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domingo, junho 09, 2013

O conceito de axé (aṣẹ́)

(Texto completo)

Teologia Yorùbá

O Cosmo Yoruba - Parte 11


Axé (aṣẹ́) é um dos elementos de base desta religião, um dos seus pilares, na minha opinião o principal conceito para se entender toda a religião. A religião entende que Olódùmarè quando nos cria coloca uma centelha de seu poder dentro de nós. Axé (aṣẹ́) é a energia que todos temos é a nossa quintessência e tem origem em Olódùmarè. Axé (aṣẹ́) nos liga a Olódùmarè e torna esse a divindade suprema por excelência.

O axé (aṣẹ́) é dado por Olódùmarè para todas as coisas: As divindades, os ancestrais, os espíritos, humanos, animais, plantas, pedras, rios, palavras ditas em canções, rezas e pragas. Axé (aṣẹ́) é o poder que todos temos, ou mais amplamente, o poder que tudo no àiyé possui.

 

O que é axé (aṣẹ́)?


A definição que o uso da palavra axé (aṣẹ́) recebe dentro da religião é bastante ampla e, no estilo Yorùbá, uma mesma palavra é usada para descrever muita coisa, coisas importante e menos importantes. É um adjetivo muito usado por todas as pessoas no sentido de votos de sucesso e agradecimento. É como se você transmitisse para a pessoa que você fala que ela o axé (aṣẹ́) na forma de agradecimento ou que desejasse que aquela situação tivesse o axé (aṣẹ́) nela, etc...

Além desse uso coloquial axé (aṣẹ́) é acima de tudo um pilar da religião e é isso que inclusive justifica o seu uso de forma coloquial. As palavras tem axé (aṣẹ́) de forma que desejar axé (aṣẹ́) para alguém é como se você dividisse o seu axé (aṣẹ́) com essa pessoa.

Cada ser no Àiyé, que é o mundo que vivemos, possui uma composição única de axé (aṣẹ́) que lhe foi dada por Olódùmarè. Axé (aṣẹ́) é uma qualidade, uma virtude dada por Olódùmarè de maneira que cada elemento do Àiyé tem uma propriedade ou poder distinto. No caso dos humanos entendemos que essa virtude original varia e as pessoas podem ter virtudes, ou capacidades distintas. O axé (aṣẹ́) que recebemos é distinto.

A palavra “virtude” é usada por mim aqui para descrever esse poder mágico congênito, a propriedade particular ou comum a indivíduos ou materiais.

Axé (aṣẹ́) é também a força da vida, a energia vital, que nos faz viver. Também é a força que nos faz ter a capacidade de interceder no mundo através de poderes supernaturais.

Para não complicar vamos resumir que axé (aṣẹ́) como energia ele traduz:

  • A “virtude única” que Olódùmarè nos dá
  • A energia básica que todo ser tem e precisa para viver, a força do nosso corpo.
  • A força que nos dá a capacidade de interceder no mundo através de poderes supernaturais.

Podemos entender que, vendo de outra maneira, que existe uma parte comum e uma parte especial no axé (aṣẹ́). A parte comum é o aspecto de ser uma energia vital presente em todos os seres e que nos dá a vida. Neste ponto, axé (aṣẹ́) é um elemento básico e comum.

A parte especial é a virtude que recebemos de Olódùmarè a força que temos e a a quintessência que nos permite transmitir isso.

Tudo no àiyé é um ser, não importa se animal, humano, vegetal ou mineral. O que existe tem axé (aṣẹ́) que foi dado por Olódùmarè. O axé (aṣẹ́) é uma força diferente dos quatro elementos, por isso podemos de chamá-lo de quintessência.


O Conceito de quintessência


Este termo, quintessência, pode não ser do conhecimento de todos, mas, o conceito de axé (aṣẹ́) nos remete exatamente ao conceito de quintessência que foi largamente estudada e documentada no século XIX por famosos alquimistas como Francis Barret, Agrippa e Paracelso. A quintessência era a base da alquimia que unia ciência à religião, uma vez que os alquimistas eram religiosos e tinham o conceito de deus na base de tudo o que faziam. Muitos hoje dizem que ciência e religião são opostos, os alquimistas não entendiam dessa maneira.

O seguinte texto é retirado da obra Magus de Francis Barret.

“A alma é a forma essencial, inteligente e imperecível, o primeiro moto do corpo, e move-se por si mesma. O corpo, ou matéria, não consegue ou não se presta a mover-se por si só, e perde muito das qualidades primitivas da alma. Assim, torna-se necessário um meio mais aperfeiçoado. Este meio, entende-se, que seja o espírito do mundo, ou aquilo que alguns chamam de quintessência porque não é formada pelos quatro elementos, mas por uma certa coisa primeira, superior e além deles. Há portanto a necessidade de um meio pelo qual as almas celestes possam unir-se aos corpos densos, agraciando-os com dádivas prodigiosas. …. este espírito transmite todas as propriedades ocultas para as ervas, as pedras, os metais e os animais... este espírito pode nos ser útil se soubermos separá-lo dos elementos ou ao menos usar principalmente as coisas em que abunda...”

Este conceito é a base da alquimia e da cabala divina. Axé (aṣẹ́) é exatamente isto e não estou fazendo um sincretismo. Não gosto de sincretismo e não gosto de comparações, mas, não posso nessa explicação fugir disso. Muito pouca gente estudou esse conceito de supernatural nas 2 religiões para poder fazer essas comparações que estou fazendo.

Não estou trazendo para dentro dessa religião o conceito de outra, estou apenas fazendo um paralelo porque se trata do mesmo conceito e tenho um propósito positivo com isso.

Religiões diferentes, sociedades diferentes e tempos diferentes. Ambas possuem o mesmo entendimento de uma parte do supernatural. Não estamos aqui fazendo equiparações teológicas. A religião Yorùbá usa exatamente o mesmo princípio da alquimia quando trata de axé (aṣẹ́) e dos famosos ébó (ẹbọ), que são liturgias que distribuem, repõem e transmitem o axé (aṣẹ́)..

Eu, pessoalmente, como já disse, odeio explicar alguns conceitos fazendo comparações, tenho como opinião que toda a explicação deve ser original, mas nesse caso estou fazendo isso para acabar com o preconceito em relação a esta religião Yorùbá.

Olódùmarè da a cada elemento um poder original que tem origem nele. Esse poder torna cada elemento único, distinto e útil. O momento em que isso ocorre é aquele onde ele transmite o Emi e já foi descrito anteriormente. A liturgia que ele executa é mais do que apenas dar vida ao corpo é dar o axé (aṣẹ́) ao corpo.

Por essa razão Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá) não pode sozinho fazer todo o trabalho, é necessário que Olódùmarè, após Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá) concluir o corpo, de o sopro de vida ao que era apenas barro como também, e principalmente, transmita sua centelha divina às suas criações o axé (aṣẹ́). Isso não pode ser feito por Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá), somente Olódùmarè pode transmitir o axé (aṣẹ́) e isso mais uma vez explica porque ele, Olódùmarè pode ter o título de ser a divindade suprema da religião Yorùbá.

O momento em que ele faz o mesmo com as demais formas, vivas ou não, não é explicado. Apenas a criação dos homens é definida, mas, devemos supor, por ilação que de alguma forma cada elemento vivo no àiyé recebe de Olódùmarè o seu axé (aṣẹ́).

Vejam o seguinte texto feito por mim por há muitos anos baseado nas ideias da alquimia:

Assim as pedras, metais, animais e ervas tem cada uma sua própria virtude que é herdada das inteligências ordenadoras e este é o ponto que nos interessa. De acordo com este princípio os elementos tem suas características criadas por deus, controladas pelas inteligências e que lhes são transmitidas pelos elementos e astros. Há portanto, uma virtude e um funcionamento em cada uma delas, mas são maiores no astro que as governa ou no elemento que a compõe.

As virtudes são justamente as características mágicas que buscamos nestes elementos de segunda ordem para podermos obter através da transferência destas virtudes para as pessoas nas quais trabalhamos. Assim virtudes não são as características físico-química dos elementos que lhes atribuem a aparência, beleza e valor, mas, sim a sua força mágica que foi designada por deus.

A alma é a forma original e essencial, mas esta precisa ter os seus poderes atribuídos às coisas, e isto se dá através do quinto elemento, ou quintessência, que é transmitido às pedras e cristais através do sol, da lua e dos atros e emprestam a estas as suas propriedades ocultas.

Desta maneira o poder dos elementos é um desígnio divino, criado por deus que é armazenado nestes através do elemento que os influenciam. Sempre será maior no astro que a rege e isto é muito importante e deve ser observado ao se analisar quando e como algo deve ser feito, porque tanto maior será o efeito mágico da pedra quanto intenso for o astro ou elemento que lhe dá a sua virtude.

Por esta explicação de origem alquímica, nós entendemos que os poderes dos elementos lhes são inerentes e dados por deus sendo assim importante sua permissão e autorização antes de serem operados. O operador como parte deste sistema de energia e sendo também em seu corpo um armazenador de virtudes e também do quinto elemento, usa a essência deste último canalizando-o para transmitir as virtudes destas para quem recebe. A pessoa que recebe esta energia vai através da sua própria quintessência transmitir a seu corpo as virtudes recebidas sendo então beneficiado por elas.

É uma explicação complexa mas que unifica as verdades das anteriores bem como estabelece a importância de se entender o papel dos atros e elementos no entendimento da magia das pedras.

Baseado no que já foi dito eu posso dizer simplesmente que os elementos são como baterias que armazenam e concentram a energia da Terra, onde entende-se Terra como o espírito do mundo.


Eu não teria, hoje, uma forma melhor para explicar o que é axé (aṣẹ́).

Os alquimistas foram mundanamente conhecidos por buscar transformar chumbo em ouro. Eles o faziam, mas não compensava, porque para transformar um metal em outro você precisava primeiro capturar as propriedades do material original, através do processo alquímico que eles desenvolveram e depois transmitir para o outro metal. Mas o processo não compensava a quantidade resultante era equivalente a inicial, assim não compensava fazer isso.

Mas a alquimia não se resumia a isso, transformar metal, e sim capturar as propriedades dos materiais e transmitir para outros. O foco da alquimia era a pedra filosofal que servia para muitas coisas inclusive trazer saúde e vida.

Alquimia era a ciência de entender como deus criou o mundo e usar o poder que deus deu às coisas para trazer benefícios para a humanidade. Um alquimista era um cientista de deus, assim como o é um Babalawo.

Na religião Yorùbá fazemos o mesmo processo. Entendemos as criações de deus, de Olódùmarè, capturamos o axé (aṣẹ́) das coisas e transmitimos para os seres que necessitam dele. Esta é a essência do que fazemos nas liturgias reparadoras.

Mas vamos deixar os alquimistas para trás, já serviram para ajudar na explicação que interessa aqui e nos aprofundar na forma como usamos o axé (aṣẹ́).

 

O objetivo das liturgias


A ideia de axé (aṣẹ́), repito sem exageros, é o núcleo desta religião. Todo elemento da terra tem axé (aṣẹ́), ele é um elemento necessário para a vida e a sua falta, ou excesso é o que nos traz problemas, sejam eles de saúde, mentais e mesmo de sorte na nossa vida.

É fácil entender que, o que nos traz desequilíbrio é aquilo que nos prejudica. Trazer de volta o equilibro para nossa energia e por consequência para nossa vida, é o que e as liturgias da religião Yorùbá fazem através de suas operações, os Ebó (ẹbọ) e as oferendas votivas.

Fica assim desvendado o primeiro mistério sobre as liturgias do Candomblé. Todos eles, sem exceção, são voltados para trazer o equilíbrio ao axé (aṣẹ́). O resto necessário para solucionar os seus problemas, você faz sozinho. Qualquer objetivo que as pessoas se disponham a realizar, através das liturgias, além deste não é mais religião é uma pratica qualquer.

O que permite as liturgias atingirem esse objetivo é porque o axé (aṣẹ́) como força mágico e sagrada tem muitas algumas propriedades importantes que vou explicar aqui. A primeira delas é que ele pode fluir entre os elementos, de maneira que você pode transmitir ou repor.

Ele pode ser coletado de uma fonte e aproveitado em outra, repondo a energia vital de quem necessita ou utilizando a virtude divina, que traz uma propriedade adicional e necessária para a pessoa que recebe, e que o elemento cedente possui. Folhas, por exemplo, são conhecidas por suas propriedades terapêuticas.

Todos os elementos, dos minerais aos animais, são fonte de axé (aṣẹ́) de diversas naturezas e tipos de uso. Em alguns casos precisamos deles como fonte da energia vital em outros precisamos da virtude especial que eles tem, que lhes dá um caráter terapêutico único, seja para questões naturais como supernaturais.

Vejam, essa última frase é simples, pode ter passado despercebida, mas é muito importante. Através das liturgias podemos endereçar tanto as questões ligadas a problemas naturais, como doenças, como também problemas ligados a alma e espírito que pertencem ao supernatural. A religião vê o ser humano de uma forma holística e tem uma concepção mais ampla do que por exemplo a medicina e outras ciências tem que somente conseguem ver as questões naturais. Lembro que muitas culturas orientais, ligadas ou não a religiões, também tem uma visão mais holística do nosso ser.

Mas religião não substitui medicina e muito menos concorre com ela. Apenas podemos endereçar coisas naturais quando elas também tem causa em questões supernaturais. Ao removermos a raiz do problema, resolvemos ou ajudamos a resolver as consequências, que são as manifestações visíveis.

A intensidade dessa força vital, o axé (aṣẹ́), nos seres vivos pode variar, aumentando ou diminuindo. Ela é sujeita a erosão do tempo e do seu uso contínuo e direcionado. Quando isso ocorre o elemento que o contêm perde sua energia. No ser humano a perda de axé (aṣẹ́) poderá levar a enfraquecimento, doenças, desequilíbrios emocionais e físicos.

Esses desequilíbrios e doenças é que trazem os problemas e desestabilizam a vida da pessoa. Eles são a causa raiz. Os problemas que você passa advém das consequências da sua perda de axé (aṣẹ́), são sintomas. É como um dominó. Uma primeira pedra é derrubada e esta pedra derruba a próximo e esta a próxima e assim vai.

O que fazemos na religião e no nosso oráculo não é olhar para as últimas pedras que foram derrubadas e sim para a primeira, a que derrubou todas as demais.

Não adianta nada você gastar esforço para colocar as últimas peças do dominó em pé se o problema tem origem bem antes. Você coloca ela em pé isso dura um tempo e logo depois elas vão cair de novo.

É neste momento entra em ação o oráculo da religião, seja o de Ifá como o eerindinlogun.

Na religião Yorùbá é o oráculo que se encarrega de detectar o problema que causa a perda ou excesso de axé (aṣẹ́) e também de indicar as liturgias que são necessárias para fazer o seu equilíbrio.

O oráculo religioso não é um instrumento de previsão do futuro ou de solução de problemas. Essencialmente é um instrumento para detectar e devolver o equilíbrio do axé (aṣẹ́) das pessoas.

Lembre-se que nesse momento trabalhamos com 2 princípios, o primeiro é a reposição de energia vital ou o seu equilíbrio. O segundo é que os materiais possuem as virtudes especiais, aquelas propriedades divinas e que serão obtidas através da liturgia, transferindo elas para a pessoa que precisa.

O processo não é apenas uma operação de “ligar você na tomada” para repor sua energia. Passa por mais coisas. A primeira é a questão das virtudes e que determina por exemplo os materiais que serão usados e o que processo será utilizado. Essas virtudes trazem coisas que precisamos para resolver os problemas.

Se você entendeu até aqui, ótimo, caso contrário reveja o texto para ter certeza que esta compreendendo o que é o axé (aṣẹ́), o que eu chamo de virtude, como o axé (aṣẹ́) se caracteriza (os tipos) e como ele é obtido e usado.

As liturgias, além de reporem a nossa energia e usar as virtudes especiais dos materiais que fazem parte de cada procedimento, lançam mão ainda 2 outras coisas, a primeira é a atuação do divino, ou seja das divindades, e a segunda é a ação da magia que pode mudar coisas no mundo natural.

Um sacerdote não é um médico. Ele é um religioso, mas, como já disse a religião tem uma visão holística de nossa vida e corpo. Entendemos que ao restabelecer o equilíbrio das energias do nosso corpo, ao repormos o axé (aṣẹ́) e ao eliminarmos as causas que levam a essa perda, estaremos dando condições para que o próprio corpo se reestabeleça.

Isso é feito com a ajuda divina, de Olódùmarè e também usando as fontes de axé (aṣẹ́) que Olódùmarè colocou no Àiyé, uma vez que, como já expliquei, não podemos criar axé (aṣẹ́) do nada, temos que obtê-lo de uma fonte natural.

O oráculo é o instrumento que o Bàbáláwo usa para fazer isso. Esta é uma explicação bastante visceral de um oráculo, mas, acreditem, é isso mesmo.

É o entendimento desta religião que o axé (aṣẹ́) deve ser equilibrado. Tudo é feito para que este equilíbrio seja atingido e que a pessoa possa desta maneira levar sua vida de forma normal, superando com força, determinação, trabalho e persistência os seus obstáculos e perseguindo os seus objetivos.

Nas liturgias e oferendas. Os materiais usados são a fonte do axé (aṣẹ́) que será transmutado e transmitido na forma da quintessência. As divindades não comem as oferendas e muito menos precisam delas, nós precisamos. A escolha dos materiais e elementos depende da finalidade e também da divindade, cada divindade tem afinidade com determinados tipos de elementos.

Quando realizamos um Ebó (Ẹbọ) não estamos fazendo um processo científico, tudo na religião é feito através das divindades, dos orixá (Òrìṣà), que foram as divindades colocadas por Olódùmarè para cuidar da gente aqui no àiyé. A realização da liturgia e a conversão das oferendas votivas em axé (aṣẹ́) depende da intervenção do divino. São as divindades que intercederão por isso.

Veja, os próprios alquimistas também trabalhavam com o mesmo princípio. No que pese uma aparente base científica no que eles faziam, de fato nada aconteceria sem o divino, sem a intervenção de deus e dos anjos.

O sacerdote é uma pessoa preparada para fazer o que faz, e vou falar sobre isso mais adiante. Mas, mais do que somente ele, o divino atua junto com ele e através dele para que as coisas funcionem.

Dessa forma, mais do que estarmos repondo energia perdida e usando virtudes, é o divino que a partir de nossas orações e de sua presença constante faz com que isso funcione e atue da maneira adequada, nós, somos intermediários entre o àiyé e o Órun (ọ̀run).

É importante lembrar, por fim, que Ebó (ẹbọ) é uma palavra meio genérica, que é usada para mais de uma coisa (estilo Yorùbá...). Assim pode ser uma oferenda ou uma liturgia. Oferendas sempre são usadas para dar axé (aṣẹ́) que será usada para a pessoa ou para alguma ação de magia. Os Ebó (Ẹbọ) pode ser procedimentos para retirar energias negativas, dar energias positivas, retirar excesso de energia positiva ou usar as virtudes com objetivos terapêuticos seja para o corpo ou para a alma.

 

O axé (aṣẹ́) e os materiais


Não conseguimos gerar axé (aṣẹ́) do nada. Temos que obtê-lo de uma fonte deste mundo. Axé (aṣẹ́) é uma exclusividade de Olódùmarè. Neste momento entra a nossa ética e sistema de valores para balizar as escolhas. Como eu disse, tudo o que existe é criação de Olódùmarè, somos mais uma delas e Olódùmarè não tem preferencias.

Não é verdade que a religião Yorùbá seja baseada no uso de animais como fonte de axé, isso é uma tolice. Animais são muito caros e vida se trata com respeito, mesmo que seja para ajudar a outra vida. O que se faz é de uma religião inteira, complexa e com conceitos extremamente positivos pegar apenas um detalhe e usá-lo de forma arbitrária e questionável. Isso, principalmente, vem de religiões que são extremamente pobres na forma de ver a felicidade da vida das pessoas na terra.

Os materiais usados na religião Yorùbá são esmagadoramente grãos, frutos, castanhas, raízes e principalmente folhas. Tudo isso nesta religião é sacrifício. Sacrifício é o ato de usarmos uma coisa com o objetivo de dar a outra. Assim sacrificamos folhas, sementes, castanhas, vegetais, legumes e inúmeros outros materiais. Tudo isso é sacrifício e é usado para obter energia vital e virtudes.

Seres vivos também são portadores de axé (aṣẹ́), um tipo bem especial e intenso. Em alguns casos essa fonte é necessária. Mas isso não é o comum, é bem especial e seu uso litúrgico ocorre em casos especiais e para pessoas especiais. O seu uso como fonte de axé (aṣẹ́) é necessário, mas, por inúmeras razões deve ser criterioso.

Muitos podem, neste momento, dizer que estou diminuindo a proporção das coisas e tapando o sol com a peneira. Não, não estou. O problema é que existem coisas que a maior parte das pessoas desconhece ou não quer ver.

A primeira coisa é que não sendo você vegetariano, e existem muitos poucos que o são, você consumirá diariamente bastante proteína animal para viver. Milhões de animais são sacrificados diariamente para atender a sua vontade ou preferência de consumir proteína animal. Esses sacrifícios são feitos, então, porque você come proteína animal. Animais são criado exclusivamente para serem consumidos, vivem em condições desumanas e são sacrificados ainda em procedimentos péssimos. O mercado de carnes especiais gera um pocesso de tortura na criação dos animais.

As pessoas fingem que isso não existe e cinicamente acham que os frangos já nascem congelados ou o boi já nasce fatiado. Essas pessoas são as primeiras a se levantar porque por acaso isso é feito de forma muito mais decente dentro de uma religião. Se levantam por nada, apenas por preconceito, porque elas não fazem piquete na frente de um abatedouro de frango ou de animais.


Ja ouvi gente dizendo que não se incomoda com isso porque ele não ve os animais sendo mortos, somente vê eles prontos no supermercado. Isso me parece hipocrisia. Não se preocupam com os animais que comem mas se dão ao trabalho de se preocupar com uma religião que por acaso abate os animais que consome.

Inúmera religiões incluem em seus rituais o uso de animais. Os judeus fazem isso seja como liturgia ou no seu dia a dia. A comida kosher é prepara liturgicamente por sacerdotes e os judeus as compram para o seu dia a dia. Algumas tribos judaicas até hoje fazem sacríficos litúrgicos a deus, a Jeová, o mesmo deus dos católicos. Chama-se Holocausto. Somente as tribos que usavam o templo de salomão pararam de fazer sacrifícios com regularidade, mas tribos como os Samaritanos, nunca usaram o templo de Salomão e por isso nunca interromperam. Os frangos abatidos no Brasil e exportados para os árabes passam um por uma liturgia para que esse sacrifício seja feito da forma como a religião requer. Os católicos sacrificaram inúmeras pessoas acusadas de heresia ou bruxaria em nome de seu deus. Dezenas de outras religiões usam as oferendas como forma de compartilhar sua prosperidade com deus.

Assim, nesse mar de casos, quando se fala da religião Yorùbá, como o Candomblé, a única coisa que as pessoas lembram é que também se faz a mesma coisa que os outros fazem. Nada mais interessa. Parece que as pessoas nesta religião vivem para matar bichos.

Existem um fator que poucos conhecem e é bem simples. Muitas casas incluem o uso de animais em trabalhos apenas porque as pessoas precisam comer carne. Só por isso.

Entenda dessa maneira, consumir carne não é crime, somos onívoros e comemos vegetais e carnes. Uma casa, as vezes sustenta muitas pessoas e os trabalhos que são feitos, principalmente para clientes (pessoas externas à casa) servem majoritariamente para repor a dispensa da casa. Parece engraçado e é mesmo. Os não membros de uma casa pagam para a subsistência das pessoas da casa, nem sempre com dinheiro, também com dinheiro, mas principalmente com materiais que são usados no que é pedido.

Uma casa de candomblé, principalmente as mais antigas e tradicionais, tem dentro delas uma grande comunidade de pessoas descendentes dos fundadores. Essas pessoas vivem ali e as vezes somente se dedicam à religião, como os monges e freiras. Essas pessoas precisam comer diariamente. Um dos principais motivos de uma casa abrir suas portas para atender, através do jogo de búzios, clientes, é para ter dinheiro e alimento para essas pessoas.

As pessoas então tem a impressão de que animais sempre são incluídos ou fazem parte do Candomblé, não fazem, na maior parte dos casos são acessórios colaterais, não seriam necessários.


Deixando de lado essa questão dos animais, o axé (aṣẹ́) será coletado de folhas, sementes, castanhas e alimentos crus ou cozidos. Quase tudo é fonte de axé (aṣẹ́). A escolha de cada um desses materiais e a sua combinação esta ligada a necessidade, a virtude que eles tem e à divindade que intercederá pela pessoa.

Cada divindade tem um conjunto de materiais que são parte da sua afinidade e outros que não. A maior parte dos materiais é comum, mas, existem tanto uma lista de preferência como de proibições.

As folhas são um dos materiais mais importantes na retirada do axé (aṣẹ́) e também mais poderosos. Praticamente nada se faz sem folhas ou sementes. Cada folha tem uma finalidade litúrgica que faz com que elas sejam usadas na forma bruto ou através do seu sumo.

Existem pessoas que defendem que tudo pode ser resolvido apenas com folhas. Esse é uma questão antiga e em Ifá consideramos que o sacrifício é mais forte do que as folhas e que sem o alimento do sacrifício as pessoas perecem. A verdade é que sem folha não existe resultado certo.

 

O axé (aṣẹ́) e as Iniciações – O poder que se ganha




Além da questão de repor o axé (aṣẹ́), que eu já comentei muitas vezes, temos também as virtudes, ou poderes, que podem ser transmitidos de um material para outro. Não se trata de repor a energia perdida mas de ganhar um tipo de energia e poder que a pessoa não tinha, vinda de outra pessoa ou elemento dando a essa nova pessoa uma capacidade que ela não possuía, trata-se do axé (aṣẹ́) transmitido.
Liturgias e iniciações tem esse efeito de transmitir axé (aṣẹ́) e qualidades. Um sacerdote passa por um longo processo iniciático onde gradualmente irá receber poderes e capacidades que não tem. Esses poderes serão as ferramentas de seu trabalho no seu dia a dia.

Toda liturgia feita por um sacerdote é um processo complexo que envolve a fonte de axé (aṣẹ́), a sua capacidade de operar com isso (o axé (aṣẹ́) que ele possui) e a participação do divino que o suporta e auxilia nesta tarefa.

A capacidade de fazer determinadas liturgias e de ser este intermediário na transmissão do axé (aṣẹ́) enquanto energia, é um axé (aṣẹ́), uma virtude que se adquire através do processo de iniciação e formação.

Da mesma forma como se é intermediário na transmissão do axé (aṣẹ́) também o sacerdote, ou operador da liturgia, transmite o seu próprio axé (aṣẹ́). A pessoa que faz é também afetada pelo procedimento. Isso vai requerer que ele também se submeta regularmente a um processo de reposição e equilíbrio, essas pessoas não estão acima da lei natural que rege todas as coisas. O trabalho delas gera um desgasta continuo que deve ser corrigido sob pena de esta própria pessoa se prejudicar.

Os processos iniciáticos que existem dentro da religião Yorùbá tem como objetivo preparar o iniciado e futuro sacerdote para poder atuar como o intermediário entre o Órun (ọ̀run) e o àiyé, na manipulação do axé (aṣẹ́) e da energia dos Odù que é uma outra forma de energia divina que é explicada em outro texto. Para poder ser o intermediário dessas operações de magia, transmutação, condução e transmissão de axé (aṣẹ́) o operador necessita algumas vezes receber capacidades e habilidades que são transmitidas por outra pessoa.


Este é outro conceito muito importante na religião o do axé (aṣẹ́) transmitido. O axé (aṣẹ́) enquanto virtude e capacidade litúrgica para lidar com o divino deve ser transmitido de pessoa a pessoa. Um sacerdote pode ter nativamente algumas capacidades, isso esta ligado a sua herança pessoal e familiar, ao seu orixá (Òrìṣà) e ao seu destino na vida. Mas, outras capacidades necessárias para lidar com essas energias divinas devem ser transmitidas de outra pessoa que já as possui. Isso é necessário devido a estarmos lidando com forças supernaturais poderosas e para segurança das pessoas que recebem o que ele faz e eficácia do que ele faz é necessário que a pessoa receba o axé (aṣẹ́) para poder trabalhar.

O que estou dizendo é que uma pessoa para poder operar com o divino, ser o operador, seja Bàbálorixá ou Bàbáláwo, deve ter o axé (aṣẹ́) necessário para isso, e isso é parte de um processo iniciático e hereditário. O sacerdote fará parte de todo uma linhagem de outros sacerdotes. Essa herança na forma de axé (aṣẹ́) é a virtude de Olódùmarè que ele deve possuir para poder operar com as energias de axé (aṣẹ́) e de Odù.
Não se pode dar o que não se recebeu.

Essa é uma frase muito simples mas que resume extremamente bem o que estou explicando. A pessoa precisar receber o axé (aṣẹ́) que vai transmitir. No caso do sacerdote que vai fazer liturgias mais complexas do que as oferendas votivas, ele precisa ter recebido o axé (aṣẹ́) para proceder aos Ebó (Ẹbọ) e sacrifícios. Ele não pode se autodoar esta capacidade. Na maior parte dos casos ele mesmo erá que ter passado pelas liturgias que vai executar.


É verdade que algumas pessoas já nascem com algumas capacidades, mas isso não cobre tudo o que é necessário. É a iniciação que molda e complementa esta capacidade dando a essa pessoa a virtude divina na forma de axé (aṣẹ́). Além disso a pessoa precisa adquirir conhecimento para fazer as liturgias.

Se submeter a liturgias e Ebó (Ẹbọ) com pessoas que não tenham recebido isso, que não tenha ganhado o axé (aṣẹ́) para fazer isso é se submeter a um processo instável com uma pessoa que pode não ter nem o conhecimento nem a capacidade de fazer o que se propõe. Você se arrisca a jogar tempo ou dinheiro fora e pior, piorar sua situação.

 

O axé (aṣẹ́) nas palavras e símbolos


Como na alquimia, a religião Yorùbá deposita axé (aṣẹ́) nas palavras orações e selos.

O processo de Ifá é baseado em versos que invocam forças primordiais do supernatural. As palavras tem axé (aṣẹ́) e devem ser faladas e voz alta. Nomes são importantes e as orações são fundamentais para a ligação Órun (ọ̀run) e àiyé.

Esse princípio de que palavras e orações tem poderes mágicos existem em muitas religiões. Os mantras são baseados nisso, os encantamentos são baseados nisso também. Os Yorùbá entendem que palavras são pronunciadas por nós e transportam nelas o nosso axé (aṣẹ́).

Outro aspecto são os símbolos ou selos. Eles estão presentes em Ifá e não no culto de orixá (Òrìṣà). Ifá baseia o seu processo de magia e energético nas orações, palavras na forma de versos e também nos símbolos gráficos dos Odù. Esses símbolos são “selos” que invocam a força divina. Nesse caso não podemos dizer que seja axé (aṣẹ́) eu prefiro qualificar como um outro conceito de energia divina que não vou explorar aqui.

Veja o axé (aṣẹ́) esta presente em nós, seres e objetos, sua fonte e uso é como já foi descrito, mas, existe uma força adicional que é o poder divino, o poder que tem os orixá (Òrìṣà) para interferirem no nosso mundo e que vem junto com os Odù e invocados através das marcas de Ifá.

 

A magia como parte da religião



Magia é transformação; Transformação é magia; Toda magia é mudança; Toda a mudança é magia. (Scott Cunningham)

As soluções de magia, através do axé (aṣẹ́) são possíveis, mas, não são o foco da religião, são um efeito colateral da manipulação do axé (aṣẹ́).

Magia é um processo natural de se lidar e trabalhar com elementos e energias naturais. Podemos considerar que uma magia é realizada quando efetuamos uma modificação de qualquer condição no mundo através de um ritual. Isto não é nada mais do que você focar o seu desejo na intenção de alguém ou alguma coisa e mobilizar o supernatural para isso.

Essa religião acredita em magia como um poder inerente de todos nós, como uma capacidade dos orixá (Òrìṣà) e um instrumento legítimo de uso. É algo que Olódùmarè nos deu e devemos usar para ter uma vida melhor.

Não existe nada de engraçado e pequeno nisso. Pequeno é quem não acredita em magia, quem acha que o mundo é apenas o natural e que a razão e física dirigem o mundo. Essas sim são pessoas pequenas ante a grandiosidade do mundo criado por Olódùmarè. Não entenderam onde vivem.

O uso da magia é um processo legítimo de nos socorrer em nossas necessidades. Ela é feita através da manipulação do axé (aṣẹ́) e do poder dos orixá (Òrìṣà). Lembro a todos que esta religião estabelece que vivemos no àiyé porque queremos. A gente vive para ser feliz e não para sofrer. A divino nos assiste nessa caminhada de vida nos ajudando a ser felizes. A magia é parte disso.

Através do processo de aquisição e manipulação do axé (aṣẹ́) podemos obter resultados que modifiquem a realidade. Isso é feito para o nosso bem. As liturgias além de buscarem o equilíbrio da pessoa também buscam sua felicidade. A felicidade é o objetivo final os demais são meios e insumos para isso. Neste sentido restaurar a capacidade do indivíduo viver e autonomamente é uma prioridade e também o uso da magia como forma de remover obstáculos e situações negativas.

A ética da religião e dos orixá (Òrìṣà) determinam o que pode ou não ser resolvido por magia. Existem coisas que nos mesmos plantamos e trouxemos para a nossa vida. Essas coisas vamos ter bastante trabalho para nos livrar porque boas ou más elas nos pertencem. Passamos anos criando aquela situação ou aquele problema e depois queremos que umas bolas de farinha resolvam? “Nem a pau”

Outros problemas ou situações não nos pertencem, foram trazidas por outras pessoas ou por situações normais da vida. Essas serão mais facilmente resolvidas pela Magia.

Atentem que desde tempo muito antigos a magia sempre esteve presente na civilização humana. Magia não significa malefício. O Malefício é quando você traz o mal ou o prejuízo de outra pessoa. Na Inglaterra pre-inquisição, antes do século XV, a magia era uma pratica corrente e visava a saúde das pessoas e o seu bem. Nunca foi um crime. O crime residia no malefício causado a outras pessoas. As feiticeiras poderiam ser processadas e presas por causa do malefício causado pela sua magia.

No caso da religião Yorùbá temos a mesma coisa. Temos o processo visando o bem, mas, podemos ter pessoas que usam dos mesmos elementos e instrumentos para causar o mal a outros ou fazer atalhos na vida das pessoas que os pedem causando para isso problema para outros. Essa é a prática que é usada pelas pessoas que transformam em comércio a sua religião.


O malefício não é objetivo ou parte desta religião. Se ele ocorre é por desvio de ética de quem se propõe a fazê-lo e o desvio existe em quem faz e em quem pede, de forma igual. Os 2 são pessoas ruins.

A energia nuclear, por exemplo, pode ser usada para o bem, gerando perenemente energia para alimentar cidades, mas, também pode ser usado como elemento destrutivo. Assim foi com outros elementos como a pólvora, nitroglicerina, combustíveis, etc..

Um desvio negativo ocorre quando o crente ou sacerdote passam a ver isso como a única coisa que fazem dentro da religião. Sem dúvida a prática desta pessoas deverá, sim, ser considerada fetichista e animista. Sempre será assim quando a pessoa não se ligar aos elementos de mais alta ordem e ficarem apenas com só elementos menores.

Nesse caso podemos esquecer a pratica da religião e considerarmos que existe ali apenas a comum, corriqueira e baixa feitiçaria. As casas de Candomblé abrem suas portas para ajudar pessoas que não sejam membros no sentido de obterem dessa atividade uma fonte de renda e subsistência para suas atividades e membros. Mas o que ela deve oferecer é a ajuda, o bem, a saúde e a recuperação da esperança na vida.

Em princípio uma casa de orixá (Òrìṣà) deve se focar nos seus membros e no bem deles. Os membros devem sustentar a casa e mantê-la funcionando e a casa deve presar pelo bem dos seus membros. Em alguma escala e alguns casos a abertura da casa para não seguidores é necessária, mas, isso não deve ser a regra.

Nos dias de hoje as pessoas tem acesso a educação e formação e normalmente terão um emprego para mantê-las sem que a religião seja a sua única fonte de receita. Pessoas que se dizem Babalorixá e não tenham sido capazes de ter uma profissão para mantê-las e a casa que construíram devem ser vistas com muito cuidado, porque podem apenas ter uma fachada de religião para sustentar os seus feitiços.

No caso de Bàbáláwo é bem distinto. Eles não são do culto de orixá (Òrìṣà) e seu objetivo a atender às pessoas comuns.

terça-feira, junho 04, 2013

O Cosmo Yoruba

Introdução

Os Yorùbá desenvolveram uma religião própria e distinta, a religião Yorùbá. Não existe um nome especial para ela, alguns podem chamá-la de Religião Tradicional Yorùbá, é uma opção, mas esse nome é normalmente aplicado a uma das tradições religiosas existente (mais à frente vamos abordar a questão das tradições religiosas). A religião Yorùbá é original e autêntica e não tem vínculo com nenhuma outra religião existente.

A manifestação Yorùbá não pode ser confundida com os sincretismos com o catolicismo que foram feitos nas tradições religiosas originadas na diáspora, e mesmo nas terras Yorùbá, que confundiram os seus conceitos teológicos com os do catolicismo. O sincretismo foi um processo temporário, uma consequência do próprio processo de dominação escravagista e esta gradualmente e aceleradamente sendo eliminado.

A religião Yorùbá tem conceitos teológicos próprios. Possui uma cosmogonia bem definida, uma teogonia documentada, uma teodiceia distinta e um conjunto que oferece uma teologia rica. A gênese Yorùbá é original, sem similar com a de outras religiões. Suas liturgias são complexas e voltadas para o bem da pessoa e da comunidade. A religião oferece às pessoas uma visão clara do sentido de sua vida, do motivo de seu nascimento, ao sentido do que deve fazer em vida e ao seu destino após sua morte. Ela possui valores definidos que conduzem a formação de uma ética e de valores morais.

Este conjunto permite considerarmos a manifestação Yorùbá como uma religião própria e autônoma. Ela não depende de conceitos e práticas de outras religiões. Com uma teologia independente ela oferece a seus seguidores um modelo metafísico próprio.

Essa riqueza conceitual permite-nos a definirmos como a Religião Yorùbá sem qualquer vínculo que possibilite ser considerada um culto ou uma seita. Esses 2 adjetivos devem ser considerados como pejorativos.

Na religião Yorùbá o mundo natural recebe o nome de Àiyé e o espaço supernatural de Órun (ọ̀run). Atentem que, traduzir o Àiyé como terra, o planeta, é uma opção liberal. Mas traduzir o Órun (ọ̀run) como “céu” é uma maior ainda. O correto é entendermos como o mundo natural e o supernatural.

Toda religião estabelece uma concepção metafísica da existência como um todo e entender essa concepção é importante para entender qual a proposta que a religião estabelece para a vida das pessoas. Compreender a proposta de vida que a religião oferece é o que interessa em uma religião e o Cosmo é uma parte deste entendimento.

As concepções metafísicas das religiões variam, mas, com muitas similaridades entre si. Não existe sentido buscarmos saber qual é a concepção que corresponderá a realidade, o que importa é sabermos qual a concepção na qual acreditamos, ou melhor, qual concepção nos dá mais conforto para viver.

O divino Yorùbá é uma estrutura bem elaborada, apesar de complexa, porque em alguns aspectos, é pouco detalhado ou preciso (deixa lacunas). Contudo, ela é equivalente a das religiões mais conhecidas, populares e bem elaboradas do mundo. A religião Yorùbá esta longe de ser um modelo fetichista ou animista, como muitos quiseram caracterizar. Esta religião oferece um modelo consistente e previsível que permite a qualquer pessoa entender e se relacionar com ele.

Se esta religião tivesse tido o trabalho teológico de construção que teve o Catolicismo, por exemplo, seria um fenômeno mundial, e sem muito esforço. O trabalho feito em cima do catolicismo foi titânico a partir da invenção feita por Paulo de Tarso, que criou uma religião a partir de sua própria interpretação.

Entretanto, se a religião Yorùbá é tão boa assim, como eu digo, por que foi abandonada na sua região de origem? A terra Yorùbá, sendo suplantada largamente pelo cristianismo e pelo islamismo?

Não sei, não sou estudioso disso. Os locais, Yorùbás podem responder. Eu posso apenas especular. Primeiro lembro que essas religiões abraâmicas, assim como o Budismo, são as ditas religiões universais. Não oferecem grande dificuldade de adoção. Tem um divino bem estabelecido e bem documentado. O proselitismo sobre elas é fácil.

As religiões semitas, como seu modelo monoteísta, exerce sobre o religioso e crente esta motivação em espalhar sua crença em detrimento a outras crenças. Devemos lembrar que a violência religiosa sempre esteve associada às religiões semitas.

Poderia elencar mais algumas possíveis causas aqui, de menor relevância talvez, mas será apenas especulação minha.

A realidade é que, como em todo o mundo, o proselitismo das religiões semitas é um rolo compressor e passou por cima da bem estabelecida e original religião Yorùbá. Já ouvi uma tese que diz que a diáspora negra não foi por acaso, e que se não fosse por ela os orixá (Òrìṣà) não teriam se preservado como divindade religiosa.

Sem dúvida não podemos negar que se dependesse apenas da preservação da religião na terra Yorùbá ela já estaria perdida.

O modelo teológico Yorùbá será explicado, neste texto, da forma estruturada. O objetivo a ser atingido é o de eliminar confusões e má interpretações e possibilitar que as pessoas, através do entendimento do modelo teológico Yorùbá, possam praticar o significado da religião em suas vidas de forma plena,

Como toda proposta, esta pode não agradar a todos, mas, é resultado de uma longa e cuidadosa avaliação, com cruzamento de fontes, análise e busca de coerência. Nada esta sendo inventado, apenas esta religião esta sendo tratada com o respeito e a originalidade que ela merece.

Eu me lembro de uma discussão entre Pierre Verger e a Juana Elbein quando esta lançou o livro Os Nago e a Morte. O Verger foi caustico em suas críticas através de um artigo chamado Etnografia religiosa Yorùbá e probidade científica. Ele colocou a Juana no mesmo nível de péssimas referência de autores dos primórdios das publicações sobre o povo Yorùbá.

Sob o aspecto técnico as críticas deveriam ser válidas, mas, ele foi injusto ao equiparar ela a outros muito piores e mais mal intencionados do que ela. Aliás Verger fez um bom trabalho de analisar referências bibliográfica para entender de onde vieram interpretações equivocadas sobre o povo e a religião. Ele buscou a origem de equívocos que foram copiados sucessivamente depois por outros autores, inclusive brasileiros, como Nina Rodrigues.

Mas, a Juana não se deu ao trabalho de responder às críticas de Verger. Ela apenas resumiu de forma muito objetiva e, na minha visão brilhante, que ela e o Verger tinham formas distintas de ver a religião. Ela via a religião Yorùbá como uma coisa maior, mais complexa e densa e ele Verger a tratava como uma religião menor, um animismo.

Minha visão é que as críticas de Verger eram válidas, mas, se atinham a aspectos bem específicos que poderiam, sim, serem erros de interpretação e também as famosas pegadinhas linguísticas Yorùbá. Contudo, concordo mais ainda com a Juana em relação a forma como o Verger via a religião. Basta ver seus livros. Ele descreve coisas que viu, mas, não analisa ou explica. Ele não busca um contexto maior, não oferece uma visão mais abrangente e não transmite ao seu leitor a riqueza teológica da religião. A Juana se dispôs a ver isso de forma distinta e fazer o mesmo que outros autores também o fizeram como Parrinder, Mbiti, Idowu e Awolalu.

O divino Yorùbá, naturalmente e sem esforço, oferece a quem é confuso ou quer criar dificuldade (para vender facilidade), uma ampla possibilidade de atuação, em função da natureza elástica da quantidade de divindades e da complexidade de ritos.

Muitas pessoas se preocupam com isso, em explorar a quantidade e criar para cada uma delas uma complexidade própria. Na maior parte das vezes, inventada, com grande riqueza de detalhes. Assim descrevem a religião como um enorme “panteão” de “deuses” e se perdem em uma infindável colcha de retalhos tentando explicar a religião. Não conseguem, de fato. Conseguem se confundir, confundir as pessoas e com isso gerar uma complexidade sem utilidade.

Vamos assim mudar essa abordagem viciada “de baixo para cima” e procurar entender a religião “de cima para baixo”. A abordagem mais comum é aquela que erroneamente tenta explicar a religião a partir dos orixá (Òrìṣà). Não é possível. Os orixá (Òrìṣà) são a ponta final, a vanguarda de todo o contexto metafísico e teológico da religião Yorùbá.

Você consegue explicar a alguém o que é uma pessoa ou o que é uma vida através dos seus dedos ou mãos? Você consegue explicar a alguém o que é uma corrida ou o trabalho de uma equipe mostrando a chegada de uma prova? Você consegue explicar o que é o futebol mostrando apenas os gols de uma partida?


Erros de terminologia

A religião Yorùbá tem sido rotulada erroneamente de diversas formas. Eu quis iniciar afirmando inicialmente a questão de politeísmo e paganismo, porque, sem dúvida, é talvez a mais importante consideração, mas existem outros erros de terminologia que são usados. Eu vou desconsiderar perder o nosso tempo falando de fetichismo.
 

Idolatria

Esta e outras religiões não cristãs (sempre isso...) são pejorativamente rotuladas de idólatras ou idolatrias. Essa afirmação, sem dúvida, é feita em função do próprio tratamento que a religião judaica da a esta questão dos ídolos como uma expressão negativa. Uma das mais importantes passagens do livro Judeu descreve Moises quebrando a tábua dos 10 mandamentos porque os Judeus haviam se voltado para o cultos a seus antigos deuses com, Ídolos.

Ídolo é uma palavra que tem origem no grego eidõlon. É usada para significar a representação entre a não existência e a realidade, uma imagem copiada da coisa real, uma sombra da real existência. Literalmente a palavra é aplicada para formas, imagens ou fantasmas. Uma imagem na mente, uma ideia, um espectro ou fantasma do que é real.
Sem dúvida nenhuma, a palavra significa a representação no mundo real de uma coisa que não existe, que não é real e que é real apenas na mente humana.

O maior problemas com o emprego dessas terminologias é o uso das palavras sem se ater ao seu significado original. James Bisset Pratt, um ateu, autor de alguns livros de referência sobre religião, assume que qualquer religião que faça uso visual, material de objetos na sua cultura é uma idólatra, ou, ainda, o que uso intenso disso é idolatria.

Acredito que esta opinião influenciou muita gente.

Se formos nos ater a esta definição, de J.B.Pratt, todas as religiões são idólatras e a Católica, uma das maiores correntes da religião Abraâmica será completamente Idólatra, talvez a mais idólatra de todas. Além da parte risível dessa consideração, podemos usar o bom senso e questionar se, a palavra “idolatria” pode ser aplicada para descrever toda uma religião.

A maior parte das religiões que fazem uso de “ídolos” (objetos e imagens), apenas utilizam como uma referência para demarcar um espaço sacro. A presença de símbolos da religião, quaisquer que sejam, de imagens a figuras, em um local comum, para o crente torna aquele lugar diferente do lugar mundano, separa o espaço sacro do secular.

As imagens, símbolos e gravuras ou ídolos, como devemos também chamar, são um elemento na ritualística da pessoa se desligar do mundano e entrar no seu mundo sacro. Assim junto com velas, incensos, essências, rezas e mantras, vão compor a ritualística que permite a pessoa transpor da realidade para a transcendência.

Não podemos, jamais, afirmar que, hoje em dia, que pessoas ao se prostrarem ante seus símbolos estejam supondo que o sagrado, o divino esteja naquelas imagens e objetos. Uma coisa é você rezar para o divino na frente de uma imagem outra é você rezar para aquela imagem.

Nesta parte do texto ainda é um pouco prematuro, mas, acreditem que, independente da forma como vamos tratar o nosso entendimento sobre ídolos, que a religião Yorùbá não tem qualquer intimidade com qualquer definição de idolatria. Ídolos não fazem parte da religião, normalmente, quando existem, são objetos de decoração de espaços comuns. Se o objetivo fosse comparar, poderíamos dizer que, com certeza, a religião católica é Idólatra e a Yorùbá não o é, porque na primeira os ídolos são parte importante e primária do espaço sacro e na segunda isso nem existe.
 

Animismo

Certamente esta será a classificação mais comum de ser atribuída à religião Yorùbá. Por especialistas e não especialistas, mas, vamos seguir o mesmo caminho entendendo primeiro o que é Animismo.

Edward B. Tylor popularizou este termo, Animismo. No seu livro Culturas Primitivas Vol. I e II ele define animismo como a doutrina de almas e outros seres espirituais em geral. As palavras de Tylor são:

A teoria do animismo é dividida em dois grandes dogmas, formando partes de uma doutrina consistente. Primeiro, em relação a alma de criaturas individuais, capazes de uma existência continuada depois da morte, ou seja, destruição do corpo. Segundo em relação a outros espíritos que avançam para a posição de divindades poderosas, não ligadas as pessoas, mas, tendo uma existência distinta.... assim animismo em sua forma plena, inclui a crença em almas em um estado futuro, em divindades controladoras e espíritos subordinados.
Tylor também relaciona sonhos e visões ao animismo, como uma forma de a alma se separar do corpo, além de outras almas que podem visitar o seu corpo. A experiência de morte ou o pós-morte também ocupa as suas atenções.

O trabalho de Tylor é muito interessante, mas segundo destaca Idwou, as pessoas devem ler o trabalho inteiro, os 2 volumes de sua obra e não apenas o primeiro volume.

Isso porque ao fim se entende que Tylor após fazer uma completa abordagem de evolução do animismo, sustenta que o animismo é um fator que esta presente em toda a religião, em toda as culturas e em qualquer nível de desenvolvimento. Ele fala do animismo dos selvagens e do animismo dos homens civilizados.

Uma das coisas mais instigantes do trabalho dele é a tese implícita do homem inventando a religião a partir de um estágio totalmente animista. Tylor não deixa claro se ele considera que o homem inventou a religião ou se as divindades existem no seu sentido absoluto antes dos homens as descobri-las. Ele sustenta que o antropormofismo é um fator predominante no animismo, no qual, inevitavelmente o homem deve pensar no todo e esta é a diferença entre as várias culturas, a medida e o nível do antropomorfismo.

O trabalho de Tylor, tomado por muitos como o patrono desta ideia, explica então que o animismo não esta limitado a uma cultura ou religião. Toda cultura e religião tem a presença do animismo em algum grau.

Em sua obra ele explica que a doutrina de almas da nascimento a doutrinas maiores onde os espíritos assumem proporções mais importantes e elevadas, deixando o escopo das pessoas para assumir um papel no mundo e nas forças naturais e ascendendo a existência de uma divindade suprema. Os espíritos passam do estágio de controlar pessoas ao de controlar a natureza e a vida a e fortuna do homem.

O politeísmo é, ou foi um estágio desse processo, assim como a busca pela unificação do divino levou a religiões monoteísta e Henoteístas como a prevalência da divindade suprema. Como citei ele não se posiciona se deus foi uma criação do homem ou o resultado da sua própria evolução e reconhecimento do divino.
Isso tudo é muito interessante, mas, em relação a religião Yorùbá, como outras religiões reencarnacionistas e que acreditam a presença do divina entre as pessoas através de seus médiuns, ele tem elementos animistas. Contudo, como definiu Tylor, animismo não pode ser aplicado unicamente para definir esta religião. A religião Yorùbá, como outras evoluiu para o conceito de uma divindade suprema e outras de nível intermediário.

Entre nós, a Umbanda, sem dúvida reúne as características de uma religião animista, visto que a sua prática pode ser apoiada em qualquer dogma religioso, seja com uma aproximação com o Yorùbá, como também o católico ou correntes orientais. O trabalho em si do culto esta baseado nos espíritos e a teologia religiosa é portável.
 

A cultura oral 

Para justificar essas afirmações que faço, transcrevo a seguir 2 trechos do corpo literário de Ifá. O primeiro é parte do mito da criação a gênese Yorùbá no qual Olódùmarè cria o mundo e dá para os orixá (Òrìṣà) a missão de criar o mundo físico e torná-lo habitável pelos seres vivos.

Para os que não sabem, a religião é baseada em uma cultura oral que foi de alguma forma preservada entre das dezenas de gerações e recentemente (seculo XIX e XX) documentada de forma a ser preservada. Cultura oral significa que o conhecimento era passado de pessoa a pessoa, de forma oral, e guardado na memória das pessoas. O povo Yorùbá perdeu um degrau importante em sua evolução, que foi a falta de um sistema de escrita.

Este processo oral possibilita que coisas sejam esquecidas (perdidas) ou que variações, intencionais ou não, surjam em histórias e mitos.

Não existe mito registrado que explique a origem de tudo. Em algum momento, Olódùmarè decidiu criar o Àiyé, mas, a existência perene dele, Olódùmarè mesmo e do próprio Órun (ọ̀run) não são referenciados. Contudo devemos lembrar que religião não é história e qualquer tentativa de estruturar a existência de tudo através dela é inútil.

Religião é uma referência de fé na existência humana baseado em valores humanos elevados e voltada para formar pessoas melhores. Todo o modelo religioso é um modelo metafísico e suas histórias são metáforas da existência real, voltadas para transmitir para as pessoas o que se espera delas.Dentro deste contexto de cultura oral, a qual teve tardiamente documentada em escritos o seu conhecimento e tradições, temos que ser cuidadosos com o que ouvimos e lemos. O cuidado deve-se à facilidade neste ambiente de nos depararmos com histórias inventadas (que não fazem parte da tradição histórica); histórias que foram modificadas intencionalmente ou casualmente; histórias de contexto restrito a uma região.

Em função disso temos que, sempre que possível, validar a história ou informação usando fontes distintas. As vezes não é possível obter duas fontes autenticamente distintas que registram ou transmitem a mesma história em diferentes versões. Nesse caso temos que usar o bom senso para avaliar se aquela história esta no formato adequado e dentro do contexto de outras que se conhece.

Discutir as fontes de informação, ou melhor, questioná-las tem sido uma diversão recorrente de novos autores que acham que eles são os confiáveis e tornam os anteriores não confiáveis. Apesar dessa crítica ter sido útil em um momento, principalmente em função da qualidade de alguns dos primeiros autores, mais recentemente tem sido apenas um trabalho de autoafirmação e destruição, que serve apenas aos críticas no sentido de estabelecer suas teses como verdadeiras.

Eu já perdi a conta de livros sobre a religião Yorùbá nos quais o autor começa com a mesma historinha de que os anteriores não compreendiam o que os nativos falavam. Começou a perder a graça quando eles passaram a falar deles mesmos, nativos, usando os mesmos argumentos.

A documentação escrita da cultura, história e religião Yorùbá é bem recente, data do século 19. Os primeiros autores se enquadravam nas seguintes categorias: exploradores e viajantes; missionários cristãos e antropologistas.

Nas 2 primeiras categorias os relatos muitas vezes incluíam ilações que transmitiam um desconhecimento do povo e cultura. Muitos casos eram apenas preconceito. No segundo grupo havia comumente o preconceito e a sua motivação profissional de desvalorizar a cultura do povo, principalmente a religião, para impor a sua.

Por fim o terceiro grupo nem sempre presou pela ética e probidade científica, assim, apesar de sua maior capacidade de descrever o que viam, muitas associações eram inadequadas e falta de aprofundamento com o povo que avaliavam produziu desvios. Pierre Verger se dedicou bastante ao trabalho de mapear os autores e obras de modo a desconstruir uma imagem negativa do povo e da religião.

Esses esclarecimentos são necessários para que entendam em um aspecto a forma como as teses sobre este assunto serão colocadas neste texto. Junto com afirmações, tenho também que mostrar alguma evidência de fontes confiáveis.

Em outro aspecto, quem lê sobre esta religião deve ficar atento ao fato de que muita gente escreve ou transcreve material ruim e pouco confiável, invenções que o bom senso mostram que não tem credibilidade ou que são apenas a visão de uma fonte única. Eu mesmo tenho o cuidado de não usar algumas fontes que até me são simpáticas, mas que não pude validar aquele entendimento.

Enfim essa tradição oral acabou gerando alguns problemas para a religião. Ao ler esse texto você deve esquecer um pouco as diversas versões e histórias qie já lei ou ouviu sobre a mesma coisa. Faz de conta que é a primeira vez. O volume de coisa inventada e errada é muito grande.


A gênese Yorùbá 

 


Eu estava decidido a não falar sobre a gênese Yorùbá neste trabalho. Na minha opinião é apenas uma história e pouco ou nada contribuiu para entender a religião. Esse assunto fica mais no campo da necessidade de existir um mito religioso que explique a criação do mundo, principalmente porque este é o primeiro livro da bíblia cristã. Assim todo mundo também tem que ter o seu “Gênesis”.

Os Yorùbá tem sua gênese. A gênese Yorùbá se inicia no momento em que Olódùmarè decide criar o Àiyé, o mundo natural, e para isso designa as suas divindades para esta tarefa.
“...o Àiyé existia e era uma enorme massa de água e matéria pantanosa, nada vivia neste lugar.

O que levou Olódùmarè a criar o Àiyé ninguém sabe, apenas é dito que ele teve a motivação de fazê-lo e colocou em execução.

Olódùmarè chamou Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá), uma das mais importantes divindades Yorùbá, à sua presença e o encarregou da tarefa, dando para ele os materiais que ia necessitar. Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá) recebeu uma bolsa de terra solta (alguns dizem que foi uma concha de caramujo), uma galinha de 5 dedos e um pombo.

Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá) foi para o limite entre o Órun (ọ̀run) e Àiyé e jogou a terra do saco sobre a água. Logo a seguir mandou a galinha de 5 dedos e o pombo que imediatamente começaram o seu trabalho de espalhar a terra por todo o Àiyé.

Isto foi feito até que uma grande porção da água fora coberta pela terra. Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá), então, voltou a Olódùmarè dizendo que já tinha concluído o seu trabalho.

Olódùmarè enviou o camaleão, que é um animal conhecido por ser muito cuidado e delicado na forma como se move e encontra caminhos. O camaleão neste primeira visita relatou que apesar de uma grande porção de terra já estar espalhada e uma superfície razoável estar coberta, que a terra ainda não era seca e segura o bastante para ser habitada.

Algum tempo depois foi feita uma segunda visita e o camaleão constatou que a área de terra era grande o bastante e já estava seca o bastante para ser usada.

O lugar sagrado por onde foi iniciado o trabalho de espalhar a terra pelo mundo foi chamado de Ifé (Ìfẹ̀), palavra que significa, aquilo que é amplo. De acordo com a tradição Yorùbá neste lugar foi fundada a cidade de Ile ifé (Ilé-Ifẹ́) , a cidade sagrada Yorùbá, o lugar onde o mundo começou e o lar de todos os habitantes.

Ainda hoje quando um estrangeiro chega em Ile ifé (Ilé-Ifẹ́) na Nigéria ele pode ser recebido com a saudação “bem vindo de volta a sua casa”, porque todos os seres humanos foram criados e iniciaram a população da terra à partir de Ile ifé (Ilé-Ifẹ́).

Olódùmarè colocou na nova terra a arvore do dendezeiro (Igi ọ̀pẹ) que daria sombra, bebida, óleo e nozes para comer. Outras árvores também foram plantadas para serem utilitárias para os novos habitantes. A Galinha e o pombo que foram usados para espalhar a terra deveriam agora espalhar as arvores que dariam subsistência aos futuros habitantes.

Os primeiros habitantes da terra teriam a água vinda do coco, uma palmeira, para matarem sua sede. Contudo essa água não se mostrou suficiente e Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá) apelou para Olódùmarè por uma solução. Olódùmarè criou então a chuva que passou a cair sobre toda a terra.

Após isso Olódùmarè necessitava habitar o Àiyé e para isso os habitantes do Órun (ọ̀run) teriam que ter um corpo para poderem viver no novo mundo. Mais uma vez Olódùmarè pediu que Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá) ficasse encarregado de confeccionar o corpo das pessoas, a partir de barro.
“... Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá) foi designado também para uma outro trabalho especial. Ele seria o criador dos corpos dos homens para o futuro. Não é claro pela tradição oral quando esse trabalho foi iniciado, contudo, ele aceitou a tarefa.

Sua atribuição foi desde então moldar o físico dos homens a partir da terra da própria terra, do seu barro.

Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá) se tornou o escultor divino, mas, o direito de dar vida aos corpos criados era reservado exclusivamente a Olódùmarè.

A instrução dada a Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá) era que ele deveria preparar os corpos e deixá-los em uma sala preparada por Olódùmarè e deixar o lugar. Olódùmarè iria para lá e daria o sopro da vida para cada pessoa, completando a criação do homem.

Ao dar o sopro da vida Olódùmarè reserva para ele e somente ele, a capacidade de criar a vida e transmitir o seu axé (aṣẹ́) para cada ser humano. Cada ser humano recebe assim a partícula de vida vinda de Olódùmarè, seu axé (aṣẹ́) e suas virtudes divinas pessoais.
A história conta, ainda, que Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá) ficou com inveja de Olódùmarè e queria ele mesmo ser quem dava vida às pessoas.
Ele preparou um plano para espionar Olódùmarè. Uma vez completada a forma que ele devia dar aos habitantes do àiyé, ele se escondeu em um canto esperando a chegada de Olódùmarè. Olódùmarè, contudo, percebeu isso e colocou Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá) em sono profundo. Quando acordou o trabalho já estava feito. Desde então Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá) se contentou com a parte do trabalho que lhe cabe.”

Este texto for retirado do livro “Olodumare – God in Yorùbá belief” de Abolaji Idowu.

Junto com essa história alguns comentários são pertinentes antes de continuarmos. O primeiro diz respeito a prerrogativa que Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá) tem de fazer as formas humanas como ele quer. O nascimento de albinos , corcundas e alijados fazem parte de sua prerrogativa. Assim ele define cores marcas, etc... Alguns mitos sugerem que ele seja um beberrão e que quando bebe faz essas formas não normais.

Esse é um mito vulgar, mas, como toda metáfora serve apenas para indicar que esses desvios que ocorrem são feitos pelo próprio Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá) e que ele pode fazê-lo. Os Yorùbá designam como pertencentes a Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá) as pessoas que assim nascem.
Outra diz respeito ao envolvimento da divindade da morte Ikú, que é masculina. Quando Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá) foi criar as formas do àiyé ele solicitou que pegasse o barro para isso, conforme instrução de Olódùmarè que os corpos fosse feitos da terra do próprio àiyé. Vários emissários foram enviados mas quando chegavam no àiyé, a terra chorava dizendo que não fosse tirado nenhuma parte dela.

Aquilo comovia todos os enviados e ninguém pode trazer a terra para fazer o barro. Ikú se prontificou a ir e pegou terra necessária, prometendo devolver o que fora tirado. Dessa maneira cabe a Ikú , a morte, devolver a terra o corpo de todas as pessoas restaurando assim o que Ikú tira para estes corpos serem feitos. O costume Yorùbá é que os corpos seja enterrados diretamente na terra para que a terra possa pegar de volta o que lhe foi tirado.
 

Este é o que chamo de um mito estrutural que, através de uma história cria uma visão metafórica que explica os fatos e fenômenos do àiyé. Existem muitos mitos e versos desta natureza, com a finalidade de estruturar a metáfora da religião sobre a vida.
 

Sobre a história da gênese existe uma variação muito conhecida e usada aqui no Candomblé. Nesta versão Odùduwà, uma outra divindade, assume a criação do mundo.
Nesse mito Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá) muito arrogante não se prepara para a tarefa. Já Odùduwà, consulta Ifá e faz um Ebó (Ẹbọ) preparatório.

No meio do caminho Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá), Exú (èṣù) faz ele ficar com sede e Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá) fura com seu cajado o troco do dendezeiro, de onde sai uma bebida, o vinho de palma, com o qual ele não só mata sua sede como se embebeda desmaiando ao pé da palmeira e não mais acordando.

Oduduwa então volta e relata a Olódùmarè o que ocorreu. Esse então dá para ele a bolsa da criação e pede que ele oduduwa crie o mundo. O resto do mito é igual mas com Oduduwa no lugar de Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá).

Como premio de consolação Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá) fica com a criação do corpo das pessoas.

Mas, quem foi Odùduwà?


Neste assunto o mito religioso se mistura com o mito histórico. Odùduwà foi um histórico e poderoso líder do povo Yorùbá. Ele migrou de sua terra original, provavelmente no Egito e se estabeleceu nas terras Yorùbá, em Ile-Ìfẹ̀. Ele se estabeleceu em Ìfẹ̀ com seus seguidores e estabeleceu uma proeminente dinastia Yorùbá.

Segundo Idowu, Odùduwà se estabeleceu em um lugar onde já existia um líder local chamado Ọrẹ̀lúéré. Odùduwà se estabeleceu sem prestar qualquer respeito a ele e Ọrẹ̀lúéré preparou um ardil. Ele envenenou um dos filhos de Odùduwà e este teve que chamar Ọrẹ̀lúéré para ajudá-lo, porque Ọrẹ̀lúéré era tido como um excelente médico.

Odùduwà teve que se submeter temporariamente a Ọrẹ̀lúéré para ver seu filho curado e se colocou também sob a proteção de Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá) que era a divindade do local. Os recursos de Odùduwà eram muito superiores, mas, seu estabelecimento não foi feito sem uma fraca oposição dos que já habitavam lá.

A sociedade ògboní foi provavelmente instituida neste período, como uma oposição a Odùduwà, pelas pessoas que já habitam aquelas terras, para poderem preservar seus valores e costumes.

Mas Odùduwà se tornou muito grande e conquistou a terra de Ọrẹ̀lúéré e muitas terras em volta. Quando morreu passou a ser cultuado como um ancestre e depois um divindade. O nome Odùduwà não pertencia ao homem e sim uma divindade cujo culto foi trazido por ele. 


O conflito entre Ọrẹ̀lúéré e Odùduwà, virou o conflito entre Odùduwà e Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá), sendo que o primeiro venceu o segundo e se tornou o governante e dono da terra. Com o passar das gerações a história deste conflito se transformou em um mito religioso no qual Odùduwà se torna o criador do mundo. O mito original Yorùbá ficou assim modificado para acomodar questões políticas e históricas.

Segundo Idowu, essa segunda versão não é a gênese original. Surgiu pela necessidade de acomodar a figura de Oduduwa, que se tornou orixá (Òrìṣà) e patrono na nação em Ilé Ìfẹ̀.
Na raiz desta história esta o fato de Odùduwà ser cultuado como uma divindade masculina ou feminina dependendo da região Yorùbá onde se esteja. Quando masculina a referência é ao homem, o conquistador e patrono da nação. Quando feminina a divindade trazida por essas pessoas.

No caso do Candomblé essa distinção pouco importa, Odùduwà não é tratado como uma divindade do dia a dia. Existe e é conhecido apenas na referencia teológica. O Lukumi cubano trata Odùduwà como uma divindade comum, mas o faz de uma forma completamente errada, baseada em erros bibliográficos, conforme Verger explicou,

No livro “Orun Aiye” de Jose Beniste existe uma descrição muito boa, bem mais extensa que esta que dei, sobre a história desses 2 mitos. O livro em português deve ser lido por aqueles que querem entender a religião e não vou transcrever aqui nenhum trecho. Não há necessidade. O meu objetivo era explicar a base da gênese Yorùbá e não tenho como deixar de explicar os 2 mitos conflitantes.

Mas a gênese Yorùbá não pode se restringir a apenas essa pequena história da criação do mundo. O próximo texto é retirado no corpo literário de Ifá do capítulo referente ao Odù Oxé Otuwa. Nestes versos, Olódùmarè envia os orixá (Òrìṣà) para o Àiyé com a missão de cuidar dos homens e ensiná-los as bases do culto para que eles possam cultuar suas divindades.



“...quando Olódùmarè enviou os Orixá (Òrìṣà),
os dezesseis primeiros, ao mundo,
para que viessem criar e estabelecer a vida na terra.
E vieram verdadeiramente nessa época.
As coisas que Olódùmarè lhes ensinou
nos espaços do Órun (ọ̀run) constituíram os pilares de fundação
que sustentam a terra para a existência de todos
dos seres humanos e de todos os Ebora (ẹbọra).
Olódùmarè lhes ensinou que
quando alcançassem a terra,
deveriam abrir uma clareira na floresta, consagrando-a
a Orò, o Igbò orò.
Deveriam abrir uma clareira na floresta, consagrando-a
a Eégún, o Igbó-Eégún que seria chamado Igbó-Opa (Igbó-Ọ̀pá).
Disse ele que deveriam abrir uma clareira
na floresta consagrando-a a Odù-ifá, o Igbó Odù,
onde iriam consultar o oráculo a respeito das pessoas.
Disse ele que deveriam abrir um caminho para os Orixá (Òrìṣà)
e chamar esse lugar igbó Orixá (Òrìṣà), floresta para adorar os Orixá (Òrìṣà).
Olódúmarè lhes ensinou a maneira como deveriam resolver
os problemas de fundação (assentamento) e adoração dos ójubo (ọjúbo) (lugares de adoração)
e como fariam as oferendas
para que não houvesse morte prematura,
nem esterilidade, nem infecundidade,
que não houvesse perda,
nem vida paupérrima, não houvesse nada
de tudo isso sobre a terra.
Para que as doenças sem razão
não lhes sobreviessem,
que nenhuma maldição caísse sobre eles,
que a destruição e a desgraça não se abatessem sobre eles.
Olódùmarè ensinou aos dezesseis Orixá (Òrìṣà) o que eles deveriam realizar
para evitar todas essas coisas.
Ele os delegou e enviou à terra,
a fim de executarem tudo isso...”.
Este importante texto pode ser encontrado, também com pequenas variações de versões em diversos autores. Igualmente não permite contestação de sua validade. Esta versão foi a retirada do livro “Os nago e a Morte” de Juana Elbein.
 
A religião Yorùbá tem como um elemento muito importante o culto a várias divindades e este culto pode ser devido a regionalidades ou também por aspectos teológicos funcionais com divindades exercendo algum papel importante na vida das pessoas. Mas, sempre, o poder organizacional e ordenador emana da divindade suprema. 

Olódùmarè – A divindade suprema Yorùbá


Olódùmarè é o nome da divindade suprema Yorùbá. Não existe gênero definido para Olódùmarè, ele é deus. Assim, nos referimos a ele como a divindade suprema ou como o deus supremo.

Como o deus supremo, ele foi o responsável por criar tudo o que existe e é quem mantêm o Órun (ọ̀run) e o Àiyé funcionando. O poder ordenador das coisas naturais e supernaturais esta nas suas mãos. Ele é o senhor absoluto do Órun (ọ̀run).

Anteriormente no trecho do verso do Odù Óxé Otua (Ọ̀ṣẹ́-Otùwá) ficou demonstrado que Olódùmarè enviou os orixá (Òrìṣà) para o Àiyé para nos suportar. No trecho a seguir, também retirado desse verso confiável, o mundo perde seu controle, a prosperidade desaparece e os orixá (Òrìṣà) são incapazes de resolver, tendo que recorrer a Olódùmarè para que este reestabeleça o funcionamento do Àiyé.

Sobreveio uma seca na terra.
Tudo estava seco!
Não havia orvalho!
Fazia três anos que tinha chovido pela última vez.
O mundo entrou em decadência.
Foi então que eles voltaram a consultar Ifá,
Ifá àjàlàiyé”.
Quando Órunmilá (Ọ̀rúnmìlà) consultou Ifá àjàlàiyé disse que deveriam fazer uma oferenda, um sacrifício, e preparar a oferenda de maneira que chegasse a Olódúmarè,
para que Olódúmarè pudesse ter piedade da terra
e se ocupasse dela para eles.
Porque Olódúmarè não se ocupava mais da terra.
Se isso continuasse a destruição seria inevitável;
era iminente.
Somente se pudessem fazer a oferenda,
Olódúmarè teria sempre misericórdia deles.
Ele se lembraria deles e zelaria pelo mundo.
Foi assim que prepararam a oferenda.
Eles colocaram:
uma cabra,
uma ovelha,
um cachorro e uma galinha,
um pombo,
uma preá,
um peixe,
um ser humano, e
um touro selvagem,
um pássaro da floresta,
um pássaro da savana,
um animal doméstico.
Todas as oferendas,
e ainda dezesseis pequenas quartinhas cheias de azeite de dendê
que eles juntaram nesse dia.
E ovos de galinha, e
dezesseis pedaços de pano branco puro.
Prepararam as oferendas apropriadas usando folhas de Ifá,
que toda oferenda deve conter.
Fizeram um grande carrego com todas as coisas.
Disseram então, que o próprio Èjì-Ogbè deveria levar essa oferenda a Olódúmarè.
Este trecho foi retirado do livro “Olodumare – God in Yorùbá belief” do Abolaji Idowu.
Na continuação do verso, todos falham em conseguir ir até Olódùmarè, eles encontram os portões do Órun (ọ̀run) fechados para eles. Somente Oxé tua (Ọ̀ṣẹ́tùwá) após consultar Ifá e com a ajuda de Exú (Èṣù) e de Ajé consegue ser bem sucedido em entregar a oferenda a Olódùmarè.
...Quando chegaram lá,
as portas já se encontravam abertas;
encontraram as portas abertas. Quando levaram a oferenda a Olódùmarè e Ele (Olódùmarè) a examinou,
Olódùmarè disse: "Haaa!
Você viu qual foi o último dia que choveu na terra?!
Eu me pergunto se o mundo não foi completamente destruído.
Que pode ser encontrado lá?"
Oxé tua (Ọ̀ṣẹ́tùwá) não podia nem abrir a boca para dizer qualquer coisa.
Olódùmarè lhe deu alguns "feixes" de chuva.
Reuniu, como outrora, as coisas de valor do Órun (ọ̀run),
todas as coisas necessárias para a sobrevivência do mundo, e deu-lhes.
Disse que ele, Oxé tua (Ọ̀ṣẹ́tùwá), deveria retornar...
Este trecho foi retirado do livro “Olodumare – God in Yorùbá belief” do Abolaji Idowu.
A prosperidade no mundo retornou após isso. Fica claro que Olódùmarè exercia acima de todas as demais divindades o controle sobre o mundo. As divindades eram impotentes sozinhas para trazer a prosperidade para o mundo natural e também as divindades não tinham acesso direto a Olódùmarè, somente Exú (Èṣù) tem esse acesso e neste verso Oxé tua (Ọ̀ṣẹ́tùwá).

A narrativa a seguir, também é encontrada no livro de Idowu. Segundo ele existe nos versos do Odù Ìròsùn Osó, mostra os orixás tentando obter o controle do mundo das mãos de Olódùmarè e falhando.

É uma narrativa muito interessante, mas, não tenho certeza de ter encontrado em outro autor além de Idowu. Creio que já vi, mas, nesse momento a obra de Idowu é a única fonte que posso citar.

“... Olódùmarè controla as estações e é claro os eventos. Ele é dessa forma o senhor do dia, isto é, cada dia deve sua existência a ele.
Ele é supremo sobre tudo no sentido absoluto...
... Ìròsùn Osó diz como as divindades – 1.700 fortes – uma vez conspiraram contra Olódùmarè. O assunto da disputa dizia respeito ao aspecto absoluto de sua autoridade e controle sobre tudo.
Eles cobiçaram seu status e questionaram seus direitos de tê-los.
Assim eles foram até ele, Olódùmarè, e solicitaram que ele deveria se afastar de sua alta posição.
Ele deveria em um primeiro momento, se afastar por 16 anos enquanto que eles, as divindade, teriam total e completo controle sobre o Àiyé e todos os seus assuntos.
Olódùmarè sabiam que eles eram tolos, mas concordou com a proposta deles.
Mas, disse que primeiro eles deveriam passar por um período de teste de 16 dias. Se fossem bem sucedidos eles ficariam com 16 anos de controle, como queriam. Todos concordaram.
Saíram da presença de Olódùmarè satisfeitos e foram se incumbir de suas novas responsabilidades. Tão logo eles deixaram a sua presença Olódùmarè desligou todos os seus mecanismos de controle e deixou o mundo natural na responsabilidade das divindades, assim como elas haviam solicitados.
Passados 8 dias, as divindades se deram conta da sua incapacidade. Tudo aquilo que eles tinham feito não dava certo. A chuva não caia, os rios secaram, as colheitas não brotavam, as folhas morriam.
Órunmilá (Ọ̀rúnmìlà) foi consultado mas seu oráculo parou de responder.
A terra toda estava indo sucumbir.
Não restou nada às divindades que não fosse retornar a Olódùmarè e confessar a ele sua estupidez, reconhecendo sua força superior sobre tudo.
As divindades então cantaram:
Existem 1.400 divindade de casa
existem 1.200 divindades do mercado
contudo não existe uma divindade que se compare com Olódùmarè
Olódùmarè é o rei absoluto
Na nossa recente disputa
Èdùmarè foi quem venceu
sim, Èdùmàrè
... Nos versos de Odù, existem muitos dizeres que suportam essa afirmação, aqui esta um existente em Ìròsùn Òsá:
Ao senhor do Ori deve ser dada sua responsabilidade
Esta é a designação do oraculo para as 1.700 divindades
as quais devem render tributos anuais a Olódùmarè.”
Este trecho foi retirado do livro “Olodumare – God in Yorùbá belief” do Abolaji Idowu.

A narrativa deixa bem claro a capacidade suprema de Olódùmarè em controlar o mundo natural e sua supremacia sobre as demais divindades. Isso me leva a concluir que o modelo teogônico que se confirma é o de Olódùmarè ser uma divindade suprema e gênese da existência, ao invés de ser apenas uma divindade dominadora.


Alguns podem estranhar o motivo desse esforço em afirmar e demonstrar isso, mas, existem em alguns meios o questionamento deste modelo. O objetivo deste texto não é acadêmico e não me interessa aqui ficar explorando e contradizendo as demais teses. O modelo que esta sendo descrito aqui é um modelo consistente e que tem referências como bases, não são somente ilações.

Alguns podem gostar ou não das fontes ou gostar ou não das ideias, assim como também podemos gostar ou não das ideias dessas pessoas. Mas a construção coerente do cosmo Yorùbá é feita com os elementos que eu estou explicando e isso tudo se fecha completamente quando falamos do homem e das questão do destino e Orí.

O senhor do destino


O nosso destino e vida também estão nas mãos dele. Antes de viajarmos do Órun (ọ̀run) para o Àiyé vamos a Olódùmarè pedir que ele confirme as coisas que planejamos para nossa vida. A Olódùmarè cabe confirmar o nosso destino final. No modelo Yorùbá existem 3 tipos de destino para cada pessoa. Um deles é o que Olódùmarè nos encarrega de cumprir.

É ele também que no fim de nossa vida é o juiz de nossas realizações. O modelo teológico Yorùbá estabelece um processo de julgamento que leva em conta nossas ações ao longo de toda a nossa vida. Não somos julgados o tempo todo e por qualquer ato. Lembre-se que todas as criaturas são criações de Olódùmarè, nada ou ninguém tem privilégios, de forma que, nosso julgamento se baseia no que acumulamos de realizações ao longo de nossa vida e somente ao fim dela, quando nos reapresentarmos no Órun (ọ̀run) à Olódùmarè, seremos julgados por ele e somente por ele. Ele é o juiz supremo.

Ele é o único juiz do nosso destino e de nossas realizações. A religião estabelece assim uma prestação de contas sobre nossos atos e realizações, mas, levamos a vida toda para construir esse julgamento. Nesse momento poderemos receber punições e, em casos mais extremos, ter o nosso status no Órun (ọ̀run) modificado em função de nossas realizações no Àiyé e do respeito que obtivemos de nossa família.

Se formos bem sucedidos na nossa vida do Àiyé, tivermos atingido nossos objetivos e também obtido o respeito e consideração de nossos parentes, amigos e sociedade, nos tornaremos um Ara Órun (Ara ọ̀run) respeitável. Estaremos em grande conta com Olódùmarè. Poderemos à partir do Órun (ọ̀run), e dessa nossa posição de destaque, ajudar e socorrer os seus familiares em sua vida no Àiyé. Eventualmente poderemos até ser divinizados e nos transformamos em um orixá (Òrìṣà), como já ocorreu com personagens importantes do povo Yorùbá.

A família é um valor muito importante na religião, tudo gira em torno dela e o conceito da ancestralidades e descendência determina toda a questão da reencarnação.

Fica bem clara, como mostrado, a diferenciação do modelo cristão de moral e pecado. A religião Yorùbá tem valores, ética e moral muito rígidos e retos, ligados a família e a vida em sociedade, mas não tem o modelo de pecado & punição que a religião cristã estabelece e as pessoas se acostumaram.

Ela esta igualmente equidistante do modelo de não ter pecado e nem ética que é erradamente pregado por pessoas ligadas ao Candomblé, como uma virtude. Essas pessoas confundem a sua própria falta de ética, decoro e valores morais com a religião que elas dizem professar e que de fato ignoram.

Mas, a quase infinita paciência de Olódùmarè tem limites. Se uma pessoa exagera nos erros de sua vida, se ela, de alguma maneira, se torna uma pessoa insuportável para a sociedade, poderá sofrer a ira de Olódùmarè e irá morrer. A ira vem através de alguns orixá (Òrìṣà) que tem esse poder de exercer a ira de Olódùmarè. São poucos os que assim o podem, Xangô (Sango) e Ómólu (omolu) são 2 deles. Orixá (Òrìṣà) não tira a vida ou traz a infelicidade para ninguém, exceto os casos citados.

Uma das características de nossa vida é o tempo que determinamos para ficar no Àiyé, vivos. Quando vamos a Olódùmarè pedir o nosso destino, estabelecemos também o tempo que vamos viver. Este tempo é o nosso compromisso com Olódùmarè. Caso venhamos a morrer antes porque provocamos nossa morte ou porque nos suicidamos, o compromisso com Olódùmarè já estava estabelecido e não voltaremos ao Órun (ọ̀run) antes desse tempo. Isso nos fará ficar vagando no Àiyé como um espirito perdido até que se cumpra o tempo que nos comprometemos a cumprir.

Entendo, por ilação, que esse tempo não valerá para os casos onde nossa morte for acidental, sem nosso controle, ou provocada por outros.

Entre as punições que podemos receber esta nos afastarmos de nossa linhagem familiar e a de voltar ao àiyé na forma de animais, formas menos nobres.
 

A presença de Olódùmarè 


Olódùmarè, não é nem onisciente nem onipresente. Essas características, apesar de propaladas por muitos autores não aparecem nos versos de Ifá. Alguns autores africanos dão essas qualidades a ele, o que é muito natural de se esperar em um deus supremo e reflexo do deus abraâmico, mas, não encontrei o que justificasse essa afirmação nos versos de Ifá que já li. De fato vi o contrário. Entendo que muitos desses autores, principalmente os primeiros, tiveram uma formação escolar cristã, a maior parte deles eram reverendos (o que não deprecia suas obras), e o conceito do deus cristão domina um pouco suas mentes.


Sei que essa afirmação vai incomodar muita gente. Inúmeros são os que repetem isso principalmente porque essa afirmação estava contida em obras dos primeiros autores sobre a religião Yoruba, fossem eles europeus ou mesmo africanso, mas, o que eu afirmo é baseado no que eu observei por eu mesmo e não o que eu copiei de outros.

Olódùmarè toma conhecimento e partido das coisas a partir da informação que recebe das divindades que encarrega disso, notadamente Exú (Èṣù) e Órunmilá (Ọ̀rúnmìlà). Os assuntos são levados a ele.

Apesar disso, Olódùmarè não é um deus distante, como muitos gostam de afirmar. Existe uma densa e consistente teogonia que nos assiste e acompanha nossa vida, como veremos mais adiante. De forma alguma somos desassistidos pelo divino. O que existe é um modelo diferente e que reflete a sociedade tradicional Yorùbá e que cria em torno de nós, de fato, o contrário, uma camada de superproteção.

Essa qualificação, de deus distante foi dada por ocidentais que encontraram um modelo cosmogônico distinto do que eles estão acostumados, visto que, eles, consideram o deus cristão, Jeová, é onipresente, onisciente e rezam diretamente para ele. Essa onipresença e onisciência é uma visão romântica visto que, o cristianismo, por exemplo, não tem nenhum instrumento que demonstre a real preocupação do divino com eles e que os permita interagir com esse divino.

O que eles tem é um modelo passivo no qual você ora e aguarda, acreditando que deus vai agir por você. No modelo cristão o mal, pode interagir diretamente na vida deles, é uma presença constante, mas o divino não tem essa obrigação. Basicamente eles tem que se conformar com a afirmação de que no fim da vida deles, quando morrerem vão encontrar com deus e ter a sua paz eterna.

A religião Yorùbá pensa diferente, precisamos ser felizes aqui e agora. Olódùmarè se preocupa com isso e coloca ao nosso redor um vasto conjunto de divindade, meios de comunicação e meios de correção de problemas. Assim, Olódùmarè pode ser tudo, menos um deus distante. Esta teia de proteção vai ficar clara mais à frente.

Os yorubanos, explicam, que assim é a sociedade deles. Existe em todos os níveis uma larga cadeia de hierarquia que funciona e deve ser respeitada. Desta forma, como eles explicam, você quando tem um problema não vai diretamente ao Rei reclamar ou pedir por você. Você tem uma hierarquia de pessoas a quem recorrer. O Rei assiste sua população através de seus representantes e ministros.

Olódùmarè colocou os orixá (Òrìṣà) para cuidarem de nossa vida no àiyé. Somos protegidos e assistidos por seus ministros, os orixá (Òrìṣà). São eles que cuidam da gente e é usando os orixá (Òrìṣà), Exú (Èṣù) e Órunmilá (Ọ̀rúnmìlà) que Olódùmarè sabe o que ocorre com a gente e passa aos seus ministros o poder para nos ajudar.

Quando os assuntos são levados a Olódùmarè este tem como saber a verdade que esta envolvida em tudo o que é dito e feito. Mesmo não sendo onisciente, Olódùmarè é quem pode saber o que reside em nosso coração, ele sabe exatamente quem somos, o que pensamos e o que queremos.

Entre Olódùmarè e os habitantes do Órun (ọ̀run) e do àiyé existem intermediários. São esses intermediários que, quando necessário trazem os assuntos a Olódùmarè. Todo o nosso relacionamento dentro desta religião é feito através das divindade que representam Olódùmarè.

Este modelo reflete o modelo da própria sociedade Yorùbá. Quanto mais importante e mais velho, menos pessoas tem acesso e mais esse acesso é feito por intermediários. Assim o modelo do cosmo não é diferente do próprio modelo da sociedade.

Todo o culto religioso às divindades é feito às divindades que Olódùmarè colocou para representá-lo. Nesta e em qualquer religião são cultuadas as divindades a quem podemos recorrer. Nenhum liturgia ou oferenda é feita a Olódùmarè, ele não precisa e nem intercede. Quem intercede são os seus ministros.

Olódùmarè esta sempre presente em nossa lembrança e rezas, sabemos que ele é o poder supremo, mas, nunca o tememos. Olódùmarè e seus ministros são puro amor.

Longe de ser um deus distante, Olódùmarè cria todas as condições para que sejamos felizes nesta vida. O compromisso de Olódùmarè é com a nossa felicidade e com o nosso destino em cada momento de nossa vida.

Olódùmarè é o único responsável por nos dar a vida. É ele quem unicamente tem o poder de dar o sopro da vida à nossa forma humana que é moldada por Orixá nla (Òrìṣà nla). Além disso ele nos da o nosso axé (aṣẹ́) e nossa centelha divina, nossa virtude divina, o pedaço único que Olódùmarè coloca em todos nós.

Não existe a referência que somos feitos sua imagem e semelhança. Quem constrói nossa aparência é Orixá nla (Òrìṣà nla) – Ọ̀ṣàlá. Ele constrói nosso corpo Ajalá constrói nossa cabeça.
 

O nome de deus

Olódùmarè não é o único nome pelo qual o deus supremo é chamado. Existem outros nome, sendo que o mais comum é Ólórun (Ọlọ́run).

A divindade suprema Yorùbá pode, além disso, ser chamada por vários outros nomes além dos 2 citados: Éléda (Ẹlẹ́da), Aláyè, Élémi (Ẹlẹ́mí) e Ólójó oni (Ọlọ́jọ́ Òní). Isso para citar os mais conhecidos, mas, sem dúvida os 2 primeiros são os mais populares.

Os nomes na sociedade Yorùbá são um capítulo muito especial. Os Yorùbá acreditam enormemente na força das palavras. Esta força esta ligada ao axé (aṣẹ́) que existe no nosso corpo e sai pela respiração e também a força que as palavras tem. Eles acreditam em encantamento como um instrumento de força e nomes fazem parte disso.

Nomes representam força e trazem significados. Cada nome Yorùbá tem um caráter e um significado por si só. A nenhuma criança é dado um nome sem um motivo ou significado. Uma criança jamais recebe um nome sem ter nascido. Os nomes na maioria das vezes são sentenças ou abreviação de sentenças e frases, que tem significado direto e ligação com ancestres, com a condição de nascimento, com os pais e também eventos em torno do nascimento.

Uma pessoa pode ter até 3 nomes diferentes e o nome real somente é conhecido pelos pais. Os nomes não são falados em vão, jamais. Eles entendem que quem conhece o nome da pessoa pode abençoá-lo e amaldiçoá-lo.

A primeira forma de se conhecer uma pessoa é saber o seu nome e seu significado. Existem 3 tipos de nomes que uma pessoa poder receber. O primeiro é o nome dados por deus (Olódùmarè) que esta ligado ao seu nascimento. O segundo é o nome dado por Ifá e o terceiro é o nome escolhido pelos pais.

Eles serão usado com cuidado, preservando sempre o nome original da pessoa. Muita gente nem vai conhecer o nome verdadeiro de uma pessoa, essa, segundo eles, é também uma forma de se proteger.

A etimologia de nomes Yorùbá é alvo de muito estudo pelos próprios Yorùbá. Existe um habito de abreviar uma frase inteira em um nome. Também palavras são formadas pela junção de outras 2 ou 3 palavras ou uma longa palavra resume uma frase. Isso torna a língua deles, sob alguns aspetos, bastante complexa porque podem existir palavras e expressões muito regionais ou locais a determinados lugares. Além disso eles usam muita a figura da onomatopeia nas frases e neologismos aparecem o tempo todo.

O caso do nome de deus é a mesma coisa. Cada um dos nomes dele tem um significado.

Não temos um nome próprio em si para deus, mas, expressões que exaltam suas qualidade e poderes.

Infelizmente não existe consenso para o significa do nome Olódùmarè e nem vou entrar nesta discussão, porque se tem uma coisa chata é a infidável discussão do significado de uma palavra e o nome se soma a esse contexto.

Os Yorubas comenteram alguns enganos em sua existência como povo, na minha opinião ;e claro. Não ter uma escrita foi uma delas, isso atrasou demais o seu desenvolvimento e fez com que uma sociedade bastante evoluida fosse superada. Outra é a linguagem em sí, muito confusa.

Podemos ver longas controvérsias sobre significado de palavras, justamente devido ao problema causado pela forma como a lingua gera nova formas de expressão, com aglutinações, elisões, etc.. como ja comentei.

Não vou aqui gastar palmos de linhas falando sobre os possíveis significados de Olodumare, por exemplo....

Para os demais nome temos significados, assim:

Éléda (Ẹlẹ́da) – senhor da criação. Este nome é usado para outras divindades de forma que não esta associado exclusivamente a deus. A divindade pessoal de cada pessoa, Orí, também é chamada assim e o orixá (Òrìṣà) pessoal também.

Aláyè – O senhor da vida.

Élémi (Ẹlẹ́mí) – O senhor que dá o sopro da vida.

Ólójó oni (Ọlọ́jọ́ Òní) – O senhor do dia de hoje

Ólórun (Ọlọ́run) – O senhor do Órun (ọ̀run) o espaço supernatural

Eu poderia ainda citar mais alguns nomes que transmitem poderes e qualidade de deus, mas, o conceito é esse. O Livro Orun Aiye do Jose Beniste faz uma abordagem boa sobre este tema de nome, recomendo consultá-lo.

Ao dar a uma mesma divindade vários nomes, que não são nomes próprios em si, mas títulos e qualidades, os Yorùbá foram muito mal compreendidos pelos poucos cultos europeus que fizeram os primeiros e mal feitos estudos da religião e do povo Yorùbá. Eles acreditaram que ao se deparar com mais de um nome para designar a divindade suprema que haviam várias divindades supremas, o que não era verdade. Assim ao invés de uma divindade suprema eles entenderam que haviam muitas.

O nosso cosmo Yorùbá se inicia então com o entendimento que existe uma divindade suprema, da qual emana todo o poder e que controla toda a existência. Esta divindade criou o universo e todas as suas criaturas e é dela que emana todo o poder que controla a existência.

A divindade não tem gênero.

É importante entender que Olódùmarè criou todas as criaturas, todos somos criação de Olódùmarè e, cada criatura existente, tem a centelha de Olódùmarè. Não existe preferencia, todas as criaturas, humanos, animais, vegetais e minerais são criações de Olódùmarè.
 

Questionamentos a divindade suprema


Eu não posso deixar de citar que existem questionamentos sobre a supremacia de Olódùmarè no modelo Yorùbá. O modelo que eu descrevi até agora, de forma bem direta e afirmativa, é o modelo com o qual eu concordo. Li muitos autores, estudei e analisei o tema, não só sob o ponto de vista da divindade suprema, como também, em relação ao restante do contexto teológico, opondo este conceito ao o que eu encontro nos versos de Ifá, no conceito de destino e Ori e na atuação dos orixá (Òrìṣà).

Na minha visão, o que eu expus, e que não é meu como já disse, e sim o que eu aprendi de outros, este modelo de deus supremo esta alinhado com todo o resto da teogonia e teologia. Não adianta defendermos modelos que sejam “franksteins” teológicos, como os que agradam a um grupo motivados por interesses locais mas que simplesmente se desmontam quando se tenta colocar o conjunto “em pé”.

Tudo o que descrevi faz sentido, complementa e tem seguimento para o resta da teologia que aqui será descrita. Igualmente esta alinhado em causa e consequências com centenas de histórias e versos que pude tomar conhecimento em Ifá.

Olódùmarè é o deus supremo, mas, além disso representa o topo de um modelo de divino próprio, completo e independente de outras religiões, principalmente é bem distinto do modelo abraâmico, usado pelas 3 religiões.

Contudo, todos podem ter sua opinião. Muitos dos autores que pesquisei, sendo que esmagadoramente os africanos, entendem também Olódùmarè assim. Alguns os criticam por terem sidos educados no modelo abraâmico e assim estariam copiando ou ajudando a divulgar esse modelo e criando facilidades para um sincretismo. Outros que estariam apenas copiando autores anteriores.

Ressalto que o texto anterior não é copiado de nenhum lugar. Como disse, li, pesquisei e analisei e construí este modelo baseado no que entendi.

Vou comentar a seguir 2 referências, uma é Verger a outra é Wande Abimbola. Eu não tenho dúvida da relevância de qualquer posição desses senhores sobre o tema. Cada um dele tem objetivos diferentes.

Verger em algum momento, aparentemente, se insurgiu contra este modelo de divindade suprema. Nos livros mais conhecidos dele, Orixás e Nota sobre o culto de orixás e voduns, Olódùmarè é descrito da forma tradicional, como o deus supremo. Verger, como qualquer outra pessoa pode mudar de ideia ao descobrir coisas novas ou se aprofundar em um tema que já tinha analisado anteriormente e Verger escreveu um artigo, que inicia questionando a supremacia de Olódùmarè.

Este artigo, publicado na revista Odu, chama-se Yorùbá High God e foi lido por mim muitas vezes. É uma material interessante, mas, muito confuso e sem objetividade.

Em Yorùbá High God, Verger, aparentemente se debruça sobre o tema com um viés de questionamento. Podemos dividir o texto, claramente em partes, que parecem ter sido reunidas ou escritas em momentos diferentes. Mas essas partes não se unem ou complementam ou fazem isso porcamente. Verger inicia com uma abordagem etimológica do tema citando autores que escreveram bobagens e que se copiaram. Esse material foi um estudo separado que ele fez e que acaba figurando, enchendo páginas, de alguns artigos que ele escreveu. É uma abordagem muito boa que trouxe luz a muitas coisas.

Nessa análise ele mostra que os primórdios da literatura sobre o povo Yorùbá foi bastante prejudicado pela péssima qualidade de escritores, entre estudiosos amadores, mal preparados ou mesmo mal intencionados, muito material errado foi produzido originalmente e pelo efeito da cópia e transcrição, acabou sendo propagado como verdade, gerando materiais piores. Algumas dessas ideias erradas persistem até hoje.

Devemos lembrar que um dos maiores legados do Verger não foi exatamente ajudar a construir uma teologia da esta religião, mas sim, ir na África e conhecer os lugares e sociedades descritas em trabalhos existentes e através disso ele trouxe a verdade, a informação real, destruindo teses erradas e desmistificando a cultura Yorùbá.

Mas a seguir dessa análise, Verger desenvolve a tese de que existe historicamente uma proximidade muito grande dos Yorùbá com o islamismo, presente nos países vizinhos, e com o cristianismo através dos colonizadores europeus e que, a visão de ter um deus supremo, poderia ter vindo desta influência. Ele chega a citar que em algum momento a pergunta sobre uma divindade suprema não tinha resposta e que era necessário explicar o que ela seria para se obter uma resposta positiva.

Nesse ponto, ainda, ele toca uma coisa que foi abordada por outros autores, que é o fato de que muitas vezes os nativos confirmavam o que lhes era perguntado somente para satisfazer quem perguntava e continuar a ser remunerado pelas respostas. Isso é verdade, mas deve ser usado com cuidado porque pode apenas ser usado para envenenar ideias e pesquisas legítimas.

Verger encerra os seus questionamentos sem apresentar nenhuma conclusão ou opinião. Como sempre faz, eles desfila a nossos olhos uma séries de argumentos sem se comprometer com nenhum deles ou acreditar e qualquer um deles.

Sobre esses questionamentos algumas coisas podem ser ditas. A parte relativa a etimologia é muito bem feita mas afeta de forma pontual alguns conceitos e ideias. Ele voltou a esse tema, ou iniciou este tema, não sei, em outro artigo chamado Etimologia religiosa Yorùbá e probidade científica, e, de fato, a sua pesquisa serve para explicar a origem de alguns erros que foram se espalhando. Um dos principais e mais embaraçosos erros foi o caso de Oduduwa, que na tradição Cubana de Lukumi é tratada como uma divindade ligado ao negro, à morte e isso foi devido a um erro gigantesco existente em um livro muito ruim.

Pois é, os cubanos leram o livro errado e criaram um culto baseado em uma figura e relação que não existe na religião. Existem centenas de caminhos de iniciação para Oduduwa e mesmo no Ifá Cubano existe uma cerimonia para isso, sendo que eles estão tratando de uma coisa que não existe! Nunca existiu! Se isso tivesse vindo de pessoas escravizadas não seria tão errado. Só pode ter vindo de leitura de livro... o que é muito embaraçoso para os Lukumi, não?

Em relação a influência de outras religiões, de fato, isso é uma possibilidade. Verger não afirma e nem pode afirmar nada em relação a isso. Eu me interesso por religiões e muitas religiões de lugares completamente diferentes tem uma estrutura metafísica muito similar. Não se trata de coincidência e sim de que podemos acreditar que as religiões tratam do mesmo divino com interpretações diferentes. Dessa maneira a sua similaridade.

Encontrar uma divindade suprema na religião Yorùbá e na religião Abraâmica não é uma surpresa. Dizer que uma influenciou a outra e trouxe para dentro dela um conceito inexistente é uma possibilidade, claro, mas uma tese que não pode ser provada e isso é muito ruim.

A tese de que eu coloco de que as religiões, ao longo de toda a face da terra e da humanidade, intemporalmente, tem estruturas similares é uma tese que pode ser comprovada. Dessa forma a primeira tese, da influência, passa ser apenas uma fofoca irresponsável se você não tem como provar.

O próprio Verger em seu artigo relaciona os portugueses e outros europeus como os que primeiro fizeram a associação de Olódùmarè com uma divindade suprema ou pela busca de uma divindade suprema.

Também considero natural você ter alguma dificuldade em uma religião para buscar um conceito que uma outra têm uma vez que os locais nunca haviam pensado daquela forma. Assim, perguntar diretamente qual a sua divindade suprema, pode não ter resposta e pode exigir que o pesquisador entenda sem preconceitos o que que esta estudando para que este possa ter suas conclusões e posteriormente confirmá-las sem expor ao entrevista o que espera ouvir. Isso é o método científico ético.

Assim, traduzir Olódùmarè como a divindade suprema pode requerer explicação e interpretação uma vez que o conceito daquela forma não tinha essa relevância para os locais. A conclusão de que Olódùmarè é equivalente a uma divindade suprema de outras religiões terá que ser, sempre uma ilação do pesquisador e não do pesquisado.

A gente vê isso o tempo todo em várias áreas de conhecimento, principalmente quando olha a sociedade e a cultura, incluindo a religião. Devemos encarar isso com naturalidade. A pratica de buscar associar o que aprendemos de novo aos modelos que já conhecemos é corrente e ao mesmo tempo válida e perigosa. Pode nos induzir ao erro ou a criar figuras pré concebidas que depois teremos dificuldade para desfazer.

Dessa forma, perguntar para os Yorùbá qual é a divindade suprema deles, é completamente idiota, assim como deduzir que essa ideia não existia e que foi copiada do modelo abraâmico pelos europeus os muçulmanos vizinhos é igualmente idiota. Considerando que provar é impossível sem um trabalho muito grande, é preferível nem levantar isso.

Após essa fase de questionamentos, sem conclusões, Verger explica a visão da divindade suprema Yorùbá, como um deus distante e não presente no dia a dia, mas se esquece de explicar o motivo disso. Aborda também longa e inutilmente a questão do nome e por fim aborda a questão do conceito de axé (aṣẹ́), esse sim o mais importante para se entender a divindade suprema, sem contudo se aprofundar ou concluir nada.

Eu vejo esse texto em 2 partes, em uma ele questiona e na segunda ele da argumentos ou informações a favor. Assim, como disse no início, parece ser um questionamento, mas, é muito confuso.

Na sua tradicional abordagem, Verger relata fatores pró e contra, fontes e contradições dessas fontes, sem contudo se posicionar, analisar, consolidar ou propor nada. Ele decidiu passar como a pessoa que conheceu o povo Yorùbá e o descreveu e também como o crítico do que se escreveu sobre o povo, baseado no que aprendeu junto ao povo. Mas, pessoas fazem referência a esse material como um contraponto, lamento, não é.

Ao ler esse artigo a gente entende porque Verger se insurgiu tão forte contra a Juana Elbein e seu livro os Nago e a morte. A Juana ousou analisar e propor modelos a partir das informações que obteve.

Outro que, recentemente, questiona a divindade é Wande Abimbola. Suas posições são tardias em relação ao seu posicionamento inicial e ele faz isso mais veladamente. Como disse as pessoas podem mudar de opinião sobre o que já concordaram, vale sempre a ultima posição. A motivação de Abimbola parece ser mais um ataque a Idowu e também ao seu interesse de posicionar Ọ̀rúnmìlà como sendo ela própria a divindade suprema.

Abimbola para não se expor colocou o seu filho, Kola, para contrariar isso e escrever contra Idowu.

Kola Abimbola fez isso em um livro bobo e igualmente ele usa argumentos bobos para contradizer Idowu. Ele se fixa em interpretações subjetivas de palavras Yorùbá, discordando de interpretações que Idowu fez, não discute teogonia. É apenas um capítulo idiota, com pouca inteligência e muita mesquinharia.

Eu pessoalmente ouvi Abimbola aqui no Brasil usando para classificar a religião Yorùbá com as mesmas palavras que Idowu sugeriu. Idowu em seu livro African Traditional Religion (p.136) sugere que a religião Yorùbá seja classificada como um “monoteísmo implícito” ou um “monoteísmo difuso”, as mesmas palavras usadas por Abimbola em discurso na UERJ no congresso Orixá World.

Assim, as posições de Abimbola através da voz de seu filho, e não dele, são bobas, não acrescentam nada ao tema.