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segunda-feira, abril 29, 2013

Teologia Yorùbá

O Cosmo Yoruba - Parte 6


Olódùmarè – A divindade suprema Yorùbá

 

Olódùmarè é o nome da divindade suprema Yorùbá. Não existe gênero definido para Olódùmarè, ele é deus. Assim, nos referimos a ele como a divindade suprema ou como o deus supremo.

Como o deus supremo, ele foi o responsável por criar tudo o que existe e é quem mantêm o Órun (ọ̀run) e o Àiyé funcionando. O poder ordenador das coisas naturais e supernaturais esta nas suas mãos. Ele é o senhor absoluto do Órun (ọ̀run).


Anteriormente no trecho do verso do Odù Óxé Otua (Ọ̀ṣẹ́-Otùwá) ficou demonstrado que Olódùmarè enviou os orixá (Òrìṣà) para o Àiyé para nos suportar. No trecho a seguir, também retirado desse verso confiável, o mundo perde seu controle, a prosperidade desaparece e os orixá (Òrìṣà) são incapazes de resolver, tendo que recorrer a Olódùmarè para que este reestabeleça o funcionamento do Àiyé.


Sobreveio uma seca na terra.
Tudo estava seco!
Não havia orvalho!
Fazia três anos que tinha chovido pela última vez.
O mundo entrou em decadência.
Foi então que eles voltaram a consultar Ifá,
Ifá àjàlàiyé”.
Quando Órunmilá (Ọ̀rúnmìlà) consultou Ifá àjàlàiyé disse que deveriam fazer uma oferenda, um sacrifício, e preparar a oferenda de maneira que chegasse a Olódúmarè,
para que Olódúmarè pudesse ter piedade da terra
e se ocupasse dela para eles.
Porque Olódúmarè não se ocupava mais da terra.
Se isso continuasse a destruição seria inevitável;
era iminente.
Somente se pudessem fazer a oferenda,
Olódúmarè teria sempre misericórdia deles.
Ele se lembraria deles e zelaria pelo mundo.
Foi assim que prepararam a oferenda.
Eles colocaram:
uma cabra,
uma ovelha,
um cachorro e uma galinha,
um pombo,
uma preá,
um peixe,
um ser humano, e
um touro selvagem,
um pássaro da floresta,
um pássaro da savana,
um animal doméstico.
Todas as oferendas,
e ainda dezesseis pequenas quartinhas cheias de azeite de dendê
que eles juntaram nesse dia.
E ovos de galinha, e
dezesseis pedaços de pano branco puro.
Prepararam as oferendas apropriadas usando folhas de Ifá,
que toda oferenda deve conter.
Fizeram um grande carrego com todas as coisas.
Disseram então, que o próprio Èjì-Ogbè deveria levar essa oferenda a Olódúmarè.
Este trecho foi retirado do livro “Olodumare – God in Yorùbá belief” do Abolaji Idowu.

Na continuação do verso, todos falham em conseguir ir até Olódùmarè, eles encontram os portões do Órun (ọ̀run) fechados para eles. Somente Oxé tua (Ọ̀ṣẹ́tùwá) após consultar Ifá e com a ajuda de Exú (Èṣù) e de Ajé consegue ser bem sucedido em entregar a oferenda a Olódùmarè.


...Quando chegaram lá,
as portas já se encontravam abertas;
encontraram as portas abertas. Quando levaram a oferenda a Olódùmarè e Ele (Olódùmarè) a examinou,
Olódùmarè disse: "Haaa!
Você viu qual foi o último dia que choveu na terra?!
Eu me pergunto se o mundo não foi completamente destruído.
Que pode ser encontrado lá?"
Oxé tua (Ọ̀ṣẹ́tùwá) não podia nem abrir a boca para dizer qualquer coisa.
Olódùmarè lhe deu alguns "feixes" de chuva.
Reuniu, como outrora, as coisas de valor do Órun (ọ̀run),
todas as coisas necessárias para a sobrevivência do mundo, e deu-lhes.
Disse que ele, Oxé tua (Ọ̀ṣẹ́tùwá), deveria retornar...
Este trecho foi retirado do livro “Olodumare – God in Yorùbá belief” do Abolaji Idowu.

A prosperidade no mundo retornou após isso. Fica claro que Olódùmarè exercia acima de todas as demais divindades o controle sobre o mundo. As divindades eram impotentes sozinhas para trazer a prosperidade para o mundo natural e também as divindades não tinham acesso direto a Olódùmarè, somente Exú (Èṣù) tem esse acesso e neste verso Oxé tua (Ọ̀ṣẹ́tùwá).


A narrativa a seguir, também é encontrada no livro de Idowu. Segundo ele existe nos versos do Odù Ìròsùn Osó, mostra os orixás tentando obter o controle do mundo das mãos de Olódùmarè e falhando.


É uma narrativa muito interessante, mas, não tenho certeza de ter encontrado em outro autor além de Idowu. Creio que já vi, mas, nesse momento a obra de Idowu é a única fonte que posso citar.


“... Olódùmarè controla as estações e é claro os eventos. Ele é dessa forma o senhor do dia, isto é, cada dia deve sua existência a ele.
Ele é supremo sobre tudo no sentido absoluto...
... Ìròsùn Osó diz como as divindades – 1.700 fortes – uma vez conspiraram contra Olódùmarè. O assunto da disputa dizia respeito ao aspecto absoluto de sua autoridade e controle sobre tudo.
Eles cobiçaram seu status e questionaram seus direitos de tê-los.
Assim eles foram até ele, Olódùmarè, e solicitaram que ele deveria se afastar de sua alta posição.
Ele deveria em um primeiro momento, se afastar por 16 anos enquanto que eles, as divindade, teriam total e completo controle sobre o Àiyé e todos os seus assuntos.
Olódùmarè sabiam que eles eram tolos, mas concordou com a proposta deles.
Mas, disse que primeiro eles deveriam passar por um período de teste de 16 dias. Se fossem bem sucedidos eles ficariam com 16 anos de controle, como queriam. Todos concordaram.
Saíram da presença de Olódùmarè satisfeitos e foram se incumbir de suas novas responsabilidades. Tão logo eles deixaram a sua presença Olódùmarè desligou todos os seus mecanismos de controle e deixou o mundo natural na responsabilidade das divindades, assim como elas haviam solicitados.
Passados 8 dias, as divindades se deram conta da sua incapacidade. Tudo aquilo que eles tinham feito não dava certo. A chuva não caia, os rios secaram, as colheitas não brotavam, as folhas morriam.
Órunmilá (Ọ̀rúnmìlà) foi consultado mas seu oráculo parou de responder.
A terra toda estava indo sucumbir.
Não restou nada às divindades que não fosse retornar a Olódùmarè e confessar a ele sua estupidez, reconhecendo sua força superior sobre tudo.
As divindades então cantaram:
Existem 1.400 divindade de casa
existem 1.200 divindades do mercado
contudo não existe uma divindade que se compare com Olódùmarè
Olódùmarè é o rei absoluto
Na nossa recente disputa
Èdùmarè foi quem venceu
sim, Èdùmàrè
... Nos versos de Odù, existem muitos dizeres que suportam essa afirmação, aqui esta um existente em Ìròsùn Òsá:
Ao senhor do Ori deve ser dada sua responsabilidade
Esta é a designação do oraculo para as 1.700 divindades
as quais devem render tributos anuais a Olódùmarè.”
Este trecho foi retirado do livro “Olodumare – God in Yorùbá belief” do Abolaji Idowu.

A narrativa deixa bem claro a capacidade suprema de Olódùmarè em controlar o mundo natural e sua supremacia sobre as demais divindades. Isso me leva a concluir que o modelo teogônico que se confirma é o de Olódùmarè ser uma divindade suprema e gênese da existência, ao invés de ser apenas uma divindade dominadora.


Alguns podem estranhar o motivo desse esforço em afirmar e demonstrar isso, mas, existem em alguns meios o questionamento deste modelo. O objetivo deste texto não é acadêmico e não me interessa aqui ficar explorando e contradizendo as demais teses. O modelo que esta sendo descrito aqui é um modelo consistente e que tem referências como bases, não são somente ilações.

Alguns podem gostar ou não das fontes ou gostar ou não das ideias, assim como também podemos gostar ou não das ideias dessas pessoas. Mas a construção coerente do cosmo Yorùbá é feita com os elementos que eu estou explicando e isso tudo se fecha completamente quando falamos do homem e das questão do destino e Orí.



A SEGUIR:  CONTINUAÇÃO DA DIVINDADE SUPREMA

segunda-feira, abril 22, 2013

Ori o nosso Guardião




O que é Orí?


O objetivo deste texto não é esgotar o assunto de Orí. Este é um conceito muito importante na religião Yorùbá e será abordado na sequencia sobre o Cosmo Yorùbá,  porque é impossível falar sobre a religião e não falar sobre Orí. Não é nada complicado ou misterioso, mas, não tem sentido façar de Ori sem você primeiro entender o cosmo.

Mas, não tenho dúvida que, mesmo sem eu me alongar aqui, este texto, que é uma revisão estendida de um texto já publicado, já será muito maior do que esse lixo de meia dúzia de linhas que é publicado por ai.

Infelizmente, este texto, será um pouco hermético para muitos neófitos que estejam acompanhando as publicações, apesar do esforço que fiz aqui para simplificar. Para aquelas pessoas que já sejam da religião e sem dúvida já ouviram falar de Orí vai ficar bem mais fácil.

Como muitas palavras Yorùbá esta, Orí, também tem mais de um significado e uso e isso, as vezes, torna complexa a sua explicação.

Ori é usado para se referenciar a 2 coisas principais. A primeira é a nossa cabeça. Cabeça é Ori. Os Yorùbá entendem que a cabeça é uma parte importante do corpo e nela reside aspectos marcantes de nossa vida. Nossa consciência esta na nossa cabeça bem como componentes adicionais e auxiliares também estão. A cabeça é o repositório de nossa axé (aṣẹ́), da ligação com o nosso orixá (Òrìṣà) e da ligação com nosso passado e ancestralidade.

Todo o nosso corpo é importante. Tem um ditado que diz que uma pessoa sem boas pernas não vai a lugar algum. Isso quer dizer que não basta você ter um bom Orí ou ter sorte. A pessoa tem que pernas para poder se mover, fazer as coisas acontecerem. Nada acontece para o preguiçoso. Existem versos de Ifá sobre isso e vou publicar no próximo texto sobre Orí.

Mas tenham atenção, existe o que se chama o Ori exterior e o Ori interior. O Orí exterior é a cabeça que vemos. O Orí interior são essas virtudes e propriedades que carregamos. É no Orí interior, no Orí Inu, que reside todas as virtudes que recebemos de Olodumare, do nosso Orixá e da nossa ancestralidade.

Nós somos uma concepção física e ao mesmo tempo espiritual. Temos um corpo e uma essência. Esta essência esta concentrada no nosso corpo interior e nosso Orí inú é composto de materiais específicos, de uma parte de nosso orixá, uma parte de nossa ancestralidade, de uma parte nossa, dos nossos destinos, do nosso Odù e da centelha de Axé que Olodumare coloca na gente.

Contudo, ortodoxamente dizendo, o nosso Ori esta ligado a nossa capacidade de prosperar aqui no àiyé. No Candomblé o Orí ganha uma importancia enorme, como se fosse tudo em nossa vida, mas não é bem assim. Ori nos versos de Ifá, é o componente que descreve a nossa capacidade de ser bem sucedido na nossa vida. Essa explicação esta no Odu Ogunda Meji, na história de Afawupé, filho de Orunmila.

As nossas demais virtudes como o Ipori que é nossa ligação com a ancestralidade, o nosso orixá (Òrìṣà) e o nosso caráter, também fazem parte de nós e determinam nossa vida como um todo. Orí é importante mas não resume tudo, posso dizer que esta muito mais ligado ao axé (aṣẹ́).

O segundo significado da palavra Orí é quando nos referenciamos a nossa divindade pessoal, o nosso anjo da guarda ou guardião protetor. Os Yorùbá entendem que temos no Órun (ọ̀run) um duplo, um espirito protetor que nos protege e guia os nossos rumos. Esse espírito esta acima das demais divindades no que diz respeito a nossa vida. Nada pode ocorrer com a gente sem a permissão de nosso Orí, nem mesmo o orixá (Òrìṣà) tem superioridade a ele.

Essa divindade pessoal é nosso maior bem espiritual e é para ela que rezamos. Assim quando rezamos não estamos rezando para nossa própria cabeça, estamos rezando para o nosso guardião no Órun (ọ̀run).

O orixá é uma divindade muito importante na religião, tudo ocorre através delae, mas, no sentido pessoal é a divindade Orí, o guardião protetor que fica  no Órun (ọ̀run) que deve receber toda a nossa atenção. É ele que nos protege é ele que nos guia.

Rezando para Orí 


Como em qualquer religião os Yorùbá tem suas rezas. Elas são chamadas de igbàdúrà ou agbàdúrà. Essa é uma palavra derivada do verbo Gbàdúrà que significa rezar. O sentido é o mesmo, uma prece é um meio mecânico, através de repetição de palavras que usamos para nos conectar com o divino. Representam pedidos, agradecimentos ou simplesmente louvações.

Os Yorùbá acreditam que além desse sentido de sintonia da alma com o divino, as palavras tem poder. Devemos sempre ter cuidado com o que sai de nossa boca. As orações são encantamentos e as palavras tem o efeito de despertar e ativar energias. Dessa maneira orações devem ser faladas e não pensadas.

Pode-se rezar para Orí a qualquer hora do dia e em qualquer lugar. Orí é a nossa divindade pessoal e quem nos protege de tudo na vida e no mundo. Antes de qualquer Orixá (Òrìṣà) e acima de qualquer Orixá (Òrìṣà) esta Orí. Rezar de manhã quando se acorda é a melhor opção.

A seguir existem uma relação de rezas para Orí. Elas devem ser entendidas e decoradas, recomendo que rezem em Yorùbá, mas quem tiver extrema dificuldade que o faça como quiser. De fato, como em qualquer religião as palavras devem vir da alma e isso é o principal.

No texto a seguir, existe a linha com as palavras em Yorùbá, a fonética das palavras em português e a sua tradução. Quando uma palavra tem mais de um acento significa que deve ser usado a forma aguda em cada sílaba acentuada, ou seja pronuncie cada sílaba com a acentuação indicada. Atenção especial para alguns casos.

Quando aparece GB deve ser pronunciadas as 2 consoantes. Assim GB não é a mesma coisa de B. Por exemplo Gbo pronuncia-se diferente de Bo. Da mesma maneira o P Yorùbá é pronunciado como KP. Não existe letra muda, toda letra e sílaba deve ser pronunciada. As palavras Yorùbá geralmente são oxítonas, com silaba tônica no fim.

Rezas de Ori

Para quando acordar de manhã

Reza 1

èmi ma jí loní o
emi má jí loni ô
eu acabo de acordar hoje

mo fi orí balẹ̀ fún ọlọ́run
mo fí orí balé fun olórún
eu coloco minha cabeça no chão para ọlọ́run

orí mi dá ẹ̀mí dá àiyé
orí mi dá émí dá aiiê
meu ori me de vida de de longevidade

Ngo kú ìmọ̀
ungô kú imón
eu saldarei o conhecimento

gbogbo ire ni ti èmi
gbogbo ire ni ti êmi
todas as benção para mim

imolẹ ni ti àmakisi
imolé ni ti ámákisi
os Orixá (Òrìṣà) pertencem a àmakisi


Reza 2

Orí awo màá tọ́ ni awè
orí auô ma a to ni auê
O mistério do Orí nascerá no jejum

Orí awo màá tọ́ ni awè
orí auô ma a to ni auê
O mistério do Orí nascerá no jejum

Orí awo màá gbó ni awẹ̀
orí auô ma a gbô ni auê
O mistério do Orí amadurecerá no jejum

Orí awo màá gbó ni awẹ̀
orí auô ma a gbô ni auê
O mistério do Orí amadurecerá no jejum

Orí awo màá mọ̀ ni awè
orí auô ma a món ni auê
O mistério do Orí trará conhecimento no jejum

Orí awo màá mọ̀ ni awè
orí auô ma a món ni auê
O mistério do Orí trará conhecimento no jejum

ìbà á ṣẹ Òtúwà-kan
ibá a xé otu ua can


Reza 3

orí sán mi, orí sán mi
orí san mi, ori san mi
ori me torne melhor

orí sán igbédè, orí sán igbédè
orí san igbêdê, orí san igbêdê,
ori me torne mais inteligente

orí tánsan mi ki èmi ni owó lọwọ
orí tan san mi qui êmi ni ôuô lóuó
ori me faça brilhar e que eu tenha dinheiro nas mãos

orí tánsan mi ki èmi ni aya
orí tan san mi qui êmi ni áiá
ori me faça brilhar e que eu tenha esposa

orí tánsan mi ki èmi bímo rere
orí tan san mi qui êmi bimô rerê
ori me faça brilhar e que eu tenha bons filhos

orí tánsan mi ki èmi mọlé
orí tan san mi qui êmi mólê
ori me faça brilhar e que eu construa uma casa

orí sán mi, orí sán mi, orí sán mi
orí san mi, ori san mi
ori me torne melhor

Olúwa mi ajiki
olu ua mi ajiqui

ìwà mi a dúpẹ́
iuá mi á dukpé
meu caráter, eu agradeço


Reza 4

Orí mi yẹ́ o Já fún mi
orí mi ié o já fun mí
meu orí esteja atento lute por mim

ẹlẹ́da mi yẹ́ o! Já fún mi
élédá mi ié o já fun mí
meu criador esteja atento lute por mim


Reza 5

Bi o ba fífẹ lowó, bèèrè kan orí
bi o bá fifé louô, beere kan orí
se você quer ter dinheiro, pergunte primeiro a orí

Bi o ba fífẹ sowó, bèèrè kan orí wò fún o
bi o bá fifé xouô, beere kan ori fun ô
se você quer ter trabalho, pergunte primeiro para orí olhar para você

Bi o ba fífẹ kólé, bèèrè kan orí
bi o bá fifé colê, beere kan orí
se você quer conrtuir uma casa pergunte primeiro a ori

Bi o Ba fífẹ laya , bèèrè kan orí wò fún o
bi o bá fifé laiá, beere kan orí uô fun o
se você quer ter uma esposa, pergunte primeiro para or”i ver para você

Orí máse pẹ̀kun dé
orí máse kpé kun dê
orí não deixe de vir para cá

Lọ̀dọ̀ rẹ èmi nbọ̀
lódó ré emí unbó
é para a sua presença que eu estou indo

Wá saye mi di rere
uá xaiê mi di rerê
Venha e faça minha vida ser melhor


Retirado de ògúndá méjì

ori pẹ̀lẹ́!
Orí kpélé
 Ori!

Atètè ni rán
atete ni ran
aquele que atende rapidamente

atètè gbà mi
atete gbá mi
aquele que rapidamente me socorre

Ẹ súre fún mi níwájú àwọn Orixá (Òrìṣà)
é surê fun mi niuajú auón orixá
Você me abençoa antes de todos os Orixá (Òrìṣà)

Kò sí Orixá (Òrìṣà) le yín emi bi ori ba kó jẹ́
kô si orixá le i in emi bi ori bá kô jé
nenhum Orixá (Òrìṣà) pode me abençoar se orí não permitir.

ori pẹ̀lẹ́!
Orí kpélé

Ori!

Orí àìkú
orí aikú
ori imortal

ẹni tí orí rẹ gbà bọ rẹ ó jú yọ̀
éni ti rí ré gbá bó ré ô ju ió
aquele que o ori aceitar a a oferenda estará muito agradecido


Para lavar a cabeça

Lọwọ Ọtún awo ẹ̀gbá
lóuó ótun auô égbá
Na mão direita o adivinho de egba

Lọwọ òsì awo igbara
lóuó osi auo igbárá
Na mão esquerda o adivinho de igbara

awa máṣàì ìmọ̀
auá máxáí ímón
nós não podemos falhar em saber

bọ́ ọtún fi ọtún
bó ótun fi ótún
lavar o lado direito da cabeça com a direirta

tabi bọ́ òsì fi òsì
tábi bó osí fi osí
e lavar o lado esquerdo com a esquerda

A Difá fún Awun ni ọjọ́ ó ti lọ bọ́ orí rẹ
a difá fun au un ni ójó ô ti ló bó orí ré
Ifa foi consultado no dia que Awun foi lavar sua cabeça

lodó fún ó kó ire ọ̀pọ̀
lodô fun ô kô irê ókpó
no rio para que reunir as bençãos da fartura

Ki iwẹ́ fà wá ire owó
ki iu é fá uá irê ouô
que a limpeza traga as bem;ãos da prosperidade

Ki iwẹ́ fà wá ire ọ̀rọ̀
ki iu é fá uá irê óró
que a limpeza traga as bençãos da saúde


O sentido de “alimentar” o seu Orí 


Alimento é vida. Uma refeição é uma dádiva e uma festa. Os Yorùbá são um povo do campo, fazendeiros e dão muito valor a vida a ao alimento e a água que são tão difícil de serem obtidos. Cada povo dá valor ao que lhe é importante e caro. Para os Yorùbá, a água e o alimento são muito importantes.


Mesmo para nós, quando queremos receber bem alguém sempre fazemos isso com alimento e bebida. A religião deles e sua teologia não é artificial, não foi criada em um concílio, ela existe permeando toda a sua vida e existência, assim, os Yorùbá agradam seu deus e todos os seus ministros e representantes com alimento. Flores não são uma opção para eles, alimento sim, é seu bem maior. 

Eles comemoram a vida com alimento, dando, dividindo e compartilhando. 

De acordo com a religião Yorùbá, axé (aṣẹ́) é a força vital de Olódùmarè que existe em todos os seres. Todos possuímos axé (aṣẹ́) e é o axé (aṣẹ́) que nos move. Mas esta força é consumida. Com o tempo e em função de atividades que fazemos ela se reduz e nos desequilibramos. Naturalmente, com o próprio tempo ela será regenerada, mas enquanto estiver fraca ou em desequilíbrio nós ficamos vulneráveis.

Um bom Orí é aquele que preserva e mantêm o axé (aṣẹ́), é aquele que usa apenas o necessário sem desperdício. Um mau Orí é aquele que não conserva e acumula o axé (aṣẹ́). Infelizmente, como vamos ver no Cosmo Yorùbá, existe um fator de aleatoriedade na escolha do Ori no Órun (ọ̀run). Isso também esta explicado no Odù Ogunda Meji na história de Afawupé. Dessa maneira podemos vir com um Orí ruim e necessitamos de repor esse axé (aṣẹ́).

Contudo um bom Orí não resume uma boa pessoa. Somente pessoas que tenham um bom Orí e um bom caráter serão bem sucedidas na sua vida.

Mas mesmo para os que tem um bom Orí pode ser necessário em determinado momento alimentar o seu Orí com axé (aṣẹ́). Também por vezes é necessário melhorar o vínculo entre nós e nossa divindade Orí que esta no Órun (ọ̀run). A liturgia que realiza isso chama-se bórí (bọ́rí) palavra que é composta pelo verbo bọ́ com orí, ou seja alimentar o ori. Existe uma outra palavra Yorùbá, bórí (bôrí) que significa cobrir a cabeça. Bori, que significa alimentar o Orí.

O orí deve ser alimentado para que possa influenciar positivamente a nossa vida. O sentido é a reposição do axé, a energia vital que usamos para fazer tudo. Com o axé (àṣẹ) nós nos conectamos com o Orí divino, que esta no órun (Ọ̀run). O alimento do Orí vai então repor o axé (àṣẹ) e facilitar a comunicação e influencia do Orí no órun (Ọ̀run) com o nosso Orí no Aiyé.

O princípio que nos alimenta é o da transmutação de energia. A energia que existe dentro dos alimentos, folhas, frutos e sementes que são usados no Bori, são transmuitados em axé (àṣẹ). Não existe geração expontânea de axé. O axé existe no que existe no aiye, porque foi plantado por Olodumare. Para obtermos axé (àṣẹ) necessitamos retirar isso dos elementos que estão no aiye. 

É isso que se chama sacrificio. O sacrificio é o ato de destruir algo para o bem de outro. Sacrificio não envolve apenas seres viventes, isso é um engano, como disso sacrificio envolve uma perda em prol de um ganho. Assim folhas são sacrificadas quando são colhidas e destruídas no ato de usá-las. A castanha do Obi também é sacrificada, os grãos e materiais usados nos alimentos também o são.

Dessa forma é o sacrifício que é o ato litúrgico de destruir o material que permite obtermos o
axé (àṣẹ) que necessitamos que seja resposto.

O longo de nossa vida devemos fazer bórí (bọ́rí) muitas vezes. Algumas pessoa podem precisar disso uma vez por ano, outras em intervalo de anos, entre 2 e quatro anos.

A dificuldade disso é o maldito mercantilismo religioso do Candomblé. No Candomblé nada é de graça e pais de santo cobram pequenas fortunas para fazer algo que deveria ser obrigação deles, principalmente para as pessoas que pertencem a uma casa.

Eu, considero um absurdo os Babalorixás (pais de santo) cobrarem para os membros de uma casa como cobram para seus clientes. Eu acho um absurdo o conceito de clientela no Candomblé. Este conceito existe e não se pode negar, mas é um pejorativo para a religião.

Se quer ter acesso ao Candomblé, a religião dos orixá (Òrìṣà), então adote ela como religião. Entre para uma casa. Mas os pais de santo tratam suas casas como balcão de padaria, atendendo pessoas para jogos de búzios, ebós e Boris como se isso fosse uma coisa para ser vendida, como um pãozinho. Bom, de fato como uma picanha, uma M.Chandom....

Os pais de santo tratam seus seguidores como clientes. Na realidade eles transformam clientes em seguidores, membros da casa apenas para terem uma fonte estável de receita.

Se quer ganhar dinheiro que procure um emprego.

O Bori virou então a “obrigação” da moda, sofrendo todo o tipo de distorções. Um bori não tem que ser nada caro e nem nada exagerado, tem que ser algo que as pessoa possam fazer.


Como “alimentar” o seu Orí

 

Vou a seguir dar uma receita muito simples que pode ser feita por qualquer pessoa. Muitos podem reagir considerando uma idiotice ou marmotagem minha ensinar pessoas a alimentarem o seu Ori porque isso exige um sacerdote. Não exigie.

Sem dúvida exitem muitas liturgias que exigem um sacerdote, principalmente aquelas que requerem a manipulação de axé (aṣẹ́). A presença de uma pessoa preparada é necessária quando se tem que receber axé (aṣẹ́) transmitido por outra pessoas, ou quando se vai fazer um Ebó (Ẹbọ) de limpeza, por exemplo. O sacerdote é um “operador” qualificado para esta operação.

Contudo se você vai fazer uma oferenda ou mesmo alguns tipos de ebós pode até mesmo fazer sozinho (poucos, a maior parte exige sim um sacerdote). Nem tudo depende de ter um sacerdote.

No caso do Bori, como estamos lidando com um processo de reposição de axé (aṣẹ́) e muito íntimo de sua individualidade não vejo porque não fazê-lo.

Algumas restrições se aplicam. Isso é para ser feito por pessoas que sejam iniciadas ou que já tenham recebido Bori, de preferência que no mínimo sejam ou tenham sido abians de alguma casa. Tem que haver intimidade com os procedimentos e com o orixá (Òrìṣà).

Se você não sabe o que esta fazendo, então não faça.

Bori é Bori, mas existem algumas variações em função dos materiais que se usa. Algumas coisas pode ser feitas pela pessoa, outras não poderão ou não terão a eficácia desejada. Mas o auto procedimento é uim opção para muitos casos e pessoas.

Não faça isso em outras pessoas ou ajude outras pessoas se você não é um sacerdote qualificado para tal. Uma coisa é a própria pessoa fazer em si mesmo outra é você, despreparado participar disso.

É claro que fazer isso através de um sacerdote é muito melhor por ser uma pessoa que recebeu orientação e axé (àṣẹ) para isso, mas a religião também é para todos. Contudo de fato fazer isso requer alguma pratica e pessoas que nunca viram ou fizeram esse tipo de comida podem ter dificuldade. Infelizmente é assim mesmo.

Existem muitas pessoas que saem de casas. por diversos aborrecimentos e ficam sozinhas. Essas serão as principais interessadas em aprender a fazer isso por si só, enquanto não encontram uma casa ou alguém que possam ajudá-las.

Tudo nessa religião tem significado, assim, não ignore materiais e indicações de uso.

Material necessário:

Esteira baiana
pano de cabeça com capuz
manteiga de karité
obi de 4 gomos (rosado)
2 lençóis
coco verde
água mineral
2 bacias de ágata
ervas frescas: manjericão, elevante, saião, colônia, macaçá

Preparação:


Lave as ervas frescas, separe as folhas e quine as folhas com agua até que sobre apenas uma “massa” de folhas masseradas. Faça isso em uma bacia branca de ágata. De fato, isso requer alguma prática. Separe 4 folhas de saião inteiras e coloque em uma vasilha com água.

Deixe o banho nessa bacia por algum tempo. Depois coe todas as folhas deixando somente a água. As folhas devem ser despachadas no mato.

Separe um lugar para fazer isso que seja limpo, isolado e traquilo.

Coloque a esteira baiana e cubra com lençol branco. Coloque o Obi dentro de uma vasilha com água. Deixe ao alcance a manteiga de karité e as folhas de saião. Coloque a bacia não usada na sua frente e se ajoelhe diante dela. Reze para Ori. 

Lave primeiro a sua cabeça com água mineral. Apenas jogue a água por toda a cabeça e deixe escorrer para a bacia que fica abaixo deu sua cabeça (você esta ajoelhado, em cima da esteira com o bacia a sua frente, abaixo de sua cabeça.).

Abra o coco verde e faça a mesma coisa, deixe a água do coco escorrer por toda a cabeça lavando-a. Por fim derrame o banho de ervas vagarosamente, escorrendo o banho com as mãos e lavando toda a cabeça. Use a reza de lavar a cabeça, reze ela enquanto faz isso.

Espere a água escorrer toda, limpe o excesso em seu rosto e pescoço com uma toalha, mas não enxugue sua cabeça. 

Abra o obi de 4 gomos, separando todos os gomos. Retire o “olho” que fica nos gomos. Pegue a manteiga de Karité e faça um montinho em cima sua cabeça. Afaste o cabelo e coloque ela em contato com o couro cabeludo. Coloque os gomos do Obi em cima da manteiga, um gomo em cada lado. Cubra isso tudo com a 4 folhas de saião e coloque o pano de cabeça com capuz por cima disso tudo tampando a sua cabeça. Prenda o pano de cabeça (isso também requer alguma pratica....).

Observe, você deve fazer isso sozinho.

Durma na esteira (pode usar um travesseiro) por pelo menos 3 horas mas recomendo passar toda a noite. Quando levantar retire o pano com tudo o que esta na sua cabeça. Esse material deve ser despachado em uma mata limpa, ou em um lago limpo, nunca jogue na rua ou no lixo.

Pode tomar banho normal lavando a cabeça. Não tome sol na cabeça até o meio dia. Na noite que fizer isso você não sai de casa.

Observem que este é o procedimento mais simplificado possível. Somente faça quem se sentir à vontade para isso. É claro que quem sabe e tem pratica consegue fazer com facilidade e um sacerdote faz isso com mais complexidade, adicionando comidas para o Orí.
Mas eu apenas quis mostrar que não precisa ser complicado, por ser simples.

domingo, abril 21, 2013

Teologia Yorùbá

O Cosmo Yoruba - Parte 5



A gênese Yorùbá


Eu estava decidido a não falar sobre a gênese Yorùbá neste trabalho. Na minha opinião é apenas uma história e pouco ou nada contribuiu para entender a religião. Esse assunto fica mais no campo da necessidade de existir um mito religioso que explique a criação do mundo, principalmente porque este é o primeiro livro da bíblia cristã. Assim todo mundo também tem que ter o seu “Gênesis”.

Os Yorùbá tem sua gênese. A gênese Yorùbá se inicia no momento em que Olódùmarè decide criar o Àiyé, o mundo natural, e para isso designa as suas divindades para esta tarefa.

“...o Àiyé existia e era uma enorme massa de água e matéria pantanosa, nada vivia neste lugar.

O que levou Olódùmarè a criar o Àiyé ninguém sabe, apenas é dito que ele teve a motivação de fazê-lo e colocou em execução.

Olódùmarè chamou Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá), uma das mais importantes divindades Yorùbá, à sua presença e o encarregou da tarefa, dando para ele os materiais que ia necessitar. Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá) recebeu uma bolsa de terra solta (alguns dizem que foi uma concha de caramujo), uma galinha de 5 dedos e um pombo.

Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá) foi para o limite entre o Órun (ọ̀run) e Àiyé e jogou a terra do saco sobre a água. Logo a seguir mandou a galinha de 5 dedos e o pombo que imediatamente começaram o seu trabalho de espalhar a terra por todo o Àiyé.

Isto foi feito até que uma grande porção da água fora coberta pela terra. Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá), então, voltou a Olódùmarè dizendo que já tinha concluído o seu trabalho.

Olódùmarè enviou o camaleão, que é um animal conhecido por ser muito cuidado e delicado na forma como se move e encontra caminhos. O camaleão neste primeira visita relatou que apesar de uma grande porção de terra já estar espalhada e uma superfície razoável estar coberta, que a terra ainda não era seca e segura o bastante para ser habitada.

Algum tempo depois foi feita uma segunda visita e o camaleão constatou que a área de terra era grande o bastante e já estava seca o bastante para ser usada.

O lugar sagrado por onde foi iniciado o trabalho de espalhar a terra pelo mundo foi chamado de Ifé (Ìfẹ̀), palavra que significa, aquilo que é amplo. De acordo com a tradição Yorùbá neste lugar foi fundada a cidade de Ile ifé (Ilé-Ifẹ́) , a cidade sagrada Yorùbá, o lugar onde o mundo começou e o lar de todos os habitantes.

Ainda hoje quando um estrangeiro chega em Ile ifé (Ilé-Ifẹ́) na Nigéria ele pode ser recebido com a saudação “bem vindo de volta a sua casa”, porque todos os seres humanos foram criados e iniciaram a população da terra à partir de Ile ifé (Ilé-Ifẹ́).

Olódùmarè colocou na nova terra a arvore do dendezeiro (Igi ọ̀pẹ) que daria sombra, bebida, óleo e nozes para comer. Outras árvores também foram plantadas para serem utilitárias para os novos habitantes. A Galinha e o pombo que foram usados para espalhar a terra deveriam agora espalhar as arvores que dariam subsistência aos futuros habitantes.

Os primeiros habitantes da terra teriam a água vinda do coco, uma palmeira, para matarem sua sede. Contudo essa água não se mostrou suficiente e Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá) apelou para Olódùmarè por uma solução. Olódùmarè criou então a chuva que passou a cair sobre toda a terra.

Após isso Olódùmarè necessitava habitar o Àiyé e para isso os habitantes do Órun (ọ̀run) teriam que ter um corpo para poderem viver no novo mundo. Mais uma vez Olódùmarè pediu que Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá) ficasse encarregado de confeccionar o corpo das pessoas, a partir de barro.


“... Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá) foi designado também para uma outro trabalho especial. Ele seria o criador dos corpos dos homens para o futuro. Não é claro pela tradição oral quando esse trabalho foi iniciado, contudo, ele aceitou a tarefa.

Sua atribuição foi desde então moldar o físico dos homens a partir da terra da própria terra, do seu barro.

Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá) se tornou o escultor divino, mas, o direito de dar vida aos corpos criados era reservado exclusivamente a Olódùmarè.

A instrução dada a Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá) era que ele deveria preparar os corpos e deixá-los em uma sala preparada por Olódùmarè e deixar o lugar. Olódùmarè iria para lá e daria o sopro da vida para cada pessoa, completando a criação do homem.

Ao dar o sopro da vida Olódùmarè reserva para ele e somente ele, a capacidade de criar a vida e transmitir o seu axé (aṣẹ́) para cada ser humano. Cada ser humano recebe assim a partícula de vida vinda de Olódùmarè, seu axé (aṣẹ́) e suas virtudes divinas pessoais.
A história conta, ainda, que Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá) ficou com inveja de Olódùmarè e queria ele mesmo ser quem dava vida às pessoas.
Ele preparou um plano para espionar Olódùmarè. Uma vez completada a forma que ele devia dar aos habitantes do àiyé, ele se escondeu em um canto esperando a chegada de Olódùmarè. Olódùmarè, contudo, percebeu isso e colocou Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá) em sono profundo. Quando acordou o trabalho já estava feito. Desde então Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá) se contentou com a parte do trabalho que lhe cabe.”

Este texto for retirado do livro “Olodumare – God in Yorùbá belief” de Abolaji Idowu.

Junto com essa história alguns comentários são pertinentes antes de continuarmos. O primeiro diz respeito a prerrogativa que Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá) tem de fazer as formas humanas como ele quer. O nascimento de albinos , corcundas e alijados fazem parte de sua prerrogativa. Assim ele define cores marcas, etc... Alguns mitos sugerem que ele seja um beberrão e que quando bebe faz essas formas não normais.

Esse é um mito vulgar, mas, como toda metáfora serve apenas para indicar que esses desvios que ocorrem são feitos pelo próprio Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá) e que ele pode fazê-lo. Os Yorùbá designam como pertencentes a Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá) as pessoas que assim nascem.
Outra diz respeito ao envolvimento da divindade da morte Ikú, que é masculina. Quando Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá) foi criar as formas do àiyé ele solicitou que pegasse o barro para isso, conforme instrução de Olódùmarè que os corpos fosse feitos da terra do próprio àiyé. Vários emissários foram enviados mas quando chegavam no àiyé, a terra chorava dizendo que não fosse tirado nenhuma parte dela.

Aquilo comovia todos os enviados e ninguém pode trazer a terra para fazer o barro. Ikú se prontificou a ir e pegou terra necessária, prometendo devolver o que fora tirado. Dessa maneira cabe a Ikú , a morte, devolver a terra o corpo de todas as pessoas restaurando assim o que Ikú tira para estes corpos serem feitos. O costume Yorùbá é que os corpos seja enterrados diretamente na terra para que a terra possa pegar de volta o que lhe foi tirado.
 

Este é o que chamo de um mito estrutural que, através de uma história cria uma visão metafórica que explica os fatos e fenômenos do àiyé. Existem muitos mitos e versos desta natureza, com a finalidade de estruturar a metáfora da religião sobre a vida.
 

Sobre a história da gênese existe uma variação muito conhecida e usada aqui no Candomblé. Nesta versão Odùduwà, uma outra divindade, assume a criação do mundo.
Nesse mito Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá) muito arrogante não se prepara para a tarefa. Já Odùduwà, consulta Ifá e faz um Ebó (Ẹbọ) preparatório.

No meio do caminho Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá), Exú (èṣù) faz ele ficar com sede e Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá) fura com seu cajado o troco do dendezeiro, de onde sai uma bebida, o vinho de palma, com o qual ele não só mata sua sede como se embebeda desmaiando ao pé da palmeira e não mais acordando.

Oduduwa então volta e relata a Olódùmarè o que ocorreu. Esse então dá para ele a bolsa da criação e pede que ele oduduwa crie o mundo. O resto do mito é igual mas com Oduduwa no lugar de Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá).

Como premio de consolação Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá) fica com a criação do corpo das pessoas.

Mas, quem foi Odùduwà?


Neste assunto o mito religioso se mistura com o mito histórico. Odùduwà foi um histórico e poderoso líder do povo Yorùbá. Ele migrou de sua terra original, provavelmente no Egito e se estabeleceu nas terras Yorùbá, em Ile-Ìfẹ̀. Ele se estabeleceu em Ìfẹ̀ com seus seguidores e estabeleceu uma proeminente dinastia Yorùbá.

Segundo Idowu, Odùduwà se estabeleceu em um lugar onde já existia um líder local chamado Ọrẹ̀lúéré. Odùduwà se estabeleceu sem prestar qualquer respeito a ele e Ọrẹ̀lúéré preparou um ardil. Ele envenenou um dos filhos de Odùduwà e este teve que chamar Ọrẹ̀lúéré para ajudá-lo, porque Ọrẹ̀lúéré era tido como um excelente médico.

Odùduwà teve que se submeter temporariamente a Ọrẹ̀lúéré para ver seu filho curado e se colocou também sob a proteção de Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá) que era a divindade do local. Os recursos de Odùduwà eram muito superiores, mas, seu estabelecimento não foi feito sem uma fraca oposição dos que já habitavam lá.

A sociedade ògboní foi provavelmente instituida neste período, como uma oposição a Odùduwà, pelas pessoas que já habitam aquelas terras, para poderem preservar seus valores e costumes.

Mas Odùduwà se tornou muito grande e conquistou a terra de Ọrẹ̀lúéré e muitas terras em volta. Quando morreu passou a ser cultuado como um ancestre e depois um divindade. O nome Odùduwà não pertencia ao homem e sim uma divindade cujo culto foi trazido por ele. 


O conflito entre Ọrẹ̀lúéré e Odùduwà, virou o conflito entre Odùduwà e Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá), sendo que o primeiro venceu o segundo e se tornou o governante e dono da terra. Com o passar das gerações a história deste conflito se transformou em um mito religioso no qual Odùduwà se torna o criador do mundo. O mito original Yorùbá ficou assim modificado para acomodar questões políticas e históricas.

Segundo Idowu, essa segunda versão não é a gênese original. Surgiu pela necessidade de acomodar a figura de Oduduwa, que se tornou orixá (Òrìṣà) e patrono na nação em Ilé Ìfẹ̀.
Na raiz desta história esta o fato de Odùduwà ser cultuado como uma divindade masculina ou feminina dependendo da região Yorùbá onde se esteja. Quando masculina a referência é ao homem, o conquistador e patrono da nação. Quando feminina a divindade trazida por essas pessoas.

No caso do Candomblé essa distinção pouco importa, Odùduwà não é tratado como uma divindade do dia a dia. Existe e é conhecido apenas na referencia teológica. O Lukumi cubano trata Odùduwà como uma divindade comum, mas o faz de uma forma completamente errada, baseada em erros bibliográficos, conforme Verger explicou,

No livro “Orun Aiye” de Jose Beniste existe uma descrição muito boa, bem mais extensa que esta que dei, sobre a história desses 2 mitos. O livro em português deve ser lido por aqueles que querem entender a religião e não vou transcrever aqui nenhum trecho. Não há necessidade. O meu objetivo era explicar a base da gênese Yorùbá e não tenho como deixar de explicar os 2 mitos conflitantes.

Mas a gênese Yorùbá não pode se restringir a apenas essa pequena história da criação do mundo. O próximo texto é retirado no corpo literário de Ifá do capítulo referente ao Odù Oxé Otuwa. Nestes versos, Olódùmarè envia os orixá (Òrìṣà) para o Àiyé com a missão de cuidar dos homens e ensiná-los as bases do culto para que eles possam cultuar suas divindades.


“...quando Olódùmarè enviou os Orixá (Òrìṣà),
os dezesseis primeiros, ao mundo,
para que viessem criar e estabelecer a vida na terra.
E vieram verdadeiramente nessa época.
As coisas que Olódùmarè lhes ensinou
nos espaços do Órun (ọ̀run) constituíram os pilares de fundação
que sustentam a terra para a existência de todos
dos seres humanos e de todos os Ebora (ẹbọra).
Olódùmarè lhes ensinou que
quando alcançassem a terra,
deveriam abrir uma clareira na floresta, consagrando-a
a Orò, o Igbò orò.
Deveriam abrir uma clareira na floresta, consagrando-a
a Eégún, o Igbó-Eégún que seria chamado Igbó-Opa (Igbó-Ọ̀pá).
Disse ele que deveriam abrir uma clareira
na floresta consagrando-a a Odù-ifá, o Igbó Odù,
onde iriam consultar o oráculo a respeito das pessoas.
Disse ele que deveriam abrir um caminho para os Orixá (Òrìṣà)
e chamar esse lugar igbó Orixá (Òrìṣà), floresta para adorar os Orixá (Òrìṣà).
Olódúmarè lhes ensinou a maneira como deveriam resolver
os problemas de fundação (assentamento) e adoração dos ójubo (ọjúbo) (lugares de adoração)
e como fariam as oferendas
para que não houvesse morte prematura,
nem esterilidade, nem infecundidade,
que não houvesse perda,
nem vida paupérrima, não houvesse nada
de tudo isso sobre a terra.
Para que as doenças sem razão
não lhes sobreviessem,
que nenhuma maldição caísse sobre eles,
que a destruição e a desgraça não se abatessem sobre eles.
Olódùmarè ensinou aos dezesseis Orixá (Òrìṣà) o que eles deveriam realizar
para evitar todas essas coisas.
Ele os delegou e enviou à terra,
a fim de executarem tudo isso...”.

Este importante texto pode ser encontrado, também com pequenas variações de versões em diversos autores. Igualmente não permite contestação de sua validade. Esta versão foi a retirada do livro “Os nago e a Morte” de Juana Elbein.

A religião Yorùbá tem como um elemento muito importante o culto a várias divindades e este culto pode ser devido a regionalidades ou também por aspectos teológicos funcionais com divindades exercendo algum papel importante na vida das pessoas. Mas, sempre, o poder organizacional e ordenador emana da divindade suprema.


A SEGUIR:  OLODUMARE - A DIVINDADE SUPREMA YORUBA

sexta-feira, abril 19, 2013

Teologia Yorùbá

O Cosmo Yoruba - Parte 4




A cultura oral

Para justificar essas afirmações que faço, transcrevo a seguir 2 trechos do corpo literário de Ifá. O primeiro é parte do mito da criação a gênese Yorùbá no qual Olódùmarè cria o mundo e dá para os orixá (Òrìṣà) a missão de criar o mundo físico e torná-lo habitável pelos seres vivos.

Para os que não sabem, a religião é baseada em uma cultura oral que foi de alguma forma preservada entre das dezenas de gerações e recentemente (seculo XIX e XX) documentada de forma a ser preservada. Cultura oral significa que o conhecimento era passado de pessoa a pessoa, de forma oral, e guardado na memória das pessoas. O povo Yorùbá perdeu um degrau importante em sua evolução, que foi a falta de um sistema de escrita.

Este processo oral possibilita que coisas sejam esquecidas (perdidas) ou que variações, intencionais ou não, surjam em histórias e mitos.

Não existe mito registrado que explique a origem de tudo. Em algum momento, Olódùmarè decidiu criar o Àiyé, mas, a existência perene dele, Olódùmarè mesmo e do próprio Órun (ọ̀run) não são referenciados. Contudo devemos lembrar que religião não é história e qualquer tentativa de estruturar a existência de tudo através dela é inútil.

 
Religião é uma referência de fé na existência humana baseado em valores humanos elevados e voltada para formar pessoas melhores. Todo o modelo religioso é um modelo metafísico e suas histórias são metáforas da existência real, voltadas para transmitir para as pessoas o que se espera delas.Dentro deste contexto de cultura oral, a qual teve tardiamente documentada em escritos o seu conhecimento e tradições, temos que ser cuidadosos com o que ouvimos e lemos. O cuidado deve-se à facilidade neste ambiente de nos depararmos com histórias inventadas (que não fazem parte da tradição histórica); histórias que foram modificadas intencionalmente ou casualmente; histórias de contexto restrito a uma região.
 
Em função disso temos que, sempre que possível, validar a história ou informação usando fontes distintas. As vezes não é possível obter duas fontes autenticamente distintas que registram ou transmitem a mesma história em diferentes versões. Nesse caso temos que usar o bom senso para avaliar se aquela história esta no formato adequado e dentro do contexto de outras que se conhece.
 
Discutir as fontes de informação, ou melhor, questioná-las tem sido uma diversão recorrente de novos autores que acham que eles são os confiáveis e tornam os anteriores não confiáveis. Apesar dessa crítica ter sido útil em um momento, principalmente em função da qualidade de alguns dos primeiros autores, mais recentemente tem sido apenas um trabalho de autoafirmação e destruição, que serve apenas aos críticas no sentido de estabelecer suas teses como verdadeiras.
 
Eu já perdi a conta de livros sobre a religião Yorùbá nos quais o autor começa com a mesma historinha de que os anteriores não compreendiam o que os nativos falavam. Começou a perder a graça quando eles passaram a falar deles mesmos, nativos, usando os mesmos argumentos.
 
A documentação escrita da cultura, história e religião Yorùbá é bem recente, data do século 19. Os primeiros autores se enquadravam nas seguintes categorias: exploradores e viajantes; missionários cristãos e antropologistas.
 
Nas 2 primeiras categorias os relatos muitas vezes incluíam ilações que transmitiam um desconhecimento do povo e cultura. Muitos casos eram apenas preconceito. No segundo grupo havia comumente o preconceito e a sua motivação profissional de desvalorizar a cultura do povo, principalmente a religião, para impor a sua.
 
Por fim o terceiro grupo nem sempre presou pela ética e probidade científica, assim, apesar de sua maior capacidade de descrever o que viam, muitas associações eram inadequadas e falta de aprofundamento com o povo que avaliavam produziu desvios. Pierre Verger se dedicou bastante ao trabalho de mapear os autores e obras de modo a desconstruir uma imagem negativa do povo e da religião.
 
Esses esclarecimentos são necessários para que entendam em um aspecto a forma como as teses sobre este assunto serão colocadas neste texto. Junto com afirmações, tenho também que mostrar alguma evidência de fontes confiáveis.
 
Em outro aspecto, quem lê sobre esta religião deve ficar atento ao fato de que muita gente escreve ou transcreve material ruim e pouco confiável, invenções que o bom senso mostram que não tem credibilidade ou que são apenas a visão de uma fonte única. Eu mesmo tenho o cuidado de não usar algumas fontes que até me são simpáticas, mas que não pude validar aquele entendimento.

Enfim essa tradição oral acabou gerando alguns problemas para a religião. Ao ler esse texto você deve esquecer um pouco as diversas versões e histórias qie já lei ou ouviu sobre a mesma coisa. Faz de conta que é a primeira vez. O volume de coisa inventada e errada é muito grande.



A SEGUIR:  A GÊNESE YORUBA...  (antes do feriado...)

Oops... problemas técnicos

Problemas na banda larga de minha casa geraram um atraso nas postagens. Continuo com o Cosmo Yoruba, e vou também inserir outras postagens para aqueles que não podem estar não se interessando por esta abordagem teológica da religião.

quinta-feira, abril 11, 2013

Teologia Yorùbá

O Cosmo Yoruba - Parte 3

Erros de terminologia

A religião Yorùbá tem sido rotulada erroneamente de diversas formas. Eu quis iniciar afirmando inicialmente a questão de politeísmo e paganismo, porque, sem dúvida, é talvez a mais importante consideração, mas existem outros erros de terminologia que são usados. Eu vou desconsiderar perder o nosso tempo falando de fetichismo.

Idolatria

Esta e outras religiões não cristãs (sempre isso...) são pejorativamente rotuladas de idólatras ou idolatrias. Essa afirmação, sem dúvida, é feita em função do próprio tratamento que a religião judaica da a esta questão dos ídolos como uma expressão negativa. Uma das mais importantes passagens do livro Judeu descreve Moises quebrando a tábua dos 10 mandamentos porque os Judeus haviam se voltado para o cultos a seus antigos deuses com, Ídolos.

Ídolo é uma palavra que tem origem no grego eidõlon. É usada para significar a representação entre a não existência e a realidade, uma imagem copiada da coisa real, uma sombra da real existência. Literalmente a palavra é aplicada para formas, imagens ou fantasmas. Uma imagem na mente, uma ideia, um espectro ou fantasma do que é real.
Sem dúvida nenhuma, a palavra significa a representação no mundo real de uma coisa que não existe, que não é real e que é real apenas na mente humana.


O maior problemas com o emprego dessas terminologias é o uso das palavras sem se ater ao seu significado original. James Bisset Pratt, um ateu, autor de alguns livros de referência sobre religião, assume que qualquer religião que faça uso visual, material de objetos na sua cultura é uma idólatra, ou, ainda, o que uso intenso disso é idolatria.


Acredito que esta opinião influenciou muita gente.


Se formos nos ater a esta definição, de J.B.Pratt, todas as religiões são idólatras e a Católica, uma das maiores correntes da religião Abraâmica será completamente Idólatra, talvez a mais idólatra de todas. Além da parte risível dessa consideração, podemos usar o bom senso e questionar se, a palavra “idolatria” pode ser aplicada para descrever toda uma religião.


A maior parte das religiões que fazem uso de “ídolos” (objetos e imagens), apenas utilizam como uma referência para demarcar um espaço sacro. A presença de símbolos da religião, quaisquer que sejam, de imagens a figuras, em um local comum, para o crente torna aquele lugar diferente do lugar mundano, separa o espaço sacro do secular.


As imagens, símbolos e gravuras ou ídolos, como devemos também chamar, são um elemento na ritualística da pessoa se desligar do mundano e entrar no seu mundo sacro. Assim junto com velas, incensos, essências, rezas e mantras, vão compor a ritualística que permite a pessoa transpor da realidade para a transcendência.


Não podemos, jamais, afirmar que, hoje em dia, que pessoas ao se prostrarem ante seus símbolos estejam supondo que o sagrado, o divino esteja naquelas imagens e objetos. Uma coisa é você rezar para o divino na frente de uma imagem outra é você rezar para aquela imagem.


Nesta parte do texto ainda é um pouco prematuro, mas, acreditem que, independente da forma como vamos tratar o nosso entendimento sobre ídolos, que a religião Yorùbá não tem qualquer intimidade com qualquer definição de idolatria. Ídolos não fazem parte da religião, normalmente, quando existem, são objetos de decoração de espaços comuns. Se o objetivo fosse comparar, poderíamos dizer que, com certeza, a religião católica é Idólatra e a Yorùbá não o é, porque na primeira os ídolos são parte importante e primária do espaço sacro e na segunda isso nem existe.


Animismo


Certamente esta será a classificação mais comum de ser atribuída à religião Yorùbá. Por especialistas e não especialistas, mas, vamos seguir o mesmo caminho entendendo primeiro o que é Animismo.

Edward B. Tylor popularizou este termo, Animismo. No seu livro Culturas Primitivas Vol. I e II ele define animismo como a doutrina de almas e outros seres espirituais em geral. As palavras de Tylor são:


A teoria do animismo é dividida em dois grandes dogmas, formando partes de uma doutrina consistente. Primeiro, em relação a alma de criaturas individuais, capazes de uma existência continuada depois da morte, ou seja, destruição do corpo. Segundo em relação a outros espíritos que avançam para a posição de divindades poderosas, não ligadas as pessoas, mas, tendo uma existência distinta.... assim animismo em sua forma plena, inclui a crença em almas em um estado futuro, em divindades controladoras e espíritos subordinados.


Tylor também relaciona sonhos e visões ao animismo, como uma forma de a alma se separar do corpo, além de outras almas que podem visitar o seu corpo. A experiência de morte ou o pós-morte também ocupa as suas atenções.


O trabalho de Tylor é muito interessante, mas segundo destaca Idwou, as pessoas devem ler o trabalho inteiro, os 2 volumes de sua obra e não apenas o primeiro volume. 


Isso porque ao fim se entende que Tylor após fazer uma completa abordagem de evolução do animismo, sustenta que o animismo é um fator que esta presente em toda a religião, em toda as culturas e em qualquer nível de desenvolvimento. Ele fala do animismo dos selvagens e do animismo dos homens civilizados.


Uma das coisas mais instigantes do trabalho dele é a tese implícita do homem inventando a religião a partir de um estágio totalmente animista. Tylor não deixa claro se ele considera que o homem inventou a religião ou se as divindades existem no seu sentido absoluto antes dos homens as descobri-las. Ele sustenta que o antropormofismo é um fator predominante no animismo, no qual, inevitavelmente o homem deve pensar no todo e esta é a diferença entre as várias culturas, a medida e o nível do antropomorfismo.


O trabalho de Tylor, tomado por muitos como o patrono desta ideia, explica então que o animismo não esta limitado a uma cultura ou religião. Toda cultura e religião tem a presença do animismo em algum grau.


Em sua obra ele explica que a doutrina de almas da nascimento a doutrinas maiores onde os espíritos assumem proporções mais importantes e elevadas, deixando o escopo das pessoas para assumir um papel no mundo e nas forças naturais e ascendendo a existência de uma divindade suprema. Os espíritos passam do estágio de controlar pessoas ao de controlar a natureza e a vida a e fortuna do homem.


O politeísmo é, ou foi um estágio desse processo, assim como a busca pela unificação do divino levou a religiões monoteísta e Henoteístas como a prevalência da divindade suprema. Como citei ele não se posiciona se deus foi uma criação do homem ou o resultado da sua própria evolução e reconhecimento do divino.


Isso tudo é muito interessante, mas, em relação a religião Yorùbá, como outras religiões reencarnacionistas e que acreditam a presença do divina entre as pessoas através de seus médiuns, ele tem elementos animistas. Contudo, como definiu Tylor, animismo não pode ser aplicado unicamente para definir esta religião. A religião Yorùbá, como outras evoluiu para o conceito de uma divindade suprema e outras de nível intermediário.


Entre nós, a Umbanda, sem dúvida reúne as características de uma religião animista, visto que a sua prática pode ser apoiada em qualquer dogma religioso, seja com uma aproximação com o Yorùbá, como também o católico ou correntes orientais. O trabalho em si do culto esta baseado nos espíritos e a teologia religiosa é portável.


A SEGUIR:  A CULTURA ORAL

segunda-feira, abril 08, 2013

Teologia Yorùbá

O Cosmo Yoruba - Parte 2

O modelo teogônico


Para falarmos de uma religião iniciamos no topo da pirâmide. E neste topo esta Olódùmarè a divindade suprema Yorùbá. Esta divindade exerce a supremacia sobre todo o cosmo Yorùbá. Ela criou o cosmo, tudo dela se originou e ela controla o funcionamento das coisas naturais.

Essas afirmações que faço são fartamente documentadas em mitos e versos de Ifá, alguns deles serão transcritos aqui.

Todas as demais divindades se originam de Olódùmarè, sendo emanações do seu poder. Elas recebem de Olódùmarè o seu poder divino, seu axé (aṣẹ́). Não existe divindade que compartilhe com Olódùmarè o seu poder e supremacia.

Não existe na religião Yorùbá um verso ou mito (vamos entender mais à frente a importância deste tipo de referência) que descreva Olódùmarè criando os orixá (Òrìṣà) e as demais divindades. A gênese descreve a criação do Àiyé, o Órun (ọ̀run) fica à margem dessa gênese. O domínio de Olódùmarè sobre o Órun (ọ̀run) e a criação deste por ele é uma ilação baseada nas características do poder supremo de Olódùmarè.

Esta estrutura inicialmente descrita já coloca a religião Yorùbá distante da classificação de uma religião politeísta. Ela não é politeísta.

Em termos de definição, para uma religião ser politeísta, segundo Paul Tillich (Systematic Theology, Vol. I):

Politeísmo é um conceito qualitativo e não quantitativo. Não é uma crença em uma pluralidade de divindades e sim a falta de uma instância unificadora e transcendente é que determina a sua característica.

Não importa a quantidade de divindades e sim a qualidade delas e de sua relação. Em uma religião politeísta não existe uma divindade superior as demais, todas tem o mesmo poder e não existe assim uma força reguladora do conjunto.

A religião Yorùbá, assim como muitas outras religiões, não é politeísta porque existe uma relação bem clara de hierarquia entre Olódùmarè e as demais divindades. Possuir muitas divindades, originais ou divinizadas não transforma uma religião em politeísta, senão, o catolicismo com seus santos e sua trindade divina também seriam, mas ninguém ousa dizer isso.

A religião Yorùbá é Henoteísta. Esta classificação cobre as religiões que creem em muitas divindades mas somente uma delas é a divindade suprema. Esta classificação é apenas um detalhe, visto que esta definição, Henoteísta, é bastante flexível para que, dependendo dos olhos de quem avalia, até mesmo religiões consideradas politeístas poderiam de alguma forma também serem Henoteísta.

Assim, o nome da classificação não interessa. Duas coisas importam. A primeira coisa importante é saber que existe uma divindade suprema e que a hierarquia dela sobre as demais esta muito acima da força ou do respeito ou da liderança, trata-se de gênese e poder. A qualidade desta relação é que nos permite classificar como uma religião não Politeísta.

Discutir o que leva ou levou as pessoas a classificar esta religião de politeísta não passa apenas por uma questão técnica como estou resumindo até aqui. Existem causas mais profundas.

Uma das coisas que complicou bastante o entendimento das pessoas a cerca das religiões foi a hegemonia do modelo cristão no ocidente, com a extinção de outras religiões, não pela supremacia de um modelo teológico mais confortável para as pessoas e sim pela perseguição da espada.

Para tornar as coisas mais complicadas, como parte deste processo e emburrecimento, a igreja católica criou uma denominação genérica e sem nenhum significado real, de PAGÃO, para qualquer outra religião que não fosse Abraâmica, ou seja, que tivesse origem em Abraão o patriarca que gerou as correntes do Judaísmo, cristianismo e islamismo.

Estas 3 religiões competem pela posse do mesmo deus e tem a mesma origem. Os Judeus não reconhecem mais ninguém, afinal eles é que são os escolhidos. Os cristãos, que nasceram judeus, reconhecem uma das partes do judaísmo que é o antigo testamento e por fim, os muçulmanos, os mais recentes, século VII, reconhecem tudo das anteriores, inclusive Jesus, mas não a trindade católica.

Dessa maneira ao longos dos últimos séculos, eles tem se matado e a outros inocentes, sempre em nome do mesmo deus sanguinolento, Jeová.

Para os Cristão, que dominaram o mundo à força da espada, aliás como também o fizeram os judeus no seu tempo, o que não era católico era Pagão. Eles só não tiveram coragem de chamar os Judeus de Pagãos, mas criaram o termo herético, para aqueles que divergissem da interpretação teológica oficial de Roma... Assim, pagão, não tem significado religioso, significa tudo o que não e católico.

Os abraâmicos consideram o seu deus, Jeová, o único, e defenestram qualquer outro tipo de manifestação religiosa. A partir do século XV a igreja católica baniu toda as praticas que mostrassem similaridades com simpatias, encantamentos e feitiços. A igreja medieval era totalmente esotérica, mas para se afastar disso eles baniram completamente essas práticas, de modo a poderem a partir do século XV dominar os seus fiéis através do temor ao mal, ao diabo e a perseguição ao pecado.

Estudiosos do aspecto do Mal na religião correlacionam o surgimento da força do diabo com a necessidade de um controle mais rigoroso da sociedade pela forma política, uma vez que, esse temor (ao diabo) e domínio (o pecado), não existiam anteriormente. Igualmente isso coincidiu com os papas generais, guerreiros que literalmente com a espada na mão construíram a Igreja que conhecemos hoje.

O próprio celibato, que não havia, dizem, foi devido a igreja passar a ter posses. Eles não queriam se envolver em disputas judiciais com esposas de padres, bispos e papas. Enfim, a força da reforma, de Lutero e Calvino, obrigou a igreja a mudar sua posição e adotar políticas mais ativas e restritivas ao seu clero.

No centro de todo este conflito ficaram outras religiões, politeístas ou não, que tinham uma interpretação diferente da divindade e dos seus poderes e de outras que não eram politeístas, mas, não eram abraâmicas. Essas religiões, todas em um mesmo saco, passaram a ser então a tradução da palavra paganismo.

Segundo Idowu, em seu livro African Traditional Religion, “... Paganismo, é provavelmente o mais antigo dos nomes adotados para descrever a religião dos então chamados primitivos ou incivilizados povos do mundo. Esta palavra tem origem no Latin – Pagnus – e significa originalmente habitantes de vilas ou homens do campo, uma pessoa que vive fora da comunidade civilizada. Dessa forma, originalmente, a palavra er um termo sociológico, um marco para distinguir entre o iluminado, o civilizado e o sofisticado, de uma via, e o rústico, não sofisticado e bruto por outra.”

Pesquisas em dicionários vão mostrar como comum o significado de não ser cristão, aquilo que não é judeu, católico ou muçulmano. De fato estaremos ligando esses 2 significados, o de não ser cristão com o de ser associado a povos primitivos, rústicos e selvagens.

Teologicamente falando, Pagão é apenas um pejorativo. Não designa nada e não traduz nada. Significa apenas o antônimo de algo bom.

Igualmente classificar todas as demais religiões, que não as abraâmicas de politeístas segue a mesma lógica. Os judeus na sua origem brigavam com sua origem na crença de outros deuses, alguns zoomórficos, herdados de Egípcios e de outros povos. A adoção de Jeová, através de abraão é considerado um ponto de evolução dos Judeus e sua distinção dos demais povos, lembrando que os demais povos, que não eram Judeus, eram tratados como “gentios”.

A igreja, usando o princípio, que já expliquei, da estupidez humana, simplificou bastante a forma de entender as religiões. O que não era monoteísta era politeísta, e mais, somente estes 2 modelos se aplicam a uma religião. Além disso, como as religiões não são iguais e apresentam variações sutis no seu divino, basicamente as únicas religiões monoteístas existentes são as abraâmicas, as três que tem origem no mesmo deus. Neste critério de classificação todas as demais são politeístas, pagans e por isso mesmo atrasadas.

No ponto de vista católico, Pagão é sinônimo de ruim, atrasado, politeísta e monoteísta é sinônimo de bom, de puro, de elevado.

Essa simplificação teológica foi ótima. Se encaixou nos objetivos políticos do papado e na estupidez das pessoas.

Uma questão que pode confundir até mesmo especialistas é a classificação da religião Yorùbá como uma religião Animista.



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