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domingo, setembro 01, 2019

O Bàbáláwo como o único intermediário no uso de Odù.

Uma vez que já expliquei, nos textos anteriores, de formas bastante ampla o que é Odù, vou fazer agora uma afirmação importante.
O uso de Odù é uma característica do oráculo de ifá. Isso é baseado no fato de que Bàbáláwo é iniciado para a divindade Órunmila (Ọ̀rúnmìlà), passa pelos ritos iniciativos e sacralizatórios para ser um intermediário entre o nosso mundo e esse supernatural, o Odù é parte contínua em sua iniciação, vai do início até o fim, em Ifá tudo é feito através da invocação de Odù ou seja através dessa energia e, assim, o Bàbáláwo é um sacerdote preparado para ser o intermediário entre nosso mundo e Órunmila (Ọ̀rúnmìlà).
Negar isso é rejeitar o processo iniciático especializado envolvido na religião Yorùbá, onde existem iniciações especializadas, na origem e, aqui no Brasil, uma iniciação consolidada através de processos litúrgicos diferentes dos que existem na fonte onde a iniciação original sofre adições ao longo de anos para capacitar um sacerdote de orixá (Òrìṣà) de forma ampla.
Apesar disso, cada sacerdote continua, ainda, sendo um sacerdote especializado em seu orixá (Òrìṣà) e no seu contexto.
A mesma retórica se aplica para a relação entre o Babalorixá (Bàbálórìṣà) e os orixá (Òrìṣà). O Babalorixá (Bàbálórìṣà) ou a Iyalorixá (Ìyálòrìṣà) são os únicos preparados para serem os intermediários entre nós e nosso mundo e os orixá (Òrìṣà). Eles são iniciados em um longo processo de preparação para serem esses intermediários e dessa forma qualquer processo iniciático somente passa por um desses sacerdotes.
Não cabe a um Bàbáláwo iniciar ninguém em orixá (Òrìṣà) e não cabe a um Bàbáláwo distribuir assentamentos de orixá (Òrìṣà). Esta tem sido uma prática corrente de um conjunto de pessoas, mas é absurdo e um descalabro. A mesma inadequação que existe em sacerdotes de orixá (Òrìṣà) usarem Odù em suas atividades ou usarem, de forma plena, Odù em seu oráculo existe no oposto, Bàbáláwo que se apressam em fazer atividades com iniciáticas ou litúrgicas com Orixá (Òrìṣà).
Atenção, tem muito Bàbáláwo que afirma que orixá (Òrìṣà) nasce em Odù e que ele chama orixá (Òrìṣà) através de Odù específicos que são rezados. Alguns chegam a ironizar e questionar a capacidade de um sacerdote de orixá (Òrìṣà) da chamar um orixá (Òrìṣà) sem Odù, afirmando que orixá (Òrìṣà) só nasce em Odù.
Essas afirmações junto a sacerdotes de orixá (Òrìṣà) que veem orixá (Òrìṣà) surgir junto a eles, se tornar presente através dos seus eleguns, dos seus cantos, dos seus tambores, das suas rezas e das suas oferendas, é tão idiota que eles nem se dão ao trabalho de responder de forma educada.
Como um Bàbáláwo que não sabe o que é um orixá (Òrìṣà), não convive com essas divindades no dia a dia, não vê suas manifestações e não vê o seu surgimento no Àiyé tem a coragem de fazer esse tipo de afirmação?
Um sacerdote de orixá (Òrìṣà) tem uma visão muito objetiva em relação a presença e a resposta do orixá (Òrìṣà), ele vê o orixá (Òrìṣà) e sente o orixá (Òrìṣà). Por seu lado o Bàbáláwo diz que o orixá (Òrìṣà) se apresenta porque ele risca um signo e faz uma reza, tipo, o aladin que esfrega a lâmpada e aparece o gênio.

Para um Babalorixá (Bàbálórìṣà) chegar a condição de iniciar um elegun, ele passa por anos e anos de aprendizado, iniciações e aquisição de axé (àṣẹ́). O Bàbáláwo, simplifica isso tudo, nada de uns 14 anos de aprendizado e iniciações, ele diz que chama orixá (Òrìṣà) com um Odù e que faz assentamentos mas, quando ele faz isso, esses trabalhos com orixá (Òrìṣà), nunca existe uma manifestação de orixá (Òrìṣà), pelo contrário eles dizem que não é necessário e muitos, principalmente nem dão valor ou acreditam em incorporações (principalmente os cubanos e os que aprenderam com cubanos).
Consideremos o exemplo dos Bàbáláwo cubanos que fazem rezas usando uma distorção incompreensível do Yorùbá. Sim, porque os cubanos dizem que rezam em Yorùbá, mas aquilo que eles rezam não é nada, são palavras, algumas inventadas e, a maior parte, modificadas e totalmente distorcidas que, se eles dependessem se cubanês, para fazer alguma coisa nada seria feito. Nada do que eles falam remete minimamente ao idioma.
A tese Yorùbá é que as palavras têm axé (àṣẹ́) e que rezar invoca as energias divinas. Isso é assim em todas as religiões. Certo, mas falar tudo errado como os cubanos falam teria utilidade para alguma coisa?
Dessa maneira esperar que eles rezando esse cubanês deles vai trazer um orixá (Òrìṣà) é o máximo do otimismo. Sim estou dizendo que na minha opinião esses Bàbáláwo que dizem fazer “santo” nos outros e fazer assentamento de orixá (Òrìṣà) para outros estão produzindo placebo.
Essa afirmação do Bàbáláwo, sobre trazer orixá (Òrìṣà) através de um Odù, que para um Bàbáláwo é muito natural, aos olhos de um Babalorixá (Bàbálórìṣà) poderá parecer ridícula e pretensiosa. Igualmente quando um Babalorixá (Bàbálórìṣà) fala que trabalha com Odù através do seu jogo de búzios ou Bàbáláwo ira ter a mesma opinião.
Temos que ser justos com os dois lados.
Usei extremos nessa minha abordagem para que todos entendam o que estamos tratando, não dá para explicar isso com meias palavras.
Um Odù é invocado pelo Bàbáláwo que é o sacerdote que foi iniciado para isso. Essa invocação começa com o desenho do Odù no opon (Ọpọ́n Ifá) e fica plena com ele rezando os versos do Odù.
O Bàbáláwo é o intermediário qualificado e usa os seus instrumentos sacralizados. Dessa maneira o uso pleno de Odù ocorre através das mãos desses sacerdotes e quando me refiro a uso pleno me refiro a mensagens e energia.
Eu vou um pouco mais além, o uso pleno de Odù em Ifá ocorre quando o Bàbáláwo faz uso de Ikin e simultaneamente ele risca (tefa) no opon (Ọpọ́n Ifá) o Odù. Este ato, de usar o ikin que é o instrumento de Órunmila (Ọ̀rúnmìlà), é o ato de invocar Órunmila (Ọ̀rúnmìlà). Na verdade para o Bàbáláwo os ikins são Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) no mundo e riscar o opon (Ọpọ́n Ifá) a marca gráfica é o que baixa o Odù na terra.
Dessa forma o uso de consultas através do opele (Ọ̀pẹ̀lẹ̀), que é um outro instrumento de consulta do Bàbáláwo, é um modo simplificado no qual você tem acesso as mensagens de Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) para a pessoa mas você não risca o Odù no opon (Ọpọ́n Ifá). Assim, consultar Ifá com o opele (Ọ̀pẹ̀lẹ̀) é igual consultar Odù com búzios.
Esta foi uma afirmação forte que eu vou defender, mas, antes vamos fechar esse assunto.
O uso pleno de Odù, com mensagens e energia só é obtido através de Ifá, essa é a grande diferença do oráculo de Ifá para o uso de búzios como oráculo. Para usar o instrumento Odù na sua integralidade você precisa do Bàbáláwo e seus instrumentos.
A discussão sobre o uso de Odù com búzios é o propósito de todo esse texto e até o fim dele vamos ter abordado tudo o que esta neste contexto.
Mas isso não significa que demais sacerdotes da religião não possam ter acesso ao uso de Odù na sua parcialidade, como mensagem, afinal estamos lidando com uma mesma religião. Essa afirmação também é pesada e corajosa, mas é minha opinião.
Então, eu como Bàbáláwo que convivo com Odù diariamente que passei e conheço o processo iniciático, que já conheci e usei búzios por muito tempo antes de ser Bàbáláwo e conheço os instrumentos oraculares do Bàbáláwo, de forma que tenho essa opinião aseado em teoria e prática.
Apesar dessa opinião, é importante colocarmos as coisas no lugar, Odù é o instrumento do Bàbáláwo, considerar que é o instrumento de todo mundo é ignorar a relevância de ritos iniciáticos que são fundamentos básicos desta religião.
Igualmente ignorar os ritos iniciáticos dos sacerdotes de orixá (Òrìṣà) e achar que faz tudo igual a eles é bastante falta de senso crítico.
Existem 2 tipos de pessoas que devem ser colocadas em dúvidas de sua sanidade, Babalorixá (Bàbálórìṣà) que diz que trabalha com Odù e consulta Ifá e Bàbáláwo que diz que faz o mesmo que um Babalorixá (Bàbálórìṣà) leva a vida toda se preparando para fazer.
Essa questão de uso de opele (Ọ̀pẹ̀lẹ̀) e ikin vou abordar agora.

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