sociedade que a gera, assim, no Candomblé a gente canta e dança para os orixá. Nós festejamos a vida o tempo todo com eles.

Assim se você gosta de ser uma pessoa infeliz, de fato dizer e ser espírita é muito bom, mas acreditar no que eles dizem e comemorar com os Orixá é coisa de maluco.

Por fim existe a questão da ancestralidade. O conceito de ancestralidade do Candomblé é muito claro e também esta presente nas antigas religiões orientais. A gente re-encarna sempre na mesma família. A gente tem que casar e ter filhos para poder re-encarnar. As rezas yoruba que eu conheço sempre pedem, caminhos abertos, prosperidade, uma mulher, uma casa e bons filhos, nessa ordem.

Os espíritas não tem esse conceito, Você re-encarna para pagar os seus Karmas. Pode re-encarnar junto com um membro de sua família se isso for um Karma que precisa pagar ou então pode nascer junto com um inimigo ou um pessoa que te fez mal. Mas pode re-encarnar em qualquer lugar.

Enfim, eu gostaria de assim colocar a minha opinião de que é preferível um Candomblecista se dizer católico do que espírita quando ele não quiser dizer que é Candomblecista, acho que ofende menos as crenças da própria pessoa.

Agora, recomendo aqueles que não são obrigados a dizer que tem outra religião, ou seja, que podem dizer que são Candomblecistas, e que de livre e expontanea vontade se chamam de espíritas que revejam isso porque elas estão muito enganadas. Talvez um bori faça bem.

O candomblé fez tanto por si mesmo que o conceito é o pior possível. Candomblé se identifica não com o que é de bem, mas sim com o que é de ruim, com o mal feito ao próximo, com a mais pura baixaria e ignorância. Tudo isso fruto do mercantilismo e da ignorância que fazem considerar o Candomblé uma religião sem ética, até os antropólogos que o estudam assim o consideram.

Eles estão certos e errados. Certos porque é isso o que vemos no mundo real e o trabalho deles é refletir isso. Errado, porque não é nisso que a religião se baseia.

Eu sugiro que digam que são da religião dos Orixá, evitando assim a palavra Candomblé. Uma vez que a identificação é com os Orixá e não com a palavra ou esse corpo podre.

Para o pessoal do Umbandoblé acho que não tem problema, eles podem dizer qualquer coisa que vai estar sempre certo.

Em Ifá surge a mesma questão. Quem é de Ifá se considera de que religião?

Pode ainda dizer que é de Ifá, isso não foi estragado, ainda. Existe um misto de respeito pelo passado e significado com ignorância. Eu penso que isso esta indo para o buraco. Tenho visto muitos dos babalorixás sem ética e somente mercantilistas que tem programas de rádio e publicam jornais ou anúncios em jornais chamando clientes, mostrando festas se dizendo de Ifá porque compraram uma obrigação de awofakan.

Gente não dá para se dizer uma pessoa de Iwa Pele com anúncio publicado em jornal oferecendo serviços de feitiçaria, trocando dinheiro por favores. Não se pode se auto-entitular sacerdote de alguma religião assim. Não se pode dizer de Candomblé e se deixando fotografar e divulgando sua festa de Exu e Pombo-Gira ou mesmo divulgando seus dias de consulta.

Esses se consideram a nata do candomblé, mas são apenas a escória. Sem caráter e todos sem nem mesmo obrigações. São pessoas que vieram de umbanda, eram pais de santo e que inventaram obrigações que nunca deram, mães de santo que nunca tiveram, de preferência falecidas ou da Bahia e de estados remotos que ninguém pode nunca verificar. Poucos tem testemunhas de suas obrigações ou dos seus tempos de Iyawo. Muitos procuram Babalorixás e Iyalorixá oferecendo somas vultosas de dinheiro para dar uma obrigação de 21 anos que eles não tem direito para legitimar a mentira.

Pois bem esse povo agora se diz de Ifá, também. Vejam isso é o princípio do fim, é o Ovo da Serpente. Pior do que eles são as pessoas que dão obrigações de Ifá nesse povo, não porque como qualquer pessoas eles não mereceriam, mas, porque com eles vem toda a lama.


domingo, junho 07, 2009

O que é um ẹbọ (ebó)?

O termo ẹbọ (ebó) tem pelo menos 2 significados. O primeiro quando é usado para denominar um processo de limpeza, chamado também de sacudimento por muitos. O segundo quando é usado genericamente para o ato de fazer uma oferenda e as vezes para a oferenda em si, não importando se esta oferenda é uma comida ou sangue, mas a expressão original - ẹbọ (ebó) – deveria significar as oferendas que requerem sangue. Atualmente é usada para nomear uma oferenda em geral.

O ẹbọ (ebó) é uma oferenda a ser feita para os ancestrais ou òrìṣà (Orixá) em agradecimento por bênção recebidas ou na intenção de resolver problemas ou obstáculos, abrir portas e oportunidades. Os itens normalmente se compõe de itens comestíveis como frutas frescas, Água, bebidas destiladas, mel e azeite. Além disso o ẹbọ (ebó) pode conter outros itens como dinheiro, roupas, búzios e ervas. Alguns tipos de ẹbọ (ebó) são colocados dentro de casa e outros devem ser colocados no tempo.

ẹbọ (ebó), é uma oferta ritual, é um forte elemento e o motivo final do processo de consulta ao oráculo. Ele tem uma função central no processo de consulta. O ritual de oferta consiste de uma liturgia elaborada com objetivo de apresentar uma comida e bebida através dos quais o homem manipulará e usará para intermediar com as divindades em seu próprio benefício. O relacionamento entre os seres humanos e as divindades é expressado e obtido através da execução de rituais e liturgias, e isso ocorre em qualquer religião sendo essa, a ritualização, a base da necessidade e existência das religiões uma vez que a sua razão é a ligação entre o homem e o divino. Os rituais e liturgias conectam o mundo físico ao mundo espiritual de forma a trazer harmonia e equilíbrio para o nosso dia a dia. A realização das liturgia e rituais através do ẹbọ (ebó) re-ordena e corrige o relacionamento entre a divindade e o homem trazendo o equilíbrio que se deseja. Segundo Abímbọ́lá (1994:106):

Todo conflito no cosmo Yorùbá pode ser eventualmente resolvido através do uso do ẹbọ (ebó). O sacrifício é a rama que traz a solução e tranquilidade ao universo e que ordena os problemas do dia a dia.

Quatro coisas são importantes para a eficácia de um ẹbọ (ebó). A primeira é o correto uso de cada elemento ritual que é especificado para o odù que foi revelado na consulta ao oráculo. Segundo, isto tem que ter objetivo e propósitos reais e sinceros. Terceiro, tem que ser espiritualmente tratado por sacerdotes. Quarto, existe a necessidade de existir uma integração entre o sacerdote, o consulente e as forças espirituais que serão movimentadas para se obter o resultado desejado. Mais ainda, quando este relacionamento é próximo, as ervas, se forem necessárias, irão curar de fato.

Algumas vezes o ẹbọ (ebó) não virá na forma de uma oferenda física, mas sim através de regras de comportamento e proibições. Por exemplo, não frequentando alguns lugares, não consumindo determinado tipo de alimento, não fazendo determinado tipo de tarefa ou comportamento, adotando uma rotina de rezas, etc..

Uma parte muito importante de um ẹbọ (ebó) é se determinar a quantidade de tempo que ele vai ficar exposto e o local onde será colocado depois. Alguns Odú podem permitir colocar seu ẹbọ (ebó) em uma lixeira, mas normalmente algum lugar da natureza poderá ser a melhor escolha. Esta definição é parte do processo do oráculo.

Mas em relação a seu significado o mais importante é entender que o ẹbọ (ebó) é mais do que um conjunto de itens físicos. Ele é parte de um sistema de forças e energia que é movimentado no momento em que se inicia a consulta à Ifá, quando olódùmarè se utilizará de ọ̀rúnmìlà e de seus ministros, os òrìṣà (Orixá) e ancestrais, para poder mudar ou corrigir uma determinada situação, e neste processo, èṣù é o elemento transportador de energia, ou àṣẹ. Assim todo o conjunto espiritual que compõe os fundamentos da religião se movimentam através de uma simples consulta a Ifá, ou seja, um jogo de búzios.

Não podemos entender o significado de um ẹbọ (ebó) se não compreendermos este sistema metafísico que está envolvido e suas diversas engrenagens. O oráculo diagnostica e nos remedia através de odù que recebemos no ọpọ́n. O odù serve para nos indicar o que existe em torno de nós, como uma mensagem, e também para nos trazer a energia bruta que será manipulada para resolver o problema. O odù é assim como se fosse uma célula tronco que através do olhador, das rezas e encantamento e do ẹbọ (ebó) será manipulado para se resolver o problema do consulente.

Este é inclusive um dos motivos que se indica não manipular odù se não se tiver o conhecimento necessário. Pode-se estar trazendo para perto de sí uma energia bruta não lapidada que pode influenciar a pessoa, sua casa e família de forma negativa se não for adequadamente conduzida e transformada. Se fosse simples não haveria necessidade de todo o conhecimento, todas as cerimônias de iniciação e todo o tempo de aprendizado no qual o olhador se alinha com as forças metafísicas e super-naturais que vão ajudá-lo no seu trabalho. Eu considero que não é apenas teoria ou cerimônias de iniciação, é necessário prática para que as engrenagens metafísicas de alinhem e se adaptem à pessoa.

O conceito básico do uso do ẹbọ (ebó) é que temos um desequilibrio de energia e isto está afetando a nossa vida, assim precisamos corrigir o aṣẹ́ (axé) do consulente e isto é feito através do odù que recebemos e da energia que está contida em cada elemento do ẹbọ (ebó). Olódumàrè quando criou cada elemento na terra colocou nele um espírito ou uma energia metafísica que da a ele um propriedade especial. As folhas são elementos poderosos na acumulação dessas propriedades e por isso extremamentes importantes ao uso que damos. Esta energia está então contida em cada elemento existente no aiyé e será extraída e manipulada através de um “operador” qualificado. Este operador empresta a esse processo o seu próprio aṣẹ́ (axé) que funcionando como uma “quintessência” irá retirar a energia própria de cada elemento do ẹbọ (ebó).

Seria muito simples se qualquer pessoa pudesse pegar um elemento “expremê-lo” e tirar dele a sua propriedade divina, como se tira o suco de uma fruta. As vezes isso pode ser assim e algumas pessoas tem o aṣẹ́ (axé) necessário para fazer isso e, por essa razão, é que algumas coisas funcionam quando feitos por uma pessoa e por outra não. O que eu penso é que esta propriedade divina, ou natural de cada elemento, não é um aṣẹ́ (axé) ainda no sentido que aṣẹ́ (axé) é a energia em movimento. Quem tem o aṣẹ́ (axé) somos nós seres vivos e o nosso aṣẹ́ (axé) é necessário para retirar a propriedade de cada material. É claro que as plantas estão vivas e por isso mesmo tem aṣẹ́ (axé), isso é o que faz delas um componente tão importante e por isso que qualquer pessoa pode usar com bons resultados as ervas para fazer banhos. Independente do aṣẹ́ (axé) dessa própria pessoa as folhas quando usadas frescas tem o seu próprio aṣẹ́ (axé) que é assim transmitido para quem recebe o banho.

A liturgia de quinar as ervas com cânticos e encantamentos e feitos pelo próprio sacerdote é uma processo litúrgico mais forte porque diretamente está havendo manipulação, transferência e amplificação do aṣẹ́ (axé) do sacerdote através das folhas, que se soma ao aṣẹ́ (axé) das ervas fazendo fluir e acumular no banho de ervas preparado e encantado uma “bateria” viva de aṣẹ́ (axé).

O uso de elementos preparados, manipulados e cozidos é uma outra variação e, através desse processo alquímico, estamos manipulando, transformando, amplificando e canalizando as propriedades de todos os elementos envolvidos para o fim que desejamos. Mas, nesse caso de elementos preparados, as suas propriedades são estáticas, como um alimento comum. A “virtude” existe neles, mas será o aṣẹ́ (axé) do sacerdote que irá colocar isso em movimento retirando deles essa propriedade e fazendo-a funcionar na forma de energia dinâmica, ou seja aṣẹ́ (axé).

Neste momento estamos também colocando em movimento uma aṣẹ́ (axé) muito mais importante que é o das divindades, os òrìṣà (Orixá), que assistem o sacerdote e que irão se utilizar da propriedades desse elementos que estarão preparados para o uso através do seu aṣẹ́ (axé). Aqui então entramos na área onde devemos entender as especializações das divindades. Cada òriṣà tem afinidades com elementos e locais que faze parte do aiyé. O sacerdote deve conhecer essas afinidades para que possa se utilizar disso.

Desta forma ao usarmos o aṣẹ́ (axé) de uma divindade temos que conhecer os elementos que fazem parte de sua afinidade e a forma de serem preparados para a amplificação ou mesmo abertura de suas propriedades. A natureza e todo o aiyé é um repositório de energias metafísicas e o sacerdote deve, com um garimpeiro ou como um lavrador, procurar os locais onde ela aflora e se manifesta ou também cultivar locais onde estas energias se concentrarão. Um terreiro ou casa de santo é um local que é então preparado para acumular ou fazer aflorar a energia do aiyé e dos òrìṣà (Orixá). Dessa forma muitos ẹbọ (ebó) serão feitos na própria casa de santo. Em outros casos o sacerdote vai procurar o seu local de afloramento, circulação ou acumulação na própria natureza. Não se pode por exemplo ter a energia de uma praia dentro do terreiro, ou de uma estrada ou de uma encruzilhada, ou do alto de uma montanha, etc. .

É o conhecimento desse fundamentos que permite a um bom sacerdote ter os melhores e mais efetivos resultados. Uma pessoa com conhecimento e aṣẹ́ (axé) poderá amplificar as energias da natureza, dos elementos e dos òriṣà, obtendo os resultados mais efetivos. Os locais da natureza, o cuidado do sacerdote na manutenção do sei aṣẹ́ (axé) (pelas suas obrigações, observância de preceitos, afastamentos dos ewọ̀ do seu odù e òrìṣà (Orixá), as horas do dia e dias do mês (em função de horários e fase da lua mais apropriados) e as cantigas e encantamentos serão no seu conjunto e individualmente elementos que amplificarão a energia e por isso mesmo dão mais eficácia ao ẹbọ (ebó).

Não devemos esquecer que o ẹbọ (ebó) assim como qualquer processo litúrgico é um processo de troca e reposição de aṣẹ́ (axé) entre o sacerdote e o consulente. Um sacerdote deve ser um pessoa preparada para fazer essa troca, através de conhecimento, prática e obrigações. Também deve ser uma pessoa que se cuida e tem assim aṣẹ́ (axé) para dar ou aṣẹ́ (axé) bom para trocar.
Um sacerdote que se envolva com feitiçarias, que trabalhe com forças obscuras para atender pedidos sem ética de pessoas inescrupulosas, como ele, jamais vai ter algo bom para dar. Mesmo um sacerdote que se divida entre amarrações, separações e queimações e misericórdias mão pode ter algo de bom para dar. Para fazer os primeiros vai ter sempre junto de si energias e espíritos que precisam mais receber do que dar.

Não se deve ignorar pessoas que nasceram sob um signo ruim que carregam uma energia negativa, os que tem como seu diz mão buruku. Esses sempre vão estar querendo fazer algo para alguém mas nunca vão trazer solução, só mais problemas.
Assim o ẹbọ (ebó) é formado pelo conjunto de tudo isso que citei aqui. Elementos que contém virtudes divinas e mesmo aṣẹ́ (axé), como é o caso das folhas, da energia que está na natureza, do aṣẹ́ (axé) dos òrìṣà (Orixá) e do aṣẹ́ (axé) do próprio sacerdote, que ao longo de toda sua vida acumula não só conhecimento como também acumula aṣẹ́ (axé) para poder ser transmitido para que ele ajuda ou para retirar e ser amplificado pelos elementos que ele manipula.

Não podemos esquecer que em todo este processo o Orí da pessoa foi o elemento ativo de comunicação e como uma divindade pessoal do consulente nada poderá ou ocorreu sem o seu consentimento.

Assim quando a pessoa e seu Orí se sentam no espaço sagrado do olhador de Ifá este irá invocar ọ̀rúnmìlà para que este como o ẹlẹ́rí ìpín, ou testemunho do compromisso entre o consulente e seu orí e olódùmarè, possa analisar a situação que está ocorrendo e avaliar se os problemas fazem parte do destino pessoal daquela pessoa ou não, são parte dos problemas de terra que podem ser eliminados ou amenizados. Neste momento ọ̀rúnmìlà é a boca através da qual falam o Orí, os òrìṣà (Orixá) e ancestrais do consulente e, sem dúvida nenhuma olódùmarè que sempre está presente em nossa vida.

O Odù contém ao mesmo tempo a mensagem e a solução do problema e tudo se faz através de energia e equilíbrio, mas sempre através das mãos das divindades que assistem a vida do consulente. Desta forma os elementos físicos que compõe o ẹbọ (ebó) trazem suas energias individuais e seu àṣẹ. O elementos físico será transmutado em energia que será utilizada como força a ser colocada em movimento por estas divindades para atuar na situação colocada.

Por fim eu gostaria de abordar uma mistificação ligada a ẹbọ (ebó). De nenhuma maneira ao fazermos um ẹbọ (ebó) estamos alimentando divindades ou espíritos. Estamos dando início a uma roda de energia que irá ser movimentada em benefício do próprio consulente, ou seja, estamos dando ignição a uma corrente do bem. Desta maneira tudo o que é colocado em um ẹbọ (ebó) desde a qualidade dos elementos até o carinho que isto é feito irá retornar para nós mesmos.

Uma divindade não necessita de comer, o seu nível de evolução espiritual a coloca em uma condição que elas existem para nos ajudar e não ao contrário, mas, não estamos no ọ̀run e sim no aiyé, desta maneira necessitamos transformar energia. Como todos sabemos energia não se cria do nada, se transforma a partir de uma fonte já existente. Por esta razão é que usamos o ẹbọ (ebó) como uma fonte de energia que será gerada para que o que necessitamos de aṣẹ possa ser obtido.

É ridícula a imagem que passam de que aquela comida vai agradar a algum òrìṣà (Orixá) e que ele assim comendo e bebendo vai se dispor a nos ajudar. É também ridícula a fala de que um espírito não nos ajuda porque não o ajudamos ou o alimentamos. Minha opinião é que este tipo de mistificação é a primeira coisa que deve ser esquecida por alguém que quer aprender algo.

sábado, maio 30, 2009

ORI - O guardião de nosso destino

Parte 1

Orientações e explicações de como entender, se equilibrar e viver melhor através de Orí


Consulta a versão atualizada deste texto em:

http://blog.orunmila-ifa.com.br/2015/03/ori-o-guardiao-do-nosso-destino.html 





O que é Orí?


O objetivo deste texto não é esgotar o assunto de Orí. Este é um conceito muito importante na religião Yorùbá e será abordado na sequencia sobre o Cosmo Yorùbá,  porque é impossível falar sobre a religião e não falar sobre Orí. Não é nada complicado ou misterioso, mas, não tem sentido façar de Ori sem você primeiro entender o cosmo.

Mas, não tenho dúvida que, mesmo sem eu me alongar aqui, este texto, que é uma revisão estendida de um texto já publicado, já será muito maior do que esse lixo de meia dúzia de linhas que é publicado por ai.

Infelizmente, este texto, será um pouco hermético para muitos neófitos que estejam acompanhando as publicações, apesar do esforço que fiz aqui para simplificar. Para aquelas pessoas que já sejam da religião e sem dúvida já ouviram falar de Orí vai ficar bem mais fácil.

Como muitas palavras Yorùbá esta, Orí, também tem mais de um significado e uso e isso, as vezes, torna complexa a sua explicação.

Ori é usado para se referenciar a 2 coisas principais. A primeira é a nossa cabeça. Cabeça é Ori. Os Yorùbá entendem que a cabeça é uma parte importante do corpo e nela reside aspectos marcantes de nossa vida. Nossa consciência esta na nossa cabeça bem como componentes adicionais e auxiliares também estão. A cabeça é o repositório de nossa axé (aṣẹ́), da ligação com o nosso orixá (Òrìṣà) e da ligação com nosso passado e ancestralidade.

Todo o nosso corpo é importante. Tem um ditado que diz que uma pessoa sem boas pernas não vai a lugar algum. Isso quer dizer que não basta você ter um bom Orí ou ter sorte. A pessoa tem que pernas para poder se mover, fazer as coisas acontecerem. Nada acontece para o preguiçoso. Existem versos de Ifá sobre isso e vou publicar no próximo texto sobre Orí.

Mas tenham atenção, existe o que se chama o Ori exterior e o Ori interior. O Orí exterior é a cabeça que vemos. O Orí interior são essas virtudes e propriedades que carregamos. É no Orí interior, no Orí Inu, que reside todas as virtudes que recebemos de Olodumare, do nosso Orixá e da nossa ancestralidade.

Nós somos uma concepção física e ao mesmo tempo espiritual. Temos um corpo e uma essência. Esta essência esta concentrada no nosso corpo interior e nosso Orí inú é composto de materiais específicos, de uma parte de nosso orixá, uma parte de nossa ancestralidade, de uma parte nossa, dos nossos destinos, do nosso Odù e da centelha de Axé que Olodumare coloca na gente.

Contudo, ortodoxamente dizendo, o nosso Ori esta ligado a nossa capacidade de prosperar aqui no àiyé. No Candomblé o Orí ganha uma importancia enorme, como se fosse tudo em nossa vida, mas não é bem assim. Ori nos versos de Ifá, é o componente que descreve a nossa capacidade de ser bem sucedido na nossa vida. Essa explicação esta no Odu Ogunda Meji, na história de Afawupé, filho de Orunmila.

As nossas demais virtudes como o Ipori que é nossa ligação com a ancestralidade, o nosso orixá (Òrìṣà) e o nosso caráter, também fazem parte de nós e determinam nossa vida como um todo. Orí é importante mas não resume tudo, posso dizer que esta muito mais ligado ao axé (aṣẹ́).

O segundo significado da palavra Orí é quando nos referenciamos a nossa divindade pessoal, o nosso anjo da guarda ou guardião protetor. Os Yorùbá entendem que temos no Órun (ọ̀run) um duplo, um espirito protetor que nos protege e guia os nossos rumos. Esse espírito esta acima das demais divindades no que diz respeito a nossa vida. Nada pode ocorrer com a gente sem a permissão de nosso Orí, nem mesmo o orixá (Òrìṣà) tem superioridade a ele.

Essa divindade pessoal é nosso maior bem espiritual e é para ela que rezamos. Assim quando rezamos não estamos rezando para nossa própria cabeça, estamos rezando para o nosso guardião no Órun (ọ̀run).

O orixá é uma divindade muito importante na religião, tudo ocorre através delae, mas, no sentido pessoal é a divindade Orí, o guardião protetor que fica  no Órun (ọ̀run) que deve receber toda a nossa atenção. É ele que nos protege é ele que nos guia.

Rezando para Orí 


Como em qualquer religião os Yorùbá tem suas rezas. Elas são chamadas de igbàdúrà ou agbàdúrà. Essa é uma palavra derivada do verbo Gbàdúrà que significa rezar. O sentido é o mesmo, uma prece é um meio mecânico, através de repetição de palavras que usamos para nos conectar com o divino. Representam pedidos, agradecimentos ou simplesmente louvações.

Os Yorùbá acreditam que além desse sentido de sintonia da alma com o divino, as palavras tem poder. Devemos sempre ter cuidado com o que sai de nossa boca. As orações são encantamentos e as palavras tem o efeito de despertar e ativar energias. Dessa maneira orações devem ser faladas e não pensadas.

Pode-se rezar para Orí a qualquer hora do dia e em qualquer lugar. Orí é a nossa divindade pessoal e quem nos protege de tudo na vida e no mundo. Antes de qualquer Orixá (Òrìṣà) e acima de qualquer Orixá (Òrìṣà) esta Orí. Rezar de manhã quando se acorda é a melhor opção.

A seguir existem uma relação de rezas para Orí. Elas devem ser entendidas e decoradas, recomendo que rezem em Yorùbá, mas quem tiver extrema dificuldade que o faça como quiser. De fato, como em qualquer religião as palavras devem vir da alma e isso é o principal.

No texto a seguir, existe a linha com as palavras em Yorùbá, a fonética das palavras em português e a sua tradução. Quando uma palavra tem mais de um acento significa que deve ser usado a forma aguda em cada sílaba acentuada, ou seja pronuncie cada sílaba com a acentuação indicada. Atenção especial para alguns casos.

Quando aparece GB deve ser pronunciadas as 2 consoantes. Assim GB não é a mesma coisa de B. Por exemplo Gbo pronuncia-se diferente de Bo. Da mesma maneira o P Yorùbá é pronunciado como KP. Não existe letra muda, toda letra e sílaba deve ser pronunciada. As palavras Yorùbá geralmente são oxítonas, com silaba tônica no fim.

Rezas de Ori

Para quando acordar de manhã

Reza 1

èmi ma jí loní o
emi má jí loni ô
eu acabo de acordar hoje

mo fi orí balẹ̀ fún ọlọ́run
mo fí orí balé fun olórún
eu coloco minha cabeça no chão para ọlọ́run

orí mi dá ẹ̀mí dá àiyé
orí mi dá émí dá aiiê
meu ori me de vida de de longevidade

Ngo kú ìmọ̀
ungô kú imón
eu saldarei o conhecimento

gbogbo ire ni ti èmi
gbogbo ire ni ti êmi
todas as benção para mim

imolẹ ni ti àmakisi
imolé ni ti ámákisi
os Orixá (Òrìṣà) pertencem a àmakisi


Reza 2

Orí awo màá tọ́ ni awè
orí auô ma a to ni auê
O mistério do Orí nascerá no jejum

Orí awo màá tọ́ ni awè
orí auô ma a to ni auê
O mistério do Orí nascerá no jejum

Orí awo màá gbó ni awẹ̀
orí auô ma a gbô ni auê
O mistério do Orí amadurecerá no jejum

Orí awo màá gbó ni awẹ̀
orí auô ma a gbô ni auê
O mistério do Orí amadurecerá no jejum

Orí awo màá mọ̀ ni awè
orí auô ma a món ni auê
O mistério do Orí trará conhecimento no jejum

Orí awo màá mọ̀ ni awè
orí auô ma a món ni auê
O mistério do Orí trará conhecimento no jejum

ìbà á ṣẹ Òtúwà-kan
ibá a xé otu ua can


Reza 3

orí sán mi, orí sán mi
orí san mi, ori san mi
ori me torne melhor

orí sán igbédè, orí sán igbédè
orí san igbêdê, orí san igbêdê,
ori me torne mais inteligente

orí tánsan mi ki èmi ni owó lọwọ
orí tan san mi qui êmi ni ôuô lóuó
ori me faça brilhar e que eu tenha dinheiro nas mãos

orí tánsan mi ki èmi ni aya
orí tan san mi qui êmi ni áiá
ori me faça brilhar e que eu tenha esposa

orí tánsan mi ki èmi bímo rere
orí tan san mi qui êmi bimô rerê
ori me faça brilhar e que eu tenha bons filhos

orí tánsan mi ki èmi mọlé
orí tan san mi qui êmi mólê
ori me faça brilhar e que eu construa uma casa

orí sán mi, orí sán mi, orí sán mi
orí san mi, ori san mi
ori me torne melhor

Olúwa mi ajiki
olu ua mi ajiqui

ìwà mi a dúpẹ́
iuá mi á dukpé
meu caráter, eu agradeço


Reza 4

Orí mi yẹ́ o Já fún mi
orí mi ié o já fun mí
meu orí esteja atento lute por mim

ẹlẹ́da mi yẹ́ o! Já fún mi
élédá mi ié o já fun mí
meu criador esteja atento lute por mim


Reza 5

Bi o ba fífẹ lowó, bèèrè kan orí
bi o bá fifé louô, beere kan orí
se você quer ter dinheiro, pergunte primeiro a orí

Bi o ba fífẹ sowó, bèèrè kan orí wò fún o
bi o bá fifé xouô, beere kan ori fun ô
se você quer ter trabalho, pergunte primeiro para orí olhar para você

Bi o ba fífẹ kólé, bèèrè kan orí
bi o bá fifé colê, beere kan orí
se você quer conrtuir uma casa pergunte primeiro a ori

Bi o Ba fífẹ laya , bèèrè kan orí wò fún o
bi o bá fifé laiá, beere kan orí uô fun o
se você quer ter uma esposa, pergunte primeiro para or”i ver para você

Orí máse pẹ̀kun dé
orí máse kpé kun dê
orí não deixe de vir para cá

Lọ̀dọ̀ rẹ èmi nbọ̀
lódó ré emí unbó
é para a sua presença que eu estou indo

Wá saye mi di rere
uá xaiê mi di rerê
Venha e faça minha vida ser melhor


Retirado de ògúndá méjì

ori pẹ̀lẹ́!
Orí kpélé
 Ori!

Atètè ni rán
atete ni ran
aquele que atende rapidamente

atètè gbà mi
atete gbá mi
aquele que rapidamente me socorre

Ẹ súre fún mi níwájú àwọn Orixá (Òrìṣà)
é surê fun mi niuajú auón orixá
Você me abençoa antes de todos os Orixá (Òrìṣà)

Kò sí Orixá (Òrìṣà) le yín emi bi ori ba kó jẹ́
kô si orixá le i in emi bi ori bá kô jé
nenhum Orixá (Òrìṣà) pode me abençoar se orí não permitir.

ori pẹ̀lẹ́!
Orí kpélé

Ori!

Orí àìkú
orí aikú
ori imortal

ẹni tí orí rẹ gbà bọ rẹ ó jú yọ̀
éni ti rí ré gbá bó ré ô ju ió
aquele que o ori aceitar a a oferenda estará muito agradecido


Para lavar a cabeça

Lọwọ Ọtún awo ẹ̀gbá
lóuó ótun auô égbá
Na mão direita o adivinho de egba

Lọwọ òsì awo igbara
lóuó osi auo igbárá
Na mão esquerda o adivinho de igbara

awa máṣàì ìmọ̀
auá máxáí ímón
nós não podemos falhar em saber

bọ́ ọtún fi ọtún
bó ótun fi ótún
lavar o lado direito da cabeça com a direirta

tabi bọ́ òsì fi òsì
tábi bó osí fi osí
e lavar o lado esquerdo com a esquerda

A Difá fún Awun ni ọjọ́ ó ti lọ bọ́ orí rẹ
a difá fun au un ni ójó ô ti ló bó orí ré
Ifa foi consultado no dia que Awun foi lavar sua cabeça

lodó fún ó kó ire ọ̀pọ̀
lodô fun ô kô irê ókpó
no rio para que reunir as bençãos da fartura

Ki iwẹ́ fà wá ire owó
ki iu é fá uá irê ouô
que a limpeza traga as bem;ãos da prosperidade

Ki iwẹ́ fà wá ire ọ̀rọ̀
ki iu é fá uá irê óró
que a limpeza traga as bençãos da saúde


O sentido de “alimentar” o seu Orí 


Alimento é vida. Uma refeição é uma dádiva e uma festa. Os Yorùbá são um povo do campo, fazendeiros e dão muito valor a vida a ao alimento e a água que são tão difícil de serem obtidos. Cada povo dá valor ao que lhe é importante e caro. Para os Yorùbá, a água e o alimento são muito importantes.


Mesmo para nós, quando queremos receber bem alguém sempre fazemos isso com alimento e bebida. A religião deles e sua teologia não é artificial, não foi criada em um concílio, ela existe permeando toda a sua vida e existência, assim, os Yorùbá agradam seu deus e todos os seus ministros e representantes com alimento. Flores não são uma opção para eles, alimento sim, é seu bem maior. 

Eles comemoram a vida com alimento, dando, dividindo e compartilhando. 

De acordo com a religião Yorùbá, axé (aṣẹ́) é a força vital de Olódùmarè que existe em todos os seres. Todos possuímos axé (aṣẹ́) e é o axé (aṣẹ́) que nos move. Mas esta força é consumida. Com o tempo e em função de atividades que fazemos ela se reduz e nos desequilibramos. Naturalmente, com o próprio tempo ela será regenerada, mas enquanto estiver fraca ou em desequilíbrio nós ficamos vulneráveis.

Um bom Orí é aquele que preserva e mantêm o axé (aṣẹ́), é aquele que usa apenas o necessário sem desperdício. Um mau Orí é aquele que não conserva e acumula o axé (aṣẹ́). Infelizmente, como vamos ver no Cosmo Yorùbá, existe um fator de aleatoriedade na escolha do Ori no Órun (ọ̀run). Isso também esta explicado no Odù Ogunda Meji na história de Afawupé. Dessa maneira podemos vir com um Orí ruim e necessitamos de repor esse axé (aṣẹ́).

Contudo um bom Orí não resume uma boa pessoa. Somente pessoas que tenham um bom Orí e um bom caráter serão bem sucedidas na sua vida.

Mas mesmo para os que tem um bom Orí pode ser necessário em determinado momento alimentar o seu Orí com axé (aṣẹ́). Também por vezes é necessário melhorar o vínculo entre nós e nossa divindade Orí que esta no Órun (ọ̀run). A liturgia que realiza isso chama-se bórí (bọ́rí) palavra que é composta pelo verbo bọ́ com orí, ou seja alimentar o ori. Existe uma outra palavra Yorùbá, bórí (bôrí) que significa cobrir a cabeça. Bori, que significa alimentar o Orí.

O orí deve ser alimentado para que possa influenciar positivamente a nossa vida. O sentido é a reposição do axé, a energia vital que usamos para fazer tudo. Com o axé (àṣẹ) nós nos conectamos com o Orí divino, que esta no órun (Ọ̀run). O alimento do Orí vai então repor o axé (àṣẹ) e facilitar a comunicação e influencia do Orí no órun (Ọ̀run) com o nosso Orí no Aiyé.

O princípio que nos alimenta é o da transmutação de energia. A energia que existe dentro dos alimentos, folhas, frutos e sementes que são usados no Bori, são transmuitados em axé (àṣẹ). Não existe geração expontânea de axé. O axé existe no que existe no aiye, porque foi plantado por Olodumare. Para obtermos axé (àṣẹ) necessitamos retirar isso dos elementos que estão no aiye. 

É isso que se chama sacrificio. O sacrificio é o ato de destruir algo para o bem de outro. Sacrificio não envolve apenas seres viventes, isso é um engano, como disso sacrificio envolve uma perda em prol de um ganho. Assim folhas são sacrificadas quando são colhidas e destruídas no ato de usá-las. A castanha do Obi também é sacrificada, os grãos e materiais usados nos alimentos também o são.

Dessa forma é o sacrifício que é o ato litúrgico de destruir o material que permite obtermos o
axé (àṣẹ) que necessitamos que seja resposto.

O longo de nossa vida devemos fazer bórí (bọ́rí) muitas vezes. Algumas pessoa podem precisar disso uma vez por ano, outras em intervalo de anos, entre 2 e quatro anos.

A dificuldade disso é o maldito mercantilismo religioso do Candomblé. No Candomblé nada é de graça e pais de santo cobram pequenas fortunas para fazer algo que deveria ser obrigação deles, principalmente para as pessoas que pertencem a uma casa.

Eu, considero um absurdo os Babalorixás (pais de santo) cobrarem para os membros de uma casa como cobram para seus clientes. Eu acho um absurdo o conceito de clientela no Candomblé. Este conceito existe e não se pode negar, mas é um pejorativo para a religião.

Se quer ter acesso ao Candomblé, a religião dos orixá (Òrìṣà), então adote ela como religião. Entre para uma casa. Mas os pais de santo tratam suas casas como balcão de padaria, atendendo pessoas para jogos de búzios, ebós e Boris como se isso fosse uma coisa para ser vendida, como um pãozinho. Bom, de fato como uma picanha, uma M.Chandom....

Os pais de santo tratam seus seguidores como clientes. Na realidade eles transformam clientes em seguidores, membros da casa apenas para terem uma fonte estável de receita.

Se quer ganhar dinheiro que procure um emprego.

O Bori virou então a “obrigação” da moda, sofrendo todo o tipo de distorções. Um bori não tem que ser nada caro e nem nada exagerado, tem que ser algo que as pessoa possam fazer.


Como “alimentar” o seu Orí

 

Vou a seguir dar uma receita muito simples que pode ser feita por qualquer pessoa. Muitos podem reagir considerando uma idiotice ou marmotagem minha ensinar pessoas a alimentarem o seu Ori porque isso exige um sacerdote. Não exigie.

Sem dúvida exitem muitas liturgias que exigem um sacerdote, principalmente aquelas que requerem a manipulação de axé (aṣẹ́). A presença de uma pessoa preparada é necessária quando se tem que receber axé (aṣẹ́) transmitido por outra pessoas, ou quando se vai fazer um Ebó (Ẹbọ) de limpeza, por exemplo. O sacerdote é um “operador” qualificado para esta operação.

Contudo se você vai fazer uma oferenda ou mesmo alguns tipos de ebós pode até mesmo fazer sozinho (poucos, a maior parte exige sim um sacerdote). Nem tudo depende de ter um sacerdote.

No caso do Bori, como estamos lidando com um processo de reposição de axé (aṣẹ́) e muito íntimo de sua individualidade não vejo porque não fazê-lo.

Algumas restrições se aplicam. Isso é para ser feito por pessoas que sejam iniciadas ou que já tenham recebido Bori, de preferência que no mínimo sejam ou tenham sido abians de alguma casa. Tem que haver intimidade com os procedimentos e com o orixá (Òrìṣà).

Se você não sabe o que esta fazendo, então não faça.

Bori é Bori, mas existem algumas variações em função dos materiais que se usa. Algumas coisas pode ser feitas pela pessoa, outras não poderão ou não terão a eficácia desejada. Mas o auto procedimento é uim opção para muitos casos e pessoas.

Não faça isso em outras pessoas ou ajude outras pessoas se você não é um sacerdote qualificado para tal. Uma coisa é a própria pessoa fazer em si mesmo outra é você, despreparado participar disso.

É claro que fazer isso através de um sacerdote é muito melhor por ser uma pessoa que recebeu orientação e axé (àṣẹ) para isso, mas a religião também é para todos. Contudo de fato fazer isso requer alguma pratica e pessoas que nunca viram ou fizeram esse tipo de comida podem ter dificuldade. Infelizmente é assim mesmo.

Existem muitas pessoas que saem de casas. por diversos aborrecimentos e ficam sozinhas. Essas serão as principais interessadas em aprender a fazer isso por si só, enquanto não encontram uma casa ou alguém que possam ajudá-las.

Tudo nessa religião tem significado, assim, não ignore materiais e indicações de uso.

Material necessário:

Esteira baiana
pano de cabeça com capuz
manteiga de karité
obi de 4 gomos (rosado)
2 lençóis
coco verde
água mineral
2 bacias de ágata
ervas frescas: manjericão, elevante, saião, colônia, macaçá

Preparação:


Lave as ervas frescas, separe as folhas e quine as folhas com agua até que sobre apenas uma “massa” de folhas masseradas. Faça isso em uma bacia branca de ágata. De fato, isso requer alguma prática. Separe 4 folhas de saião inteiras e coloque em uma vasilha com água.

Deixe o banho nessa bacia por algum tempo. Depois coe todas as folhas deixando somente a água. As folhas devem ser despachadas no mato.

Separe um lugar para fazer isso que seja limpo, isolado e traquilo.

Coloque a esteira baiana e cubra com lençol branco. Coloque o Obi dentro de uma vasilha com água. Deixe ao alcance a manteiga de karité e as folhas de saião. Coloque a bacia não usada na sua frente e se ajoelhe diante dela. Reze para Ori. 

Lave primeiro a sua cabeça com água mineral. Apenas jogue a água por toda a cabeça e deixe escorrer para a bacia que fica abaixo deu sua cabeça (você esta ajoelhado, em cima da esteira com o bacia a sua frente, abaixo de sua cabeça.).

Abra o coco verde e faça a mesma coisa, deixe a água do coco escorrer por toda a cabeça lavando-a. Por fim derrame o banho de ervas vagarosamente, escorrendo o banho com as mãos e lavando toda a cabeça. Use a reza de lavar a cabeça, reze ela enquanto faz isso.

Espere a água escorrer toda, limpe o excesso em seu rosto e pescoço com uma toalha, mas não enxugue sua cabeça. 

Abra o obi de 4 gomos, separando todos os gomos. Retire o “olho” que fica nos gomos. Pegue a manteiga de Karité e faça um montinho em cima sua cabeça. Afaste o cabelo e coloque ela em contato com o couro cabeludo. Coloque os gomos do Obi em cima da manteiga, um gomo em cada lado. Cubra isso tudo com a 4 folhas de saião e coloque o pano de cabeça com capuz por cima disso tudo tampando a sua cabeça. Prenda o pano de cabeça (isso também requer alguma pratica....).

Observe, você deve fazer isso sozinho.

Durma na esteira (pode usar um travesseiro) por pelo menos 3 horas mas recomendo passar toda a noite. Quando levantar retire o pano com tudo o que esta na sua cabeça. Esse material deve ser despachado em uma mata limpa, ou em um lago limpo, nunca jogue na rua ou no lixo.

Pode tomar banho normal lavando a cabeça. Não tome sol na cabeça até o meio dia. Na noite que fizer isso você não sai de casa.

Observem que este é o procedimento mais simplificado possível. Somente faça quem se sentir à vontade para isso. É claro que quem sabe e tem pratica consegue fazer com facilidade e um sacerdote faz isso com mais complexidade, adicionando comidas para o Orí.
Mas eu apenas quis mostrar que não precisa ser complicado, por ser simples.