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terça-feira, janeiro 22, 2013

Como determinar a orientação do Odù  no eerindinlogun 





Este é um daqueles temas que neófitos podem ter dificuldade para entender. Vou tratar aqui de uma característica usada na interpretação do oráculo do Jogo de búzios, usando uma abordagem crítica a um processo erroneo que é feito no Candonblé.

Nem sempre dá para escrever para todos. Alguns temas vão acabar se dirigindo para pessoas que já pertençam à religião. Mas, se você já pertence e não entender esse texto aqui e outros que presumirem isso, fique preocupado, porque você obrigatoriamente já deveria saber do que eu estou falando. Acho que você esta indo na sua casa de Candomblé só para comer a merenda.


Quem já teve contato com o Candomblé através de um jogo de búzios pode entender o que vou explicar. Pessoas que já sejam do Candomblé, sejam Abians (semi neófitos) ou iniciados certamente conhecem este assunto e vão entender a explicação que vou dar.

Este tema é assunto colateral que dá continuidade de outras postagens já feitas sobre o uso de oráculos na religião. Mais diretamente é a continuidade da postagem sobre designação de Odus negativos que é feita no Candomblé

A postagem a que me refiro esta em

http://blog.orunmila-ifa.com.br/2012/11/odus-negat-ivos-no-candomble-fazendo.html

Para melhor entender este assunto eu recomendo algumas postagens importantes do Blog:

Para entender o que é Odù

http://blog.orunmila-ifa.com.br/2011/07/odu-energia-de-olodumare-o-que-e-odu.html

Para entender mais do oráculo:
 
http://blog.orunmila-ifa.com.br/2012/05/o-jogo-de-buzios-e-ifa-parte-1.html

http://blog.orunmila-ifa.com.br/2011/12/o-oraculo-e-fe-os-oraculos-permitem-nos.html

 
Ha algumas postagens atrás eu fiz um crítica a pessoas que se anunciam como jogando Búzios através de Odu mas que desconhecem regras básicas para essa manipulação, inclusive a mais elementar que é a determinação se o Odu é positivo ou negativo.

Quem não leu ainda eu recomendo, tem informações interessantes para quem se interessa por oráculos. Eu não faço nenhum exagero, o que eu relato é o que existe por ai.

Como eu já disse, quando falei sobre jogo de búzios, a questão da junção de Odu com búzios no Candomblé é majoritariamente apenas um esforço de marketing. Um olhador que ofereça seus serviços "na praça", não pode hoje dizer que não joga por Odu. Isso virou uma etiqueta obrigatória na oferta dos serviços de vidência, sem adicionar qualquer conteúdo novo ao que esta pessoa já fazia. Dizer que joga por Odù não melhorou e nem piorou o jogo dela.


Mas, isso causa um efeito ruim, como já disse no Blog. Primeiro é que se desvaloriza a tradição do jogo de búzios no Candomblé, que sempre foi feito (e bem feito) sem essa falsa etiqueta. O segundo é que se tira a identidade do uso de Odu no Oráculo. As pessoas apenas anunciam que usam uma coisa torta sem ter domínio nem propriedade para isso, criaram uma "coisa" que foi esse jogo de búzios por Odu do Candomblé.

Quanto mais eu ouço pessoas no rádio, leio o que se escreve e vejo o que se joga eu tenho mais certeza das coisas que afirmo aqui.

Mas este assunto já foi tratado, aqui no Blog, longamente:

Voltando ao tema desta postagem, temos que resgatar alguns conceitos básicos de Odu. O primeiro é que um odu pode ser apresentar em 2 formas: Ire e Ibi ou Ire e osogbo ou Ire e Àyẹ̀wò. Cada tradição chama de uma forma. Eu vou usar aqui a forma Ire e Ibi.

Um Odù é um contêiner de energia com muitas mensagens, algumas similares outras nem tanto.

Em uma consulta, através de Odù, primeiro se tira o Odù principal. Este Odü é o que determina toda a interpretação da consulta. Os elementos adicionais, que se seguem a esta determinação, apenas vão detalhar e especificar o assunto para aquela pessoa em particular.

Após o olhador determinar qual é o Odù principal ele deve determinar a sua orientação. Não se trata aqui de saber se é positivo ou negativo e sim de saber a sua orientação. Esta é a primeira bobagem que se fala quando não se entende com o que esta lidando, com Odù, é claro.

Como eu disse o Odù tem eu seu corpo literário muitas mensagens e significados. Eles não acontecem todos ao mesmo tempo. Temos que determinar qual mensagem se aplica aquela situação.

Para auxiliar a interpretação do Odù principal, para o caso em questão, é necessário o suporte de outras informações. A primeira delas é entender a orientação do Odù. A segunda será a agregação de significados desse Odù, que determinou esta orientação, na interpretação do Odù principal.

Em ifá, a determinação da orientação, é parte obrigatória do processo de consulta, na realidade não tem consulta sem isso, mas, no uso dos búzios esse processo se perdeu ou, mesmo, nem foi aprendido por muitos que hoje usam os búzios.

Muita gente deduz pelo próprio Odù se ele é positivo ou negativo, criando desta forma uma convenção, própria, de Odù sempre positivo e outros sempre negativos. Outras pessoas podem usar características da caída para determinar isso e outras, ainda, a sua própria intuição. Tudo isso esta errado.

Grosseiramente falando, ou melhor, traduzindo o que se faz a orientação positiva do Odù é chamada de Ire e a negativa de Ibi (ou os outros nomes), mas devemos usar sempre a expressão orientação e não positivo e negativo. Muitos Bàbáláwo não aceitam que Ifá possa prever o mal para a pessoa e, assim, eles usam uma expressão alternativa para o estado de Ibi, que se chama Àyẹ̀wò, um questionamento. Os cubanos não falam Ibi, eles usam  Osogbo, que significa que não é Ire.

Para se determinar a orientação do Odù deve-se usar o processo do ìbò que vem a ser um dos pilares do oráculo de Ifá. O uso do ìbò é uma forma de envolver diretamente o orí do consulente na consulta do oráculo, criando, assim, uma interatividade. Não devemos aceitar um processo de Ifá sem a interação com o consulente e sem o uso do ìbò para isso.

Infelizmente a prática de usar o ìbò junto com o consulente, foi extinta com os búzios e esta deixando de ser feita até mesma em Ifá. Pura preguiça.

O processo de ìbò é um tipo de consulta que busca uma resposta binária, sim ou não. Em Ifá tradicional através do ọ̀pẹ̀lẹ̀ ou dos ikin pode-se ainda usá-lo para a escolha de uma entre várias alternativas simultâneas, mas em owó-ẹyọ mẹ́rindílógún ele é usado apenas para uma decisão entre 2 alternativas.

Antes de entender o processo de consulta deve-se entender o que significa de fato os estados do Odù:

IRE


Quando um Odù vem em ire, ele traz com ele bênçãos que estão associadas com as características mais positivas. Esta energia vem para oferecer benção, fortuna, novas oportunidades, um fluxo de entrada de energia e de evolução.

Em um escopo mais amplo, a pessoa para a qual o Odù vem em ire entende que a energia será presenteada pelo Odù em duas maneiras. Uma forma sutil ou explícita no seu ego. Este entendimento cria um equilíbrio. A natureza de ire reflete um estado de harmonia ou equilíbrio com a energia do Odù até mesmo se a pessoa de modo consciente não reconhece que isto esta o estará ocorrendo.

O objetivo do Oráculo é restaurar e manter o balanço na vida de cada indivíduo, reequilibrando suas energias. Um Odù que vem em ire confirma que a pessoa esta favorecida com este estado de equilíbrio.

IBI


Africanos não gostam de algumas palavras. Assim usam para significar Ibi, a palavra Àyẹ̀wò. Os Cubanos usam a palavra Osogbo que significa que não é Ire.

Um Odù que surge em estado de Ibi frequentemente traz com ele os aspectos mais negativos de sua natureza. O termo negativo implica pelo menos parcialmente uma conotação imprecisa que requer melhor clarificação. As energias operando em estado de Ibi tendem a serem mais desafiadoras para o pessoa e traz com ela obstáculos, problemas ou lições que poderão ser difíceis para aprender ou entender. Ibi pode indicar uma falta de balanço, equilíbrio ou resistência no aspecto metafísico de relacionamento entre a pessoa e a espiritualidade.

A pessoa pode ser dita estando em um estado de falta de entendimento dos desafios e e lições apresentados por este Odù de forma que se caracteriza um desequilíbrio destas energias que afetam a sua vida. Um iniciante pode temer o surgimento do estado de Ibi, mas com o tempo ele irá entender que este receio não tem mérito.

Ibi é com o um amigo sábio que é candidamente honesto. Ele se apresenta para oferecer pílulas amargas que são duras de engolir, mas este remédio trará à pessoa uma oportunidade para ganhar e aumentar o entendimento de si mesma e sua compreensão do seu papel no mundo de uma forma ampla. Ibi não é uma alguma coisa para ser temido, mas ao invés disso estudado e entendido. Debaixo desta corrente de energia desconexa se deposita uma oportunidade de recuperar o equilíbrio uma vez que o desafio que é apresentado é aceito e entendido.

Quando examinado sob um ponto de vista mais amplo, Ibi proporciona o equilíbrio necessário para se atingir o estado de ire, sem esta dose de amargura a pessoa não poderia ser capaz de apreciar a doçura de sua vida




Assim, após determinarmos o Odù principal o passo seguinte é saber a sua orientação. Isso é feito não por advinhação e nem por regra tipo a que estebelece que um odù será sempre positivo ou negativo. Isso não é feito pela conveniência do olhador. O oráculo é um processo transparante.

O Ìbò será usado e 2 caídas de búzios definem qual o Ìbò selecionado e qual o estado do Odù. Dessa forma se entende como aquele Odù esta se manifestando na vida da pessoa. alem disso o Odù que escolheu o Ìbò vai se incorporar a interpretação, sendo usado para explicar ou detalhar o principal.

Dois Ìbò são dados para o consulente segurar nas suas mãos, sem que o olhador saiba em que mão estão. Um deles significa SIM e o outro NÃO.

É feita a pergunta ao Oráculo:  O Odù é Ire?
 
As 2 caídas são feitas e escolhem uma das mãos fechadas. Quando a mão se abre o tipo de ìbò determina se a resposta é sim ou não. Se for SIM o odù esta em Ire. Se for não esta em Ibi.

O olhador não consegue desta forma controlar a resposta. O Oraculo decide sozinho e o consulente participa desta resposta.

Outros processo se seguem para melhorar o entendimento: 1) se aquele odu ja esta se manifestando na vida da pessoa ou não; 2) se é necessário um ebó ou oferenda; 3) qual o tipo do Ire ou Ibi; 4) qual a sua origem.

Juntando todas essas informações o olhador pode enfim interpretar o Odù para o consulente.

Observem que todas as perguntas ao oráculo devem ser respondidas com o ìbò. Os jogos no quais o olhador faz a pergunta e ele mesmo responde sozinho não são jogos que seguem Odù e a metodologia de Ifá. Estes casos são válidos para o jogo de búzios, mas não para o jogo de búzios com Odù.

Oráculo não é adivinhação, é um processo transparente de comunicação com o divino e que qualquer pessoa que entenda pode acompanhar uma consulta.


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