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segunda-feira, agosto 29, 2011

Oráculos de confirmação

Oráculo de confirmação é um termo muito restrito para designar alguns tipos de instrumentos de oráculos que serão explicados aqui.
Oráculos são oráculos. É o meio de comunicação entre nós e o divino, entre o Àiyé e o Órun (ọ̀run). Um oráculo implica em um mensageiro para receber as mensagens e manter a comunicação com o divino e também um instrumento para essa comunicação. O que ocorre é que alguns instrumentos são mais específicos ou objetivos no seu uso.

Contudo, por mais simples que seja o instrumento usado, será sempre o divino que estará respondendo a quem o consulta. Ifá é um oráculo complexo e o uso de Odù traz uma carga de responsabilidade muito grande. Uma consulta a Ifá sempre indicará um ebó (ẹbọ) a ser feito e isso torna o seu uso indicado para motivos especiais e importantes na vida das pessoas.

Dessa maneira existe a necessidade de uma forma mais direta e imediata de consulta ao divino, que não passe necessariamente por Órunmilá (Ọ̀rúnmìlà) e por Ifá e que possa ser feito por qualquer pessoa seja mesmo um Babaláwo ou um iniciado em Orixá (òrìṣà).

Existem situações que não vamos tratar do destino e da vida das pessoas. Precisamos de tratar de assuntos religiosos e de questões objetivas de nossa vida. Precisamos conversar com nosso Orixá (òrìṣà) ou Exu (èṣù). Precisamos confirmar a realização e o sucesso de liturgias.

É para isso que existem os ditos oráculo de confirmação.

Estes oráculo permitem-nos dialogar diretamente com o divino e suas divindades. Contudo estão longe de serem instrumentos apenas para apenas confirmar um trabalho. Esse uso restrito combina dois fatores. O primeiro, claro, é a falta de conhecimento. O segundo, é que no Candomblé não interessa ao Babalorixá (Bàbálórìṣà) usar um oráculo que não dependa exclusivamente da sua mediunidade e que as pessoas observem que podem dialogar com seu Orixá (òrìṣà) ou Exu (èṣù) sem que isso passe por ele. 
 
Como já falei muitas vezes, o jogo de búzios no Candomblé é dominado pela mediunidade e não pela técnica ou pela capacidade. O Babalorixá (Bàbálórìṣà) joga seus búzios pirotecnicamente, poderiam ser moedinhas. O jogo de búzios no candomblé é um processo mediúnico. Isso é tanto uma restrição dos Babalorixá (Bàbálórìṣà) como também é uma estratégia de dependência.

Sim, dependência. Encontrar caráter e ética em um Babalorixá (Bàbálórìṣà) é algo no mundo real impossível. A questão do oráculo esta neste contexto. Eles fazem questão de dominar a comunicação com o divino e não dividirem isso com ninguém. O objetivo é impor tudo o que querem e não terem qualquer tipo de contestação. Assim ninguém pode ter ou usar um oráculo na sua casa e somente ele pode trazer mensagens do divino.

O que os iniciados devem entender é que eles podem fazer por sua conta a consulta ao divino.
Vou estar a seguir explicando o uso dos 4 búzios de Exu (èṣù), do Orogbo e do Obi. Não vou falar de cebolas que servem apenas para pessoas que não querem usar um oráculo. 
 

Owó-ẹyọ merin – Os 4 búzios.

Este deve ser um dos mais tradicionais oráculos. Todo mundo conhece ou já ouviu falar.
Poucos devem ter visto esse oráculo em ação e muito menos sendo usado para confirmar uma liturgia, um bori ou uma matança. Mas esses búzios poderiam, ou melhor deveriam, ser usados para substituir a maldita Cebola na ausência do uso do Obi. Mas, não podemos esquecer que quem usa uma cebola não quer correr risco de receber um NÃO.

Os 4 búzios são um instrumento de consulta a Exu (èṣù). Eles serão preparados para um Exu (èṣù). O objetivo aqui não é explicar como se prepara isso e para que Exu (èṣù) se faz. Isso é liturgia e é feito por quem sabe. Mas, o que interessa é que esses 4 búzios serão associados a Exu (èṣù) e será este que vai responder através do Owó-ẹyọ merin.

Apesar de ser dedicado a Exu (èṣù) ele não é destinado a somente tratar de assuntos de Exu (èṣù), como alguns tolos entendem. O Owó-ẹyọ merin responderá qualquer questão que Exu (èṣù) se disponha a responder lembrando o aspecto universal de Exu (èṣù).

O seu uso não é complicado. A primeira coisa que temos que lembrar é que o divino nos rodeia. Não precisamos estar em uma “igreja”, numa capela ou terreiro para que as divindades nos respondam. Não precisamos de uma pai-de-santo para falar com o divino ou ele falar com a gente. Melhor ainda, se somos uma pessoa sintonizada com as divindades o divino vai estar sintonizado no nosso contexto.

Dessa maneira se a consulta aos búzios for feita em um contexto em que sabemos que vamos precisar dele, que nos concentramos nesse assunto ao longo do dia, que temos a sua necessidade, então o divino, Exu (èṣù), estará junto de nós e irá nos responder.
O que estou dizendo é uma coisa muito evidente quando se é de Ifá e quando se é um Babaláwo. Ifá é o Babaláwo, Ifá acompanha o Babaláwo onde ele esta. A vida de um Babaláwo é ser o mensageiro de Ifá, por isso eles esta sempre conectado e por isso ele tem os seus cuidados com sua vida.

É importante observar que para se usar um Oráculo a pessoa deve ter a intimidade e a confiança no seu uso. Ele deve saber que o oráculo responde para ele e isso se obtêm com prática. A pessoa tem que ter confiança no seu oráculo e nas resposta que recebe. Seja sim seja não, seja favorável ou não, a pessoa tem que acreditar no seu oráculo. Essa confiança se adquire usando o oráculo sempre que necessário e em qualquer situação. Com a interação você passa a entender como seu oráculo responde.

Para iniciar a consulta, deve-se estar no contexto para o qual nos preparamos 
previamente. Devemos Mojubar Exu (èṣù) para abrir o processo.

Após isso, a primeira consulta que fazemos é solicitar uma resposta confirmativa de que os búzios estão respondendo. Neste momento esperamos um SIM, uma confirmação que esta respondendo.

Depois disso segue-se com as perguntas que se quer fazer.

Não recomendo seguir sem estar confiante de que os búzios já estão respondendo. Veja, ao lado da prática, do hábito e da intimidade, deve-se ter a certeza da sintonia do momento.

Os búzios serão usados respondendo conforme sera explicado a seguir. Tudo pode ser perguntado. De coisas simples a complexas.

Um dos usos mais importantes, na minha opinião, para o Owó-ẹyọ merin é seu uso junto com o owó ẹyọ mẹ́rìndínlógún. Isso mesmo, os 4 búzios são usados em conjunto com o eerindinlogun. Eles servem de apoio para o sacerdote, o olhador. Como é isso?

Em função da consulta que estamos realizando, podemos ter alguma dúvida sobre o que vemos, podemos querer tirar dúvidas ou confirmar nosso entendimento. Nesse momento usamos os 4 búzios para responder nossas questões. Todos devemos entender que o próprio oráculo nos ensina a usá-lo e o Owó-ẹyọ merin é uma dessas maneiras. Não sabemos tudo e o oráculo nos da a oportunidade de aprendermos, nos aperfeiçoarmos e de não errarmos.

Usando um oráculo, só erra quem quer.

Mas, mesmo de forma solitária o Owó-ẹyọ merin é uma oráculo eficiente para através de Exu (èṣù) nós dialogarmos como divino e falarmos com os Orixá (òrìṣà). Com ele podemos prescindir de usar o eerindinlogun para muitas situações.

Mas, muitos devem perguntar, se o Owó-ẹyọ merin é tão flexível e útil porque é ignorado pelos Babalorixá (Bàbálórìṣà)? Simples, os Babalorixá (Bàbálórìṣà) não usam um oráculo. Eles usam sua mediunidade e vidência. Assim sempre vão usar o seu jogo de búzios. Se eles usassem de fato um oráculo fundamentado, teriam a preocupação do tipo de consulta fazer.

Um Babaláwo que usa Ifá sabe o que significa abrir Ifá para alguém, ou mesmo para eles mesmos. Assim eles lançam mão de outros instrumentos que não carregam o peso, a energia e a responsabilidade de abrir Ifá.

Em relação a forma de usar, os búzios são usados da mesma forma como os búzios do eerindinlogun. Existe um lado que é o aberto e outro que é o fechado. O lado aberto sempre é o lado da abertura natural do búzio. A interpretação é feita pela quantidade de búzios abertos.

Os búzios devem ser abertos no seu fundo para que fiquem estáveis. Não existe impedimento para se usar os búzios fechados para a consulta, mas, fechados eles ficam um pouco instáveis no seu uso, tendem a gerar dúvida no olhador em relação a caída. Abrir o seu fundo é uma medida normal.

Mas, para a interpretação, o lado aberto de um búzio é sempre o lado da sua abertura natural. O outro lado, aberto artificialmente será o lado fechado.

As respostas são analisadas pelos lados abertos e fechados de acordo com o código que explicarei à seguir. Contudo, a primeira coisa a aprender é como seu pergunta para o oráculo.

Muita gente se atrapalha no uso de oráculo porque não sabe como começar. E não se tratar aqui de saber que rezas fazer para abrir o oráculo. As pessoas se preocupam em descobrir que rezas fazer, quais são as invocações secretas que existem e esquecem o mais simples que é ter intimidade com o oráculo e saber como se pergunta a um oráculo.

A pergunta deve sempre ser na afirmativa. A pergunta deve ser feita a somente permitir como resposta SIM ou NÃO. A resposta SIM é o que se quer saber, não se faz a pergunta na negativa de modo que a resposta não signifique o que ser quer saber.

Por exemplo, uma pergunta correta é:

Eu vou para o Rio de janeiro?

A pergunta permite somente SIM ou NÃO. A resposta SIM é o que ser quer obter.

Uma pergunta errada é:

Eu não vou para o Rio de Janeiro?

Qual é o certo? SIM quer dizer o que? Que você não vai para o Rio de janeiro e NÃO que vou vai.... muito confuso.

Pergunta-se o que se quer saber. A pergunta deve ser simples e objetiva, sendo que a resposta SIM é o que ser quer obter, ou seja, nós estamos querendo receber uma reposta positiva.

Dominando a pergunta devemos seguir para entender como interpretar as respostas.

 

As Caídas

O O X X
2 búzios abertos e 2 fechados.

Significa SIM.

É a caída que representa o equilíbrio. Dessa maneira é um SIM definitivo, que diz que não haverá dificuldades para atingir a resposta desejada. Não haverão obstáculos ou dificuldades, o que se quer atingir será realizado com rapidez e de forma direta.

O O O O
4 búzios abertos.

Significa SIM.

É a caída que mostra que todas as condições são favoráveis, mas o quer atingir poderá ter dificuldades. Transtornos ou barreiras podem surgir.

Este tipo de SIM não é o mais desejado. Os 2 búzios abertos é a resposta mais positiva. Os 4 búzios representam o SIM mas trazem a tendência a uma dificuldade.

Dessa maneira 2 abertos sempre é melhor do que 4 abertos.

Mas em alguns momentos o jogo responde para você com esses 4 búzios como se coroando uma sequencia de coisas e se auto-confirmando. É muito interssante isso, é um momento onde se entende os 4 búzios como um sim completo, uma confirmação absoluta. Com o tempo se aprende a diferenciar os 2 tipos de SIM e os momentos em que são usados pelo oráculo.



X O O O
3 búzios abertos.

É uma caída complexa. Eu considero uma das mais importantes do oráculo porque é a única que nos traz resposta complexas.

Muitas pessoas erroneamente entendem que ela seja um SIM. Não é. Também não é uma dúvida que deve ser esclarecida com outra caída.

Esta caída quer dizer que o oráculo esta te dizendo:

Não entendi a pergunta: você não formulou adequadamente a sua pergunta ou esta confuso. O Oráculo diz que não sabe o que quer perguntar.

você já sabe a resposta: quando você pergunta algo que já sabe ele pode responder com essa caída.

eu já respondi a esta pergunta: quando você faz pela segunda vez uma pergunta que já fez.

esta faltando algo: quando estamos fazendo a confirmação de uma liturgia, devemos perguntar se podemos iniciar ou se esta tudo OK. Esta caída significa que ainda falta algo e então você deve iniciar perguntas para descobrir o que esta faltando.


X X X O
1 búzio aberto.
Significa, Não.

X X X X
4 búzios fechados.

Significa, Não. Mas pode também ser entendido que o oráculo não quer responder.
Assim se abrimos o oráculo e recebemos essa resposta pode ser que o oráculo não queira responder. Ou se fazemos uma pergunta sobre um assunto que o oráculo não quer responder esta pode ser a resposta. A pergunta seguinte deve ser se o oráculo irá responder perguntas sobre o assunto.

Orogbo


O orogbo é similar ao Obi porque é uma espécie de castanha, mas, não traz de fato toda a base conceitual do Obi. Tem um uso muito específico para consultas para Xango (Ṣàngó). 

A forma de interpretá-lo é exatamente da mesma forma como interpretando os 4 búzios, ele oferece as mesmas possibilidades de resposta.

O que devemos aprender é como se trabalha com o orogbo.

A castanha deve ser cortada. Ela não vem preparada para ser aberta como o Obi. Nas não retire a casa, Também não use os orogbos nacionais, use os africanos, os nacionais não servem para o oráculo.

A forma de usá-la é:
  • Cortar as 2 pontas da castanha, formando 2 calotas.

    Essas partes devem ser jogadas primeiro. Na posição que caírem ela ficam, não serão mais movimentadas.

  • Corte o restante da favam, um cilindro, no meio transversalmente, formando 2 metades compridas.

    Essas metades são jogadas e a leitura é feita de acordo com o código nos 4 búzios.

    Se for necessariamente jogar de novo, pegue apenas essas 2 partes e jogue, pode fazer isso tanto quanto necessário.
Em relação as posições de aberto e fechado, a parte interna da castanha, a parte branca, será o aberto, e a parte da casa a parte fechada.

Existe algumas técnicas de como se manipula a castanha nas mãos antes de deixá-la cair, mas não vou descrever aqui. O cuidado é o básico, não jogar, apenas deixar cair e a superfície deve ser lisa e ampla o suficiente para as partes caírem e se posicionarem.

Por último, pessoas de Xango (Ṣàngó) podem, ou devem fazer isso tudo com a boca. Cortar a castanha e deixa-la cair.


O cara (inhame do norte).

Todos conhecem a importãncia do cara na Africa. 

Esta raiz é especialmente dedicada a Oxagiyan e na Africa existem festivais para comemorar a sua colheita. Nesta situação especial a própria raiz é usada como instrumento de confirmação.


O seu uso é igual ao do Orogbo.  Cortam-se as pontas, fazendo a calota e a parte central em sentido transversal, formando dessa maneira 4 partes.  Usa-se como o Orogbo. 


 

O assunto continua.....

segunda-feira, agosto 22, 2011


Visão geral dos sistemas oraculares

Na Africa existem muitos oráculo, assim como também muitas religiões e cultos. Nenhuma novidade nisso, estamos lidando com um continente inteiro, com muitas culturas. No resto do mundo, nos demais continentes de civilizações originais e não nos que foram colonizados, deveríamos encontrar a mesma coisa se não fosse pela faxina étnica realizada pelo cristianismo que extinguiu as demais religiões.

Apesar da variedade que encontramos na Africa estamos aqui tratando de um microcosmo bem específico, o da religião Yorùbá. Mas mesmo essa religião específica que estamos tratando possui mais de um tipo de Oráculo.

Ifá é o sistema principal e esta no núcleo do conhecimento de toda a religião. Todos nesta religião reconhecem que Ifá é a expressão do Oráculo. Ifá agrupa os métodos de uso do dida ọwọ́ (ọ̀pẹ̀lẹ̀) e ètìtẹ̀-alẹ̀ (ikin) que são 2 instrumentos diferentes para a acesso ao mesmo oráculo e a mesma base de conhecimento.

Existe ainda o Obi, um oráculo muito eficiente e flexível mas não parte de Ifá, ou seja, não baseado nos seus princípios. É um instrumento de consulta ao divino, principalmente a Ori e aos Orixá (òrìṣà).

O owó ẹyọ mẹ́rìndínlógún é um outro oráculo que se situa entre Ifá e os Orixá (òrìṣà). Ele usa a base de Ifá, simplifica o seu aprendizado, mas é por excelência o encontro com o mundo dos Orixá (òrìṣà).

Uma questão que deve surgir na mente de todos é, qual oráculo devemos consultar, Ifá ou o owó ẹyọ mẹ́rìndínlógún no caso de haver disponibilidade dos 2 tipos de olhadores, um Babaláwo e um Babalorixá (Bàbálórìṣà)?

Essa questão foi endereçada por Bascon no seu livro Sixteen Cowries. Ele diz que, quando se tratava de questões pessoais, da vida e do destino das pessoas o oráculo de Ifá é empregado, mas quando se tratava de assunto de natureza religiosa dos Reis e líderes eles somente confiavam no owó ẹyọ mẹ́rìndínlógún, principalmente se estas pessoas eram cultuadores de Òṣàlá, Ṣàngó, Ọ̀ṣun e outras divindades relacionadas com o oráculo do owó ẹyọ mẹ́rìndínlógún.

Ifá é um oráculo que trata da vida e do destino das pessoas de sua forma mais profunda. O owó ẹyọ mẹ́rìndínlógún é o oráculo que trata de nossa vida e de nossa religião através dos Orixá (òrìṣà). É com ele que conversamos com os Orixá (òrìṣà).
 
Na Nigéria, mesmo se uma pessoa chama um awo de Ifá para, no nascimento da criança, conhecer o seu destino, mais tarde, quando esta criança for ser encaminhada para uma iniciação, o owó ẹyọ mẹ́rìndínlógún será o utilizado.

Estas observações e outras do mesmo autor, me chamaram a atenção sobre uma questão que ficou implícita, a de que haveriam tipos de sacerdotes de Orixá (òrìṣà) que teriam Axé (àṣẹ) para usar o owó ẹyọ mẹ́rìndínlógún e outros não. 

Isso não é explícito em qualquer lugar, mas, me pareceu implícito. Não consegui esclarecer isso ainda. Pode parecer estranho para o modelo usado no Jogo de Búzios no Candomblé, mas, uma coisa é usar o oráculo a outra é ter vidência. 

No capítulo que falei sobre owó ẹyọ mẹ́rìndínlógún e o Jogo de búzios eu expliquei que no Candomblé o que prevalece é o processo de fazer oráculo através de vidência. Por essa razão é que tem sentido esse comentário sobre uma coisa é ter aceso ao oráculo e outra é ter vidência.

Mas voltando ao assunto de quem tem Axé (àṣẹ) para usar o owó ẹyọ mẹ́rìndínlógún, eu transcrevo aqui um mito que foi transmitido pelo Awo olorìṣà Sàlàkọ́ para Bascon:

Quando o pai apodihọrọ, orixalá (òrìṣàlá) ọṣẹrẹgbo,
O pai deu nascimento a 401 crianças
apodihọrọ, o pai criou 401 profissões
apodihọrọ, orixala (òrìṣàlá) ọṣẹrẹgbo
o pai criou 401 talentos.
Ele disse que cada criança escolheria o seu próprio
e havia órunmila (ọ̀rúnmìlà)
ele era forte
igual a um cupinzeiro
Para segurar uma enxada ele tem problemas
para carregar é difícil para ele
até mesmo para andar.
Não existe trabalho fácil para orunmila (ọ̀rúnmìlà)
o pai disse "o que você pretender ser?"
ele disse que seria um bàbáláwo
"que tipo de bàbáláwo?"
Ele disse, "Para tudo o que as pessoas necessitarem de você"
Naqueles dias era Obi que as pessoas traziam para o pai
(para o oráculo)
Se alguém falava para os obi
e deixava eles caírem,
o pai era um dos que lhes dava conselhos
"Eu quero saber a resposta para a minha pergunta"
e orixala (òrìṣàlá) lhes diria.
Então eles chamaram orunmila (ọ̀rúnmìlà)
e orunmila (ọ̀rúnmìlà) obteve uma sacola de oráculo
O pai pegou a sacola do oráculo
Ele disse que orunmila (ọ̀rúnmìlà) deveria aprender a usá-la
de forma que se alguém quizesse alguma coisa
eles deveriam ir a orunmila(ọrúnmìlà)
Todo mundo que quizesse perguntar
deveria ir a orunmila(ọ̀rúnmìlà)
e quando orunmila (ọ̀rúnmìlà) olha-se para o seu Ifá,
tudo o que eles quizessem saber, orunmila(ọ̀rúnmìlà) lhes diria
qualquer coisa que eles desejassem saber,
orunmila(ọ̀rúnmìlà) lhes diria.
Niguém mais foi ao pai mais para isso (oráculo);
ao invés disso eles iam à orunmila(ọ̀rúnmìlà).
Se uma mulher estiver grávida de um dia,
orunmila(ọ̀rúnmìlà) saberia disso,
e assim seria.
Então orunmila(ọ̀rúnmìlà) se tornou um bàbáláwo.
Ele disse, ´Pai, e em relação às folhas?"
O pai disse
"Se uma pessoa que vier com doença,
serão as folhas (ervas) que você as dará".
Então orunmila(ọ̀rúnmìlà) se tornou um bàbáláwo.
Todos as outras crianças queiram ser um bàbáláwo também
egungun queria ser um;
o pai disse, ´´você é bastante forte?"
ògún queria ser um;
o pai disse "você é bastante forte?"
"você deve ser um comerciante"
Hoje todos os filhos de santo de determinadas divindade podem usar o oráculo,
Os filhos de ṣàngó e de Yánsàn podem
e os filhos de òṣàlá
Isto também é certo para ọ̀ṣun
Foi ọ̀ṣun que não permitiu orunmila(ọ̀rúnmìlà) descançar
ela não deixou ele ir;
ele insistiu até que ọ̀rúnmìlà ensinasse o oráculo
e foi de óxun(ọ̀ṣùn) que todos os outros aprenderam o oráculo
Mas erinlẹ (òṣòósì) não aprendeu
òriṣà oko não aprendeu
ògún não aprendeu
egungun não aprendeu
eles não receberam os 16 búzios
os 16 búzios de ọmọlu
estavam sempre em sua mão
mas guerreando ele não usava o oráculo
e ficou fraco no seu uso
orunmila(ọ̀rúnmìlà) se tornou um bàbáláwo
ele estava cantando "apodihọrọ, orixala(òrìṣlá) ọṣẹrẹgbo,
"o pai criou 401 profissões.
apodihọrọ, orixala(òrìṣlá) ọṣẹrẹgbo,
o pai criou 401 talentos.
"Apodihọrọ
"Ele deu a todos os que aprendessem um significado para suas vidas
"apodihọrọ.
"com o que eu aprendi, eu agora estou comendo,
"apodihọrọ.
"com o que eu aprendi, eu agora estou comendo obi e pimenta,
"apodihọrọ.
com o que eu aprendi, eu agora estou comendo sal e óleo de dende,
"apodihọrọ.
com o que eu aprendi, eu agora estou ganhando dinheiro,
"apodihọrọ.

Assim este mito, que tem origem no culto de Orixá (òrìṣà), mostra como Órunmilá (Ọ̀rúnmìlà) se tornou um babaláwo e também descreve que algumas divindades, e por conseguinte seus filhos, não obtiveram esse Axé (àṣẹ) para a consulta ao oráculo. 

Mas ele mostra, também, que todos temos um talento a aprender e esse talento irá nos sustentar na nossa vida. Esse talento que nos dará a nossa subsistência e é um presente divino.

Muitos podem questionar a eficácia de oráculo do owó ẹyọ mẹ́rìndínlógún em relação a Ifá. Todos sabemos que o oráculo de Ifá pertence a Órunmilá (Ọ̀rúnmìlà), claro, mas o owó ẹyọ mẹ́rìndínlógún esta diretamente ligado a Oxun (Ọ̀ṣun) e através dela a Órunmilá (Ọ̀rúnmìlà).

Existe uma opinião de que o owó ẹyọ mẹ́rìndínlógún é de Exu (Èṣù), mas é uma posição equivocada, quem diz isso não entende o papel de Exu (Èṣù). Exu (Èṣù) está presente em tudo e é uma força neutra no cosmo Yorùbá. Exu (Èṣù), por exemplo, é o intermediário entre nós e os ajogun, um grupo de espíritos do mal. O seguinte ẹsẹ retirado e èjì ogbè mostra que Exu (Èṣù) é uma força presente e neutra no sentido de que age em qualquer sentido:

òdá-òwó, awo kóro
ààbò, obinriin rẹ̀,
ọmọọ wọn òkè ìjèrò.
Bi ọ̀dá owó tí ndá mi
bẹ́ẹ̀ ni ààbò mi mbó mi
a díá fún ọ̀rúnmìlà
níjọ́ tí olojò mẹ́ta
ó wọ̀ s`ílée baba
Ifá ò sì ní í ní oókan
à á yọ ọ́ ná
ni ọ̀rúnmìlà bá pe ààbò, obìnrìn rẹ̀
pé kí ó kó àwọn nnkan ìní òun lọ s`ọ̀ja lọ tà
nigbà tí ààbò dé ọjà ejìgbòmẹkùn
irọ́kẹ́ ọ̀rúnmìlà tí ó rà ní egbèje
wọ́n ṣe é ni ogóje
ìrùkẹ̀ẹ rẹ̀ ẹgbẹ̀fà
wọ́n ṣe é ní ọgọ́fá
ìbòrí ifáa ẹgbẹ̀rìndínlógún
wọ́n ṣe é ní ọkanlélógún
Ni ààbò bá mẹ́kun
ó fì ìyẹ̀rẹ̀ ṣ`ohùn arò
ó ní àwọn ọjà náà ò lóhùn
pé kí ó lo ta àwọn ọjà náà ní ìtàkutà
ló bá m`ówó ra onjẹ wálé
áwọn olojò mẹ́ta náà – ikú, àrùn àti èṣù – jẹ
wọ́n sì yó

òdá-òwó, sacredote de Ifá de Kóro,
ààbò, sua esposa,
filhos da cidade de ìjerò
Da mesma forma como eu não tenho dinheiro
eu também não tenho segurança.
A consulta a Ifá foi feita para orunmila (Ọ̀rúnmìlà),
no dia que três estranhos homens iriam se
hospedar em sua casa.
E Ọ̀rúnmìlà não tinha nenhum dinheiro
que ele pudesse gastar.
Ọ̀rúnmìlà chamou sua esposa ààbò
para que ela pegasse seus pertences e fosse ao mercado vender.
Quando ààbò chegou ao mercado de ejìgbòmẹkùn
o ìrọ̀kẹ de Ọ̀rúnmìlà que havia sido comprado por 700 moedas
foi precificado em 140 moedas.
A capa decorativa que cobre os seus instrumentos de Ifá,
que fora comprada por 1.600 moedas, foi precificada em 21 moedas;
ààbò chorou,
Ao invés de chorar alto
ela cantou poemas de Ifá ao invés de choros e lamentos.
Ela disse que que os materiais foram precificados por muito menos do que valiam.
Orunmila (Ọ̀rúnmìlà) também respondeu aos seus cantos de Ifá
E lhe disse para vender todo o material por aquele preço.
Ààbò então vendeu todo o material com muita perda,
E pegou o dinheiro para comprar comida para sua casa.
Os três estranhos visitantes – Morte, doença e Èṣù – comeram
e foram embora satisfeitos

Entre os ajogun os principais são: Ikú (morte), àrùn (doença), òfò (perda), ẹ̀gbà (paralisia), ọ̀ràn (crimes), èpè (maldição), ẹ̀wọ̀n (prisão), ẹ̀ṣẹ (crime), Iná (fogo). Eles agem como se fossem causas naturais. 

Como visto no seguinte trecho do Odù Ọ̀ṣẹ̀tùwá (obtido do bàbáláwo oyègbadé ọlátọ̀nà o ojùgbọ̀nà de ọ̀ṣogbo, terra de ọ̀ṣun), Oxun (Ọ̀ṣun) tem o controle de 4 ajogun: boríborí (derrota), ẹ̀gbà (paralisia), ẹ̀ṣẹ (crime), atómú (aprisionador). Isso a tornou capaz de bloquear o àṣẹ de todos os demais òrìṣà da criação do mundo:

kọ́mú-nkọ́rọ̀
awo èwí n`lé adó
ọ̀rùn-mu-dẹ̀dẹ̀ẹ̀dẹ̀-kanlẹ̀
awo òde ìjẹ̀ṣà
alákàn-ní-n-bẹ-lódò
tí-n-tẹlẹ̀-tútù-rin-rin-rin
á díá fun ẹẹ́rìndínlógún oródù
níjọ́ wọn n t`òde ọ̀run bọ̀
w`óde ìsálayé
wọ́n dé`lé ayé
wọn yẹ`gbó orò,
wọ́ yẹ`gbó ọpa
wọn gbìmọ̀
wọn ò fi t`ọ̀ṣun ṣe
wọ́n ṣe`lé ayé títí
ilé ayé ò gún rárá
wọ́n tọ olódùmarè
olódumàrè kí wọn tán
ó béèrè ẹ̀kẹtàdínlógún wọn
olódùmarè ní, "kín ni ó dé
tí ẹ kìí fíí kéé síi?"
wọ́n ní, "nítorí pé
ó jẹ́ obinrin láàrin àwọn ni"
olódùmarè ní, "ágbẹdọ̀ o!
Obìnrín bí ọjùnrin ní ọ̀ṣun"
Olódùmarè ní
"boríborí, awo ìrágberí,
ọmọ ẹ̀kọ́ṣẹ́ ọ̀ṣun ní i ṣe
ẹ̀gbà, awo ìlukàn
ọmọ ẹ̀kọ́ṣẹ́ ọ̀ṣun ní i ṣe
èṣe, ti i ṣe awo wọn
n`ìjẹ́bù ẹrẹ̀,
ọmọ ẹ̀kọ́ṣẹ́ ọ̀ṣun ní i ṣe
atómú, awo wọn ní ìkírè ilé
ọmọ ẹ̀kọ́ṣẹ́ ọ̀ṣun ní i ṣe
àwọn irúnmọlẹ̀ wọ̀nyìí
ní í jẹ́ k`ọ̀mọ ṣòwò
àwọn ní í jẹ́ k`ọ́mọ jèrè
ṣugbọ́n wọn kì í jẹ́
k`ọ́mọ kérè ọjà délé"
olódumàrè ni
"ohun tí ẹ kò tètè mọ̀
ní ẹ wáá mọ̀ wàyí
ẹ padà sílé ayé
kí ẹ sì màa ké sí ọ̀ṣun
fún gbifbo ohun tí ẹ bá fẹ́ẹ́ ṣe
ohunkóhun tẹ́ẹ bá dáwọ́ lé
yóó sì màa tùbàptùṣẹ
ìgbà tí wọn délé ayé
wọ́n bẹ̀rẹ̀ síí pe ọ̀ṣun báyìí
a-rí pẹpẹ kó ídẹ sí
a fi`dẹ rẹ`mọ
yeè mi afiyùn gbà`ṣè
ọta ò! Omí o! Ẹdan ò!
Awura! Olú! Agbaja!
Abáwọnpéjọ nidìí ìmọ̀ràn!
Ládékojú! Oore yèyé ọṣun!

kọ́mú-nkọ́rọ̀
Era o bàbáláwo na cidade de ado
ọ̀rùn-mu-dẹ̀dẹ̀ẹ̀dẹ̀-kanlẹ̀
era o bàbáláwo no reino de ìjẹ̀ṣà
o-caranguejo-está-no-rio
e-rastejam-no-chão-muito-frio
Eles consultaram ifá para as 16 principais divindades
no dia que eles foram do Ọ̀run para o ayé
Eles chegaram no mundo
eles prepararam a floresta de orò
eles prepararam a floresta de ọpa
Eles planejaram,
mas ele nunca perguntaram a óxun(Ọ̀ṣun)
Eles tentaram sustentar o mundo
mas não havia organização no mundo
eles então voltaram ao órun(Ọ̀run)
e foram procurar Olódúmarè
Olódúmarè os cumprimentou
então perguntou onde estava a décima sétima divindade?
Olódúmarè perguntou-os “por que
vocês não tem o hábito de consultá-la?”
Eles então responderam, “é porque ela é a única mulher entre nós”
Olódúmarè disse então, “Não, isso não pode ser assim!
Óxun(Ọ̀ṣun) é a principal mulher”
Olódúmarè disse
boríborí, é o bàbáláwo de ìrágberí,
é um bàbáláwo aprendiz de Óxun(Ọ̀ṣun)
ẹ̀gbà, é o bàbáláwo de ìlukàn,
é um bàbáláwo aprendiz de Ọ̀ṣun
èṣe, é o bàbáláwo de ìjẹ́bù ẹrè,
é um bàbáláwo aprendiz de Óxun(Ọ̀ṣun)
atómú, é o bàbáláwo de ìkìre,
é um bàbáláwo aprendiz de Óxun(Ọ̀ṣun)
Essas divindades podem permitir a uma
pessoa a fazer comércio,
elas podem permitir que uma pessoa prospere
mas elas não permitem que a pessoa leve
a sua prosperidade para casa
Olódúmarè disse
O que vocês não sabiam
agora vocês sabem.
Voltem para o mundo e consultem
Óxun(Ọ̀ṣun) sobre qualquer coisa que vocês
forem fazer
de maneira que qualquer coisa em que vocês colocarem suas mãos
continue a prosperar
Quando eles voltaram para o mundo
eles passaram a chamar Óxun(Ọ̀ṣun)
e a louvavam assim:
Aquela que tem um grande armazém de latão
aquele que acalma as crianças com latão
Minha mãe, é a que aceita corais para oferendas.
ọta ò! Omí o! Ẹdan ò!
Awura! Olú! Agbaja!
A sempre presente conselheira as reuniões de decisões
Ládékojú! A graciosa mãe Óxun(Ọ̀ṣun)!

Este texto mostra bem a força e importância de Óxun (Ọ̀ṣun) como a divindade que representa a mãe fundamental a energia feminina maior e da qual todas as demais descendem, sejam Orixá (òrìṣà) como também as ajé (àjẹ̀). Também deixa claro a ligação de Oxun (Ọ̀ṣun) com o oráculo. Existe uma outra variação desde mesmo Odù cuja transcrição eu faço a seguir. O conteúdo é similar e o sentido é o mesmo, mas, este aqui, é um texto do mesmo Odù oxétua (Ọ̀ṣẹ̀tùwá) de outra fonte, tem alguns detalhes a mais e outros a menos.

Eu vou transcrevê-lo por considero importante para que se entenda conceitos importantes da religião e sua finalidade junto com as divindades:

...que devia consultar
o porta-voz-principal-do-culto-de-Ifá;
a nuvem está pendurada por cima da terra...
Babaláwó-dos-tempos-imemoriais, os-”siris”-estão-no-rio
a-marca-do-dedo-requer-Yẹ̀rẹ́ròsùn (pó adívinhatório de Ifá).
Estes foram os Babaláwó que jogaram Ifá para
os quatrocentos Irúnmalẹ̀, senhores do lado direito,
e jogaram Ifá para os duzentos Irúnmalẹ̀, senhores do lado esquerdo.
E jogaram Ifá para Óxun(Ọ̀ṣun),
que tem uma coroa toda trabalhada de contas,
no dia em que ele veio a ser o décimo sétimo dos Irúnmalẹ̀ que vieram ao mundo,
quando Olódúmarè enviou os Orixá(òrìṣà),
os dezesseis, ao mundo,
para que viessem criar e estabelecer a terra.
E vieram verdadeiramente nessa época.
As coisas que Olódúmarè lhes ensinou
nos espaços do ọ̀run constituíram os pilares de fundação
que sustentam a terra para a existência de todos
os seres humanos e de todos os ẹbọra.
Olódúmarè lhes ensinou que
quando alcançassem a terra,
deveriam abrir uma clareira na floresta, consagrando-a
a Orò, o Igbò orò.
Deveriam abrir uma clareira na floresta, consagrando-a
a Eégún, o Igbó-Eégún
que seria chamado Igbó-Ọ̀pá.
Disse ele que deveriam abrir uma clareira
na floresta consagrando-a a Odù-ifá, o Igbó Odù,
onde iriam consultar o oráculo a respeito das pessoas.
Disse ele que deveriam abrir um caminho para os Orixá(òrìṣà)
e chamar esse lugar igbó òrìṣà, floresta para adorar os Orixá(òrìṣà).
Olódúmarè lhes ensinou a maneira como deveriam resolver
os problemas de fundação (assentamento) e adoração dos ọjúbo (lugares de adoração)
e como fariam as oferendas
para que não houvesse morte prematura,
nem esterilidade, nem infecundidade,
que não houvesse perda,
nem vida paupérrima, não houvesse nada
de tudo isso sobre a terra.
Para que as doenças sem razão
não lhes sobreviessem,
que nenhuma maldição caísse sobre eles,
que a destruição e a desgraça não se abatessem sobre eles.
Olódúmarè ensinou aos dezesseis Orixá(Òrìṣà) o que eles deveriam realizar
para evitar todas essas coisas.
Ele os delegou e enviou à terra,
a fim de executarem tudo isso.
Quando vieram ao òde-àiyé, a terra,
fundaram fielmente na floresta o lugar de adoração de Orò, o Igbó-Orò.
Fundaram na floresta o lugar de adoração de Eégún.
Fundaram na floresta o lugar de adoração de Ifá que chamamos Igbòdú.
Também abriram um caminho para os Orixá(Òrìṣà),
que chamamos igbóòòsa.
Executaram todos esses programas visando a ordem.
Se alguém estava doente,
ele ia consultar Ifá ao pé de Órunmila(Ọ̀rúnmìlà).
Se acontecia que Eégún podia salva-lo,
dir-lho-iam.
Seria conduzido ao lugar de adoração na floresta de Eégún,
ao Igbó-ígbàlẹ̀.
para que ele fizesse uma oferenda a Egúngún.
Talvez que um de seus ancestrais devesse ser invocado como Eégún,
para que o adorasse, a fim de que esse Eégún o protegesse.
Se havia uma mulher estéril,
Ifá seria consultado, a respeito dela,
a fim de que Ọ̀rúnmìlà pudesse indicar-lhe a devoção
de Óxun(Ọ̀ṣun) que ela deveria tomar.
Se havia alguém que estava levando uma vida de miséria,
Órunmila(Ọ̀rúnmìlà) consultaria Ifá, a respeito dele.
Poderia ser que Orò estivesse associado à sua própria entidade criadora.
Órunmila(Ọ̀rúnmìlà) diria a essa pessoa que
é a Orò que ela devia adorar.
E ela seria conduzida à floresta de Orò.
Eles seguiram essas práticas durante muito tempo. Enquanto realizavam as diversas oferendas, eles não chamavam Óxun(Ọ̀ṣun).
Cada vez que iam à floresta de Eégun,
ou à floresta de Orò,
ou à floresta de Ifá.
ou à floresta de òòṣà,
a seu retorno, os animais que eles tinham abatido,
fossem cabras,
fossem carneiros,
fossem ovelhas,
fossem aves,
entregavam-nos a Óxun(Ọ̀ṣun) para que ela os cozinha-se.
Preveniram-na que quando ela acabasse de preparar os alimentos,
não devia comer nenhum pouco, porque deviam ser
levados aos Malè, la onde as oferendas são feitas.
Óxun(Ọ̀ṣun) começou a usar o poder das mães ancestrais —
ìyá-mi-àjẹ́ - e a estender sobre tudo o que ela fazia
esse poder de ìyá-mi-àjẹ́, que tornava tudo inútil.
Se se predissesse a alguém que ele ou ela não fosse morrer,
essa pessoa não deixava de morrer.
Se fosse proclamado que uma pessoa não sobreviveria,
a pessoa sobrevivia.
Se se previsse que uma pessoa daria a luz um filho,
a pessoa tornava-se estéril.
Um doente a quem se dissesse que ele ficaria curado
não seria jamais aliviado de sua doença.
Essas coisas ultrapassavam seu entendimento,
porque o poder de Olódúmarè jamais tinha falhado.
Tudo o que Olódúmarè lhes havia ensinado eles o aplicavam,
mas nada dava resultado.
Que era preciso fazer?
Quando se congregaram numa reunião,
Órunmila(Ọ̀rúnmìlà) sugeriu que,
ja que eles eram incapazes de compreender
o que se estava passando por seus próprios conhecimentos,
não havia outra solução senão consular Ifá novamente.
Em consequência, Órunmila(Ọ̀rúnmìlà) trouxe seu instrumento adivinhatório,
depois consultou Ifá.
Contemplou longamente a figura do Odù que apareceu
e chamou esse Odù pelo nome de ọ̀ṣẹ́tùwá,
Ele o olhou em todos os sentidos.
A partir do resultado definitivo de sua leitura,
Ọ̀rúnmìlà transmitiu a resposta a todos os outros Odù-àgbà.
Estavam todos reunidos e concordaram que não havia outra solução para todos eles,
os òrìṣà-Irúnmalẹ̀, senão encontrar um homem sábio e instruido que pudesse ser enviado a Olódúmarè
para que mandasse a solução do problema
e o tipo de trabalho que devia ser feito para o restabelecimento da ordem,
a fim de que as coisas voltassem a normalizar-se, e
nada mais interferisse em seu trabalho.
Diziam que tudo o que acontecesse,
Órunmila(Ọ̀rúnmìlà), deveria ir até a Olódúmarè.
Órunmila(Ọ̀rúnmìlà) ergueu-se.
Serviu-se de seu conhecimento para utilizar a pimenta,
serviu-se de sua sabedoria para tomar nozes de obi,
despregou seu òdùn (tecido de rafia) e o prendeu no seu ombro,
puxou seu cajado do solo,
um forte redemoinho o levou, e
ele partiu até os vastos espaços do outro mundo para encontrar Olódúmarè.
Foi la que Órunmila(Ọ̀rúnmìlà) reencontrou Èṣù òdàrà.
Èṣù ja estava com Olódúmarè.
Èṣù fazia sua narração a Olódúmarè. Explicava que
aquilo que estava estragando o trabalho deles na terra
era o fato de eles não terem convidado a pessoa que constitui a decima sétima entre eles.
Por essa razão, ela estragava tudo.
Olódúmarè compreendeu.
Assim que Ọ̀rúnmìlà chegou, apresentou seus agravos a Olódúmarè.
Então Olódúmarè lhe disse que deveriam ir e
chamar a décima sétima pessoa entre eles
e levá-la a participar de todos os sacrifícios
a serem oferecidos.
Porque, além disso,
não havia nenhum outro conhecimento que Ele lhes pudesse ensinar
senão as coisas que Ele ja lhes havia dito.
Quando Ọ̀rúnmìlà voltou a terra,
reuniu todos os Òrìṣà
e lhes transmitiu o resultado de sua viagem.
Chamaram Ọ̀ṣun e lhe disseram que ela deveria segui-los
por todos os lugares onde deveriam oferecer sacrifícios,
mesmo na floresta de Eégún.
Ọ̀ṣun recusou-se:
ela jamais iria com eles.
Começaram a suplicar a Ọ̀ṣun e ficaram prostrados um longo tempo.
Todos começaram a homenageá-la e a reverenciá-la.
Ọ̀ṣun os maltratava e abusava deles.
Ela maltratava Òrìṣànlá
maltratava Ògún,
maltratava Ọ̀rúnmìlà
maltratava Ọ̀sányìn,
maltratava Ọranfe,
ela continuava a maltratar todo mundo.
Era o sétimo dia, quando Óxun(Ọ̀ṣun) se apaziguou.
Então eles lhe disseram que viesse.
Ela replicou que jamais iria,
disse, entretanto, que era possível fazer uma outra coisa
já que todos estavam fartos dessa historia.
Disse que se tratava da criança que levava no seu ventre.
Somente se eles soubessem como fazer para que ela desse a luz uma criança do sexo masculino,
isso significaria que
ela permitiria então que ele a substituí-se
e fosse com eles.
Se ela desse a luz uma criança do sexo feminino,
podiam estar certos de que essa questão
não se apagaria em sua mente.
Ficariam ai pedaços, pedaços e pedaços.
E eles deveriam saber com certeza que
esta terra pereceria;
deveriam criar uma nova.
Mas se ela desse a luz um filho-homem,
isso queria dizer que, evidentemente, o próprio Olódúmarè os tinha ajudado.
Assim apelou-se para Orixalá(Òrìṣàlá) e para todos os outros Orixá(Òrìṣà)
para saber o que deveriam fazer para que a criança fosse do sexo masculino.
Disseram que não havia outra solução
a não ser que todos utilizassem o poder — àṣẹ
que Olódúmarè tinha dado a cada um deles; cada dia repetidamente
deveriam vir, para que a criança nascesse do sexo masculino.
Todos os dias iam colocar seu àṣẹ — seu poder —
sobre a cabeça de Óxun(Ọ̀ṣun),
dizendo o que segue. "Voce Óxun(Ọ̀ṣun)!
Homem ele devera nascer, a criança que voce traz em si!"
Todos respondiam "assim seja", dizendo
tó!” acima de sua cabeça...
Assim fizeram todos os dias, até que chegou
o dia do parto de Óxun(Ọ̀ṣun).
Ela lavou a criança.
Disseram que ela deveria permitir-lhes vê-la.
Ela respondeu "não antes de nove dias".
Quando chegou o nono dia, ela os convocou a todos.
Esse era o dia da cerimônia do nome, da qual se originaram
todos as cerimônias de dar o nome.
Mostrou-lhes a criança,
e a pôs nas mãos de Orixá(òrìṣà).
Quando Orixaunlá(Òrìṣànlá) olhou atentamente a criança
e viu que era um menino, gritou:
"Músò".. .! (hurra.. .!)
Todos os outros repetiram "Músò"...!
Cada um carregou a criança;
depois o abençoaram.
Disseram: "somos gratos por esta criança ser um menino".
Disseram: "que tipo de nome lhe daremos?"
Orixá(òrìṣà) disse: "voces todos sabem muito bem que
cada dia abençoamos sua mãe com nosso poder
para que ela pudesse dar a luz uma criança do sexo masculino,
e essa criança deveria justamente chamar-se
À-Ṣ-Ẹ-T-Ù-W-Á (poder trouxe ele a nos)"
Disseram: "acaso você não sabe que foi o poder do àṣẹ,
que colocamos nela, que forçou essa criança a
vir ao mundo,
mesmo se antes ela não queria vir a terra sob a forma de uma criança do sexo masculino?
Foi nosso poder que a trouxe a terra."
Eis por que chamaram a criança Àṣẹtùwá.
Quando chegou o tempo,
Órunmila(Ọ̀rúnmìlà) consultou o oráculo Ifá acerca da criança,
porque todos devem conhecer sua origem e destino
colheram o instrumento de Ifá a para consultá-lo.
Eles o manipularam e o adoraram.
Era chegado o momento de consular Ifá a respeito dele,
para saberem qual era seu Odù, para
que o pudessem iniciar no culto de Ifá,
Levaram-no a floresta de Ifá,
que chamamos Igbodu, onde Ifá revelaria que Ọ̀ṣẹ́ e Otùwá eram seu Odù.
Este foi o resultado que ele deu a respeito da criança.
Órunmila(Ọ̀rúnmìlà) disse: "a criança que Ọ̀ṣẹ́ e Otùwá fizeram nascer,
que antes chamamos Àṣẹtùwá",
disse, "chamemo-la antes de Ọ̀ṣẹ́tùwá."
Foi por isso que chamaram a criança
com o nome do Odù de Ifá que lhe deu nascimento,. Ọ̀ṣẹ́tùwá.
Àṣẹtùwá era o nome que ele trazia anteriormente.
Assim, a criança participou do grupo dos outros Odù,
ao ponto de ir com eles a todos os lugares onde se
faziam oferendas na terra.
Foi assim que todas as coisas que Olódúmarè lhes tinha ensinado
deixaram de ser corrompidas.
Cada vez que proclamavam
que as pessoas não morreriam,
elas realmente sobreviviam
e não morriam.
Se diziam que as pessoas seriam ricas,
elas tornavam-se realmente ricas.
Se dizem que a mulher estéril conceberia,
ela realmente dava a luz
A propria Óxun(Ọ̀ṣun) deu a essa criança urn nome nesse dia.
Disse ela: "Oṣó a gerou" (significando que a criança era filho do poder mágico);
porque ela mesma era uma àjẹ̣́
e a criança que ela gerou e um filho homem.
Disse ela: "Akin Oṣò ",
(Akin Oṣò : poderoso mago; homem bravo dotado de um grande poder sobrenatural)
eis o que a criança sera!
É por isso que eles chamaram Ọ̀ṣẹ́tùwá de Akin Oṣò,
entre todos os Odù Ifá e entre os dezesseis òrìṣà mais anciãos.
Depois eles disseram que em qualquer lugar onde os maiores se reunissem,
seria compulsório que a criança fosse urn deles.
Se não pudessem encontrar o décimo sétimo membro,
não poderiam chegar a nenhuma decisão e se dessem um conselho não poderiam ratificá-lo.

Como podem observar é um texto ampliado do primeiro, mas importantíssimo para se entender a religião.

Assim, de qualquer forma que alguém se coloque em problemas, através de exu (èṣù) e Oxun (Ọ̀ṣun) ativos no owó ẹyọ mẹ́rìndínlógún poderá se obter solução. 

Além disso e muito importante Oxun (Ọ̀ṣun) como o princípio feminimo fundamental é a lider das ajé (àjẹ̀), as feiticeiras, espiritos que estão no nível dos homens e que manipulam diretamente as iniciativas divinas.

As ajé (àjẹ̀) são espiritos que fazem o bem ou o mal diferente dos ajogun que somente fazem o mal. Segundo o bàbáláwo oyègbadé ọlátọ̀nà:

àjẹ̣́ também conhecidas como as ìyámi são poderosas. Olódùmarè designou o universo como sua área de atuação e cuidado. Ele deu-lhes poder e autoridade sobre todos os assuntos. Elas fortemente mantêm o universo unido. Elas mantêm a ordem no mundo. Óxun(Ọ̀ṣun) não é apenas uma parte delas ela é sua líder.


Desta maneira não ha assunto que o owó ẹyọ mẹ́rìndínlógún não possa resolver e não deve existir questionamentos sobre sua eficácia em relação a Ifá, seja por sua ligação direta com este seja por seu vínculo também direto com Oxun (Ọ̀ṣun).

Assim o owó ẹyọ mẹ́rìndínlógún tem uma ligação direta com Oxun (Ọ̀ṣun). Isso não torna menos eficaz que o oráculo de Ifá.

Lembrando, de novo a citação de Abimbola:


Por "Ifá Divination" nós queremos traduzir como Ifá e sistemas correlacionados de oráculo baseados em estórias e símbolos de Odù tais como Dida owo (uso do opele), etite-ale (uso do ikins), eerindinlogun (16 buzios), agbigba (um outro tipo de opele) e obi.

O propósito desse artigo é examinar a íntima relação de Oxun (Ọ̀ṣun) com o oráculo de Ifá de duas formas, através dela mesma e através da instrumentalização de oxetuura, seu filho. Nós iremos iniciar com a visão popular que envolve Oxun (Ọ̀ṣun) em Ifá no qual ela obteve o seu conhecimento de Ifá através de seu marido Órunmilá. Nós examinaremos então a importância de oxetuura para o sacríficio resultante do oráculo. Nas ultimas páginas deste artigo nós iremos então fazer a afirmação de que Oxun (Ọ̀ṣun) tem muito mais relação com Ifá do que os Babaláwo são capazes de admitir.

Eu irei, claro, colocar a hipótese que que
todo o sistema de Ifá se iniciou a partir de Oxun (Ọ̀ṣun) e ela o deu para Órunmilá e não o contrário. Eu irei basear minhas afirmações em versos de Ifá. Eu também irei examinar a possibilidade que o eerindinlogun é mais antigo do que dida owo e etite-ale que são desenvolvimentos posteriores do oráculo de Ifá".

Essa citação impressiona muito.

Contudo devemos respeitar alguns limites. O primeiro é que o uso do owó ẹyọ mẹ́rìndínlógún sempre irá caracterizar uma relaçao muito estreita com Oxun (Ọ̀ṣun) e com os Orixá (òrìṣà). Não podemos deixar de lembrar do que foi explicado no texto sobre erindinlogun e Ifá que o erindinlogun sempre será um oráculo resumido. A informação é a mesma, a profundidade é distinta.

O eerindinlogun com toda a sua eficiência será sempre uma comunicação com os Orixá (òrìṣà) e vai trazer o que eles querem dizer ao consulente.

Orunmila é o eleri ipin e ele fala através de seus sacerdotes e o oráculo de Ifá sempre irá tratar do destino e da vida das pessoas.  A gente sempre diz que a pessoa vai para Ifá querendo saber algo, mas, Ifá diz o que a pessoa precisar saber e não o que ela quer saber. Isso poderá decepcionar um pouco as pessoas.

O eerindinlogun sempre deve ser o oráculo a ser consultado para se tratar da vida espiritual de um iniciado e sempre será a melhor consulta para uma pessoa tratar dos assunto que a interessam.