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quarta-feira, maio 28, 2014

O que você precisa saber sobre consultas a Ifá

O que você precisa saber sobre consultas a Ifá

 ( Texto Integral  )


O objetivo desta postagem, assim como o do Blog é o de esclarecer e ensinar com informação atualizada e de boa fonte. O que eu escrevi nesta postagem representa a minha opinião sobre o tema. É baseado em minhas observações, experiências e análise.

Este não é um assunto teórico e sim opinativo.


Os temas abordados nesta sequência serão os seguintes:


  • Por que as pessoas devem ir a Ifá?
  • Anatomia de uma consulta
  • O uso de ikin ou opele
  • O valor da consulta e de trabalhos adicionais
  • A questão de ire e osogbo
  • O uso de ìbò
  • A escolha de ebós e oferendas
  • Uso de estórias na interpretação
  • Babalawos determinando orixá em jogo
  • Assentamentos e iniciações

Todos esse temas contidos no escopo da ida a uma consulta a Ifá.

Imagino que muitas pessoas, ou todas, devem ter, no mínimo uma grande curiosidade em se consultar no oráculo de ifá, eu já tive e isso me levou a primeira consulta, a curiosidade. Mas seja por necessidade ou por simples curiosidade de saber qual a diferença entre este oráculo e os demais, já conhecidos, como búzios, cartas e até consulta com guias de umbanda, eu gostaria de deixar aqui registrada a minha contribuição para que esta, a consulta a Ifá, seja uma boa experiência.


Observem que não entrarei em aspectos de medir a qualidade de quem procuram, isso cabe a vocês, antes de se definirem, procedam a um processo mínimo de buscar recomendações e opiniões, como aliás a gente deve fazer na nossa vida normal, antes de ir a algum lugar ou contratar algum serviço. Não encare ifá de forma diferente, essa coisa de sacerdote e de portador de valores puros ou elevados, representante de deus, é só na sua imaginação, o mundo real tem todo o tipo de pessoa exercendo esta atividade, sejam os bons, os mau-caráter ou os incompetentes.


Esta é então a minha primeira recomendação avalie bem o lugar para onde vai.




Por que as pessoas devem ir a Ifá?


Além da curiosidade, as pessoas podem ter bons motivos para ir a Ifá. Conforme a teologia diz, Orunmilá é o eleri ipin, o testemunho do nosso destino, aquele que está ao nosso lado quando nos ajoelhamos perante Olodumare e pedimos a vida que queremos ter no aiye. Orunmilá testemunha aquilo que pedimos e também o destino que Olodumare nos dá. Esta informação pertence a nós, a Olodumare e a Orunmilá somente. Porém quando nascemos nós esquecemos o que foi combinado. Sendo Olodumare um deus distante, Orunmilá é o único que pode nos ajudar.

Na porta do salão de Olodumare esta elenini, a divindade do infortúnio. É um ajogun, um dos espíritos que apenas trazem o mal para as pessoas na sua vida no aiye. Ela ouve o que pedimos e fará tudo para nos atrapalhar, afinal ela é o infortúnio.


Conforme está no odù irosun meji, nos esquecemos nossos objetivos de vida, o dito destino, quando nascemos. Isso foi uma consequência do awo que ao ter problemas na sua vida, volta ao orun para falar de novo com Olodumare. Este awo, irosun meji, se prepara para esta viagem e com a orientação de ifá, engana elenini que sai da porta de Olodumare, para ir a cozinha fazer o seu café da manhã com elementos que o awo havia trazido através do seu ebó de ifá.


O awo refaz seus objetivos com Olodumare e sai correndo de volta ao aiye. Elenini percebe que foi enganada e corre atrás dele, mas quando percebe que não vai alcançá-lo lhe arranha as costas da cabeça até a cintura, fazendo assim a marca da coluna vertebral nos homens. Além disso ela faz com que as pessoas se esqueçam do que trataram com Olodumare. O awo irosun meji ganha uma nova vida mas se esquece do que pediu a Olodumare.


Ifá, através de Orunmilá serve para nos relembrarmos disso. Através de ifá Orunmilá nos traz orientações baseadas no destino que pedimos a Olodumare. Dessa maneira ifá não é um oráculo comum que fala do passado e presente, ou um contador de fofocas. O que ele diz esta alinhado com o que nós mesmo estabelecemos para nossa vida. Nos momentos que temos dificuldade e precisamos de orientação, naqueles momentos em que já buscamos em nós as respostas e também toda a ajuda disponível sem sucesso, nós sempre teremos Orunmilá, o eleri ipin, o testemunho do nosso destino para recorrer.


Além disso temos a questão do Orí que vamos buscar no mercado de ìdó com Ajalá. Existe um fator de acaso na escolha do ori. Ajalá não faz todos os Orí bem-feitos. Esta situação está explicada em uma história bem conhecida do Odù Ogbe Yonu. Dependemos do acaso ou de uma cuidadosa preparação antes da escolha do Orí.


Por desconhecimento da teologia, existe um sobre valorização da questão do Orí, mas que não será aqui que vou explicar. O Orí inu, é o elemento importante para nossa prosperidade no aiye. Um bom Orí nos levara a prosperar rápido e com menos esforço.


Entretanto também temos que escolher no mercado de Ejigboromekun um bom iwa pele. Sem um bom iwa pele um bom Orí não trará prosperidade, isto esta explicado no odu Ogbe alara.


A escolha do bom Orí é explicada no odu ogbe ogunda, na história de afawupe, o filho de Orunmilá. Como está na história, quando não escolhemos um bom Orí, teremos que lançar mão dos ebós que compensarão este problema ao longo de nossa vida. Desta forma, através de Ifá nós determinamos também o que precisamos fazer para prosperar em nossa vida.


Você deve ir a ifá com essas indicações. Quando precisa tomar decisões importantes em sua vida, quando avalia que seus esforços não estão sendo recompensados, etc.. Ifá é o oráculo da vida, do destino, das grandes mudanças e revisões na nossa vida.


Para coisas comuns e normais, problemas no seu trabalho, com seu marido ou mulher e coisas assim, qualquer vidente pode ajudá – lo, talvez melhor do que ifá. Um bom jogo de búzios resolve nossas questões imediatas de vida. Se você tem questões da religião para resolver, coisas ligadas a orixá, obrigações então, o jogo de búzios, definitivamente, é o oráculo indicado.


Mas ifá está aberto a tudo e sempre vai ajudá-lo em qualquer situação, sejam as questões de vida bem como as mais simples.




Anatomia de uma consulta


Para evitar decepções ou ansiedades desnecessárias, é importante entender o formato de uma consulta a Ifá, as suas fases. Entender isso permitirá a você tirar melhor proveito da consulta.

A consulta a Ifá é bem diferente das dos demais oráculos que vocês podem estar acostumados, como búzios, cartas ciganas e tarot, por exemplo. Esses últimos são bastante interativos e o olhador vai continuamente falando com a pessoa sobre o problema e a resposta do oráculo. A consulta termina junto com a manipulação do oráculo.


Ifá é muito diferente. A consulta começa após a manipulação do oráculo. Após uma breve abertura com rezas, o Babalawo vai passar um bom tempo interagindo com oráculo determinando várias coisas até chegar nos ebós a serem feitos. Tudo isso é o Babalawo e seu oráculo sozinhos, sem que ele fale nada com o consulente. Ele poderá usar o consulente para interagir com o oráculo, mas este processo não implica em explicar ao consulente o que está ocorrendo.


Somente após ele concluir toda a interação com o oráculo e já com o ebó determinado é que ele vai falar com o consulente. Pode parecer estranho mas é assim que funciona. O Babalawo precisa ter o cenário inteiro, composto do odù principal, detalhamento dele e do ebó para poder conversar com o consulente.


Fases da consulta a Ifá:


  • Abertura do oráculo
  • Determinação do odù principal
  • Determinação do estado do odù, tipo do estado e origem
  • Determinação do ebó
  • Explicação e discussão com o consulente
  • Perguntas complementares do consulente
  • Aconselhamento final e encerramento.

As 3 últimas etapas são as que permitem a interação do cliente na consulta. As etapas anteriores são de trabalho do Babalawo com o seu oráculo. Ele precisa de um conjunto de informações para então poder conversar com o consulente.


Tenha paciência para esperar. Quando ele for conversar com você, então você terá todas as informações e poderá perguntar tudo o que quiser e o Babalawo poderá usar o oráculo para respondê-lo, mas, existe um tempo de preparação que para o Babalawo é rápido e para você pode parecer uma eternidade.




O uso de ikin ou opele


Na primeira etapa da consulta o Babalawo deve determinar o odù principal que será analisado, mas ele não é o único que será analisado. Ele é o principal, mas haverão outros complementares. Esta determinação é feita usando os ikins ou a corrente de opele.

Os ikins são o principal instrumento do Babalawo, eles representam o próprio Orunmilá para o Babalawo. O surgimento dos ikins é explicado no odu iwori meji. Nele Orunmilá após um desentendimento com um filho abandona o aiye. As pessoas depois procuram orunmila para que ele volte, mas sem sucesso, Orunmilá deixa então os ikins para representá-lo. Definitivamente esta história não encerra o tema e existem outras.


Muitos poderão observar que se os ikins surgiram após a volta de Orunmilá para o Órun, o que Orunmilá usava para consultar ifá? Eu lembro de ter lido uma referencia a serem usados seixos de rio, mas, não posso citar esta referencia, não me lembro onde foi e nem se pode ser considerada como válida.


Outra questão teológica importante seria discutir que, se ifá é Orunmilá, como o próprio orunmila consulta ifá? Mas essa conversa vai ficar para o texto sobre teogonia.


Referencias aos ikins em Ifá surgem em outras histórias e outros odu. A tradição cubana, no odu ogunda ika, faz ifá nascer no aiye nas mãos de um bebe que nasce de dentro de um elefante, morto por caçadores, sendo que a criança nasce com cabelos e barbas brancas e com 8 ikins em cada mão. Uma história bizarra como só os pataki conseguem produzir.


Sem nenhuma dúvida os ikins são a mais verdadeira e autêntica representação de orunmila. Podemos dizer que no contexto do Babalawo é a única coisa que representa Orunmilá. Um Babalawo somente precisa carregar os seus ikins consigo, mais nada.


Posteriormente à criação dos ikins Orunmilá pede a Olodumare que lhe de uma ajuda. O processo de consultar ifá era lento e a demanda das pessoas era muito grande. Olodumare envia a ajuda para ele, através de um escravo, de nome Alakan, que Orunmilá compra no mercado e que ao se jogar no chão forma a combinação dos Odù com o corpo. Esta história faz parte do Odù Ogbe Meji. Opele depois trairá Orunmilá, é transformado na corrente que possibilita consultas mais rápidas, esta história é narrada no Odù Obará Irosun. A história de opele e Orunmilá é muito interessante e será contada em outra postagem.


Nesse caso podemos ter mais uma discussão teológica uma vez que se Orunmilá fica claro nesta história que Orunmilá usava ikins no aiye. Fica para outra vez.


Explicado isso, minha opinião é que se vocês vão a Ifá que seja para uma consulta com ikins. Vocês devem requerer isso quando marcar a consulta. Se o Babalawo aparecer com opele, depois que combinou antes usar os ikins, vocês levantem e vão embora. Os ikins é que são o instrumento principal do Babalawo e a voz de orunmila.


Se o Babalawo for cobrar a mais por isso, vocês podem querer pagar ou não. Lembrem-se que como em todo negócio sempre o que melhor negocia se da melhor. Ele é que está vendendo, você é o comprador, ele está tão ou mais interessado que você, porque a consulta é apenas a porta de entrada para outros negócios que ele vai tentar empurrar para você. Se não quiser pagar a mais digam que não quer pagar nada a mais ou coloque na sua cabeça o quanto está disposto a dar a mais, o Babalawo que decida o que quer fazer.


Uma consulta a Ifá sempre é longa, coisa de 2 horas, e deve ser uma ocasião importante para você. Pode não ser para o babalawo, mas, para você é um momento importante, ninguém vai a Ifá para tratar de coisas banais, nem mesmo um Babalawo consulta Ifá para ele ou com outro Babalawo se não for um momento importante. Não será o ikin que vai tornar isso mais demorado. Aliás este é um fator importante, se você vai a ifá e sua consulta leva meia hora, então, foi ao lugar errado. Com prática o Babalawo lida bem rápido com os ikins e isso compensa o tempo a mais que vai gastar (e gasta mesmo).


O uso generalizado do opele pelo Babalawo é apenas uma grande conveniência. Ele não pode desprezar importância dos problemas dos consulentes. Mas ao lidar muito com o opele ele perde a prática de usar ikin.


O opele é ótimo em muitas situações. O Babalawo o usa muito, é um instrumento bom, simples e rápido para sacar odù, sem dúvida. Quando se precisa fazer perguntas de sim/não em sequência e quantidade ou quando se vai lidar com consulta a problemas não complexos, decisões e orientações, o opele é ótimo. Como eu disse, Ifá suporta a gente nas questões importantes e também nas simples

.
Entretanto é minha visão que quando a pessoa procura ifá com questões importantes para ela e sua vida que o instrumento do Babalawo deve ser o ikin. Mais do que isso, minha opinião é que o instrumento preferencial do Babalawo é o ikin, deixando o opele para casos menores, problemas menores e também para agilizar o seu trabalho. Mesmo em uma consulta com ikin, o opele tem seu espaço, mas isso não é assunto para aqui.



O valor da consulta e de trabalhos adicionais


O valor de uma consulta a Ifá esta ligado ao mercado disso, o mercado de consulta a oráculos. Para este mercado não existe especialização o que importa é a eficácia, a rapidez que se resolvem problemas. Ifá não é eficaz, é eficiente, com o suporte de ifá você poderá resolver problemas da sua vida e decisões de maneira definitiva.

Não entre na idéia de que tudo que é bom é caro. Uma consulta a Ifá, se bem feita vai te dar orientações e conselhos. É isso que você esta pagando. Um Babalawo não pode almejar ser rico. Ele pode almejar que em função da dedicação que Ifá exige e do prazer e realização que ele sente em fazer aquilo, que Ifá possa sustentá-lo. Todas as religiões sustentam os seus sacerdotes, ser um sacerdote remunerado por este ofício não é nada demais.


Pagar a um Babalawo pela consulta é completamente natural. Os espiritas ( kardecistas ) que são elitistas e arrogantes, além de representarem um embuste ideológico, inventaram que a prática da religião deveria ser caridade, porque é um dom divino. Isso é tão fraudulento e elitista como era o barão de coubertain que criou as olimpíadas modernas somente para amadores (Ele apenas queria afastar, como fez por muito tempo as classes mais pobres da disputa).


Padres são remunerados, monges são sustentados, literalmente pelas comunidades onde vivem.


Ifá exige dedicação e gastos para se manter. Mesmo pessoas que trabalham e são Babalawo precisam cobrar para fazer frente aos seus gastos devido à esta atividade religiosa. O Babalawo tem que periodicamente se submeter a cerimônias e ebós devido ao exercicio da atividade como Babalawo. Lidar com o supernatural, suas energias e os problemas das pessoas transfere para o Babalawo, suas casa e vida energias que devem ser neutralizadas.


Assim, um Babalawo cobra pelo que faz, mas, isso não é um trabalho para ser rico. Se você procura um Babalawo que seja rico ou muito bem de vida em função do que faz, pensem muito bem, porque é você que vai pagar pela gasolina azul dele ( como a gente falava antigamente...).


Não use para Ifá o mesmo raciocínio que usa para médicos, onde quanto mais caro e mais difícil a consulta, melhor o médico é.


se você vai a Ifá de fato, não importa se a consulta custa R$1 ou R$10. Quem fala com você é Orunmila. O Babalawo é o intermediário. O divino, Orunmila vai falar com você tão bem em uma consulta de 1 ou de 10. O que você tem que saber é se aquela pessoa é de fato um Babalawo e se leva a sério o que faz.


Além disso, você pode anotar ou pedir para que seja anotado os Odù da consulta e os Ebó. Isso é seu, você pagou por isso. Existe um padrão para essa anotação. Você pode levar isso para qualquer Babalawo interpretar para você.


Essa é outra grande diferença entre Ifá e os outros oráculos. Uma vez feita a consulta, qualquer Babalawo pode interpretar e fazer os Ebós. Se você não gostou desse, procure outro para fazer os ebós ou mesmo para que ele interprete para você. Nesse aspecto é igual a médico....você pode levar seus exames para validar o diagnóstico e receitas. Ifá é igual.


Fique atento porque os gastos de uma consulta não se esgotam no valor daquela consulta. Em quase todos os casos haverá sempre um ebó a ser feito, esse é o jeito de ifá. Pode ainda envolver oferendas ou sacrifícios a orixas, mas vou comentar a seguir isso. Nesse momento eu chamo a atenção que, a menos que você não vá fazer o ebó indicado ( ebó de ifa é uma coisa mais simples ) que o ebó vai custar pelo menos o mesmo que uma consulta.


Dessa maneira já vá montando o seu orçamento baseado nisso, você vai gastar no mínimo o dobro do valor da consulta, certamente mais, tudo vai depender do bom senso e ética do Babalawo.


Observem, não estou dizendo aqui que todo Babalawo é aético. Estou dizendo que vocês devem ficar atentos, não existe garantia de virtude. Isso é vida normal, mundo real, tem gente que nem é Babalawo e finge que é.




A questão de ire e osogbo


Este texto não tem objetivo de explicar sobre o conteúdo da consulta e sim fazer recomendações e explicações gerais para quem vai a uma consulta. Mas, mesmo com este sentido não dá para não comentar sobre o estado do odù, devido a alta significância disso na relação de consumo cliente – babalawo.

Após o Babalawo determinar o odù principal ele deve determinar se ele veio trazendo ire ou osogbo / ibi.


Muitos se referem a esta parte do processo sendo como determinar se ele está positivo ou negativo. Minha visão disso é diferente e vou explicar a seguir. Esta diferença de entendimento, que estou propondo agora, é significativa como um fator importante que afeta a relação consulente-Babalawo.


Como já ocorre no candomblé e com outros videntes, o jogo é apenas a porta de entrada para outros negócios. Vocês nunca devem perder esta perspectiva de negócio que está envolvida porque isso é, de fato, o que determina o resultado de muitos jogos. Entender isso facilita o entendimento do comportamento associado às pessoas nesta atividade oracular.

Não é a expectativa do olhador que o atende (seja ele Babalawo ou outro) que a relação entre vocês se conclua com a consulta ao oráculo. Quem vai a um oráculo é porque tem problemas, não vai ali para bater papo, e o olhador é acima de tudo um profissional para resolver problemas através do supernatural. Para a muitos Babalawos, o que ele faz não é um sacerdócio, bom, também é um sacerdócio (da forma como ele gostaria de se ver), mas sem nenhuma dúvida é uma profissão, ou também um negócio. 

O valor da consulta sempre leva em consideração o valor de mercado dela,mas não é com isso que o Babalawo se mantêm. O mais relevante é a perspectiva de fazer novos negócios, de ebós a iniciações, após a consulta (como resultado dela). Isso é igual ao valor do jornal em uma banca de jornal. O valor que a gente paga não deve cobrir o custo do papel. O que permite o jornal ser impresso e circular são os anúncios que ele contém. Também como a TV que é de graça para nós, mas mantida pelos anunciantes.

A gente vê na praça videntes que dizem que a consulta dele tem um valor mínimo, incentivando assim as pessoas a procurá-lo. De fato, a consulta tem mesmo um valor baixo, na verdade o trabalho de venda dele será sobre o psicológico do consulente em função do que ele vai ver no jogo (sendo criativo ou não). Ele vai trabalhar as ambições e medos do consulente, independente dos problemas (e gravidade) que eles tenha de fato. Afirmo que essas pessoas são boas no que fazem, isto é, induzir as pessoas a gastarem dinheiro em trabalhos com eles e muitas vezes são também muito boas na sua vidência.


Outras inovam, dizem que o valor da consulta já inclui o trabalho posterior. Isso é só marketing. Tomem cuidado.


Com o Babalawo não é diferente.


Como eu disse toda consulta a Ifá leva a um ebó, claro, existem os casos que pode não ser necessário, mas o normal é ter mesmo e prefiro me dirigir a regra e não a exceção. A questão de ter o ebó é parte da estrutura do oráculo e é perfeitamente normal e esperado.

Devemos, em primeiro lugar, considerar que a consulta a Ifá já é um ebó. Esta é uma grande diferença entre ifá e outros oráculos.

A origem disto está na teologia explicada no inicio deste texto. Orunmilá é o eleri ipin, o testemunho do nosso destino. Vamos a Ifá para recorrer a Olodumare através de Orumilá, quando precisamos de uma orientação em nossa vida para poder cumprir o nosso destino (ou objetivo de vida). Olodumare responde através de um odù. O odù não é apenas um sinal ou desenho, os sinais o representam, mas, uma consulta feita com um Babalawo, traz o odù como a energia que Olodumare envia para nos ajudar. O odù é o axé de Olodumare que desde o momento da consulta através de Orumilá, Exu e principalmente dos orixá se manifestará na nossa vida.


O trabalho do Babalawo é ser o intermediário disso e posteriormente, através do ebó conduzir e manipular este axé para que ele se manifeste em sua plenitude na vida de vocês e não seja perdido. O Babalawo é um intermediário desta operação assim como o são os orixás que se apresentarão para ajudar a pessoa.


Quando Olodumare criou o aiye ele sabia que a vida teria interesses mas também dificuldades causadas pelos ajogun e ajé. Ele também sabe que o processo de nascimento pode ter falhas desde a escolha do Ori até a concepção física. Para que as pessoas pudessem superar tudo isso ele criou ifá. Ifá contém a palavra de Olodumare através dos seus versos e também os signos através das marcas de odù. Essas coisas transmitem o axé do Olodumare para as pessoas, as palavras de ifá rezadas a partir dos versos Invocam ou transportam o axé de Olodumare.


Desta maneira a própria consulta já é um ebó. Por isso é importante o uso de ikin e por isso o Babalawo deve rezar o odu que sai na consulta.


Toda esta explicação teológica é para dizer que não concordo com a visão ou forma de explicar, não importa, que as pessoas usam, inclusive as que se dizem Babalawo, de que um odù traz uma negatividade e por isso o ebó é necessário, sem o que a pessoa ficaria com a negatividade com ela.


Essa visão sempre existiu no candomblé, com os babalorixás tocando o terror com os odu, dizendo que tal odu era terrível, o outro provocava isso ou aquilo, levando às pessoas a crerem que eles, os odù, eram uma coisa ruim que agarrava em você e você tinha que se livrar dela.


Isso continua em Ifá, após sacar o odù o babalawo deve determinar se ele vem no estado de bênção, ou ire, ou de mal, ibi. Os cubanos não usam a palavra ibi, usam osogbo, que significa que, não é ire. As palavras mudam mas são usadas da mesma forma.


O uso desta interpretação de odù positivo ou negativo visa sempre o mesmo, induzir o consulente a fazer o ebó. Como Babalawo eu digo que você deve fazer o ebó recomendado. O odu e o ebó são uma resposta divina a sua súplica. Não fazer é desperdiçar o axé que Olodumare envia para você a seu pedido, uma vez que, se você vai a Ifá é porque pede ajuda.


Apesar disso eu, como todo mundo, sei que o objetivo do vidente, olhador ou Babalawo é que você faca o ebó. Existe uma transação mercantil em curso entre você e ele, e ele não quer de você apenas o valor da consulta, ele quer muito mais. A consulta é uma porta aberta às oportunidades. Esta é uma sombra que não pode ser ignorada nesse processo.


Em função disso é que o entendimento da orientação do odù é importante, porque esta interpretação é o principal motor das ações direcionadas ao consulente.


Cada um deve avaliar no que acredita, o que eu posso fazer é dar a minha visão. Neste sentido minha interpretação é que um odu sempre é positivo porque ele é axé. O problema já está com você, o odu sempre vem para ajudá-lo. Se você não fizer o ebó vai ter desperdiçado o axé. Também não descarto em alguns casos, principalmente em Ire algum desequilíbrio temporário, porque axé demais também atrapalha.


Na minha visão quando o odù vem em ire ele traz bênçãos para você, axé para impulsionar sua vida, ajudá-lo a melhorar, realizar algo, etc... Quando ele vem em ibi (também chamado de osogbo ou ayewo) ele vem para retirar ou neutralizar um mal que o ronda, uma sombra em você, etc... o axé do odù será usado para zerar sua conta, deixá-lo sem a influência da energia negativa ou da eminência de uma situação desfavorável.


Dessa maneira odù sempre é uma energia boa. Ele pode vir para alavancar sua vida ou para retirar a negatividade que já existe.


Minha visão da religião é sempre positiva. Os orixá estão sempre para nos ajudar, para trazer o bem para nós. Eu não mistifico situações, não vejo orixás exigindo coisas, cobrando coisas ou punindo que não os adora. Vivo bem e sem problemas com essa minha visão. A teoria na prática é a mesma, ou melhor, o rito e a teologia são o mesmo.


Assim eu recomendo que não se assustem com essa questão de ire ou osogbo. Nenhum mal foi jogado sobre suas cabeças. Acreditem no oráculo, sigam as recomendações tenham fé em deus e nos orixá. Mas, vocês não precisam de gente prevendo o fim do mundo. Ajam com prudência e fiquem de olho vivo nas espertezas. Depois da consulta decidam o que querem fazer. Se a pessoa que consultaram não passou confiança ou o ambiente que ele está ou que se cerca não é confortável para vocês, não façam nada. Não aumente o tamanho do seu problema.


Decidam com racionalidade o que querem fazer. Não tomem decisões por medo.


Quando e falar, a seguir, sobre escolha de ebós, vocês vão fechar o entendimento de porque é importante a definição de Ire / osogbo.




O uso de ìbò


A questão de Ìbò é um pouco técnico e mais profundo e não sei se todos vão compreender, mas, é importante comentar.

Uma das coisas que mais torna ifá um oráculo interessante para o consulente é o uso dos ìbò (ibô). Os ibô são objetos que o Babalawo coloca em ambas as mãos do consulente e este os embaralha colocando cada um e uma mão mas escondidos do babalawo, que não deve saber em qual mão está cada Ìbò. O objetivo deles é servir para responder as dezenas perguntas de sim ou não que surgem durante a consulta.


Um dos objetos significa SIM e o outro significa NÃO. A cada pergunta os objetos são novamente embaralhados. O Babalawo define às cegas qual a mão o consulente deve abrir e, em função do conteúdo da mão, o tipo do ìbò, a pergunta será respondida com SIM ou com NÃO. O que o Babalawo faz é usar os ikins ou opele para, através da ordem de senioridade dos odu determinar que mão deve ser aberta. O ìbò determina a resposta., mas, o Babalawo não sabe a resposta antes da mão ser aberta.


Observem que é um trabalho colaborativa. Ifá diz ao Babalawo qual mão deve ser aberta. Porém foi o consulente que colocou sem a ciência do Babalawo, o ìbò que determina SIM ou NÃO. A resposta é o resultado do trabalho de ambos.

Chamamos isso de interação entre o oráculo e o Orí do consulente. Usando dessa maneira o Babalawo não pode manipular as respostas, mas, acima de tudo o consulente participa do oráculo.


Os tipos de objetos são trocados de acordo com o tipo de pergunta, normalmente o objeto que significa NÃO é o mesmo, o que vai significar o SIM em cada pergunta é que muda. O objetivo do uso disso é fazer com que o oráculo interaja com o Orí com consulente, seu orixá individual e protetor.


Existem Babalawos que estão deixando de usar isso. Existe uma forma de fazer o processo sem o ibô, que o Babalawo emprega quando esta sozinho ou jogando para ele mesmo. O que noto e que esta simplificação acaba atraindo as pessoas. Veja, já é uma simplificação usar o opele, será uma maior ainda você dispensar o ibô. Claro que as pessoas tem explicações para isso, mas racionalizar é um processo fácil. O complicado é fazer o que deve ser feito.




A escolha de ebós e oferendas


Após o Babalawo ter determinado o tipo e origem do estado do odù, ele parte para definir o ebó. Esta definição pode variar entre tradições, escolas e ramas, mas basicamente passa por determinar primeiro os elementos que serão necessários no ebó de ifá e se além disso será necessária alguma oferenda para uma ou mais divindades que se apresentarem para te ajudar.

O ebó de ifá é feito em cima do opon ifá, o tabuleiro de ifá e é um processo composto de muitas rezas. A quantidade de elementos é bem menor do que comparado com o que se faz no candomblé e sua preparação bem mais simples.


As oferendas para divindades são convertidas em axé para você, orixá não come, quem come é seu corpo. Mas existe também o caso onde a oferenda é usada para aplacar ou afastar ajoguns ou ajés. Essas oferendas podem ser comidas votivas ou animais. Não existe regra, cada caso é um caso.


O grande problema nesta fase é o exagero. As pessoas pecam pelo excesso, assim, em vez de oferecerem pouco ou o mínimo necessário, iniciam oferecendo muito e fazendo questão de incluir animais. Não existe erro se a oferta é feita e o oráculo aprova. Contudo poderia também ter aceitado muito menos.


As coisas que alertei no assunto anterior, sobre os estados de Ire ou Osogbo e a forma de ver isso, interpretar isso e explicar isso ao cliente repercute aqui. Sem dúvida serão os "graves" casos de osogbo de determinarão muitos ebós e com muitas coisas. Por isso que expliquei a questão da orientação do Odù,

O que esta envolvido em grandes oferendas é sempre a mesma coisa, o vil metal, o dinheiro. Custa mais em material e custa mais na remuneração pelo serviço de executar aquilo. Quanto mais pessoas envolvidas, mais dinheiro. Ifá é diferente do candomblé neste aspecto. No candomblé as pessoas trabalham para a casa de forma que sempre a casa é quem recebe. Em Ifá no modelo cubano, não tem essa de casa e egbé. Cada um que vai la recebe para isso.

Eu digo que você deve fazer o que o oráculo indica, nem mais nem menos. Entretanto, dosar o que vai ser oferecido para aprovação é que são elas. Como eu alertei antes, toda vez que tem dinheiro envolvido você deve ficar atento. Isso, o dinheiro, muda tudo.


Na hora de determinar o ebó eu penso que sempre se começa com o pouco. Gradativamente se adiciona e uso de animais somente em último caso. Não que eu seja desses preocupado com animais, não sou, minha preocupação é com o consulente.


Não faça ebó como falta de opção. Faça se quiser e se confia na pessoa. Você pode desistir a qualquer momento.


A minha recomendação mais importante e valiosa é esta: se um ebó deu certo não adianta voltar lá pedindo um reforço. Não adianta fazer mais ebós ou fazer ebós maiores e mais complexos. Você não ganhará mais por isso. O ebó funciona na medida certa do que tem quer ser. Também traz o resultado certo que tem que trazer. Seria muito fácil se fosse assim, quanto mais ebó mais resultados, todo babalawo e babalorixá seria rico.


Uso de estórias na interpretação

A coisa mais importante em Ifá são as histórias dos odu. Elas são que tem as mensagens para o consulente. A consulta será tão boa e precisa quanto o babalawo se dedicar explorar e entender as estórias.


Você poderá encontrar Babalawos que não se preocupam com as estórias. Isso ocorre porque nos tratados cubanos existem 2 tipos de informação. Existem uma série de pré – interpretações associadas a cada odu. Muitas pessoas se preocupam apenas em aprender isso fazendo que a consulta com elas fique muito objetiva. Os odus saem e elas já saem dizendo o que é o problema e, com suas respostas elas vão ajustando a interpretação delas. Como o ebó já foi tirado ela só precisa equalizar com você uma situação que você concorde, ai acabou.


Esse formato é igual ao dos babalorixás de candomblé. Eles fazem consultas com búzios de 15 minutos.


Mas ifá não é assim, ou melhor, não deve ser assim.

Você deve ouvir as estórias e interpretá-las junto com o Babalawo associando as estórias a sua vida. As boas histórias deixam lições importantes para você. Acima de tudo o próprio consulente é quem analisa se aquela estória se encaixa na vida dele. O Babalawo, através da visão do consulente sobre a estória consegue captar o que aflige aquela pessoa, quais são seus temores e os valores que ela tem.


A estória permite você avaliar sua vida e seu comportamento, suas ações e realizações. Ao se espelhar nos personagens e situações, você tem a oportunidade de fazer uma auto – avaliação.


A percepção deste conjunto de coisas permite ao Babalawo entender de fato a origem dos problemas do indivíduo. Ajudá-lo a entender a origem é o que permite a essa pessoa corrigir sua vida. As pessoas não conseguem por si só ver essa causa raiz. Elas veem os problemas que tem como uma conspiração da vida e das pessoas ao seu sucesso. Elas buscam no jogo alguém que, então, resolva esses problemas com ela, esses problemas que não são dela e que estão atrapalhando sua felicidade.


O Babalawo de verdade estará em uma consulta sempre de olho nas causas raiz, buscará aquilo que Ifá tem a falar aquela pessoa e que está ligada ao destino dela. Por isso que eu digo que teologia é importante. Orunmilá é o eleri ipin, o testemunho do nosso destino, o que ele tem de relevante a falar para nós esta ligado a isso e é esta característica que personaliza ifá.


As pessoas vão a Ifá com um problema, mas, na consulta, ifá vai falar o que é importante para você saber. Depois o Babalawo endereça o seu problema, mas, Ifá diz as pessoas aquilo que elas precisam ouvir para serem felizes e realizar o seu objetivo de vida.


O Babalawo que em vez de focar nisso se ocupa com o imediato, não realiza a sua função como representante de Orunmilá. Esse viés de interpretação é objetivo mas não é um bom ifá. Para fazer isso vá a um jogo de búzios ou cartas que eles vão ser até melhores.


Babalawos determinando orixá em jogo.

Não tem nada pior, mais idiota e baixo do que babalawo que se mete a, em consulta a Ifá, dizer orixá e coisas de orixá, seja para abiãs como iniciados. Isso é um hábito ruim, sem ética e desprovido de fundamento.


Isso sempre foi feito pelos olhadores de búzios, babalorixás ou não. Nunca prestou para nada, sempre foi motivo de piadas e sempre foi baseado em arquétipos. As poucas vezes que alguém acertava era apenas coincidência. O objetivo disso sempre foi comercial. O olhador busca através disso, da determinação de orixá, de pegadas que permitam a ele prender o interesse do consulente, fazer ele voltar e comprar mais coisas dele. Orixá sempre é um gancho muito bom, as pessoas adoram, igual horóscopo.


A pessoa vai para uma simples consulta de búzios e já sai dali com orixá, qualidade e juntó. É mole? Ninguém com 3 neurônios pode acreditar nisso. Para que a feitura? Para que os ritos de feitura? Quem passa por uma feitura ou participa entende facilmente a bobagem que é essa coisa de orixá em jogo. Falo de feituras de verdade, não essa coisa de 7 dias.


No caso de ifá o que mais encontro é Babalawo que não sabe nada de orixá, dizem que sabe, falam que sabem, acham que sabem, mas acreditam que só porque virou Babalawo se transforma automaticamente em especialista. Especialista de coisa nenhuma. Alguns são pessoas que podem até ter convivido em uma casa de candomblé visto e aprendido alguma coisa ou até bastante, mas, não eram e não serão babalorixás. Não adianta se comportar como um babalorixá frustrado, e como Babalawo querer fazer aquilo que cabe a um babalorixá de direito e com propriedade para lidar com isso.


Outros, nunca foram de candomblé, nunca conviveram em um terreiro. A pessoa entra pela porta lateral de ifá, sem saber nada, é instruído em algumas coisas de lukumi e passa a se achar alguma coisa. Inicialmente eu digo que o lukumi está mais para uma umbanda omoloko melhorada do que para um candomblé, mas isso é apenas minha opinião idiota. Os cubanos não podem responder a isso porque eles não conhecem nem candomblé, nem omoloko e muito menos umbanda. Assim eles nem sabem o que eu estou falando.


Contudo aceito que pessoas antigas de lukumi, cubanos nascidos e feitos nesta tradição conheçam orixá, do jeito deles, mas conhecem. Os ritos lukumi são muito sérios e é uma tradição de orixá com história e esás.


Entretanto, brasileiros que entram com o bonde andando, sem formação e experiência nada sabem de nada. Não se pode comparar um lukumi que cresceu dentro disso e um brasileiro que cai de paraquedas nisso.


Essas pessoas, brasileiros, não conhecem nem o lukumi e muito menos o candomblé, fazem o mesmo que o pessoal de umbanda que vai para o candomblé faz, mistura uma coisa com a outra e sai tocando como se fossem gente de verdade.


Dessa forma cuidado ao darem ouvidos a Babalawos quando se trata de orixá. Não é a praia dele.




Assentamentos e iniciações


A última orientação que eu posso dar é relação a assentamentos e iniciações.

Cuidado ao receber como indicação de ifá que você tem que ser iniciar, que Ifá te da caminho ou que a solução de seus problemas passa pela iniciação. Isso é só armadilha, ou pelo menos uma interpretação criativa. Os tratados estão repletos de indicação de iniciações, poucas são as sinceras.


De fato, existe muito pouca contra-indicação a uma pessoa ser iniciada, praticamente qualquer pessoa pode ser. Entretanto é uma liturgia que vai custar 20 vezes ou mais o valor de uma consulta ou ebó, dessa forma, mexe muito no bolso das pessoas e isso abre os olhos do Babalawo.


Nesse ponto é onde o Babalawo mexe com a vaidade da pessoa. Ele diz para o cara que Ifá do caminho a ele, que Ifá o quer ou que ele somente vai resolver a vida dele se ele se iniciar. A pessoa se enche de vaidade, como se aquilo fosse fato e fica cego para o óbvio, está sendo enrolado.


Pessoas se iniciam sem saber o que querem com isso ou o que fazer com isso. Pessoas se iniciam sem saber o que serão beneficiadas com isso. Pior ainda, pessoas se iniciam sem saber se vão aprender alguma coisa. Pessoas que não devem fazer parte de ifá, como homossexuais e mulheres se iniciam para satisfazer seu ego criando uma mentira para elas mesmas.


Quem ganha com isso é apenas o Babalawo. Você só perde.


Cuidado também com assentamentos.


Os tratados cubanos estão recheados com recomendações de receber assentos de orixá, Exu e egun. Tudo se reverte à necessidade de receber um assento. A origem disso normalmente está em uma história na qual determinado orixá atuou e resolveu algo, dessa maneira isso é a interpretado como a indicação de ter um assento da divindade é extremamente importante.


O lukumi é uma tradição sem muita enfase em incorporação. Eles iniciam as pessoas em 7 dias e não tem o conceito de terreiro. Assim, de fato, incorporar não é o forte, acaba reservado para os mais antigos. Tem também o conceito de que quem incorpora na pessoa é um egun e não o orixá. Neste contexto assentos ganham muita ênfase. Eles adoram fazer e dar assentamentos. Veja, não entro no mérito de isso ser bom ou errado, se valem para alguma coisa ou não. Digo que isso faz parte da cultura religiosa deles.


Nos tratados de Ifá cubano, distribui-se assento por qualquer motivo. Mas, essa distribuição não é gratuita, custa mais dinheiro.


No candomblé a visão é muito distinta, assentos são chamados de igbas e somente iniciados recebem. Ficam guardados no terreiro e não fazem parte do dia a dia da pessoa, são relíquias, representações no aiye do orixá, que no candomblé, na teoria e na prática, é orixá mesmo e não um egun. O candomblé entende que o iniciado é o assentamento vivo do orixá e este, junto com o ori e o terreiro são sua proteção. Desta forma a ênfase é no processo de iniciação e não em Igbas.


Não existe no candomblé o hábito de fazer assentamentos para não feitos, para consulentes. Até mesmo para os iniciados, receber um igba é uma coisa muito importante e reservada para obrigação. É considerado um grande momento de transmissão de axé. O Igba é considerado pelo Candomblé uma transmissão de axé para a pessoa com a ligação da pessoa ao axé da casa,


O processo de elaboração dos igbas do candomblé e dos assentos lukumi é muito distinto, o do candomblé é personalizado e profundo nas pessoas que participam profunda mente da sua elaboração, no lukumi é quase um objeto, você recebe sem nem ter visto ele ser elaborado, quando chega esta lá, pronto.


Enquanto no candomblé não existe sentido um igba longe da pessoa devido a ligação visceral entre pessoa de igba, do lukumi e consequentemente no ifá cubano, você aluga ou empresta o uso de assentamentos e tem até o caso de pessoas que roubam assentos de outras. Isso no candomblé é impensável por concepção.


Desta forma a visão de assento e igba são muito diferentes. Mesmo o chamado santo lavado no Candomblé, que tem uso restrito, mas se assemelha um pouco ao assento lukumi, por ser dado a pessoas não iniciadas é completamente visceral com a pessoa que o recebe.


Mas, vou repetir, não estou questionando o que ou como o Lukumi faz suas coisas. O Lukumi é uma tradição legítima da religião Yoruba. O que estou fazendo é destacando alguma diferenças básicas entre como uma tradição vê uma coisa e como outra tradição vê essa coisa.


Estou buscando explicação do motivo da distribuição de assentamentos como uma prática adota no Lukumi e sem paralelo no Candomblé.


Apesar de eu falar de lukumi e candomblé, entendam que tudo o que se refere a lukumi está ligado a Ifá. Cuba é uma ilha pequena. Não existe muita variedade em nada. O ifá cubano usa o que o lukumi faz e no que diz respeito a orixá segue exatamente a mesma coisa.


Por essa razão é comum e normal encontrar nos tratados cubanos a recomendação de elaborar assentamentos para a proteção dos consulentes. Isso decorre de uma prática religiosa deles e de uma forma de interpretar o oráculo.



Mas como tudo em ifá é muito bem pago o problema disso está na cobrança que será feita para a elaboração dos assentamentos, afinal, nada é de graça em Ifá. Receber um assento é mais um vetor de aumentar a receita do babalawo.


Não caia nessa, você foi para uma consulta, não se envolva demais com aquela pessoa. O que você busca é ouvir os conselhos de ifá e fazer o ebó para se aproveitar do axé de Olodumare. Não faça nada além disso, não compre nenhum assentamento.

Interpretar que em função de uma história que é usada para entender o Odu, em função do papel exercido por um orixá na história você tem que ter um assentamento dele é um excesso de criatividade mercantil. Considere ainda que os cubanos inventaram essas histórias com orixás como personagens.

Nos versos originais, normalmente os personagens são pessoas diversas, algumas que surgem apenas naquela história, mas, também aparecem Orixás. No cubano, todos os personagens são Orixás e são mostrados cometendo as maiores barbaridades, porque eles assumem o papel dos certos e dos errados.

Não vejo como natural a interpretação que indica dar um assentamento de orixá.

Sua relação com ela é de consulente-babalawo, não mude isso com facilidade. Você vai a esta pessoa para resolver assuntos e ter orientações não para virar afilhado ou filho de santo. Mantenha o foco na sua vida e os problemas que foi resolver.

segunda-feira, maio 26, 2014

O que você precisa saber sobre consultas a Ifá Parte Final

O que você precisa saber sobre consultas a Ifá

Parte Final

Assentamentos e iniciações


A última orientação que eu posso dar é relação a assentamentos e iniciações.

Cuidado ao receber como indicação de ifá que você tem que ser iniciar, que Ifá te da caminho ou que a solução de seus problemas passa pela iniciação. Isso é só armadilha, ou pelo menos uma interpretação criativa. Os tratados estão repletos de indicação de iniciações, poucas são as sinceras.

De fato, existe muito pouca contra-indicação a uma pessoa ser iniciada, praticamente qualquer pessoa pode ser. Entretanto é uma liturgia que vai custar 20 vezes ou mais o valor de uma consulta ou ebó, dessa forma, mexe muito no bolso das pessoas e isso abre os olhos do Babalawo.

Nesse ponto é onde o Babalawo mexe com a vaidade da pessoa. Ele diz para o cara que Ifá do caminho a ele, que Ifá o quer ou que ele somente vai resolver a vida dele se ele se iniciar. A pessoa se enche de vaidade, como se aquilo fosse fato e fica cego para o óbvio, está sendo enrolado.

Pessoas se iniciam sem saber o que querem com isso ou o que fazer com isso. Pessoas se iniciam sem saber o que serão beneficiadas com isso. Pior ainda, pessoas se iniciam sem saber se vão aprender alguma coisa. Pessoas que não devem fazer parte de ifá, como homossexuais e mulheres se iniciam para satisfazer seu ego criando uma mentira para elas mesmas.

Quem ganha com isso é apenas o Babalawo. Você só perde.

Cuidado também com assentamentos.

Os tratados cubanos estão recheados com recomendações de receber assentos de orixá, Exu e egun. Tudo se reverte à necessidade de receber um assento. A origem disso normalmente está em uma história na qual determinado orixá atuou e resolveu algo, dessa maneira isso é a interpretado como a indicação de ter um assento da divindade é extremamente importante.

O lukumi é uma tradição sem muita enfase em incorporação. Eles iniciam as pessoas em 7 dias e não tem o conceito de terreiro. Assim, de fato, incorporar não é o forte, acaba reservado para os mais antigos. Tem também o conceito de que quem incorpora na pessoa é um egun e não o orixá. Neste contexto assentos ganham muita ênfase. Eles adoram fazer e dar assentamentos. Veja, não entro no mérito de isso ser bom ou errado, se valem para alguma coisa ou não. Digo que isso faz parte da cultura religiosa deles. 


Nos tratados de Ifá cubano, distribui-se assento por qualquer motivo. Mas, essa distribuição não é gratuita, custa mais dinheiro.

No candomblé a visão é muito distinta, assentos são chamados de igbas e somente iniciados recebem. Ficam guardados no terreiro e não fazem parte do dia a dia da pessoa, são relíquias, representações no aiye do orixá, que no candomblé, na teoria e na prática, é orixá mesmo e não um egun. O candomblé entende que o iniciado é o assentamento vivo do orixá e este, junto com o ori e o terreiro são sua proteção. Desta forma a ênfase é no processo de iniciação e não em Igbas.

Não existe no candomblé o hábito de fazer assentamentos para não feitos, para consulentes. Até mesmo para os iniciados, receber um igba é uma coisa muito importante e reservada para obrigação. É considerado um grande momento de transmissão de axé. O Igba é considerado pelo Candomblé uma transmissão de axé para a pessoa com a ligação da pessoa ao axé da casa,


O processo de elaboração dos igbas do candomblé e dos assentos lukumi é muito distinto, o do candomblé é personalizado e profundo nas pessoas que participam profunda mente da sua elaboração, no lukumi é quase um objeto, você recebe sem nem ter visto ele ser elaborado, quando chega esta lá, pronto.

Enquanto no candomblé não existe sentido um igba longe da pessoa devido a ligação visceral entre pessoa de igba, do lukumi e consequentemente no ifá cubano, você aluga ou empresta o uso de assentamentos e tem até o caso de pessoas que roubam assentos de outras. Isso no candomblé é impensável por concepção.

Desta forma a visão de assento e igba são muito diferentes. Mesmo o chamado santo lavado no Candomblé, que tem uso restrito, mas se assemelha um pouco ao assento lukumi, por ser dado a pessoas não iniciadas é completamente visceral com a pessoa que o recebe. 


Mas, vou repetir, não estou questionando o que ou como o Lukumi faz suas coisas. O Lukumi é uma tradição legítima da religião Yoruba. O que estou fazendo é destacando alguma diferenças básicas entre como uma tradição vê uma coisa e como outra tradição vê essa coisa.

Estou buscando explicação do motivo da distribuição de assentamentos como uma prática adota no Lukumi e sem paralelo no Candomblé.

Apesar de eu falar de lukumi e candomblé, entendam que tudo o que se refere a lukumi está ligado a Ifá. Cuba é uma ilha pequena. Não existe muita variedade em nada. O ifá cubano usa o que o lukumi faz e no que diz respeito a orixá segue exatamente a mesma coisa.

Por essa razão é comum e normal encontrar nos tratados cubanos a recomendação de elaborar assentamentos para a proteção dos consulentes. Isso decorre de uma prática religiosa deles e de uma forma de interpretar o oráculo.

Mas como tudo em ifá é muito bem pago o problema disso está na cobrança que será feita para a elaboração dos assentamentos, afinal, nada é de graça em Ifá. Receber um assento é mais um vetor de aumentar a receita do babalawo.

Não caia nessa, você foi para uma consulta, não se envolva demais com aquela pessoa. O que você busca é ouvir os conselhos de ifá e fazer o ebó para se aproveitar do axé de Olodumare. Não faça nada além disso, não compre nenhum assentamento. 


Interpretar que em função de uma história que é usada para entender o Odu, em função do papel exercido por um orixá na história você tem que ter um assentamento dele é um excesso de criatividade mercantil. Considere ainda que os cubanos inventaram essas histórias com orixás como personagens.

Nos versos originais, normalmente os personagens são pessoas diversas, algumas que surgem apenas naquela história, mas, também aparecem Orixás. No cubano, todos os personagens são Orixás e são mostrados cometendo as maiores barbaridades, porque eles assumem o papel dos certos e dos errados.

Não vejo como natural a interpretação que indica dar um assentamento de orixá.

Sua relação com ela é de consulente-babalawo, não mude isso com facilidade. Você vai a esta pessoa para resolver assuntos e ter orientações não para virar afilhado ou filho de santo. Mantenha o foco na sua vida e os problemas que foi resolver.

quarta-feira, maio 21, 2014

O que você precisa saber sobre consultas a Ifá

O que você precisa saber sobre consultas a Ifá

(Parte 4/5)

A escolha de ebós e oferendas


Após o Babalawo ter determinado o tipo e origem do estado do odù, ele parte para definir o ebó. Esta definição pode variar entre tradições, escolas e ramas, mas basicamente passa por determinar primeiro os elementos que serão necessários no ebó de ifá e se além disso será necessária alguma oferenda para uma ou mais divindades que se apresentarem para te ajudar. 

O ebó de ifá é feito em cima do opon ifá, o tabuleiro de ifá e é um processo composto de muitas rezas. A quantidade de elementos é bem menor do que comparado com o que se faz no candomblé e sua preparação bem mais simples.


As oferendas para divindades são convertidas em axé para você, orixá não come, quem come é seu corpo. Mas existe também o caso onde a oferenda é usada para aplacar ou afastar ajoguns ou ajés. Essas oferendas podem ser comidas votivas ou animais. Não existe regra, cada caso é um caso.


O grande problema nesta fase é o exagero. As pessoas pecam pelo excesso, assim, em vez de oferecerem pouco ou o mínimo necessário, iniciam oferecendo muito e fazendo questão de incluir animais. Não existe erro se a oferta é feita e o oráculo aprova. Contudo poderia também ter aceitado muito menos.


As coisas que alertei no assunto anterior, sobre os estados de Ire ou Osogbo e a forma de ver isso, interpretar isso e explicar isso ao cliente repercute aqui. Sem dúvida serão os "graves" casos de osogbo de determinarão muitos ebós e com muitas coisas. Por isso que expliquei a questão da orientação do Odù,
O que esta envolvido em grandes oferendas é sempre a mesma coisa, o vil metal, o dinheiro. Custa mais em material e custa mais na remuneração pelo serviço de executar aquilo. Quanto mais pessoas envolvidas, mais dinheiro. Ifá é diferente do candomblé neste aspecto. No candomblé as pessoas trabalham para a casa de forma que sempre a casa é quem recebe. Em Ifá no modelo cubano, não tem essa de casa e egbé. Cada um que vai la recebe para isso.


Eu digo que você deve fazer o que o oráculo indica, nem mais nem menos. Entretanto, dosar o que vai ser oferecido para aprovação é que são elas. Como eu alertei antes, toda vez que tem dinheiro envolvido você deve ficar atento. Isso, o dinheiro, muda tudo.


Na hora de determinar o ebó eu penso que sempre se começa com o pouco. Gradativamente se adiciona e uso de animais somente em último caso. Não que eu seja desses preocupado com animais, não sou, minha preocupação é com o consulente.


Não faça ebó como falta de opção. Faça se quiser e se confia na pessoa. Você pode desistir a qualquer momento.


A minha recomendação mais importante e valiosa é esta: se um ebó deu certo não adianta voltar lá pedindo um reforço. Não adianta fazer mais ebós ou fazer ebós maiores e mais complexos. Você não ganhará mais por isso. O ebó funciona na medida certa do que tem quer ser. Também traz o resultado certo que tem que trazer. Seria muito fácil se fosse assim, quanto mais ebó mais resultados, todo babalawo e babalorixá seria rico.
 


Uso de estórias na interpretação


A coisa mais importante em Ifá são as histórias dos odu. Elas são que tem as mensagens para o consulente. A consulta será tão boa e precisa quanto o babalawo se dedicar explorar e entender as estórias.

Você poderá encontrar Babalawos que não se preocupam com as estórias. Isso ocorre porque nos tratados cubanos existem 2 tipos de informação. Existem uma série de pré – interpretações associadas a cada odu. Muitas pessoas se preocupam apenas em aprender isso fazendo que a consulta com elas fique muito objetiva. Os odus saem e elas já saem dizendo o que é o problema e, com suas respostas elas vão ajustando a interpretação delas. Como o ebó já foi tirado ela só precisa equalizar com você uma situação que você concorde, ai acabou.


Esse formato é igual ao dos babalorixás de candomblé. Eles fazem consultas com búzios de 15 minutos.


Mas ifá não é assim, ou melhor, não deve ser assim.


Você deve ouvir as estórias e interpretá-las junto com o Babalawo associando as estórias a sua vida. As boas histórias deixam lições importantes para você. Acima de tudo o próprio consulente é quem analisa se aquela estória se encaixa na vida dele. O Babalawo, através da visão do consulente sobre a estória consegue captar o que aflige aquela pessoa, quais são seus temores e os valores que ela tem.


A estória permite você avaliar sua vida e seu comportamento, suas ações e realizações. Ao se espelhar nos personagens e situações, você tem a oportunidade de fazer uma auto – avaliação. 


A percepção deste conjunto de coisas permite ao Babalawo entender de fato a origem dos problemas do indivíduo. Ajudá-lo a entender a origem é o que permite a essa pessoa corrigir sua vida. As pessoas não conseguem por si só ver essa causa raiz. Elas veem os problemas que tem como uma conspiração da vida e das pessoas ao seu sucesso. Elas buscam no jogo alguém que, então, resolva esses problemas com ela, esses problemas que não são dela e que estão atrapalhando sua felicidade.


O Babalawo de verdade estará em uma consulta sempre de olho nas causas raiz, buscará aquilo que Ifá tem a falar aquela pessoa e que está ligada ao destino dela. Por isso que eu digo que teologia é importante. Orunmilá é o eleri ipin, o testemunho do nosso destino, o que ele tem de relevante a falar para nós esta ligado a isso e é esta característica que personaliza ifá. 


As pessoas vão a Ifá com um problema, mas, na consulta, ifá vai falar o que é importante para você saber. Depois o Babalawo endereça o seu problema, mas, Ifá diz as pessoas aquilo que elas precisam ouvir para serem felizes e realizar o seu objetivo de vida.


O Babalawo que em vez de focar nisso se ocupa com o imediato, não realiza a sua função como representante de Orunmilá. Esse viés de interpretação é objetivo mas não é um bom ifá. Para fazer isso vá a um jogo de búzios ou cartas que eles vão ser até melhores.
 

Babalawos determinando orixá em jogo.


Não tem nada pior, mais idiota e baixo do que babalawo que se mete a, em consulta a Ifá, dizer orixá e coisas de orixá, seja para abiãs como iniciados. Isso é um hábito ruim, sem ética e desprovido de fundamento.


Isso sempre foi feito pelos olhadores de búzios, babalorixás ou não. Nunca prestou para nada, sempre foi motivo de piadas e sempre foi baseado em arquétipos. As poucas vezes que alguém acertava era apenas coincidência. O objetivo disso sempre foi comercial. O olhador busca através disso, da determinação de orixá, de pegadas que permitam a ele prender o interesse do consulente, fazer ele voltar e comprar mais coisas dele. Orixá sempre é um gancho muito bom, as pessoas adoram, igual horóscopo.


A pessoa vai para uma simples consulta de búzios e já sai dali com orixá, qualidade e juntó. É mole? Ninguém com 3 neurônios pode acreditar nisso. Para que a feitura? Para que os ritos de feitura? Quem passa por uma feitura ou participa entende facilmente a bobagem que é essa coisa de orixá em jogo. Falo de feituras de verdade, não essa coisa de 7 dias.


No caso de ifá o que mais encontro é Babalawo que não sabe nada de orixá, dizem que sabe, falam que sabem, acham que sabem, mas acreditam que só porque virou Babalawo se transforma automaticamente em especialista. Especialista de coisa nenhuma. Alguns são pessoas que podem até ter convivido em uma casa de candomblé visto e aprendido alguma coisa ou até bastante, mas, não eram e não serão babalorixás. Não adianta se comportar como um babalorixá frustrado, e como Babalawo querer fazer aquilo que cabe a um babalorixá de direito e com propriedade para lidar com isso.


Outros, nunca foram de candomblé, nunca conviveram em um terreiro. A pessoa entra pela porta lateral de ifá, sem saber nada, é instruído em algumas coisas de lukumi e passa a se achar alguma coisa. Inicialmente eu digo que o lukumi está mais para uma umbanda omoloko melhorada do que para um candomblé, mas isso é apenas minha opinião idiota. Os cubanos não podem responder a isso porque eles não conhecem nem candomblé, nem omoloko e muito menos umbanda. Assim eles nem sabem o que eu estou falando.


Contudo aceito que pessoas antigas de lukumi, cubanos nascidos e feitos nesta tradição conheçam orixá, do jeito deles, mas conhecem. Os ritos lukumi são muito sérios e é uma tradição de orixá com história e esás.


Entretanto, brasileiros que entram com o bonde andando, sem formação e experiência nada sabem de nada. Não se pode comparar um lukumi que cresceu dentro disso e um brasileiro que cai de paraquedas nisso.


Essas pessoas, brasileiros, não conhecem nem o lukumi e muito menos o candomblé, fazem o mesmo que o pessoal de umbanda que vai para o candomblé faz, mistura uma coisa com a outra e sai tocando como se fossem gente de verdade.


Dessa forma cuidado ao darem ouvidos a Babalawos quando se trata de orixá. Não é a praia dele.

sábado, maio 17, 2014

O que você precisa saber sobre consultas a Ifá (Parte 3/5)

O que você precisa saber sobre consultas a Ifá

(Parte 3/5)


A questão de ire e osogbo


Este texto não tem objetivo de explicar sobre o conteúdo da consulta e sim fazer recomendações e explicações gerais para quem vai a uma consulta. Mas, mesmo com este sentido não dá para não comentar sobre o estado do odù, devido a alta significância disso na relação de consumo cliente – babalawo. 

Após o Babalawo determinar o odù principal ele deve determinar se ele veio trazendo ire ou osogbo / ibi. 


Muitos se referem a esta parte do processo sendo como determinar se ele está positivo ou negativo. Minha visão disso é diferente e vou explicar a seguir. Esta diferença de entendimento, que estou propondo agora, é significativa como um fator importante que afeta a relação consulente-Babalawo. 

Como já ocorre no candomblé e com outros videntes, o jogo é apenas a porta de entrada para outros negócios. Vocês nunca devem perder esta perspectiva de negócio que está envolvida porque isso é, de fato, o que determina o resultado de muitos jogos. Entender isso facilita o entendimento do comportamento associado às pessoas nesta atividade oracular.

Não é a expectativa do olhador que o atende (seja ele Babalawo ou outro) que a relação entre vocês se conclua com a consulta ao oráculo. Quem vai a um oráculo é porque tem problemas, não vai ali para bater papo, e o olhador é acima de tudo um profissional para resolver problemas através do supernatural. Para a muitos Babalawos, o que ele faz não é um sacerdócio, bom, também é um sacerdócio (da forma como ele gostaria de se ver), mas sem nenhuma dúvida é uma profissão, ou também um negócio. 


O valor da consulta sempre leva em consideração o valor de mercado dela,mas não é com isso que o Babalawo se mantêm. O mais relevante é a perspectiva de fazer novos negócios, de ebós a iniciações, após a consulta (como resultado dela). Isso é igual ao valor do jornal em uma banca de jornal. O valor que a gente paga não deve cobrir o custo do papel. O que permite o jornal ser impresso e circular são os anúncios que ele contém. Também como a TV que é de graça para nós, mas mantida pelos anunciantes. 


A gente vê na praça videntes que dizem que a consulta dele tem um valor mínimo, incentivando assim as pessoas a procurá-lo. De fato, a consulta tem mesmo um valor baixo, na verdade o trabalho de venda dele será sobre o psicológico do consulente em função do que ele vai ver no jogo (sendo criativo ou não). Ele vai trabalhar as ambições e medos do consulente, independente dos problemas (e gravidade) que eles tenha de fato. Afirmo que essas pessoas são boas no que fazem, isto é, induzir as pessoas a gastarem dinheiro em trabalhos com eles e muitas vezes são também muito boas na sua vidência.

Outras inovam, dizem que o valor da consulta já inclui o trabalho posterior. Isso é só marketing. Tomem cuidado.


Com o Babalawo não é diferente. 


Como eu disse toda consulta a Ifá leva a um ebó, claro, existem os casos que pode não ser necessário, mas o normal é ter mesmo e prefiro me dirigir a regra e não a exceção. A questão de ter o ebó é parte da estrutura do oráculo e é perfeitamente normal e esperado.
Devemos, em primeiro lugar, considerar que a consulta a Ifá já é um ebó. Esta é uma grande diferença entre ifá e outros oráculos.


A origem disto está na teologia explicada no inicio deste texto. Orunmilá é o eleri ipin, o testemunho do nosso destino. Vamos a Ifá para recorrer a Olodumare através de Orumilá, quando precisamos de uma orientação em nossa vida para poder cumprir o nosso destino (ou objetivo de vida). Olodumare responde através de um odù. O odù não é apenas um sinal ou desenho, os sinais o representam, mas, uma consulta feita com um Babalawo, traz o odù como a energia que Olodumare envia para nos ajudar. O odù é o axé de Olodumare que desde o momento da consulta através de Orumilá, Exu e principalmente dos orixá se manifestará na nossa vida.


O trabalho do Babalawo é ser o intermediário disso e posteriormente, através do ebó conduzir e manipular este axé para que ele se manifeste em sua plenitude na vida de vocês e não seja perdido. O Babalawo é um intermediário desta operação assim como o são os orixás que se apresentarão para ajudar a pessoa.


Quando Olodumare criou o aiye ele sabia que a vida teria interesses mas também dificuldades causadas pelos ajogun e ajé. Ele também sabe que o processo de nascimento pode ter falhas desde a escolha do Ori até a concepção física. Para que as pessoas pudessem superar tudo isso ele criou ifá. Ifá contém a palavra de Olodumare através dos seus versos e também os signos através das marcas de odù. Essas coisas transmitem o axé do Olodumare para as pessoas, as palavras de ifá rezadas a partir dos versos Invocam ou transportam o axé de Olodumare.


Desta maneira a própria consulta já é um ebó. Por isso é importante o uso de ikin e por isso o Babalawo deve rezar o odu que sai na consulta.


Toda esta explicação teológica é para dizer que não concordo com a visão ou forma de explicar, não importa, que as pessoas usam, inclusive as que se dizem Babalawo, de que um odù traz uma negatividade e por isso o ebó é necessário, sem o que a pessoa ficaria com a negatividade com ela.


Essa visão sempre existiu no candomblé, com os babalorixás tocando o terror com os odu, dizendo que tal odu era terrível, o outro provocava isso ou aquilo, levando às pessoas a crerem que eles, os odù, eram uma coisa ruim que agarrava em você e você tinha que se livrar dela.


Isso continua em Ifá, após sacar o odù o babalawo deve determinar se ele vem no estado de bênção, ou ire, ou de mal, ibi. Os cubanos não usam a palavra ibi, usam osogbo, que significa que, não é ire. As palavras mudam mas são usadas da mesma forma.


O uso desta interpretação de odù positivo ou negativo visa sempre o mesmo, induzir o consulente a fazer o ebó. Como Babalawo eu digo que você deve fazer o ebó recomendado. O odu e o ebó são uma resposta divina a sua súplica. Não fazer é desperdiçar o axé que Olodumare envia para você a seu pedido, uma vez que, se você vai a Ifá é porque pede ajuda.


Apesar disso eu, como todo mundo, sei que o objetivo do vidente, olhador ou Babalawo é que você faca o ebó. Existe uma transação mercantil em curso entre você e ele, e ele não quer de você apenas o valor da consulta, ele quer muito mais. A consulta é uma porta aberta às oportunidades. Esta é uma sombra que não pode ser ignorada nesse processo.


Em função disso é que o entendimento da orientação do odù é importante, porque esta interpretação é o principal motor das ações direcionadas ao consulente.


Cada um deve avaliar no que acredita, o que eu posso fazer é dar a minha visão. Neste sentido minha interpretação é que um odu sempre é positivo porque ele é axé. O problema já está com você, o odu sempre vem para ajudá-lo. Se você não fizer o ebó vai ter desperdiçado o axé. Também não descarto em alguns casos, principalmente em Ire algum desequilíbrio temporário, porque axé demais também atrapalha.


Na minha visão quando o odù vem em ire ele traz bênçãos para você, axé para impulsionar sua vida, ajudá-lo a melhorar, realizar algo, etc... Quando ele vem em ibi (também chamado de osogbo ou ayewo) ele vem para retirar ou neutralizar um mal que o ronda, uma sombra em você, etc... o axé do odù será usado para zerar sua conta, deixá-lo sem a influência da energia negativa ou da eminência de uma situação desfavorável.


Dessa maneira odù sempre é uma energia boa. Ele pode vir para alavancar sua vida ou para retirar a negatividade que já existe.


Minha visão da religião é sempre positiva. Os orixá estão sempre para nos ajudar, para trazer o bem para nós. Eu não mistifico situações, não vejo orixás exigindo coisas, cobrando coisas ou punindo que não os adora. Vivo bem e sem problemas com essa minha visão. A teoria na prática é a mesma, ou melhor, o rito e a teologia são o mesmo.


Assim eu recomendo que não se assustem com essa questão de ire ou osogbo. Nenhum mal foi jogado sobre suas cabeças. Acreditem no oráculo, sigam as recomendações tenham fé em deus e nos orixá. Mas, vocês não precisam de gente prevendo o fim do mundo. Ajam com prudência e fiquem de olho vivo nas espertezas. Depois da consulta decidam o que querem fazer. Se a pessoa que consultaram não passou confiança ou o ambiente que ele está ou que se cerca não é confortável para vocês, não façam nada. Não aumente o tamanho do seu problema.


Decidam com racionalidade o que querem fazer. Não tomem decisões por medo.

Quando e falar, a seguir, sobre escolha de ebós, vocês vão fechar o entendimento de porque é importante a definição de Ire / osogbo.

O uso de ìbò

A questão de Ìbò é um pouco técnico e mais profundo e não sei se todos vão compreender, mas, é importante comentar.

Uma das coisas que mais torna ifá um oráculo interessante para o consulente é o uso dos ìbò (ibô). Os ibô são objetos que o Babalawo coloca em ambas as mãos do consulente e este os embaralha colocando cada um e uma mão mas escondidos do babalawo, que não deve saber em qual mão está cada Ìbò. O objetivo deles é servir para responder as dezenas perguntas de sim ou não que surgem durante a consulta. 


Um dos objetos significa SIM e o outro significa NÃO. A cada pergunta os objetos são novamente embaralhados. O Babalawo define às cegas qual a mão o consulente deve abrir e, em função do conteúdo da mão, o tipo do ìbò, a pergunta será respondida com SIM ou com NÃO. O que o Babalawo faz é usar os ikins ou opele para, através da ordem de senioridade dos odu determinar que mão deve ser aberta. O ìbò determina a resposta., mas, o Babalawo não sabe a resposta antes da mão ser aberta.


Observem que é um trabalho colaborativa. Ifá diz ao Babalawo qual mão deve ser aberta. Porém foi o consulente que colocou sem a ciência do Babalawo, o ìbò que determina SIM ou NÃO. A resposta é o resultado do trabalho de ambos.


Chamamos isso de interação entre o oráculo e o Orí do consulente. Usando dessa maneira o Babalawo não pode manipular as respostas, mas, acima de tudo o consulente participa do oráculo.


Os tipos de objetos são trocados de acordo com o tipo de pergunta, normalmente o objeto que significa NÃO é o mesmo, o que vai significar o SIM em cada pergunta é que muda. O objetivo do uso disso é fazer com que o oráculo interaja com o Orí com consulente, seu orixá individual e protetor. 


Existem Babalawos que estão deixando de usar isso. Existe uma forma de fazer o processo sem o ibô, que o Babalawo emprega quando esta sozinho ou jogando para ele mesmo. O que noto e que esta simplificação acaba atraindo as pessoas. Veja, já é uma simplificação usar o opele, será uma maior ainda você dispensar o ibô. Claro que as pessoas tem explicações para isso, mas racionalizar é um processo fácil. O complicado é fazer o que deve ser feito.