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terça-feira, janeiro 22, 2013

Como determinar a orientação do Odù no eerindinlogun

Como determinar a orientação do Odù  no eerindinlogun 





Este é um daqueles temas que neófitos podem ter dificuldade para entender. Vou tratar aqui de uma característica usada na interpretação do oráculo do Jogo de búzios, usando uma abordagem crítica a um processo erroneo que é feito no Candonblé.

Nem sempre dá para escrever para todos. Alguns temas vão acabar se dirigindo para pessoas que já pertençam à religião. Mas, se você já pertence e não entender esse texto aqui e outros que presumirem isso, fique preocupado, porque você obrigatoriamente já deveria saber do que eu estou falando. Acho que você esta indo na sua casa de Candomblé só para comer a merenda.


Quem já teve contato com o Candomblé através de um jogo de búzios pode entender o que vou explicar. Pessoas que já sejam do Candomblé, sejam Abians (semi neófitos) ou iniciados certamente conhecem este assunto e vão entender a explicação que vou dar.

Este tema é assunto colateral que dá continuidade de outras postagens já feitas sobre o uso de oráculos na religião. Mais diretamente é a continuidade da postagem sobre designação de Odus negativos que é feita no Candomblé

A postagem a que me refiro esta em

http://blog.orunmila-ifa.com.br/2012/11/odus-negat-ivos-no-candomble-fazendo.html

Para melhor entender este assunto eu recomendo algumas postagens importantes do Blog:

Para entender o que é Odù

http://blog.orunmila-ifa.com.br/2011/07/odu-energia-de-olodumare-o-que-e-odu.html

Para entender mais do oráculo:
 
http://blog.orunmila-ifa.com.br/2012/05/o-jogo-de-buzios-e-ifa-parte-1.html

http://blog.orunmila-ifa.com.br/2011/12/o-oraculo-e-fe-os-oraculos-permitem-nos.html

 
Ha algumas postagens atrás eu fiz um crítica a pessoas que se anunciam como jogando Búzios através de Odu mas que desconhecem regras básicas para essa manipulação, inclusive a mais elementar que é a determinação se o Odu é positivo ou negativo.

Quem não leu ainda eu recomendo, tem informações interessantes para quem se interessa por oráculos. Eu não faço nenhum exagero, o que eu relato é o que existe por ai.

Como eu já disse, quando falei sobre jogo de búzios, a questão da junção de Odu com búzios no Candomblé é majoritariamente apenas um esforço de marketing. Um olhador que ofereça seus serviços "na praça", não pode hoje dizer que não joga por Odu. Isso virou uma etiqueta obrigatória na oferta dos serviços de vidência, sem adicionar qualquer conteúdo novo ao que esta pessoa já fazia. Dizer que joga por Odù não melhorou e nem piorou o jogo dela.


Mas, isso causa um efeito ruim, como já disse no Blog. Primeiro é que se desvaloriza a tradição do jogo de búzios no Candomblé, que sempre foi feito (e bem feito) sem essa falsa etiqueta. O segundo é que se tira a identidade do uso de Odu no Oráculo. As pessoas apenas anunciam que usam uma coisa torta sem ter domínio nem propriedade para isso, criaram uma "coisa" que foi esse jogo de búzios por Odu do Candomblé.

Quanto mais eu ouço pessoas no rádio, leio o que se escreve e vejo o que se joga eu tenho mais certeza das coisas que afirmo aqui.

Mas este assunto já foi tratado, aqui no Blog, longamente:

Voltando ao tema desta postagem, temos que resgatar alguns conceitos básicos de Odu. O primeiro é que um odu pode ser apresentar em 2 formas: Ire e Ibi ou Ire e osogbo ou Ire e Àyẹ̀wò. Cada tradição chama de uma forma. Eu vou usar aqui a forma Ire e Ibi.

Um Odù é um contêiner de energia com muitas mensagens, algumas similares outras nem tanto.

Em uma consulta, através de Odù, primeiro se tira o Odù principal. Este Odü é o que determina toda a interpretação da consulta. Os elementos adicionais, que se seguem a esta determinação, apenas vão detalhar e especificar o assunto para aquela pessoa em particular.

Após o olhador determinar qual é o Odù principal ele deve determinar a sua orientação. Não se trata aqui de saber se é positivo ou negativo e sim de saber a sua orientação. Esta é a primeira bobagem que se fala quando não se entende com o que esta lidando, com Odù, é claro.

Como eu disse o Odù tem eu seu corpo literário muitas mensagens e significados. Eles não acontecem todos ao mesmo tempo. Temos que determinar qual mensagem se aplica aquela situação.

Para auxiliar a interpretação do Odù principal, para o caso em questão, é necessário o suporte de outras informações. A primeira delas é entender a orientação do Odù. A segunda será a agregação de significados desse Odù, que determinou esta orientação, na interpretação do Odù principal.

Em ifá, a determinação da orientação, é parte obrigatória do processo de consulta, na realidade não tem consulta sem isso, mas, no uso dos búzios esse processo se perdeu ou, mesmo, nem foi aprendido por muitos que hoje usam os búzios.

Muita gente deduz pelo próprio Odù se ele é positivo ou negativo, criando desta forma uma convenção, própria, de Odù sempre positivo e outros sempre negativos. Outras pessoas podem usar características da caída para determinar isso e outras, ainda, a sua própria intuição. Tudo isso esta errado.

Grosseiramente falando, ou melhor, traduzindo o que se faz a orientação positiva do Odù é chamada de Ire e a negativa de Ibi (ou os outros nomes), mas devemos usar sempre a expressão orientação e não positivo e negativo. Muitos Bàbáláwo não aceitam que Ifá possa prever o mal para a pessoa e, assim, eles usam uma expressão alternativa para o estado de Ibi, que se chama Àyẹ̀wò, um questionamento. Os cubanos não falam Ibi, eles usam  Osogbo, que significa que não é Ire.

Para se determinar a orientação do Odù deve-se usar o processo do ìbò que vem a ser um dos pilares do oráculo de Ifá. O uso do ìbò é uma forma de envolver diretamente o orí do consulente na consulta do oráculo, criando, assim, uma interatividade. Não devemos aceitar um processo de Ifá sem a interação com o consulente e sem o uso do ìbò para isso.

Infelizmente a prática de usar o ìbò junto com o consulente, foi extinta com os búzios e esta deixando de ser feita até mesma em Ifá. Pura preguiça.

O processo de ìbò é um tipo de consulta que busca uma resposta binária, sim ou não. Em Ifá tradicional através do ọ̀pẹ̀lẹ̀ ou dos ikin pode-se ainda usá-lo para a escolha de uma entre várias alternativas simultâneas, mas em owó-ẹyọ mẹ́rindílógún ele é usado apenas para uma decisão entre 2 alternativas.

Antes de entender o processo de consulta deve-se entender o que significa de fato os estados do Odù:

IRE


Quando um Odù vem em ire, ele traz com ele bênçãos que estão associadas com as características mais positivas. Esta energia vem para oferecer benção, fortuna, novas oportunidades, um fluxo de entrada de energia e de evolução.

Em um escopo mais amplo, a pessoa para a qual o Odù vem em ire entende que a energia será presenteada pelo Odù em duas maneiras. Uma forma sutil ou explícita no seu ego. Este entendimento cria um equilíbrio. A natureza de ire reflete um estado de harmonia ou equilíbrio com a energia do Odù até mesmo se a pessoa de modo consciente não reconhece que isto esta o estará ocorrendo.

O objetivo do Oráculo é restaurar e manter o balanço na vida de cada indivíduo, reequilibrando suas energias. Um Odù que vem em ire confirma que a pessoa esta favorecida com este estado de equilíbrio.

IBI


Africanos não gostam de algumas palavras. Assim usam para significar Ibi, a palavra Àyẹ̀wò. Os Cubanos usam a palavra Osogbo que significa que não é Ire.

Um Odù que surge em estado de Ibi frequentemente traz com ele os aspectos mais negativos de sua natureza. O termo negativo implica pelo menos parcialmente uma conotação imprecisa que requer melhor clarificação. As energias operando em estado de Ibi tendem a serem mais desafiadoras para o pessoa e traz com ela obstáculos, problemas ou lições que poderão ser difíceis para aprender ou entender. Ibi pode indicar uma falta de balanço, equilíbrio ou resistência no aspecto metafísico de relacionamento entre a pessoa e a espiritualidade.

A pessoa pode ser dita estando em um estado de falta de entendimento dos desafios e e lições apresentados por este Odù de forma que se caracteriza um desequilíbrio destas energias que afetam a sua vida. Um iniciante pode temer o surgimento do estado de Ibi, mas com o tempo ele irá entender que este receio não tem mérito.

Ibi é com o um amigo sábio que é candidamente honesto. Ele se apresenta para oferecer pílulas amargas que são duras de engolir, mas este remédio trará à pessoa uma oportunidade para ganhar e aumentar o entendimento de si mesma e sua compreensão do seu papel no mundo de uma forma ampla. Ibi não é uma alguma coisa para ser temido, mas ao invés disso estudado e entendido. Debaixo desta corrente de energia desconexa se deposita uma oportunidade de recuperar o equilíbrio uma vez que o desafio que é apresentado é aceito e entendido.

Quando examinado sob um ponto de vista mais amplo, Ibi proporciona o equilíbrio necessário para se atingir o estado de ire, sem esta dose de amargura a pessoa não poderia ser capaz de apreciar a doçura de sua vida




Assim, após determinarmos o Odù principal o passo seguinte é saber a sua orientação. Isso é feito não por advinhação e nem por regra tipo a que estebelece que um odù será sempre positivo ou negativo. Isso não é feito pela conveniência do olhador. O oráculo é um processo transparante.

O Ìbò será usado e 2 caídas de búzios definem qual o Ìbò selecionado e qual o estado do Odù. Dessa forma se entende como aquele Odù esta se manifestando na vida da pessoa. alem disso o Odù que escolheu o Ìbò vai se incorporar a interpretação, sendo usado para explicar ou detalhar o principal.

Dois Ìbò são dados para o consulente segurar nas suas mãos, sem que o olhador saiba em que mão estão. Um deles significa SIM e o outro NÃO.

É feita a pergunta ao Oráculo:  O Odù é Ire?
 
As 2 caídas são feitas e escolhem uma das mãos fechadas. Quando a mão se abre o tipo de ìbò determina se a resposta é sim ou não. Se for SIM o odù esta em Ire. Se for não esta em Ibi.

O olhador não consegue desta forma controlar a resposta. O Oraculo decide sozinho e o consulente participa desta resposta.

Outros processo se seguem para melhorar o entendimento: 1) se aquele odu ja esta se manifestando na vida da pessoa ou não; 2) se é necessário um ebó ou oferenda; 3) qual o tipo do Ire ou Ibi; 4) qual a sua origem.

Juntando todas essas informações o olhador pode enfim interpretar o Odù para o consulente.

Observem que todas as perguntas ao oráculo devem ser respondidas com o ìbò. Os jogos no quais o olhador faz a pergunta e ele mesmo responde sozinho não são jogos que seguem Odù e a metodologia de Ifá. Estes casos são válidos para o jogo de búzios, mas não para o jogo de búzios com Odù.

Oráculo não é adivinhação, é um processo transparente de comunicação com o divino e que qualquer pessoa que entenda pode acompanhar uma consulta.


O Cosmo Yoruba vem ai...

segunda-feira, janeiro 14, 2013

A banalização do orixa através do jogo

A banalização do orixa através do jogo


 Sempre foi muito comum os relatos de pessoas que vão fazer uma consulta a um jogo de búzios  e uma das primeiras coisas que recebem é a designação de qual é o orixá daquela pessoa.

Esse evento é tão comum como também as chacotas que se faz em relação a isso. Uma vez em uma comunidade do Orkut, tinha um topico com as pessoas relatando jocosamente isso, dizendo quantos orixás já tinham dado para elas em jogos diferentes.

Gente, a abordagem é essa mesma, jocosa. Tão tolo como dar o orixá de alguém por um jogo comum é aceitar isso como verdade.

Não, Orixás não aparecem em jogos comuns.

Não posso aqui dizer nada para as pessoas da primeira parte da frase, as que dão o orixá pelo jogo. Mas posso explicar algumas coisas para a da segunda parte.

Orixá é uma coisa muito íntima e própria da pessoa. Não é uma coisa como signo que todo mundo sabe o seu a partir de sua data de nascimento. Em um jogo de búzios qualquer orixá pode responder para ajudar a pessoa que esta se consultando, mas, isso não significa que seja o Orixá da pessoa. Esse é o Be-a-Ba do jogo. Os Orixás estão, todos,  por nós. 

Descobrir o Orixá de uma pessoa é um processo longo. Muitas vezes a pessoa fica em uma casa muito tempo sendo observada e somente quando vai fazer uma feitura ou um obrigação mais séria pode se determinar isso.   

Eu lembro a todos que a designação de Orixá para pessoas assim como o próprio Orixá são coisas que pertencem APENAS ao Candomblé. Isso não faz parte da Umbanda e umbandista que dá orixá para os outros é mais um maluco. Sim, as pessoas devem entender que a Umbanda é um religião brasileira e não faz parte da matriz africana. Existe muitas correntes de Umbanda, muitas mesmos, tantas que nem dá para definir. Existe uma específica que é mais africanizada, que usa atabaques e nomes de orixá. Mas isso é apenas um sincretismo pobre. Não existe vinculo, é apenas cosmético. A Umbanda é uma religião brasileira. Existe uma postagem no blog sobre isso, em breve vou re-editar.

Abian é a designação usada no Candomblé para os simpatizantes, pessoas que participam sem terem sido iniciados. Lembro que, como a religião católica, o Candomblé é iniciático. Considera-se que Abian não tem orixá. O orixá de uma Abian é Ori, uma divindade pessoal. Esse é o protocolo correto que deve ser adotado em casas sérias.

Um abian deve ter um fio de conta branco, somente. Poderá continuar como abian por muitos anos e nesse tempo até poderá se intuir em qual deve ser o Orixá daquela pessoa, mas, a determinação do orixá mesmo somente na sua iniciação, quando ocorrera uma preparação e rituais que permitirão isso ser feito.

Normalmente é até expontâneo, o Orixá vai se manifestar.

Seguindo a mesma base, é importante que se entenda que cada pessoa tem apenas 1 orixá. A gente vem ao mundo ligado a 1 orixá e a nosso guardião, o nosso Ori, que é uma divindade pessoal, cada um tem a sua (como se fosse um "anjo da guarda").

Esse conceito de Orixá Pai e Mãe (espirituais), é uma completa bobagem no que diz respeito ao Candomblé, que é a única e original religião de Orixá. Esta invencionice só existe na Umbanda, que como já disse não sabe nada de Orixá.

Na verdeira religião de Orixá, a pessoa é de fato ligado intimamente a somente a um Orixá, mas, também tem um segundo, contudo esse segundo, mais próximo, pode ser de qualquer gênero, inclusive do mesmo gênero do primeiro...

A composição de Ori e Orixá, ambos pessoais, é uma parte muito íntima de cada um e não é para ser de domínio público. Um Abian em uma casa tradicional, vai se reportar a seu Ori, Olodumare  e os demais Orixás, principalmente o da casa, mas, não é uma pessoa para ter seu Orixá designado.   

A designação bem como o culto ao seu Orixá é o que se obtêm com a iniciação. Se a pessoa quer se aprofundar na religião e no culto do seu próprio Orixá deve então se iniciar. É completamente inadequado ter abian cultuando o seu orixá ou mesmo se preocupando com a qualidade do seu orixá. Este é um processo muito sério e litúrgico e ninguém deve iniciar um processo desse já tendo como meta que Orixá é o seu. 

É bastante comum o caso de pessoas que entram para fazer um Orixá e saem com outro. Isso é fruto de uma pre-determinação que não deve existir.  Ou mesmo o caso de pessoas que saem feitas de um Orixá de depois, em um lugar sério vão ter que fazer de novo, o orixá correto.

O que eu quero que vocês entendam é que existe o procedimento correto que é este que eu estou descrevendo e existe o que é feito por ai.  O correto é que Orixá pertencem apenas ao Candomblé, não se determina Orixá em Umbanda porque Umbanda não tem Orixá. O correto é que o não iniciado em uma casa de Candomblé é um Abian, e Abian não tem orixá designado, se ele quiser ter Orixá designado tem que se iniciar.

Não existe nenhum problema na pessoa ser abian. Ela não será menor ou não estará ligada ao seu Orixá. A gente nasce com um Orixá e não precisamos de nada e de ninguém para nos ligar a ele.

Por esta razão, sabendo desta complexidade todo, é que eu digo que é idiota essa coisa de a pessoa sentar na frente de uma mesa de jogo de búzios e receber um Orixá. Isso só tem credibilidade se a pessoa não conhece a religião. Mas se conhece minimamente entende que isso é ridículo.

Existe um processo das pessoas adivinharem o Orixás das pessoas. Isso é feito por aparência e personlidade (arquétipo). É a mesma coisa de você adivinhar o signo de alguém. Não existem tantos Orixás para dar para as pessoas de modo que o índice de erro é grande mas de vez em quando você pode acertar.

Mas, isso não pode ser levado a sério e muito menos uma pessoa que joga búzios pode fazer isso. É irresponsabilidade, porque aquela pessoa, deveria ser um sacerdote e deveria saber que não deve fazer aquilo.

Essa designação, na minha opinião só serve para criar vínculos comercias, para criar simpatias e dependências.

Mas, existem coisas piores.

A primeira é a pessoa sair do jogo inclusive com a qualidade do Orixá. Orixás tem variações. Um mesmo Orixá por ter "personalidades" um pouco diferente, como se fosse um tempero. Isso faz parte da individualização. Determinar a qualidade de um Orixá é muito mais profundo do que determinar o Orixá e isso ser feito em uma consulta de búzios, muito pior ainda.

A segunda é a pessoa ir para um Babalawo, em uma consulta de Ifá e essa pessoa também dizer o Orixá dessa pessoa. Olha, se isso acontecer, levanta e vai embora.  Vai ser melhor para você, vai se aborrecer menos.

O objetivo de uma pessoa que em uma consulta comercial de búzios ou de Ifá afirmar para uma pessoa que ela é de um determinado Orixás, é apenas um continuidade da atuação comercial de vender consultas de oráculo. Esta sendo buscanda uma forma de criar uma ligação, um interesse adicional, coisas para fazer e quem sabe despertar medos.

Essa banalização de Orixá não contribui em nada com as pessoas. Não resolve os problemas dela e não melhora sua vida. Pelo contrário, pode trazer problemas e fazer ela perder dinheiro para os espertos que lidam com isso. Assim você vai ficar mais infeliz e mais pobre.

Não seja vaidoso. Seja humilde. É a vaidade que faz as pessoas tomarem as decisões erradas e serem enganadas. Determinar Orixá não te ajuda em nada. Quando você tem um problema, qualquer que se levantar para te ajudar é bem vindo. O seu Ori e seu Orixá sempre estão com você e sempre vão te ajudar. Se mais alguém se oferece, ótimo!

Outra coisa, Orixá não é signo astrológico. Não se determina pela data de nascimento e nem pelo nome.

quinta-feira, janeiro 10, 2013

Serão os Orixá (Òrìṣà) elementos da natureza ?


Serão os Orixá (Òrìṣà) elementos da natureza ?

Parte 4 de 4


A ORIGEM DOS ORIXÁ (òrìṣà) SEGUNDO A RELIGIÃO YORUBA

Eu vou fazer uma abordagem tradicional e bem direta sem rodeios e nem invenções. Minha referência são os versos do Odù oxétuwa.

Esta religião tem um corpo literário que não é muito conhecido aqui no Brasil e no Candomblé. O conhecimento religioso esta registrado em versos que são divididos em 16 capítulos. Cada capítulo corresponde a um Odù. Assim são 16 Odù e cada Odù tem um conjunto variável de histórias contadas em versos. Podemos dizer que cada Odù pode ter até 16 histórias, em versos e tamanhos diferentes que podem ir de poucas linhas até páginas.

Isso é o corpo literário de Ifa (Ifa divination poetry ou Ifa Literary corpus). Esses versos contêm as informações sobre a religião. Tudo o que se diz da religião deve ter referência em um verso e Odù.

Como eu disse para vocês algumas palavras em Yorùbá tem vários significados. Este, o de serem os capítulos do corpo literário de Ifá é um dos significados para Odù.

O grande problema Yorùbá era que eles não tinham lingua escrita. Foram os europeus que criaram uma representação escrita para o muito simples e por isso complicado idioma tonal Yorùbá. Por esta razão o corpo literário de Ifá era guardado por pessoas, Babalawo que dedicavam sua vida a decorar esses versos. Somente no século XX é que houve um intenso trabalho voltado para registrar esse corpo poético em gravações e em registro escrito, para evitar que se perdesse, mas, em função da colonização e escravagismo, muito já se perdeu.

A referência que irei usar para explicar porque os Orixá não são elementos da natureza porque não tem esta função é um verso do Odù Oxétuwa. Eu não vou registrar aqui o texto, é bem extenso mas esta no blog no link a seguir.


http://blog.orunmila-ifa.com.br/2010/01/o-texto-seguir-e-transcricao-do-odu-ose.html

Eu recomendo que seja lido, ele contêm inúmeros conceitos e fundamentos importantes. Este texto foi extraído originalmente do livro Os Nago e a Morte, mas, existe em outras obras de autores diferentes, incluindo o Nigeriano Wande Abimbola. Essa é um versão que esta no Blog é completa com inserções de outras versões que eu li.

Dessa maneira, este texto é confiável e necessário para quem quer entender esta religião. Lembro a todos que o estilo de aprendizado da religião não é a cátedra e sim vocês lerem os versos de Ifá para poderem construir o seu entendimento.


É longo, mas, tem que ser lido.

A história narrada se temporiza após a gênese. O mundo já estava criado e sendo populado por Olódùmarè, a alta divindade suprema Yorùbá. Em outra oportunidade abordamos a Gênese segundo a religião Yorùbá.

Neste Odù fica claro que Olódùmarè criou o mundo, populou-o com os homens e enviou os òrìṣà (orixá) para poderem ajudar os homens na sua vida, na superação das dificuldades.

Eram 16 e havia somente uma mulher entre eles, Óxun, que representa o poder feminino original.

Desta forma, se os òrìṣà (orixá) foram enviados para suportar os homens de calamidades naturais, os Ajogun, não poderiam eles mesmos serem os próprios elementos da natureza, conforme a visão das religiões pagãs europeias.

Este Odù estabelece uma distinção muito clara entre as divindades de Olódùmarè, suas funções e a natureza, desvinculando um de outro.

Na religião Yorùbá as divindade são chamadas de Irunmole. Um sub-grupo dos Irunmole são os òrìṣà (orixá). Os òrìṣà (orixá) estão ligados a nós, mas, existem divindade, Irunmoles que não estão ligados a nós.

Dentro do grupo dos òrìṣà (orixá), existe ainda a divisão deles em 2 tipos de orixás. O primeiro grupo são os orixás originais, divindades da criação, que já existiam na Gênese e faziam parte do grupo de 16 que foi enviado por Olódùmarè O outros grupo são os ancestres divinizados, pessoas, homens, que ganharam muita importância e relevância junto ao povo de foram divinizados, se transformaram em Orixás.

É importante entender que as pessoas humanas, homens e mulheres podem ser divinizados e se transformarem em òrìṣà (orixá). Por essa razão as pessoas fazem parte de um grupo privilegiado no cosmo Yorùbá, como vocês vão ver quando eu explicar isso.

Assim, vamos fazer uma revisão do que eu disse até o momento. No texto do Odù Oxétuwa, que vocês DEVEM ler, esta claro que Olódùmarè enviou os òrìṣà (orixá) para suportar a vida humana na terra, devido às muitas dificuldades que as pessoas iam encontrar aqui. Esta abordagem, documentada em versos de Odù completamente confiáveis, desvincula completamente os òrìṣà (orixá) de serem elementos da natureza, porque o mundo já estava criado e eles foram enviados depois, junto com a humanidade.

Além disso o conjunto de divindade Yorùbá não é formado por um grupo fixo, pré-determinado e cada um com funções específicas. Existiram os primeiros 16 que foram enviados para criar o mundo, mas, existem muito mais Irunmoles do que esses 16. Os òrìṣà (orixá) representam um subconjunto dos irunmole e eles são vinculados a nos suportar.

O conjunto de òrìṣà (orixá) não é finito. Ele pode ser composto por divindades originais mas, também, por humanos que devido a sua relevância se divinizam e se tornam òrìṣà (orixá).

Tomemos por exemplo as divindades femininas que tiveram uma origem comum somente em um Orixá, Óxun, a única que estava na criação. Oya que muitos consideram como sendo o vento não poderia o sê-lo porque ela é claramente um ancestre divinizado, e o vento já existia antes dela. Antes de Oya ser divinizada junto com Xangô o vento da existe a milhares de anos e nunca prescindiu de Oya que era apenas uma mulher.

Oya (Ọya), bem como todas as divindades femininas são cultuadas e associadas com o elemento água. Assim Óya esta ligada ao Rio ògùn e Óxun ao rio com seu nome, Yemanja, outra divindade bem conhecida, também esta ligada a um rio, Olokun ao mar, as ajé são as que possuiam os 7 rios da terra na sua criação, Iyewa também a agua e até Nana que nem é Yorùbá esta ligada a água. Observe então que existe uma tendência dos Yorùbá associarem divindade femininas a rios, não necessariamente a água.

O elemento água, especialmente esta ligado a Oxun, é o único elemento que sozinho pode gerar e sustentar a vida e esta associado sempre a existência de vida. Tudo isso tem origem em Oxun.

Se a água é um Orixá, qual ele será? Não a água não é um orixá.

Ṣàngó (Xango) é dito ser o fogo, mas a real ligação dele com o fogo foi a capacidade que adquiriu de manipulá-lo, o que também foi feito por Ọya segundo um mito conhecido por todos no Candomblé. Ṣàngó (Xango) também esta associado com trovões e raios, sim, mas por manipulá-los porque ele é considerado a justiça de Olódùmarè, ou a sua ira, e joga os raios contra pessoas que de tão ruim que foram não merecem mais viver. Igualmente após a sua morte o mito diz que ele jogou raios contra as pessoas que diziam que ele tinha se enforcado.

No mito da criação, a terra foi criada por Olódùmarè e só havia a agua. Ele deu a bolsa da existência contendo os elementos que seriam plantados e depois espalhado para formar a terra. Depois de tudo criado, conforme o odù oxetuwa os òrìṣà (orixá) foram enviados para suportar a vida ensinando os homens a se relacionar com o divino.

Os elementos, a terra, a vegetação, foram trazidos do Órun pelos Orixás da criação.

Assim sendo o que ocorre é que os òrìṣà (orixá) como representantes ou intermediários de Olódùmarè e os homens passaram a ter poderes sobre determinados elementos da natureza, que eles trouxeram, que vão desde a água a doenças, mas, isso na sua forma controlada e organizada e não na sua forma violenta.

Uma coisa é ter controle sobre uma coisa na sua forma suave outra é ser ou ter controle total. Assim por mais que se faça uma oferenda um furacão, um tsunami, um terremoto e uma seca não poderão ser evitados. Essa é uma manifestação descontrolada da força da natureza, os òrìṣà (orixá) ajudará os homens a se prevenir ou superar as consequências disso.

Isto esta descrito no texto do Odu Oxétuwa e coloca um ponto final nesta relação.

FINALIZANDO

Para quem chegou até aqui, como eu disse e repeti várias vezes a religião é composta de elementos muito importantes, alguns intangíveis como o iwa pele e o nosso destino, outros lembrados mais indiretamente atualmente que é a ancestralidade. Este ultimo se perde um pouco devido a que nem todos de uma mesma família seguem a religião e uma casa de santo esta longe de representar uma família espiritual, mas, mesmo que a gente não se lembre a ancestralidade é uma das bases da nossa vida.

A religião que a gente adota é complexa em parte porque existem de fato conceitos pouco claros, na origem, ou que se tornaram complexo devido a junção aqui no Brasil de várias correntes religiosas e regionais distintas.

Infelizmente só recentemente surge um esforço de teologizar a religião e mesmo este esbarra na polêmica e no preconceito. Outras correntes religiosas, as cristãs contam com linhas filosóficas que procuram aprofundar as questões teológicas e sua interpretação. Infelizmente esta religião aqui não contou com isso na Africa e no novo mundo esbarra em uma babel pior ainda.

Eu acho que não cabe discutir liturgias, mas, não podemos em função disso nos abster de discutir todo o resto independente de sabermos ou não as respostas.

... sem querer ser chato, mas enfatizando, assim, na formo que eu vejo o cosmo yoruba, baseado em textos de odù que eu consegui ler até hoje, em mitos que eu li ou ouvi ao longo de anos, o òrìṣà (orixá) não faz parte da ordenação das forças naturais do mundo em que vivemos. Este ordenamento é atribuído a Olódùmarè que como o deus distante (ou tornado distante) faz com que a natureza e o mundo funcione.

Os òrìṣà (orixá) conforme aparecem nas histórias e explicitamente no odù óxéotuwa e Ogbe Meji, são os braços e mãos de Olódùmarè no aiye. Sofrem aqui com os mesmos fonomenos naturais que sofremos e não demonstram nunca controlar a natureza.

Eles primariamente são a sua ligação do divino com nós, para nos ajudar e proteger. Nosso ori é feito com nosso òrìṣà (orixá). Os òrìṣà (orixá) surgem em todas as histórias representando papéis comuns como se fossem pessoas comuns, com as mesmas perfeições e imperfeições que temos de modo a que possamos nos espelhar e entender o conhecimento que passam.

São também a instância direta, junto com o ori e a ancestralidade, que recorremos para resolver nossos problemas, ligados ao nosso sucesso na nossa vida como a necessidade de termos saúde, de termos família, mulher, filhos, oportunidades, trabalho, dinheiro e podermos com nossa prosperidade darmos seguinto a nossa vida e atingir o destino que estabelecemos antes de iniciar essa nova encarnação.

Como braços e mãos de Olódùmarè os òrìṣà (orixá), conforme eu comentei no início disso tudo, alguns deles tem algum controle sobre elementos da natureza. Mas como elementos podemos considerar um todo, de vegetais, minerais, doenças, até fenômenos da natureza, e estes sao usados não de uma forma reguladora, mas como instrumentos de sua necessidade e ação em exercer a sua missão junto a nós.

Eu não consigo ver um òrìṣà (orixá) sem o mesmo estar relacionado com nossa vida, ficando longe do significado que tem os deuses naturais das tradições europeias e greco-romanas (não tenho conhecimento suficiente para citar outras).

O entendimento da metafísica desse cosmo deve passar pela lembrança que temos vários entidades e espiritos além dos òrìṣà (orixá). Este conjunto esta longe de ser perfeito e complementar, existem coisas que parecem redundantes ou que não são complemente racionais, mas, como sabemos é um povo muito simples, agrário e que não teve unidade, continuidade e pensamento filosófico próprio para poder explorar e documentar cada faceta da rica cultura e religião.

Por todos os argumentos que longamente descrevi a introdução desta visão de Orixá elemento da natureza não se adapta a religião Yoruba. Foi colocada por estrangeiros. A Religião Yoruba tem poucos elementos ligando a religião e a natureza. Sol, lua e estrelas nem fazem parte de mitos.

A religião é complexa, mas, o povo é bem mais simples. Os estranhos é que tem preguiça de aprender, preferem inventar.


A próxima postagem será sobre o cosmo Yoruba. Não perca. Pode demorar um pouco mais, mas, será um texto de referência.

sexta-feira, janeiro 04, 2013


Serão os Orixá (Òrìṣà) elementos da natureza ?

Parte 3 de 4



OS CATÓLICOS E O PAGANISMO
 

Uma das coisas que complicou bastante o entendimento das pessoas a cerca das religiões foi a hegemonia do modelo cristão no ocidente, com a extinção de outras religiões, não pela supremacia de um modelo teológico mais confortável para as pessoas e sim pela perseguição da espada.
 

Para tornar as coisas mais complicadas, como parte deste processo e emburrecimento, a igreja católica criou uma denominação genérica e sem nenhum significado real, de PAGÃO, para qualquer outra religião que não fosse Abraâmica, ou seja, que tivesse origem em 

Abraão o patriarca que gerou as correntes do Judaísmo, cristianismo e islamismo. Estas 3 religiões competem pela posse do mesmo deus e tem a mesma origem. Os Judeus não reconhecem mais ninguém, afinal eles é que são os escolhidos. Os cristãos, que nasceram judeus, reconhecem uma das partes do judaísmo que é o antigo testamento e por fim, os muçulmanos, os mais recentes, século VII, reconhecem tudo das anteriores, inclusive Jesus, mas não a trindade católica.
 

Dessa maneira ao longos dos últimos séculos, eles tem se matado e a outros inocentes, sempre em nome do mesmo deus sanguinolento, Jeová.
 

Para os Cristão, que dominaram o mundo à força da espada, aliás como também o fizeram os judeus no seu tempo, o que não era católico era Pagão. Eles só não tiveram coragem de chamar os Judeus de Pagãos, mas criaram o termo herético, para aqueles que divergissem da interpretação teológica oficial de Roma... Assim, pagão, não tem significado religioso, significa tudo o que não e católico.
 

Os abraâmicos consideram o seu deus, Jeová, o único, e defenestram qualquer outro tipo de manifestação religiosa. A partir do século XV a igreja católica baniu toda as praticas que mostrassem similaridades com simpatias, encantamentos e feitiços. A igreja medieval era totalmente esotérica, mas para se afastar disso eles baniram completamente essas práticas, de modo a poderem a partir do século XV dominar os seus fiéis através do temor ao mal, ao diabo e a perseguição ao pecado.
 

Estudiosos do aspecto do Mal na religião correlacionam o surgimento da força do diabo com a necessidade de um controle mais rigoroso da sociedade pela forma política, uma vez que, esse temor (ao diabo) e domínio (o pecado), não existiam anteriormente. Igualmente isso coincidiu com os papas generais, guerreiros que literalmente com a espada na mão construíram a Igreja que conhecemos hoje.
 

O próprio celibato, que não havia, dizem, foi devido a igreja passar a ter posses. Eles não queriam se envolver em disputas judiciais com esposas de padres, bispos e papas. Enfim, a força da reforma, de Lutero e Calvino, obrigou a igreja a mudar sua posição e adotar políticas mais ativas e restritivas ao seu clero.
 

No centro de todo este conflito ficaram outras religiões, politeístas ou não, que tinham uma interpretação diferente da divindade e dos seus poderes e de outras que não eram politeístas, mas, não eram abraâmicas. Essas religiões, todas em um mesmo saco, passaram a ser então a tradução da palavra paganismo.
 

A igreja, usando o princípio, que já expliquei, da estupidez humana, simplificou bastante a forma de entender as religiões. O que não era monoteísta era politeísta, e mais, somente estes 2 modelos se aplicam a uma religião. Além disso, como as religiões não são iguais e apresentam variações sutis no seu divino, basicamente as únicas religiões monoteístas existentes são as abraâmicas, as três que tem origem no mesmo deus. Neste critério de 
classificação todas as demais são politeístas, pagans e por isso mesmo atrasadas.
 

No ponto de vista católico, Pagão é sinônimo de ruim, atrasado, politeísta e monoteísta é sinônimo de bom, de puro, de elevado.
 

Essa simplificação teológica foi ótima. Se encaixou nos objetivos políticos do papado e na estupidez das pessoas.
 

O REFLEXO DISSO NO BRASIL E NO CANDOMBLÉ
 

Em função deste contexto a religião africana, no geral, e no nosso caso o Candomblé, ganhou o cunho de paganismo e seus Deuses, tipicamente ancestres na sua origem, viraram forças da natureza.
 

Entretanto, não existe nada que de valor a isso. No caso do Brasil, para piorar, o kardecismo francês criou toda uma visão espiritual própria que posteriormente a Umbanda se ligou a ela. Como a Umbanda erroneamente (tão errada como usa nomes de santos para seus guias ela usa nome de Orixás do Candomblé. Ambos sem nenhuma relação) se ligou a Orixás, essa mistura confundiu mais ainda as pessoas.
 

Assim, o Candomblé virou pagão e politeísta. A Umbanda que é uma religião brasileira e não tem vínculo nenhum com a religião Yorùbá, virou parte da tal matriz africana e misturou o kardecismo na sua bagunça teológica. Por fim o Candomblé passou a ser tratado pelas próprias Iyalorixás como uma seita enquanto elas passavam a pertencer a irmandades católicas, a religião verdadeira.
 

O mal entendimento do Candomblé passou por essa associação histórica de coisas malucas, e, também, por pessoas como Nina Rodrigues que nada sabiam de Candomblé e que passaram a escrever como se tivessem algum autoridade sobre o assunto. Tudo isso acabou colocando as religiões não cristãs, no Brasil, em um mesmo saco, furado, de ideologia espírita.
 

Em função da lastimável e miserável formação religiosa dentro do Candomblé, estes conceitos de força da natureza, espiritismo e seita, se estabeleceram dentro do próprio Candomblé. Os Babalorixá e Iyalorixás, apesar de terem a propriedade para falar, mas, sem qualquer capacitação passaram a repetir esses conceitos que lhes eram impingidos pela sociedade culta.
 

Os que não gostam de ver eu dizer que a formação religiosa do Candomblé é deficiente devem observar que o acesso a mitos ou poemas de Ifa é restrito ou inexistente. O hábito de discutir teologia no Candomblé não existe. Você não consegue juntar 3 babalòrìṣà (babalorixá) sem que seja para eles rasgarem seda entre eles ou brigarem entre si. Poucos estão dispostos a colocar em questão o que sabem ou o que pensam, exceto se for uma cátedra onde ele fala e outros ouvem.
 

Essas pessoas normalmente não são preparadas para, falar em público, discutir suas teses, dirigir pessoas, lidar com desafios verbais e até mesmo orientar o aprendizado de pessoas. São muitas vezes pessoas muito boas, agradáveis e com conhecimento das suas liturgias.
 

Existe uma dificuldade na formação de sucessores. Pior, as pessoas não se preparam e se capacitam para ter uma casa. Existe uma legião de pessoas com pouco ou nenhum acesso a conhecimento que mesmo assim, sem legitimidade ou capacidade abrem casas e passam a ser autointitular de sacerdotes e representantes da religião.
 

É claro que essas pessoas, sem terem aprendidos com os seus mais velhos, tem que se virar com algo ou com o que tem. É neste campo que essas concepções idiotas florescem. O que mais vemos é pai de santo, metido a besta, que responde perguntas usando os conceitos do kardecismo-espirita. Mas, afinal, eles vão dizer o que? Que não sabem?
 

É claro que a vertente conhecimento não é o forte do Candomblé. A vertente forte é a devocional, a fé. Para isso você não precisa saber o que é, você sente o que é e você também acredita porque sente e vê. A resposta mais comum para quando se pergunta uma coisa do tipo o que é o Candomblé ou o que é o òrìṣà (orixá) ou qualquer coisa de aspecto mais teológico será algo que começa com "eu amo meu òrìṣà (orixá)..." e por ai vai uma torrente de expressões de sentimento e fé. Isso reflete o que ela sabem, e elas sabem o que sentem.
 

Esse é o jeito pelo qual esse tipo de sincretismo é aceito e prolifera. Assim como os africanos fizeram no passado com os antropólogos, as pessoas sabem o que é, elas sentem o que é, e se esta definição, de elemento da natureza satisfaz o inquisidor, que o seja. Isso não impede entretanto que em espaços ou oportunidades como essa a gente possa visitar ou revisitar questões como essa, ou a reencarnação ou o conceito de nascimento e destino, as proibições, etc... evitando assim que da nossa própria boca saia coisas como o Karma.
 

É claro que saber ou não o que parece certo não faz uma pessoa fazer melhor um santo do que outro. àṣẹ (axé) e roncó é outra coisa, mas, não tem nada demais a gente poder tratar dos assuntos com outra base.

O objetivo deste capitulo não foi falar mal das pessoas que dirigem as casas. O objetivo foi explicar como pode essa idéia florescer dentro do próprio Candomblé, sendo alimentada de disseminada pelas próprias pessoas.
 

A questão do POLITEÍSMO e do MONOTEÍSMO
 

Em termos de definição para uma religião ser politeísta, segundo Paul Tillich (systematic Thelogy, Vol. I):
 

Politeísmo é um conceito qualitativo e não quantitativo. Não é uma crença em uma pluralidade de divindades e sim a falta de uma instância unificadora e transcendente é que determina a sua característica.
 

Não importa a quantidade de divindades e sim a qualidade delas e de sua relação. Em uma religião politeísta não existe uma divindade superior as demais, todas tem o mesmo poder e não existe assim uma força reguladora do conjunto.
 

O Candomblé, como muitas outras, não é politeísta porque existe uma relação bem clara de hierarquia entre Olódùmarè e as demais divindades. Assim, possuir divindades, originais ou divinizadas não transforma uma religião em politeísta, senão, o catolicismo com seus santos e sua trindade também o seriam, mas ninguém ousa fazer isso.
 

Em função de preconceito, conforme eu já me expliquei anteriormente, as religiões abraâmicas tem esse interesse histórico em diminuir e marginalizar as demais religiões. 

Como eu já expliquei e estou apenas lembrando, todas as religiões que não são cristãs, são denominadas pagãs. Assim, eles, de forma ignorante, simplificam essa discussão a um modelo muito singelo. Tudo ou é monoteísta ou é politeísta, baseado no modelo de referência deles. Se é igual ao modelo deles, é monoteísta. Se é diferente então é politeísta. É o binário burro.
 

O maior problema ao tratar do assunto religião na sociedade é que o preconceito domina essa a conversa toda a ponto de as pessoas que não gostam da abordagem cristã, elas mesmas, sem saber o que dizem, afirmam que não fazem parte de uma religião monoteísta.
 

Claro, porque o modelo de escolha que é imposto deixa pouca margem para discutir. As religiões cristãs querem apenas dar prosseguimento ao preconceito histórico contra as outras correntes religiosas e chamam todas as demais de politeístas.
 

Isso não é correto. Mas também não é uma ofensa como essas pessoas querem afirmar. Sim, na visão delas, uma religião "boa" é a monoteísta. O politeísta não é colocado como um atributo e sim um defeito.
 

Mas existe um outro aspecto também tão ruim quanto esse. A maior parte das pessoas, ignorantes no assunto, prefere aceitar sua religião ser chamada de seita e dizer que é politeísta. Duas coisas menores na visão dos cristãos.
 

Para os cristãos, seita é uma coisa menor um pedaço da religião verdadeira, e isto está correto uma vez que o termo nasceu do judaísmo onde as seitas são tradições que divergem da interpretação tradicional das suas escrituras.
 

Politeísmo remete ao velho testamento, quando os próprios judeus adoravam deuses zoomórficos, na forma de animais como o carneiro. Isso, para eles, era um episódio negro e assim politeísmo é um pejorativo.
 

As pessoas do Candomblé devem entender que ao aceitarem serem chamados de seita ou de politeísta pelos cristãos não estão apenas sendo classificados erradamente. Estão sendo ofendidos e diminuídos.
 

O Candomblé e a religião africana não são politeístas. São Henoteístas, mas, isso não importa. O que estou dizendo aqui é que entender religiões é coisa complexa, mas, o que é feito hoje em dia com essa dualismo monoteísmo-politeísmo que foi imposto pelos cristãos é apenas preconceito. Não existe respeito ou inteligência nesta discussão. As pessoas não sabem o que estão falando e isso também não interessa.
 

As religiões abraâmicas são as únicas monoteístas e nem por isso são melhores do que outras religiões. Existem muitas formas de classificar uma religião, politeísta é apenas uma delas e se aplica a um grupo muito restrito.
 

As pessoas foram induzidas a achar que uma religião é monoteísta (boa) ou politeísta (ruim, atrasada). Isso serve a objetivos políticos e a sua estupidez. Assim toda a vez que alguém pergunta se a religião africana, ou qualquer outra, é monoteísta ou politeísta, isso significa que:
 

  • essa pessoa é idiota

  • ela já sabe a resposta

  • o objetivo é de praticar o puro preconceito

Eu recomendo responder a essa pergunta dizendo que é monoteísta, que tem um deus maior chamado Olodumare que tem divindades auxiliares que podem ser equivalentes a anjos, arcanjos, e santos. Assim se ter anjo é politeísmo então a deles também é.
 

Claro que isso é uma grande imprecisão, mas, a pergunta não é honesta e esta resposta vai deixar o interlocutor perdido sem saber o que falar à seguir. Vamos combater fogo com fogo.
 

Pessoas que pertencem a uma outra religião devem primeiro se informar para poderem primeiro entenderem a si mesmo e também poderem discutir com elementos de outras religiões, ao invés de aceitarem tacitamente rótulos inadequados, seja pelo aspecto que é um uso inadequado de conhecimento seja porque a finalidade é de fato ofender. Assim temos uma dupla ignorância.