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terça-feira, julho 26, 2011

Os jogos de confirmação em Ifá e no Candomblé

Os jogos de confirmação são aqueles feitos para confirmar liturgias do Candomblé. São Oráculos relativamente simples mas extremamentes importantes, porque o Oráculo é a forma oficial de comunicação entre o aiye e o Órun, entre nós e o divino.

Quando fazemos algo direcionado ao divino, primeiro devemos ter consultado o divino através de um Oráculo. Não existe receita pronta ou "piloto automático". Se necessitamos do divino, dos Orixás, devemos consulta-los para saber se:  somos mercedores? O problema pode ser resolvido por eles? O caminho para resolver é a pessoa que procuramos?  Qual o processo ou elemento adequado?

Tudo isso é importante. Para uma oferenda ter resultado deve existir uma boa causa, o merecimento, os meios e a pessoa que manipula isso.  Por essa razão algumas vezes (ou muitas...) pessoas não obtêm o que querem, ou jogam seu dinheiro fora (na industria sem ética dos favores pagos).

O errado não é o divino e sim essas condições. Assim, você pode estar precisando e merecer, mas, se usar o processo errado ou a pessoa errada poderá não chegar a lugar algum.  Por essa razão sempre tome cuidado com a industria dos favores pagos. Rara é a ética nas pessoas que vivem de vender favores de intermediação ao divino.

Isso vale desde uma obrigação até uma simples oferenda ou ebó.

Assim, desde que você saiba o que esta fazendo, como esta fazendo e com quem esta fazendo, os oráculos de confimação são o último recurso que se lança mão para evitar enganos. Na verdade se bem usados impedem que você cometa uma besteira e também permitem ao sacerdote ético saber que ele pode estar cometendo algum erro.

Por excelência o Oráculo de confirmação é o Obi. É ele que deveria ser usado antes de qualquer trabalho, ebó, oferenda ou cerimônia. Eu vou publicar na sequência um Itan sobre o Obi que deixa claro porque o Obi é o instrumento que deve ser usado para essas confirmações.

No Ifá cubano usa-se casca de coco para substituir o Obi. Entendo que Cuba é um luga que esta em outra latitude, diferente do Brasil e Nigéria e que folhas que encontramos aqui e na Nigéria não existem lá, favas não existem, animais, etc... Assim eles procuraram uma forma de fazer um oráculo sem usar o Obi, buscando similaridade com o conceito do Opele. Mas aqui no Brasil não temos esse problema.

No Candomblé, possivelmente por economia e alguma falta de material (o que duvido muito) se desenvolveu, em larga escala de uso, outro instrumento, a Cebola, aliás muito menos adequado do que os cocos cubanos. Esses últimos, os cocos mantêm a característica de concavo-convexo do opele.   

Mas independente desses materiais existe ainda um outro instrumento que todos podem ter, os 4 búzios de exu ou mesmo o próprio erindinlogun. Eu acredito que conseguir 4 búzios não seja dificuldade para ninguém e não justifica o uso, no Camdomblé, de nenhuma cebola.

O Orogbo é também um instrumento de confirmação assim como o cara. Mas, ambos, de uso mais restrito. No caso do orogbo é usado para Xango e o cara em situações muito especiais para Oxalá.

Mas indo ao tema do texo, os jogos de confirmação devem ser usados em 2 momentos. Primeiro eles devem ser usados antes de se iniciar qualquer procedimento. Você deve confirmar se esta tudo pronto para começar ou se algum ajuste deve ser feito. Observe que isso é feito mesmo após você ter tomado todos os cuidados na consulta principal ao oráculo que definiu o que fazer. Mesmo que você tenha perguntado tudo com detalhes, antes de iniciar você deve confirmar.

Minha experiência mostra que muita coisa muda. Assim, desde uma oferenda até um Bori, quase sempre o oráculo faz algum reparo, complemento ou correção. Cada pessoa é uma pessoa e não se aplica tudo igual como se fosse uma receita. Ninguém deve se preocupar com isso. Ao receber uma negativa antes de iniciar, se explora essa resposta para descobrir onde esta o problema. Poder algo que falta, poder ser uma variação no processo, pode ser um problema com a própria pessoa que vai fazer (o babalawo ou babalorixá) que não se preparou adequadamente, pode ser com o local ou casa.

Somente se inicia com sinal verde. Se não se obtêm essa confirmação, não se inicia. Perder algum manterial ou tempo não significa nada.

As pessoa tem terror de oráculos de confirmação. Eu os adoro. Quem esta preocupado com o bem do que faz se protege com essas confirmações. Todo Bori tem um senão, raros são os casos que não existe uma instrução adicional qualquer.  Já vi inclusive situações que não era para começar, ou seja, não fazer aquele dia ou com aquela pessoa. Se a gente tem Fé de fato, temos que confiar nesses oráculos.

No fim do que foi feito se faz nova confirmação. Essa é a mais complicada porque vai dizer se o que foi feito foi ou não aceito. Se der negativa então temos que buscar ali mesmo novas instruções. Pode ser para fazer tudo de novo (e temos que saber a causa) pode ser que temos que complementar. Uma pessoa errada que participou, uma forma errada podem por tudo a perder. Se confirmamos no início não vai haver erro com os materiais, mas a condução, as pessoas, o seu coração, sua alma e seus pensamentos só aparecem durante.

No fim, se usa o mesmo oráculo do início para a segunda confirmação. as vezes se abre um novo Obi, tudo depende da liturgia ou do babalawo.

Se um babalawo receber  um NÃO ela vai continuar o seu procedimento de modo a corrigir. Se esta no Opon vai continuar com outro tabuleiro buscando o objetivo final ou então abrir novamente o oráculo para saber o que fazer.

Simples não?  Sim, mas a pessoa tem que saber usar esses instrumentos e tem que prática e confiança neles. Só assim dá certo.

O objetivo aqui não é ensinar a usar esses oráculo, isso fica para outra vez, mas eles são muito completos. Um Obi é um instrumento simples e complexo. Ele esta muito além do sim e do não.

Nas mãos de quem sabe, o Obi fala.


O Grande engodo feito no Candomblé


No Candomblé a gente ve muitas coisas estranhas que fogem ao padrão. O problema é na falta de conhecimento e também na vaidade.  A vaidade impede uma pessoa de ter a humildade de receber um não.

A primeira coisa de fazer chorar é a prática de se fazer a mesma pergunta inúmeras vezes. Observe o processo, a pessoa joga o Obi várias vezes e recebe NÃO, depois recebe um SIM e esse SIM anula todos os NÃO anteriores. Alguém pode achar que isso é correto?  Faz algum sentido? Se não era para dar NÃO, não era melhor nem ter perguntado?

Você faz a pergunta uma única vez. Se veio SIM é sim, caso contrário a resposta é NÃO. Ou você aceita o NÃO ou você pergunta qual o motivo do não e como se corrige. Não se faz a mesma pergunta a um oráculo mais de uma vez! Esta é uma regra conhecida por todo mundo que usa oráculo.

Se tem dúvida você pode perguntar outra coisa que complemente, mas não se repete pergunta. Aliás quando a gente repete recebe logo uma resposta mal-criada do oráculo. Sabendo ler se percebe isso.

Em um Bori se joga para confirmar antes de iniciar. Mas e se a pessoa que esta jogando o Obi receber 3 NÃO?  Ela faz o que? Passar para outro continuar a perguntar? E se continuar a sair NÃO? Vai se passando para todo mundo na sala até sair o SIM?

Pois eu já vi isso acontecer, sairam 5 NÃO antes de um SIM. Sinceramente sei lá como isso foi SIM. Mas, sem dúvida é um SIM poderoso!

No caso do Bori, por que as pessoas não aceitam que aquele Ori pode querer uma coisa diferente? Pode estar querendo mudar algo no processo? Não, a cegueira causada pela vaidade impede a pessoa de querer ver isso. Ela acha que as mesmas comidas sempre vão servir e o mesmo processo sempre vai servir e todo Ori sempre receber Obi e da mesma forma.

Ja vi em sacrificio para Exu, a pessoa usando os 4 búzios, receber 3 NÃO, depois o seguinte receber 3 NÃO e somente no terceiro aperecer um SIM. Sera que o Exu não queria falar algo?

Isso desanima, bastante quem é de Ifá e cujo culto e a vida seja o Oráculo.

Igualmente ruim é o desconhecimento sobre a forma de usar. As pessoas pegam aquele obi, colocam juntinho tudo, deixam ele encostado no chão e soltam fazendo de tudo para os segmentos caírem certo....  Ja vi a pessoa dizer que foi SIM quando haviam segmentos colados um no outro!!  Como??

Muitos ainda usam o protocolo de considerar que 3 segmentos abertos são SIM. Não são. Ou seja tudo é feito para dar SIM.

Outro instrumento ruim é a cebola. A cebola não deve ser oráculo de nada. Não vou entrar no mérito de onde isso surgiu, suponho que ela seja o parente do coco cubano no Candomblé. Ela não tem consistência. Se tiver que ser usada mais do que uma vez, ela vai desmanchar. Mas a técnica de uso é simples, se abre em quadro, encosta no chão e solta os gomos (tudo para eles sempre abrirem). Claro, na rara hipótese de eles darem NÃO, joga-se de novo até dar SIM.

No caso do Orogbo existe muita confusão. As pessoas as vezes tiram a casca (!!) e também cortam ele em quatro como se fosse um Obi.... ou simplesmente ao meio, em 2 partes. Bom não é assim. Hoje em dia é muito fácil aprender qualquer coisa. 

Além disso, ja vi outros instrumentos menos normais como a maça (?). Eu nunca vi nenhum mito sobre a maça, aliás, será que tem maça na Nigéria?  Mas uma pratica estranha é a pessoa usar vários instrumentos ao mesmo tempo. Assim a pessoa usa em seuencia e na mesma confirmação, o obi, orogo, cebola, maça, etc...Eu me pergunto, para que?

Eu suponho que seja "pirotecnia". Partindo do princípio, como já disse, sempre vai dar SIM,  quanto mais instrumentos a pessoa usar mais importante vai se sentir. Deve ser isso.

Se o Obi deu SIM por que usar outro instrumento? E se o orogbo ou a cebola dessem não?  Claro que nunca dá, porque como eu expliquei vai ser jogada até dar 1 SIM.

O fato é que isso tudo é um engodo.  As pessoas não fazem a confirmação para receberem um NÃO. Somente o SIM vai ser aceito. Dessa maneira você pode fazer o processo usando ao mesmo tempo Obi, orogbo, maça, cebola, coco, melancia, banana, jaca, não importa. Sempre vai ter que dar SIM.

Como eu disse, junta falta de conhecimento com vaidade.

Na falta de um Obi o instrumento correto, na  minha opinião, são os 4 búzios de Exu. É jogar para ver.


Bom aguardem para próximos textos, o itan sobre o Obi e também vou explicar em detalhes como se usa o Obi e o Orogbo.

domingo, julho 03, 2011

Odù – A energia de olódùmarè

O que é Odù?

Primeiro, a palavra não significa caminho, como as pessoas que não sabem o que significa falam. Odù também não é destino, que é explicado por outras palavras ligadas a outro conceito, bastante profundo e complexos, no qual o Orí esta inserido, mas, sendo apenas uma parte do conceito teológico de destino.

Assim, pode parecer estranho, mas, para entender o que é Odù a primeira coisa que se deva fazer é esquecer tudo que se diz por ai, principalmente no Candomblé.

O Candomblé é uma tradição religiosa incrível, muito cativante e fechada e talvez por isso mesmo, por ser fechada demais, permitiu que a ignorância se alastrasse nas coisas mais simples. Definitivamente Odù não é uma coisa que faz parte do Candomblé. Faz parte da religião Yorùbá, mas, não do Candomblé. 

O significado da palavra Yoruba é Odù é o de uma coisa grande para conter algo dentro, como um contêiner ou uma grande cabaça. Esta palavra, Odù, como outras palavras Yorùbá (como axé (aṣẹ́), por exemplo), pode ser usada com mais de um significado na prática. 

Odù é a base da comunicação de Órunmilá (Ọ̀rúnmìlà) com as pessoas. São os sacerdotes de Órunmilá (Ọ̀rúnmìlà) que aprendem durante toda a sua vida a entender Órunmilá (Ọ̀rúnmìlà) através dos Odù.

Para entender o que é Odù a gente tem que examinar 3 aspectos fundamentais que estão ligados a ele: a sua formação gráfica, as suas mensagens e a sua energia. Odù envolve esses 3 aspectos simultaneamente e se não entendermos os 3 ao mesmo tempo podemos nos perder no seu sentido. 

Odù e as marcas gráficas

Odù são representados no nosso mundo através de marcas gráficas que representam um símbolo. Nas religiões mais antigas, no hermetismo, nós encontramos a mesma ideia representado pelos selos, assinaturas, marcas de espíritos.

A ideia de ligar um poder ou uma energia a uma representação gráfica que o invoca junto com rezas sempre foi completamente presente no misticismo judaico e cristão, na magia cabalística e na alquimia. Centenas de livros são escritos até hoje sobre isso. Claro que a cultura ocidental há muito abandonou esses conceitos e práticas, mas esses elementos sempre foram muito explorados e por séculos representaram o topo do conhecimento supernatural e religioso.

O Odù nos remete a mesma ideia conceitual.

Em termos quantitativos são 256 Odù. Existe uma matemática muito simples nesses números. São 16 figuras diferentes, feitas com a combinação de traços duplos ou simples. Como cada Odù é formado pela combinação de 2 figuras, então teremos 16 x 16 = 256 Odù. Nessas 256 figuras diferentes, aquelas onde o mesmo símbolo aparece repetido, são chamados dos Odù Méjì, ou duplos, os principais e são 16 ao todo.

Assim temos 16 Odù Méjì e os demais 240, que são chamados de Omo (Ọmọ) Odù ou Odù filho. A razão disso é porque os demais são combinações nas quais um dos 16 símbolos se fixam na primeira posição e se combina com os demais 16, conforme veremos nos desenhos a seguir.

Cada desenho é composto de duas colunas formadas por uma combinação de traços duplos e simples, cada coluna, ou perna, tem 4 marcas.

Os exemplos a seguir mostram a relação das 16 configuração de marcas que formarão em dupla os 16 Odù Méjì:

                                                I                     II                    II                    I
                                                I                     II                     I                   II
                                                I                     II                     I                   II
                                                I                     II                    II                    I
                                            Ogbe           Oyeku            Iwori              Odi

                                                I                     II                     I                   II
                                               II                     II                     I                   II
                                               II                     II                    II                    I
                                               II                      I                    II                    I
                                           Obara           Okanran       Irosun            Owonrin


                                                I                     II                     I                      I
                                                I                      I                     I                     II
                                                I                      I                    II                      I
                                               II                      I                     I                      I
                                         Ogunda             Osa             Irete              Otuwa

                                               II                      II                    I                      II
                                               II                       I                   II                       I
                                                I                      II                    I                      II
                                               II                      II                   II                       I
                                          Oturupon           Ika               Ose               Ofun

Essas são as marcas originais. Um Odù é formado por um desenho com um total de 8 marcas em 2 sequência verticais ou pernas.

Observem que existe uma certa simetria nas formas, um certo equilíbrio. As quatro primeiras formas, são únicas, elas vão representar, em dupla, os 4 principais Odù Méjì. As demais, quando rodadas em torno do seu eixo vertical, formam o Odù do seu par.
Os Odù são considerados em pares. Assim os pares são:

                                                                    Ogbé & Ọ̀yẹ̀kú
                                                            I              II
                                                            I              II
                                                            I              II 
                                                            I              II


                                                                        ìwòrì & Òdí
                                                              II           I
                                                               I          II
                                                               I          II
                                                              II           I

                                                                      Ọ̀bàrà & Ọ̀kànràn
                                                              I            I
                                                             II            II
                                                             II            II
                                                             II            II


                                                                      ìròsùn & Ọ̀wọ́rín
                                                             I             II
                                                             I             II
                                                            II              I
                                                            II              I


                                                                     ògúndá & Ọ̀sá
                                                             I             II
                                                             I              I 
                                                             I              I
                                                            II              I


                                                                       Ìrẹ̀tẹ̀ & Otùwá
                                                            I              I
                                                            I             II
                                                           II              I
                                                            I              I


                                                                       Òtúrúpọ̀n & ìka
                                                              II               II
                                                              II                I
                                                               I               II
                                                              II               II

                                                                        Ọ̀ṣẹ́ & òfún
                                                              I           II
                                                              I           II
                                                              I           II
                                                              I           II

Observem que nas 2 primeiras duplas, os símbolos se complementam, assim, onde em um é 1 traço no outro são 2 traços. Para as demais duplas, um simbola é a rotação do outro no eixo vertical.

Ifá é baseado totalmente no conceito de equilíbrio. Trabalhamos com o equilíbrio do axé (aṣẹ́), marcamos 1 traço quando sobram 2 ikins e os símbolos dos odù também representam graficamente esse conceito de equilíbrio de complementariedade.

Voltando a formação dos Odù, eles são também formados por pares de traços. Assim cada Odù sempre será um par de traços. Os Odù Méjì serão 2 traços iguais e os Omo (Ọmọ) 2 traços diferentes

Os Odù são chamados de méjì porque méjì significa (2).O numero 2 é èjì, mas em Yoruba quando o numero é colocado depois do substantivo, ou seja quando ele é usado para contar alguma coisa adiciona-se o M na frente. Assim, èjì é o número 2 e ogbe mèjì é traduzido como 2 ogbe, ou 2 Odù ogbe:

I........I
I........I
I........I
I........I

Dessa maneira o Odù acima é o ogbè méjì, porque seria ogbè-ogbè mas não se fala assim, a gente fala ogbè méjì de maneira que ogbè-ogbè e ogbè méjì são a mesma coisa.

Os primeiros 16 Odù são os Odù meji, indo de ogbe meji até orangun meji. Depois disso é feita uma combinação entre cada Odù e os conseguintes, formando de ogbe-oyeku (ogbè-ọ̀yẹ̀kú) até ogbè-òfún e depois indo para oyeku-ogbe (ọ̀yẹ̀kú- ogbè) na mesma lógica.

A figura abaixo corresponde ao Odù ogbe-oyeku (ogbè-ọ̀yẹ̀kú) e esse é o décimo sétimo Odù. antes dele estão os Odù méjì.

II.......I
II.......I
II.......I
II.......I

A partir desse Odù as figuras são formadas fixando-se a figura da direita e variando somente a da esquerda. Serão formadas então 15 figuras, formando de ogbe-oyeku (ogbè-ọ̀yẹ̀kú), mostrado acima, até ogbè-òfún. Depois disso vamos para oyeku-ogbe (ọ̀yẹ̀kú- ogbè) e na mesma lógica, mas 15 figuras e dessa maneira até completar todos os 256 Odù.

Atenção, os signos são lidos da direita para a esquerda.

Vejam que podemos perceber a simplicidade e profundidade da estrutura dos Odù. A primeira coisa explicada é que os 4 primeiros Odù Méjì são os mais importantes e representam todos os demais. Eles são formados por símbolos únicos. Os Odù se agrupam em pares e cada par tem um símbolo que completa o outro.

Os símbolos duplos, formados por 2 figuras iguais são os Odù Méjì, e são 16 (4+12) e são os mais importantes. Os demais símbolos são os Omo (Ọmọ) e são formados pela combinação de cada um do 16 principais com os demais.

Por fim existe uma hierarquia entre os Odù. Os Odù formam uma sequência dos mais antigos para os mais novos e essa ordenação é usada para tomar decisões. Um Odù mais sênior tem mais valor do que um menos sênior quando temos que escolher entre um e outro.

Atenção os Odù são igualmente importantes, não existe Odù melhor do que outro, mas, em Ifá temos que tomar decisões, fazer escolhas e assim os Odù recebem uma hierarquia para que possamos fazer escolhas através dessa hierarquia.

Não existe somente uma hierarquia. Escolas diferentes de Ifá usam hierarquias levemente diferentes. O importante que todos devem observar é que a hierarquia não é o mais importante e pode mudar. A hierarquia é um instrumento para fazer uma escolha.

Para finalizar a questão gráfica eu coloco que a questão da representação gráfica é muito importante, junto com o nome. Os Babaláwo são muito cuidados em não riscar um Odù e muito menos falar o seu nome sem necessidade. Eles consideram que ao fazer uma dessas 2 coisas estariam invocando aquele Odù e não se invoca essa energia sem que ela seja a indicada ou necessária para a situação.
 
Similarmente é o mesmo tratamento que era dado no ocultismo. Um selo ou talismã jamais eram usados sem objetivo. A Umbanda tem um elemento similar que são os pontos riscados. Como os selos eles trazem para o ambiente uma determinada energia e existem pontos de trabalho para diversas situações.

No caso do nome os Yorùbá criam apelidos para os Odù. Assim eles se referenciam a um Odù sem que citar o seu nome, pelo memso motivo anterior, falar o nome de algo, o invoca.

Não sei se observaram que em nenhum momento eu citei a palavra número. Aliás eu não mostrei nenhum número.

Não existe nenhuma relação entre Odù e números.

Isso é uma invenção do sincretismo. 

O primeiro é que como extensivamente vimos, Odù representados por marcas gráficas. Um Odù somente é representado por uma marca gráfica e jamais por um número.

O relacionamento de Odù com números não tem nenhum fundamento. Isso é outra bobagem do Candomblé e de outras tradições que usam o jogo de búzios. Trata-se apenas de um fruto de sincretismo com a cultura árabe que foi exportada para a Europa, provavelmente. É um vinculo entre numerologia e Ifá e que não existe motivo ou fundamento.

A associação de Odù com números ocorre somente no uso dos búzios, porque, por uma característica da ferramenta, os búzios, é feita uma associação de quantidade de búzios abertos com Odù. Mas isso é uma particularidade do uso dos búzios. Em Ifá, com seus instrumentos oficiais, opele (ọ̀pẹ̀lẹ̀) e os ikins, não existe como fazer essa associação.

Além do mais a aritmética não existia nas terras Yorùbá. Não faziam contas, isso era coisa de árabes. Os Yorùbá não tinham nem língua escrita muito menos aritmética. Os números eram palavras substantivas. Em um ambiente como esse como poderia existir um processo de cálculo para apurar Odù como se faz largamente no Candomblé?

Além do que, mesmo no Candomblé a relação de Odù e número é recente. Ou alguém imagina há 50 anos atrás alguém de Candomblé, fazendo continha e cruzinha para determinar Odù?

Em Ifá, o culto de Órunmilá (Ọ̀rúnmìlà), que trabalha com Odù, tem 2 instrumentos para poder determinar um Odù. Os ikins, o principal, determina-se o odu fazendo uma manipulação para cada traço do Odù. Assim 8 manipulações determinam um Odù. Um processo bem lento mas que tem apenas a capacidade de determinar se é 1 traço ou 1 traços que serão desenhados.

O segundo instrumento é o opele (ọ̀pẹ̀lẹ̀). A cada caída do opele (ọ̀pẹ̀lẹ̀), em função do lado que caem as sementes definirmos se é 1 ou 2 traços. Ou seja, 8 semente determinam um Odù, dependendo do lado que caem, em um processo bem rápido.

Mas é só isto. Não existe outra forma em Ifá de se determinar um Odù e nenhuma delas usa qualquer número. O mais próximo que Ifá se aproxima de matemática é porque existe uma hierarquia e sinceramente eu não consigo considerar isso matemática.

Assim, repassando, Os Yorùbá não tinham algarismos arábicos como números, os números eram como com os Hebreu, eram palavras, substantivos. Eles não faziam aritimética e Ifá desde o seu início até hoje não usa número para nada.

Mas de tudo isso, o pior mesmo, o mais ridículo, é o conhecido processo de determinar odu de nascimento através da data de nascimento, fazendo uma cruz.... é uma bobagem. Isso não existe em Ifá. Não existe Odù determinado por soma de números ou mesmo considerar que essa idiotice seja um Odù de nascimento.

As mensagens dos Odù

As marcas gráficas dos Odù, suas assinaturas, representam um símbolo. A este símbolo estão associadas histórias na forma de versos que formam a famosa, mas pouco conhecida literatura de Ifá, poemas de Ifá, que eram transmitidos oralmente.

Assim, Odù também é o nome dados aos poemas de Ifá, ou corpo literário de Ifá. Os poemas estão agrupados em conjuntos por cada Odù e cada um dos 256 Odù pode ter, dizem, até 16 conjuntos de versos. No mundo real essa quantidade é variável, porque não se possui todos os versos e muito menos os versos são os mesmo sempre. 

Cada escola de Ifá pode ter seu conjunto próprio de versos. Existem versos conhecidos, mas que podem ser ditos de maneira diferente por cada escola. Escolas distintas podem ter mais versos do que outa. 

Considera-se que mesmo em uma mesma escola, em cada Odù existe um início que é padrão. O desenrolar da história pode veriar de acordo com o babaláwo, não existe a obrigatoriedade de ser exatamente igual.

A natureza da lingua Yorùbá e a estrutura dos versos dos Odù tornou o seu estudo um aspecto bastante conhecido por sua dificuldade. A lingua Yorùbá não é fácil. O povo é por demais simples para construir uma lingua bem estrutrada e assim existe uma grande complexa devido a forma como ela é implementada e regionalizada. 

Hoje já os encontramos escritos em muitas versões. Esse conjunto de versos que representa a sabedoria da religião, não é completo para os próprios Yoruba, muita coisa se perdeu em funcão das guerras e do processo de cristianização e Islamização que avassalaram com a cultura religiosa original.

Mas, seguindo, lembramos que toda a comunicação entre Órunmilá (Ọ̀rúnmìlà) e nós e feita através dos babaláwo usando Odù. Odù é a únicar forma de comunicação entre Órunmilá (Ọ̀rúnmìlà) a divindade que conhece o nosso destino e nós. 

Mas essa não é uma comunicação direta. Órunmilá (Ọ̀rúnmìlà) não incorpora em uma Babaláwo e fala o que queremos saber. Ele responde com o envio de um Odù que é materializado no Aiye através dos instrumentos do Babaláwo e das marcas gráficas que o representam.

A mensagem estará contida nas histórios que compões os versos do Odù que saiu. É através da interpretação dessas histórias que podem estar na forma de mitos ou de poemas é que vem o significado de um Odù. A mensagem que um Odù traz para nossa vida esta contida nas histórias que são associadas a ele.

O entendimento da mensagem será um processo interativo entre o Babaláwo e o consulente. O Babaláwo deve recitar os versos que sabe e o consulente deverá escolher a história ou histórias que entenda que dizem respeito ao seu problema. O próprio consulente deverá interpretar o significado da história e o babaláwo usar essa interpretação para entender o problema e interagir com o consulente.

Esse é o processo. Não existe consulta a Ifá sem histórias e sem interpretação.
Complementarmente a isso o Babaláwo pode conhecer significados desse Odù, situações que ele representa e isso auxilia a própria interação com o consulente. Mas uma consulta não pode se resumir a isso.

No Candomblé a consulta de búzios se resume a um conjunto muito pobre de interpretações pré-formatadas. As pessoas que dizem jogar por Odù se limitam a saber meia dúzia de significados associados a cada Odù, significados que em grande parte das vezes se repetem entre Odùs, transformando um processo rico e interativo em uma coisa pobre.

Não. Consultar Ifá através de búzios não tem nada haver com essa formula pobre que é adotada por pessoas que não sabem o que é Ifá e não tem a menor idéia do que é Odù.

Mas isso não ocorre apenas no Candomblé. Em Ifá mesmo existem babaláwos mal formados e preguiçosos que resumem uma consulta a falar os significados associados a um Odù. Eles não se dão o trabalho de contar as histórias e interagir através delas com o consulente.

Essas pessoas não representam a religião. São aproveitadores infiltrados.

É importante mencionar que os versos de Ifá, em geral, representam a ética religiosa e o conhecimento da religião. Se existe uma escritura sagrada na religião Yorùbá esta são os versos de Odù.

Dessa maneira uma consulta através de Ifá sempre traz a ética e a visão da religião Yorùbá para o assunto. Mesmo o consulente sendo uma pessoa que não faz parte da religião ele terá como resposta uma visão religiosa de sua situação ou seja uma interpretação religiosa.

Não poderia deixar de ser, um oráculo associado a uma religião tem que necessariamente trazer as mensagens da religião que esta associada. Este aspecto se torna inexorável quando a gente lembra ou informa que o conhecimento da religião esta contido nos versos ou nas histórias dos Odù.

Assim apesar de muitos quererem dar uma visão mundana ou comum a Ifá, como se fosse um instrumento de videntes, este nunca o será. Ifá é e sempre será um Oraculo com o qual falamos com Deus.

A energia divina

Mas Odù não são somente marcas ou histórias. Odù é principalmente a energia divina que vem de Órunmilá (Ọ̀rúnmìlà) para nós, em resposta à consulta ao oráculo de Ifá.

Assim, além de ser um símbolo gráfico, além de conter através de suas histórias 
significados e orientações para nossa vida, um Odù também é a resposta à nossa aflição. Essa energia primária vem através do oráculo e será utilizada pelo Babaláwo, também através dos orixa (Òrìṣà), para nos ajudar.

Os Odù são como mandalas transcendentais que marcam as energias ativas e inativas que estão presente em uma determinada situação com um determinado indivíduo com grande precisão. Em termos metafísicos, Odù são os símbolos sagrados que contêm o axé (aṣẹ́) ( àṣẹ - força. força vital) de tudo na existência. Eles são em sua representação gráfica mapas que traduzem o movimento dinâmico de energia e se identificam com as forças primárias do mundo.

Se o Odù contêm o axé (aṣẹ́) ele então vem de Olódùmarè.

Odù é ao mesmo tempo o diagnóstico para os problemas que temos e a resposta para corrigí-los. A consulta a Ifá materializa nas marcas gráficas e através do Babaláwo, o mensageiro de Órunmilá (Ọ̀rúnmìlà), a chave para movimentar a energia do mundo, o Odù.

Alguns associam o Odù a causa dos seus problemas. Não é verdade, ele é o espelho que reflete a sua situação de desequilíbrio de axé (aṣẹ́). O Odù será de fato o remédio para a situação, ou seja, ele não é um símbolo que somente traduz uma situação, ele é também a energia que se manifestará na vida da pessoa equilibrando axé (aṣẹ́) para que a pessoa possa corrigir os seus problemas. Dessa maneira o reflexo ou tradução do mal é o que também vai curá-lo. 

Considerar que Odù seja o mal que o aflige é uma mostra da ignorância da pessoa que você consulta. O que vem de Olódùmarè jamais será o mal. O remédio resolve o seu mal e ao mesmo tempo indica o problema que você tem, isso é muito simples de entender.

Tudo o que existe ou existirá nasce através de um Odù, a energia primária de Olódùmarè, incluindo os orixá (òrìṣà) e seus axé (aṣẹ́). Odù é como uma cabaça de energia cósmica que é enviada por Olódùmarè e que será transformada através dos orixá (òrìṣà) no axé (aṣẹ́) que vai mudar nossa vida ou que vai repor o que perdemos. É através do Odù que os orixá (òrìṣà) e nossa ancestralidade, falam e se expressam. Ele é a linguagem e o poder original que o mundo espiritual se manifesta sobre nós e que vem em resposta a nossas questões de vida. 

Um Odù é a resposta de Órunmilá (Ọ̀rúnmìlà) a sua situação e dependendo do seu objetivo de vida e com a ajuda dos orixá (òrìṣà) vai socorre-lo. Essa energia primária vai ser manipulada pelo Babaláwo através dos ebó (ẹbọ) de Ifá, que são diferentes dos de candomblé, e através do orixá (òrìṣà) que responderão naquele momento em seu auxilio, irão te ajudar.

Mas, MUITO mais do que ebó (ẹbọ) você tem que entender o que o Odù diz o que esta errado em sua vida. Por isso que existem histórias, mitos, patakis e ésé para mostrar isso. O Babaláwo acima de tudo tem que trabalhar esse aspecto em você, fazer você entender o que esta acontecendo e a origem dos problemas para que você se ajude. Nem tudo em Ifá é ebó (ẹbọ), a palavra é uma das coisas mais importantes na religião Yorùbá e o Babaláwo é a pessoa que traz para o consulente a sabedoria de Órunmilá (Ọ̀rúnmìlà).

A solução de tudo vai depender de ações suas no sentido de corrigir comportamentos, forma de vida, decisões que você tomou, pessoas que você afetou, lugares que você vai, pessoas que você convive, etc... É claro que energias negativas que estão com você, omo arayie (obsessores), feitiços (ajé, oxo..) , etc. vão ser neutralizados, mas você deve ficar longe da fonte disso senão vai ser uma coisa interminável.

Assim, essa negatividade ou positividade que pode se traduzida pelo Odù, não ficam flutuando ai e te pegam por acaso. Esta é uma questão que as pessoas perguntam sempre, como aquele Odù pegou elas, ou quem andou aquele Odù para elas. Não é assim. 

Os seus atos e omissões, suas ações e forma de viver vão te trazer uma situação. Esta situação que você ou a vida criou para você, será re-equilibrada por um Odù naquele binômio causa-solução que eu expliquei. O Odù é a linguagem de Órunmilá (Ọ̀rúnmìlà) para falar com a gente.

Órunmilá (Ọ̀rúnmìlà) se manifesta através do Odù, ele é o meio de comunicação e ao ser obtido por um Babaláwo ele já esta disponível e atuando sobre a vida de quem o consulta. Cabe ao Babaláwo através dos ẹbọ e sacrifícios direcionar e controlar essa energia para que ela se manifesta da forma positiva que é sempre enviada. o Odù é sempre uma força básica, primária e sempre necessita ser direcionado através do Babaláwo e dos orixá (òrìṣà) que nos assistem.

Ao se sentar em oráculo e consultar Órunmilá (Ọ̀rúnmìlà) se recebe um Odù e a influência na nossa vida já é imediata. Este é o motivo que os Babaláwo dizem para se ter muito cuidado ao se lidar com Odù. Não se deve invocar essa energia sem saber como manipulá-la, não se deve grafá-la sem o devido conhecimento, não se deve cantá-la sem saber o que se faz depois.

Para isso a pessoa que trabalha através de Odù deve ter acumulado o axé (aṣẹ́) para isso. Mas se estamos tratando de uma mesma religião de um mesmo Olódùmarè e de uma mesmo Órunmilá (Ọ̀rúnmìlà), qualquer sacerdote pode receber um Odù porque esta é a forma de trabalho de Órunmilá (Ọ̀rúnmìlà) .

Como ele influencia a nossa vida?

Primeiro, a figura teológica de nos colocarmos diante de Olódùmarè para escolhermos nosso destino, ou objetivo de vida, como se queira chamar, sendo que podemos ser atendidos ou não e recebermos dele outros objetivos, tendo Órunmilá (Ọ̀rúnmìlà) como testemunha, é menos controversa e mais aceita.

Assim como também é pouco controverso o processo de escolhermos nós mesmos o nosso Ori na casa de ajala e essa escolha depender não da sorte mas sim do cuidado dos nossos ancestrais conosco. Mas, 2 pontos podem apresentar distintos entendimentos que é o caso do Odù & orixá (òrìṣà), vamos então voltar nisso.

Em relação ao orixá (òrìṣà) existem algumas visões sobre como se define que orixá (òrìṣà) você terá na sua vida. Eu acredito que seja um ponto não discordante o conceito de que o orixá (òrìṣà) faz parte do nosso Ori e temos apenas um.

Essa coisa de que a data de nascimento, tipo o dia da semana definir o nosso orixá (òrìṣà), é uma bobagem muito conhecida, assim como nós possuirmos um pai e uma mãe orixá (òrìṣà) ser outra bobagem. Esses 2 conceitos são enganos que são repetidos por muitas pessoas e tradições religiosas e muita gente os tem como verdade. Atenção, não são verdades. Outro mito que também vamos desconsiderar a visão de que seja por acaso, isto é, o orixá (òrìṣà) nos escolhe aleatoriamente, ou por simpatia ao nascermos. 

Minha opinião é que podemos orbitar entre 2 visões. A primeira é que o orixá (òrìṣà) seria nos designado em função do objetivo que que escolhemos para nossa vida e que Olódùmarè aceitou. O orixá (òrìṣà) seria assim um elemento facilitador na nossa vida e as características do orixá (òrìṣà) virão a nos ajudar em nosso objetivo.

Outra visão é o orixá (òrìṣà) ser um reflexo de ancestralidade, ser uma herança hereditária. Assim se somos filhos de um Orí de um orixá (òrìṣà) com um Orí de outro orixá (òrìṣà) nossos filhos seriam também ligados a um ou outro orixá (òrìṣà). Essa cadeia de vinculo poderia se estender um pouco mais distante na ancestralidade mas o orixá (òrìṣà) dos descendentes seriam o reflexo dos seus predecessores. Como uma herança genética. Esta visão não cria uma repetição contínua do mesmo orixá (Òrìṣà), pelo contrário em função da sua ancestralidade pode haver uma variação significativa nos orixá (Òrìṣà) de cada novo Orí.

Eu não tenho ainda uma opinião mais firme sobre isso, prefiro a segunda apenas pelo aspecto de poder preservar a característica de o orixá (Òrìṣà) ser um facilitador na nossa vida mas também reforçar a família e a linhagem familiar, mas, nenhuma dessas visões implica em nenhum problema ou atrapalha qualquer coisa.

Tanto podemos ter um orixá (òrìṣà) que nos ajude como qualquer orixá (òrìṣà) de família iria nos ser tão útil em qualquer missão de vida quanto outro, porque, essa coisa de especialização de orixá (òrìṣà) em funções, não é bem assim na prática e que também podemos sempre a recorrer a qualquer orixá (òrìṣà) independente de qual seja o nosso orixá (òrìṣà) original.

Temos que lembrar que o orixá (òrìṣà) mais importante é o nosso ORI, é ele que esta antes de qualquer orixá (òrìṣà) e para nós é mais importante do que qualquer orixá (òrìṣà) inclusive o nosso próprio, aquele que faz parte do nosso Orí.

Um outro ponto novo é a inclusão do Odù nesse processo. Isso pode ser menos concensual. Como existe um Odù de nascimento, que raramente conhecemos porque ele só será verificado no nascimento, nós temos que reconhecer que temos uma influência de um Odù em nossa vida, um Odù nato.

Se vamos nos iniciar religiosamente nós receberemos outros Odù. Assim na iniciação do Iyawo se determina qual o Odù daquele iyawo. Dessa forma como a iniciação é um novo nascimento, ganha-se um novo Odù de nascimento. Será sempre um Odù meji porque é assim que o Candomblé o faz. Essa informação acaba sendo pouco usada mas é uma informação relevante e somente irá aparecer no processo da feitura do iyawo.

Para o Babaláwo é a mesma coisa. Ele irá ter um Odù como Awo e o mesmo ou outro como um Babaláwo. Ai pode surgir a questão, mas para que tanto Odù? Afinal qual é o Odù?

A resposta é muito simples: Estamos em todos esses casos lidando com a mesma coisa e com a mesma finalidade. No caso do Babaláwo o Odù é o signo divino que marcará a sua vida como awo, como sacerdote, ressaltando as suas qualidades e defeitos, as coisas que fará melhor e também as coisas que não deverá fazer, ou seja, as coisas que vão trazer axé (aṣẹ́) para ele ou vão tirar axé (aṣẹ́) dele. 

Um sacerdote de ogbe-ogunda estará alinhado com o seu Odù, ou seja, atraindo axé (aṣẹ́) quando estiver ajudando o ori de outras pessoas a encontrarem o seu rumo de vida, ou quando estiver ajudando essas pessoas a a afastar ou a controlar a influencia das ajé que forem invocadas contra ela, etc..

Fazendo isso ele vai estar realizando aquilo para o qual o seu Odù foi destinado. Se procurar fazer outras coisas ela vai estar trabalhando em áreas ou atividades menos afins à energia do seu Odù e talvez assim perca mais axé (aṣẹ́) do que ganhe.

Os Odù se incorporam na vida das pessoas para então ajudar na condução dos seus objetivos de vida. Dessa maneira um Awo de Ifa recebe um Odù porque essa energia, essa marca lhe será util na condução de sua vida religiosa, vai ajudá-lo. 

Observe que foi o mesmo motivo que levou o Odù a ser designado para o nosso Orí antes de virmos ao mundo. É devido a esse paralelo que eu acho que sim, recebemos um Odù antes de nascermos e esse Odù é para ajudar a realizarmos os nosso objetivos de vida.

O que faz uma explicação factível é ela ser coerente. Assim os processo são similares, o Odù que recebemos antes de nascermos é como o Odù que o sacerdote recebe. Enquanto o sacerdote recebe um Odù para ser sia marca espiritual ajudando-o e orientando-o nesse caminho, o Odù que recebemos ao nascermos é a mesma coisa para a nossa vida. Temos um objetivo a realizar e o Odù nos dará a mesma coisa.
A mesma coisa vale para o orixá (òrìṣà). O orixá (òrìṣà) que temos é muito importante na vida religiosa que vamos levar. Mas veja, uma coisa é o orixá (òrìṣà) para uma pessoa comum, laica, outra para um sacerdote, uma pessoa que se iniciou para levar a diante uma missão diferente da vida comum.

Todo mundo que esta no meio sabe que o sacerdote de cada orixá (òrìṣà)) é diferente, a casa de cada tipo de orixá (òrìṣà) é distinta e ao mesmo tempo semelhante entre si e o tipo de pessoas e problemas que um sacerdote de um determinado orixá (òrìṣà) atrai para si esta muito ligado ao próprio orixá (òrìṣà), ao axé (aṣẹ́) desse orixá (òrìṣà).
Assim, Odù é uma energia que recebemos para nos ajudar em algo.

No caso de uma consulta a Ifa é a mesma coisa. Ao consultarmos Ifá recebemos um Odù, aquele Odù ira temporariamente ajudar aquele consulente nos problemas que ele tem, não necessariamente aqueles que ele veio resolver, mas o que Órunmilá (Ọ̀rúnmìlà) entende que ele tenha.

Dessa maneira eu considero que o ciclo fecha e os fatos tem coerência com o conceito. Isso pode voltar a uma questão que me pareceu presente na sua postagem, o que é um Odù. Veja, de novo, Odù é uma energia primária, elementar que Órunmilá, ou Olódùmarè que é quem tem poder para gerar uma energia desse tipo nos envia através de Órunmilá (Ọ̀rúnmìlà).

Odù não é uma divindade adicional. Odù não é como Oxun, Xango, Oxala, Ogun que são elementos ativos que manipulam axé (aṣẹ́). 

Reforçando o que já escrevi: Odù é uma energia primária que vem para o aiye através de uma consulta a Ifa. Ela será conduzida e canalizada para o benefício do consulente através dos orixá (òrìṣà) e através dos procedimentos que o babalawo (babaláwo) irá realizar. Essa energia para nos beneficiar de forma precisa, benéfica e rápida (no seu tempo) precisa de um operador qualificado.

Os orixá (òrìṣà) se utilizam dessa energia do Odù para atuarem sobre nós de forma que o Odù vai ser então convertido nesse axé (aṣẹ́) deles.

Por essa razão eu não vejo como útil essa procura de que orixá (òrìṣà) corresponde a que Odù. Muitos orixá (òrìṣà) trabalham com muitos Odù. Em relação aos Odù meji, que são apenas 16 então fica muito difícil dizer quem não pode trabalhar com que Odù.

Okanran é um Odù de Exu? E se eu disser que é através de Okanran meji que nós chamamos Xango? Que Odù é o de Xango, ou diferente que Odù Xango não se apresenta? A mesma coisa para Oxalá ou Oxun.... E Órunmilá (Ọ̀rúnmìlà) esta em todos.

Assim o meu entendimento é esse Odù não é uma divindade uma agente ativo de Olódùmarè. Os orixá (òrìṣà) e irunmoles o são. Eles atuam sobre nossas vidas, seja nativamente ou seja porque precisamos. Os orixá (òrìṣà) são os elementos que vão trabalhar e canalizar a energia dos Odù para nós.

Eu sou sempre muito cuidadoso em comparações, mas, não posso deixar de informar que um conceito muito similar existe no ocultismo e na Kabalah. Existem energias vindas de Deus, energias primárias que são invocadas através de rezas e signos e que são trazidas para o nosso benefício ou em nosso socorro, assim, não estamos lidando com algo completamente sem referência. Esse é um conceito que é facilmente aceito por outros estudiosos de ciências ocultas ou místicas. Por isso que eu acho que tem sido tão popular mundialmente. 

Mas o pior deserviço tem sido feito por Babalorixás e curiosos que sem saber do que estão falando, simplesmente porque não procurarm saber o mínimo, transformam Odù em problemas ou mesmo em divindades.