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domingo, abril 19, 2026

 Oxé otuwa – Óxun (Ọ̀ṣun) se vira contra os orixá (Òrìṣà)

Os versos abaixo são uma parte do Odù Oxé otuwa onde é mostrado o que Óxun (Ọ̀ṣun) fez contra os demais orixás (Òrìṣà) que a estavam desprezando como uma igual.

… Orunmila diria a essa pessoa que

é a Orò que ela devia adorar.

E ela seria conduzida à floresta de Orò.

Eles seguiram essas práticas durante muito tempo. Enquanto realizavam as diversas oferendas, eles não chamavam Oxun.

Cada vez que iam à floresta de Eégun,

ou à floresta de Orò,

ou à floresta de Ifá.

ou à floresta de ooxa,

a seu retorno, os animais que eles tinham abatido,

fossem cabras,

fossem carneiros,

fossem ovelhas,

fossem aves,

entregavam-nos a Oxun para que ela os cozinhasse.

Preveniram-na que quando ela acabasse de preparar os alimentos,

não devia comer nenhum pouco, porque deviam ser

levados aos Malè, la onde as oferendas são feitas.

Oxun começou a usar o poder das mães ancestrais —

- e a estender sobre tudo o que ela fazia

esse poder de ìyá-mi-àjé, que tornava tudo inútil.

Se se predissesse a alguém que ele ou ela não fosse morrer,

essa pessoa não deixava de morrer.

Se fosse proclamado que uma pessoa não sobreviveria,

a pessoa sobrevivia.

Se se previsse que uma pessoa daria a luz um filho,

a pessoa tornava-se esteril.

Um doente a quern se dissesse que ele ficaria curado

não seria jamais aliviado de sua doença.

Essas coisas ultrapassavam seu entendimento,

porque o poder de Olódùmarè jamais tinha falhado.

Tudo o que Olódùmarè lhes havia ensinado eles o aplicavam,

mas nada dava resultado.

Que era preciso fazer?

Quando se congregaram numa reunião,

Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) sugeriu que,

já que eles eram incapazes de compreender o que se estava passando por seus próprios conhecimentos,

não havia outra solução senão consular Ifá novamente. Em consequência, Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) trouxe seu instrumento adivinhatório,

depois consultou Ifá.

Contemplou longamente a figura do Odù que apareceu

e chamou esse Odù pelo nome de óxétua,

Ele o olhou em todos os sentidos.

A partir do resultado definitivo de sua leitura,

Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) transmitiu a resposta a todos os outros Odù-àgbà.

Estavam todos reunidos e concordaram que não havia outra solução para todos eles,

os Orixá -irumale, senão encontrar um homem sábio e instruído que pudesse ser enviado a Olódùmarè

para que mandasse a solução do problema

e o tipo de trabalho que devia ser feito para o restabelecimento da ordem,

a fim de que as coisas voltassem a normalizar-se, e

nada mais interferisse em seu trabalho.

Diziam que tudo o que acontecesse,

Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) , deveria ir até a Olódùmarè.

Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) ergueu-se. Serviu-se de seu conhecimento para utilizar a pimenta,

serviu-se de sua sabedoria para tomar nozes de obi,

despregou seu òdùn (tecido de rafia) e o prendeu no seu ombro,

puxou seu cajado do solo,

um forte redemoinho o levou, e

ele partiu até os vastos espaços do outro mundo para encontrar Olódùmarè.

Foi la que Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) reencontrou Exu òdàrà.

Exu já estava com Olódùmarè.

Exu fazia sua narração a Olódùmarè. Explicava que

aquilo que estava estragando o trabalho deles na terra

era o fato de eles não terem convidado a pessoa que constitui a décima sétima entre eles.

Por essa razão, ela estragava tudo.

Olódùmarè compreendeu.

Assim que Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) chegou, apresentou seus agravos a Olódùmarè.

Então Olódùmarè lhe disse que deveriam ir e

chamar a décima sétima pessoa entre eles

e leva-la a participar de todos os sacrifícios

a serem oferecidos.

Porque, além disso,

não havia nenhum outro conhecimento que Ele lhes pudesse ensinar

senão as coisas que Ele já lhes havia dito.

Quando Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) voltou a terra,

reuniu todos os Orixá

e lhes transmitiu o resultado de sua viagem.

Chamaram Óxun e lhe disseram que ela deveria segui-los

por todos os lugares onde deveriam oferecer sacrifícios,

mesmo na floresta de Eégún.

Óxun recusou-se:

ela jamais iria com eles.

Começaram a suplicar a Óxun e ficaram prostrados um longo tempo.

Todos começaram a homenageá-la e a reverenciá-la.

Óxun os maltratava e abusava deles.

Ela maltratava Orixá (òrìṣà nlá)

maltratava Ògún,

maltratava Órunmila (Ọ̀rúnmìlà)

maltratava Osayin (Ọ̀sányìn),

maltratava Oranfe (Ọranfe),

ela continuava a maltratar todo mundo.

Era o sétimo dia, quando Óxun se apaziguou.

Então eles lhe disseram que viesse.

Ela replicou que jamais iria,

disse, entretanto, que era possível fazer uma outra coisa

já que todos estavam fartos dessa história.

Disse que se tratava da criança que levava no seu ventre. Somente se eles soubessem como fazer para que ela desse a luz uma criança do sexo masculino,

isso significaria que

ela permitiria então que ele a substituísse

e fosse com eles.

Se ela desse a luz uma criança do sexo feminino,

podiam estar certos de que essa questão

não se apagaria em sua mente.

Ficariam ai pedaços, pedaços e pedaços.

E eles deveriam saber com certeza que

esta terra pereceria;

deveriam criar uma nova.

Mas se ela desse a luz um filho-homem,

isso queria dizer que, evidentemente, o próprio Olódùmarè os tinha ajudado.

Assim se apelou para Orixá lá e para todos os outros Orixá para saber o que deveriam fazer para que a criança fosse do sexo masculino.

Disseram que não havia outra solução

a não ser que todos utilizassem o poder — Axé (àṣẹ) —

que Olódùmarè tinha dado a cada um deles; cada dia repetidamente

deveriam vir, para que a criança nascesse do sexo masculino.

Todos os dias iam colocar seu àṣẹ — seu poder —

sobre a cabeça de Óxun,

dizendo o que segue. "Você Óxun!

Homem ele devera nascer, a criança que você traz em si!"

Todos respondiam "assim seja", dizendo

“tó!” acima de sua cabeça...

Assim fizeram todos os dias, até que chegou

o dia do parto de Óxun….

 

Notas do autor

 

Apesar de todo o poder dos orixás (Òrìṣà) reunidos, bastou Ọ̀ṣun tomar a decisão de agir contra eles para que nada mais funcionasse. Esse ponto é fundamental: não se trata de força bruta, nem de hierarquia, mas de função. Quando o princípio que realiza a existência se retira — ou se volta contra a ordem —, a própria realidade deixa de responder.

Mais uma vez, torna-se evidente o enorme poder que existe nas mãos de Ọ̀ṣun e, por extensão, no princípio feminino. Trata-se do poder de realização, de manifestação. Sem a participação desse princípio, nada se concretiza. É com base nesses versos que compreendo Ọ̀ṣun como a expressão mais clara do poder feminino fundamental.

Se alguém ainda não percebeu isso, é importante compreender: a palavra que define essa religião é equilíbrio.

Apesar de, no plano litúrgico de Ifá, a mulher ocupar uma posição aparentemente secundária, é justamente nela que reside a origem do poder que se manifesta sobre a terra. Essa afirmação, embora simples na forma, é profunda no conteúdo e, muitas vezes, pouco compreendida.

Ifá não propõe uma igualdade de funções, mas uma complementaridade estrutural. Os princípios não são idênticos, porque não exercem a mesma função. A tentativa de igualá-los ignora a própria lógica do sistema.

As mulheres que, atualmente, querem ser como um Bàbáláwo e fazer as mesmas coisas que ele, estão muito distante de entenderem a complexidade com que estamos lidando.

Olódùmarè não criou indivíduos iguais. Se a igualdade fosse o objetivo, a própria diferenciação não existiria. O modelo adotado é mais complexo: seres distintos, com capacidades distintas, que se complementam e, ao mesmo tempo, se tensionam dentro do próprio funcionamento da realidade.

Nas religiões, as mensagens simbólicas são densas e exigem leitura cuidadosa.

Nesse ponto, é inevitável lembrar a antiga religião grega. No mito, a humanidade inicial vive em uma condição simples até que Prometeu concede o fogo — símbolo da autonomia, da técnica e da capacidade criadora. Zeus, então, introduz Pandora.

Uma leitura superficial interpreta Pandora como punição. Essa leitura é pobre. Pandora representa a introdução da complexidade. O “jarro” não é apenas fonte de males; ele é o conjunto de condições que tornam a vida humana completa: responsabilidade, dor, continuidade, imprevisibilidade. O jarro é o presente de Zeus aos homens para o seu novo status conquistado.

Prometeu concede autonomia; Pandora introduz a totalidade da experiência humana independente dos deuses. O homem deixa de ser apenas escravo dos deuses.

Prometeu dá à humanidade independência; Pandora dá à humanidade completude. Com Prometeu, o homem deixa de depender imediatamente dos deuses; com Pandora, a vida humana deixa de ser unilateral e passa a existir sob a forma de complementaridade, responsabilidade, geração e equilíbrio.

Cabe lembrar que essa condição inicial de serviçal dos deuses e depois a conquista da autonomia também é refletida na Gnose cristã.

Na religião grega, essa divisão masculino-femino também se manifesta ritualmente. Existem esferas de poder exclusivamente femininas, como a Tesmofória, dedicada a Deméter e Perséfone. Isso mostra que o feminino não é acessório, mas estrutural dentro da ordem religiosa.

A união homem-mulher pode ser entendida como símbolo de complementaridade estrutural, não só de reprodução. Em termos simbólicos, o ponto não é “o homem precisava de sexo”; é que a humanidade precisava da dualidade. O feminino introduz um outro eixo de existência — mediação, gestação, continuidade, rito, vínculo, interioridade, ordem doméstica e religiosa — sem o qual a autonomia trazida por Prometeu ficaria incompleta e talvez destrutiva.

A ignorância da complexidade do cosmo, a falta de sabedoria é o que faz a mulher querer ser igual ao homem e fazer o mesmo que ele. Esta não foi a criação de deus.

A humanidade não teria futuro com seres hermafroditas? Não creio. A própria diferenciação entre os princípios revela que a realidade não se ordena pela uniformidade, mas pela complementaridade estrutural.

O mesmo padrão pode ser observado no judaísmo. Após criar Adão, Deus não o mantém como uma realidade autossuficiente. A mulher surge como complemento necessário. Reduzir Eva à origem do pecado é uma leitura simplista.

Em uma leitura mais profunda, Eva representa a introdução da humanidade na historicidade. A partir dela, o ser humano deixa a inocência tutelada e passa a viver na condição de escolha, responsabilidade e conhecimento. A serpente não obriga; ela revela uma possibilidade. A decisão é humana.

Assim, o evento do Éden pode ser compreendido não apenas como queda, mas como passagem: da dependência para a autonomia, da simplicidade para a complexidade, da inocência para a responsabilidade.

Nesse sentido, Eva não apenas conduz Adão à queda, mas à passagem para outro patamar: o da consciência, da sabedoria e da autonomia. Como em Prometeu, o que se conquista não é uma liberdade sem custo, mas uma condição mais elevada e mais pesada. O casal ganha conhecimento, capacidade de autodeterminação e participação mais ativa no mundo da vida, inclusive na geração da vida; mas ganha isso junto com o peso do trabalho, da dor, do risco e da responsabilidade. Não recebem apenas punição: recebem um mundo a habitar, ordenar e conquistar.

Eva não deve ser lida apenas como mediação do pecado, mas como mediação da historicidade humana. Por ela, o homem deixa a simplicidade paradisíaca e ingressa numa existência mais complexa, em que sabedoria, autonomia, fecundidade e responsabilidade aparecem juntas. A serpente não cria a vontade do casal, apenas lhe apresenta a possibilidade. A escolha é deles. Por isso, o evento do Éden pode ser lido não só como queda, mas como passagem da inocência dependente para a autonomia onerosa. Assim como Prometeu introduz a humanidade numa condição de existência menos dependente do divino, Eva introduz o homem numa humanidade mais plena, embora mais pesada: consciente, fecunda, laboriosa e responsável por seu destino.

O que Ifá apresenta, por meio de seus versos, é essa mesma estrutura profunda. Não se trata de um sistema isolado, mas de uma expressão coerente de um modelo metafísico que aparece, sob formas diferentes, em diversas tradições.

Contudo, Ifá vai além da descrição: ele organiza essa realidade.

No cosmo yorùbá, o poder feminino e o masculino não se opõem; eles se equilibram. O masculino representa a estrutura, a ordem, o método. O feminino representa a potência, a realização, a eficácia.

Os dois são inseparáveis.

Em termos metafísicos, trata-se da relação entre ato e potência. O ato define; a potência realiza. Sem potência, nada acontece. Sem ato, nada se organiza.

É nesse sentido que afirmo: o Bàbáláwo não é o poder. Ele é o operador da ordem. Ele atua no plano do ato, organizando aquilo que só se realiza plenamente quando encontra a potência.

Essa lógica não está apenas na teologia, mas também na organização da própria sociedade yorùbá.

Tradicionalmente, o homem está ligado à produção: ao trabalho no campo, à criação, à geração de recursos. A mulher, por sua vez, está ligada ao mercado, à circulação, à transformação desses recursos em riqueza social.

A produção, por si só, não gera valor social. É a circulação que realiza esse valor. Assim, mais uma vez, vemos o mesmo princípio: o masculino estrutura; o feminino realiza.

Essa não é uma hierarquia. É uma função.

E é exatamente isso que os versos de Ifá revelam quando são compreendidos além da superfície narrativa.