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terça-feira, novembro 16, 2010

Assentamento de Odù no Candomblé

Existe uma pratica já antiga de se fazer o assentamento de um odu. Faz-se isso, normalmente, com o Odù Obara que é associado com prosperidade pelo Candomblé, assim entendendo que a lógica seja que, ao se assentar um odu, estará se atraindo prosperidade para sua vida.

Seguindo a lógica de que o problema não são os errados e sim os silenciosos eu trago esse assunto para comentários.

Me inscrevi em uma lista de e-mails que promete revelar, diariamente, fundamentos se Candomblé e em um dos últimos veio isso sobre esse assentamento:

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Um Assentamento só pode ser feito através de um de um ritual, o qual envolve uma grande variedade de materiais: folhas, rezas, animais...Tudo ligado ao fenômeno da natureza que se quer Assentar, ou seja: tudo ligado ao Orixá que se quer assentar.

O Orixá, vendo e gostando daquilo que está sendo feito no ritual, vai se aproximando e tomando "vida". Ficando aquele assentamento(que representa o "corpo" do Orixá), impregnado com a sua essência.

Portanto, assentar um Orixá é dominar um fenômeno da natureza: para que nos traga benefícios, através dos presentes que lhe são ofertados; para que nos traga, vida longa, prosperidade, felicidade, filhos, vitórias...
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O que não esta correto nisso?

Todo mundo tem direito a sua opinião. Em primeiro lugar eu gostaria de informar a todos que odù é uma energia transitória, uma resposta que Orunmila nos envia através do oráculo e que traz em si o diagnóstico do problema e também sua solução.

Odù não é um Orixá, não é uma divindade, é uma resposta de Olodumare, através de Orunmila aos nossos problemas. Odù não é o problema ou o mal que a pessoa tem. Odù é o remédio para o problema que você tem. Assim se você vai no médico e te receitam um anti-térmico, é porque tem febre. O anti-térmico não é o seu problema, ele não causa a febre, ele resolve o que você tem, a febre.

É claro que, com um pouco de prática, observando uma receita, podemos deduzir com algumas perguntas adicionais qual a doença que a pessoa tem. A perguntas adicionais são devido ao fato que muitas vezes um remédio serve para mais de um mal.

Assim é Odù, sempre é a solução e não o problema que você tem. Odù é a  resposta de Olodumare.


O Candomblé é muito centrado em Orixá. Muita gente substituiu o conhecimento teológico ou teogônico da religião por associar tudo a Orixá. Foi uma simplificação, assim como também os Orixás foram sendo simplificados. Mas nem tudo é Orixá e nem tudo pode ser tornado equivalente a Orixá.

Da mesma forma como não se toma remédio sem ter doença, Olodumare não dá um Odù para quem não tem nada e não se chama um Odù como se chama um Orixá, veja são coisas diferentes.

As divindades nesta religião são os Orixás. É a eles que rezamos, agradecemos e pedimos. São eles os representantes de Olodumare. Odù não é divindade é uma resposta energética, axé que Olodumare nos envia.
 
(mais informações sobre como eu defino como odù em

Assim eu não vejo sentido em buscar isso através de um assentamento.

A vinda de Ifá trouxe muita luz sobre a questão de Odù, sobre o culto e o oráculo. Foi possível entender que tudo ou quase tudo que se dizia sobre esses assuntos era pura besteira. É equivalente ao que Verger fez, quando foi na África e trouxe verdade ao monte de bobagens que eram ditas e publicadas no Candomblé. Verger foi lá, viu o que era verdade e trouxe isso para cá.

Isso foi uma revolução. Eu lamento apenas que os Cubanos não tenham tido o Verger deles.

A vinda de Ifá fez o mesmo. O tema de Ifá no Brasil era e ainda é dominado por um monte de sandices.

Odù não é Orixá e não deve ser tratado como Orixá. E uma energia e é invocado por um Babalawo e por rezas. Ele é transitório, é uma energia de resposta a um problema. Se é transitório, se é uma energia de resposta não existe razão para você tratar de forma equivalente como trata um Orixá.
 
Um igba ou assentamento é um elemento de ligação entre o orun e o aiye, um elemento que liga partes que já existem e estão conectadas.

O Igba é sempre uma representação no aiye de alguma coisa que existe no Orun.

Você se liga com orixás e divindades que você já tenha. O assentamento é um elemento de amplificação dessa ligação através da representação aqui do elemento do Orun.

(mais informações sobre como eu defino como igbá em

No Candomblé quando montamos um assentamento estamos ligando coisas que já estão conectadas entre si ou que serão conectadas através de cerimônias de iniciação ou de sacralização.

Um Odù não é uma divindade. Ele não existe perene e não tem vinculo com ninguém é uma energia transitória, enviada, e no fundo representa um desequilíbrio. Quando algo vai mal o odù mostra qual é esse desequilíbrio e o nosso trabalho é re-estabelecer o equilíbrio. Assim assentar um Odù é tratar um odù como algo que ele não é. Não é assentando isso que vamos trazer prosperidade, se fosse assim, todo mundo no Candomblé era rico, o que não é verdade. Pode ser então que os Candomblecistas tenham feito voto de probreza e só clientes podem ter esses potes mágicos.

O Candomblé entende muito bem de Orixá mas as pessoas não podem tratar todo os assuntos da mesma forma. Os caras acham que o que funciona para uma coisa funciona para outra, ou então como eles sabem fazer as coisas daquela forma, tudo tem que ser feito igual.

Você não vai invocar um Odù porque esta colocando 6 coisas de cada tipo. Alguém acha que fica alguém la no Orun olhando para cá e quando vê que colocaram 6 ao invés de 8 ou 9 estão invocando Obará?  Não seja tolo. Mas é assim que os caras que vendem isso fazem, não riscam nenhum odu ou rezam. Apenas contam a quantidade de coisas que colocam.

O importante na vida é equilíbrio. O Odù é um instrumento de estabelecer o equilíbrio.

Não podemos trazer um desequilíbrio para nossa vida. Em Ifá a gente é muito cuidado com odù, não riscamos, não falamos, não rezamos sem sentido. Somente se ele sai em uma consulta ou se vai ser usada em um ebó ele será invocado. Um odu pode nos influenciar de forma positiva ou negativa não existe odù só positivo ou só negativo.

Por fim, nesse texto bobo, algumas ideias de verdade me deixam aborrecido, como ligar fenômeno da natureza a orixá e ao que fazemos. Quer dizer que vamos “dominar” um fenômeno da natureza? Olha acho que os pais de santo vão ficar milionários controlando furacões, incêndios, inundações. Mas, também pode ser linchados quando as pessoas acharem que são nossa divindade que estão provocando catástrofes.

(mais informações sobre o que penso sobre essa associação idiota de orixá e elemento na natureza em

http://blog.orunmila-ifa.com.br/2012/12/serao-os-orixa-orisa-elementos-da.html

Além disso ele fala de Odù e depois diz que é o orixá no assentamento, enfim, isso é uma bobagem só. Fazer assento de odù já é ruim, querer explicar com essa inteligência toda vira uma obra de arte.

Não seja idiota. Não jogue seu dinheiro fora fazendo assentamento de Odù.  Faz assim, manda a pessoa fazer para ela mesma e sair distribuindo dinheiro pela rua e que não seja o seu.

sexta-feira, novembro 12, 2010

Por que as pessoas mortas são enterradas ?


A estória abaixo foi retirada do livro "Folk Stories From Southern Nigeria" Contos populares do Sul da Nigéria de Elphinstone Dayrell, [1910]

No começo do mundo quando o Criador fez os homens e as mulheres e os animais, todos eles viveram juntos na terra da criação. O Criador era um grande chefe, cuidava de todos os homens, e um ser muito bondoso, que ficava muito triste, sempre que qualquer um deles morria. Então um dia ele mandou para o cão, que era seu mensageiro principal, e lhe disse para ir para o mundo e transmitir a sua palavra a todas as pessoas que para no futuro, sempre que qualquer um deles morresse o corpo era para ser colocados em um recinto e cinzas de madeira seriam lançados sobre ele, e o corpo era para ser deixado sobre o solo, e em 24 horas se tornaria vivo novamente.

Quando o cão já tinha viajado meio dia ele começou a se cansar, assim, como ele estava perto da casa de uma velha senhora, olhou para dentro e vendo um osso com alguma carne nele ele fez uma refeição dele e depois foi dormir,esquecendo-se inteiramente a mensagem que tinha sido dado a ele para entregar.

Depois de um tempo, quando o cão não retornou mais, o criador chamou uma ovelha, e enviou-o para fora com a mesma mensagem. Mas as ovelhas era muito tolas e estando com fome, começaram a comer as ervas doces pelo caminho. Depois de um tempo, porém, ele lembrou que tinha uma mensagem para entregar, mas esquecera qual era exatamente, assim quando ela andou entre o povo disse-lhes que a mensagem que o Criador lhe havia dado para dizer às pessoas, é que sempre que qualquer um deles morrer eles devem ser enterrados debaixo da terra.

Pouco tempo depois, o cão se lembrou da sua mensagem, então ele correu para a cidade e disse às pessoas que elas deveriam colocar as cinzas de madeira sobre os corpos e deixá-los no solo e que eles iriam voltar à vida depois de 24 horas. Mas o povo não acreditou nele, e disse: "Nós já recebemos a palavra do Criador pelas ovelhas, que todos os corpos devem ser enterrados."

Em conseqüência disto os corpos dos mortos são sempre enterrados, e que o cão não é desejado e não confiável como um mensageiro, se ele não tivesse encontrado o osso na casa da velha e esquecida a sua mensagem, os mortos ainda poderiam estar vivos.
A questão da cobrança em Ifá


A questão da cobrança de valores sempre foi um caso sério. A gente ve tudo de ruim em torno disso. Existe também uma pressão devido a prática kardeista que abomina a cobrança, assim não cobrar é ético e cobrar é não ético. São religiões diferentes e o que não é ético é se comportar apenas motivado por dinheiro, lembrando que um Babalawo nunca será rico é assim que econtramos nas histórias é assim que os babalawos dizem. Não que eu esteja dizendo que olodumare recrimina os que assim não se comportam ou que nosso orixá nos virara as costas, não, estou dizendo isso apenas pelo aspecto ético. Mas o pior de tudo é ouvir que a pessoa só cobra porque “o anjo da guarda dela exige”.

No odù ofun ogbe Orunmila usa seus próprios materiais e dinheiro para fazer o sacrifício para Orixa nla (oxala) e depois é compensado em 200x vezes o que gastou.

Mas no odu ogbe meji existe uma história muito direta sobre o assunto e que é usada como explicação porque um babalawo cobra por seus serviços.

Ogbe meji (orunmila) veio para a terra para trazer o bem e fazer o bem a todo mundo. Ele incansavelmente dia e noite ajudava a todas as pessoas que encontravam e que o procuravam e nada exigia delas para isso. A benevolência do jovem eji ogbe o fez muito popular e sua casa tinha uma fluxo imenso de pessoas que o procuravam pedindo sua ajuda, dia e noite.

Ele curou os doentes, fez sacrificios para os pobres, ajudou mulheres estéreis a terem filhos e garantiu o nascimento seguro de crianças de todas as mulheres gravidas que o procuravam.

Com essas atividades ele ganhou muita admiração dos beneficiados mas também ganhou inimizades dos sacerdotes mais antigos que ele que não se uniam a ele em seu altruismo e benevolencia.

Um dia cansado ele dormiu e seu ori veio em seu sono o advertindo que esses sacerdotes estavam conspirando contra ele. Ele acordou de manhã e logo foi para o oráculo. Ele procurou os sacerdotes Osigi sigi le epo, usee mi ookagba igba e abu kele kon lo obe ide que juntos consultarem Ifá para ele eles o aconselharam a....

... Os outros sacerdotes que se sentiram atingidos e prejudicados em seu modo de vida porque ogbe meji fazia milagres sem cobrar nada foram para o Orun um depois do outro para relatar a olodumare acusando eji ogbe de os prejudicar ao introduzir um novo código de comportamento o qual era totalmente estranho à ética no aiye.

Ogbe meji por sua parte não tinha vida própria porque gastava todo o seu tempo a serviço de outros. Quando as crianças tinham convulsão ele era chamado, quando gravidas precisavam de ajuda ele era chamado, etc..

Olodumare ouvindo esses relatos enviou Esu a terra para trazer eji ogbe de volta. Esu usou de discrição como uma estratégia para trazer eji ogbe de volta ao orun. Ele se transformou em uma pessoa sem emprego, procurando por um trabalho e foi bem cedo a casa de eji ogbe. Chegando lá ele implorou a ogbe meji para lhe dar um trabalho que o permitisse a viver. Eji ogbe disse que não tinha como dar um trabalho a ele porque ele trabalhava de graça para as pessoas do mundo.

Como ele ia comer o seu desejum ele chamou o visitante para comer com ele, mas esse disse que não se qualificava para comer no mesmo prato de ogbe meji assim iria comer após ogbe meji ter comido. Contudo enquanto essa discussão se dava uma nova pessoa aparecia pedindo ajuda, ela disse que o seu unico filho estava em convulsão e ela queria que eji ogbe viesse reviver o garoto.

E assim se foi o dia todo resolvendo duvidas, brigas e disputas. O sol já se punha quando eji ogbe sentou para comer seu desejum matinal. Ele insistiu para o visitante comer com ele mas esse disse que somente depois iria comer. Quando ele começou a comer Esu se transformou em Esu e eji ogbe viu que o seu visitante era um enviado de olodumare.

Ele parou de comer e perguntou que mensagem teria para ele, e esu disse que olodumare queria ve-lo no orun. Esu o abraçou e eles foram transportados para o Orun. Tão logo chegando lá ele ouviu a voz de olodumare perguntado a ele, eji ogbe, por que estava criando tanta confusão no mundo!

Eji ogbe se pos de joelhos para dar a sua explicação mas, esu, se pos a frente e se ofereceu para explicar. Esu explicou que olodumare em pessoa não poderia estar fazendo tanto quanto eji ogbe no aiye. Ele disse que desde cedo e sem tempo até para comer, eji ogbe estava a serviço da humanidade sem receber nenhuma recompensa por isso.

Esu disse que eji ogbe fazia no aiye a mesma coisa que fazia no orun e que por isso ela estava apenas aborrecendo os sacerdotes que eram amantes de dinheiro.

Olodumare disse que eji ogbe se levantasse dos seus joelhos e que voltasse para o aiye e continuasse o seu bom trabalho, mas, que cobrasse um valor razoável por seus serviços, mas continuasse a ajudar a quem necessita e que receberia por isso as bençãos dele olodumare.

A interpretação de uma história depende sempre do interlocutor, não existe uma interpretação única ou mesmo sentido literal. Essa história justifica o fato de os babalawo cobrarem por seus serviços. Também mostra que fazer o bem é o que se espera de uma boa pessoa e não trocar benfeitorias por dinheiro é o que de melhor se poder esperar de uma pessoa; mostra também que as pessoas se incomodam com o bem que você faz e não com o mal que você as traz.

Enfim, muitas interpretações podem ser feitas por cada pessoa.

domingo, agosto 22, 2010

Rezando para Xango

As rezas a seguir representam um esforço de tradução de 2 rezas bastante conhecidas de Xango principalmente porque foram divulgadas pelo livro de José Flavio, a Fogueira de Xango, através de um magnífico CD.

No Livro existe a letra em Yoruba e uma tradução que infelizmente é péssima. Não foi José Flavio que traduziu, mas a pessoa que fez viajou na maionese.  Em se tratando de Yoruba tudo pode estar certo ou errado mas existe um pequeno bom senso a seguir.  A tradução do livro não seguiu qualquer bom senso.

Traduzir Yoruba não e fácil, as pessoas acham que simplesmente vão achando as palavras no dicionário, ledo engano. É muito complicado porque pela oralidade tem que se chegar a uma palavra ou conjunto de possíveis palavras. Depois analisar as possíveis traduções e combinações de traduções considerando o sentido do texto, o seu objetivo e convivendo com a dificuldade de palavras que foram aglutinadas (2 palavras viram 1) e erros na oralidade, com o passar do tempo as pessoas falam errado ou trocam fonemas.

Ai existe o caminho fácil que é inventar uma tradução, que foi o caso foi o caso do livro A fogueira de Xango, ou de trocar as palavras por outras conhecidas, que foi o caso do livro seguinte, O banquete do Rei, no qual o tradutor mudou palavras para ajustar a tradução.

O mesmo autor andou fazendo isso posteriormente com diversas cantigas que andou traduzindo e cantando. A dificuldade realmente é traduzir a palavra ou o fonema como ele esta ou como é cantado ou buscar pequenas variações justificadas pelos vicios de oralidade.

Enfim, é por isso que digo que certo ou errado estão muito próximos e é difficil dar razão a alguém. Bom, o texto a seguir foi um esforço no sentido de ser o mais literal possível, representando assim uma versão com grandes possibilidades de estar correta. Muito trabalho foi necessário para chegar nesse resultado.

Como todos sabem o texto é melhor visto baixando o fonte Yoruba indicado nesse Blog. A instalação da fonte Yoruba é muito simples e permite ver todos os textos de forma integral. No texto a seguir inclui a fonética em português.


ọba irú loko
óbá irú lokô
O rei viril
ọba irú loko
óbá irú lokô
O rei viril
iyamase kó nwa
iamasê kô un á
iyamase trouxe-o a vida
ará òjé
ará ojê
nosso ancestre destemido
aganju kò màá njá lẹ́ẹ̀kan
aganju kô maa un já léé kan
aganju nos ensina a sempre vencer de novo
ará làkó láìyà
ará lákô laiá
O membro da comunidade que é autêncico e audacioso
tóbi òrìṣà
tobí orixá
o grande òrìṣà
ọba ṣọ́ ọ̀run
óbá xó órun
o rei nos vigia do orun
ará ọba òjé
ará óbá ojê
nosso rei e lider
ọba ṣọ́ ọ̀run
óbá xó órun
o rei nos vigia do orun
ará ọba òjé
ará óbá ojê
nosso rei e lider


ó níkà, ó níkà
o niká, o niká
ele é cruel, ele é cruel
ará òjé aṣẹ sú
ará ojê axé sú
nosso líder que espalha o axé
Badé, Badé ìjà lóni
Badê, Badê ijá loní
Badé, badé, lute hoje
ó níkà, ó níkà sí ará ìyìn aláde o
o niká, o niká si ará i in aladê o
ele é cruel, ele é cruel, o trovão louva o que tem a coroa
ó níkà
o niká
ele é cruel
ará òjé aṣẹ sú
ará ojê axé sú
nosso líder que espalha o axé
Ṣàngó máṣàì rẹ̀ wá o
Xangô maxaí ré ua o
Ṣàngó não falhará em vir!
Rẹ̀ wa o
ré ua o
ele virá!
Ọ̀ba lojú ma ṣe
obá lojú ma xe
O rei maior certamente virá
Ṣàngó máṣàì rẹ̀ wá o
Xangô maxaí ré ua o
Ṣàngó não falhará em vir!
Rẹ̀ wa o
ré ua o
ele virá!
Ọ̀ba lojú ma ṣe
obá lojú ma xe
O rei maior certamente virá
Ki ẹ òkeerẹ laanú sọ̀ko
ki é oke eré la anú sókô
Que o senhor do seu lugar distante seja piedoso ao jogar suas pedras
àgba aláde ma ṣe
agbá aladê ma xê
ancestre que tem a coroa e trabalha para nós


ọba kao
óba ka o
saudação ao rei
ọba kao
óba ka ô
saudação ao rei
o, o, Kábíèsí ilé
ô, ô, kabiêsi ilê
saudação ao rei dessa casa
ọba ni kọlé
óba ni kólê
O rei diz para construir a casa
ọba ṣe ire
óba xê irê
O rei trará bençãos
ọba njẹ́jẹ́
óba un jé jé
o rei esta pometendo
ṣe ire alado
xê irê aladô
fazer as bençãos do que tem a coroa
bangboṣe obitiko
bangbôxê obitikô
(referência a bangbose)
oṣe kao, o, o, Kábíèsí ilé
oxé ka ô ô ô kabiêsi ilê
saudação ao rei

sexta-feira, julho 09, 2010

Rezando para Orí


Consulte a versão mais atualizada deste texto em

http://blog.orunmila-ifa.com.br/2015/03/ori-o-guardiao-do-nosso-destino.html



Como em qualquer religião os Yorùbá tem suas rezas. Elas são chamadas de igbàdúrà ou agbàdúrà. Essa é uma palavra derivada do verbo Gbàdúrà que significa rezar. O sentido é o mesmo, uma prece é um meio mecânico, através de repetição de palavras que usamos para nos conectar com o divino. Representam pedidos, agradecimentos ou simplesmente louvações.

Os Yorùbá acreditam que além desse sentido de sintonia da alma com o divino, as palavras tem poder. Devemos sempre ter cuidado com o que sai de nossa boca. As orações são encantamentos e as palavras tem o efeito de despertar e ativar energias. Dessa maneira orações devem ser faladas e não pensadas.
Pode-se rezar para Orí a qualquer hora do dia e em qualquer lugar. Orí é a nossa divindade pessoal e quem nos protege de tudo na vida e no mundo. Antes de qualquer Orixá (Òrìṣà) e acima de qualquer Orixá (Òrìṣà) esta Orí. Rezar de manhã quando se acorda é a melhor opção.

A seguir existem uma relação de rezas para Orí. Elas devem ser entendidas e decoradas, recomendo que rezem em Yorùbá, mas quem tiver extrema dificuldade que o faça como quiser.

Existe a linha com as palavras em Yorùbá, a fonética das palavras em português e a sua tradução. Quando uma palavra tem mais de um acento significa que deve ser usado a forma aguda em cada sílaba acentuada, ou seja pronuncie cada sílaba com a acentuação indicada. Atenção especial para alguns casos.

Quando aparece GB deve ser pronunciadas as 2 consoantes. Assim GB não é a mesma coisa de B. Por exemplo Gbo pronuncia-se diferente de Bo. Da mesma maneira o P Yorùbá é pronunciado como KP. Não existe letra muda, toda letra e sílaba deve ser pronunciada. As palavras Yorùbá geralmente são oxítonas, com silaba tônica no fim.

Rezas de Ori

Para quando acordar de manhã
Reza 1
èmi ma jí loní o
emi má jí loni ô
eu acabo de acordar hoje
mo fi orí balẹ̀ fún ọlọ́run
mo fí orí balé fun olórún
eu coloco minha cabeça no chão para ọlọ́run
orí mi dá ẹ̀mí dá àiyé
orí mi dá émí dá aiiê
meu ori me de vida de de longevidade
Ngo kú ìmọ̀
ungô kú imón
eu saldarei o conhecimento
gbogbo ire ni ti èmi
gbogbo ire ni ti êmi
todas as benção para mim
imolẹ ni ti àmakisi
imolé ni ti ámákisi
os Orixá (Òrìṣà) pertencem a àmakisi
Reza 2
Orí awo màá tọ́ ni awè
orí auô ma a to ni auê
O mistério do Orí nascerá no jejum
Orí awo màá tọ́ ni awè
orí auô ma a to ni auê
O mistério do Orí nascerá no jejum
Orí awo màá gbó ni awẹ̀
orí auô ma a gbô ni auê
O mistério do Orí amadurecerá no jejum
Orí awo màá gbó ni awẹ̀
orí auô ma a gbô ni auê
O mistério do Orí amadurecerá no jejum
Orí awo màá mọ̀ ni awè
orí auô ma a món ni auê
O mistério do Orí trará conhecimento no jejum
Orí awo màá mọ̀ ni awè
orí auô ma a món ni auê
O mistério do Orí trará conhecimento no jejum
ìbà á ṣẹ Òtúwà-kan
ibá a xé otu ua can
Reza 3
orí sán mi, orí sán mi
orí san mi, ori san mi
ori me torne melhor
orí sán igbédè, orí sán igbédè
orí san igbêdê, orí san igbêdê,
ori me torne mais inteligente
orí tánsan mi ki èmi ni owó lọwọ
orí tan san mi qui êmi ni ôuô lóuó
ori me faça brilhar e que eu tenha dinheiro nas mãos
orí tánsan mi ki èmi ni aya
orí tan san mi qui êmi ni áiá
ori me faça brilhar e que eu tenha esposa
orí tánsan mi ki èmi bímo rere
orí tan san mi qui êmi bimô rerê
ori me faça brilhar e que eu tenha bons filhos
orí tánsan mi ki èmi mọlé
orí tan san mi qui êmi mólê
ori me faça brilhar e que eu construa uma casa
orí sán mi, orí sán mi, orí sán mi
orí san mi, ori san mi
ori me torne melhor
Olúwa mi ajiki
olu ua mi ajiqui
ìwà mi a dúpẹ́
iuá mi á dukpé
meu caráter, eu agradeço
Reza 4
Orí mi yẹ́ o Já fún mi
orí mi ié o já fun mí
meu orí esteja atento lute por mim
ẹlẹ́da mi yẹ́ o! Já fún mi
élédá mi ié o já fun mí
meu criador esteja atento lute por mim
Reza 5
Bi o ba fífẹ lowó, bèèrè kan orí
bi o bá fifé louô, beere kan orí
se você quer ter dinheiro, pergunte primeiro a orí
Bi o ba fífẹ sowó, bèèrè kan orí wò fún o
bi o bá fifé xouô, beere kan ori fun ô
se você quer ter trabalho, pergunte primeiro para orí olhar para você
Bi o ba fífẹ kólé, bèèrè kan orí
bi o bá fifé colê, beere kan orí
se você quer conrtuir uma casa pergunte primeiro a ori
Bi o Ba fífẹ laya , bèèrè kan orí wò fún o
bi o bá fifé laiá, beere kan orí uô fun o
se você quer ter uma esposa, pergunte primeiro para or”i ver para você
Orí máse pẹ̀kun dé
orí máse kpé kun dê
orí não deixe de vir para cá
Lọ̀dọ̀ rẹ èmi nbọ̀
lódó ré emí unbó
é para a sua presença que eu estou indo
Wá saye mi di rere
uá xaiê mi di rerê
Venha e faça minha vida ser melhor
Retirado de ògúndá méjì
ori pẹ̀lẹ́!
Orí kpélé
Ori!
Atètè ni rán
atete ni ran
aquele que atende rapidamente
atètè gbà mi
atete gbá mi
aquele que rapidamente me socorre
Ẹ súre fún mi níwájú àwọn Orixá (Òrìṣà)
é surê fun mi niuajú auón orixá
Você me abençoa antes de todos os Orixá (Òrìṣà)
Kò sí Orixá (Òrìṣà) le yín emi bi ori ba kó jẹ́
kô si orixá le i in emi bi ori bá kô jé
nenhum Orixá (Òrìṣà) pode me abençoar se orí não permitir.
ori pẹ̀lẹ́!
Orí kpélé
Ori!
Orí àìkú
orí aikú
ori imortal
ẹni tí orí rẹ gbà bọ rẹ ó jú yọ̀
éni ti rí ré gbá bó ré ô ju ió
aquele que o ori aceitar a a oferenda estará muito agradecido
Para lavar a cabeça
Lọwọ Ọtún awo ẹ̀gbá
lóuó ótun auô égbá
Na mão direita o adivinho de egba
Lọwọ òsì awo igbara
lóuó osi auo igbárá
Na mão esquerda o adivinho de igbara
awa máṣàì ìmọ̀
auá máxáí ímón
nós não podemos falhar em saber
bọ́ ọtún fi ọtún
bó ótun fi ótún
lavar o lado direito da cabeça com a direirta
tabi bọ́ òsì fi òsì
tábi bó osí fi osí
e lavar o lado esquerdo com a esquerda
A Difá fún Awun ni ọjọ́ ó ti lọ bọ́ orí rẹ
a difá fun au un ni ójó ô ti ló bó orí ré
Ifa foi consultado no dia que Awun foi lavar sua cabeça
lodó fún ó kó ire ọ̀pọ̀
lodô fun ô kô irê ókpó
no rio para que reunir as bençãos da fartura
Ki iwẹ́ fà wá ire owó
ki iu é fá uá irê ouô
que a limpeza traga as bem;ãos da prosperidade
Ki iwẹ́ fà wá ire ọ̀rọ̀
ki iu é fá uá irê óró
que a limpeza traga as bençãos da saúde

Como alimentar o seu Orí
Alimento é vida. Uma refeição é uma dádiva e uma festa. Os Yorùbá são um povo do campo, fazendeiros e dão muito valor a vida a ao alimento, a água que é tão difícil de ser obtido. Cada povo dá valor ao que lhe é importante e caro. Para os Yorùbá a agua e o alimento são muito importantes.
Mesmo para nós, quando queremos receber bem alguém sempre fazemos isso com alimento e bebida. A religião deles e sua teologia não é artificial, não foi criada em um concílio, ela existe permeando toda a sua vida e existência, assim, os Yorùbá agradam seu deus e todos os seus ministros e representantes com alimento. Flores não são uma opção para eles, alimento sim, é seu bem maior.
Eles assim comemoram a vida com alimento, dando, divindindo e compartilhando.
O orí deve ser alimentado para que possa influenciar positivamente a nossa vida. O sentido é a reposição do axé, a energia vital que usamos para fazer tudo. Com o axé (àṣẹ) nós nos conectamos com o Orí divino, que esta no órun (Ọ̀run). O alimento do Orí vai então repor o axé (àṣẹ) e facilitar a comunicação e influencia do Orí no órun (Ọ̀run) com o nosso Orí no Aiyé.
Alimentar o ori de chama bórí (bọ́rí) palavra que é composta pelo verbo bọ́ com orí, ou seja alimentar o ori. Existe uma outra palavra Yorùbá, bórí (bôrí) que significa cobrir a cabeça.
O longo de nossa vida devemos fazer bórí (bọ́rí) muitas vezes. No mínimo uma vez por ano, algumas pessoas podem precisar de mais vezes. A grande distinção é que fazer um bórí (bọ́rí) não é o banquete que se faz por ai, que vira uma obrigação. Claro, um bórí (bọ́rí) pode ser simples ou uma coisa maior, mas simples já ajuda muito.
Vou a seguir dar uma receita muito simples que pode ser feita por qualquer pessoa. É claro que fazer isso através de um sacerdote é muito melhor por ser uma pessoa que recebeu orientação e axé (àṣẹ) para isso, mas a religião também é para todos. Contudo de fato fazer isso requer alguma pratica e pessoas que nunca viram ou fizeram esse tipo de comida podem ter dificuldade. Infelizmente é assim mesmo.
Tudo nessa religião tem significado, assim, não ignore materiais e indicações de uso.
Material necessário:

Esteira nagô
pano de cabeça com capuz
manteiga de karité
obi de 4 gomos (rosado)
2 lençóis
coco verde
água mineral
 
2 bacias de ágata
ervas frescas:
manjericão
elevante
saião
colônia
macaçá
Preparação:
Lave as ervas frescas, separe as folhas e quine as folhas com agua até que sobre apenas uma “massa” de folhas masseradas. Faça isso em uma bacia branca de ágata. De fato, isso requer alguma prática. Separe 4 folhas de saião inteiras e coloque em uma vasilha com água.
Deixe o banho nessa bacia por algum tempo. Depois coe todas as folhas deixando somente a água. As folhas devem ser despachadas no mato, (veja no final).
Separe um lugar para fazer isso que seja limpo, isolado e traquilo.
Coloque a esteira nago (ou bahiana) e cubra com lençol branco. Coloque o Obi dentro de uma vasilha com água. Deixe ao alcance a manteiga de karité e as folhas de saião. Coloque a bacia não usada na sua frente e se ajoelhe diante dela. Reze para Ori.
Lave primeiro a sua cabeça com água mineral. Apenas jogue a água por toda a cabeça e deixe escorrer para a bacia que fica abaixo deu sua cabeça (você esta ajoelado, em cima da esteira com o bacia a sua frente, abaixo de sua cabeça.).
Abra o coco verde e faça a mesma coisa, deixe a água do coco escorrer por toda a cabeça lavando-a. Por fim derrame o banho de ervas vagarosamente, escorrendo o banho com as mãos e lavando toda a cabeça. Use a reza de lavar a cabeça, reze ela enquanto faz isso.
Espera a água escorrer toda, limpe o excesso em seu rosto e pescoço com uma toalha, mas não enxugue sua cabeça.
Abra o obi de 4 gomos, separando todos os gomos. Retire o “olho” que fica nos gomos. Pegue a manteiga de Karité e faça um montinho em cima sua cabeça. Afaste o cabelo e coloque ela em contato com o couro cabeludo. Coloque os gomos do Obi em cima da manteiga, um gomo em cada lado. Cubra isso tudo com a 4 folhas de saião e coloque o pano de cabeça com capuz por cima disso tudo tampando a sua cabeça. Prenda o pano de cabeça (isso também requer alguma pratica....).
Observe você deve fazer isso sozinho.
Durma na esteira (pode usar um travesseiro) por pelo menos 3 horas mas recomendo passar toda a noite. Quando levantar retire o pano com tudo o que esta na sua cabeça. Esse material deve ser despachado em uma mata limpa, ou em um lago limpo, nunca jogue na rua ou no lixo.
Pode tomar banho normal lavando a cabeça. Não tome sol na cabeça até o meio dia. Na noite que fizer isso você não sai de casa.
Observem que este é o procedimento mais simplificado possível. Somente faça quem se sentir à vontade para isso. É claro que quem sabe e tem pratica consegue fazer com facilidade e um sacerdote faz isso com mais complexidade, adicionando comidas para o Orí.
Mas eu apenas quis mostrar que não precisa ser complicado, por ser simples.


quarta-feira, julho 07, 2010

O sincretismo entre Umbanda e o Candomblé
O ovo da serpente

Este texto é parte de um material maior que será publicado em 4 partes. Esta é a parte I

O texto completo é encontrado em
http://www.4shared.com/document/HBgl1hB4/sincretismos_entre_umbanda_e_c.html
 

Necessárias explicações inicias sobre o tema

Este é talvez um dos temas mais antigos e ao mesmo tempo mais atual, sempre esteve na pauta de discussões e deverá continuar a estar por um bom tempo. Ele muda, se transforma e se atualiza, mas no fundo é sempre o mesmo. Estamos falando do problema gerado pela mistura entre os ritos de Umbanda e o Candomblé processo que ocorre em ambos os sentidos, mas, é conduzido em todos os casos por Umbandistas.

O tema desperta muitos sentimentos antagônicos. O motivo de estar sendo abordado aqui é que isso tomou uma proporção maléfica muito grande, incontrolável e traz consigo prejuízos para ambos os cultos. De fato é o caminho para a destruição das duas tradições, o que vai beneficiar apenas os intolerantes. Mas, o fato é que a realidade esta sendo reescrita de tal maneira que em pouco tempo já não se saberá o que é o certo ou o errado.

Existe um movimento de pessoas de Umbanda para o Candomblé, a maior parte dessas pessoas jamais entendeu o seu culto ou sua pratica espiritual como um religião e se perdiam em uma profusão de sincretismos incompreensíveis. Com a quebra de preconceitos para o Candomblé na sociedade, essas pessoas que na pratica não entendem o que fazem na Umbanda, se transportam para o Candomblé de maneira igualmente superficial e confusa, sem ainda entender este como religião e trazem ainda para o universo do Candomblé os mesmos guias e incorporações que deveriam ter deixado para trás em vista da incompatibilidade entre um pratica e outra. O comportamento indica que elas entendem que estão adicionando mais alguma “coisa” a sua já confusa prática ao invés de entenderam que deveriam estar substituindo completamente o que faziam.

De outra via, esse tipo de pessoa pode não mudar de culto mas traz para a Umbanda liturgia e formatos que não pertencem a Umbanda. Assim vestimentas, adereços, cantigas e ritos de iniciação são grosseiramente copiados apenas para trazer uma novidade ou glamour que a Umbanda não necessita. 

Dá-se o nome a esta mistura pejorativamente de Umbandomblé, mas, no dia a dia são as chamadas casas de Omoloko. A palavra não significa nada apenas é usada para justificar essa mistura. No lado do Candomblé proliferam as casas ditas de Candomblé de Angola nas quais poderia haver essa mistura, mas, nem sempre se usa essa nação, as pessoas estão sincretizando de tal forma e naturalidade que em algum tempo talvez nem saibam mais a falta de sentido do que fazem.

Esse processo sempre existiu mas o o quantitativo relativo e absoluto era menor. Agora esta de tal modo disseminado que em pouco tempo a referência do Candomblé como era e como deveria ser vai se perder. O objetivo aqui é explicar porque essas duas tradições são como água e azeite, coisas que não se misturam.

Falar sobre o Candomblé é um dos assuntos preferidos de antropólogos, infelizmente não o de teólogos. Pior ainda, muitos dos acadêmicos que de dispõe a escrever sobre o tema e acabam criando alguma referência sem seus trabalhos fazem um material que mistura de maneira muito ruim uma abordagem étnica como tema, confundindo a suas aspirações pessoais de se manifestar contra discriminações ou o processo histórico de escravidão e lutas sociais em torno disso com o tema de abordar a manifestação religiosa. 

O mesmo ocorre em relação a Umbanda. Esses trabalhos ruins de pessoas mal preparadas só contribuiu para tornar o tema sempre mais obscuro. A constatação disso é muito simples e na busca por referências bibliográficas sobre o tema que pudessem ser acessadas livremente pela Internet me deparei com esses casos e alguns fiz questão de listar.

O assunto Candomblé, também, possui dezenas de variações para ser abordado e podemos nos aprofundar em inúmeras coisas diferentes ligadas à religião, história, etnias, origens e pessoas. Todas abordagens são muitos fascinantes e ricas porque lidamos com uma complexidade que vamos deixar clara mais à frente. Assim, qualquer abordagem ao tema é razoavelmente complexa porque temos que lidar com uma grande diversidade. Eu tenho que reconhecer, inclusive, que esse texto foi revisto e reescrito inúmeras vezes na busca do melhor entendimento e da maior simplificação possível. 

Na busca dessa objetividade primeiramente vamos estabelecer que o foco aqui será religioso, vamos ignorar aspectos históricos, étnicos e outros que fazem parte da riqueza do Candomblé mas não servem para o tema.

Um outro fator importante que todos devem entender é que as duas tradições, Umbanda e Candomblé, são muito distintas entre si e não tem a mesma origem e natureza. O Candomblé é uma religião completa e autônoma, a Umbanda é bem difícil de ser classificada, mas, não é uma religião e fica melhor classificada como um culto, que tem que estar ligado a alguma religião. Historicamente tem sido a católica, juntado conceitos da sua seita espírita kardecista (que também não é religião, no máximo também uma seita), mas, abordaremos isso mais tarde.

A religião africana

O Candomblé é uma tradição religiosa derivada principalmente de religiões africanas existentes na Nigéria, terras Yorùbá (grupo Nagô), e no Daomé (grupo Jeje), veremos o motivo disso mais à frente. O grupo Banto, que representava os primeiros negros a chegarem no Brasil em nada influenciaram a formação do Candomblé. Hoje em dia esse conjunto de religiões africanas é chamada de African Traditional Religion – ATR (Religião Tradicional Africana), por falta de um nome próprio. A África tem muitas religiões ou cultos, mas a base do Candomblé está no culto de Orixás e Voduns que se desenvolvem em uma região delimitada e próxima, terras Yorùbá e do Daomé (Benin), e foram trazidas para cá pelos escravos durante a diáspora negra.

Citar a origem religiosa mista do Candomblé como sendo Nagô e Jeje é apenas uma elegância que termina aqui nesse reconhecimento e citação. Na prática a religião que é a base do Candomblé é a religião Yorùbá, que é de onde vem os Orixá. Orixá é sinônimo de Candomblé e vice-versa. Intencionalmente vou ignorar a origem Jeje, quando comentar sobre nações o motivo ficará claro, mas, deixando bem claro, agora, toda a abordagem religiosa tem como base e modelo de referência a religião Yorùbá.

A religião Yorùbá, como prática religiosa é muito rica e sofisticada para os padrões africanos. Entendo que é bastante completa e equivalente a outras manifestações religiosas considerando para isso padrões ocidentais. De forma global, ela se impõe facilmente como um religião própria e distinta, não devendo nada para qualquer outra religião. Possui teogonia, cosmogonia, teodócia e metafísica próprias e bem desenvolvidas. Possui uma base teológica consistente e também um oráculo completo. A relação homem-divino é bem definida e os conceitos éticos e morais bem estabelecidos seja pela religião seja pela sociedade civil.

Historicamente o entendimento disso não foi fácil assim. Os primeiros explorados europeus (católicos, anglicanos e protestantes), seja por pouco entenderem o que os africanos falavam, queriam dizer e faziam, sejam por sua própria formação restrita e preconceituosa, classificaram o que viam de muitas formas, na maior parte delas como um animismo ou fetichismo, basicamente por não entenderem ou quererem entender o que viam. O animismo faz parte de qualquer religião em algum grau. A religião católica pode facilmente ser entendida por muitos como animista. Desta forma a religião Yorùbá também tem alguns aspectos animistas, mas, jamais pode ser classificada como sendo uma religião animista.

Essa abordagem, então, impediu que a religião Yorùbá por muitos anos fosse classificada como religião. Esse desrespeito se refletia aqui no Brasil na forma como a nossa tradição era encarada, como um folclore de negros. Só mais recentemente, fins do século XX com o surgimento de alguns africanos buscando uma abordagem mais teológica para o tema, buscando resgatar a sua religião perdida no meio dos inúmeros esforços de catequização é que esse tema tomou essa abordagem de lutar pelo reconhecimento da religião africana como tal.

Mesmo assim, não é simples, a formação bastante cristã de muitos desses teólogos, dificultou a aceitação de suas teses e construções. Muitos reagiram como mais um esforço da comunidade cristã de absorver uma religião infundindo nela seus conceitos de forma a facilitar a migração gradual para o cristianismo. 

Outro ponto, já comentado, é a dificuldade em se estabelecer o reconhecimento de uma unidade ou de um aspecto comum, entre as diversas manifestações religiosas dos africanos. O culto é fortemente regionalizado e isso gera a percepção de formas distintas. 

Muitos estudioso e observadores viram e ainda vêem nesses cultos distintos e regionais uma significativa distinção e não aceitam que esse conjunto seja designado como uma unidade, como uma religião Africana. Esse aspecto em particular foi então abordado por autores, teólogos ou pesquisadores de origem africana, como Idowu, Mbit, Sato e mesmo alguns ocidentais como Parrinder. Não vou retomar essa longa discussão aqui, e quem quiser se aprofundar que procure ler o que eles escreveram, mas, no que pese a existência de variações regionais esses autores entenderam que existe sim um contexto religioso que unifica na base todas a variações. 

Vale a pena comentar que a atenção de acadêmicos e antropólogos para questões africanas sempre foi muito distante. O continente negro, ou como chamavam Dark continent, era visto como tribal, atrasado e apenas quintal das nações européias. Demorou muito tempo para esse continente “obscuro” ser analisado de forma mais séria, não preconceituosa e finalmente por pesquisadores e estudiosos africanos natos.

O entendimento que eu parto após minhas próprias pesquisas e análises, é que existe uma religião africana que deu origem ao Candomblé. Uma religião bem estruturada e consistente que originou os Orixá, Orunmila e Olodumare e toda o meta universo em que se baseia o Candomblé. A nossa base, no Candomblé, é a religião que se manifesta na região Yorùbá e ela é muita clara e bem definida, assim não esta em questão se toda a África tem a mesma religião ou não. Esse é assunto para os autores que citei. 

Apesar de toda a dificuldade em se unificar e documentar essa base religiosa devido a problemas muito elementares como a falta da escrita para a língua dele (introduzida somente na primeira metade do século 20 por europeus) e a falta de pessoas para transmitir esse conhecimento teológico devido a diáspora e o assalto religioso feito por mulçumanos e cristãos, muito do que é necessário foi documentado ao longo dos anos e é nisso que nos baseamos.

O Candomblé como religião

O Candomblé não é a manifestação original e exata dessa religião, é uma tradição religiosa originada dessa religião depois do processo da diáspora negra. Como tradição religiosa, representa uma evolução da religião original, uma especialização que estabeleceu a religião africana no Brasil. Esse mesmo processo ocorreu em outros lugares do novo mundo e temos tradições distintas para o Candomblé, para o Lukumi (santeria cubana) e para o Voodoo (Haitiano). São tradições similares, mas não iguais, variando na forma como preservaram aspectos da sua origem africana e no formato como se apresentam na sua prática, mas sem dúvida, todas elas, são muito próximas uma das outras. 

O conceito de “tradição religiosa” suporta perfeitamente esse processo e, desta maneira, estamos tratando então, no novo mundo, de religiões e não apenas seitas e cultos, como pejorativamente as religiões não abraamicas são classificadas. O candomblé é assim uma religião completa como a Yorùbá, usa a mesma base teogônica e cosmogônica, mas, sofreu modificações, adaptações e modernizações, seja pela seu estabelecimento aqui como também devidos a distância da África e necessidade de integrar em uma só tradição correntes de cultos de regiões distintas.

Para ficar bem claro esse ponto da tradição brasileira, a religião mantêm os mesmos mitos, ritos, liturgias, cantos, objetos sacros e materiais litúrgicos. A língua Yorùbá é preservada através de orações e cantigas. As liturgias de iniciação são as mesmas ou equivalentes. As mudanças que se fizeram necessárias foram principalmente em tipos de folhas, animais e alimentos que devem ser associados à disponibilidade local. Outras alterações dizem respeito ao conjunto de divindades cultuadas. A cosmogonia foi basicamente respeitada, mas houve simultaneamente uma simplificação, uma padronização e uma unificação no conjunto de divindades que são cultuadas.

Contudo, essas não foram alterações aleatórias, houve um processo estruturado de africanização e localização conduzido pela nação ketu com a ida para África e também a vinda de pessoas com o objetivo de estruturar isso.

Apesar disso, a nossa tradição de fato não reflete exatamente a religião africana, como já foi afirmado. Alguns cultos não vieram na diáspora e só tardiamente foram trazidos e introduzidos, não necessariamente integrados ao Candomblé (que se desenvolveu sem eles), como por exemplo o culto de egungun e Ifá. Outro caso é Gélédé que não existe aqui e acho muito difícil existir, porque ele esta baseado em uma natureza social e ancestral que não não faz parte da nossa sociedade. Vemos práticas ou cultos relacionados a Ajé mas de maneira muito comercial e não como parte da estrutura metafísica de forças.

Alguns tipos de divindades como Ikú e os Ajogun são vagamente compreendidos mas não estão de fato incorporados dentro do culto, as funções de muitas dessas divindades da teogonia foram substituídas por Orixás, que é um tipo especial de divindade. Assim no Candomblé quase tudo é Orixá.

Existem conceitos éticos e morais que não foram incorporados sendo usados uma mistura pouco clara de africanismo, catolicismo e até mesmo de libertinismo (ausência de ética e moral). Esse conteúdo ético e moral foi a maior perda da religião na medida em que não se estabeleceu um padrão que refletisse a base moral da religião original. O que ficou foi uma bagunça com margem para qualquer tipo de interpretação. Dessa maneira a ética e a moral existem na religião, mas, são pobre ou confusamente representados na tradição brasileira, isso é um problema real.

A aceitação africana da nossa tradição bem como das demais tradições do novo mundo também não foi fácil. Podemos dizer que hoje o Candomblé se impõe, mas, inicialmente, a questão de ancestralidade pesou em uma visão cética dos africanos em relação a nossa capacidade de representar um culto real aos Orixás.

Nesse ponto façamos uma revisão do que já foi aqui colocado até aqui. Em primeiro lugar existe uma religião completa, rica e estruturada na África que serviu de base para o Candomblé. Essa religião tem origem na região Yorùbá e esta muito longe de ser apenas um animismo, sendo uma religião completa até mesmo para os padrões ocidentais, comparável ou superior a formas abraamicas.

O Candomblé é uma tradição dessa religião, que sofreu modificações mas preservou a religião em si, assim, o Candomblé, é uma religião independente e completa sem nenhum vínculo, ligação ou dependência com as religiões abraamicas. O Candomblé é uma religião afro-brasileira porque, se originou de uma religião africana mas desenvolveu padrões locais para o seu culto.

O Candomblé e suas nações

Contudo, depois da questão da religião africana de referência nos deparamos com a própria diversidade do Candomblé. Não podemos nos referir ao Candomblé como uma coisa única, quando falamos Candomblé, infelizmente não estamos nos referindo a uma tradição religiosa homogênea e isso sempre torna complexo o assunto. Chamar o complexo Jeje-Nago como Candomblé é de fato uma grande simplificação.

O Candomblé tem uma origem bastante diversa e esta longe de representar uma unidade, sendo chamado de culto de “Nação”. O termo esta relativamente sendo pouco usado hoje em dia para nomear o Candomblé, mas ele significa o reconhecimento de que o Candomblé é de fato uma tradição composta por várias nações diferentes e que cada uma dela preservava uma identidade étnica com uma distinta origem africana. Esse conjunto é coberto aqui no Brasil pela denominação comum “Candomblé”. 

Essa diversidade já foi muito forte, hoje em dia, lamentavelmente essas manifestações distintas da tradição que refletiam características também distintas de cultos de acordo com a nação original dos negros esta muito perdida. Houve um sincretismo interno e as práticas da nação Nago Ketu, que foram melhor estruturadas, documentadas e divulgadas tem se tornado um padrão de referência, fazendo desaparecer as características próprias das demais nações. É o que a gente chama de “ketunização”. 

Com o passar dos anos, as pessoas antigas de cada nação vão falecendo e são substituídas por outras sem apego a essa distinção. A liturgia e ritos do Ketu, tão conhecidos, complexo e vistoso, acaba sendo absorvido e adotado. Um exemplo clássico disso é a liturgia de raspar a cabeça, que sempre foi padrão no Ketu mas não em todas as demais nações. Hoje em dia é difícil uma casa que não raspe.

Devido a esse processo, por um lado, o Candomblé perde um pouco a sua riqueza cultural e, por outro, se unifica. Podemos definir que existem 3 grandes grupos de nações, o Nagô, o Jeje e o Angola. Muito pode ser dito sobre as suas distinções e variações mas como mencionei no início, isso não interessa aqui, de maneira que quando estivermos falando de Candomblé estamos nos referindo ao Candomblé Nago e as Nações que compartilham a mesma teologia. Entretanto não custa deixar um comentário polêmico sobre esses grupos.

O Candomblé de Angola parece apenas uma cópia do Candomblé Nago no qual houve uma mudança de língua, substituindo o Yorùbá por alguma forma de Bantu. Mas a estrutura da religião é equivalente. Trocar os nomes não cria uma nova religião. Se o Candomblé de Angola for aceito como um referência autêntica (o que acho questionável) então a tese dos africanos que existe uma única base para a religião africana estará comprovada. A região do Congo-Angola é bem distante da Yorùbá para ter um culto tão similar. Outro ponto é que alguns pesquisadores não encontraram no Congo-Angola qualquer manifestação similar a essa aqui, nem mesmo as divindades. Dessa maneira o Angola parece longe de ser um manifestação autêntica e original e eu nem considero ela em qualquer abordagem religiosa.

No caso do Grupo Jeje é distinto. A gente vai encontrar, contudo e principalmente no norte-nordeste do Pais, e no recôncavo bahiano, manifestações Jeje muito originais e distintas do Ketu. As práticas litúrgicas são bem diferenciadas apesar de conservar uma estrutura similar. A teogonia e cosmogonia são bem distintas de maneira que o Jeje se parece mesmo como um grupo distinto e autêntico. Contudo, no sudeste, existe uma manifestação de que é como a de Angola, apenas um traço do jeje de fato e uma cópia de Ketu. Geralmente é formado por pessoas que eram de Ketu e depois mudam de nação. Não conseguem aprender de fato como é o Jeje e passam a praticar uma mistura maluca.

Concluindo esse assunto, o que foi explicado é que a denominação Candomblé para a nossa tradição religiosa na realidade é um guarda-chuva para diversos grupos distintos, as nações o que tornava bastante complicado falar sobre Candomblé porque alguns desses grupos como o Jeje e Nago são bastante distintos. 

Os antropólogos dividem as nações da seguinte maneira, No grupo Nago ou Yorùbá de nações encontramos: Ketu, Efon, Ijexá, Egba, Batuqte e Xambá. No grupo jeje ou Daomeano temos: Fon, Ewe, Mina, Fanti e ashanti. No grupo islamizado temos: Fulas, Mandingas, Hauça, Tapa, Bomu e outros menores. O grupo Angola é composto por um agrupamento de nações congo-bantu-Angola

Mas o objetivo aqui não é abordar os grupos étnicos e sim a religião de maneira que o foco de interesse é somente as que adotam a teologia Yorùbá, o grupo dito Nago. Na nossa abordagem não vamos entrar em aspectos práticos e litúrgicos 

Teogonia Yorùbá
 
O Candomblé pode ser classificada como uma religião Henoteísta, na qual existe um Deus supremo, regulador e originador de tudo e outras divindades e espíritos que são aspectos de sua manifestação. Essa denominação difere muito do termo politeísta mas nesse texto aqui não vamos abordar a comparação com monoteísmo, essa é outra discussão.

A divindade suprema tem várias denominação, basicamente títulos para o mesmo e por isso mesmo foi confundido pelos invasores ocidentais como se fossem muitos. Olodumare é o seu nome mais clássico. Abaixo dele temos todo o resto teogonia, na qual temos que destacar Exu, como uma força positiva, portador da energia de olodumare (axé) e fiscalizados da retidão com o culto; Orunmila a divindade do oráculo que conhece o destino das pessoas; Os Orixás que são as divindades que protegem a vida dos homens e são sempre positivas; os ancestres que também protegem as suas linhagens e são uma força positiva; As ajé que são uma força neutra podendo ser usadas para o bem e para o mal e os ajogun que são uma força negativa de equilíbrio.

A religião é re-encarnacionista, acreditando que vivemos e voltamos a viver de novo. O mundo físicos em que vivemos, o Àiyé é o reflexo de um mundo espiritual, o Òrun. Tudo o que existe no mundo físico possui um duplo no mundo espiritual. Como toda a religião ele se centra na figura humana, o divino existe para suportar a sua existência no mundo físico e para essa pessoa atingir os seus objetivos na vida que encarnou. Alguns consideram esses objetivos como seu destino, mas não creio que possamos atribuir esse um caráter tem determinista, considero que toda a existência tem um objetivo a ser alcançado.

Cada pessoa possui um duplo no Òrun que zela por sua vida e esta acima de qualquer outra divindade. As divindades Orixá existem para apoiar e ajudar as pessoas na vida no Àiyé sendo que cada um possui um Orixá que faz parte íntima da sua vida, ele e seu Orixá são feitos dos mesmos elementos, mas permanece o caráter que a determinação desse Orixá é feita para apoiar no destino que ele escolheu para si. Entretanto, apesar da pessoa ter apenas um Orixá próprio, com elementos comuns, todos os Orixá podem ser chamados para ajudá-lo ou podem espontaneamente se prontificar para ajudá-lo.

O oráculo de Ifá existe para estabelecer a comunicação entre o homem e o divino entre o homem e o seu destino. O sentido do uso do oráculo é para a pessoa se orientar em relação ao seu destino e pedir ajudar quando esta tendo dificuldades. Quando isso ocorrer ela recebe ajuda do próprio olodumare através da divindade do Oráculo, Orunmila e de Exu.
Não existe o conceito de Karma e a re-encarnação é feita dentro da mesma família. A linhagem familiar é a coisa mais importante e a pessoa vive para sempre através de seus filhos e netos.

Os Orixá não são elementos da natureza, mas se identificam e usam forças e elementos que estão na natureza. Essa imagem enganosa de que Orixá são elementos da natureza é um desconhecimento e parte do sincretismo negativo, uma associação com cultos europeus ou mesmo o politeísmo greco-romano. Esse engano é inadvertidamente adotado pelos candomblecistas descompreendidos de plantão.

Os Orixás para se manifestarem em terra ajudando as pessoas precisam de médiuns, de “montarias” como os africanos dizem. O Orixá monta do seu elegun. A pessoa para poder incorporar um Orixá passa por um longo processo de preparação e limpeza espiritual e física. A iniciação é uma mudança profunda na vida da pessoa com rituais e liturgias complexas.
Os Orixá se manifestam no Àiyé somente através dos seus Elegun, pessoas especialmente preparadas para isso. É a presença deles aqui que viabiliza a transmissão e transformação da energia vital de olodumare para nosso benefício (o axé). As palavras são muito importantes para os Yorùbá. As rezas e pedidos devem ser ditas e não pensadas. A palavra tem energia e conduz o que precisamos. Os tambores do Candomblé, usados nos chamados Xire são os elementos que criam uma zona cinzenta entre o Òrun e o Àiyé permitindo o transito dos Orixás entre os 2 mundos espirituais.

O sincretismo do passado entre o Candomblé e o Catolicismo

Como ocorreu com outras tradições da diáspora, o Candomblé foi obrigado a realizar um sincretismo de imagens com a Igreja católica. Os motivos históricos são muitos simples, proibidos de praticar sua religião ou provavelmente de ter o seu espaço religioso e ritos, as imagens de santos católicos foram sincretizados com seus deuses.

O mito diz que o Negro fazia o seu altar, colocava o santo em cima e debaixo do santo coloca o igba ou apenas o okuta do seu Orixá. Assim pensavam que ele estava ali rezando para São Jerônimo mas ele estava rezando para Xango. Acho essa visão bastante romântica e simples mas útil para explicar o motivo do sincretismo. Imagens católica sincretizavam Orixás que não são representados por imagens, mesmo na África.

Referenciando ao início o objetivo aqui não é antropológico de maneira que não vou desenvolver o assunto com suas dezenas de variações, mas, sob o ponto de vista religioso, o processo de sincretismo sempre foi historicamente incentivado pela igreja católica como parte do processo de substituição dos cultos religiosos da população. No caso do Candomblé a origem esta ligada a um interesse dos africanos e descendentes de ter objetos sacro aceitáveis, mas como em todos os casos com o tempo, as gerações seguintes iam perdendo esse sentido e acabavam de fato misturando as coisas.

No século XX, já com escravos libertos a organização do Candomblé como religião ainda enfrentava obstáculos terríveis. Não era aceito como uma religião e sim enquadrado como folclore ficando então sob o âmbito de controle da polícia civil. Os terreiros tinham muita dificuldade para funcionar buscando ficar o mais afastado que podiam da zona urbana, mas mesmo assim, com o crescimento da cidade isso ficou anulado e não se pode simplesmente mover um terreiro.

De novo se recorreu ao sincretismo se espalhando imagens católicas pelos terreiros para descaracterizar uma religião africana e sim um culto católico inibindo assim uma ação direta contra o seu funcionamento. Todos os terreiros tinham nomes de Santos católicos.
Mas esse tempo acabou e hoje em dia existe um movimento muito claro de de-sincretização. Somente pessoas mais antigas que passaram a vida cultuando aquele sincretismo ainda o mantêm mas a grande maioria entende que esse sincretismo não tem utilidade e não tem motivo para existir. É falha qualquer abordagem que suponha que o Candomblé se sincretizou com o catolicismo ou que tenha evoluído dessa maneira. O Candomblé não é a consagração do sincretismo, isso foi, temporário, para uma utilidade específica e já plenamente superado. Quem pensa assim ou repete isso é acima tudo tudo um idiota. Em mais alguns anos com a passagem das pessoas mais antigas é provável que não exista mais nenhum lugar de Candomblé com imagens católica ou referências sincréticas.

O único motivo que pode levar a continuidade dessas imagens ligadas ao Candomblé são pessoas da Umbanda que vem de um culto completamente confuso no que diz respeito a sincretismo, trazerem de volta isso. Mas esse movimento nocivo não representa nada a não ser ignorância e estupidez.

A prática do candomblé

O Candomblé não possui nos seus ritos a pratica de incorporação como método ou rotina. Pelos padrões Nago (Ketu) e que são usados por quase todos as demais variações (nações), os Orixás quando no Àiyé pouco se comunicam verbalmente. A presença deles é feita junto com os cânticos e um Orixá se manifesta através de sua dança quando da realização de um Xire, que é quando eles fazem o seu trabalho de transporte de transformação de axé. Mas Orixás não são mudos, se comunicam com o babalorixá quando necessário.

Os Orixá podem falar, dar orientações e conselhos, isso é feito em algumas nações, principalmente Jeje e afins. Mas, como o modelo de referência usado nesse trabalho é o Yorùbá onde os padrões Nago são os mais adotados e copiados, não vou considerar mais a condição de Orixá falante para simplificar a linha de pensamento evitando assim ter que citar exceções junto com cada consideração que for feita. Normalmente no Nago um Orixá se comunica com as pessoas e a comunidade através do seu Ere. Assim encerrada aqui a não relevância para o nosso tema de Orixás falantes.

A comunicação entre o divino e as pessoas no Candomblé é através do Oráculo. A religião entende que devemos viver nossa vida por nós mesmo, com ética e caráter, o Oráculo nos orienta e nos ajuda mas não interfere no que queremos fazer. Traz as mensagens e orientação de nosso Ori, nosso guardião ancestral que fica no Orun e é o nosso duplo, e nos trás a ajuda de Olodumare através de Orunmila ou dos Orixá. Não existe então no Candomblé o procedimento de pessoas baterem na porta de uma casa para se consultarem com um Orixá. Não vão sentar em uma assistência e receber fichas.

A forma de se comunicar é através do Oráculo e a palavra é sempre do Babalorixá da casa. Ele transmite as mensagens e o conhecimento. É ele que ensina, orienta, dirige as casas, trabalhos e transmite as mensagens do Orun através do seu oráculo. Não existe casa de Candomblé sem Oráculo, assim como o que o Babalorixá diz representa o que é dito naquela casa, seja isso para o bom ou para o mal. Um Babalorixá deve então se preparar para a função, ser uma pessoa escolhida pelo Orixá para isso.

Nenhum Orixá vai aparecer para substituir a palavra do Babalorixá ou falar por ele, é justamente o contrário, o Babalorixá fala pelo Orixá.

É senso comum que a incorporação do Orixá é bem mais sutil do que em outros cultos, é uma incorporação de expressão e não de dominação, mas esse entendimento e práticas podem variar. Contudo o que não varia é que o dirigente de uma casa, o Babalorixá ou Iyalorixá são as pessoas que diretamente se comunicam, agem e transmitem a sua comunidade o que deve ser feito. Fora dentro de um Xire o trabalho em uma casa de Candomblé, seja no oráculo ou seja nos trabalhos determinados pelo Oráculo, é feito com as pessoas não incorporadas. O dirigente deve ter conhecimento do que tem que transmitir, orientar e ensinar às pessoas que frequentam a casa.

Como é o dia a dia de uma casa de Candomblé, já que não existem seções diárias ou semanais para consulta com os Orixás? Bom, bem chata para muitos. Um terreiro reúne seus Orixá quando faz o seu Xire, é nesse dia em que o Axé circula na casa. Fora dessa data as atividades se concentram na manutenção normal da casa, suporte a obrigações de iniciados (membros da casa) que estejam em andamento, atendimento pelo babalorixá à pessoas que o procurem, etc...

Uma casa de Candomblé se movimenta através do trabalho de obrigações dos seus membros, dos Xires periódicos e nos ebós e oferendas designados pelo Oráculo.

Adicionalmente, existe um dito que onde tem Orixá não tem egun, ou seja, em casa Lésé Orixá não pode ou deve existir a presença de eguns, espíritos de pessoas passadas, ara orun. A manifestação do Orixá no Àiyé exclui a manifestação de espíritos ancestres ou mesmo dos guias de Umbanda. Uma casa de Orixá é preparada e cultuadas para manter esses espíritos em uma área delimitada e fora de seus espaço principal. Não se trata de um impedimento verbal e sim espiritual. A energia de uma casa de Lésé Orixá mantêm a casa preservada para os Orixá e afasta os demais espíritos. Em uma casa Lésé Orixá em pleno funcionamento não haverá condições de Guias de Umbanda se manifestarem.