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terça-feira, janeiro 28, 2020

O Cosmo Yoruba - pt 3 - A gênese yoruba

A gênese yorùbá

Eu estava decidido a não falar sobre a gênese Yorùbá neste trabalho. Na minha opinião é apenas uma história e pouco ou nada contribuiu para entender a religião. Esse assunto fica mais no campo da necessidade de existir um mito religioso que explique a criação do mundo, principalmente porque este é o primeiro livro da bíblia cristã. Assim todo mundo também tem que ter o seu “Gênesis”.

Os Yorùbá tem sua gênese. A gênese Yorùbá se inicia no momento em que Olódùmarè decide criar o Àiyé, o mundo natural, e para isso designa as suas divindades para esta tarefa.

“….o Àiyé existia e era uma enorme massa de água e matéria pantanosa, nada vivia neste lugar”.

O que levou Olódùmarè a criar o Àiyé ninguém sabe, apenas é dito que ele teve a motivação de fazê-lo e colocou em execução.

Existem várias histórias sobre a criação do mundo, foi aqui colocar apenas algumas delas, como eu já disse não acho essas histórias relevantes.

Olódùmarè chamou Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá), uma das mais importantes divindades Yorùbá, à sua presença e o encarregou da tarefa, dando para ele os materiais que ia necessitar.
O Àiyé já existia mas era uma imensidão de água.

Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá) recebeu uma bolsa de terra solta (alguns dizem que foi uma concha de caramujo), uma galinha de 5 dedos e um pombo.

Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá) foi para o limite entre o Órun (ọ̀run) e Àiyé e jogou a terra do saco sobre a água. Logo a seguir mandou a galinha de 5 dedos e o pombo que imediatamente começaram o seu trabalho de espalhar a terra por todo o Àiyé.

Isto foi feito até que uma grande porção da água fora coberta pela terra. Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá), então, voltou a Olódùmarè dizendo que já tinha concluído o seu trabalho.

Olódùmarè enviou o camaleão, que é um animal conhecido por ser muito cuidado e delicado na forma como se move e encontra caminhos. O camaleão nesta primeira visita relatou que apesar de uma grande porção de terra já estar espalhada e uma superfície razoável estar coberta, que a terra ainda não era seca e segura o bastante para ser habitada.

Algum tempo depois foi feita uma segunda visita e o camaleão constatou que a área de terra era grande o bastante e já estava seca o bastante para ser usada.

O lugar sagrado por onde foi iniciado o trabalho de espalhar a terra pelo mundo foi chamado de Ifé (Ìfẹ̀), palavra que significa, aquilo que é amplo. De acordo com a tradição Yorùbá neste lugar foi fundada a cidade de Ile ifé (Ilé-Ifẹ́) , a cidade sagrada Yorùbá, o lugar onde o mundo começou e o lar de todos os habitantes.

Ainda hoje quando um estrangeiro chega em Ile ifé (Ilé-Ifẹ́) na Nigéria ele pode ser recebido com a saudação “bem-vindo de volta a sua casa”, porque todos os seres humanos foram criados e iniciaram a população da terra a partir de Ile ifé (Ilé-Ifẹ́).

Olódùmarè colocou na nova terra a árvore do dendezeiro (Igi ọ̀pẹ) que daria sombra, bebida, óleo e nozes para comer. Outras árvores também foram plantadas para serem utilitárias para os novos habitantes. A Galinha e o pombo que foram usados para espalhar a terra deveriam agora espalhar as árvores que dariam subsistência aos futuros habitantes.
Os primeiros habitantes da terra teriam a água vinda do coco, uma palmeira, para matarem sua sede. Contudo essa água não se mostrou suficiente e Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá) apelou para Olódùmarè por uma solução. Olódùmarè criou então a chuva que passou a cair sobre toda a terra.

Após isso Olódùmarè necessitava habitar o Àiyé e para isso os habitantes do Órun (ọ̀run) teriam que ter um corpo para poderem viver no novo mundo. Mais uma vez Olódùmarè pediu que Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá) ficasse encarregado de confeccionar o corpo das pessoas, a partir de barro.

“... Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá) foi designado também para um outro trabalho especial. Ele seria o criador dos corpos dos homens para o futuro. Não é claro pela tradição oral quando esse trabalho foi iniciado, contudo, ele aceitou a tarefa.
Sua atribuição foi desde então moldar o físico dos homens a partir da terra da própria terra, do seu barro.
Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá) se tornou o escultor divino, mas, o direito de dar vida aos corpos criados era reservado exclusivamente a Olódùmarè.
A instrução dada a Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá) era que ele deveria preparar os corpos e deixá-los em uma sala preparada por Olódùmarè e deixar o lugar. Olódùmarè iria para lá e daria o sopro da vida para cada pessoa, completando a criação do homem.
Ao dar o sopro da vida Olódùmarè reserva para ele e somente ele, a capacidade de criar a vida e transmitir o seu axé (aṣẹ́) para cada ser humano. Cada ser humano recebe assim a partícula de vida vinda de Olódùmarè, seu axé (aṣẹ́) e suas virtudes divinas pessoais.
A história conta, ainda, que Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá) ficou com inveja de Olódùmarè e queria ele mesmo ser quem dava vida às pessoas.
Ele preparou um plano para espionar Olódùmarè. Uma vez completada a forma que ele devia dar aos habitantes do àiyé, ele se escondeu em um canto esperando a chegada de Olódùmarè. Olódùmarè, contudo, percebeu isso e colocou Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá) em sono profundo. Quando acordou o trabalho já estava feito. Desde então Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá) se contentou com a parte do trabalho que lhe cabe.

Este texto for retirado do livro “Olodumarê – God in Yorùbá belief” de Abolaji Idowu.
Junto com essa história alguns comentários são pertinentes antes de continuarmos. O primeiro diz respeito a prerrogativa que Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá) tem de fazer as formas humanas como ele quer. O nascimento de albinos, corcundas e alijados fazem parte de sua prerrogativa. Assim ele define cores marcas, etc... Alguns mitos sugerem que ele seja um beberrão e que quando bebe faz essas formas não normais.

Esse é um mito vulgar, mas, como toda metáfora serve apenas para indicar que esses desvios que ocorrem são feitos pelo próprio Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá) e que ele pode fazê-lo. Os Yorùbá designam como pertencentes a Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá) as pessoas que assim nascem.

Outra diz respeito ao envolvimento da divindade da morte Ikú, que é masculina. Quando Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá) foi criar as formas do àiyé ele solicitou que pegasse o barro para isso, conforme instrução de Olódùmarè que os corpos fossem feitos da terra do próprio àiyé. Vários emissários foram enviados mas quando chegavam no àiyé, a terra chorava dizendo que não fosse tirado nenhuma parte dela.

Aquilo comovia todos os enviados e ninguém pode trazer a terra para fazer o barro. Ikú se prontificou a ir e pegou terra necessária, prometendo devolver o que fora tirado. Dessa maneira cabe a Ikú, a morte, devolver a terra o corpo de todas as pessoas restaurando assim o que Ikú tira para estes corpos serem feitos. O costume Yorùbá é que os corpos sejam enterrados diretamente na terra para que a terra possa pegar de volta o que lhe foi tirado.

Este é o que chamo de um mito estrutural que, através de uma história cria uma visão metafórica que explica os fatos e fenômenos do àiyé. Existem muitos mitos e versos desta natureza, com a finalidade de estruturar a metáfora da religião sobre a vida.
Sobre a história da gênese existe uma variação muito conhecida e usada aqui no Candomblé. Nesta versão Odùduwà, uma outra divindade, assume a criação do mundo.
Nesse mito Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá) muito arrogante não se prepara para a tarefa. Já Odùduwà, consulta Ifá e faz um Ebó (Ẹbọ) preparatório.

No meio do caminho Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá), Exú (Èṣù) faz ele ficar com sede e Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá) fura com seu cajado o troco do dendezeiro, de onde sai uma bebida, o vinho de palma, com o qual ele não só mata sua sede como se embebeda desmaiando ao pé da palmeira e não mais acordando.

Odùduwà então volta e relata a Olódùmarè o que ocorreu. Esse então dá para ele a bolsa da criação e pede que ele oduduwa crie o mundo. O resto do mito é igual mas com Odùduwà no lugar de Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá).

Como prêmio de consolação Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá) fica com a criação do corpo das pessoas.
Mas, quem foi Odùduwà?

Neste assunto o mito religioso se mistura com o mito histórico. Odùduwà foi um histórico e poderoso líder do povo Yorùbá. Ele migrou de sua terra original, provavelmente no Egito e se estabeleceu nas terras Yorùbá, em Ile-Ìfẹ̀. Ele se estabeleceu em Ìfẹ̀ com seus seguidores e estabeleceu uma proeminente dinastia Yorùbá.

Segundo Idowu, Odùduwà se estabeleceu em um lugar onde já existia um líder local chamado Ọrẹ̀lúéré. Odùduwà se estabeleceu sem prestar qualquer respeito a ele e Ọrẹ̀lúéré preparou um ardil. Ele envenenou um dos filhos de Odùduwà e este teve que chamar Ọrẹ̀lúéré para ajudá-lo, porque Ọrẹ̀lúéré era tido como um excelente médico.
Odùduwà teve que se submeter temporariamente a Ọrẹ̀lúéré para ver seu filho curado e se colocou também sob a proteção de Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá) que era a divindade do local. Os recursos de Odùduwà eram muito superiores, mas, seu estabelecimento não foi feito sem uma fraca oposição dos que já habitavam lá.

A sociedade ògboní foi provavelmente instituída neste período, como uma oposição a Odùduwà, pelas pessoas que já habitam aquelas terras, para poderem preservar seus valores e costumes.

Mas Odùduwà se tornou muito grande e conquistou a terra de Ọrẹ̀lúéré e muitas terras em volta. Quando morreu passou a ser cultuado como um ancestre e depois uma divindade. O nome Odùduwà não pertencia ao homem e sim uma divindade cujo culto foi trazido por ele.
O conflito entre Ọrẹ̀lúéré e Odùduwà, virou o conflito entre Odùduwà e Orixá-nlá (Òrìṣà-nlá), sendo que o primeiro venceu o segundo e se tornou o governante e dono da terra. Com o passar das gerações a história deste conflito se transformou em um mito religioso no qual Odùduwà se torna o criador do mundo. O mito original Yorùbá ficou assim modificado para acomodar questões políticas e históricas.

Segundo Idowu, essa segunda versão não é a gênese original. Surgiu pela necessidade de acomodar a figura de Odùduwà, que se tornou orixá (Òrìṣà) e patrono na nação em Ilé Ìfẹ̀.
Na raiz desta história está o fato de Odùduwà ser cultuado como uma divindade masculina ou feminina dependendo da região Yorùbá onde se esteja. Quando masculina a referência é ao homem, o conquistador e patrono da nação. Quando feminina a divindade trazida por essas pessoas.

Existe a necessidade de mencionar que de fato Odùduwà (também chamado Oòduà) é algumas vezes citado omo “mãe” e venerado como mãe terra em algumas partes da terra yorùbá, especialmente entre o poco de Ègbádò e Kétu. Alguns acadêmicos sugerem que o aspecto masculino de Odùduwà seria um desenvolvimento tardio, refletindo a tentativa de uma nova dinastia legitimar sua hegemonia, substituindo uma divindade pré-existente.
Tudo o que diz respeito a história yorùbá é muito confuso.

No livro “Orun Aiye” de José Beniste existe uma descrição muito boa, bem mais extensa que esta que dei, sobre a história desses 2 mitos. O livro em português deve ser lido por aqueles que querem entender a religião e não vou transcrever aqui nenhum trecho. Não há necessidade. O meu objetivo era explicar a base da gênese Yorùbá e não tenho como deixar de explicar os 2 mitos conflitantes.

Verger e a Cabaça

No caso do Candomblé essa distinção pouco importa, Odùduwà não é tratado como uma divindade do dia a dia. Existe e é conhecido apenas na referência teológica. Os Lukumi cubanos tratam Odùduwà como uma divindade comum, mas o faz de uma forma errada, baseada em erros bibliográficos, conforme Verger explicou.

No Candomblé existe um conhecido mito, contado e repetido por muitos o qual o mundo seria uma grande cabaça na qual Odùduwà ficaria na parte debaixo e Oxalá na parte de cima. Essa representação daria a ambos o domínio de partes diferentes do mundo assim como estabeleceria uma dualidade de existência entre ambos. Também traria uma ideia de equilíbrio e, por fim, estabelece que Oxalá seria do gênero masculino e Odùduwà do gênero feminino.

Esse mito é bem comum e conhecido, mas, é uma grande bobagem. É um exemplo clássico de que a ignorância faz sombra na sabedoria e que as pessoas dessa religião nunca passam da primeira página quando leem algo, se é que leem, apesar de serem muitos espontâneas para falar mal de quem busca conhecimento.

Para esclarecer isso basta a recorrer a um texto muito antigo de Verger chamado “Etnografia religiosa e probidade científica”  publicado na revista Religião e Sociedade, n.8 em 1982.

O texto parece ter sido feito exclusivamente para criticar Juana Elbein, autora do livro “Os Nagô e a Morte” que teve como mérito criar uma estrutura geral de amarração de elementos na religião, estabeleceu interpretação e análises próprias e enriqueceu o papel de do Orixá Exú na religião. Para Verger isso foi uma afronta. Ele não aceitou uma outra pessoa, acadêmica, escrevendo sobre os Yorùbá e muito menos trazendo informações diferentes da dele.

Acredito que nessa briga todos tivessem um pouco de razão. Talvez Juana tenha sido criativa demais na sua interpretação e análise tendo avançado muito na criação de conceitos, como também, Verger, se mordido de vaidade, mas essa briga não é o tema.
O tema é que na primeira parte do seu texto, Verger faz uma análise muito boa da origem de distorções que ocorreram sobre a religião Yorùbá.

Verger cita que a primeira referência de informações sobre os Yorùbá veio de Ajayi um nativo que foi rebatizado com o nome de Samuel Crowther, ele era nascido em Oyo e foi capturado e vendido como escravo quando tinha 11 anos. Ele foi liberto por ingleses no navio e como milhares de outros africanos levados para Serra Leoa.

Serra Leoa, como alguns devem saber foi o país ou região que recebeu todos os escravos que os ingleses libertavam quando encontravam os navios negreiros.

Virou missionário protestante, educando em Londres, voltou para a áfrica e publicou a primeira bíblia em Yoruba. Publicou um vocabulário yorùbá que continha nome de deuses. Em função de sua pouca idade e conhecimento da sua religião ele trocou o gênero de orixás, chamando de deusas o que os yorùbá chamavam de deuses.

Não houve intenção de dolo no trabalho de Crowther, Verger cita-o com uma das pessoas confiáveis, mas ele cometeu erros e isso é atribuído a ele citar coisas sobre as quais tinha vivida mas que o tempo pode tê-lo confundido.

A seguir TJ bowen, outro missionário, passou 6 anos nas terras Yoruba e publicou um dicionário, com mais informações sobre orixás. Verger atribuía essa pessoa, informações precisas e o cita como uma fonte digna de confiança.

Mais tarde o abade Pierre Bouche, outro missionário, passou 9 anos na África e publicou material que repetia os antecessores com algumas variações.

A confusão começa com o padre Noel Baudin, que esteve na Africa em terras não yorùbá, usou o livro de Crowther para publicar um dicionário e um livro sobre os Yoruba, povo e região que ele não conheceu de fato. Pior ele desprezava o povo e sua cultura, Ele nunca teve interesse em preservar ou documentar nada. Soma-se o zelo missionário, a falta de ética  e a necessidade de se promover como um especialista em Africa.
por exemplo

“Os feiticeiros (Baudin, 1884b:86) são seres desprezíveis, mentirosos, preguiçosos, hipócritas, impudicos e refinados ladrões. Geralmente têm um aspecto sujo, vestimentas ridículas e esfarrapadas, e os que molham as mão em sangue humano têm um ar bestial, feroz e repugnante... Quanto aos deuses e deusas, com suas ridículas lendas, os grandes feiticeiros não acreditam neles... Os ídolos (ib: 89) modelados sobre o tipo mais feio de negro de lábios grossos, de nariz chato e de queixo retraído, são verdadeiras imagens de velhos macacos”.

Este era o estilo de Baudin 

A referência a Oduduá aparece pela primeira vez por Crowther. Vou transcrever texto do Verger porque é bem claro:

O autor indica em rubricas separadas, por um lado, que “Oduá ou Oduduá (Crowther, op.cit.: 207) é uma deusa de Ifé, tida como a suprema deusa do mundo” e acrescenta que “o céu e a terra são duas grandes cabaças (ele queria dizer meias cabaças, igbá), que, uma vez fechadas (ou mais precisamente, colocadas uma sobre a outra, formando um recipiente fechado), não podem ser abertas (separadas)”. Afirma ainda que havia “uma alusão à aparente concavidade do céu, que parece tocar a terra no horizonte”. Por outro lado, indica que “Obatalá (é) a grande deusa iorubá, a artesã do corpo da matriz” (ib.: 228). Ao mesmo tempo, Orixalá é indicado como sendo "a grande deusa Obatalá" (ib.: 223).
Assim, fica claro como Verger cita a confusão de crowther sobre o gênero dos deuses, assim como surge aqui a referência ao mundo na forma de uma cabaça, mas em nenhum momento Crowther, por mais confuso que fosse coloca Oxalá e Odùduwà dentro dela.
Bowen, o que escreveu depois um outro dicionário Yoruba, adiciona mais informações a isso:

“Oduduá é o universo, está localizado em Ifé” e “Obatalá é tido como o primeiro, a maior coisa já criada. Outros, entretanto, afirmam que ele não é nada mais do que um antigo rei iorubá. Sua mulher é Iyangba, a mãe que recebe, representada acariciando uma criança”.
Verger adiciona dizendo que Iya Ngba é, na verdade, uma referência a Iyami osoronga, a grande feiticeira dos Yoruba. O Abade Bouche adiciona confusão a isso fazendo uma relação da iya ngba com a virgem maria....

A confusão se inicia mais ainda com o Pe. Baudin, que sem saber nada dos Yoruba, junta Iya ngba com Odùduwà, transformando as 2 divindades em uma só. E mais junta Oxalá nisso e coloca os 2 dentro da cabaça do mundo descrita por Crowther.

No original de Veger:

... para completar essa embrulhada, intromete ousadamente Obatalá (Orixalá) no meio das duas meias cabaças descritas por Crowther, as quais viram uma cabaça única, munida de uma tampa. Completa esse "sutil ponto de vista" com uma estranha lenda (Baudin, 1884 b: 89) onde "Obatalá e Oduduá" estavam no princípio estreitamente apertados e como que encerrados numa grande cabaça - Obatalá no alto, sob a tampa, e Oduduá embaixo, afundados nas águas, envolvidos em profundas trevas, com a noite, o medo e a fome correndo em todas as direções... Oduduá ficou feia e cega em consequência de uma briga doméstica na qual Obatalá lhe arrancou os olhos para obrigá-la a ficar quieta.
Assim essa bobagem que existe no candomblé colocando Odùduwà como feminina e oxalá como masculino e dentro de uma cabaça, é uma idiotice originada de uma pessoa que não sabia sobre o que estava escrevendo, pior só tinha interesse em desinformar.
Pessoas aqui no Brasil e autores usaram os livros dessas pessoas para transmitirem isso como verdades. As pessoas aqui compraram essas histórias gerando distorções sobre a religião e pior se fundamentando em bobagem e mentiras.
Assim uma sucessão de pessoas que não conheciam o assunto que escreviam e que foram repetindo e também usando criatividade sobre o que liam gerou uma massa de desinformação sobre a religião Yoruba, que no nosso tema gira em torno do mito da Cabaça. Quem aqui não conhece essa figura da cabaça?
Baudin fez ainda mais confusão gerando uma dualidade inexistente entre Oxalá e Odùduwà e transformando Odùduwà em um orixá do gênero feminino.

Assim essas são 2 tolices que são repetidas por Babalorixás e Iyalorixá por muitos anos, o mito da cabaça e Odùduwà sendo Feminino. Verger desde 1982 já havia corrigido isso. É impressionante como as pessoas gostam de citar Verger sem nem ao menos ter lido.

É possível que parte da raiva de Verger sobre Juana foi justamente ela ter seguido esse mesmo caminho, interpretando informações ruins, copiando coisas erradas e pior gerando interpretações e análises por sua conta.

O texto original de Verger deve ser lido, tem muito mais informações do que eu transcrevi aqui.

A Sorte do Candomblé é que não fazemos o Orixá Odùduwà, senão o nível de besteira seria enorme. Azar dos Lukumi cubanos, que não só compraram as mesmas histórias como ainda fazem Odùduwà como Orixá e ainda, atribuem a ela a cor negra e outras coisas sinistras.

Este sim é um assunto que mereceria uma análise, porque como pode uma tradição de diáspora se apoiar em uma besteira inventada e criar Orixá e pior LITURGIA a partir disso.
Verger explica onde surgiu a ligação errada de Odùduwà com a cor negra, na verdade uma invenção ridícula, mas, não é o tema aqui, os Lukumi que se preocupem com isso.
Outras versões da Gênese

Existe uma outra versão da Gênese que esta descrita como Osamaro Ibie. Nesta versão todos os orixá (Òrìṣà) são enviados para criar o mundo mas o único que tem sucesso na tarefa é Órunmila (Ọ̀rúnmìlà).

Depois do mundo criado foi dada a missão de povoar a terra e essa missão foi dada para Olóòkun e Ògún e ambos falham, ficando novamente Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) encarregado de povoar o mundo.

Esse mito tem os mesmos elementos dos anteriores mas colocando Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) como centro dos acontecimentos, isso é bem típico dos yorùbá, que dão importância a divindade que querem dar.

Uma versão também interessante do Benin, situado a leste da terra yorùbá (não é o Dahomey). Vou citar esta versão porque existe uma grande influência entre esses 2 povos, os Yoruba e os Bini.

Em sua gênesis, os Bini acreditam que Òsànóbùa, sua divindade principal, e Anume, sua esposa, tiveram 3 filhos, chamados, Òblẹ́mwẹ̀n, Olóòkun e Òglùwú. O costume Bini estabelece a superioridade de machos sobre as fêmeas e desta forma Olóòkun assumiu uma posição de superioridade em relação a sua irmã Òblẹ́mwẹ̀n. Um dia Òsànóbùa enviou seus 3 filhos com o poder e a missão de criar o mundo. Naquele tempo o mundo era uma imensidão sem fim de água, que tinha apenas uma árvore Ikhinmwin (igual a um Akoko).

No alto desta árvore vivia um pássaro chamado Ọ̀wọ̀nwọ̀n

A cada uma dos filhos foi dado a opção de escolher um presente para ir com eles junto com a canoa que eles deveriam tomar. Os dois mais velhos escolheram a prosperidade e ferramentas de trabalho. O mais novo se preparou para escolher suas ferramente quando o pássaro pediu para ele levar com ele uma conha.

Quando a canoa chegou ao centro das águas, o mais jovem virou a concha e uma quantidade sem fim de areia saiu dela. Dessa maneira a terra começou a se espalhar sobre as águas. Eles ficaram com receio de sair da canoa e mandarem um camaleão examinar se a terra era firme. O lugar onde a terra emergiu foi chamado de Agbon, “o mundo”, um nome que foi trocado para a Agbor, hoje uma cidade a lesta da cidade do Benin.

Òsànóbùa, desceu por uma corrente até o mundo recém-estabelecido e demarcou o mundo. Foi de lá que as pessoas foram enviadas para os 4 cantos do mundo, para cada país e cada geografia. Ele fez então o seu filho mais novo como o responsável por Benin, dono da terra e estabeleceu o seu próprio reino como sendo o mundo espiritual, através das águas onde o céu se encontra com o mundo.

Òsànóbùa, ficou estabelecido em seu palácio no mundo espiritual e para a humanidade é um deus remoto, primariamente preocupado com o mundo espiritual, tendo delegado a seus filhos o cuidado do mundo físico, ou natural. Não existe culto a Òsànóbùa. Òsànóbùa é apelado somente em última instância, quando tudo o mais já falhou. Ele nunca demanda oferendas.

Existe um assentamento para Òsànóbùa, ele é composto apenas de um longo poste ficando em um monte de areia e no alto uma roupa branca que tremula no vento como uma bandeira.

Para Òblẹ́mwẹ̀n foi dado o controle sobre o nascimento e a agricultura, ela é chamada a esposa da terra, mãe de todos os seres humanos e seres vivos. Olóòkun recebeu o poder de doar a prosperidade e Òglùwú o poder da morte. Òsànóbùa então enviou Olóòkun para ser o rei do mar

Como podem observar o mito da criação dos Bini é bastante parecido com o mito Yorùbá da gênese e apesar de existirem variações nos personagens Yorùbá.

sexta-feira, janeiro 24, 2020

Cosmo Yoruba - Pt. 2 - Bobagens em torno da figura da cabaça


Bobagens em torno da figura da cabaça


Sem querer ser arrogante, o que se tem para entender sobre a cabaça e sua ligação com a representação do cosmos yorùbá está neste texto aqui.

Existem coisas importantes na simbologia yorùbá, a cabaça é uma delas. Contudo também é muito comum as pessoas não entenderem o que veem ou o que leem.

Não pode deixar de comentar que já ouvi falar de gente que está fazendo Igba Ori usando uma cabaça deste tipo. Com sinceridade, essas pessoas comeram obi estragado. Lembro que nem cubanos e muito menos nigerianos sabem qualquer coisa de Ori.

A cabaça, como simbologia esta ligada também com o culto de Ajé e com Ifá. É um receptáculo universal de axé (àṣẹ) e várias coisas são representadas através da cabaça, sua presença é rica nos versos de Ifá com vários significados.

Aqui no Candomblé criou-se a visão da cabaça com Oxalá (Òṣàlá) na parte superior e Odùduwà na parte inferior, associando Odùduwà a uma divindade feminina e isso não é comum.

Essa imagem está retratada no meu texto mas não é uma referência importante, é apenas um aspecto desta questão do cosmo e não ele em sí, o que é importante é a representação dos dois mundos, o órun (Ọ̀run) e o Àiyé.

Assim é necessário cuidado em relação a essa visão que existe no Candomblé direcionada para este contexto masculino-feminino, porém, de forma muito restrita e com pouca ou nenhuma utilidade.


Verger e a Cabaça

No caso do Candomblé essa distinção pouco importa, Odùduwà não é tratado como uma divindade do dia a dia. Existe e é conhecido apenas na referência teológica. Os Lukumi cubanos tratam Odùduwà como uma divindade comum, mas o faz de uma forma errada, baseada em erros bibliográficos, conforme Verger explicou.

No Candomblé existe um conhecido mito, contado e repetido por muitos o qual o mundo seria uma grande cabaça na qual Odùduwà ficaria na parte debaixo e Oxalá na parte de cima. Essa representação daria a ambos o domínio de partes diferentes do mundo assim como estabeleceria uma dualidade de existência entre ambos. Também traria uma ideia de equilíbrio e, por fim, estabelece que Oxalá seria do gênero masculino e Odùduwà do gênero feminino.

Esse mito é bem comum e conhecido, mas, é uma grande bobagem. É um exemplo clássico de que a ignorância faz sombra na sabedoria e que as pessoas dessa religião nunca passam da primeira página quando leem algo, se é que leem, apesar de serem muitos espontâneas para falar mal de quem busca conhecimento.

Para esclarecer isso basta a recorrer a um texto muito antigo de Verger chamado “Etnografia religiosa e probidade científica”  publicado na revista Religião e Sociedade, n.8 em 1982.

O texto parece ter sido feito exclusivamente para criticar Juana Elbein, autora do livro “Os Nagô e a Morte” que teve como mérito criar uma estrutura geral de amarração de elementos na religião, estabeleceu interpretação e análises próprias e enriqueceu o papel de do Orixá Exú na religião. Para Verger isso foi uma afronta. Ele não aceitou uma outra pessoa, acadêmica, escrevendo sobre os Yorùbá e muito menos trazendo informações diferentes da dele.

Acredito que nessa briga todos tivessem um pouco de razão. Talvez Juana tenha sido criativa demais na sua interpretação e análise tendo avançado muito na criação de conceitos, como também, Verger, se mordido de vaidade, mas essa briga não é o tema.
O tema é que na primeira parte do seu texto, Verger faz uma análise muito boa da origem de distorções que ocorreram sobre a religião Yorùbá.

Verger cita que a primeira referência de informações sobre os Yorùbá veio de Ajayi um nativo que foi rebatizado com o nome de Samuel Crowther, ele era nascido em Oyo e foi capturado e vendido como escravo quando tinha 11 anos. Ele foi liberto por ingleses no navio e como milhares de outros africanos levados para Serra Leoa.

Serra Leoa, como alguns devem saber foi o país ou região que recebeu todos os escravos que os ingleses libertavam quando encontravam os navios negreiros.

Virou missionário protestante, educando em Londres, voltou para a áfrica e publicou a primeira bíblia em Yoruba. Publicou um vocabulário yorùbá que continha nome de deuses. Em função de sua pouca idade e conhecimento da sua religião ele trocou o gênero de orixás, chamando de deusas o que os yorùbá chamavam de deuses.

Não houve intenção de dolo no trabalho de Crowther, Verger cita-o com uma das pessoas confiáveis, mas ele cometeu erros e isso é atribuído a ele citar coisas sobre as quais tinha vivida mas que o tempo pode tê-lo confundido.

A seguir TJ bowen, outro missionário, passou 6 anos nas terras Yoruba e publicou um dicionário, com mais informações sobre orixás. Verger atribuía essa pessoa, informações precisas e o cita como uma fonte digna de confiança.

Mais tarde o abade Pierre Bouche, outro missionário, passou 9 anos na África e publicou material que repetia os antecessores com algumas variações.

A confusão começa com o padre Noel Baudin, que esteve na África em terras não yorùbá, usou o livro de Crowther para publicar um dicionário e um livro sobre os Yoruba, povo e região que ele não conheceu de fato. Pior ele desprezava o povo e sua cultura, Ele nunca teve interesse em preservar ou documentar nada. Soma-se o zelo missionário, a falta de ética  e a necessidade de se promover como um especialista em África.

Por exemplo:

“Os feiticeiros (Baudin, 1884b:86) são seres desprezíveis, mentirosos, preguiçosos, hipócritas, impudicos e refinados ladrões. Geralmente têm um aspecto sujo, vestimentas ridículas e esfarrapadas, e os que molham as mão em sangue humano têm um ar bestial, feroz e repugnante... Quanto aos deuses e deusas, com suas ridículas lendas, os grandes feiticeiros não acreditam neles... Os ídolos (ib: 89) modelados sobre o tipo mais feio de negro de lábios grossos, de nariz chato e de queixo retraído, são verdadeiras imagens de velhos macacos”.

Este era o estilo de Baudin

A referência a Oduduá aparece pela primeira vez por Crowther. Vou transcrever texto do Verger porque é bem claro:

O autor indica em rubricas separadas, por um lado, que “Oduá ou Oduduá (Crowther, op.cit.: 207) é uma deusa de Ifé, tida como a suprema deusa do mundo” e acrescenta que “o céu e a terra são duas grandes cabaças (ele queria dizer meias cabaças, igbá), que, uma vez fechadas (ou mais precisamente, colocadas uma sobre a outra, formando um recipiente fechado), não podem ser abertas (separadas)”. Afirma ainda que havia “uma alusão à aparente concavidade do céu, que parece tocar a terra no horizonte”. Por outro lado, indica que “Obatalá (é) a grande deusa iorubá, a artesã do corpo da matriz” (ib.: 228). Ao mesmo tempo, Orixalá é indicado como sendo "a grande deusa Obatalá" (ib.: 223).

Assim, fica claro como Verger cita a confusão de crowther sobre o gênero dos deuses, assim como surge aqui a referência ao mundo na forma de uma cabaça, mas em nenhum momento Crowther, por mais confuso que fosse coloca Oxalá e Odùduwà dentro dela.
Bowen, o que escreveu depois um outro dicionário Yoruba, adiciona mais informações a isso:

“Oduduá é o universo, está localizado em Ifé” e “Obatalá é tido como o primeiro, a maior coisa já criada. Outros, entretanto, afirmam que ele não é nada mais do que um antigo rei iorubá. Sua mulher é Iyangba, a mãe que recebe, representada acariciando uma criança”.
Verger adiciona dizendo que Iya Ngba é, na verdade, uma referência a Iyami osoronga, a grande feiticeira dos Yoruba. O Abade Bouche adiciona confusão a isso fazendo uma relação da iya ngba com a virgem maria....

A confusão se inicia mais ainda com o Pe. Baudin, que sem saber nada dos Yoruba, junta Iya ngba com Odùduwà, transformando as 2 divindades em uma só. E mais junta Oxalá nisso e coloca os 2 dentro da cabaça do mundo descrita por Crowther.

No original de Veger:

... para completar essa embrulhada, intromete ousadamente Obatalá (Orixalá) no meio das duas meias cabaças descritas por Crowther, as quais viram uma cabaça única, munida de uma tampa. Completa esse "sutil ponto de vista" com uma estranha lenda (Baudin, 1884 b: 89) onde "Obatalá e Oduduá" estavam no princípio estreitamente apertados e como que encerrados numa grande cabaça - Obatalá no alto, sob a tampa, e Oduduá embaixo, afundados nas águas, envolvidos em profundas trevas, com a noite, o medo e a fome correndo em todas as direções... Oduduá ficou feia e cega em consequência de uma briga doméstica na qual Obatalá lhe arrancou os olhos para obrigá-la a ficar quieta.

Assim essa bobagem que existe no candomblé colocando Odùduwà como feminina e oxalá como masculino e dentro de uma cabaça, é uma idiotice originada de uma pessoa que não sabia sobre o que estava escrevendo, pior só tinha interesse em desinformar.

Pessoas aqui no Brasil e autores usaram os livros dessas pessoas para transmitirem isso como verdades. As pessoas aqui compraram essas histórias gerando distorções sobre a religião e pior se fundamentando em bobagem e mentiras.

Assim uma sucessão de pessoas que não conheciam o assunto que escreviam e que foram repetindo e também usando criatividade sobre o que liam gerou uma massa de desinformação sobre a religião Yoruba, que no nosso tema gira em torno do mito da 
Cabaça. Quem aqui não conhece essa figura da cabaça?

Baudin fez ainda mais confusão gerando uma dualidade inexistente entre Oxalá e Odùduwà e transformando Odùduwà em um orixá do gênero feminino.

Assim essas são 2 tolices que são repetidas por Babalorixás e Iyalorixá por muitos anos, o mito da cabaça e Odùduwà sendo Feminino. Verger desde 1982 já havia corrigido isso. É impressionante como as pessoas gostam de citar Verger sem nem ao menos ter lido.

É possível que parte da raiva de Verger sobre Juana foi justamente ela ter seguido esse mesmo caminho, interpretando informações ruins, copiando coisas erradas e pior gerando interpretações e análises por sua conta.

O texto original de Verger deve ser lido, tem muito mais informações do que eu transcrevi aqui.

A Sorte do Candomblé é que não fazemos o Orixá Odùduwà, senão o nível de besteira seria enorme. Azar dos Lukumi cubanos, que não só compraram as mesmas histórias como ainda fazem Odùduwà como Orixá e ainda, atribuem a ela a cor negra e outras coisas sinistras.

Este sim é um assunto que mereceria uma análise, porque como pode uma tradição de diáspora se apoiar em uma besteira inventada e criar Orixá e pior LITURGIA a partir disso.
Verger explica onde surgiu a ligação errada de Odùduwà com a cor negra, na verdade uma invenção ridícula, mas, não é o tema aqui, os Lukumi que se preocupem com isso porque eles estão errados em várias coisas, aliás incontáveis. Uma delas é estabelecer esse culto a Odùduwà, outra é fazer a ligação disso com o negro, o obscuro, Odùduwà lá é representado por um cofre e está ligado com o fim da vida. Os lukumi leram os livros errados na década de 80 e copiaram coisas erradas.

terça-feira, janeiro 21, 2020

O Cosmo Yorùbá - parte 1 - Introdução, visão geral do cosmo e ligação com astros

O Cosmo Yorùbá

INTRODUÇÃO


Este texto vai abordar uma parte bastante básica, mas, ao mesmo tempo, intrigante da religião Yorùbá que é o cosmo Yorùbá. É um tema difícil de ser abordado de forma original e quando decidi trazer esse assunto venho com a proposta de não cair no lugar comum de tecer uma teia emaranhada de referências que trazem complexidade e pouco ajudam as pessoas a entender a religião.


Alerto a todos. Este texto contém informações originais e importantes. Não perdi tempo. Tudo o que está escrito aqui tem uma razão prática.


Quando tratamos do cosmo, principalmente, e por seguinte da teogonia estamos no limiar onde a religião, por vezes, pode encostar na ciência em relação a forma como ela explica coisas e por outra a ciência explica a mesma coisa. Ao longo de toda a história da humanidade isso trouxe bastante confusão para a religião e um pouco de problemas para a ciência.


Quando tratamos de religião em seus aspectos de Fé, devoção e esperança nunca vamos ter problemas, mas, quando tratamos da forma como a religião explica o mundo e a vida para as pessoas, trazemos junto 2 complexidades. A primeira, são os laicos que contestarão os modelos metafísicos da religião, comparando-os com os modelos teóricos ou experimentais da ciência. A segunda trazemos a complexidade inadequada que mencionei no início, de tratarmos de uma tema, apenas por ele só, é a religião em um círculo vicioso dentro dela mesma, sem trazer um significado útil as pessoas.


Defendendo a religião, minha posição é que esta exposição é inadequada, a religião não pode ter a presunção ou o objetivo de explicar as coisas físicas. A religião tem o compromisso com o supernatural e não com o natural.


Os problemas que o catolicismo teve foram causados por um uso inadequado da religião, eles escreveram um livro e os seus fiéis passaram a dizer que tudo no mundo era como foi escrito. Não tenho nada contra a fé deles, mas, alguém não explicou para eles direito o que é religião. Além disso existe um grande componente de poder envolvido em tudo que envolve a teologia católica. Não dá para perdermos tempo tratando com coisas inventadas ou inseridas para criar poder. Os livros sagrados deles e seus dogmas não nasceram de deus ou de jesus, nasceram deles mesmos. Existem decisões de concílios que são absurdos históricos e nunca foram ou serão revistas, trazendo obscuridade a religião católica. Se no passado a igreja esteve mergulhada em um caminho ruim, mas mudou, não se pode preservar esse momento ruim mantendo definições historicamente desprovidas de ética, moral ou razão.


Assim o que digo a todos antes de iniciar o meu texto é que esqueçam esses fatos. Religião trata do supernatural.


Minha visão de religião é bem prática. Religião nos faz pessoas melhores para nós mesmos, para nossa família e para nossa comunidade. Toda religião deve ter essa finalidade. Junto com a visão metafísica da vida e do mundo a religião, de forma, mais útil, nos ensina a lidar com o supernatural. Assim a religião, no meu modo de explicar, não se contêm dentro dela mesma, ela não existe para as pessoas se submeterem a um clero e adorarem um deus, qualquer, o dia inteiro. Isso, quando ocorre é a manifestação negativa do fenômeno religioso.


A religião tem um sentido prático, na visão que eu aprendi, nos faz melhores, como já disse, dá uma visão de futuro para nossa vida, um sentido para existirmos e, por fim, nos ensina a recorrer ao supernatural para resolvermos problemas e situações.

Dessa maneira tudo o que devemos abordar sobre uma religião deve ter esse contexto prático e útil. 


O cosmo se insere nisso, todo mundo tem uma verdadeira fixação por esse tema e sobre a gênese, a história da criação do mundo de acordo com a religião é um dos temas mais populares, todo mundo quer saber.


Ninguém sabe como tudo foi criado, mesmo a ciência tem teorias complexas que mentes simples não conseguem entender. Assim as pessoas buscam na gênese religiosa a explicação sobre a origem de tudo.


Mas a realidade é que fora o aspecto pirotécnico disso, a utilidade é bem pequena, você pode passar a vida toda em uma religião sem saber qual a sua história da gênese e isso não fazer a menor diferença.


A religião Yorùbá é bem completa em sua teologia e desta forma tem sua gênese, é uma história decente e que tem mais de uma versão, isto é, é a mesma história com variações regionais. Ela será abordada no final deste texto, mas, não vamos nos fixar nisso.

O que importa aqui?


O que importa é entender como a religião Yorùbá define o seu cosmo e como ele é composto, precisamos saber disso porque isso é parte do conhecimento necessário para interagir com o supernatural.

Este então é o sentido prático que me faz trazer esse tema.

O cosmo yorùbá


Os yorùbá concebem o cosmo consistindo de 2 partes distintas e reinos inseparáveis. O Àiyé é o mundo natural ou físico ou tangível e o Órun (Ọ̀run) é o mundo espiritual, reino dos ancestres, deuses e espíritos.


Essa concepção cósmica é materializada pelos yorùbá através de uma cabaça dividida em duas partes, um hemisfério superior e um hemisfério inferior. O hemisfério superior representa o Órun (Ọ̀run) e o inferior o Àiyé.


A borda que une as 2 metades pertence a Órunmila (Ọ̀rúnmìlà), a Ifá que é a comunicação divina entre os dois reinos e a Exú (Èṣù) que é o mensageiro e o portador do axé (àṣẹ) de Olódùmarè. O opon (Ọpọ́n Ifá) é a ferramenta do Bàbáláwo que representa de forma reta, plana, a concepção do mundo segundo os yorùbá. O Bàbáláwo quando usa o opon (Ọpọ́n Ifá) está colocando de forma plana o cosmo yorùbá e é nela que é registrada comunicação entre os reinos através dos Odù de Órunmila (Ọ̀rúnmìlà).


Se a cabaça é a representação do cosmo yorùbá o opon (Ọpọ́n Ifá) é a representação da divisão entre os mundos, é o opon (Ọpọ́n Ifá) que une os 2 mundos, as 2 metades da cabaça e, assim, o que se risca no opon (Ọpọ́n Ifá) é o Odù recebido do órun (Ọ̀run). O opon (Ọpọ́n Ifá) é desta maneira uma representação plana do cosmo yorùbá e por esta razão é considerado sagrado pelos Bàbáláwo que reagem ao seu uso fora do culto de Ifá.

O opon (Ọpọ́n Ifá) pode ser uma tábua retangular e nesse casos os Bàbáláwo dizem que ela remete aos 4 cantos do mundo. O àárín opon (Ọpọ́n) é o meio do opon (Ọpọ́n Ifá) o espaço que representa a intersecção do órun (Ọ̀run) com o Àiyé.


Um outro instrumento significativo do Bàbáláwo é o bastão òpá òsùn ou òpá òṣòrò, o bastão de ferro que identifica o Bàbáláwo. Este é um instrumento de proteção do Bàbáláwo e a figura do pássaro que fica acima é a representação do abutre, ave sagrada dos yorùbá e que leva os sacrifícios para o órun (Ọ̀run).


De acordo com a tradição oral yorùbá, a presença de Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) na criação do indivíduo, faz com que ele tenha o conhecimento de todo os objetivos dos seres humanos para sua vida no Àiyé.


Houve uma época que Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) podia transitar facilmente entre os 2 reinos, porém depois de uma briga com um de seus 8 filhos ele partiu para órun (Ọ̀run) e disse que nunca mais voltaria.


Os filhos pediram para ele voltar mas ele disse que não seria possível e deu, então, para seus 8 filhos 16 ikins (caroços de dendezeiros) para que pudessem levar para elas suas questões (essa história pertence ao Odù Ìwòrì Méjì).


Devemos ter atenção que os yorùbá não veem o universo como uma cabaça, isso é uma representação artística para o conceito de 2 reinos, o natural e o supernatural que são unidos e inseparáveis. O que importa é que os Yorùbá dividem seus cosmo em 2 reinos, que a comunicação entre eles é através de Ifá e que a casa das pessoas é o órun (Ọ̀run) sendo o Àiyé um ciclo de passagem, um lugar onde as pessoas renascem para viver juntas em uma aventura.


Como está na figura abaixo, temos uma representação artística do cosmo yorùbá, essa representação não tem função litúrgica e não é uma relíquia. É uma trabalho de arte e foi recolhida por Froebenius, no início do século XX.


A metade superior da cabaça é chamada de Igbà Ìwà, a cabaça da existência e representa o mundo espiritual, o órun (Ọ̀run), o domínio de Olódùmarè. A parte inferior representa as águas primordiais a partir das quais o mundo físico foi criado, o Àiyé.

Alerto que ninguém tem que ficar olhando para essa cabaça e falando que é o universo no modelo yorùbá. Como eu disse é uma representação artística uma forma simples de mostrar as coisas para pessoas que tem dificuldade de lidar com o abstrato.

Não pode deixar de comentar que já ouvi falar de gente que está fazendo Igba Ori usando uma cabaça deste tipo. Com sinceridade, essas pessoas comeram obi estragado. Lembro que nem cubanos e muito menos nigerianos sabem qualquer coisa de Ori.

 

Um exame mais detalhado da idéia yorùbá para o modelo do cosmo, como uma cabaça com 2 metades revela, de fato, outro conflito que clareia a integração dos gêneros na concepção yorùbá do mundo e afasta uma visão de paternalista da sociedade, pelo menos na visão da religião.


As duas partes da cabaça se uniam firmemente no início dos tempos, sendo que a parte superior representava Olódùmarè, chamado de Ajàlórun e a parte de baixo representava a feminidade, a terra e a água, chamada de Ajàjáyé. Neste tempo Ajàlórun interagia com Ajàjáyé, mas, um dia ele brigaram por causa do único rato do mato (èkúté) que eles haviam encontrado quando estavam caçando juntos na floresta. Ajàjáyé disse o que o èkúté era dela porque ele estava em seu domínio e ela sera a superior ali. Ajàlórun se retirou com raiva e forçou a separação da Igbá Ìwà em duas partes. Essa separação causou a interrupção da chuva em cair do céu, interrompendo o ciclo reprodutivo do mundo terrestre, como consequência, Ajàjáyé teve que reconhecer a posição superior do céu masculino como cabeça do cosmo. As 2 metades de reconciliaram e tudo voltou ao normal (Idowu, God in yorùbá belief; Abimbola, Sixteen great poems of Ifá).


Não podemos falar do cosmo sem mencionar a divindade Òṣùmàrè, mas de uma forma nova para muitos.


A divindade yorùbá Oxumarê (Òṣùmàrè) é considerada como representada pela manifestação do arco-iris, atenção não é o arco-iris, o arco-iris a representa, e isso representa a ligação entre o órun (Ọ̀run) e e Àiyé. Em termos Yoruba esta é a principal identificação de Oxumarê (Òṣùmàrè), o arco-iris. A associação principal de Oxumarê (Òṣùmàrè), com cobra é feita pela tradição do Candomblé Jeje, que é outra religião, lá trata-se de Dan, não devemos misturar isso.


Oxumarê (Òṣùmàrè) também é representado por 2 serpentes, em yoryba Eré (python, jibóia) com 2 cabeças. Nessa representação esta ligado a saúde. Oxumarê (Òṣùmàrè) é associado com prosperidade e saúde e ainda os yorùbá associam Oxumarê (Òṣùmàrè) a faxa colorida (òjá) usada pelas mulheres para segurar os filhos nas costas.

O arco-iris é como uma cobra colorida ligando a terra ao céu ou o Àiyé ao órun (Ọ̀run). Esta é a principal e mais importante significação de Oxumarê (Òṣùmàrè), é com isso que na religião yorùbá as pessoas devem ter atenção e não com zoomorfismos retrógrados. O que importa é o contexto sacro, teológico, é isso que traduz o orixá (Òrìṣà) para nós.

Existe uma misteriosa correlação entre Oxumarê (Òṣùmàrè) e Olódùmarè como é levemente destacada por Idowu e também por Lawal. A palavra marè significa imenso, infinito ou eterno, aparece em ambos os nomes, Òṣù-màrè e Olódù-marè. O arco-iris seria a comunicação de Olódùmarè e seu par a terra.


Lawal que estuda arte yorùbá cita que Oxumarê (Òṣùmàrè) pode ter tido uma posição muito mais proeminente na religião em tempos antigos. A cobra (Eré) aparece com frequência em motivos da arte yorùbá em uma posição superior, pairando sobre as coisas.
Tenha atenção que Oxumarê (Òṣùmàrè) não é identificado com qualquer cobra e sim um tipo específico.



Na figura anterior, um agere Ifá, conteiner onde o Bàbáláwo armazena os seus ikins, podemos ver a figura da cobra sobre tudo, como que protegendo as figuras humanas. A figura masculina é identificada como um Bàbáláwo e essa representação relembra o mito que Oxumarê (Òṣùmàrè) faz a ligação entre o órun (Ọ̀run) e o Àiyé, transmitindo os segredos cósmicos para a divindade Órunmila (Ọ̀rúnmìlà).


Considerando que Exú (Èṣù) é uma divindade que também está associada a essa comunicação não é incomum os desenhos da cobra aparecerem junto com os de Exú (Èṣù) em altares dedicados a Exú (Èṣù).


Minha visão é um pouco diferente, Exú (Èṣù) é a divindade que porta o axé (àṣẹ) entre o órun (Ọ̀run) e o Àiyé e é quem leva os sacrifícios junto com o Oxéotuwa, conforme documentado nos versos do Odù Oxéotuwa (Ọ̀ṣẹ́-Otùwá). Atribuir a comunicação a Exú (Èṣù) pode ter sido uma simplificação de conhecimento que foi se perdendo. Neste modelo, sim existe espaço para que Oxumarê (Òṣùmàrè) seja a divindade da comunicação entre o órun (Ọ̀run) e o Àiyé.


Minha experiência pessoal como Bàbáláwo, com isso trouxe muita ligação com o orixá (Òrìṣà) Oxumarê (Òṣùmàrè). Quando evolui com minha prática uma das coisas que tive que fazer foi o assentamento para Oxumarê (Òṣùmàrè). Veja que, venho de Candomblé e não sou de fazer assentamentos como negócio e muito menos como placebo, minha visão de assentamentos é muito distinta dos placebos comercializados por cubanos e nigerianos, tenho o mínimo que preciso e tudo o que tenho foi extensivamente demandado a mim, Oxumarê (Òṣùmàrè) foi um desses.


A ligação enter Exú (Èṣù), Oxumarê (Òṣùmàrè) e Olódùmarè aparece inclusive na abreviação dos nomes. Oxumarê (Òṣùmàrè) é abreviado como Éṣùmàrè e Olódùmarè é abreviado como Èdùmàrè (Abraham, Dictionary of modern yoruba).

Algumas referências e trabalhos de arte yorùbá podem sugerir uma relação de Oxumarê (Òṣùmàrè) com a própria terra, Ilé Àiyé, mas isso não tem comprovação hoje, faltam melhores informações, apenas existe a sugestão que essa divindade teria um papel maior no contexto teogônico. Apesar essas informações que coloco aqui já são bastante significativas do que apenas ficar tratando Oxumarê (Òṣùmàrè) de uma divindade-cobra, lembrando que na religião yorùbá não temos casos de zoomorfismo entre divindades e o próprio Oxumarê (Òṣùmàrè), como disse deve ser representado pelo arco-iris.
 

A ligação dos yorùbá com corpos celestes


O cosmo yorùbá é concentrado na nossa vida no Àiyé, conforme disse, são dois mundos. Nesse cosmo o papel de outros corpos estelares como sol, lua e estrelas é bem reduzido. Não existe nenhum mito que explique a criação deles, eles apenas existem. Também não tem nenhuma importância especial.


O sol é Oòrùn e a lua é Òṣùpá. As estrelas são ìràwò. Todos esses corpos estão sob o controle do axé (àṣẹ) de Olódùmarè e existem para sustentar a vida no Àiyé através da luz e das marés. As estrelas são apenas filhos ou filhotes da lua.


Nos versos de Ifá o Sol fez o ebó (Ẹbọ) recomendado de modo que ele sempre brilha, é a prosperidade perene e a lua que não fez o ebó (Ẹbọ) recomendado tem a prosperidade vaga-lume, aquela que se ganha e perde.


Os movimentos solares e lunares estão associados com os 4 pontos cardiais, que também nessa religião não assumem nenhum significado especial. O leste é chamado de ìlà órun (Ọ̀run), o oeste de ìwọ̀ órun (Ọ̀run), o norte de àrìwá e só sul de Gúúsù. Existe a crença que eles são monitorados por uma divindade de 4 cabeças chamada de Olórí mẹ̀rin. Cada ponto é associado a uma divindade principal, mas isso varia de lugar para lugar. Xangô (Ṣàngó) é normalmente associado com o leste, Oxalá (Òṣàlá) é associado com o norte, Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) com o oeste e Odùduwà como sul.


Além disso é feita a associação dos pontos cardiais com a duração do dia, desta maneira o nascer do sol é associada ao leste (áfẹ̀mọ́júmọ́), a manhã ao nordeste (òwúrọ̀ / àárọ̀), o meio dia ao norte ( ọ̀sán gangan), tarde ao noroeste ( ọ̀sán), o crepúculo ao oeste ( aṣálẹ́), a noite ao sudoeste (alẹ́), a meia-noite ao sul (ọ̀gánjọ́) e depois a meia-noite a madrugada ao sudeste (òru).


A semana tradicional yorùbá era associada aos movimentos da lua, por isso era de 4 em 4 dias. O mês yorùbá era calculado como o período entre 2 luas iguais, o que fazia um mês com uma média de 28 dias e um ano com 13 meses.

A lua tem uma relação com as cerimônias ou festivais devido ao calendário ser lunar. Em termos de fenômeno da natureza é mais significativa o trovão e o raio do que lua ou sol.

Apesar destas relações listadas não posso relacionar nenhuma influência dos astros em liturgias ou oferendas, em versos de Ifá que eu li, nunca encontrei nada que fosse relevante.


Existe uma associação de Odù com pontos cardiais, mas, isso tem origem em um único material que é o livro de Leo Froebenius, escrito no início do século XX. É a fonte única para esse tema. No livro existe a associação dos 4 Odù iniciais com os 4 pontos cardiais, mas, sem nenhuma explicação melhor, apenas isso e nenhuma referência ao que dizer dos demais 12 signos, eu sugiro ignorar isso, essa não é uma boa referência.

Dessa maneira aqueles ligados a exoterismos que buscam na religião yorùbá os seus ganchos, lamento, a relação entre a religião yorùbá e o supernatural não passava pelos astros do céu, os yorùbá eram totalmente ligados na terra.