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quarta-feira, janeiro 15, 2020

Quando a vaidade cega a fé

Quando a vaidade cega a fé


Existem alguns assuntos chatos de serem tratados. Este é um desses. Este tema é dirigido aquelas pessoas que se chatearam com o Candomblé, que querem se aproximar ou que se afastaram.

Neste texto, vou incluir Ifá nisso também.

Eu digo a essas pessoas. O orixá é muito maior do que tudo isso.

Esta religião é incrível. Digo isso não com emoção mas com razão. Sou uma pessoa que se interessa por religião e já conheci ou vivi algumas delas. Estou nesta por opção e não por falta de opção.

Poucas religiões oferecem uma teogonia rica e também uma filosofia de vida tão satisfatória. A riqueza da teogonia é uma coisa que atrai as pessoas, porque as impressiona, mas elas deveriam se preocupar com a filosofia.

Vou então fazer alguns comentário preciosos para quem quer entender.

Vejam, muitos babalorixás são pessoas escolhidas por Orixá. Pessoas com vocação para a coisa, para lidar com pessoas e com a fé. Não falo aqui em erudição, esqueça isso, estou falando na capacidade humana de lidar com a diferença e com seres humanos. isso significa, paciência, tolerância e uma enorme atitude positiva. Poucos tem isso e muito poucos são os escolhidos.

Ser um sacerdote, de qualquer religião, não é uma coisa ligada a conhecimento. É ligada a vocação pessoal e designação divina. O Divino escolhe seus reais representantes. O escolhido terá que desenvolver o conhecimento sobre a religião, seus valores e sua moral. Mas, também é mais importante a capacidade de lidar com pessoas para transmitir isso.

Muita gente se declara Babalorixá ou Iyalorixá sem ter recebido isso do seu Orixá. Sim, entendam isso, o cargo de Babalorixá e Iyalorixá nesta religião, o chamado oye, é uma coisa que se recebe do divino, do Orixá. Não é uma coisa que que cada pessoa decida ter. Assim, aos montes, às centenas, pessoas se declararam como tendo um cargo que nunca receberam. Eles, apenas, foram atrás de quem os desse ou, igualmente pior,  simplesmente se declaram como tal, sem nenhuma base.

Esses são os piores enganadores. Porque não tem a capacidade de serem o que se declaram. Talvez, hoje em dia sejam a maioria.

O que estou dizendo é bem sério e vou dar informações complementares para que cada um entenda com quem se envolve.

A pessoa entra na religião como uma pessoa comum. Passa a frequentar uma casa e participar de eventos públicos. Com o passar do tempo ela se aproxima da casa e faz as primeiras liturgias de iniciação, se transformando em um Abian, um simpatizante e crente. As pessoas podem, ou melhor, deveriam se manter assim por muito tempo (anos). 

Na minha visão 90% das pessoas poderiam ser Abian em uma casa por toda a sua vida.

O estágio seguinte é ser um iniciado, um feito, um Iyawo. Este é um passo muito sério e muito importante e que muda a vida da pessoa. Não representa um aprofundamento da relação da pessoas com a religião, representa, apenas, um aprofundamento da relação da pessoa com a casa que ela frequenta, porque assume responsabilidades e se sujeita a uma rígida estrutura hierárquica.

Além disso, ninguém entra em candomblé porque quer ser babalorixá ou Iyalorixá! Você não pode determinar isso para você mesmo. Você apenas entra, é o divino que vai ter dar isso, não é uma opção que você faça.

Você não vai ter favores de orixá por ter sido iniciado. Você não vai ser mais religioso por ter sido iniciado.

Um Iyawo NÃO é uma pessoa mais devota ou crente à sua religião do que um Abian. É somente uma pessoa que escolheu um caminho específico para sua vida.

O processo de iniciação não é um processo simples. Ele leva 7 anos no mínimo para ser concluído. O motivo disso é que ele apenas se encerra quando se cumpre um ciclo de obrigações que complementam a iniciação.

A Feitura é a primeira obrigação. Depois disso existe a obrigação de 1 ano, depois a de 3 anos e por fim a de 7 anos. Com essas 4 obrigações se completa o ciclo de feitura do iniciado (outras obrigações são eletivas e não obrigatórias). Durante esse tempo o Iyawo será uma pessoa de baixa hierarquia em uma casa de Orixá. Ele terá acesso gradativo ao conhecimento (bem gradativo) e terá muito pouca participação em liturgias. Um Iyawo é apenas um Abian que esta em processo de formação.

Um Iyawo não participa de nada.

Mas o processo nem sempre se conclui em 7 anos. Aliás, nunca poderá ser concluído com menos de 7 anos. Devido a questões de calendário da casa, disponibilidade da pessoa em tempo e recursos financeiros, este ciclo de iniciação pode ser arrastar por muito mais anos. Mas, como eu disse, JAMAIS vai durar menos do que 7 anos, o normal é isso levar uns 10 anos.

Depois da última obrigação a pessoa troca de status na casa e passa a ser um Egbon, palavra Yoruba que significa um "mais velho". Só depois de ter alcançado este status é que a pessoa passará a ter acesso a conhecimento mais profundo da função sacerdotal. Isso se e somente se o Balaorixá ou Iyalorixá da casa se dispuser a ensiná-lo. De fato a formação de um sacerdote começa quando esta pessoa conclui o seu ciclo de iniciação com a obrigação de 7 anos, mas não tem data para ser concluída.

Ninguém é obrigado a ensinar nada a ninguém. Ser um egbon não te da acesso a nada se o responsável não quiser te ensinar.

Muito mais do que teoria o Candomblé é feito de prática. Assim a pessoa vai levar muitos anos para poder aprender com a pratica de casos reais.

Durante todo o tempo em que a pessoa é um Iyawo o Babalorixá da casa poderá perceber se o Iyawo terá ou não o Oye de Babalorixá dado pelo seu Orixá. Isso é um conjunto de observações que vão da vontade da pessoa, da sua aptidão para aprender e lidar com pessoas a finalmente a disposição do seu Orixá em que ele possa ser um sacerdote.

Observe que o Oye é importante porque designa que a pessoa poderá ter poderes (axé) para ter uma casa só para si. A maioria esmagadora das pessoas chega a condição de Egbon sem receber isso. Contudo isso não é uma problema, essa pessoa vai ganhar um cargo na casa em que esta e seguirá a sua religião da mesma forma.

Porque religião é muito mais do que cargos. Religião é feita para tornar você uma pessoa melhor.

Uma casa grande é uma casa forte.

Observe que durante todo o ciclo de iniciação a pessoa está ligada a casa e a pessoa que o iniciou. Este é um vínculo muito forte e não existe nesta religião a opção da pessoa simplesmente sair de uma casa para e ir para outra durante este ciclo. A pessoa pode se movimentar entre casas enquanto é Abian e depois que é Egbon. Durante o ciclo de iniciação a pessoa esta ligada a casa e não deve mudar isso. 

Cada pessoa deve pensar muito bem antes de iniciar uma feitura. NÃO pode existir o caso da pessoa que vai a um jogo de búzios e sai dali com iniciação marcada. Menos de 6 meses depois a pessoas já esta passando por um feitura!!  Isso é o primeiro erro capital que se comete, um erro para a vida toda.

NÃO existe isso na religião. Ninguém sai de uma mesa de jogo para uma iniciação. 

Isso é um absurdo.

Existem exceções, mas, uma iniciação é um processo de opção. Você vai escolher aquele caminho e também vai escolher a pessoa que irá iniciá-lo e a casa em que vai frequentar.

Você pode passar por muitas mesas de jogo antes de decidir fazer alguma coisa. Pode inclusive frequentar muitas casa durante muitos meses ou anos antes de tomar qualquer decisão. Anos e anos podem se passar antes de você decidir isso. Possivelmente você poderá tocar a sua vida como Abian passando apenas com Boris.

Se iniciar é uma decisão que deve partir de: entender o que isso significa para sua vida no sentido de o que aquilo vai adicionar em sua vida - Isto é o mais importante; quanto tempo vai ser envolver;  com quem esta se envolvendo.

Lembre-se de que, a questão de, com quem, é mais abrangente. Você deve avaliar a pessoa que o iniciará como também as demais pessoas da casa onde se iniciará. Você deve procurar um meio onde se sinta confortável.

O processo de iniciação é um processo longo e caro hoje em dia.

Explicado como é o processo de iniciação, podemos começar a entender a questão da vaidade nas casas.

A primeira questão, e mais simples de entender, é que existem por ai, aos milhares, pessoas que não tem o direito de serem Babalorixá e Iyalorixá. 

Ter o direito de abrir uma casa é algo dado pelo Orixá e isso é dado a quem tem capacidade para isso. Orixá não escolhe ao acaso.

Sim, existem pessoas que não receberam esse direito e que se auto-declararam Babalorixá. A Vaidade delas é mais forte do que razão. Essas pessoas, quando percebem que não vão receber naquela casa ou daquela pessoa esse Oye e não vão ter espaço para aprender a sê-lo, elas simplesmente saem da casa, pulando de casa em casa até achar alguém de este Oye para ela. Normalmente isso será uma troca financeira.

Existe também uma prática de trocar de casas e até mesmo de nação.... durante o período de iniciação com o objetivo de esconder iniciações não feitas. A pessoa passa por tanto lugar que você perde a origem dela. 

Mas a vaidade não tem limite e um dos casos mais comuns e pior é o de Pai de Santo de Umbanda que se acha o tal, e que decide que também vai ser de Candomblé. Mas veja, essa pessoas tem uma casa, é dirigente da sua casa, de Umbanda claro. Alguém acha que essa pessoa vai virar Iyawo e ficar 7 anos submetido a uma função de baixa hierarquia? Jamais.

Essas pessoas fazem apenas feitura e a obrigação de 1 ano, e somem da casa, se dizendo Babalorixá. Muitos nem se submetem  isso, apenas inventam que fizeram isso. Vão a uma casa em outra cidade ou estado, dão um Bori e voltam dizendo que foram feitas. Outras se dizem filhos de um Babalorixá que já morreu.

A maioria das pessoas que troca de casa, que dá obrigação e outro estado, que troca de tradição religiosa (ou nação para muitos) é para esconder sua origem. Existem sim casos de pessoas que tem que deixar sua origem (mais do que deveria existir), contudo, mudar sua trilha, dando cada obrigação com  uma pessoa diferente, inventando que brigou ou que o iniciador morreu ou se mudou é a forma mais comum de apagar uma história errada.

Também tem gente que toma a obrigação de 7 anos e abre uma casa. Veja, não dá para ser Babalorixá com 7 anos de feito. Você vai precisar de mais 7 para poder aprender a ser um.

A Vaidade faz essas pessoas passarem por princípios e sobre a ética para atingirem o status que querem.

Contudo, mesmo 
no grupo que recebeu isso por merecimento e direito temos o mesmo grave problema de vaidade.

Muitas delas são pessoas simples, mas que, quando chegam a essa posição passam a ter uma atenção ou um status que não tiveram antes. São bajuladas e se sentem muito importantes. Normalmente são mesmo, para aquelas pessoas que as querem bem.

Mas isto, a vaidade, as transforma. A reverencia e o tratamento que recebem na sua casa as fazem se sentir especiais. Dentro da casa delas, em uma função de candomblé elas são como reis ou como o próprio Orixá em terra - mas não são nada disso.

Cada vez mais essa vida de "glamour" as atrai e elas buscam então ficarem somente dedicadas para esta atividade, afinal, ali elas são tratadas como divindades e fora dos seus muros são pessoas comuns.

Depois elas começam a frequentar e convidar outras "divindades", claro! Ela trata um outro, como ela, de forma sublime e será também tratada por este como um superior. Assim  cria-se um circulo vicioso. Você tem que convidar e bajular para ser convidado e ser bajulado.

Tem que dar festas para ser convidado para festas!

Uma pessoa comum passa então a ser um Rei. Pior, gente, ele acredita mesmo nisso.

Imagine pessoas que são discriminadas na sociedade por opções sexuais normais ou mesmo esdrúxulas, por condição social e mesmo por falta de formação, dentro dos seus  muros e nos muros dos amigos, claro,  eles viram autoridades, com gente botando a cabeça no chão para eles.

Coloque neste contexto qualquer minoria ou maioria social, da no mesmo. Se, e somente se, o seu caráter não for muito superior ele irá se perder.

E o orixá? e a RELIGIÃO?  -   esqueça!

A satisfação pessoal e o glamour se tornam maiores. Mas, ela tem que ser mais importante, saber mais e falar mais complicado. Passam a inventar coisas.

A vida com Orixá não tem glamour. É de fato uma repetição. Os mesmos problemas com pessoas diferentes. Dar obrigação, fazer ebó, jogar, fazer orixá, etc...  Será sempre isso, mas, não tem o que inventar. Esse é o objetivo, ajudar pessoas. O novo são as pessoas que se ajuda.

É muito duro ser um babalorixá. Não justifica a popularidade que isso tem. É popular porque as pessoas estão erradas no que fazem!


Tomem cuidado também com as pessoas despreparadas. 

São pessoas que nunca receberam o cargo e nunca se prepararam para isso. Elas decidiram, vou ser Babalorixá (ou Iyalorixa, lembrem...). Essas pessoas nunca aprenderam como deveriam e o que deveriam.  Nunca ficaram em uma casa de candomblé para aprenderem o suficiente. Nunca receberam os necessário fundamentos e obrigações.

São pessoas estranhas à religião.

Quando uma pessoa se diz Babalorixá e continua tocando para Umbanda, dá consulta com guia de Umbanda, recebe Exu e Pombo-gira, é porque não entendeu a religião que ele entrou. Ele não entendeu o que é Orixá ou nunca soube.

Uma pessoa de Candomblé de verdade não busca a Umbanda para resolver seus problemas pessoais ou financeiros, ela resolve isso com seu Orixá e Exu.


Também temos o caso das pessoa que transformam ou criam desde o início uma casa de comércio religioso. O candomblé é feito de obrigações e ebós, tudo cobrado,  quanto mais filhos de santo mais dinheiro se ganha.

Além disso existem os "crientes".

Quando o filho de santo - FDS - vira cliente, a coisa acabou. Jamais podem ser nivelados.

Uma casa de orixá não pode tratar FDS como se fosse cliente. Se você encontra ou esta em uma casa assim, esta perdendo o seu tempo.

Claro que as coisas dão trabalho no Candomblé e claro que muitas vezes uma comunidade resolve manter o seu Babalorixá, mas, existe uma diferença entre isso e uma pessoa que não tinha profissão e qualificação e resolveu ganhar a vida como Babalorixá.

A pessoa que faz isso como profissão, vai sempre querer um carro novo, uma viagem nova, uma roupa nova, etc...


O ultimo caso relevante das pessoas que perdem a Fé (ou nunca tiveram) são aquelas que se "cansam" de cuidar de Orixá e ai começam a inventar. Querem cuidar de egun, de Ajé, de cigano, de tarot, de kabalah, e sei lá mais do que.

Essas pessoas apenas PERDERAM a sua fé.

QUEM TEM FÉ EM ORIXÁ NÃO PRECISA DE MAIS NADA.

E Ifá mudou isso??

Não piorou.

Esqueça designação divina, esqueça uma longa preparação, a pessoa entre e em 7 dias vira awofakan, mais um tempo, um monte de dinheiro e mais 7 dias vira Babalawo e ai, acha que é deus em terra.

Os neo-babalawo, imberbes, são a praga da religião. Não sabem nada em um dia, no outro são babalawo, decoram tratados, fazem turismo na África e viram especialistas em tudo, estão ai dispostos a ensinar a religião a todos e afirmam que Orixá nasce em um Odu e basta ele riscar e rezar um Odù que aquele Orixá já estará ali, do lado dele resolvendo tudo o que ele quer.

Olha, entendo perfeitamente o que essas pessoas dizem, mas, fui de Candomblé, eu vi como Orixá nasce de verdade, eu vi Orixá, só quem tocou, abraçou e sentiu o calor e candura  de um Orixá, junto com sua expressão e energia sabe o que é um Orixá.

Riscar um Odù e rezar para ele aparecer? Mais me parece aqueles filmes de invocação de demônios, se tudo fosse assim tão simples seria fácil, sem dúvida o Ifá cubano é igual a Umbanda, teve uma Iyalorixá que conviveu muito com cubanos me falava isso, aquele tambor deles era uma Umbanda, e da mesma forma os cubanos fazem aqueles pontos no chão, bandeiras, circulos coloridos para invocar Orixá, igual a Umbanda mesmo.

Mas como podem neófitos na religião receberem da mão de um homem, com a maior facilidade, sem nenhuma confirmação divina que não seja aquela própria pessoa que da´e cobra por isso (nada é de graça), se sentir como se fosse " o escolhido" e sair por ai dando aula e explicações como um especialista em tudo sem nunca ter sabido nada. A pessoa nunca teve nenhum reconhecimento, ganha um cargo e já se considera superior?

A vaidade cega a fé.

A vaidade leva a pessoa a aceitar cegamente coisas que se ela parasse um momento para refletir, ela própria entenderia que não poderiam ser. a vaidade de quem recebe e a vaidade de quem faz.

Títulos comprados, obrigações compradas, alakas vistosos, filás brilhantes, elekés gigantes não o fazem uma pessoa melhor. 

O que o faz uma pessoa melhor é a referência de pessoas que te consideram, pessoas que você mudou a vida.

Mas ao invés de fé o que essas pessoas procuram é atender sua vaidade, a vaidade de ser grande, a vaidade de ser importante e a vaidade de se impor.

 


quarta-feira, janeiro 08, 2020

Discussão sobre paganismos e politeísmo - O que não somos

Discussão sobre paganismos e politeísmo - O que não somos



Já é bastante trabalhoso defender o que é esta religião, frente aos conceitos teológicos das religiões Abraâmicas, como o catolicismos e os evangélicos.

Fica muito mais difícil quando se tem que primeiro desfazer o que não somos. De forma intencional ou por apenas ignorância, afirmações são feitas baseadas em modelos religiosas que não temos afinidades.

Esse vídeo aborda isso, como o preconceito nasce através da classificação errada da religião




domingo, janeiro 05, 2020

A Ligação entre Ifá e o Culto de orixá (Òrìṣà)



A Ligação entre Ifá e o Culto de orixá (Òrìṣà)



A primeira informação importante para todos é que Ifá não está dissociado do culto de orixá (Òrìṣà). 
 

Isso foi uma constatação muito interessante e motivante para mim. Ifá é um culto distinto e que pertence a mesma religião (Yoruba) que tem um culto de Orixá. Aliás, a gente vai encontrar na religião Yoruba 3 cultos: o de Orixá, o de Ifá e o de Egungun.


São cultos distintos porque tem foco em divindades diferentes, tem liturgias distintas e tem objetivos complementares, mas, fazem parte da mesma religião, compartilham as mesmas divindades e a mesma teogonia. São separados mas vejo-os fazendo parte de um todo.


Não me perguntem como Ifá se integra com o culto do Candomblé Jeje - Não sei. Quando a pessoa vai a Ifá ela vai na religião Yorùbá, desta forma Ifá esta ligado às tradições religiosas com origem na raiz religiosa yorùbá. Aqui no Brasil temos o Candomblé Ketu, o Batuque e o Xangô (Ṣàngó).


O Candomblé Jeje representa uma outra religião dentro do Candomblé e um culto com divindades diferentes. O jeje tem Vodun e a religião Yorùbá tem Orixá. Conheço muito pouco desta religião, mas, o pouco que conheço me faz recusar esta abordagem medíocre que faz correlação de 1:1 entre Orixá e Vodun. Não concordo que isso seja assim as raízes religiosas são bem distintas.


Ifá é um oráculo Yorùbá. Está ligado a uma teogonia Yorùbá, a uma teologia Yorùbá e a divindades Yorùbá. Tudo em Ifá gira em torno de orixá e da teogonia Yorùbá que é diferente da teogonia do Jeje. Quem no Candomblé é de uma nação Yorùbá, se vira com facilidade, o pessoal de Jeje não sei como faz.


Isso significa que a pessoa de Candomblé Jeje não pode ir a Ifá?


Claro que pode, Ifá apesar de estar ligado a uma religião pode ser usado para todas as pessoas da face da terra independente da religião que elas tenham. Ifá não é um oráculo litúrgico, é um oráculo para tratar da vida das pessoas.


Além disso, Ifá não trata de orixá (Òrìṣà), ele trata da pessoa.


Se a pessoa é de Jeje, apenas saiba que vai sair de lá com indicação de coisas para fazer no contexto Yorùbá e de suas divindades. Apesar de Ifá ser independente do culto de Orixá (Òrìṣà), a maior parte das coisas que faz é através da intersecção dos orixá (Òrìṣà).


Se isso não for problema para ele, então não existe problema. Como estou falando aqui de ecumenização, ou seja, de integração de cultos, no caso do Candomblé temos que ter atenção na raiz da religião.


Claro que a maior parte das pessoas que conheço ou situações que vi indicam que isso não é problema. O que mais tem é “Doté de orixá” e casa de jeje que toca ketu e só faz orixá Yorùbá ou faz Vodun como se fosse orixá, só troca o nome. Raro é uma casa que seja Jeje, essa ortodoxia existe mais na nossa cabeça o mundo real é uma bagunça.


Se o Doté ou Doné já é de orixá então o resto todo também o será. A coisa começa da raiz, se a raiz começa com Orixá porque o resto será diferente?


Assim essa designação de Candomblé tem pouco sentido para muita gente sem conhecimento. Para eles é tudo igual.


Usando uma expressão que ouvi e gostei, o que temos mais e mais, é o Candomblé popular, não é o Candomblé de nação. As pessoas praticam de qualquer jeito e de qualquer forma. Raros são aqueles preocupados com religião e culto, preocupados com nação e ortodoxia, preocupados em dar consistência no papel da religião na vida das pessoas.


O Candomblé popular é aquele que acontece. As pessoas fazem e ganham dinheiro com ele.


Para aqueles que pensam que isso é um problema dos tempos modernos, não é, pelo contrário, os tempos modernos só melhoraram o Candomblé. A divulgação de informação, a facilidade de reconhecer erros, a penetração em uma camada da população mais preocupada em ter uma religião do que ganhar dinheiro com ela e a rejeição do modelo de submissão do candomblé, mudaram para melhor a qualidade do Candomblé.

A perda de conhecimento que o Candomblé teve em sua prática hermética e em guetos era fruto de pessoas com poucos valores e ética, que se preocupavam somente com elas e mais nada. 

Tem gente que adora enaltecer, sem senso crítico, os "meus mais velhos", isso é uma moda no Candomblé, coisa da boca para fora, para platéia, mas nessas pessoas estão a origem de atitudes e práticas ruins. É falha a afirmação que antigamente o Candomblé era bom ou melhor. O Candomblé melhorou multo.

O ganho de qualidade, ética e moral do Candomblé tem sido muito grande e o salvou. Claro que todo crescimento e evolução tem seus defeitos e problemas, mas cada vez a gente tem coisas menos séria ou escandalosas para lidar. A transparência e o acesso à informação mudam tudo para o bem.

Ha muito tempo que já deixei de lado essa posição ingênua de que os "antigos" é que faziam certo. Coisa nenhuma, como eu disse, não sejamos ingênuo. Claro que até podiam entender muita coisa que não sabemos hoje (isso é uma ilação), como também desconhecer muitas coisas que sabemos hoje (isso é uma afirmação).

Sua incapacidade em preservar a religião é que levou a perda. Não tenho dúvida que essa mesma herança histórica comportamental foi a que expulsou o culto de orixá da África. A diáspora negra foi uma solução e não um problema. Ela permitiu que os Orixá se preservassem, porque se dependessem dos africanos já teriam acabado.

Essa herança cultural, histórica étnica é que fez com que eles não preservassem sua religião e continuassem submetidos e escravizados apesar do absurdo número de africanos no Brasil. Em lugares com uma proporção de 10 escravos para 1 branco, como que tudo ficava sem mudança? Eles, os negros, estavam mais preocupados em se dar bem, em se libertar e também ter escravos do que mudar algo. Essa história é pouco contada mas é real.

O Candomblé do início do século refletia o mesmo. Desunião e feudalismo.Uma casa de Candomblé era uma estrutura feudal, com um rei ou rainha declarado e os seguidores que deviam seguir o que ele falava sem piscar o olho.

Como menciona Parés no seu livro sobre a formação do Candomblé no Brasil, entre se submeter a uma casa de Candomblé, e ser uma escravo do dirigente e ir para uma irmandade católica e enfrentar algum preconceito mas pelo menos a possibilidade de inserção na sociedade, a maior parte preferiu o caminho da irmandade, senão o Candomblé seria a maior religião no país.

Alguém já pensou nisso? A população de negros era algumas vezes a de brancos, se os negros libertos optassem por sua religião o Candomblé seria a maior religião do Brasil.

Se o Candomblé não foi a religião de escolha é porque ele tinha e tem problemas viscerais sérios, mas, sem dúvida a necessidade de se estabelecer na sociedade fez os libertos procurarem a religião da sociedade e não manter sua exclusão ao adotar uma religião distinta. Claramente não buscaram a confrontação, mas, eu seria muito ingênuo em desconsiderar a falta de estrutura e a qualidade das relações no Candomblé.

Voltando ao tema principal, em ifá existem liturgias próprias de Ifá e que não encontraremos no culto de orixá. O Bàbáláwo trabalha de uma forma distinta do Babalorixá (Bàbálórìṣà), contudo, Ifá se apoia ou mesmo depende fortemente do culto de Orixá.


Sim, Ifá é o oráculo de Órunmila (Ọ̀rúnmìlà), mas o que ocorre em nossas vidas, a ação, passa por Ori e principalmente por Orixá. Orixá é a divindade que influencia nossa vida de forma positiva e é quem nos socorre como resultado da consulta a Ifá. Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) não está dissociado dos demais Orixá (Òrìṣà), ele é o Oráculo, mas nossa vida ainda é orientada diretamente pelos Orixá (Òrìṣà).


A ação do Oráculo na nossa vida se inicia com Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) e Exú (Èṣù), mas continua e se manifesta com os Orixá (Òrìṣà). Isso está no odu Oseotuwa. São os orixá os principais motores da nossa transformação e socorro. O Oráculo como intermediário e instrumento de diagnóstico determina ações que serão suportadas por Orixá e egungun.

Esta é a religião Yoruba. Esta é a teogonia. Assim, Ifá não é isolado ou independente ele se integra aos demais cultos de forma bastante natural.

Minha posição é que o nosso dia a dia pertence a nossa relação com Orixá (Òrìṣà). Ifá não pertence ao nosso dia a dia, não pertence ao dia a dia de ninguém. O culto das pessoas, o culto importante é o culto de Orixá (Òrìṣà).


Claro que o Babalawo tem uma forma própria de fazer o que precisa com seus Odù e Opon, mas algumas coisas podem ser ditas:


— existem situações de oráculo que indicam diretamente ou por bom senso que o consulente deve procurar o culto de orixá;


— a maior parte das oferendas à orixá pode ser feita da forma como a pessoa já faz no culto de orixá.


O acesso aos Orixá é determinado quando se especifica o ebó ou oferenda que é necessário. Não lembro se já falei aqui sobre a anatomia de uma consulta a Ifá, creio que sim. Após determinar o Odù que traz a mensagem a pessoa, o Bàbáláwo determina qual o ebó que será necessário para fazer aquilo se manifestar na vida da pessoa.


Nesta fase da consulta podem ser determinados ebó de Ifá com tabuleiros, cerimônias específicas de Ifá e as oferendas a Orixá. Sim, no caso da rama cubana o Bàbáláwo sempre determina que orixá esta respondendo em socorro aquela pessoa. Isso não é nada diferente do que um babalorixá faz no seu culto de orixá com o merindinlogun.

Nesta etapa é determinado o que o Orixá precisa para ajudar a pessoa. O que quer que seja oferecido ao Orixá se torna uma oferenda a orixá e não mais importa como será feita. 

O Bàbáláwo pode fazer da forma como sabe, mas o consulente, se for de um culto de Orixá e souber o que fazer, também pode fazer a sua maneira ou de qualquer maneira que se chegue ao orixá. É aqui que entra o culto de orixá.

Os Bàbáláwos cubanos vão fazer isso da forma como aprenderam, seja em Ifá ou na Santeria, não tem problema nisso. Mas não pode haver qualquer tipo de objeção aos brasileiros poderem fazer isso da forma como aprenderam no seu culto de Orixá ou através de uma casa de Orixá.

O divino é o mesmo. Você pode através de cada religião e culto aprender formas distintas de atingir ao divino. Essa é a função da religião. Os cubanos aprenderam de uma forma e farão como sabem. Os brasileiros dos diversos cultos de Orixá podem ter alternativas a estas formas.

Mas aquele que diz, como já ouvi, que a forma se fazer uma oferenda para um determinado Orixá é somente do jeito dele representa a voz do ignorante. Pior um pouco, não respeita a sua religião ou não entende que faz parte de uma única religião.

Estou usando aqui a referência dos cubanos mas isso vale para os nigerianos e seus filhotes de criação brasileiros. É a mesma coisa.

Dessa maneira, consolidando o que eu já disse: Ifá pode ser usado por qualquer pessoa independente da religião. Ifá é religião e faz parte de uma religião. Não existe consulta em Ifá que não resulte em uma oferenda a algum orixá (Òrìṣà) como caminho para socorrer aquela pessoa. 

É totalmente sem sentido a afirmação de que Ifá não é religião ou que seja independente do culto de orixá (Òrìṣà). É religião, apesar de poder ser aplicado a qualquer pessoas, deus esta para todos e não para apenas um conjunto de gente selecionada.


Além disso, existe muita coisa que de forma real é resolvida através de um Bori ou de liturgias ligadas a Ori. Antecipo em dizer que meu entendimento e relação com Ori é bem calma e equilibrada, tem gente que só fala de Ori e diz que tudo é Orí, mas, essas pessoas que assim falam entendem pouco da teologia. Tem muita coisa importante e muitos caminhos, Ori é um deles para determinadas situações.

Mas se você precisa fazer algo através desse caminho, lamento, só vai ter no culto de Orixá, aliás, só vai ter no Candomblé. Esqueça os cubanos, esqueça santeria e esqueça Ifá. Não sabem nada, não entendem e não sabem fazer.

O Bori feito através de Ifá é muito ruim, vergonhoso mesmo. Mal feito, mal elaborado e inefetivo, um placebo. Foi uma invenção dos cubanos que nem sabiam o que era Ori.Ja passei por isso e já participei de vários. Muito ruim, atualmente, não me chamem para isso, não vou.

Tem muito Bàbáláwo obtuso que fala aos 4 cantos que Ifá não é religião, mas, esse mesmo Bàbáláwo entende que orixá (Òrìṣà) é? Se entende então eu lembro que quase sempre Ifá passa por Orixá (Òrìṣà).

Apesar de ser religioso e de passar por orixá (Òrìṣà) como instrumento de manipulação do divino, do supernatural ligado ao divino, Ifá não muda sua religião. Você pode ser de qualquer religião, se consultar em Ifá, fazer ebó (Ẹbọ) e continuar na sua religião e na sua vida. Ifá não é proselitista.

Ifá não trata da vida religiosa de iniciados. Você pode ser de uma casa Jeje, Ketu ou Batuque e ir a Ifá. Você deve tratar coisas da sua vida. Para tratar questões de sua formação religiosa procure uma casa de orixá (Òrìṣà). Não traga para Ifá suas questões religiosas porque é inadequado e impróprio um Bàbáláwo tratar disso.

O Bàbáláwo é autônoma para fazer oferendas a orixá (Òrìṣà), ele não depende do culto de orixá (Òrìṣà) mas ele não deve se inserir em questões religiosas para as quais não tem conhecimento, formação e muito menos propriedade para falar. Se fizer isso só vai causar problema para ele e para a pessoa.

É muito ético um Bàbáláwo que recebe uma pessoa já iniciada em orixá (Òrìṣà) indicar que a pessoa procure sua casa para fazer as coias de orixá (Òrìṣà) que a consulta recomenda.

Se o Bàbáláwo fizer ele não cometerá nenhuma violação ética, mas ele não deve ser intrusivo, se ele não sabe o que pode ou não fazer com um iniciado então não faça nada.
Uma casa de ifá, um Bàbáláwo deveria ter ligação com uma ou mais casas de Candomblé, isso seria útil para ele para poder indicar pessoas.

Em relação aos 2 cultos, as casas de Candomblé não precisam de Ifá para seus trabalhos, o Candomblé tem seu oráculo, mas, todos sabemos que nem todo Babalorixá (Bàbálórìṣà) ou Iyalorixá (Ìyálòrìṣà) é fluente no uso do oráculo, assim, uma casa de Orixá (Òrìṣà) poderia, sim, contar com a ajuda de um Bàbáláwo para uso do oráculo, não junto a clientes, mas auxiliando o dirigente.


Não se trata de o Bàbáláwo ensinar algo ao Babalorixá (Bàbálórìṣà) ou mesmo de corrigir coisas que ele faz ou indicar coisas diferentes, trata-se do Bàbáláwo fazer apenas aquilo que ele sabe fazer que é usar o oráculo.


Alguns podem estranhar eu dizer isso do Bàbáláwo, mas, é isso mesmo. O que o Bàbáláwo sabe fazer é usar um oráculo, esse é o único trabalho e missão dele. Ele usa o oráculo com mestria e executa os ebós e oferendas indicados. É isso o que um Bàbáláwo faz, mais nada, o resto se houver é invenção.

Se a pessoa quer mais e acha que apenas cuidar do oráculo é pouca coisa, então esta no culto errado. O Bàbáláwo faz apenas isso e, minha opinião é que já é o suficiente para uma vida,.


Usar um oráculo para ajudar pessoa é muito difícil. Você tem que aprender muita coisa, mas muita coisa mesmo. O Bàbáláwo só faz isso, aprender com interpretar o oráculo e como resolver o problema das pessoas. Bàbáláwo que está interessado em fazer mais do que isso é apenas um comerciante vendendo bugiganga e placebos.

O que ocorre é que tem um exército de Bàbáláwo que não conhece os versos de Ifá, que não conhece teologia yoruba, que não conhece folha. Essas pessoas decoram tratados e saem repetindo as interpretações (ruins) já feitas. Para essas de fato, só cuidar de oráculo será pouco, vai acabar logo o que fazer.







quinta-feira, janeiro 02, 2020

A matriz religiosa afro-brasileira

A matriz religiosa afro-brasileira



Vídeo explicando o que é a matriz religiosa afro-brasileira, complementa longo texto que existe no blog.

Não deixe de ver no Blog o texto sobre a matriz religiosa afro-brasileira para entender o que isso quer dizer. 

O termo é largamente utilizado mas pouco explicado. Erroneamente, muita gente se refere as religiões como de matriz africana, o que é um erro, a matriz não é africana, é afro-brasileira.