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sábado, março 07, 2015

Ori o guardião do nosso destino

Orí o guardião do nosso destino

Orientações e explicações de como entender, se equilibrar e viver melhor através de Orí


revisão 4



O que é Orí?



O objetivo deste texto não é explicar totalmente o que é Orí. Este é um conceito muito importante na religião Yorùbá e será abordado na sequência sobre o Cosmo Yorùbá. Ori é parte do conceito de individualização e é necessário explicar o que é isso. Não existe explicação decente sobre Ori sem falar sobre o seu humano na religião.

Desta forma este texto poderá ser um pouco hermético para muitos neófitos que estejam apenas acompanhando as publicações, mas, para pessoas que já sejam da religião, sem dúvida, elas já ouviram falar de Orí. Como muitas palavras Yorùbá esta também tem mais de um significado e uso o que as vezes torna ela complexa de ser entendida.

Ori é usado para se referenciar a 2 coisas principais. A primeira é a nossa cabeça. Cabeça é Ori. Os Yorùbá entendem que a cabeça é uma parte importante do corpo e nela reside aspectos marcantes de nossa vida. Nossa consciência esta na nossa cabeça bem como componentes adicionais e auxiliares também estão. A cabeça é o repositório de nossa axé (aṣẹ́), da ligação com o nosso orixá (Òrìṣà) e da ligação com nosso passado e ancestralidade.


O Ori é o repositório de nosso axé (aṣẹ́), da ligação com o nosso orixá (Òrìṣà) e da ligação com nosso passado e ancestralidade. Existe o que se chama o Ori exterior e o Ori interior. O Orí exterior não é nada demais é a cabeça que vemos. O Orí interior são essas virtudes e propriedades que carregamos na nossa vida vindos do Orun.

Ortodoxamente dizendo, o nosso Ori está ligado apenas a nossa capacidade de prosperar aqui no àiyé. Decepcionados? Pois é, é isso. Essa explicação está no Odu Ogunda Meji, na história de Afawupé, filho de Orunmila. Um bom Ori nos permitirá prosperar com mais facilidade e rapidez. Mas o sucesso de uma pessoa apenas se realiza de ela tiver Iwa Pele, um bom caráter, ou o axé da prosperidade. Essas 2 coisas, o Ori e o Iwa são selecionados por nós antes de nascermos. Se formos bem-sucedidos nesta escolha teremos uma vida-longa e próspera.

A escolha desses elementos deve ser feita de forma planejada no Orun. Para isso, no Orun consultamos Ifá. Além de escolhermos um bom Ori e Iwa também iremos fazer os sacrificios e oferendas que garantirão o nosso sucesso. Nem todas as pessoas que nascem fazem isso, muitas decidem vir para cá contando com a sorte.

Orí faz parte do contexto da nossa vida no aiye, mas esse contexto tem mais elementos. Isso começa quando definimos os objetivos para a nossa vida, para a encarnação que teremos. Vamos então a Olodumare pedir para viver com aqueles objetivos e duração. Olodumare nos concede e com isso vamos receber instrumentos que viabilizarão a nossa aventura no Aiye.


Sim, a vida é encarada como uma aventura, uma aventura de sentimos, experiência e sensações que somente aqui no Aiye teremos. Além disso vamos ter o convívio com nossa família. Baseado no objetivo de vida que escolhemos (ou nosso destino), nós vamos receber um Odù que é o axé de Olodumare para atingirmos esses objetivos,  vamos receber um Orixá que nos acompanhará no aiye e vamos receber elementos que comporão nosso axé.

A esse conjunto devemos somar o Ori escolhido junto a Ajalá, o Iwa e nosso Ipori que é nosso vínculo ancestral. 

Nós mesmos, nossa essência, se adiciona a este conjunto de coisas e nosso destino pedido e legado formando a nossa individualidade. Dessa forma Orí é apenas uma parte deste contexto. Oportunamente vou escrever explicando isso tudo.

No Candomblé o Orí ganha uma importante enorme, como se fosse tudo em nossa vida, mas não é bem assim....


Oops, antes tenho que fazer um alerta. Apesar de eu estar falando aqui de Candomblé, lembro que Candomblé não é homogêneo, é um conjunto heterogênio de 2 religiões, 2 cultos distintos e várias nações. Coisa que são aplicáveis a um segmento não são aplicáveis a outro.

Estou aqui, como sempre, falando do Candomblé da religião Yoruba, culto de orixá.

As nossas demais virtudes como o Ipori que é nossa ligação com a ancestralidade, o nosso orixá (Òrìṣà) e o nosso caráter, também fazem parte de nós e determinam nossa vida como um todo. Orí é importante mas não resume tudo, posso dizer que está muito mais ligado ao axé (aṣẹ́).

Entretanto, esses conceitos não são de muita utilidade. Apenas dizem como nossa alma é formada e como nos ligamos ao orun e a personalização de nossa vida. O que eu expliquei trata de elementos estáticos, a gente nasce com eles e eles nos explicam.

O segundo e mais importante significado da palavra Orí é quando nos referenciamos a nossa divindade pessoal, o nosso anjo da guarda ou guardião protetor. Os Yorùbá entendem que temos no Órun (ọ̀run) um duplo, um espirito protetor que nos protege e guia os nossos rumos. Esse espírito está acima das demais divindades no que diz respeito a nossa vida. Nada pode ocorrer com a gente sem a permissão de nosso Orí, nem mesmo o orixá (Òrìṣà) tem superioridade a ele.

Essa divindade pessoal é nosso maior bem espiritual e é para ela que rezamos. Assim quando rezamos não estamos rezando para nossa própria cabeça, estamos rezando para o nosso guardião no Órun (ọ̀run). Desta forma, quando falamos de Ori podemos estar nos referenciando ao que trazemos com a gente ou a nossa divindade pessoal. A maior parte de nossa atenção deve ser com a nossa divindade pessoal.

Esta é a parte dinâmica do conceito de Orí. Esta é a divindade que nos protege e nos orienta e é este vínculo que temos que cuidar. A cerimônia de Bori, a mais importante do Candomblé tem algumas finalidades. A primeira é a de repor axé. Axé é a energia da vida, é a quintessência que existe em todos os seres e que nos é dada apenas por deus, por olodumare. O Bori e as liturgias do Candomblé tratam de repor, equilibrar e transmitir axé. A segunda finalidade é criar ou melhorar a ligação entre orun-aiye do nosso Ori. Através do Bori nós melhoramo essa ligação e isso permite a nossa divindade protetora melhorar sua interação e influência em nossa vida.

O que nos ajuda na vida é o binômio Ori-Orixá, Nosso anjo guardião e nosso Orixá são as divindades que nos suportarão diretamente em nossa vida e sucesso. Nenhuma das duas deve ser ignorada e não se vai a lugar algum sem as duas. Temos apenas 1 Orixá, o Orixá de nascença, aquele que vem como parte de nosso Ori. Nosso orixá é dessa maneira tão importante como a divindade pessoal Orí. Orí nos dá proteção mas dá principalmente rumo e orientação. Nosso orixá é quem age na solução de nossos problemas. Isso está no odù Oxé-otuwa.

O que esta religião espera da gente é que sejamos pessoas dignas. O que esperamos da vida é que ele seja alegre, prazeiroza, desafiadora e aventureira. Ninguém nasce para ser infeliz. Não vivemos para a religião e sim vivemos com a religião.


Rezando para Orí



Como em qualquer religião os Yorùbá tem suas rezas. Elas são chamadas de igbàdúrà ou agbàdúrà. Essa é uma palavra derivada do verbo Gbàdúrà que significa rezar. O sentido é o mesmo, uma prece é um meio mecânico, através de repetição de palavras que usamos para nos conectar com o divino. Representam pedidos, agradecimentos ou simplesmente louvações.

Os Yorùbá acreditam que além desse sentido de sintonia da alma com o divino, as palavras têm poder. Devemos sempre ter cuidado com o que sai de nossa boca. As orações são encantamentos e as palavras tem o efeito de despertar e ativar energias. Dessa maneira as orações devem ser faladas e não pensadas.

Pode-se rezar para Orí a qualquer hora do dia e em qualquer lugar. Orí é a nossa divindade pessoal e quem nos protege de tudo na vida e no mundo. Antes de qualquer Orixá (Òrìṣà) e acima de qualquer Orixá (Òrìṣà) esta Orí. Rezar de manhã quando se acorda é a melhor opção.

A seguir existem uma relação de rezas para Orí. Elas devem ser entendidas e decoradas, recomendo que rezem em Yorùbá, mas quem tiver extrema dificuldade que o faça como quiser. De fato, como em qualquer religião as palavras devem vir da alma e isso é o principal.

No texto a seguir, existe a linha com as palavras em Yorùbá, a fonética das palavras em português e a sua tradução. Quando uma palavra tem mais de um acento significa que deve ser usado a forma aguda em cada sílaba acentuada, ou seja, pronuncie cada sílaba com a acentuação indicada. Atenção especial para alguns casos.

Quando aparece GB deve ser pronunciadas as 2 consoantes. Assim GB não é a mesma coisa de B. Por exemplo Gbo pronuncia-se diferente de Bo. Da mesma maneira o P Yorùbá é pronunciado como KP. Não existe letra muda, toda letra e sílaba deve ser pronunciada. As palavras Yorùbá geralmente são oxítonas, com sílaba tônica no fim.


Rezas de Ori

Para quando acordar de manhã

Reza 1

èmi ma jí loní o
emi má jí loni ô

eu acabo de acordar hoje

mo fi orí balẹ̀ fún ọlọ́run
mo fí orí balé fun olórún

eu coloco minha cabeça no chão para ọlọ́run

orí mi dá ẹ̀mí dá àiyé
orí mi dá émí dá aiiê

meu ori me de vida de de longevidade

Ngo kú ìmọ̀
ungô kú imón

eu saldarei o conhecimento

gbogbo ire ni ti èmi
gbogbo ire ni ti êmi

todas as benção para mim

imolẹ ni ti àmakisi
imolé ni ti ámákisi

os Orixá (Òrìṣà) pertencem a àmakisi


Reza 2

Orí awo màá tọ́ ni awè
orí auô ma a to ni auê

O mistério do Orí nascerá no jejum

Orí awo màá tọ́ ni awè
orí auô ma a to ni auê

O mistério do Orí nascerá no jejum

Orí awo màá gbó ni awẹ̀
orí auô ma a gbô ni auê

O mistério do Orí amadurecerá no jejum

Orí awo màá gbó ni awẹ̀
orí auô ma a gbô ni auê
O mistério do Orí amadurecerá no jejum

Orí awo màá mọ̀ ni awè
orí auô ma a món ni auê

O mistério do Orí trará conhecimento no jejum

Orí awo màá mọ̀ ni awè
orí auô ma a món ni auê

O mistério do Orí trará conhecimento no jejum

ìbà á ṣẹ Òtúwà-kan
ibá a xé otu ua can


Reza 3

orí sán mi, orí sán mi
orí san mi, ori san mi

ori me torne melhor

orí sán igbédè, orí sán igbédè
orí san igbêdê, orí san igbêdê,

ori me torne mais inteligente

orí tánsan mi ki èmi ni owó lọwọ
orí tan san mi qui êmi ni ôuô lóuó

ori me faça brilhar e que eu tenha dinheiro nas mãos

orí tánsan mi ki èmi ni aya
orí tan san mi qui êmi ni áiá
ori me faça brilhar e que eu tenha esposa

orí tánsan mi ki èmi bímo rere
orí tan san mi qui êmi bimô rerê
ori me faça brilhar e que eu tenha bons filhos

orí tánsan mi ki èmi mọlé
orí tan san mi qui êmi mólê

ori me faça brilhar e que eu construa uma casa

orí sán mi, orí sán mi, orí sán mi
orí san mi, ori san mi

ori me torne melhor

Olúwa mi ajiki
olu ua mi ajiqui

ìwà mi a dúpẹ́
iuá mi á dukpé

meu caráter, eu agradeço


Reza 4

Orí mi yẹ́ o Já fún mi
orí mi ié o já fun mí

meu orí esteja atento lute por mim

ẹlẹ́da mi yẹ́ o! Já fún mi
élédá mi ié o já fun mí

meu criador esteja atento lute por mim


Reza 5

Bi o ba fífẹ lowó, bèèrè kan orí
bi o bá fifé louô, beere kan orí

se você quer ter dinheiro, pergunte primeiro a orí

Bi o ba fífẹ sowó, bèèrè kan orí wò fún o
bi o bá fifé xouô, beere kan ori fun ô

se você quer ter trabalho, pergunte primeiro para orí olhar para você

Bi o ba fífẹ kólé, bèèrè kan orí
bi o bá fifé colê, beere kan orí

se você quer conrtuir uma casa pergunte primeiro a ori

Bi o Ba fífẹ laya , bèèrè kan orí wò fún o
bi o bá fifé laiá, beere kan orí uô fun o
se você quer ter uma esposa, pergunte primeiro para or”i ver para você

Orí máse pẹ̀kun dé
orí máse kpé kun dê

orí não deixe de vir para cá

Lọ̀dọ̀ rẹ èmi nbọ̀
lódó ré emí unbó

é para a sua presença que eu estou indo

Wá saye mi di rere
uá xaiê mi di rerê

Venha e faça minha vida ser melhor


Retirado de ògúndá méjì

ori pẹ̀lẹ́!
Orí kpélé
 Ori!

Atètè ni rán
atete ni ran
aquele que atende rapidamente

atètè gbà mi
atete gbá mi
aquele que rapidamente me socorre

Ẹ súre fún mi níwájú àwọn Orixá (Òrìṣà)
é surê fun mi niuajú auón orixá
Você me abençoa antes de todos os Orixá (Òrìṣà)

Kò sí Orixá (Òrìṣà) le yín emi bi ori ba kó jẹ́
kô si orixá le i in emi bi ori bá kô jé
nenhum Orixá (Òrìṣà) pode me abençoar se orí não permitir.

ori pẹ̀lẹ́!
Orí kpélé

Ori!

Orí àìkú
orí aikú
ori imortal

ẹni tí orí rẹ gbà bọ rẹ ó jú yọ̀
éni ti rí ré gbá bó ré ô ju ió
aquele que o ori aceitar a a oferenda estará muito agradecido


Para lavar a cabeça

Lọwọ Ọtún awo ẹ̀gbá
lóuó ótun auô égbá
Na mão direita o adivinho de egba

Lọwọ òsì awo igbara
lóuó osi auo igbárá
Na mão esquerda o adivinho de igbara

awa máṣàì ìmọ̀
auá máxáí ímón
nós não podemos falhar em saber

bọ́ ọtún fi ọtún
bó ótun fi ótún
lavar o lado direito da cabeça com a direirta

tabi bọ́ òsì fi òsì
tábi bó osí fi osí
e lavar o lado esquerdo com a esquerda

A Difá fún Awun ni ọjọ́ ó ti lọ bọ́ orí rẹ
a difá fun au un ni ójó ô ti ló bó orí ré
Ifa foi consultado no dia que Awun foi lavar sua cabeça

lodó fún ó kó ire ọ̀pọ̀
lodô fun ô kô irê ókpó
no rio para que reunir as bençãos da fartura

Ki iwẹ́ fà wá ire owó
ki iu é fá uá irê ouô
que a limpeza traga as bem;ãos da prosperidade

Ki iwẹ́ fà wá ire ọ̀rọ̀
ki iu é fá uá irê óró
que a limpeza traga as bençãos da saúde



O sentido de “alimentar” o seu Orí


Alimento é vida. Uma refeição é uma dádiva e uma festa. Os Yorùbá são um povo do campo, fazendeiros e dão muito valor a vida a ao alimento e a água que são tão difícil de serem obtidos. Cada povo dá valor ao que lhe é importante e caro. Para os Yorùbá, a água e o alimento são muito importantes.

Mesmo para nós, quando queremos receber bem alguém sempre fazemos isso com alimento e bebida. A religião deles e sua teologia não é artificial, não foi criada em um concílio, ela existe permeando toda a sua vida e existência, assim, os Yorùbá agradam seu deus e todos os seus ministros e representantes com alimento. Flores não são uma opção para eles, alimento sim, é seu bem maior.

Eles comemoram a vida com alimento, dando, dividindo e compartilhando.

De acordo com a religião Yorùbá, axé (aṣẹ́) é a força vital de Olódùmarè que existe em todos os seres. Todos possuímos axé (aṣẹ́) e é o axé (aṣẹ́) que nos move. Mas esta força é consumida. Com o tempo e em função de atividades que fazemos ela se reduz e nos desequilibramos. Naturalmente, com o próprio tempo ela será regenerada, mas enquanto estiver fraca ou em desequilíbrio nós ficamos vulneráveis.

Um bom Orí é aquele que preserva e mantêm o axé (aṣẹ́), é aquele que usa apenas o necessário sem desperdício. Um mau Orí é aquele que não conserva e acumula o axé (aṣẹ́). Infelizmente, como vamos ver no Cosmo Yorùbá, existe um fator de aleatoriedade na escolha do Ori no Órun (ọ̀run). Isso também está explicado no Odù Ogunda Meji na história de Afawupé. Dessa maneira podemos vir com um Orí ruim e necessitamos de repor esse axé (aṣẹ́).

Contudo um bom Orí não resume uma boa pessoa. Somente pessoas que tenham um bom Orí e um bom caráter serão bem sucedidas na sua vida.

Mas mesmo para os que tem um bom Orí pode ser necessário em determinado momento alimentar o seu Orí com axé (aṣẹ́). Também por vezes é necessário melhorar o vínculo entre nós e nossa divindade Orí que esta no Órun (ọ̀run). A liturgia que realiza isso chama-se bórí (bọ́rí) palavra que é composta pelo verbo bọ́ com orí, ou seja alimentar o ori. Existe uma outra palavra Yorùbá, bórí (bôrí) que significa cobrir a cabeça. Bori, que significa alimentar o Orí.

O orí deve ser “alimentado” (na verdade, com axé (aṣẹ́)) para que possa influenciar positivamente a nossa vida. O sentido é a reposição do axé, a energia vital que usamos para fazer tudo. Com o axé (àṣẹ) nós nos conectamos com o Orí divino, nosso “anjo” guardião, que esta no órun (Ọ̀run). O alimento ao Orí vai então repor o axé (àṣẹ) e facilitar a comunicação e influencia do Orí do órun (Ọ̀run) com o nosso Orí no Aiyé.

O longo de nossa vida devemos fazer bórí (bọ́rí) muitas vezes. Algumas pessoa podem precisar disso uma vez por ano, outras em intervalo de anos, entre 2 e quatro anos.

A dificuldade disso é o maldito mercantilismo religioso do Candomblé. No Candomblé nada é de graça e pais de santo cobram pequenas fortunas para fazer algo que deveria ser obrigação deles, principalmente para as pessoas que pertencem a uma casa.

Eu, considero um absurdo os Babalorixás (pais de santo) cobrarem para os membros de uma casa como cobram para seus clientes. Eu acho um absurdo o conceito de clientela no Candomblé. Este conceito existe e não se pode negar, mas é um pejorativo para a religião.

Se quer ter acesso ao Candomblé, a religião dos orixá (Òrìṣà), então adote ela como religião. Entre para uma casa. Mas os pais de santo tratam suas casas como balcão de padaria, atendendo pessoas para jogos de búzios, ebós e Boris como se isso fosse uma coisa para ser vendida, como um pãozinho. Bom, de fato como uma picanha, uma M.Chandom....

Os pais de santo tratam seus seguidores como clientes. Na realidade eles transformam clientes em seguidores, membros da casa apenas para terem uma fonte estável de receita.

O Bori virou então a “obrigação” da moda, sofrendo todo o tipo de distorções. Um bori não tem que ser nada caro e nem nada exagerado, tem que ser algo que as pessoas possam fazer.

Os Bàbáláwo também estão fazendo Bori, mas, é uma cerimonia muito pobre. Eu nem considero o que eles fazem um Bori e nem perderia tempo com aquilo. 


Como “alimentar” o seu Orí


Existem variações em relação a cerimônia de alimentar o Ori. Temos procedimentos mais simples e um procedimento mais elaborado.

Antes disso devo fazer um comentário sobre a perspectiva de Ori dentro do Candomblé. Orí é um conceito Yorùbá, da religião Yorùbá. O Candomblé é heterogêneo, sendo formado por nações da religião Yorùbá, como o Ketu e o Efon, nações da religião Jeje e nações da religião angola.

O conceito de ori pertence a religião Yorùbá e foi copiado ou imitado pelas outras. Assim, o modelo original Yorùbá é o que é a referência. Possivelmente você encontrará gente que diz que no Jeje não é assim ou não se faz assim, o mesmo com o angola. Claro, essas nações copiaram uma coisa que eles não tinham. Dessa forma é perda de tempo querer discutir Orí entre o modelo Yorùbá e os demais, os outros são cópias.

Cada um copiou do seu jeito. O Angola copiou tudo do Ketu. Eles não tinham nenhum Candomblé, nunca tiveram, angola é Bantu e bantu tinha a macumba e a quimbanda. O que existe de Candomblé de angola aqui no Brasil só existe aqui, na África não tem nada parecido. O Jeje tem um hábito comum de agregar coisas dos outros do culto deles, assim adicionaram Orixás que não tinha (as iyagbas), Orí, Ifá, etc...

Voltando ao Ori, as cerimônias mais simples são aquelas que lidam apenas com o Orí no Aiye. Ela são feitas exclusivamente na cabeça da pessoa. Estas cerimônias menores  podem incluir apenas lavar a cabeça com ervas e as que você oferece mais alguns ítens ao seu Ori, como Obi, karité, acaça, orogbo, etc.. e até mesmo realizar sacrifícios no Ori, notadamente pombos, mas outros podem ser incluídos. Mas esta cerimônia é feita apenas na sua cabeça, não envolve a ligação Orun-Aiye. É útil para diversos casos, pode ser o suficiente mas não é um Bori. 

Essas cerimonias, são legítimas, determinadas em Oráculo e quando feitas somente com o Orí do Aiye tem um efeito restrito. São muito eficientes e mais simples de serem realizadas. 

Outras tradições da diáspora como a Santeria e até mesmo Ifá fazem somente dessa forma. É natural, essas tradições nunca souberam lidar com Ori, não entendem de fato o culto a Orí, elas apenas copiaram o que outros faziam sem entender completamente.

Dessa forma a cerimônia de Bori feita pelos Bàbáláwo de rama cubana, usando ou não pombos, são um Bori. Mas um Bori simples, de poucas horas, não se comparam minimamente com um Bori completo como feito no Candomblé Yorùbá.

O Bori completo é feito com um Igba Ori, que é a representação no Aiye do Ori do Órun. Esse Bori estabelece a ligação plena do Orun-Aiye. A cabeça da pessoa é seu Ori no Aiye e o igba Ori constitui a representação do Ori do orun no aiye. Os sacrifícios são dobrados, tudo o que é dado ao Orí da pessoa também é dado ao Igba Ori. O Igba Orí pode ser guardado ou não, mas, ele tem que existir durante a cerimônia.

A Cerimônia completa, o Bori em sí é um ritual que pode durar entre 3 a 7 dias e envolve várias pessoas na sua preparação e execução. É composto de ebós de limpeza, oferendas preparatórias, o Bori e por fim o despacho de tudo isso nas águas. Essa cerimônia envolve você e também a ligação com o seu duplo no Orun.

Essas cerimonias exigem um sacerdote, a pessoa não pode fazer nela mesma.

Se você estiver pagando por um Bori, não adianta comparar banana com maça. A cerimônia de Ifá dos Bàbáláwo cubano é muito simples e restrita na questão de reposição de axé (aṣẹ́). Ela é indicada para muitos casos mas não dá para comparar com um Bori completo de Candomblé.

Vou a seguir dar uma receita muito simples que pode ser feita por qualquer pessoa, não é um Bori, é uma cerimônia do tipo simples que envolve apenas você e não a ligação Orun-Aiye. Muitos podem reagir considerando uma idiotice ou marmotagem minha ensinar pessoas a alimentarem o seu Ori porque isso exige um sacerdote.

Não exige.

Sem dúvida exitem muitas liturgias que exigem um sacerdote, principalmente aquelas que requerem a manipulação de axé (aṣẹ́). A presença de uma pessoa preparada é necessária quando se tem que receber axé (aṣẹ́) transmitido por outras pessoas, ou quando se vai fazer um Ebó (Ẹbọ) de limpeza, por exemplo. O sacerdote é um “operador” qualificado para esta operação.

Contudo se você vai fazer uma oferenda ou mesmo alguns tipos de ebós pode até mesmo fazer sozinho. Nem tudo depende de ter um sacerdote.

No caso do Bori, como estamos lidando com um processo de reposição de axé (aṣẹ́) e muito íntimo de sua individualidade não vejo porque não tentar fazê-lo. Claro que receber o Bori feito por outra pessoa é muito bom, principalmente se feito com cuidado e preparação. Uma cerimonia de Bori exige pelo menos 24 horas de permanência no Ile Axé, desde o início até o fim. Não é raro que sejam feitos em 3 ou 7 dias. Essas liturgias são reposições intensivas de axé, “axé na veia”.

Mas, mesmo sem toda essa complexidade você pode fazer isso para você. Algumas restrições se aplicam. Isso é para ser feito por pessoas que sejam iniciadas ou que já tenham recebido Bori, de preferência que no mínimo sejam ou tenham sido abians de alguma casa. Tem que haver intimidade com os procedimentos e com o orixá (Òrìṣà).

Não faça isso em outras pessoas ou ajude outras pessoas se você não é um sacerdote qualificado para tal. Uma coisa é a própria pessoa fazer em si mesmo outra é você, despreparado participar disso.

É claro que fazer isso através de um sacerdote é muito melhor por ser uma pessoa que recebeu orientação e axé (àṣẹ) para isso, mas a religião também é para todos. Contudo de fato fazer isso requer alguma prática e pessoas que nunca viram ou fizeram esse tipo de comida podem ter dificuldade. Infelizmente é assim mesmo.

Tudo nessa religião tem significado, assim, não ignore materiais e indicações de uso.

Material necessário:

Esteira baiana

pano de cabeça com capuz

manteiga de karité

obi de 4 gomos (rosado)

2 lençóis

coco verde

água mineral

2 bacias de ágata

ervas frescas: manjericão, elevante, saião, colônia, macaçá


Preparação:

Lave as ervas frescas, separe as folhas e quine as folhas com agua até que sobre apenas uma “massa” de folhas masseradas. Faça isso em uma bacia branca de ágata. De fato, isso requer alguma prática. Separe 4 folhas de saião inteiras e coloque em uma vasilha com água.

Deixe o banho nessa bacia por algum tempo. Depois coe todas as folhas deixando somente a água. As folhas devem ser despachadas no mato.

Separe um lugar para fazer isso que seja limpo, isolado e tranquilo.

Coloque a esteira baiana e cubra com lençol branco. Coloque o Obi dentro de uma vasilha com água. Deixe ao alcance a manteiga de karité e as folhas de saião. Coloque a bacia não usada na sua frente e se ajoelhe diante dela. Reze para Ori.

Lave primeiro a sua cabeça com água mineral. Apenas jogue a água por toda a cabeça e deixe escorrer para a bacia que fica abaixo deu sua cabeça (você está ajoelhado, em cima da esteira com a bacia a sua frente, abaixo de sua cabeça.).

Abra o coco verde e faça a mesma coisa, deixe a água do coco escorrer por toda a cabeça lavando-a. Por fim derrame o banho de ervas vagarosamente, escorrendo o banho com as mãos e lavando toda a cabeça. Use a reza de lavar a cabeça, reze ela enquanto faz isso.

Espera a água escorrer toda, limpe o excesso em seu rosto e pescoço com uma toalha, mas não enxugue sua cabeça.

Abra o obi de 4 gomos, separando todos os gomos. Retire o “olho” que fica nos gomos. Pegue a manteiga de Karité e faça um montinho em cima sua cabeça. Afaste o cabelo e coloque ela em contato com o couro cabeludo. Coloque os gomos do Obi em cima da manteiga, um gomo em cada lado. Cubra isso tudo com a 4 folhas de saião e coloque o pano de cabeça com capuz por cima disso tudo tampando a sua cabeça. Prenda o pano de cabeça (isso também requer alguma prática....).

Observe você deve fazer isso sozinho.

Durma na esteira (pode usar um travesseiro) por pelo menos 3 horas mas recomendo passar toda a noite. Quando levantar retire o pano com tudo o que está na sua cabeça. Esse material deve ser despachado em agua limpa, de rio, nunca jogue na rua, no lixo ou no mar.

Pode tomar banho normal lavando a cabeça. Não tome sol na cabeça até o meio dia. Na noite que fizer isso você não sai de casa.

Observem que este é o procedimento mais simplificado possível. Somente faça quem se sentir à vontade para isso. É claro que quem sabe e tem prática consegue fazer com facilidade e um sacerdote faz isso com mais complexidade, adicionando comidas para o Orí.

Mas eu apenas quis mostrar que não precisa ser complicado, por ser simples.


terça-feira, março 03, 2015

Sugestão de temas


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Bàbáláwo e ética

Bàbáláwo e ética



Eu vejo hoje em dia em Ifá a mesma coisa que já ocorreu com a Umbanda e Candomblé. Pessoas de pouca índole que se dizem baba_qualquer_coisa e que vivem de comércio de favores.

Ifá não é diferente dos demais cultos. É a mesma coisa. Pessoas “compram” títulos, vendem o que não tem e se especializam em ganhar dinheiros dos outros. Nada de ilusões, eles dizem que existem para concertar o mundo mas são apenas feiticeiros comuns.

Não sendo isso novidade para nós, apenas não se espantem. Não esperem encontrar nada especial ou selecionado. Você vai ter que fazer uma peneira ética bem fina para poder selecionar uns de outros.

Claro que existe quem presta e quem não presta. O que não pode existir é a ingenuidade em quem procura um Bàbáláwo, achando que todos são “santos”. Não ha dúvida também que muitas vezes as pessoas que vão se consultar precisaram ser examinadas por médicos, psicólogos, são casos piores que os que as consultam.

Desta forma não se enganem com pessoas que não sabem se comportar como um sacerdote, que não se vestem com algum cuidado, que não se preparam como um sacerdote ou que não as recebam em um ambiente limpo e bem cuidado.

Não se enganem achando que é normal ser atendido por pessoas bebendo, lembre-se que foi procurar Ifá e não a porta de um bar.


Não caiam nas principais histórias que são usadas como caça-níquel:

- Ifá diz que você tem que se iniciar
- você tem que fazer um assentamento de “santo”
- você precisa de vários ebós ou oferendas
- vai ter que fazer sacrifício de vários animais
- vai ter que fazer um bori

Não deixe que o seu ego ou vaidade decida pela sua razão.

Faça um contabilização das coisas certas e coerentes que ele fala sobre a sua situação e das coisas que nada tem haver. Tem gente que fala um monte de coisas muitas erradas e você só presta atenção em um ou outra que tem alguma coisa haver.

Se a pessoa não é coerente e consistente no que fala, te levando para você mesmo entender o seu problema, tenha cuidado. Igualmente tenha cuidado com pessoas que não contam nenhuma história de ifá para você, que não permitem que você interaja com o jogo. 

Evite quem não usa o instrumento chamado Ìbò para obter as respostas. O Ìbò é uma forma de você, de seu Ori participar do jogo influenciando as respostas. Muitos babalawo fazem as perguntas e eles mesmos sozinhos veem as respostas. Isso não é bom. Eles querem apenas rapidez na consulta.

Tenha como certeza que um Bàbáláwo tem que primeiro ajudar a si mesmo. Depois ajudar a sua família, depois amigos e por último as pessoas em geral. Observe muito bem o Bàbáláwo e a casa dele. Observe quem os cerca. 

Você não vai saber disso quando for consultar, mas, antes de fazer alguma coisa com ele após a consulta, avalie isso, observe ao redor, pergunte onde estão as pessoas ou quem são.

Antes de se envolver mais com uma pessoa que se diz sacerdote, observe os sinais externos que indicam quem é essa pessoa para depois não se arrependerem. 



segunda-feira, março 02, 2015

O Babalawo e a Teologia

O Babalawo e a Teologia

Revisão 2


Por mais que o Bàbáláwo seja proficiente em Ifá, é necessário conhecer muito bem a teologia e a teogonia da religião. Esse conhecimento é necessário para entender as histórias e interpretar as informações que o jogo traz através dos Odù e orientar as pessoas sobre a religião que elas procuram.

Se o Bàbáláwo não compreende corretamente a metafísica das relações entre o mundo espiritual e natural, as divindades, suas relações com as pessoas, se não entende a natureza e comportamento dos orixá, os diversos tipos de espíritos, os limites de ajé e egun, as questões ligadas a ori, ou mesmo, se tem uma compreensão equivocada desta teogonia, enfrentará problemas na sua atividade.

Ifá não é agnóstico. O ifá que temos aqui no Brasil, seja vindo de Cuba ou da África são de origem Yoruba. Ifá é um culto que faz parte de uma religião, a religião dos Yoruba. O Bàbáláwo é considerando um sacerdote religioso, ele não é um advinho, um mágico, um curandeiro ou um vidente. Um Bàbáláwo somente pode exercer seu trabalho porque é um representante de Orunmilá para trazer às pessoas o axé de Olodumarê.

Ifá é religião e a prática do Bàbáláwo está ligada a existência de deus. O motivo porque o oráculo de Ifá é importante é porque Orunmilá, a divindade que responde neste oráculo, foi a testemunha do nosso destino quando nos ajoelhamos à frente de Olodumarê antes de nascermos, pedindo a ele o nosso destino. É a religião e não a ciência humana que explica Ifá.

Ifá pode ser usado para qualquer pessoa, claro, mas isso não o torna agnóstico ou desprovido de religião ou apenas uma manifestação de religiosidade (seja lá o que mentes confusas queiram dizer sobre isso).


Esta e qualquer outra religião pode ser aplicadas a todos os seres vivos. Não existe nesta religião nada que a restrinja apenas aos nascidos de tribos Yoruba. Esta religião fala de deus, dos seres humanos e do mundo.

A religião entende que todos os seres que nascem vão a Olodumare e pendem a ele por seu destino. Ifá não é agnóstico, ele está ligado a uma religião, está ligado a importância, influencia e presença de deus e seus representantes na nossa vida. Mais ainda os exemplos que Ifá usa, as recomendações de ifá e as liturgias seguem a pratica da religião a que este culto pertence.

A pessoa que vai a Ifá não precisa trocar de religião, mas, ela tem que saber que esta indo a um oráculo religioso e não a um vidente qualquer, um curandeiro de esquina.

Ser um Bàbáláwo é ser um representante direto de uma religião porque somente a religião pode explicar a importância e o funcionamento o oráculo de Ifá.

Você perderá perdendo tempo se procura um Bàbáláwo que diz que ele lida com religiosidade e não religião ou que diz que Ifá não é religião. Você perde tempo porque esse Bàbáláwo não sabem quem é ou o que faz. Se ele não sabe isso como vai poder ajudar você?

O que observo muito é o Bàbáláwo que aprende uma coisa ou outra da teogonia e teologia de sua religião de forma muito irregular, assim tudo para ele é uma coisa ou outra. Desta forma aparecem aqueles que falam que tudo é ori. Outros nem entende o que é ori de fato. Outros dizem que tudo é egun, esses são os mais comuns, alguns acham que sabem fazer coisas para Ajé, mas, esses nem sabem com o que estão lidando.

Isso é como foi a onda dos abikus no candomblé (que ainda existe, ô coisa fora de moda...). Os babalorixa viam abikus em todo mundo, alguns faziam isso de safadeza mesmo, outros porque não sabiam mesmo. Até hoje isso ainda existe e basta ter um irmão morto para o seguinte virar abiku.

Tudo isso que estou falando pode parecer meio estranho a vocês, mas são coisas bem distintas na formação de um sacerdote. Uma coisa é a pessoa aprender o que um Bàbáláwo precisa saber para lidar com o seu oráculo. Este conhecimento é obtido nos tratados de Odù e com o iniciador dele, porque existe muito conhecimento adicional, oral e explicativo, como eu já disse, o tratado não representa IFÁ, é apenas um guia de referência. O Bàbáláwo tem que estudar o tratado e cada Odù, aprender como se usa isso, o significado das coisas e as cerimonias associadas. Isso vai lhes dar conhecimento importante, mas, restrito ao significado e histórias que cada Odù tem e ao ofício do Bàbáláwo.

Este é um tipo de conhecimento que o Babalawo deve adquirir. É importante, mas, é um tipo. Podemos dizer que em muitos casos é um conhecimento mecânico não envolve profundidade ou meditação.

Não é automático ou mesmo natural que o Bàbáláwo, por aprender ifá e os odù, estará automaticamente aprendendo a teologia, teogonia e a metafísica da religião, não é assim. Estas coisas fazem parte de outro conhecimento. Não confunda um conhecimento com o outro.

Esta é a maior balela com os Bàbáláwo repetem. Eles se impõe sobre os demais sacerdotes dizendo que tudo é Ifá e que ifá tem tudo da religião. Não é verdade, a pessoa não vai aprender religião através dos Odú, pelo contrário pode até desaprender. Os Odù contêm mensagens complexas para as pessoas que consultam, existem informações que se contradizem entre os Odù, claro, cada pessoa ou cada problema é uma coisa e tudo tem que ser endereçado pelo Odù, o que é certo para um é errado para outro.

Se você usar então os tratados cubanos, ai que não vai aprender nada mesmo. São muito confusos, histórias mal feitas, uso em excesso de orixá e da forma incorreta.

Eu já vi pessoas que são iniciadas com 15 anos, as vezes menos. Outras que nunca tiveram nenhum contato com a religião yoruba, somente conheceram ifá e foram habilmente convencidas a se iniciarem.

O que estas pessoas, sem nenhuma ou pouca experiência de vida vão poder adicionar a seus consulentes? O que essas pessoas sabem de religião ou da religião que estão? O que elas terão aprendido da religião? O que saberão de orixá? Qual a experiência ou contato que terão? O que suas experiências de vida adicionarão a elas no seu trabalho como Bàbáláwo?

Aprender a religião em si, a teologia e teogonia é outra coisa. Requer outras fontes e principalmente muito mais estudo adicional e dedicação. Sem um bom conhecimento da teogonia, a própria interpretação do Bàbáláwo ficará um pouco prejudicada em alguns casos. O iniciador dele pode até ter um bom domínio da religião, mas terá tempo e disponibilidade para ensinar tudo o que sabe? Acho difícil, nem o iniciador e muito menos o iniciado vai ter tempo de disponibilidade para isso. O iniciador pode ser uma pessoa para discutir assuntos mas estará disponível para ensinar de cátedra?

Se, neste contexto, estamos falando de uma pessoa iniciada dentro da tradição cubana então é caso complicado. Os cubanos têm uma visão própria da teologia e teogonia, muito afastada da visão yoruba, tão afastada que existem cubanos que gritam aos 4 cantos que IFÁ nasceu em cuba, ou que somente o ifá cubano preserva o verdadeiro ifá e que os yoruba não sabem mais nada de ifá. Eu achava que isso era apenas ufanismo e arrogância, coisas bem típicas de cubanos, mas, hoje acredito que esta é uma avaliação ingênua de minha parte, possivelmente isto é uma forma deles justificarem esses grandes desvios.

Em termos de orixá, a visão deles tem muuuito pouco haver com a nossa do candomblé. Para uma pessoa como eu, que aprende a teologia e teogonia buscando fontes confiáveis yoruba e conhece orixá a partir da visão prática e teórica do candomblé, eu vejo os cubanos com uma parte desta religião, sem duvida, mas uma variante que tomou caminhos diferentes. Eles desconhecem aspectos importantes da teologia e orixá é teoria apenas, quase não tem incorporação.

Mas voltando ao nosso tema, e sendo objetivo, o conhecimento consistente da teologia permite ao Babalawo responder e entender de forma mais extensiva o seu oráculo. Sei que é um pouco complicado entender isso que estou colocando, mas conhecer bem a sua religião através da teologia e teogonia permite ao Bàbáláwo melhor compreender as metáforas que existem nos versos de odù bem como possibilitam que ele faça uma melhor dosimetria do que recomendará ao consulente. Acima de tudo vai permitir a ele desenvolver melhor o aconselhamento.

Estou adicionando mais informação de maneira, que vamos a mais explicações. A consulta a Ifá tem 2 aspectos. O primeiro é que a partir do odù sacado você determina o ebó a ser feito e o executa. Isso é bem simples, não precisa ser um Babalawo brilhante e altamente experiente. Se o Babalawo for honesto ( vou explicar em outro texto ) chega-se facilmente a um resultado padrão que, em princípio atende bem ao problema do consulente.

Existem Bàbáláwo que fazem isso bem rápido e mecanicamente.

A segunda parte é que a partir do odù que saiu para a pessoa, o Bàbáláwo deve ter a capacidade de juntar tudo e aconselhar o consulente. Isso é bem mais difícil. Requer muito mais do que conhecer o odù, entre os Bàbáláwo é dito que somente aqueles realmente inspirados conseguem fazer isso é a hora em que ELA se manifesta através deles e eles conseguem "falar ifá". Isso é muito diferente de falar o que se decorou lendo os tratados de odù.

Mas, com ou sem Ela, o aconselhamento é uma parte importante da consulta, possivelmente a parte mais importante. Neste processo, como citei, o Bàbáláwo une o entendimento das mensagens de odù, combinando os diversos odus que são relevantes à consulta, mais a teologia e sua experiência de vida e como Babalawo.

Isso é Ifá. Ifá não é apenas fazer ebós e transmitir uma mensagem simples e objetivo do problema que trouxe a pessoa ao oráculo, a consulta. Ifá é perceber o que orunmila tem como mensagem de vida para aquela pessoa, Ifá é uma oportunidade para a pessoa revisar sua vida, afinal orunmila é o eleri ipin, o testemunho do nosso destino. Se a consulta a ifa servir apenas para resolver coisas mundanas e ordinárias de nossa vida, qual a diferença entre uma Babalawo e um vidente qualquer? Qual a distinção entre você ser o sacerdote do eleri ipin?

Este aconselhamento é a soma de conhecimento de ifá mais o conhecimento da religião. O Babalawo fala como um sacerdote da religião, não como uma pessoa qualquer. Não se trata de usar apenas bom senso e experiência. Trata-se de se dirigir às pessoas como um representante de uma religião. Para isso o Babalawo tem que conhecer a teologia da sua religião.

Existe um fator complicador. Se ele estiver lidando aqui no Brasil com um iniciado, um iyawo, egbon ou ogan, por exemplo, e não conhecer a teologia, orixá e o candomblé, sua atuação terá que ser restrita e cuidadosa. Em primeiro lugar, ao lidar com uma pessoa ligada a uma casa religiosa ele tem que ser extremamente ético e atento para não causar problema. Tem muita gente que é muito perturbada e se confunde com muita coisa.

Em segundo lugar, se ele não tiver aprendido a teologia e a prática do candomblé, se conhecer apenas o que ensinaram a ele sobre a visão lukumi então não deve falar nada. Saber pouco e ainda saber uma tradição que é completamente diferente do candomblé não vai ajudar ninguém. Existirão situações que ele não conhece e não saberá tratar com os consulentes.

Cubanos que foram formados no lukumi e esses brasileiros que aprenderam com eles, ou seja, que sabem muito menos do que eles, recomendarão ações erradas e podem causar problemas. O mesmo vale para pessoas com formação em candomblé e que se deparem com alguma pessoa iniciada no lukumi ou na YTR. Nesses casos, o conhecimento de teologia não vai ajudar muito. O Babalawo terá que ser muito cuidadoso e tratar da vida da pessoa sem se envolver nos seus assuntos religiosos.

As vezes isso é difícil porque as pessoas podem procurar um Babalawo para confrontar alguma situação sua. O Babalawo deve ter maturidade para não se envolver desnecessariamente em problemas que poderiam ser evitados. Ética é muito importante.

A última coisa que pode envolver o conhecimento ou não conhecimento de teologia, são os casos em que as coisas são feitas e não funcionam ou não são de efeito permanente.

Podem existir situação nas quais as ações do babalawo terão curta duração, não vão resolver o problema, os ebós vão se suceder sem que exista uma resposta adequada. Não estou falando nenhuma novidade, muitos já devem ter visto isso ocorrer. Também ocorre em Ifá.

Isto geralmente esta associado a um conhecimento oh interpretação equivocada da teologia e teogonia.A coisa mais comum e besta que eu vejo são aqueles idiotas que em face de um problema ou situação dizem que: tudo é Ori. Não diga! E o que mais? Fica todo mundo fazendo aquela cara de "ah é?" sem entender e sem saber o que fazer com essa frase idiota. Claro que tem ainda os que dizem que tudo é egun, ou encosto ou feitiço.

A realidade é que aquela pessoa que está ali consultando Ifá para outra pode não compreender plenamente sua religião, não como quem está consultando imagina, não compreende de fato como aquelas energias do supernatural se manifestam e influenciam a vida da pessoa, podem também não distinguir qual o melhor caminho a trilhar para buscar uma solução.

Existem problemas simples, mas, existem também os complicados, que lidam com coisas mais inéditas e que saem do lugar comum. Pode ser uma comparação besta, mas você pode ter aqueles médicos de SUS para os quais tudo é virose e os especialistas de fato. Quando coincide você estar com virose mesmo o médico do SUS vai acertar, será ótimo para você, mas, nem tudo é virose não?

Se o babalawo não entende o contexto geral não vai saber também o que fazer objetivamente para ajudar quem o procura. Isso é o que resulta nos casos onde os ebós nao fazem efeito, o consulente retorna recursivamente ao oraculo, os ebós e oferendas aumentam de tamanho, o consulente procura muitas pessoas.

Isso também o resultado da falta de conhecimento da teologia e teogonia.



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quarta-feira, fevereiro 18, 2015

A busca de Ifá para legitimar o que não se tem

A busca de Ifá para legitimar o que não se tem


Um outro aspecto que me trouxe um impacto ainda maior nessa relação da Santeria com nosso culto de orixá mas que é muito complicado de explicar. É uma situação muito sutil e vou tentar explicar aqui correndo o risco de não ser entendido.

Observei que existe uma prática dentro da esfera do ifa cubano, no Brasil, na qual as pessoas que vem do candomblé onde eram ekeji ou ogan, se transformaram em santeros e passam a "fazer santo" e outras liturgias nas pessoas e para as pessoas.

Está “entre aspas”, porque é feito "santo" do jeito cubano e este jeito não tem nada a ver com o candomblé, assim eu tenho cuidado ao usar essa expressão “fazer o santo”, porque para nós resulta em uma coisa e do jeito deles resulta em outra.

Observem que apesar de estarmos falando de ifá aqui isso não se refere a Bàbáláwo. Estou falando de neo-sacerdotes lukumi. São mulheres, mediuns de incorporação ou homosexuais que, iniciam pelo ifá, mas que não tem caminho de Bàbáláwo no Ifá cubano, então, viram santeros.

Qual o problema disso?

Essas pessoas, de acordo com o critério do nosso culto de orixá não teriam direito a fazer este tipo de coisa, mas, na santeria ganham direitos que jamais teriam.

Os ogans principalmente são um grupo muito particular, porque eles tem acesso a conhecimento nas casas de Candomblé, podem circular e participar de círculos mais restrito. Nem todos claro, mas, muitos, acabam tendo um conhecimento acumulado grande.

Essas pessoas no Candomblé nem sempre tinham um espaço relevante em uma casa. Um terreiro não tem tantas oportunidades assim para a pessoa crescer na hierarquia e isso também leva muito tempo. O grupo de egbon é grande o suficiente para ser agraciado com cargos e funções e são pessoa que além de rodantes cumprem uma longa jornada de tempo e obrigações.

Para muitos, conhecimento não é tudo, tem também que vir junto da vaidade e do reconhecimento. Existem aqueles que acreditam que podem ser ou fazer mais ou os que não estão dispostos a seguir regras e hierarquias.

Dessa forma Ifá é um porto certo no qual eles podem seguir “carreira” e se tornarem um “Baba”, com casa e afilhados, coisas que dentro da ética e moralidade religiosa jamais poderiam atingir no Candomblé.

Ifá será assim um grande legitimador de ambições. Junta-se a fome com a vontade de comer. As pessoas buscam um espaço e encontram cubanos e nigerianos secos para venderem isso para eles.

Mas existem 2 grupos que podem ter alguma decepção, os homosexuais e as mulheres. Para estes o Ifá cubano não reserva muitas opções. Mulheres serão apetebi e os homosexuais não serão Bàbáláwos. A saída passa então ser a santeria....

Antes de aprofundar nisso vamos a uma explicação mais geral sobre candomblé porque nem todos necessariamente fazem parte.

Existem pessoas que incorporam o orixá, sao seus eleguns, ou, literalmente, como os africanos dizem, o orixa “os monta”. Existem pessoas que não tem essa capacidade, não nasceram para isso.

Do grupo de pessoas que não são eleguns, uma quantidade reduzida será ogan ou ekeji em uma casa. Ser ogan ou ekeji não é sinônimo de não incorporar. Esses nomes são títulos, cargos, que representam escolhas dos orixás e as pessoas recebem cargos nas casas que pertencem.

A estas pessoas serão dadas funções e responsabilidades, será feita a ligação com a casa e muitas terão funções que lidam com liturgias. Lidar com liturgias é algo muito sensível no Candomblé. Poucos são os que aprendem e fazem algo. Muito poucos.

Nem todo ogan é escolhido por um orixá. Existem muitos dirigentes que escolhem pessoas por sua vontade. Sempre foi muito tradicional a escolha de pessoas importantes e influentes na sociedade para esses cargos, com o intuito de ajudarem e protegerem a casa. Muitos ogans representam escolhas do dirigente.

Muitas pessoas aprendem a tocar ilu e viram "ogans" que circulam de casa em casa tocando para quem pague. Tocar o ilu e cantar deveriam ser atividades ensinadas e aprendidas por ogans da casa, assim como ser o asogun ou babalasayin. Seria parte do ofício do ogan na casa, de atribuições.

Existem nas casas então essa tradição de dar cargo de Ogan como uma representatividade simbólica e também existem aqueles que pertencem a comunidade e vão receber funções. Muitas pessoas de fora não sabem disso. Os estrangeiros pouco entendem o que seja um Ogan, eles não tem isso. Tem no máximo o Alabê.

A Ekeji seguem um caminho similar. São pessoas que são previamente escolhidas para esta função, pleo Orixá ou pelo dirigente. Uma Ekeji nunca será uma rodante, um elegun, mas, é uma escolha, um cargo, assim não é sinônimo de pessoa que não roda com orixá, como muitos pensam.

A função da Ekeji é cuidar do Orixá, acompanhar sua preparação, sua performance no salão bem como pode assumir outras funções na casa.

Esses 2 grupos de pessoas, Ogans e Ekejis, são um grupo especial, são escolhidos pelo Orixá e terão funções e privilégios diferentes. Eles nasceram diferentes, não incorporam com Orixá e o próprio Orixá os colocou em uma posição especial. Por princípio eles respondem ao Orixá e não ao dirigente da casa.

Mas apesar disso nem sempre eles vão poder fazer tudo o que querem e ter a importância que acham que merecem. Nunca terão o mesmo status de um rodante ou de um dirigente. Haverá sempre o grupo que vai estar fortemente integrado nas atividades e obrigações da casa e que por isso jamais vão pensar em deixar a casa, mas, outros poderão achar que poderiam ser algo mais. É esse grupo, o dos frustrados, é que vai para o Ifá.

Ifá passa a ser uma opção para legitimar aquilo que eles não tem ou que não nasceram para ter.

Ai, quando a gente observa que, pessoas que no nosso culto de orixá não nasceram para ter o direito de fazer liturgias de Orixá e que também não vão ter o direito de serem Bàbáláwo, acabam virando Santeros, sacerdotes de orixá como os Babalorixás, fazendo liturgias de iniciação eu fico chocado.

Está claro que ou o Orixá errou ao escolher aquela pessoa ou essa tal de santeria é uma coisa café com leite, uma vez que a pessoa não pôde ser sacerdote no nosso culto de Orixá porque não e rodante, não pode ser Bàbáláwo também e pode ser Sacerdote Santero?

Será que ser Santero é uma consolação? Ou será desprovido de critério?

No Candomblé você não pode dar o que não tem, dessa forma, a pessoa para ser Babalorixá ou Iyalorixá tem que ser rodante. Só um rodante pode fazer outro rodante.

Como confio nos Orixás e também eu respeito muito a Santeria, e já conheci Santeros respeitáveis e distintos (também já pesquisei um pouco em literatura sobre eles), eu acho mais prudente manter uma distância em relação a prática aqui no Brasil.

Porque, no fim a gente tem que decidir se ou o Orixá acertou ou o “Santo” acertou. Prefiro ficar com os primeiros.

Mais recente eu observo também um outro tipo de grupo que procura as iniciações de Ifá. São pessoas que se dizem de Candomblé ou de Umbanda que buscam iniciações para da mesma forma legitimar o que elas não fizeram. Não fizeram as obrigações que deveriam fazer no culto de orixá, ou não adquiriam o direito para exercer determinada função pelo culto de orixá e procuram Ifá para comprarem uma iniciação e passarem a ter uma filiação.

As pessoas de Umbanda dificilmente se adaptam ao rigor do Candomblé. Tem no Ifá e na Santeria uma ótima fuga para adquirem um status que não tem sem se submeter a nada.

Procurar os cubanos e Nigerianos é fácil, com dinheiro se compra tudo deles.

Nós brasileiros temos que ficar atento. Os estrangeiros estão competindo no mercado de iniciações, ebós e venda de feitiços e amarrações como os locais já fazem. Eles não trazem nada de especial em termos de ética. Para procurar eles tenha sempre muito cuidado e atenção, o mesmo que deve ter com os nossos nativos.



Texto anterior da sequencia  cuidados que devemos ter em relacao

Cuidados que devemos ter em relação a Santeria

Cuidados que devemos ter em relação a Santeria


De nosso lado, nós aqui no Brasil temos um comportamento que não podemos repetir com os cubanos. Vou falar de Candomblé porque é o que conheço, mas, o mesmo se aplica aos demais cultos de orixá.

No candomblé o sacerdote de uma nação acaba conhecendo outras nações. Muitos conseguem ser multiespecialistas, porque no fundo a base comum é muito grande. Temos uma grande complexidade no candomblé, são 3 etnias, 2 religiões, 2 cultos e muitas nações diferentes. Apesar desta variedade, temos no candomblé muito sincretismo interno e as pessoas, com as devidas restrições, acabam aprendendo o seu e um pouco dos outros.

Em função disso, nossa longa história de convivência nos permitiu compartilhar algum conhecimento comum e dessa forma muitas pessoas entendem a diversidade do candomblé, sabem comentar um pouco sobre os outros e alguns até mesmo tem bastante conhecimento. Com isso nos acostumamos a tratar o candomblé como um todo e comentar sobre isso, apesar de o candomblé ser uma grande heterogeneidade.

Esse conhecimento cruzado trouxe um efeito negativo que foi o das pessoas acharem que todo o candomblé seja uma coisa só e facilmente integrável e intercambiável, gerando assim problemas litúrgicos e outras confusões teológicas, mas isso é algo com o qual já lidamos ha bastante tempo.

O mesmo comportamento não pode ser repetido para a santeria. Santeria não é candomblé, não tem nada a ver. Não podemos tratá-los como parte do nosso todo e achar que entendemos eles e que eles nos entendem. Nós não os entendemos e eles não nos entendem.

Não podemos tratá-los como se fossem iguais, como mais uma nação e estender o conhecimento que temos para eles buscando apenas as diferenças. Esse comportamento serve, com restrições, apenas para o candomblé mas não serve para a santeria. Nada do que sabemos ou fazemos serve para eles.

As pessoas de Umbanda tendem a se impressionarem com o Candomblé e demais cultos de Orixá. A Umbanda é uma grande prática com pouca teoria. Os cultos de orixá tem uma grande teoria e uma prática infinitamente menor, mas, as pessoas de apaixonam pelo conhecimento que não tem. Muitas, anos mais tarde, vão descobrir que perderam tempo saindo da Umbanda ou do Catimbó e indo para o Candomblé, por exemplo,

O mesmo fenômeno pode ocorrer com pessoas da Santeria. São cubanos e brasileiros bobos que saem agressivamente se promovendo e falando isso e aquilo de odu e dizendo nomes que as pessoas não conhecem. Pessoas menos preparadas se impressionam, mas esse farol todo é apenas lixo.

Dito esse monte de coisas que coloquei aqui e nos 2 textos anteriores, surge em fim a primeira questão.

Eu não tenho dúvida que os cubanos e brasileiros santerizados não sabem nada de candomblé, isso é claro para mim. Uns porque nunca souberam os outros porque já se confundiram com o pouco que sabiam.

Será que eles se preocupam em deixar isso claro quando lidam em suas consultas com pessoas que sejam do Candomblé ou de outro culto de orixá?

Eles deixam claro que não fazem parte do candomblé? Que não são iguais ao candomblé? Que não entendem de candomblé?

Será que eles deixam esta grande diferença de lado e se comportam, junto aos iniciados que o procuram, ou mesmo aos curiosos, como se fossem parte do mesmo conjunto?

Percebem o problema?

Uma coisa é como eles se comportam no atendimento a pessoas comuns, que nunca passaram por nada. Este é um caso simples. Mas e se a pessoa é de um culto de orixá, praticante?

Qualquer um pode ir a Ifá. Ifá está aberto a todas a pessoas. Um Iyawo, Egbon ou Ogan ir a Ifá não significa que ele esteja insatisfeito com sua casa e seu culto, apenas diz que essa pessoa quer consultar com um outro tipo de oráculo ou quer uma consulta com uma pessoa que não o conheça.

Essa pessoa não deve ir a Ifá para tratar coisas de orixá e mesmo que fosse, caberia ao Bàbáláwo se posicionar de forma a não entrar nesta área. Se a pessoa, então, vai para tratar de assunto de sua vida, não cabe a Bàbáláwo inserir a questão de Orixá no assunto, não é ético ou correto.

Ele não deve comentar, ensinar ou criticar.

Este procedimento deve ser adotado por qualquer Bàbáláwo, seja ele cubano, cubanizado ou brasileiro ligado ao nosso culto de orixá. Isso é chamado de ética. Se o Bàbáláwo conhece apenas a santeria o assunto deve ser proibido, porque essa pessoa nada tem a adicionar.

Ifá tem enorme contribuição à vida das pessoas. Um bom ifá será sempre um esplêndido instrumento de deus, Olodumare, para nos ajudar na nossa vida. O Bàbáláwo tem muito o que se preocupar e deve deixar Orixá para o culto de Orixá.

Se a pessoa entra em Ifá para ser Bàbáláwo mas carrega uma frustração de não ser Babalorixá, isso é muito ruim. A pessoa tem que saber o que ela é e o que ela não é. Se ela não sabe quem é como vão ajudar a outros.






Texto anterior da sequencia:  Os babalawo e o culto de orixa o que

Texto seguinte da sequencia: Ifá para legitimar o que não se tem

segunda-feira, fevereiro 16, 2015

Os Bàbáláwo e o culto de Orixá Revisão 2

Os Bàbáláwo e o culto de Orixá

Revisão 2


O que impede um Babalawo brasileiro de trazer para dentro do seu Ifá as práticas que aprendeu no Candomblé ou no seu culto de orixá, para lidar com as divindades, de esú a egungun?

Nada

A questão é se essa pessoa aprendeu alguma coisa de fato que possa trazer. Nem todo mundo que era de Orixá sabe alguma coisa.

Antes de seguir, preciso fazer um comentário importante, que faz parte de nossa riqueza e complexidade. Não temos apenas 1 culto de orixá. O Candomblé é extenso e complexo mas ele não representa sozinho o culto de Orixá no Brasil e muito menos a religião Yoruba.

Além do Candomblé com sua complexidade temos ainda o Batuque, o Xango e o Mina. Posso até estar esquecendo de algum. A realidade é que a religião Yoruba e o culto de Orixá no Brasil é representado por mais de uma corrente. Como tenho origem no Candomblé, é natural para mim citar ele como a referência mas entendam que onde se lê Candomblé pode se ler os demais cultos e Orixá.

Já escrevi sobre essa complexidade, podem procurar no histórico do Blog.

Seguindo, o Bàbáláwo aprende a trabalhar o Ifá. Aprende a entender os Odù, aprende a trabalhar com seu Opon e instrumentos, aprende suas cerimônias ou liturgias de Ifá, mas, depois disso existe uma grande intersecção com o culto de orixá.

Voltando, é a mesma religião, assim Esu, Ori, Orixá e egungun são os mesmos.

Se a pessoa tem conhecimento de como se lida com essas divindades no seu culto de Orixá, se já aprendeu isso antes e sabe fazer, nada a impede de continuar a fazer. Somente a estupidez pode impedi-la.

Vejo isso de forma mais séria, se a pessoa era de Orixá, sabia o que fazer e fazia isso no seu culto, o seu primeiro compromisso é com a forma e formato que ela adotava no seu culto de Orixá. Isso vai de usos, limpeza e proibições.

Nada também impede que um Bàbáláwo brasileiro, procure o contato com uma casa de Candomblé ou de outro culto para realizar aquilo que não sabe ou aprender o que precisa. Não ignoro que aprender algo no Candomblé é bem difícil, falta a boa vontade para isso, mas o Bàbáláwo tem o que dar em troca.

Não podemos esquecer que para alguns orixás que ela vai lidar aqui no Brasil, como Ori, Oxumarê, Logun edé, Obá e por ai vai ele nem vai encontrar referência em Cuba. Se o Bàbáláwo não aprendeu no seu culto de Orixá ou tiver apoio, vai ficar sem saber.

Digo mais, o entendimento e a liturgia que temos para Ori no Candomblé é única e completa. Cubanos não tem a menor ideia, ou melhor, já tem, dizem que já sabiam mas não é verdade. Fazem ainda uma coisa qualquer bem mal feita. Os nigerianos não conheço, mas, não imagino que seja diferente. Por que uma pessoa vai procurar conhecimento liturgia de Ori fora do Candomblé?

Eu vejo como muito natural que os Cubanos apliquem no seu Ifá em relação a orixá o que aprenderam em sua terra e no seu culto de orixá, a santeria. É óbvio que eles devem fazer da forma como aprenderam. Também acho natural que se eles tem que ensinar algo a alguém que façam da forma como aprenderam.

Entretanto isso não descarta outras alternativas, a primeira delas será eles buscarem uma integração com o culto de Orixá da região que estão, como eles fazem em cuba com a Santeria. Se vão viver aqui não vão transformar isso aqui em Cuba, é o contrário eles tem que se adaptar aos nossos cultos.

Acho muito mais natural que os Brasileiros que entram para a tradição cubana, separarem a parte de orixá da parte de Ifá e os brasileiros devem procurar o seu apoio no Candomblé ou seu cuto de Orixá. O nosso culto de Orixá é muito bom, o melhor, mas, antes de tudo é o nosso culto de Orixá.

O pior, para mim é claro, é ver brasileiros que se esforçam para falar nossa língua com sotaque de cubano, isso mesmo…. Tem algo mais lastimável que ouvir brasileiro falando português como se fosse um cubano?

A ideia de integração não é absurdo ou irreal, pelo contrário. Para ser efetiva depende também do Candomblé se abrir para entender o que Ifá pode lhe trazer e como Ifá não concorre com eles. Ifá é muito pequeno para concorrer com os diversos cultos de Orixá, mas, adiciona um valor perdido, um culto que esquecemos.

Ifá não é imprescindível, mas, agrega valor.



O Culto de Orixá dos cubanos, o Santo.


Para aqueles que não conhecem a estrutura que estou comentando, existem algumas coisas que devem ser explicadas. A primeira é que existe um culto de orixá e o culto de Ifá, são segmentos diferentes e especializados. O de orixá cuida de orixá e tem um aspecto bastante abrangente na vida das pessoas, porque Orixá é muito abrangente no nosso dia a dia. O culto de ifá cuida apenas do oráculo de ifá.

Santero cuida de santo (orixá pelos cubanos) e Bàbáláwo cuida de ifá. Lá em cuba a informação que tenho é que de forma geral os babalawo tratam do culto e liturgias Orunmilá e exu. Os santeros de orixá. Isso não é uma regra, é uma convenção deles. De fato, não é o correto que essas coisas se cruzem. Babalawos não fazem santo e santeros não consultam ifá. Essas afirmações sempre trazem discórdia e polêmica, entretanto a gente deve dizer o que tem que dizer, cabe aos outros explicarem suas ações.

O culto de orixá em cuba chama-se lukumi, ou santeria e é bastante padronizado, existe uma unidade, uma “regla”. Além disso a ilha deles é muito pequena para ter muita variedade. No Brasil o culto de orixá é coberto pelo conjunto do candomblé, pelo Batuque, pelo Xangô do Nordeste e pelo Tambor da Mina (espero não ter esquecido de algum). Como eu disse em outra postagem, a religião Yoruba no Brasil é um conjunto amplo de tradições e não uma unidade. Cuba é uma ilha muito pequena e com uma população muito reduzida se compararmos com o Brasil. Somos um continente em termos de tamanho e eles, comparativamente, um estado pequeno, um pouco pior, porque são uma ilha.....

A complexidade cultural e religiosa deles é muito pequena. Eles fazem apenas muito barulho. Muito barulho pouca informação e pouco conteúdo. Os cubanos, de Ifá ou da Santeria jamais vão entender o nosso culto de Orixá. É muito vasto e complexo para eles. Como disse em outro texto eles vão ter dificuldade aqui no Brasil de entenderem o que é um Orixá de verdade. No Candomblé quando alguém incorpora com orixá nos vemos Orixá mesmo, para eles cubanos, a incorporação é muito mais rara e eles veem como um egun na pessoa, eles não acreditam que Orixá incorpora em ninguém.

As pessoas que não são de Candomblé ou nunca viram poderiam incorporar as ideias deles por falta de conhecimento e experiência. Nós sabemos com o que trabalhamos e sabemos fazer a diferença.

Nós aqui temos um diferencial muito importante, a Umbanda, que tem um amplo espectro de guias, de vários níveis de evolução e energia, indo dos mais elementares e baixos até aos mais próximos de orixá, mas tudo isso em um sistema hierarquizado e muito bem organizado. A Umbanda é uma religião brasileira, não é parte do Candomblé ou de outro culto de orixá, mas, consegue funcionar e integrar a sua hierarquia a este culto.

Temos eleguns e Iyalorixás que já passaram por várias casas de orixá e também pela Umbanda. Nós aqui conhecemos egun em todas as suas formas de manifestação no Aiye e sabemos fazer a diferença entre orixá e egun. Os médiuns e eleguns sabem diferenciar, explicar definir e filtrar com quem trabalham. Estamos em outro patamar de entendimento do supernatural.

Além disso incorporar com Orixá é a regras para os eleguns dos cultos de Orixá, temos um longo processo de iniciação para que isso ocorra, não fazemos iniciações em 7 dias. Nossa experiência nos faz saber com o que lidamos e mais, nos faz saber a diferença entre essas coisas. Eles, os santeros não tem nada disso.

Lembro que a Umbanda foi um grande divisor de águas neste contexto religioso. Ela acabou com a feitiçaria banto, o chamado baixo-espiritismo cuja prática era dominada pelo charlatanismo e feitiçaria de poucos propósitos, para uma forma de práticae culto na qual ideais e dedicação substituíram o mercantilismo. A Umbanda reuniu dentro dela uma ampla hierarquia de espíritos e os colocou debaixo da mesma ideologia religiosa, além de estabelecer uma ordenação hierárquica da prática no nível espiritual. Apesar de carecer de uma melhor formatação para os praticantes que se sentem atraídos pelo aspecto exterior do Camdomblé, em relação ao mundo espiritual ou supernatural a Umbanda trouxe opções e organizou sua prática.

A capacidade e a complexidade da Umbanda em lidar com o mundo supernatural é muito grande, muito superior ao dos cultos de orixá. Mas a Umbanda pode se integrar perfeitamente com os cultos de orixá, sem prejuízo da Umbanda e dos cultos de orixá, é um ecumenismo não um sincretismo.

Claro que a capacidade das pessoas varia muito e gente inábil faz dessa capacidade de integração e complementação um desastre, criando os monstros que temos por ai, como os Omoloko, Umbanda traçada e Angolas.

Em muitos aspectos a presença da Umbanda prescinde a necessidade do culto de egungun para nós no Brasil. O Culto de egungun existe, mas fora a parte de curiosidade e culto de orixá e a Umbanda o substitui. A Umbanda nos trouxe uma enorme compreensão do mundo supernatural que existe entre a energia mais baixa de um espírito perdido à energia mais elevada de um Orixá. Os Orixá de Candomblé ou dos outros cultos não pertencem a Umbanda, mas encontram nela uma base e uma continuidade.

Sem dúvida nenhuma a Umbanda nos fez ter uma prática religiosa muito melhor e superior. Saímos do animismo fetichista africano, que dominava a nossa cena urbana do princípio do século XX para uma religião brasileira que organizou o mundo supernatural.

O que os cubanos têm em cuba é o Palo e a macumba, principalmente o primeiro. O Palo é o baixo-espiritismo, como tínhamos ha mais de 100 anos atrás. Dessa maneira, mais uma vez eu digo que nossa complexidade cultural e religiosa é desconhecida pelos cubanos. Se algum dia eles conseguirem entender o Candomblé, o que não vai ocorrer porque eles cresceram com formatação ideológica da Santeria na cabeça, eles não vão conseguir saber o que é a Umbanda. As bases de comparação dele são muito pobres, seja a Santeria como o palo e similares.

Suponho que muitos de vocês devem estar se perguntando porque o texto tomou esse rumo e onde quero chegar. O que busco explicar aqui é o que já falei muitas vezes. Temos uma complexidade cultural e religiosa aqui muito grande e autossuficiente. Nós temos a ensinar e não a aprender com os cubanos. Eles trazem para o Brasil uma prática de orixá muito mais pobre do que a que temos, em relação ao que temos aqui, a opção nativas deles é um retrocesso.

Em relação ao culto de Ifá, o que eles trazem é adequado. Como tudo de Cuba eles simplificam e misturam coisas, mas Ifá é Ifá mesmo, em cuba, Nigéria ou no Brasil.

O culto de Ifá tem 2 tradições religiosas diferentes. A cubana e a nigeriana. Apesar de ambas serem ifá, elas tem diferenças litúrgicas.

Aqui no Brasil não tínhamos ifá. Hoje temos o ifá cubano e o nigeriano, a escolha e podemos fazer o nosso Ifá Brasileiro, retirando a parte Santeria do Ifá deles e melhorando a parte Yoruba, principalmente rezas e histórias de Odù.

Assim espero que neste ponto do texto, fique claro para os leitores que:

  • O culto de orixá é distinto do culto de Ifá. 

  • Os sacerdotes não são os mesmos. 
  • Temos no Brasil uma prática bastante antiga de orixá que é muito consistente e nos permite saber claramente como é que deve ser feito o culto a orixá. Podemos não ter histórico de ifá, estamos aprendendo isso, mas o que diz respeito a orixá é de nosso completo domínio.
  • Dentro do Ifá, além de liturgias e conhecimento específico de Ifá existe a necessidade de se fazer coisas para Orixá.
  • Os Babalawos brasileiros podem aplicar no seu Ifá as práticas de orixá dos cultos de Orixá
  • Existem diferenças grandes no culto de Orixá do Brasil e de Cuba.

Os Santeros e os Santos


Lembro a todos que "santo" é a forma como os lukumi (santeros) cubanos chamam os orixás. A santería é bem diferente do candomblé, apesar de terem como origem a mesma religião yoruba.

As pessoas precisam entender que os caminhos de evolução é que determinam o formato final e não a origem. Não adianta terem tido a origem no mesmo lugar se tomaram caminhos diferentes na sua evolução. Se comparado com o Candomblé, com o que conhecemos de Orixá, a santeria tem uma forma muito distinta de ver orixá, tem uma teogonia um pouco diferente, tem Orixás que eles criaram lá, etc.

No meu modo de ver eles se comparam a umbanda omoloko que a gente tinha ou tem por aqui, não no aspecto de incorporação, porque lá isso é menos comum, mas no entendimento da religião e das divindades como uma mistura do original com uma coisa própria deles, extremamente sincrética. O culto de orixá deles, a santeria, incorpora muito a sociedade deles e em demasia o catolicismo, dificilmente alguém do candomblé, que se aprofundar, poderá se identificar com a forma como eles entendem e lidam com orixá.

Você não vai encontrar neles coisas muito básicas no nosso entendimento, como xirê, conceito, teologia e pratica de Ori, qualidade de Orixá, o conceito de terreiro (a comunidade), o conceito e processo de feitura de orixá e até mesmo a necessidade da incorporação do orixá para a sua presença no Aiye.

O Candomblé é um culto no qual a presença do orixá incorporado, no Xire, dançando com as pessoas e até mesmo cantando (como ocorre em algumas tradições) é primordial. Existem tradições brasileiras, dentro do Candomblé e fora dele (como o Xango do nordeste) no qual o Orixá incorpora e convive com as pessoas longas horas.

O Candomblé tem convenções ou dogmas no qual em determinados momento ou liturgia o Orixa ira se manifestar para fazer ou receber o que fazem. O Elegun de orixá é uma figura importante.

Nada disso faz parte da Santeria. As coisas dele são feitas de “cara limpa”, eles rezam ou cantam e pronto, está feito. Você tem que acreditar (haja fé...).

Outras diferenças importantes poderiam ser destacadas e incluem a visão do culto de egun dentro do culto de orixá deles. Eles acham normal, orixá e egun para eles estão muito próximos e ligados. Para nós são distantes, 2 cultos separados.

Vocês podem então estar se perguntando, porque nos santeros isso está tão próximo e com a gente tão distante?

Simples, para eles não tem Orixá incorporado, é um egun de uma mãe de santo ou pai de santo que incorpora na pessoa. Por isso que egun e orixá estão tão próximos para eles e tão distantes para nós. Por isso é que eu chamo o nosso de orixá e o deles de “santo”.

Além disso eles lá tem o Palo, uma forma de macumba e tem também a macumba dos Bantus, que aqui acabou e foi substituída pela Umbanda. Lá eles tem a forma de macumba pré-umbanda, e sendo uma ilha pequena com um povo reduzido essas coisas se misturam. Sem dúvida a Santeria tem muita influência do Bantu, dos Cambinda, coisa que não ocorre no Candomblé.

A Umbanda foi também um processo muito forte que acabou com o universo de macumbas, quimbandas e feitiçarias que existiam.

Não estou neste momento fazendo nesse momento qualquer juízo de valor sobre essas diferenças. Estou apenas destacando que existem diferenças fundamentais que, para quem não tem intimidade com a teologia pode não ser percebida ou parecer importante, mas, para mim, me faz dizer que são água e óleo.

Essa diferença teológica gera uma questão importante e que está sendo desprezada largamente por todos podendo trazer consequências ruins para nós no Brasil. Nós podemos fazer uma auto-crítica e achar que temos coisas a melhorar e corrigir no candomblé, essas coisas dizem respeito principalmente a comportamento das pessoas e organização, mas, não temos nada a mudar na religião e no culto de orixá. São muitos anos de uma prática consistente que apresenta resultados concretos.

A santeria não adiciona nada ao candomblé, não temos nada a adicionar, mudar ou copiar. Repito eles são uma outra “coisa”. Eles do jeito deles e nós do nosso.

Se os cubanos estão felizes com o que fazem ótimo para eles. Por gentileza digam a eles que sejam felizes assim e digam mais, digam que eles não tem capacidade ou propriedade para comentar nada do candomblé.

Não coloquem na mesma cabaça a Santeria e o Candomblé.

O que os Babalawos cubanos trouxeram para cá, para lidar com a parte orixá, foi essa santeria e é em relação a isso que temos que ter cuidado.







Texto anterior na sequencia: A ligacao entre ifa e o culto de orixa






segunda-feira, fevereiro 09, 2015

De volta às Postagens...


Aos que acompanham, lamento a interrupção, mas, questões sacerdotais que impediram de manter as publicações.

Estou retomando e espero manter o Ritmo...  que não é fácil.

Lembrem-se de indicar o Blog para outras pessoas. Passem o link do blog, publiquem o link que gostarem no FB, etc....

A Ligação entre Ifá e o Culto de orixá Revisão 2



A Ligação entre Ifá e o Culto de orixá

Revisão 2


Este é mais um daqueles textos que demoram muito tempo para serem feitos. Foi reescrito muitas vezes, etc.. É muito difícil chegar a um bom termo em alguns temas, nos quais você tem que relatar o que vê e dizer o que pensa.

Tudo isso começou com a observação da forma como o ifa cubano traz junto de si a prática de orixá deles, cubanos, a santeria, e como algumas coisas têm se desenvolvido aqui no Brasil. Resolvi escrever sobre isso, mas, o texto tomou um rumo mais amplo e por isso me tomou mais tempo.

Lembro também que sempre “pinto” o que eu escrevo com cores bem fortes. Isso é para ir no ponto que importa, chamar atenção para o aspecto que está sendo comentado. Vejo muito texto que você não entende onde as pessoas querem chegar. Claro que o mundo real é bastante complexo e existem várias situações, casos e exceções e nenhum texto captura tudo isso, por isso o que importa mesmo é tratarmos do ponto principal.

Quando comparado com o Candomblé, nosso culto de Orixá, a forma como as coisas são feitas e tratadas no Ifá cubano e dos cubanos em geral, sempre me trouxe muita distância e estranheza. Eram coisas muito diferentes na prática para lidar com o mesmo divino, a mesma religião. Isso não tinha haver com Ifá, era a parte de Orixá que era muito complicada de eu aceitar, mas, mantive comigo, afinal eram coisas de cubanos e eu demorei um tempo para conseguir separar o que eram coisas que os babalawo faziam que era Ifá mesmo e as que eram Orixá e Palo.

Uma das “pérolas” mais hilárias que ouvi era quando fazia um comentário sobre a forma como fazemos com orixá aqui e vem a resposta dizendo que no Ifá é diferente e não se pode fazer daquele jeito.

Que estupidez, eu pensava, que coisa de idiota, como uma pessoa nem pensa no que está falando.

Como esses estrangeiros querem se introduzir aqui se não respeitam o nosso culto de Orixá e se não querem entender minimamente o que temos e o que fazemos. Eu vou até mais além, sendo muito crítico fico na dúvida se eles entendem o que é orixá de fato.

Este texto será longo e essas afirmações serão explicadas.


Ifá e o culto de Orixá


A primeira informação importante para todos é que Ifá não está dissociado do culto de orixá. Isso foi uma constatação muito interessante e motivante para mim. Ifá é um culto que pertence a mesma religião (Yoruba) que tem um culto de Orixá. Aliás, a gente vai encontrar na religião Yoruba 3 cultos, o de Orixá, o de Ifá e o de Egungun.

São cultos distintos porque tem foco em divindades diferentes, tem liturgias distintas e tem objetivos complementares, mas, fazem parte da mesma religião, compartilham as mesmas divindades e a mesma teogonia. São separados mas vejo-os fazendo parte de um todo.

Não me perguntem como Ifá se integra com o culto de jeje - Não sei. Quando a pessoa vai a Ifá ela vai na religião Yoruba.

O Jeje representa uma outra religião dentro do Candomblé e um culto com divindades diferentes. O jeje tem Vodun e a religião Yoruba tem Orixá. Conheço muito pouco desta religião, mas, o pouco que conheço me faz recusar esta abordagem medíocre que faz correlação de 1:1 entre Orixá e Vodun. Não concordo que isso seja assim.

Ifá é um oráculo Yoruba. Está ligado a uma teogonia Yoruba, a uma teologia Yoruba e a divindades Yoruba. Tudo em Ifá gira em torno de orixá e da teogonia Yoruba que é diferente da teogonia do Jeje. Quem no Candomblé é de uma nação Yoruba, se vira com facilidade, o pessoal de jeje não sei como faz.

Isso significa que a pessoa não pode ir a Ifá? Não, apenas saiba que vai sair de lá com indicação de coisas para fazer no contexto Yoruba e de suas divindades. Se isso não for problema para ele, então não existe problema. Como estou falando aqui de ecumenização, ou seja, de integração de cultos, no caso do Candomblé temos que ter atenção na raiz da religião.

Claro que a maior parte das pessoas que conheço ou situações que vi indicam que isso não é problema. O que mais tem é “Doté de orixá” e casa de jeje que toca ketu e só faz orixá Yoruba ou faz Vodun como se fosse orixá, só troca o nome. Raro é uma casa que seja Jeje, essa ortodoxia existe mais na nossa cabeça o mundo real é uma bagunça.

Se o Doté ou Doné já é de orixá então o resto todo também o será. A coisa começa da raiz, se a raiz começa com Orixá porque o resto será diferente?

Usando uma expressão que ouvi e gostei, o que temos mais e mais, é o Candomblé popular, não é o Candomblé de nação. As pessoas praticam de qualquer jeito e de qualquer forma. Raros são aqueles preocupados com religião e culto, preocupados com nação e ortodoxia, preocupados em dar consistência no papel da religião na vida das pessoas.

O Candomblé popular é aquele que acontece. As pessoas fazem e ganham dinheiro com ele.

Para aqueles que pensam que isso é um problema dos tempos modernos, não é, pelo contrário, os tempos modernos só melhoraram o Candomblé. A divulgação de informação, a facilidade de reconhecer erros, a penetração em uma camada da população mais preocupada em ter uma religião mudaram para melhor a qualidade do Candomblé.

A perda de conhecimento que o Candomblé teve em sua prática hermética e em guetos era fruto de pessoas com poucos valores e ética, que se preocupavam somente com elas e mais nada. O ganho de qualidade, ética e moral do Candomblé tem sido muito grande e o salvou. Claro que todo crescimento e evolução tem seus defeitos e problemas, mas cada vez a gente tem coisas menos séria ou escandalosas para lidar. A transparência e o acesso à informação mudam para o bem.

Ha muito tempo que já deixei de lado essa posição ingênua de que os "antigos" é que faziam certo. Coisa nenhuma, como eu disse, não sejamos ingênuo. Claro que até podiam entender muita coisa que não sabemos hoje, como também desconhecer coisas que sabemos hoje.

Sua incapacidade em preservar a religião é que levou a perda. Não tenho dúvida que essa mesma herança histórica foi a que expulsou o culto de orixá da Africa. A diáspora negra foi uma solução e não um problema. Ela permitiu que os Orixá se preservassem, porque se dependesse dos africanos já teria acabado.

Essa herança cultural, histórica étnica é que fez com que eles não preservassem sua religião e continuassem submetidos e escravizados apesar do absurdo número de africanos no Brasil. Eles estavam mais preocupados em se dar bem, em se libertar e ter escravos do que mudar algo.

O Candomblé do início do século refletia o mesmo. Desunião e feudalismo.

Voltando ao tema, em ifá existem liturgias próprias de Ifá e que não encontraremos no culto de orixá. O Babalawo trabalha de uma forma distinta do Babalorixá, contudo, Ifá se apoia ou mesmo depende fortemente do culto de Orixá.

Sim, Ifá é o oráculo de orunmilá, mas o que ocorre em nossas vidas, a ação, passa por Ori e principalmente por Orixá. Orixá é a divindade que influencia nossa vida de forma positiva e é quem nos socorre como resultado da consulta a Ifá. Orunmilá não está dissociado dos demais Orixá, ele é o Oráculo, mas nossa vida ainda é orientada diretamente pelos Orixá.

A ação do Oráculo na nossa vida se inicia com Orunmilá e Esu, mas continua e se manifesta com os Orixá. Isso está no odu Oseotuwa. São os orixá os principais motores da nossa transformação e socorro. O Oráculo como intermediário e instrumento de diagnóstico determina ações que serão suportadas por Orixá e egungun.

Esta é a religião Yoruba. Esta é a teogonia. Assim, Ifá não é isolado ou independente ele se integra aos demais cultos de forma bastante natural.

Claro que o Babalawo tem uma forma própria de fazer o que precisa com seus Odù e Opon, mas algumas coisas podem ser ditas:

— existem situações de oráculo que indicam diretamente ou por bom senso que o consulente deve procurar o culto de orixá;

— a maior parte das oferendas à orixá pode ser feita da forma como a pessoa já faz no culto de orixá.

O acesso aos Orixá é determinado quando se especifica o ebó ou oferenda que é necessário. Não lembro se já falei aqui sobre a anatomia de uma consulta a Ifá, creio que sim. Após determinar o Odù que traz a mensagem a pessoa, o Babalawo determina qual o ebó que será necessário para fazer aquilo se manifestar na vida da pessoa.

Nesta fase da consulta podem ser determinados ebó de Ifá com tabuleiros, cerimônias específicas de Ifá e as oferendas a Orixá. Sim, no caso da rama cubana o Babalawo sempre determina que orixá esta respondendo em socorro aquela pessoa. Isso não é nada diferente do que um babalorixá faz no seu culto de orixá com o merindinlogun.

Nesta etapa é determinado o que o Orixá precisa para ajudar a pessoa. O que quer que seja oferecido ao Orixá se torna uma oferenda a orixá e não mais importa como será feita. O Bàbáláwo pode fazer da forma como sabe, mas o consulente, se for de um culto de Orixá e souber o que fazer, também pode fazer a sua maneira ou de qualquer maneira que se chegue ao orixá. É aqui que entra o culto de orixá.

Os Bàbáláwos cubanos vão fazer isso da forma como aprenderam, seja em Ifá ou na Santeria, não tem problema nisso. Mas não pode haver qualquer tipo de objeção aos brasileiros poderem fazer isso da forma como aprenderam no seu culto de Orixá ou através de uma casa de Orixá.

O divino é o mesmo. Você pode através de cada religião e culto aprender formas distintas de atingir ao divino. Essa é a função da religião. Os cubanos aprenderam de uma forma e farão como sabem. Os brasileiros dos diversos cultos de Orixá podem ter alternativas a estas formas.

Mas aquele que diz, como já ouvi, que a forma se fazer uma oferenda para um determinado Orixá é somente do jeito dele representa a voz do ignorante. Pior um pouco, não respeita a sua religião ou não entende que faz parte de uma única religião.

Estou usando aqui a referência dos cubanos mas isso vale para os nigerianos e seus filhotes de criação brasileiros. É a mesma coisa.

Próximo texto da sequencia:  os babalawo e o culto de orixa

quarta-feira, setembro 03, 2014

O Candomblé e a família

O Candomblé e a família



O candomblé é baseado em uma religião absolutamente familiar. O indivíduo e seu sucesso na vida é o centro da religião, mas a família e a sociedade vem logo a seguir. A família é muito importante na estrutura religiosa e a ancestralidade, o vínculo com o passado, é baseada nos laços familiares. A religião não separa o indivíduo da sociedade, pelo contrário integra-o com o presente, o passado e o futuro dessa sociedade.

Eu observo muitos pseudointelectuais usado a referência da ancestralidade, como uma posição “erudita” com frases de efeito, mas, é tudo espuma. Essas pessoas não tem a menor ideia do que seja ancestralidade para essa religião.

Hoje existe em muitas casas ou talvez até, na maioria delas, um desencontro entre a religião e a família. Isso vai de encontro (isto é, contraria) com o princípio básico da religião, uma vez que é inconcebível uma religião sem a família. Na continuação do texto eu explorarei este aspecto histórico buscando trazer reflexão sobre o tema.

O mundo real nos mostra que a prática de muitas casas não incentiva ou propicia uma prática familiar da religião.

Essas casas devem ser evitadas, elas não são um lugar adequado a religião.

Antes de fazer a explicação histórica do problema e suas causas raízes, de acordo com meu ponto de vista, vou direto nas recomendações.



Recomendações para escolher uma boa casa


A primeira coisa que qualquer pessoa deve ter atenção ao frequentar uma casa é, onde esta a família do dirigente? A família dele está na casa de orixá? Mulher e filhos estão na mesma religião do dirigente?

Se a pessoa não tem capacidade para convencer seus familiares frequentarem sua casa, por que você está indo la? O que você viu naquela casa ou pessoa que as pessoas mais próximas a ele não viram? Por que ele te convence a ir na casa dele se não faz isso com mulher, filhos e outros familiares.

Os demais membros da casa, frequentam com a família deles? Ou você é o único preocupado em levar sua família? Se não existe preocupação geral em trazer a família, você certamente está no lugar errado.

Você pode estar em uma casa que o dirigente é homo sexual. Isso não é por princípio nenhum problema, mas homo sexuais também tem família. A família dele está com ele?

Como eu citei, a orientação dele não é um problema, mas, também pode não ser um padrão para você. Em muitos casos pode ser mais conveniente você procurar uma casa mais alinhada com sua própria vida. O seu espaço religioso não pode representar uma disrupção com sua realidade, isso não da certo.

A casa é um ambiente familiar? É um lugar para o qual você levaria sua família sem restrições ou preocupações? Você vê sua família frequentando com você aquela casa?

As pessoas que frequentam a casa são pessoas similares a você em termos de valores, ética e moral? Você poderia conviver com essas pessoas fora da casa de orixá?

A sua casa religiosa não é um lugar para laboratório social. Ela deve ser sintonizada com sua vida, modos e comportamento. Ela tem que poder ser uma extensão natural da sua vida para que la a sua cabeça não fique em conflito ou praticando novos horizontes. Se você quer que isso dê certo tenha atenção a isto.

Se você falhar em responder a estas questões, reflita melhor e procure um lugar que vai propiciar mais chances de sucesso. É absurdamente alto o nível de frustração das pessoas com casas e isto traz muitos problemas.

Não tenha pressa sob nenhuma razão para escolher uma casa. Nenhum motivo ou pretexto devem acelerar o lento processo de escolha de uma casa para frequentar. Voltando ao tema deste texto, religião é uma prática familiar.


A origem da família espiritual.


A família espiritual, ou de santo, teve sua utilidade, mas causou mais problema que solução. O modelo que você deve ter para a religião é da prática familiar. Sua casa religiosa tem que ser um lugar compatível com sua vida. Não pode ser um lugar que você mergulhe em uma vida paralela.

A casa que você frequenta tem que permitir uma prática aberta da religião, uma que você e sua família possam ir sem serem obrigados a se iniciar o submeter a liturgias contínuas.

Você não pode ver sua opção religiosa como sendo um instrumento para solução de problemas, para troca de favores ou dispêndio de dinheiro.

Não confunda preconceito com opções. Você pode não ter preconceito contra a opção social das pessoas, mas não tem que transformar isso em sua opção. Você pode ter a opção de ter uma vida distinta e que fique sob o seu controle a educação que dá a seus filhos.

Nunca se submeta a ninguém. Uma coisa é respeitar a organização de uma casa que precisa dela para funcionar. Você deve entender o seu papel naquela estrutura e o que pode, não pode, deve e não deve fazer, mas nunca se esqueça que está ali por opção e não por falta de opção. Sua prática de religião deve ser um prazer e a relação entre as pessoas deve se dar pelo respeito.

Religião não é um exército e casa de orixá não é um quartel. A hierarquia que se estabelece no contexto religioso é necessária mas serve a religião. Na vida social a importância das pessoas se deve ao respeito que elas conquistam e não ao que elas exigem.

O candomblé é uma versão brasileira da religião Yoruba. Ele é uma "tradição religiosa" e por isso mesmo fez várias adaptações da prática da religião original Yoruba ao nosso povo em função de nossa cultura, história e sociedade. Essas adaptações não mudam a religião, apenas especializam-na. Um dos aspectos que tiveram que ser superados inicialmente, infelizmente, foi o aspecto da família. Digo infelizmente porque a solução acabou favorecendo o descolamento na religião do individuo da família e isso se propagou até hoje. É um dos casos em que o remédio trouxe efeitos colaterais permanentes.

Em primeiro lugar, temos que lembrar que a família dita carnal ou de descendência direta foi desconstruída pelo escravagismo. A formação das primeiras casas de candomblé não pôde ser feita em torno do núcleo familiar e dessa forma a família não pôde se reunir em torno do culto às suas divindades pessoais, familiares e seus ancestres, como é o modelo Yoruba. Essa minha afirmação não é totalmente precisa e vão existir vários casos de exceção, contudo serve como visão geral.

A separação da família teve apenas um efeito mais forte nos primeiros tempos da religião, possivelmente nos primeiros 40 anos, mas criou o conceito da família de santo para substituir a ausência da família carnal. O conceito da família substituta permitiu que se inserisse um “ambiente familiar” alternativo, com irmãos e pais. Dessa forma a religião pode ser praticada quardando o paralelo com a África. O terreiro era a casa familiar substituta e os membros os familiares.

A casa e família de santo trouxeram o ambiente de relações familiares da religião Yoruba para o candomblé e o ajudou a se construir de uma forma similar a origem africana.

Mas havia um outro aspecto, além do escravagismo, que contribuiu para a não união familiar em torno da religião, que foi o catolicismo que, como religião majoritária e de forte ascendência devocional sobre a população, dividia a preferência dos indivíduos e das famílias. Não temos a tradição social de obrigar a adoção da religião pelos filhos e o candomblé sendo uma religião iniciática com ritos fortes e fortemente discriminada, era muito mais difícil de ser adotado quando comparado com o catolicismo.

Imagine a situação difícil dos primeiros grupos que tinham acesso ao candomblé. Já sofriam uma grande restrição social por conta de sua vida e origem. Sofrer ainda preconceito por causa da religião ou mesmo perseguição policial real, era um pouco demais. Não era para todos e mesmo o pai mais crente nos orixás não gostaria de ver seu filho sofrendo por isso.

Além disso o catolicismo se impunha como a religião majoritária. Fortemente divulgada, fácil de ser praticada e altamente integrada a ritos sociais, como batizado e casamentos. Era impossível não se casar em uma igreja e a cerimônia era o sonho das mulheres.

Nada disso havia no candomblé, pelo contrário só haviam restrições e proibições.

Com isso tudo e mais coisas ainda que poderíamos divagar era difícil ter o candomblé como religião familiar, mesmo bem depois do fim da escravidão.

O lukumi, tradição religiosa cubana, que tem aparecido no Brasil junto com cubanos, tem todo motivo para ter se distanciado tanto da religião Yoruba. Eles tiveram a mesma concorrência do catolicismo e não tiveram a formação da família de santo e do terreiro. Acabaram construindo uma tradição que se distanciou muito da religião e teologia e hoje eles buscam se afirmar conflitando com os africanos.

Contudo, voltando a questão da família substituta, esta não era a solução perfeita. Ela, de fato, criava um núcleo familiar paralelo, necessário para a religião, mas, não estabelecia entre as pessoas a real cumplicidade, lealdade, tolerância e afetividade que existe no ambiente familiar real. A família substituta serviu ao propósito da religião mas não ao das pessoas. As casas de orixá se tornaram um ambiente nem sempre agradável onde imperava a convivência difícil e relações hierárquicas. A família espiritual, de família não tem nada.

Com o tempo a família substituta inibiu a própria família real de se integrar a casa de orixá. A estrutura substituta com sua hierarquia própria passou a não desejar mais os problemas que adviriam da integração da família real, com seus laços afetivos próprios, suas relações de lealdade particulares e sua hierarquia autônoma.

Quando a capacidade do dirigente está muito aquém do necessário para enfrentar este desafio, sobram restrições e a religião se perde. E isso ocorreu em larga escala. Foram estabelecidas regras proibindo o relacionamento entre pessoas da mesma casa e proibições a frequência a uma mesma casa de casais.

Além disso a capacidade de ensinar a religião e a prática dela se transformaram em um transtorno. Eram muitas regras e proibições. Somente a casa de orixá era lugar para a religião e da forma como o dirigente estabelecia. Erros, desvios ou esquecimentos na liturgia viraram problemas gravíssimos.

A consequência disso foi que esta religião através desse tipo de pensamento e prática adotou a linha do medo e do pecado que cercam e alimentam o cristianismo. A naturalidade e a felicidade do encontro com orixás foi trocado pelo medo e tensão. O orixá como uma divindade próxima a nós e que compartilha nossa felicidade foi tornada equivalente ao deus cristão, severo e raivoso.

Esqueçam esse modelo idiota.