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sábado, fevereiro 06, 2021

Mitos sobre egbe (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run) - [ Entendendo a religião Yoruba - Pt. 43]

 

As informações de Alex Cuoco

 

Alex Cuoco é um brasileiro que foi viver ainda jovem nos EUA. Ele publicou um livro excelente chamado “African Narratives of Orishas, Spirits and Other Deities”. É um equivalente ao livro do Prandi, “Mitologia dos Orixá”, mas o Prandi mistura muito no seu livro, ele inclui patakis cubanos e isso deturpa muito o que ele mostra porque os cubanos criaram uma teogonia própria e os pataki são uma péssima fonte.

O livro do Alex Cuoco é bem extenso, são quase 1.000 páginas, mas, contém bastante texto sobre Orixá (Òrìṣà). Neste livro ele tem muitos mitos sobre Àbíkú e um resumo no final dos textos. É sobre o que ele sintetizou em seu resumo, a opinião dele que vou descrever a seguir, visto que é um resumo dos diversos mitos que estão no livro.

Segundo Alex, os Àbíkú são um fenômeno comum entre diversos povos da mesma região. Os yorùbá, Akan, Nùpe, Ìgbò, Hausa e Fante acreditam na mesma coisa. De fato existe um compartilhamento de crenças religiosas por povos desta região que, mesmo sendo de etinias diferentes e tendo cultos religiosos distintos, possuem muitas crenças em comum, na verdade são bem próximos um do outro.

Eles acreditam que os espíritos Àbíkú residem em áreas desabitadas, florestas e áreas arborizadas, principalmente em torno de árvores de Ìrókò. Os Àbíkú ficam em trânsito entre o órun (Ọ̀run) e o Àiyé permanecendo por pouco tempo na terra.

Os Àbíkú fazem parte de uma sociedade chamada “Égbe (Ẹgbé) Ará órun (Ọ̀run)” que tem meninos e meninas e, cujos garotos, são liderados por uma deidade chamada Iyàjanjàsá e, as meninas, são chefiadas por uma deidade chamada Olóìkó. Contudo foi Ọlọ́fin Aláwaiyé aquele que trouxe eles para dentro do mundo pela primeira vez para a cidade de Awaiyé, em um grupo de 208 Àbíkú. É em Awaiyé que pode ser encontrada a floresta sagrada do Àbíkú onde os pais dos Àbíkú vão fazer suas oferendas de maneira a manter suas crianças no mundo. A cidade de fato existe.

Seguindo os textos bases, os Àbíkú vão do órun (Ọ̀run) para o Àiyé e declaram para Oníbodé suas intenções o tempo que ficaram no mundo (curto). Eles prometem a seus companheiros retornar independente dos esforços que seus pais façam para eles ficarem.

Quando o tempo de partida chega seus companheiros vão para o Àiyé para lembrá-los de suas promessas. No Àiyé os companheiros residirão em áreas como pântanos, rios, os muros das casas onde moram seus companheiros renascidos, nos banheiros das casas e nos quintais.

Este tráfego entre o órun (Ọ̀run) e o Àiyé, como ele descreveu, de fato, não é possível assim. Não podemos para explicar o egbe (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run) aceitar que existe um livre tráfego de espírito e para todo o resto da teologia isso não existir. Lembro que o mito da separação do órun (Ọ̀run) e do Àiyé está acima disso e esse mito não pode valer, para os Orixá (Òrìṣà) por exemplo e não valer para o egbe (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run). Isso é uma inconsistência sistêmica nessa narrativa. Qualquer parte da religião tem que estar alinhado com o todo, não podemos tratar tudo como se fossem coisas estanques. É nesse sentido que a tese de Salami do Ìrònà e também minha é o modelo mais adequado.

Os quintais são os lugares preferidos pelos companheiros, porque é neste local que os yorùbá enterram as placentas depois que são colocadas em uma jarra chamada de Isásùn, a qual é coberta com folhas de palmeira e búzios. É a partir desses lugares que esses emissários chamam seus companheiros renascidos para voltar para casa ou ficam atormentando os que decidiram ficar.

O pacto entre os membros do egbé (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run) é bem sério e os Àbíkú que não renasceram farão de tudo para que ele seja comprido. Existe a capacidade dos pais, através de Ifá, fazerem a alma do filho de romper com essa sociedade e a alma pode, assim, se libertar desse ciclo de vidas curtas. Uma vez feito isso eles nunca mais serão importunados pela sociedade egbe (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run).

Como parte do pacto, o Àbíkú renascido deve compartilhar aquilo que ganha com seus companheiros, desta forma, uma criança Àbíkú sofrerá de mal-nutrição, porque, o que come será compartilhado entre seus companheiros. Os companheiros manterão contato com o renascido continuamente para que esse não esqueça de sua promessa. Os companheiros surgem em sonhos e poderão causar acidentes e doenças.

Observe que a tese de que os companheiros compartilham dos alimentos comidos vai ao encontro do modelo do Ìrònà. Os espíritos no Ìrònà precisam dessa energia transmutada para se manterem ativos em nossa dimensão.

O Ṣáworo é um recurso usado para afastar os companheiros, trata-se de um cordão com um guizo amarrado, que é colocado no calcanhar das crianças e este barulho afasta os Àbíkú. O mesmo é considerado para roupas vermelhas. Além deste tipo com guizo, o Ṣáworo pode ter outros modelos. Muito anteriormente era feito com búzios, depois passou a ser anéis de ferro, mesmo sem o guizo. Este modelo de apenas um anel de ferro, na verdade mais de um que fazem barulho quando a criança de move é, possivelmente o mais tradicional e conhecido.

Um recurso mais desesperado das mães é fazer pequenas incisões na pele da criança e esfregar pimenta para causar dor ao Àbíkú e eles deixar o corpo da criança. Existem também folhas específicas para essa finalidade que são transformadas em pó. Nesse caso é considerado que o espírito Àbíkú reside no corpo da criança junto com a alma verdadeira e, desta forma, poderia ser expulso.

Quando uma criança Àbíkú morre é dado um péssimo tratamento para o corpo. Existem casos no qual ela não é enterrada, sendo deixada na floresta para apodrecer. Outras é enterrado em florestas distantes da casa dos pais. Ainda existe o hábito, como descrito no texto do Salami de mutilar o corpo da criança e a mãe invoca maldições e pragas para aquele Àbíkú, antes de enterrá-lo. Eles acreditam que o Àbíkú ficará com medo da mãe e não voltará assim como o corpo mutilado não atrairá mais. Também acredita-se que o corpo do próximo nascido poderá ser pesquisado se tem as mutilações que foram feitas no anterior, como também descrito no Salami.

A seguir vou transcrever 2 mitos sobre os Àbíkú. Para quem lê pode parecer aborrecido isso, mas, destaco que para entender essa religião tem que ler os versos e mitos. Não podem se guiar apenas pelas análises e interpretações feitas por outros, como eu, porque não vai aprender Ifá de verdade.

1 - Os Àbíkú chegam no mundo, pela primeira vez, em awaiyé

Um dia, Ifá foi consultado em nome de Aláwaiyé, que estava vindo de Órun (Ọ̀run) para o mundo, e que estava trazendo com ele, duzentos e oitenta Àbíkú para a Terra. O Bàbáláwo lançou Ifá em seu nome e disse: “Ah! Arbusto pequeno, arbusto pequeno! Escuro, escuridão! Aqueles que conhecem o trabalho das trevas, não causem problemas para a lua!”
Aláwaiyé, que é o chefe dos Àbíkú no Órun (Ọ̀run), chegou e convocou todos os Àbíkú para se reunirem para sua jornada. Quando os Àbíkú chegaram à orla do órun (Ọ̀run), cada um declarou ao Oníbodé, guardião do portão, o tempo que ele ou ela ficariam no mundo.

- Um Àbíkú disse: “Ha! Assim que eu ver minha mãe, eu voltarei!”

- Uma garota disse: “No momento em que meus pais marcarem um dia para meu casamento, eu voltarei!”

- Outra disse: “Assim que der à luz uma criança, voltarei!”

= Um menino disse: “Assim que eu construir uma cabana, voltarei!”

- Uma menina disse: “Ha! No momento em que meus pais conceberem outro filho, eu voltarei!”

- Outro menino disse: “Assim que eu começar a andar, voltarei!”

Como os Àbíkú deveriam chegar ao mundo pela primeira vez, Aláwaiyé foi o líder encarregado de levar todos eles para a cidade de Awaiyé. No entanto, antes de sua chegada, os Àbíkú traçaram um plano secreto de combinação entre eles para garantir que sempre poderiam retornar a Órun (Ọ̀run) e voltar à terra, quantas vezes quisessem. Um Àbíkú disse: - “Ha! Após nossa chegada ao mundo, cada um de nós fará quatro conjuntos de vestimentas vermelhas, cada uma com uma bandagem e um gorro que valerão quatrocentos búzios.”. Outro disse: - “Se alguém descobrir nossas proibições quando chegarmos ao mundo ou se alguém descobrir o nome das roupas que fazemos ou se nossas mães descobrirem nosso segredo sobre as coisas que combinamos, ficaremos no mundo com eles.” Um menino disse: - “Se nossos pais descobrirem nossos segredos, ficaremos no mundo quando chegarmos em Awaiyé.”

Quando chegou a hora de Aláwaiyé levar os Àbíkú ao mundo, eles foram pela primeira vez e então voltaram para Órun (Ọ̀run). Eles foram uma segunda vez e voltaram para Órun (Ọ̀run) mais uma vez. Eles foram e saíram pela terceira, quarta, quinta e sexta vez. Quando eles chegaram pela sétima vez, o povo de Awaiyé consultou um Bàbáláwo e disse:

- “Ah, queremos saber o que podemos fazer para que nossos filhos permaneçam no mundo! Não queremos mais que eles morram!”

O Bàbáláwo lançou Ifá em seu nome e disse: - “Ah, aqueles que dão à luz filhos Àbíkú e desejam mantê-los, na terra, seguros de que não mais quererão deixar o mundo novamente, devem oferecer sacrifícios. Cada um de você deve fazer um envoltório da cabeça e um boné no valor de quatrocentos búzios e também deve comprar tecido de vermelho vivo e fazer uma roupa para eles ”.

Uma mulher disse: - " Por que devemos fazer isso? "
O Bàbáláwo respondeu: - “Faça isso porque estas são as vestimentas que os abiku secretamente concordaram em fazer antes de vir ao mundo. Os Àbíkú têm sua própria floresta sagrada em Awaiyé e é lá é onde você deve oferecer todos os sacrifícios, pendurando-os em árvores e, quando terminar, você deve realizar uma cerimônia, tocando tambores e dançando para eles. Certifique-se de preparar pratos de comida èkuru, àkàrà, òlè, àádùn-rèké, ẹ̀pá, inhame doce, diferentes tipos de vegetais e também ofereça esponjas e sabão.

Um homem disse: -“Faremos, como você diz!”

O Bàbáláwo disse: - "Se você oferecer esses sacrifícios a eles todos os anos, seus filhos Àbíkú não mais deixarão o mundo. Na próxima vez que eles voltarem, eles vão dançar aqui e lá e batendo em seus tambores iyá dùndún, vão cantar:

Vamos esfregar nossos corpos com a cor osun para o chefe de nossa sociedade!

Vamos usar nossas roupas de cor vermelha osun!

Vamos usar nossa proteção para a cabeça e gorros no valor de 1.400 búzios!

Vamos esfregar nossos corpos com a cor osun para Aláwaiyé, o chefe de nossa sociedade!

Uma mulher disse: - “O que vai acontecer, então?”

O Bàbáláwo respondeu: - “Eles continuarão a dançar suas danças e se vocês, seus pais, realizarem esta cerimônia para eles, nenhum de seus filhos Àbíkú deixará o mundo!”

Desta forma, os primeiros Àbíkú trazidos ao mundo por Aláwaiyé, puderam ficar em Awaiyé, depois que seus pais descobriram seus segredos. Com a orientação do Bàbáláwo os pais conseguiram realizar as cerimônias corretas para o Àbíkú.

2 - Mosetán permanece no mundo

Um dia, Olójé Okoso e sua esposa, os pais de uma garota Àbíkú chamada Mosetán, consultaram um Bàbáláwo porque seus companheiros Àbíkú estavam constantemente aparecendo em seus sonhos, chamando-a para voltar e se juntar a eles. O Bàbáláwo lançou Ifá em nome de Mosetán e disse: - “Levante! Levante-se, linda! Levante-se! Ah, você deve oferecer sacrifícios em nome de Mosetán e para o Àbíkú que ela vê em seus sonhos. Você deve fazer isso, então, eles não serão capazes de levá-la para fora do mundo. ”

Olójé disse: - “Ah! Que sacrifícios devemos oferecer?”

O Bàbáláwo disse: - “Você deve conseguir um talo de bananeira, uma de suas saias e um galo. Você deve oferecer esses sacrifícios em nome dela e no caminho da oferenda dos sacrifícios, você deve reunir folhas de Ifá de agídímagbáyin. Quando terminar de colher as folhas de Ifá, você deve ir oferecer os sacrifícios: você deve oferecer o talo de bananeira, a saia, o galo e as folhas de Ifa agídímagbáyin. Depois disso, Mosetán não vai mais morrer nem vai continuar a ter pesadelos.”

Olójé e sua esposa foram e ofereceram os sacrifícios, exatamente como prescrito. Depois, voltaram a consultar o Bàbáláwo mais uma vez. O Bàbáláwo lançou Ifa em nome de Mosetán e recitou uma oração especial:

"Levante-se! Levante-se, linda! Levante-se!

Em nome das crianças que recebem pequenos pedaços de comida na boca,

Oh! Ọlọ́ọ̀run, por favor, feche a porta do Órun (Ọ̀run), para que eles não morram mais!

Sua mão encontrou as folhas de agídímagbáyin,

Oh! Ọlọ́ọ̀run, por favor, feche a porta para Órun (Ọ̀run), para que eles não morram mais! "

Quando o Bàbáláwo terminou a oração, ele falou para Olójé e sua esposa: - “Assim, Ifá falou!”. Olójé disse: - “Ah! Não entendemos! O que isso significa para Mosetán?” O Bàbáláwo disse: “Ifá diz que, Mosetán, a criança, que viu coisas ruins em seus sonhos e que foi chamada por seus companheiros Àbíkú, não deve se preocupar mais. porque eles não serão mais capazes de tirá-la do mundo”

Assim, Mosetán deixou de sonhar com seus companheiros Àbíkú, que a chamavam para voltar a Órun (Ọ̀run) e puderam ficar na terra e viver uma vida pacífica.

3 - Sacrifícios ajudam a manter um Àbíkú no mundo

Um dia, muito tempo atrás, no Órun (Ọ̀run), havia Ilere, um menino Àbíkú, que estava prestes vir ao mundo para se tornar filho de Obìrin Àbatá, uma mulher do pântano.

Quando ele estava a caminho do mundo, ele chegou à orla de Orun e fez sua declaração para o guardião Oníbodé do portão, - “Ha! Eu estou indo para o mundo! Quando eu chegar lá, toda a comida que for dada para mim, eu não comerei. Os únicos alimentos que comerei estarão no Órun (Ọ̀run). Todas as coisas que desejam me dar, não as aceitarei no mundo. Só aceitarei seus presentes, no Órun (Ọ̀run) . Quando eu chegar ao mundo, não há nada que me mantenha lá.”
Mais tarde, quando Ilere chegou ao mundo, sua mãe, Obìrin Àbatá, imediatamente consultou um Bàbáláwo. Ela disse: - “Ah, o que posso fazer para que meu filho Ilere não morra?”. O Bàbáláwo lançou Ifá em nome de Ilere e disse: - “Ah, Obìrin Àbat, as dificuldades podem atingir alguém, de repente e a desgraça pode cair sobre alguém, da mesma maneira. Você deve oferecer sacrifícios, se deseja manter Ilere no mundo”.

Obìrin Àbatá disse: - “Ah! Se eu oferecer sacrifícios, meu filho não morrerá?”

O Bàbáláwo disse: “Sim, os sacrifícios podem manter um Àbíkú no mundo.”

Obìrin Àbatá disse: - “Diga-me, que sacrifícios devo oferecer?”

O Bàbáláwo disse: - “Você deve pegar um vaso novo, preparar todas as coisas que uma boca pode comer, um pano vermelho, uma tampa de panela, cânhamo de osun, sabão e uma esponja. Depois de ter todas essas coisas prontas, você deve oferecer eles rio abaixo. É lá que seus companheiros, que irão chamá-lo para matá-lo, estarão e ficarão.”

Obìrin Àbatá disse: - “Ah! Vou oferecer os sacrifícios então!”

O Bàbáláwo disse: - “Quando você estiver pronta, você deve trazer os sacrifícios a serem oferecidos no rio onde seus companheiros estarão esperando por ele, mas não o verão chegar.”.

Obìrin Àbatá disse: - “Ah! O que vai acontecer, então?”

O Bàbáláwo respondeu: "Eles irão para um lugar no pântano onde geralmente se reúnem para se despedir e lá, eles vão começar a chamá-lo: Ilere, o! Ilere, o!

Eles vão chamar sem parar, então que Ilere os responderá.".

Obìrin Àbata reuniu tudo o que precisava e ofereceu os sacrifícios, conforme prescrito. Depois, ela consultou o Bàbáláwo mais uma vez. Ela disse: - “Ofereci todos os sacrifícios, como você prescreveu. Agora, gostaria de saber se terei os resultados esperados.”.

O Bàbáláwo lançou Ifá em nome de Ilere e Obìrin Àbatá e disse: “Dificuldades podem atingir alguém, de repente e a desgraça pode cair sobre alguém, da mesma maneira! Aqueles que chamam Ilere têm braços e pés fortes! Eles ouvem e dirão: Ah! Ilere ainda não chegou! Ha! Ilere não vai voltar! Os pais dele ofereceram sacrifícios e Ilere não vai morrer! ”.

Obìrin Àbatá a disse: - “Ah! Isso é bom, mas por que eles vão ficar aqui tanto tempo?”

O Bàbáláwo disse: “Ah, porque eles pensam que se Ilere é um Àbíkú, ele é a razão para eles virem ao rio, olhar por cima das paredes e irem para o monte de esterco. Quando os Àbíkú estão no mundo e eles dizem eles estão com dor de cabeça, os outros companheiros de egbe (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run) virão buscá-los. No entanto, para aqueles Àbíkú por quem são oferecidos sacrifícios, eles nunca mais abandonarão seus pais.”.

4 - Asejéjejaiyé permanece no mundo, na décima sexta vez, que ele chegou

Um dia, Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) decidiu consultar um Bàbáláwo, em nome de seu filho Àbíkú Asejéjejaiyé, porque ele havia causado muitos problemas para ele. Foi a décima sexta vez que ele veio ao mundo para morrer. Ele pegou Asejéjejaiyé e foi ver o Bàbáláwo. Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) disse: - “Ah! Meu filho, Asejéjejaiyé, veio a este mundo pela décima sexta vez! Esta criança não deveria ter permissão para ir e vir como quiser!”.

O babalawo consultou os oráculos em nome de Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) e Asejéjejaiyé e disse: "Órunmila (Ọ̀rúnmìlà), você deve reunir tantas folhas Ìdí quanto possível e, então, você deve queimar todos eles juntos para produzir um pó preto”.

Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) saiu da cabana do Bàbáláwo juntou todas as folhas de Ìdí que pôde e queimou-as até virar um pó preto. Depois, voltou para dentro e mostrou o pó ao Bàbáláwo.

O babalawo disse: - “Ah! É muito bom! Agora, você deve pegar uma faca e fazer incisões nas juntas do corpo de Asejéjejaiyé e em seu rosto. Uma vez feitas as incisões, preencha-as com o pó preto das folhas de idi.”.

Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) pegou uma faca e começou a fazer as incisões no corpo de Asejéjejaiyé. Quando ele terminou, ele esfregou o pó preto neles. Em seguida, o Bàbáláwo examinou o corpo de Asejéjejaiyé e disse: - “Agora, essa criança não saberá mais o caminho, que leva ao egbe (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run) e nem à morte! Agora, você deve pegar o resto desse pó preto, fazer uma bolsa de talismã e amarrá-la em volta cintura do seu filho. Depois disso, ele não poderá mais deixar o mundo. Um caminho para o Órun (Ọ̀run) não será feito para ele.”.

Como as folhas Ìdí foram coletadas naquele dia, o Bàbáláwo começou a recitar um canto:

A folha Ìdí diz que o caminho para Órun (Ọ̀run) está fechado para essa criança!
A folha Ìdí diz que o caminho para Órun (Ọ̀run) está fechado para ele!
Que ele não morra na juventude!
O ija agborrri'teaf não anda pelo caminho que leva a Orun!
MayTre net-die! Que ele não siga o caminho de volta a Orun durante sua juventude!
A folha de ija agborin não segue o caminho que leva a Orun.
Não siga o caminho para Órun (Ọ̀run) durante a sua juventude!
A folha Lárà pupa é o "cânhamo de osun" do Àbíkú,
Uma criança que esfrega seu corpo com a folha de lárà pupa não voltará para Órun (Ọ̀run).

Quando o babalawo terminou seu canto, Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) disse, - “Eu esfreguei o corpo do meu filho com a folha de Lárà pupa e quando ele crescer, se tornar um adolescente e pai, ele não morrerá na juventude!”

O Bàbáláwo disse: - “Muito bem, então!”

Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) disse: - “Nesse momento os encantamentos devem ser pronunciados, desta maneira: se uma criança é um Àbíkú que vem e vai constantemente, podemos fazer incisões em seu corpo, enchendo-as com o pó preto das folhas Ìdí.”.

Foi então, que Orunmila descobriu os truques do filho e a partir desse tempo foi capaz aprisionar Àbíkú no mundo, com a orientação de Odu Òdí Méjì.

Estes 4 textos são bons exemplos de como entendemos e aprendemos através dos versos. Não tem receitas mágicas prontas, o Bàbáláwo obtêm nos versos o entendimento e as instruções do que fazer. Além disso, com o tempo e experiência outras coisas são adicionadas. Recomendo fortemente que tenham e leiam o livro de Alex Cuoco, “African Narratives of Orishas, Spirits and Other Deities”.

Neste texto, aqui, não vou relacionar as formas de atuar sobre os Àbíkú devido a isso não fazer parte do escopo deste trabalho. As indicações do que fazer são o trabalho do Bàbáláwo e devem ser obtidas através dos versos e histórias, como as relatadas no livro do Cuoco, é necessário análise interpretação, junto com consulta oracular.

 

TEXTO SEGUINTE: http://www.orunmila-ifa.com.br/2021/02/como-e-composicao-do-egbe-egbe-orun-orun.html 

 

 

Mitos sobre egbe (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run) - [ Entendendo a religião Yoruba - Pt. 42]

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As informações de Ayo Salami

 

O Bàbáláwo Ayo Salami em seu livro “The Man & the Society”, o qual eu recomendo que seja lido, assim como outras obras do mesmo autor, que tem volume e qualidade de informação, publicou uma seção sobre os Àbíkú. Salami chega bem próximo da visão que eu entendo ser a mais coerente e ele traz confirmações importantes sobre minhas teses.

Ele adiciona ao tema mais informação do que Verger.

Eu não vou transcrever o texto dele, vou destacar o que ele traz de informação e o que eu vou listar está desta exata maneira no livro dele.

Salami reconhece que os Àbíkú não residem no órun (Ọ̀run) e desta maneira a dita sociedade egbé (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run) também não está no órun (Ọ̀run). Salami diz que o Àbíkú residem no espaço intermediário chamado de Ìrònà e é deste espaço que os Àbíkú saem e voltam entre o Àiyé. No Ìrònà eles formaram uma sociedade de iguais com suas próprias regras. É nesse mesmo espaço, o Ìrònà que também residem a ajé (Àjẹ́) e os Ajogun.

Àbíkú são algum tipo de criança travessa que veio originalmente da cidade do Céu para a cidade da Terra para peregrinar; mas ao invés de voltar para o céu após a vida na Terra, eles permaneceram no Ìrònà . De lá, eles vêm para a Terra e de volta aos seus caprichos. Eles formaram uma espécie de camarilha com suas próprias regras e regulamentos, assim como as das bruxas que também vivem entre o Céu e a Terra. (Salami, The Man & the society, pag. 75)

Estou destacando esse trecho porque entender que estamos lidando com o Ìrònà e não com o órun (Ọ̀run) é a chave do que eu vou explicar adiante, isso é o que explica tudo.

Ele diz que, hoje em dia, o mito dos Àbíkú se misturou com o próprio entendimento da medicina moderna, de modo que muitas mortes de crianças podem, de fato serem atribuídas a doenças e condições ruins de higiene e não a intercorrência de Àbíkú, contudo, uma coisa não exclui a outra. De fato, mortalidade infantil não é incomum, mas, o Bàbáláwo tem que ter a capacidade de distinguir uma coisa da outra, porque não é apenas morrer criança que determina isso, existem outros elementos.

O grande destaque da sociedade egbé (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run) é de fato os Àbíkú. Àbíkú é uma palavra que significa “aquele que nasce para morrer”.

A característica de Àbíkú é nascer muito cedo, não necessariamente no parto e não necessariamente quando bebê ou criança. Um Àbíkú pode sim crescer e morrer mais velho, tudo depende do acordo que ele fez para o seu retorno.

Assim, a visão no Candomblé de que pessoas que sofrem aborto ou crianças que morrem durante o parto como sendo sinais de Àbíkú é errada. Abortos e mortes, ainda dentro do útero ou durante o parto, devem ser associadas a atuação de ajé (Àjẹ́) e não de Àbíkú. Um Àbíkú tem que nascer e para nascer não basta sair do útero, ele precisa respirar e cortar o cordão umbilical, porque apenas quando é uma vida autônoma, respirando e não estando mais ligada a mãe é que ele, de fato, ela nasceu.

Salami afirma que a missão dos Àbíkú é causar sofrimento aos seus pais, mas a determinação da duração de sua vida e variável. O que é sempre forte é sua ligação com seu grupo que fica no Ìrònà.

A manutenção de um Àbíkú no Àiyé é bem difícil e não depende de recursos médicos, isso é trabalho apenas para um Bàbáláwo. Existe um ditado yorùbá que diz “Àbíkú sọ olóògùn dèké” que significa, os Àbíkú transformam a medicina em uma mentira. Não haverá solução para um Àbíkú que quer morrer.

Salami nos oferece sua versão para o verso do Odù Ọ̀ṣẹ́ Ògúndá, que é considerado o principal Odù ligado a Àbíkú. Mais uma vez, se quiser entender a religião tem que ler as histórias.

Eu sublinhei umas passagens que considero importantes desta história.

Um rei em particular cujo título é Oniki na cidade de Ìkilà estava sob o terror de Àbíkú. Ele tivera muitos filhos do que qualquer pessoa na cidade, mas nenhum deles sobrevivera. Quase todas as crianças morreram em seu primeiro dia na Terra; aquele que não morreu no primeiro dia morreu durante sua cerimônia de nomeação. Muitos morreram quando começaram a falar; a situação era tão ruim que ele consultou curandeiros. Eles tentaram tudo ao seu alcance, mas foi em vão. Apesar de todas as mortes, o rei não perdeu as esperanças. Quando a próxima de suas esposas ficou grávida, ele resolveu consultar Ifa. Ele pediu a Bàbáláwo que viesse e divinasse para ele. É por causa de Àbíkú que você chamou essa adivinhação, disseram a ele. Sim, ele respondeu em afirmação, sentando-se ereto na beira de sua cadeira. Então você tem que oferecer sacrifício a Ògún para que ele te deixasse; é apenas um Àbíkú que vem e vai, mas desta vez, qualquer um que vier até você não poderá retornar, concluíram os Bàbáláwo.

A princípio, o rei perguntou cinicamente que conexão havia entre Ògún e Àbíkú;

“- como esses dois estão conectados e qual é a função de um no outro?” Ele se perguntou.

Mas de alguma forma, ele foi persuadido a oferecer o sacrifício, o que ele fez. Enquanto isso, na casa de Oniki, havia um caçador itinerante particular que estava peregrinando com o rei: seu nome era Ọdẹ́bíyìí. Ele chegou por volta de quando o rei pediu a divinação. Seu método de caça era ir para as florestas profundas, fazendo um acampamento escondido no topo de uma árvore de onde ele pudesse veja todos os animais vagando para fazer um bom tiro.

Alguns dias após a oferta dos sacrifícios pelo rei Oniki, Ọdẹ́bíyìí foi para as florestas profundas como de costume, escondendo-se no topo de uma árvore. Quando estava prestes a cochilar, ouviu algumas vozes humanas abaixo. Furtivamente, ele estendeu o pescoço para saber o que estava acontecendo e ver quem estava falando. Ele viu um ser estranho que parecia uma mulher; ela tinha dezesseis seios e sentou-se em uma esteira preta que apareceu do nada. As criancinhas ao seu redor começaram a falar uma após a outra. Um diria que estava indo para a casa de Alárá, o outro diria que estava indo para a casa de Ajerò, outro para a casa de um rei na antiga cidade de Ìwó. A missão deles era roubar da respectiva casa para trazer de volta à sua sociedade. Mas um em particular atraiu a atenção da Ọdẹ́bíyìí; ele o ouviu dizer: Estou indo para a casa de Oniki. A esposa faria o parto hoje e eu entraria no útero para nascer em troca. Mas eu não ficaria por muito tempo antes de desejar que meus companheiros viessem para mim e me levassem de volta. Quando seria a hora? O estranho ser com dezesseis seios perguntou. Deve ser quando a primeira lenha que vai ser usada para fornecer calor para a mãe e o bebê queimar até virar cinzas. Mas se eles não permitirem que eu volte então, como todos vocês sabem que os humanos são cheios de truques que podem contornar meu objetivo, seria quando eu crescer até minha altura chegar ao topo da porta inferior; mas se as duas opções falharem, então vocês, meus amigos, devem vir e me levar de volta por qualquer método disponível para vocês.

Ọdẹ́bíyìí estava dentro do acampamento, observando tudo o que diziam como se estivessem encenando uma peça. Embora assustado, ele não disse uma palavra, nem fez qualquer movimento para despertar suas suspeitas. O Ògún a quem o rei ofereceu sacrifício não os fez perceber que havia alguém ouvindo tudo o que diziam. Logo após a última de suas deliberações, como um flash que vieram, todos eles desapareceram na colina de molde atrás da árvore sobre a qual Ọdẹ́bíyìí estava posicionada. Ele demorou para ver se viria mais alguma, nenhuma veio e já era tarde. Ele furtivamente desceu do topo e saiu da floresta na ponta dos pés. Alternando caminhada e corrida, ele deixou a floresta e assim que chegou aos arredores do palácio ouviu gritos de alegria. “- Que este fique com você”. “- Este não morrerá, ele pagara por todos aqueles que morreram anteriormente“. Parabéns Káábíèsí!. “- Este é o próximo rei visto que é um menino”. Os visitantes estavam chegando da esquerda e da direita.

“- Que tipo de coincidência é essa?” Ele se perguntou em voz alta. Ọdẹ́bíyìí entrou e rapidamente chamou a atenção do rei Oniki. Káábíèsí,

“- posso falar com você por um momento, por favor?”

“- Sobre o quê? “ Perguntou o rei.

Ọdẹ́bíyìí contou sua história ao rei, que ficou surpreso ao ouvir uma história que nunca tinha ouvido na vida.

De acordo com a sugestão de Ọdẹ́bíyìí, o rei ordenou que incontáveis toras de madeira fossem fornecidas para a mãe lactante, para que o fogo não se apagasse. Ele também ordenou que a porta que separava a câmara interna da sala fosse reconstruída para permitir que um adulto crescido passasse sem que sua cabeça tocasse o topo.

E assim a vida continuou na casa de Oniki; passou o medo de que a criança morresse no primeiro dia na Terra; a cerimônia de nomeação foi feita sem nenhum obstáculo (ao contrário das outras crianças que geralmente morrem na cerimônia de nomeação) e a criança foi chamada de "Mọ́lùmọ”. “- Oh, talvez ele tenha adiado sua morte para quando pudesse falar”, o rei se perguntou ; apreensivo, mas esperançoso sobre a criança que não tinha morrido.

À medida que Mọ́lùmọ crescia, o rei percebeu que ele ficaria na porta, na ponta dos pés, tentando ver se sua cabeça tocava o topo.

“- Então é verdade!” disse o rei para si mesmo.

Ele ordenou que a porta fosse completamente removida. “- Quando não houver porta, eu quero ver o que sua cabeça tocaria".

Passado o tempo que ele combinou com seus companheiros de seu retorno, os companheiros resolveram ir pegá-lo sozinhos. E foi assim que eles se reuniram em sua multidão e se dirigiram para a casa de Oniki.
Ao chegarem ao pátio, no meio da noite, eles irromperam em uma canção patética dizendo:

Mọ́lùmọ

The child of Oniki

Mọ́lùmọ

I call you again

You are the child of Oniki

Why did we not see you again?

Mọ́lùmọ ouviu a canção e respondeu de dentro da casa:

sou Mọ́lùmọ
O filho de Oniki
Eu sou o próprio Mọ́lùmọ
O filho de Oniki
Eu deveria ter ido antes desta hora
Meus companheiros
Ọdẹ́bíyìí o caçador foi aquele que me impediu

Os companheiros tentaram tudo o que podiam: causar confusão na casa de Oniki na esperança de causar a morte de seu companheiro, mas o sacrifício que os Bàbáláwo ofereceram no início neutralizou todos os seus esforços. Quando não conseguiram, eles partiram para sua residência e não vieram incomodar Mọ́lùmọ para sempre. E então ele se tornou uma criança sobrevivente de Oniki.

Eu marquei os seguintes trechos dessa história e vou comentar:

morreram em seu primeiro dia na Terra; aquele que não morreu no primeiro dia morreu durante sua cerimônia de nomeação. Muitos morreram quando começaram a falar;

Conforme já disse a criança precisa morrer para depois nascer. Existem outras histórias de Àbíkú onde a criança morre no dia do seu casamento. Desta maneira, não é verdade a crença de Àbíkú morra sempre jovem, bem como não é verdade que morra no útero.

a situação era tão ruim que ele consultou curandeiros. Eles tentaram tudo ao seu alcance, mas foi em vão.

Médicos não salvam Àbíkú.

sacrifício a Ògún

De acordo como encontro nos versos de Ifá, diversos inrumolé (Irúnmọlẹ̀) estão envolvidos na salvação de Àbíkú. Órunmila (Ọ̀rúnmìlà), sempre está, mas Ògún e iroko também podem estar envolvidos assim como Xangô (Ṣàngó).

Estou indo para a casa de Oniki. A esposa faria o parto hoje e eu entraria no útero para nascer em troca. Mas eu não ficaria por muito tempo antes de desejar que meus companheiros viessem para mim e me levassem de volta.

Vou abordar isso em outro lugar, mas, de acordo com o que eu encontro em Ifá a criança enquanto no útero é parte da mulher. O espírito que habitará o corpo só o faz junto com o Ẹ̀mí.

Os companheiros tentaram tudo o que podiam: causar confusão na casa de Oniki na esperança de causar a morte de seu companheiro,

Essa é uma característica da atuação do egbe (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run) e que pode ser observada por qualquer um.

O sacrifício feito pelo Bàbáláwo para impedir a morte dos Àbíkú é conhecido como Ẹbọ àrúyẹ ìpínhùn Sacrifício para terminar com a aliança.

Salami diz também que os Àbíkú se reúnem entre si no Àiyé. Eles fazem reuniões noturnas no pé de uma árvore. Nos versos de Ifá essa árvore é o Ìrókò. Essas reuniões contam com os espíritos que ficam no Ìrònà como também com os espíritos dos renascidos. Assim criança Àbíkú renascida, durante a noite, cairiam sono profundo, ficando imóveis e quase impossível de acordá-las. Nesses momentos seus espíritos estariam fora do corpo reunidos com seus amigos do egbé (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run).

Ayo Salami inclui mais uma história em seu relato que não se trata de verso e sim de um relato real, da vida real, o qual vou explicar a seguir bem resumidamente porque será importante quando eu fizer meus comentários.

Segundo Salami, ele testemunhou isso em 1982. Havia um casal, juntos por 15 anos e com 3 filhos, não eram amadores ou principiantes em criar filhos. Mas, depois do terceiro o problema começou, a quarta criança, uma menina morreu na cerimônia de nome. Isso acabou com a festa mas o pai não queria que o sofrimento durasse até o dia seguinte. Eles justaram as pessoas fizeram uma cova e enterraram a criança. Logo a seguir ouviram um barulho na terra e abriram novamente para ver o que havia ocorrido, o corpo havia desparecido.

A mulher ficou grávida de novo e teve outra menina que também morreu na cerimônia de nome. O pai enterrou a da mesma maneira mas, infligiu marcas no corpo da criança e cortou sua mão esquerda.

A mulher novamente ficou grávida, um menino agora e o pai tinha certeza que seria um Àbíkú e, desta maneira, não preparou nada de especial para a cerimônia de nome que seria no nono dia de nascimento. A criança nasceu sem a mão esquerda. Os médicos inventaram explicações, mas a criança morreu 2 anos depois em circunstâncias estranhas. Mais uma vez o pai enterrou e também tirou seus olhos. Pois bem, a próxima criança nasceu sem a mão e cego, ela morreu poucos dias depois de nascer. Os pais desistiram de ter mais um filho.

Salami teoriza que os Àbíkú atacam as pessoas retirando do útero da mãe a alma que nasceria, assim eles seriam invasores e substitutos. As almas que são deslocadas do nascimento pelos Àbíkú vagam como fantasmas pelo Àiyé e devem ficar no Àiyé até o dia marcado para o se retorno, o dia original de sua morte.

Eu não concordo totalmente com essa afirmação, entendo que tem uma explicação mais simples, mas, o que eu direi e o que o Salami disse tem a mesma base de entendimento.

Salami segue a crença do mal associado aos Àbíkú. Se considerarmos como ele diz os Àbíkú como um mal que se abate sobre a pessoa temos que classificar com Àbíkú como um mal teológico.

Nas suas explicações e análises dos versos ele não estabelece nenhuma explicação ou causa, chega mesmo a citar como se fosse o acaso, ao contar uma história de uma mulher que se encontra por acaso com uma criança no mercado e a partir daquele encontro passou a ser mais uma vítima de Àbíkú.

Mitos sobre egbe (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run) - [ Entendendo a religião Yoruba - Pt. 41]

Mitos sobre egbe (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run)

 

A relação a seguir não esgota o tema, mas, pincei o que considero relevante para poder analisar esse assunto

As informações de Verger sobre esse tema

De acordo com Verger, que coletou versos sobre o tema, se uma mulher, em terra yorùbá, dá à luz uma série de crianças natimortas ou mortas em baixa idade, a tradição reza que não se trata da vinda ao mundo de várias crianças diferentes, mas de diversas aparições do mesmo ser (para eles, maléfico), chamado Àbíkú (aquele que nasce e morre), que se julga vir ao mundo por um momento para voltar ao país dos mortos, órun (Ọ̀run), várias vezes.

Ele passa assim, seu tempo, a ir e voltar do céu para o mundo sem jamais permanecer aqui por muito tempo, para grande desespero de seus pais, desejos de ter os filhos vivos.

Essa crença se encontra entre os Akan, onde a mãe é chamada awomawu (ela bota os filhos no mundo para a morte). Os ibo chamam os Àbíkú de Ogbanje, os Haussas de Danwabi e os Fanti, Kossamah. Os Àbíkú são uma intercorrência popular e não um entendimento isolado.

Encontramos informações a respeito dos Àbíkú em oito itans (histórias) de Ifá, sistema de adivinhação dos Yorùbá, classificados nos 256 Odù (sinais de Ifá). Essas histórias mostram que os Àbíkú formam sociedades no egbe (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run), presididas por iyàjansà (a mãe-se-bate-e-corre) para os meninos e olókó (chefe da reunião) para as meninas, mas é Aláwaiyé (Rei de Awaiyé) que as levou ao mundo pela 1ª vez na sua cidade de Awayié. Lá se encontra a floresta sagrada dos Àbíkú, aonde os pais de Àbíkú vão fazer oferendas para que eles fiquem no mundo.

Quando eles vem do céu para a terra, os Àbíkú passam os limites do céu diante do guardião da porta, Oníbodé órun (Ọ̀run), seus companheiros vão com ele até o local onde eles se dizem até logo. Os que partem declaram o tempo que vão ficar no mundo e o que farão. Se prometem a seus companheiros que não ficarão ausentes, essas crianças apesar de todo os esforços de seus pais, retornarão, para encontrar seus amigos no céu.

Os Àbíkú podem ficar no mundo por períodos mais ou menos longos. Um Àbíkú menina chamada "A-morte-os-puniu" declara diante de oníbodé órun que nada do que os seus pais façam será capaz de retê-la no mundo, nem presentes nem dinheiro, nem roupas que lhes ofereçam, nem todas as coisas que eles gostariam de fazer por ela atrairiam os seus olhares nem lhe agradariam.

Um Àbíkú menino, chamado Ilere, diz que recusará todo alimento e todas as coisas que lhe queiram dar no mundo. Ele aceitará tudo isto no céu.

Quando Aláwaiyé levou duzentos e oitenta Àbíkú ao mundo pela primeira vez, cada um deles tinha declarado, ao passar a barreira do céu, o tempo que ficaria no mundo. Um deles se propunha a voltar ao céu assim que tivesse visto sua mãe; um outro, esperaria até o dia em que seus pais decidissem que ele casasse; um outro, que retornaria ao céu, quando seus pais concebessem um novo filho, um ainda não esperaria mais do que o dia em que começasse a andar.

Outros prometem à iyàjanjasà, que está chefiando a sua sociedade no céu, respectivamente, ficar no mundo sete dias, ou até o momento em que começasse a andar ou quando ele começasse a se arrastar pelo chão, ou quando começasse a ter dentes ou ficar em pé.

É assim que nessas quatro histórias encontramos oferendas que comportam um tronco de bananeira acompanhado de diversas outras coisas. Um só dos casos narrados, o terceiro, explica a razão dessas oferendas:

Um caçador que estava à espreita, no cruzamento dos caminhos dos Àbíkú, escutou quais eram as promessas feitas por três Àbíkú quanto à época do seu retorno ao céu.”

Um deles promete que deixará o mundo assim, que o fogo utilizado por sua mãe, para preparar sua papa de legumes, se apague por falta de combustível. O segundo esperará que o pano que sua mãe utilizar, para carregá-lo nas costas se rasgue. A terceira esperará, para morrer, o dia em que seus pais lhe digam que é tempo de ele se casar e ir morar com seu esposo.”

O caçador vai visitar as três mães no momento em que elas estão dando à luz a seus filhos Àbíkú e aconselha à primeira que não deixe se queimar inteiramente a lenha sob o pote que cozinha os legumes que ela prepara para seu filho; à segunda que não deixe se rasgar o pano que ela usar para carregar seu filho nas costas, que utilize um pano de qualidade diferente; ele recomenda, enfim à terceira, de não especificar, quando chegar a hora, qual será o dia em que sua filha deverá ir para a casa do seu marido.”

As três mães vão, então consultar a sorte, Ifá, que lhes recomenda que façam respectivamente as oferendas de um tronco de bananeira, de uma cabra e de um galo, impedindo, por meio deste subterfúgio, que os três Àbíkú possam manter seu compromisso. Porque, se a primeira instala um tronco de bananeira no fogo, destinado a cozinhar a papa do seu filho, antes que ele se apague, o tronco de bananeira, cheio de seiva e esponjoso, não pode queimar, e o Àbíkú, vendo uma acha de lenha não consumido pelo fogo, diz que o momento da sua partida ainda não é chegado. A pele de cabra oferecida pela Segunda mãe serve para reforçar o pano que ela usa para levar seu filho nas costas; a criança Àbíkú não vai achar nunca que esse pano se rasgou e não vai poder manter sua promessa. Não se sabe bem o porque do oferecimento de um galo, mas a história conta que quando chegou a hora de dizer à filha já uma moça, que ela deveria ir para casa do seu marido, os pais não lhe disseram nada e a enviaram bruscamente para a casa dele. Nossos três Àbíkú não podem mais manter a promessa que fizeram, porque as circunstâncias que devem anunciar sua partida não se realizaram tais como eles tinham previsto na sua declaração diante de oníbodé órun. Estes três Àbíkú não vão mais morrer. Eles seguiram um outro caminho. Comentamos esta história com alguns detalhes porque ilustra bem o mecanismo das oferendas e de sua função. Não é o seu lado anedolíco (de lenda) que nos interessa aqui, mas a tentativa de demonstração de que em país Yorùbá, a sorte (destino) pode ser modificada, numa certa medida, quando certos segredos são conhecidos.

Entre as oferendas que os retêm aqui, na terra, figuram, em primeiro plano, as plantas litúrgicas. Cinco delas são citadas nestas histórias:

  • Abíríkolo (crotalaria lachnophera, papilolionacaae)

  • Agídímagbayin (não identificada)

  • Ídí (terminalia ivorensis, combretacae)

  • Ijá àgborin (não identificada)

  • Lara pupa (ricinus communis - mamona vermelha)

Ainda mais duas plantas são frequentemente utilizadas para reter os Àbíkú e que não figuram nessas histórias:

  • Olobutoje ( jatropha curcas, euphorbiaceae)

  • Òpá eméré ( waltheria americana, sterculiaceae).

A oferta dessas folhas constitui uma espécie de mensagem e é acompanhada por ofó (encantamentos).

Em país Yorùbá, os pais, para proteger seus filhos Àbíkú e tentar retê-los no mundo, podem se dedicar a certas práticas, tais como fazer pequenas incisões nas juntas da criança e aí esfregar atin (um pó preto feito com osum, favas e folhas litúrgicas para esse fim) ou ainda ligar à cintura da criança um ondè, talismã feito desse mesmo pó negro, contido num saquinho de couro.

A ação protetora buscada nas folhas, expressa nas fórmulas de encantamento, é introduzida no corpo da criança por pequenas incisões e fricções, e a parte do pó preto, contida no saquinho do ondé, representa uma mensagem não verbal, uma espécie de apoio material e permanente da mensagem dirigida pelos elementos protetores contra os elementos hostis, sendo essa forma de expressão menos efêmera do que a palavra.

Em uma outra história, são feitas alusões aos xaorôs, anéis providos de guizos, usados nos tornozelos pelas crianças Àbíkú , para afastar os companheiros que tentam vir buscá-los no mundo e lembrar-lhes suas promessas. De fato seus companheiros não aceitam assim tão facilmente a falta de palavra dos Àbíkú, retidos no mundo pelas oferendas, encantamentos e talismãs preparados pelos pais, de acordo com o conselho dos babalaôs. Nem sempre essas precauções e oferendas são suficientes para reter as crianças Àbíkú sobre a terra. Iyájanjàsa é muitas vezes mais forte. Ela não deixa agir o que as pessoas fazem para os reter e porá tudo a perder o que as pessoas tiverem preparado.

Contra os Àbíkú não há remédios. Yiájanjàsá os atrairá à força para o céu. Os corpos dos Àbíkú que morrem assim, são frequentemente mutilados. A fim de que, dizem, eles percam seus atrativos e seus companheiros no céu não queiram brincar com eles sobretudo para que o espírito do Àbíkú, maltratado deste modo, não deseje mais vir ao mundo.

Essas crianças Àbíkú recebem no seu nascimento, nomes particulares. Alguns desses nomes são acompanhados de saudações tradicionais. Eles podem ser classificados: quer nomes que estabeleçam sua condição de Àbíkú; quer nomes que lhes aconselham ou lhe suplicam que permaneçam no mundo; quer em indicações de que as condições para que o Àbíkú volte não são favoráveis; quer em promessas de bom tratamento, caso eles fiquem no mundo. A frequência com que se encontra, em país yorubá, esses nomes em adultos ou velhinhos que gozam de boa saúde, mostra que muitos Àbíkú ficam no mundo graças, pensam as almas piedosas, a todas essas precauções, à ação de Òrúnmìlà, e à intervenção dos babalaôs.

ALGUNS NOMES DADOS AOS Àbíkú

Aiyédùn - a vida é doce

Aiyélagbe - Nós ficamos no mundo

Akúji - O que está morto, desperta

Bánjókó - Senta-se comigo

Dúrójaiyé - Fica para gozar a vida

Dúróoríìke - Fica, tu serás mimada

Èbèlokú - Suplica para que fique

Ilètán - A terra acabou (não há mais terra para enterra-lo)

Kòjékú - Não consinta em morrer

Kòkúmó - não morra mais

Kúmápáyìí - A morte não leva este daqui

Omotúndé - A criança voltou

Tìjúikú - Envergonhado da morte (não deixa a morte te matar)

ITANS de IFÁ

    É PRECISO CUIDAR DOS Àbíkú, SENÃO ELES VOLTAM PARA O CÉU

    OFERENDAS PODEM RETER Àbíkú NO MUNDO

    SUBTERFUGIOS PARA RETER OS Àbíkú NO MUNDO

    MOSETÁN FICA NO MUNDO

    OLÓÌKÓ É O CHEFE DA SOCIEDADE DOS Àbíkú

    ASEJÉJEJAIYÉ FICA NO MUNDO NA DÉCIMA SEXTA VEZ QUE ELE VEM

    OS Àbíkú CHEGAM PELA PRIMEIRA VEZ EM AWAIYÉ

    ÍYÁJANJÀSÁ NÃO DEIXA OS Àbíkú FICAR NO MUNDO

Estes itens completos são descritos numa edição da revista Afro-Ásia, 14 – 1983, sob o título (A SOCIEDADE EGBÉ ÒRUN DOS ÀBÍKÚ, AS CRIANÇAS NASCEM PARA MORRER VÁRIAS VEZES)

As cerimônias para os Àbíkú parecem ser pouco frequentes entre os yorubás, a única assistida por Pierre Verger, a cerimônia foi feita pela tanyinnon encarregada do culto aos deuses protetores de uma família tradicional do bairro Houéta. Num canto da peça principal, oito estatuetas de madeira com 20 centímetros de altura e eram colocadas sobre uma banqueta de barro.

Todos vestidos de panos da mesma qualidade, mostrando pela uniformidade de suas vestimentas, pertencer a uma mesma sociedade (egbé). Seis destas estatuetas representam ábíkús e as outras duas ibeji. As oferendas consistiam de oká (pasta de inhame) obèlá (espécie de caruru) èkuru (feijão moído e cozido nas folhas) eran dindi, eja dindin (carne e peixe fritos) que, depois da prece da tanyionnon e da oferenda de parte desta comida às estatuetas, foram distribuídas pela assistência. Uma sacerdotisa de Obatalá assistiu à cerimônia sublinhando as ligações que existem entre o orixá da criação, as pessoas de corpos mal formados, corcundas, alijados, albinos e aqueles cujo nascimento é anormal (àbíkú e ibeji).

Portanto ao contrário que muitos falam, nada tem a ver com a criança que já nasce "feita" no santo.

Comentários deste autor

Os textos de Verger são bons relatos e ainda são a base de quase toda a informação que circula. A seguir vou mostrar versões melhores. No caso do Verger o engano dele é quando ele cita que: “Quando eles vem do céu para a terra, os Àbíkú passam os limites do céu diante do guardião da porta, oníbodé órun (Ọ̀run)…

Os Àbíkú não voltam ao órun (Ọ̀run), seria impossível esse trânsito. Nesse ponto reside minha crítica ao Verger, ele de fato relatou, mas não quis se aprofundar no desenho do contexto metafísico e ainda brigou com a Juana Elbein quando ela fez isso.

É bom lembrar que apesar de ter bons textos coletados, Verger não teve extensa vivência, nesse caso, ele apenas viu um caso na prática.

O Égbé (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run) e os Àbíkú [ Entendendo a religião Yoruba - Pt. 40]

 

O Égbé (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run) e os Àbíkú

Introdução

Você vai ler agora um texto poderoso em termos de conteúdo.

Esse é um tema bastante interessante, visto o grande grau de desinformação que existe sobre o mesmo, devido a falta de fontes confiáveis e o excesso de mistificação sobre o assunto. Eu mesmo, levei muitos anos para reunir fontes confiáveis e consistente para poder entender esse assunto, em si mesmo e dentro do contexto geral da religião e também, poder confirmar, através da prática de Ifá, esse conhecimento.

Existe um critério é importante e que não é observado por muita gente que fala sobre essa religião, que é a questão da consistência e simplicidade. Não basta apenas conhecermos o assunto, suas práticas, ritos e mitos. Não podemos, em cada tema da religião construirmos uma nova base teológica, para aquele tema, formando uma teia de possibilidades e, principalmente, complexidade. O conhecimento proposto, tem que se encaixar em relação ao restante da religião de forma consistente e harmônica.

Isso gera um grande problema, que é a necessidade da pessoa primeiro conhecer o todo para depois poder falar de alguma coisa ou de partes. Devido ao trabalho necessário e complexidade disso, o caminho adotado é o mais simples, a pessoa se concentra apenas no seu problema, necessidade ou vontade imediata e é essa a razão pela qual nascem as idiossincrasias teológicas. Isso é uma realidade. O que piora isso é o fato de que não existe um conjunto da obra, um livro que reúna o conjunto para servir de uma base mínima para ser discutida.

Se não conseguimos encaixar essa visão particular no contexto geral da religião, existe uma grande possibilidade de termos uma visão errada sobre o mesmo. A base para evitar isso é a pessoa conhecer a religião como um todo, primeiro, em vez de ficar se “especializando” em detalhes. Mergulhar em detalhes, é o caminho para os erros, a pessoa olha uma única coisa e já se acha especialista. Mas, pode ser pior, ela fica aprendendo em pedaços e fica “especialistas” em partes, mas, cada uma dessas partes não se combina com as outras. O problema é facilmente resolvido adicionando complexidade, tudo é complicado, ai, fica fácil de falar.

Mas isso poderia evitado facilmente se a pessoa, pelo, menos procurasse algumas informações adicionais, se pensasse um pouco mais sobre o assunto.

Este tem sido o critério adotado em todo esse livro, ser consistente com o todo.

O que vou fazer, a seguir, é dar uma explicação religiosa, baseado na teologia Yorùbá, de fenômenos que afetam muito a sociedade e que são vistos como malefícios, mas, são uma das páginas mais tristes da nossa relação, como pessoas e almas, com a estrutura metafísica da religião.

Este não é um tema complexo.

O que é complexo é o emaranhado de explicações que tem que serem dadas e as consequências dessas explicações e modelos confusos que são estabelecidos para explicar e justificar o assunto, porque o fazem do jeito errado.

Durante um bom tempo, baseado nas informações que eu tinha disponível, eu passei a considerar o egbé (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run) e principalmente os Àbíkú, como uma componente do mal teológico desta religião, contudo, como tempo, o que se abriu para mim foi o contrário, de verdugos passaram a serem vítimas do mal (explicar mal na sua forma teológica não será feito aqui). Os Àbíkú são almas que temos que lamentar e ajudar, mas, isso, somente será para os muito fortes, os eleitos.

As famílias não são amaldiçoadas pelos Àbíkú. Os Àbíkú não existem aleatoriamente para fazerem famílias sofrerem, os espíritos humanos não tem esse mal intrínseco, é justamente o contrário, os Àbíkú foram espíritos que morreram na infância e que foram amaldiçoados pelas famílias originais com a rejeição e após a morte. Devido a isso elas não retornam ao órun (Ọ̀run), ficam em um espaço intermediário chamado Ìrònà, onde criam novos laços familiares, com seus companheiros de mesma sina.

Os Àbíkú não são “demônios” que atormentam as famílias ou maldições que as perseguem. São o resultado de sentimentos muito humanos, como medo, decepção, raiva e rejeição. Entendendo assim passamos a olhar os Àbíkú de uma forma humana e não supernatural, inexplicável.

As novas famílias, que os recebem, foram eleitas, pelos Orixá (Òrìṣà), para recuperar essas almas e precisam entender essa árdua missão. Quando elas não entendem ou não tem a capacidade para isso, elas sofrem. Os Àbíkú, dessa maneira, são o resultado de uma relação bastante humana e são uma consequência de um mal maior cometido antes contra essas as almas infantis.

Desta forma o trabalho sacerdotal nessa religião, através do Bàbáláwo (que deveria ter esse conhecimento), é o de recuperar essas relações, seja a esperança ou a confiança da alma que renasce, bem como, o entendimento da família que o recebe. O trabalho de Ifá tem que ser transformador e não punitivo e excludente, não tem família a ser protegida e nem espírito a ser punido.

Osamaro Ibie (Ifism the complete work of Órunmila, pág. 48) destaca acertadamente que, “Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) não resolve nenhum problema através da confrontação exceto se todas as formas disponíveis de conciliação falharam. Nós frequentemente procuramos a ajuda das divindades mais agressivas para fazer o trabalho sujo para nós.”. Essa é a essência de Ifá buscar o equilíbrio e a conciliação.

Esta é a visão que vou explicar longamente neste texto.

Seguindo o entendimento, na minha visão, que tem que ser usado na obtenção do conhecimento desta religião, tudo o que tratamos e afirmamos tem que ser baseado em leitura e interpretação de versos. Nós devemos fazer uma análise dos versos, que são metáforas e parábolas, buscando o seu sentido transcendente e dar um entendimento mais amplo e também mais relativo, não literal, como é feito em toda religião. Mas temos, também, que estar atentos, visto que, com o passar do tempo, histórias podem ter sido alteradas e simplificadas. Temos sempre que buscar o sentido maior, mas, sempre também, nos basearmos nos versos para isso. Assim, depois, encaixar isso no contexto teológico mais amplo, buscar um entendimento que seja baseado no bom senso, no normal e alinhado com a nossa humanidade.

Não podemos fazer afirmações dentro de um tema específico da religião que não seja suportada por versos, mitos ou um conhecimento da tradição oral fortemente estabelecido. Alerto que usar a tradição oral é bastante complicado, quando digo tradição oral, me refiro a ritos que são feitos pela sociedade de forma ampla e que podem ser analisados e entendidos no contexto que estamos tratando. Ao usar “tradição oral” por ela mesma, podemos nos basear em histórias inventadas ou distorcidas, essa expressão de origem de informação já foi bastante usada para disfarçar a falta de conhecimento real. Alegar o uso da “tradição oral” não pode ser passaporte livre para criar conhecimento do nada. Outro cuidado diz respeito a regionalidade. Quando se fala daquela região da África, abrangida hoje pela Nigéria e Benin, estamos falando de muitas etnias e diferenças culturais, é uma diversidade grande, apesar de muito próximas geograficamente uma da outra.

Um bom exemplo de uso da tradição oral é mostrado por Batatunde Lawal (Gélede (Gẹ̀lẹ̀dẹ́) Spectacle). O livro é dedicado ao espetáculo de Gélede (Gẹ̀lẹ̀dẹ́), mas é impossível falar de Gélede (Gẹ̀lẹ̀dẹ́) sem falar de Àbíkú e ajé (Àjẹ́). Lawal mostra como a sociedade trata na prática estas questões através do culto de Ìyá Nlá, a mãe terra, que esta diretamente ligado a Gélede (Gẹ̀lẹ̀dẹ́), mas ele descreve os festivais e até rituais, mas, não busca tratar dos versos e mitos de origem, visto que seu trabalho é sobre a externalização desta questão. Isso é tradição oral, é mostrar evidência, habitos, crenças e ritos baseados no que a sociedade faz de fato.

Em função disso, eu vou inicialmente expor uma base de mitos que fazem parte do conhecimento da religião e que foram a base inicial para minhas análises e conclusões. Repito, a partir desses mitos e sempre usando eles junto com minha prática eu construí o conhecimento que aqui vou expor.

Antes que pensem que estou querendo complicar tudo, entendam que, para compreender essa religião, vocês devem de fato ler os versos e as histórias. Eu posso junto com isso fazer minhas análises e explicações, mas, é necessário conhecer a fonte da informação que transmitimos.

É muito fácil alguém ler um verso e destacar o que interessa e descartar o que atrapalha nas suas ideias, transmitindo para outros apenas o que lhe convêm.

Desta maneira, eu reúno a seguir as fontes que achei mais relevante. Elas devem ser lidas com calma e entendidas porque, depois, tudo o que eu falar será baseado nelas.