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segunda-feira, janeiro 14, 2013

A banalização do orixa através do jogo


 Sempre foi muito comum os relatos de pessoas que vão fazer uma consulta a um jogo de búzios  e uma das primeiras coisas que recebem é a designação de qual é o orixá daquela pessoa.

Esse evento é tão comum como também as chacotas que se faz em relação a isso. Uma vez em uma comunidade do Orkut, tinha um topico com as pessoas relatando jocosamente isso, dizendo quantos orixás já tinham dado para elas em jogos diferentes.

Gente, a abordagem é essa mesma, jocosa. Tão tolo como dar o orixá de alguém por um jogo comum é aceitar isso como verdade.

Não, Orixás não aparecem em jogos comuns.

Não posso aqui dizer nada para as pessoas da primeira parte da frase, as que dão o orixá pelo jogo. Mas posso explicar algumas coisas para a da segunda parte.

Orixá é uma coisa muito íntima e própria da pessoa. Não é uma coisa como signo que todo mundo sabe o seu a partir de sua data de nascimento. Em um jogo de búzios qualquer orixá pode responder para ajudar a pessoa que esta se consultando, mas, isso não significa que seja o Orixá da pessoa. Esse é o Be-a-Ba do jogo. Os Orixás estão, todos,  por nós. 

Descobrir o Orixá de uma pessoa é um processo longo. Muitas vezes a pessoa fica em uma casa muito tempo sendo observada e somente quando vai fazer uma feitura ou um obrigação mais séria pode se determinar isso.   

Eu lembro a todos que a designação de Orixá para pessoas assim como o próprio Orixá são coisas que pertencem APENAS ao Candomblé. Isso não faz parte da Umbanda e umbandista que dá orixá para os outros é mais um maluco. Sim, as pessoas devem entender que a Umbanda é um religião brasileira e não faz parte da matriz africana. Existe muitas correntes de Umbanda, muitas mesmos, tantas que nem dá para definir. Existe uma específica que é mais africanizada, que usa atabaques e nomes de orixá. Mas isso é apenas um sincretismo pobre. Não existe vinculo, é apenas cosmético. A Umbanda é uma religião brasileira. Existe uma postagem no blog sobre isso, em breve vou re-editar.

Abian é a designação usada no Candomblé para os simpatizantes, pessoas que participam sem terem sido iniciados. Lembro que, como a religião católica, o Candomblé é iniciático. Considera-se que Abian não tem orixá. O orixá de uma Abian é Ori, uma divindade pessoal. Esse é o protocolo correto que deve ser adotado em casas sérias.

Um abian deve ter um fio de conta branco, somente. Poderá continuar como abian por muitos anos e nesse tempo até poderá se intuir em qual deve ser o Orixá daquela pessoa, mas, a determinação do orixá mesmo somente na sua iniciação, quando ocorrera uma preparação e rituais que permitirão isso ser feito.

Normalmente é até expontâneo, o Orixá vai se manifestar.

Seguindo a mesma base, é importante que se entenda que cada pessoa tem apenas 1 orixá. A gente vem ao mundo ligado a 1 orixá e a nosso guardião, o nosso Ori, que é uma divindade pessoal, cada um tem a sua (como se fosse um "anjo da guarda").

Esse conceito de Orixá Pai e Mãe (espirituais), é uma completa bobagem no que diz respeito ao Candomblé, que é a única e original religião de Orixá. Esta invencionice só existe na Umbanda, que como já disse não sabe nada de Orixá.

Na verdeira religião de Orixá, a pessoa é de fato ligado intimamente a somente a um Orixá, mas, também tem um segundo, contudo esse segundo, mais próximo, pode ser de qualquer gênero, inclusive do mesmo gênero do primeiro...

A composição de Ori e Orixá, ambos pessoais, é uma parte muito íntima de cada um e não é para ser de domínio público. Um Abian em uma casa tradicional, vai se reportar a seu Ori, Olodumare  e os demais Orixás, principalmente o da casa, mas, não é uma pessoa para ter seu Orixá designado.   

A designação bem como o culto ao seu Orixá é o que se obtêm com a iniciação. Se a pessoa quer se aprofundar na religião e no culto do seu próprio Orixá deve então se iniciar. É completamente inadequado ter abian cultuando o seu orixá ou mesmo se preocupando com a qualidade do seu orixá. Este é um processo muito sério e litúrgico e ninguém deve iniciar um processo desse já tendo como meta que Orixá é o seu. 

É bastante comum o caso de pessoas que entram para fazer um Orixá e saem com outro. Isso é fruto de uma pre-determinação que não deve existir.  Ou mesmo o caso de pessoas que saem feitas de um Orixá de depois, em um lugar sério vão ter que fazer de novo, o orixá correto.

O que eu quero que vocês entendam é que existe o procedimento correto que é este que eu estou descrevendo e existe o que é feito por ai.  O correto é que Orixá pertencem apenas ao Candomblé, não se determina Orixá em Umbanda porque Umbanda não tem Orixá. O correto é que o não iniciado em uma casa de Candomblé é um Abian, e Abian não tem orixá designado, se ele quiser ter Orixá designado tem que se iniciar.

Não existe nenhum problema na pessoa ser abian. Ela não será menor ou não estará ligada ao seu Orixá. A gente nasce com um Orixá e não precisamos de nada e de ninguém para nos ligar a ele.

Por esta razão, sabendo desta complexidade todo, é que eu digo que é idiota essa coisa de a pessoa sentar na frente de uma mesa de jogo de búzios e receber um Orixá. Isso só tem credibilidade se a pessoa não conhece a religião. Mas se conhece minimamente entende que isso é ridículo.

Existe um processo das pessoas adivinharem o Orixás das pessoas. Isso é feito por aparência e personlidade (arquétipo). É a mesma coisa de você adivinhar o signo de alguém. Não existem tantos Orixás para dar para as pessoas de modo que o índice de erro é grande mas de vez em quando você pode acertar.

Mas, isso não pode ser levado a sério e muito menos uma pessoa que joga búzios pode fazer isso. É irresponsabilidade, porque aquela pessoa, deveria ser um sacerdote e deveria saber que não deve fazer aquilo.

Essa designação, na minha opinião só serve para criar vínculos comercias, para criar simpatias e dependências.

Mas, existem coisas piores.

A primeira é a pessoa sair do jogo inclusive com a qualidade do Orixá. Orixás tem variações. Um mesmo Orixá por ter "personalidades" um pouco diferente, como se fosse um tempero. Isso faz parte da individualização. Determinar a qualidade de um Orixá é muito mais profundo do que determinar o Orixá e isso ser feito em uma consulta de búzios, muito pior ainda.

A segunda é a pessoa ir para um Babalawo, em uma consulta de Ifá e essa pessoa também dizer o Orixá dessa pessoa. Olha, se isso acontecer, levanta e vai embora.  Vai ser melhor para você, vai se aborrecer menos.

O objetivo de uma pessoa que em uma consulta comercial de búzios ou de Ifá afirmar para uma pessoa que ela é de um determinado Orixás, é apenas um continuidade da atuação comercial de vender consultas de oráculo. Esta sendo buscanda uma forma de criar uma ligação, um interesse adicional, coisas para fazer e quem sabe despertar medos.

Essa banalização de Orixá não contribui em nada com as pessoas. Não resolve os problemas dela e não melhora sua vida. Pelo contrário, pode trazer problemas e fazer ela perder dinheiro para os espertos que lidam com isso. Assim você vai ficar mais infeliz e mais pobre.

Não seja vaidoso. Seja humilde. É a vaidade que faz as pessoas tomarem as decisões erradas e serem enganadas. Determinar Orixá não te ajuda em nada. Quando você tem um problema, qualquer que se levantar para te ajudar é bem vindo. O seu Ori e seu Orixá sempre estão com você e sempre vão te ajudar. Se mais alguém se oferece, ótimo!

Outra coisa, Orixá não é signo astrológico. Não se determina pela data de nascimento e nem pelo nome.

6 comentários:

  1. Òrúmìlá Moyin Iboru, Orunmilá moyin Iboia, Orunmilá moyin Iboshishe.
    Abure, concordo com os seus comentários. Comecei a ler o seu blog e, de forma geral, fiquei muito surpreso e grato. Nesse post, só discordo num ponto. Ao falar da Umbanda, o sr. afirma q a mesma não tem uma matriz africana, entendo o pq da sua afirmação, no entanto discordo.
    Não tenho, nem nunca tive nenhuma ligação com a Umbanda, entretanto, antropologicamente falando ela tem uma origem africana sim.Sem dúvida ela é uma religião brasileira, assim como o candomblé, no entanto, ela é, originalmente, a soma de tradições religiosas distintas ( afro-ibero-ameríndias) . Uma religião antropofágica, não é a coincidência que ela tenha surgido no inicio do século XX, e se consolidado nos anos 20. Onde o pensamento antropofágico era a corrente predominante na cultura nacional.

    Ifasinmi.

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  2. Claudio,

    sou muito cuidadoso no que digo. Eu confirmo esta minha afirmação.

    Falar de Umbanda é muito complicado e tive que estudar a história dela para poder entender muitas coisas. Não é uma religião, é um aglomerado de cultos.

    Veja no Blog o texto:

    http://blog.orunmila-ifa.com.br/2010/07/blog-post_223.html

    Em Julho de 2010 eu publiquei uns textos longos sobre Umbanda, e que me tomaram muito tempo. A Umbanda é um religião brasileira, a corrente africana é apenas uma delas, existem muitas outras.

    Recomendo ler o meus textos. També os livros:

    - A morte branco de feiticeiro Negro
    - Historia da Umbanda de Alexandre Cumino

    existem alguns textos interessantes que pode fazer download:

    - das macumbas a umbanda de Jose henrique motta de Oliveira
    - discurso sobre as religiões afro-brasileiras - revista rever da PUC SP
    - as religições do Rio de João do Rio

    deve ter esquecidos de outros bons textos. Você tem que entender o contexto geral para poder entender o que eu afirmo.

    Além disso existe a prática da Umbanda. Quem participa e entende o que ocorre sabe o que eu digo

    A corrente Banto que pré-existia a fundação da Umbanda em 1908 era distinta e conviveu com a Umbanda até ser completamente superada e absorvida. A Umbanda não e uma consequencia dessa pratica.

    Mas, veja, não existe demérito nisso. Apenas não podemos colocar a Umbanda em um lugar que não pertence, mas, isso não a torna menor. A Umbanda é muito grande e muito forte, pode até engolir o Candomblé como já fez com tudo o que misturou com ela.

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  3. Mas, claudio, eu entendo perfeitamente a sua colocação. Sabe, além de fato e história, tem muita ideologia, preconceito e sincretismo envolvido nisso. Muita gente no início tentou apagar esses trações africanos, o primeiro congresso foi um reflexo disso.

    Mas, depois de pesquisar, fico com a consideração de que é brasileira e não afro-brasileira.

    Também tem ideologoa envolvida na minha posição, claro, não aceito essa mistura que esta ocorrendo, e quando a gente conhece a umbanda e as pessoas, reconhece que elas não tem ideia do que seja a religião yoruba.

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  4. A morte branca do feiticeiro negro é O livro que todo o Umbandista deveria ler. Na verdade, acho que concordamos, só é uma questão de semântica. Hoje li outros posts, fiquei muito feliz com as suas afirmações e colocações.
    Ah, vc conhece a Stefania Capone? Ela tem um livro, publicado pela Palas, chamado a "A busca da África no Candomblé", acho que vc vai gostar.

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  5. "e quando a gente conhece a umbanda e as pessoas, reconhece que elas não tem ideia do que seja a religião yoruba."
    Isso é um fato e é lamentável, ignorar a religião nem vem a ser um problema, inclusive por que também ignoram as outras que fazem parte da construção da umbanda,mas afirmar conceitos e tradições alheias sem responsabilidade e com um fundo de preconceito imenso, e se valer dela para garantir algumas coisas que nem vem ao caso agora, é o que me chateia muito.

    Novamente me surpreendo ao ler seu texto, que para variar, vai de encontro com o que penso, suspeito,vamos dizer assim, o que minha "intuição" me aponta, fazendo um paralelo bobo com outras religiões, por exemplo, ninguém vai ao padre para saber o santo que vai fazer o milagre, ou toma um passe e saber qual é seu abcessor ou o mentor espiritual que está lhe ajudando, sei que faço comparações bestas mas é mais ou menos por aí que permeia a busca também por uma casa de candomblé e consequentemente um jogo de búzios, as pessoas normalmente estão entristecidas, atormentadas, por vezes, em busca de algo que a ampare, a norteie, portanto, sair de um jogo com a única certeza de que o que vai lhe resgatar é fazer a aliança com o seu orixá não faz o menor sentido, mas é mais ou menos isso o que acontece, infelizmente.

    Entendo quando coloca a questão da vaidade, vixi...principalmente para os ditos oriundos da umbanda, abraçam a causa, mas discordo.Reafirmando os motivos normalmente pela qual uma pessoa procura o candomblé e qualquer outra religião, e se normalmente, na via de regra lhe é apresentado como solução "fazer o santo", não sobra muita opção e muito menos bom senso e discernimento, uma pessoa que está vulnerável e é ignorante na religião iorubá nunca o fará, apontar como vaidade e falta de humildade talvez não justifique, acredito eu, pelo o que viví e pelo o que vejo.As religiões e os religiosos, talvez por viverem esse universo de forma tão intensa, se esquecem de que quem está alheio a ele pode não compreender como ele,enxergar pelas mesmas vias, e acaba achando tudo muito elementar,quando não o é, para quem está envolto de problemas e tormentos nada é tão simples e claro assim, a vulnerabilidade causa reações e atitudes que a própria razão desconhece.

    Saudações!

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