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terça-feira, novembro 26, 2019

O leque de Oxum Parte 3

O leque de Oxum

Parte 3


Conto de Vasconcelos Maia - Janeiro de 1961

(continuação da Parte 2)
Voltei repousado ao barracão. Na saleta reser­vada a Mariana, a “ialorixá” tinha pôsto a mesa. Cuscuz de tapioca, pamonha de puba, beijus, banana cozida. Agradeci-lhe seus favores, a viagem, a ilha, a festa, aquele gordo café.

— Bondade sua! — ela respondeu, esquivando- se aos elogios, com modéstia sincera. Agora você precisa dormir. Deve estar cansado. Já providenciei sua dormida.

Olhei em redor à cata duma esteira, rêde ou cama. Mariana surpreendeu meu olhar, tranqüi­lizou-me:

• Você vai dormir na beira da praia. Na casa de Undset.

• Undset? — e lembrei-me do “ojé” louro.

• Êle tem um coqueiral lá embaixo.

• Quem é êste homem?

• Um estrangeiro. Um sueco. Mora na ilha há muitos anos.

• Que coisa estranha!. . .

Ela sorriu:

• Que é estranho? Êle nada tem de estranho. É um homem como outro qualquer, como qualquer dêsses negros ou mulatos.

• Não, não é isso que quero dizer.. . — balbu­ciei temendo tê-la ofendido.

• Sei o que você quer dizer: achou estranho um homem louro, um branco legítimo, um europeu fazer parte de nossa religião, religião de africano, de negro.

Fiquei ainda mais constrangido pela observa­ção. Era exata. Procurei desculpar minha besteira. Mariana, porém, não se ofendera:

• Não se preocupe, meu filho. Eu também em seu lugar acharia isto muito estranho. E coisas real­mente estranhas contribuíram para Undset ser um dos nossos.

A conversa tomava rumo apaixonante. Mas não pude alimentá-la. Undset chegava. Mariana apre­sentou-nos. À luz do dia, nas circunstâncias nor­mais, vestido como eu, falando português, já não me parecia tão excepcional nem tão exótico. Mas pude reparar que êle não demonstrava o mínimo cansaço.

Como se seus nervos fôssem de aço. Conversaram os dois sôbre fatos da noite passada. Comia com apeti­te. Levantou-se, chamou-me. Saímos do barracão e retornamos à praia. Duma colina enveredamos por um atalho. Esbarramos numa cêrca viva de hi­biscos. Undset afastou a folhagem, me deu pas­sagem. Penetramos em seu coqueiral.

Acordei ao meio-dia. Fôra um sono como há mais de dez anos não experimentara: profundo, pe­sado, reparador. Levantei-me, saí do quarto, dei na varanda. Numa rêde, Undset estendia-se. Tentou levantar-se. Não o permiti.

• Que prefere agora? — perguntou-me. — Almoço ou banho?

O mar estendia-se pouco abaixo do coqueiral, muito manso, muito azul. O sol a pino levantava incêndios na água clara.

• Um banho antes, seria ideal.

• De mar, fonte ou cascata?

Era muito luxo para um paulista acostumado só a chuveiro:

• Primeiro, de mar. Depois tiraremos a sorte.

Ele já estava de calção. Vesti o meu. Fomos

para a praia. A areia fôfa, morna e fina acolheu- nos. Ficamos voluptuosamente derreados, gozando na carne a calidez do sol. Caímos nágua. Undset nadava como um peixe. Depois de algumas braça­das, parei ofegante, fiquei a apreciá-lo; fazia cir­cunvoluções, mergulhava, deslizava na superfície, identificado com o mar.

• Esta vida é engraçada — falei quando êle se deixou também ficar boiando, submerso até o pes­coço: minha profissão é corretagem de imóveis. Compro terrenos baldios, trabalho-os, lotei-os, en­cho-os de casas, edifícios, gente. Nunca, porém, co­meteria o crime de meter um trator nesta ilha, de transformar êste paraíso num inferno humano.

Undset sorriu alegremente:

• Também penso assim. Quando aqui che­guei meu entusiasmo foi igual ao seu.

• A diferença — objetei — é que você o desco­briu antes de mim. Confesso-lhe que, pela primeira vez, sinto inveja de outro homem. Gostaria de mo­rar aqui, de viver esta vida. Em vez disso continuo a vegetar num apartamento rodeado de apartamen­tos por todos os lados.

• É preciso coragem para abdicar do conforto, do progresso. Sempre fui contra o progresso que nos afaste da natureza. Para mim, de certo modo, foi fácil a escolha. Aqui mesmo quero morrer, e, embo­ra nunca pense nisso com tristeza, já escolhi onde vou ser sepultado.

Subitamente mudou de conversa:

• Estou com uma fome danada. Vamos comer?

* * *

Construção simples, paredes de tijolos sôbre al­venaria de pedra bruta. Telhado em duas águas, beirais salientes, sombreando a varanda larga que

rodeava a casa. Uma sala, três quartos, biblioteca, banheiro, copa, cozinha, tudo bem grande, bem amplo, cheio de luz, varrido de vento. Janelas aber­tas, rêdes estendidas, cortinas de cordas, de fieiras de contas, mobília essencial, peças de vinhático e ja­carandá, sem rigor de estilo. Arcas e santuários, imagens católicas de sabor primitivo, um Gauguin e outro Van Gogh autênticos. No resto das paredes, emblemas de candomblé.

Tomamos duas cachacinhas puras, saímos em busca da fonte de água doce. Andamos sob coquei­ros. Galinhas ciscavam livres, saqués gemiam aos bandos, uma esquadrilha de pombos ficou a esvoa­çar em tôrno da cabeça de Undset. Tínhamos anda­do uns duzentos metros quando estaquei, agradàvel­mente surpreendido. O quadro ante meus olhos era maravilhoso. Primeiro destacava-se, florido e viçoso, o pé de acácia. Estava carregado de flôres e opulen­tos cachos dourados chegavam ao chão. No chão, de areia alva, abria-se o poço. Era muito fundo mas transparente. Refletia todo o ouro das flôres que se debruçavam em seu espelho. Formava um círculo irregular e alimentava-se do âmago da terra e de uma fonte de água límpida que, gôta a gôta, escor­ria pela folhagem densa e selvagem de parasitas. Os pingos caíam mansamente sem perturbar sua sere­nidade. Roseiras de pontudos espinhos, de rosas ru­bras explodindo de beleza, rodeavam a fonte. Uma pedra negra, lisa, luzidia, emergia perto da margem. E sôbre a pedra, faiscando ao sol, um leque amarelo, de ouro maciço.

• É aqui o banho doce? — inquiri, antegozan­do aquela pureza, aquele frescor.

• Não — disse Undset. — Há dois anos nin­guém toma banho nesta fonte.

• Algum tabu?

Êle não respondeu diretamente à minha per­gunta:

• É a fonte de Oxum — disse simples, sêca- mente.

* * *

“Batidas” de cachaça com limão, catuaba, pi­tanga. Salada de lagosta viva, arroz-de-auçá, va­tapá, moqueca de siri-mole, frigideira de camarão fresco, ein louça de Limoges, com talheres brasona­dos. Água de côco verde no próprio côco, um velho vinho branco em cristal Fratelli Vita. E mangas de Itaparica, abius, sapotis, melancias. Cumbucas de araçá, doce de caju. Sôbre a toalha imaculada, o jarro popular onde brotavam flôres silvestres. A negrinha nova, bonita e risonha servia-nos com per­feição.

Depois, a varanda de brisa gostosa, o cafèzinho, a cachacinha final. O abraço da rêde, o fumo puro do “Suerdieck”, os olhos perdendo-se no azul pro­fundo do céu tão próximo. O sangue mornando, a memória perdendo-se, as pálpebras quebrando-se, músculos evanescendo-se. E a rêde elevando-se por artes de mágica, negrinhas esbeltas de sorriso bran­co, mãos de carícias levando-me à fonte. Embaixo da chuva de acácias, dançavam negras delgadas, miravam-se na água, engrinaldavam-se de rosas, cantavam cantigas maviosas e doces. E do fundo do poço, tão longínqua, diáfana, subia Oxum que o arco-íris coroava. E as negrinhas cantavam, davam- se as mãos; em redor de Oxum, tôdas giravam. Sentada na pedra, Oxum se abanava, do fundo da fonte música evolava. Dos céus, entretanto, roncou o trovão. Oxum e as negras pararam, escutaram. Nuvens fecharam-se, raios rolaram. As negrinhas viraram rosas, de Oxum restou seu leque.

Eu estirava a mão para tocá-lo quando acordei, amparado por Undset:

—     Você estava caindo da rêde. Cheguei a tempo de impedi-lo.

—- E também de impedir de roubar seu leque — observei.

Contei-lhe o sonho.

—     Alguém já lhe falou da história da fonte e do leque? — perguntou-me.

—     Não. Ninguém precisaria falar dêles para me impressionar. Sonharei com o que vi, a fonte, o poço e o leque, pelo resto da vida. Mas adoraria saber a causa real da presença do leque, um leque de ouro maciço naquela pedra sem que ninguém lente roubá-lo.

—     A história real? Até quando podemos saber que as coisas são “reais”? Quanto à sua origem, ao seu aparecimento, não só intriga a você como a mim, como a todos os nativos da ilha

segunda-feira, novembro 25, 2019

O leque de Oxum Parte 2

O leque de Oxum

Parte 2


Conto de Vasconcelos Maia - Janeiro de 1961
(...continuação da parte 1)
A caravana engrossada de várias famílias do povoado pôs-se a caminho. Em fila indiana, vaga­rosa e compassada, deixamos o arruamento, entra­mos na trilha feita a facão. Vegetação rica nos ceicava, rebentando de fôrça e beleza. Coqueiros que iam ao céu, penachos voando nos espaços, cajueiros esparramando-se no chão, estercando as raízes com os próprios frutos, entontecendo o ar com a resina, resina misturada ao cheiro da terra, terra que vira­va em mangueiras, mangabeiras, araçàzeiros, explo­dindo de viço, de frutos graúdos e coloridos. Samam­baias derramavam-se dos galhos, parasitas agarradas nos troncos, pintadas de flôres exóticas. Lagoas ne­gras, misteriosas, adornadas de baronesas lilases. Fontes límpidas e claras, brotando água como se fôsse leite. Cascatinhas cristalinas escorregavam pe­las rochas escuras, desfazendo-se entre as pedras-de- fogo, rutilando ao sol. E do tope das colinas, pano­ramas estendiam-se, deslumbramentos de côr e de luz, verdes e roxos da vegetação, brancos e amare­los das praias, azuis, verdes e lilases do mar, azul- rei cromado no céu sem nuvem. Cantos, côres e vida pulavam em redor: rubros sangues-de-boi, ca­nários de ouro, alvinegras lavadeiras de Deus, car­deais de barrete purpúreo, bem-te-vis, sanhaços, azu­lões, periquitos e beija-flôres.

— Isto é de fato o paraíso — comentei comigo mesmo.

De repente, numa volta do caminho, na desci­da do último morro, a opulência cessava. Área dura e sêca, terra parda, poeirenta, vegetação baixa, rala, de espinhos. Raros dendêzeiros lutando por viver, um ou outro coqueiro entregue à morte, xiquexique humilhado no chão. Urubus pairavam em vôos bai­xos, anuns pretos pousados nos galhos pobres, petri­ficados. Vapores subiam do solo, o ar parado, aba­fado. Comecei a suar, aquela mudança doendo-me como uma agressão inesperada; e só melhorou com o milagre lá embaixo no vale, da gigantesca e verde­jante gameleira branca: “loko” — pensei emocio­nado, fazendo como os outros, levando os dedos, da terra à testa, num gesto de humildade.

O barracão estendia-se sob a proteção da árvore sagrada, paredes levantadas da própria terra, telhas também feitas da terra, inclinadas em duas águas. Alguém nos vira, com pouco juntava-se multidão na capoeira a nos esperar. Era a comitiva de um reino chegando a outro reino. Uma rainha recepcio­nada por um rei. Todos ajoelhavam-se à passagem de Mariana, beijavam sua mão que ela concedia como um favor — “Bênção, minha mãe”, “Bênção, minha mãe!” — rogos elevavam-se como o côro de uma cantiga, até a “ialorixá” encontrar-se com o “ojé-agbá”.

* * *

0 barracão era vasto e fechado como um con­vento, de enorme salão sem janela, centro do edifício ligado com o exterior por uma única porta. Dossel de sêda azul, enfeitado de veludos e cetins, cobrindo vários tronos ajaezados. À frente do dossel, rente à parede, um banco comprido onde descansavam os atabaques, os agogôs, uma cabaça. Contra a parede oposta, uma cadeira de braço, com o nome de Ma­riana. Um largo espaço vazio, cimentado, à dispo­sição dos “babás” — se surgissem. O resto, para os fundos, era dos crentes e assistentes: o lado esquer­do, bancos simples de madeira, sem encosto, para os homens; o lado direito, esteiras para as mulhe­res e crianças. E lá para dentro da construção, um labirinto de saletas e camarinhas, onde se hospeda­vam as famílias que chegavam. Já os preparativos da festa se ultimavam. Grupos faziam a derradeira refeição. Gamelas de barro eram servidas, moque­ca de peixe com forófia de dendê, e abará, acarajé, acaçá. Quartinhas de “aluá” quebravam os ardores da pimenta. Por fim, o cafèzinho quente, tempera­do com rapadura.

O sol se escondia, luxuosos lençóis de côres es­tiravam-se no céu, foguetões subiam aos espaços. Os “babás” iam ser chamados, os “eguns” poderiam derramar-se pela terra, a selva vibraria de sons e vi- sagens, ninguém se atrevesse a cruzar os seus ca­minhos. Toques de atabaques exigiam que todos en­trassem. A noite fechava-se sôbre a ilha. A escuri­dão cobria o barracão. As estrêlas projetavam-se com nitidez. Entrei também.

Fifós acesos espalhavam bruxuleante claridade, projetando sombras pelo chão, pelos cantos, pelo teto. Os atabaques tornaram a bater, desta vez com mais fôrça e ritmo. O “padê” iniciava-se. Mulheres vesti­das de branco, só branco, puseram-se a dançar em redor da vela acesa, movimento de pernas, braços, mãos, ancas e cabeça variando de acôrdo com o ritmo dos atabaques. Mulheres, mais de cinqüenta, de tor­ço, de bata, saia rodada, a pele negra ou mulata des­tacando-se das roupas alvas. Velhas, adultas, adoles­centes, gordas, magras, altas, baixas, dançavam com harmoniosa exatidão, graça e elegância. “Oh! Exu, mensageiro entre os homens e os deuses, prote- gei-nos com sua interferência, recomendai-nos aos

“eguns”; que êles desçam em paz, tolerantes e sá­bios; impedi as desavenças entre vossos servidores, propiciai alegria a todos e em particular a esta fes­ta feita com fé, amor, obediência.”

Terminado o “padê”, os atabaques calaram-se. As mulheres sentaram-se. Os alabês descansaram. Depois de pequeno intervalo começou uma ladainha vibrante, puxada pelo “eiedun”, respondida pelo coral dos homens e das mulheres. Era em dialeto africano, melodia em “kêto”, de variações e tonalida­des musicais embevecedoras. Os atabaques soavam fracamente, em segundo plano. Quando a ladainha se finou, ardente silêncio se fêz, a expectativa reinou, era uma coisa física e palpável, tão respeitosa e in­tocada que se ouvia lá fora o leve farfalhar da game- leira, o serrar dos grilos, o coaxo de sapos perdidos no brejo. No interior do barracão, entretanto, só o queimar das torcidas dos bibianos arranhava a quietude ansiosa. Eu olhava as duzentas pessoas acumuladas no salão, sem conforto nem trégua, vi­vendo religiosamente, perigosamente, aquêle mo­mento grave. E todos os olhares se fixavam na única porta para o exterior, a respiração de quatrocentos pulmões represada, os músculos e nervos esticados, retesos, à espera, à espera.

Rumores esquisitos fizeram todos ainda mais tensos. Sôbre a leve agitação das fôlhas, dos sapos e dos grilos, ecoaram exclamações humanas, grunhidos inumanos, corridas súbitas, chicotadas, lamen­tos, gemidos. O “eiedun” ergueu-se e entoou vigoroso canto. Foi como o estouro de uma reprêsa. Ataba­ques rugiram e duzentas vozes retiniram, responden­do em côro. No atordoamento das vozes e dos to­ques reboantes, oito homens em grupo, oito titãs pu­laram de uma só vez para dentro da sala, batendo no chão varas longas e flexíveis:

• Bogbô mariwô delewô — bramia o “ojé lesé egum”.

• Rei! rei! rei! — respondiam os oito homens, tonitruantes.

• Etielerió! Etielerió! Etielerió! Ero!. . . Ero!... — cantavam as filhas mais velhas da seita.

• Iyá! Iyá! Iyá! Oôô!... — respondiam as demais.

Ainda bem não me refizera da surpresa com a entrada brusca dos “ojés”, outra maior assaltou-me: entre êles havia um que era branco de cabelos lou­ros, branco de olhos azuis.

Julgava-me preparado para tudo naquela noite, para tôdas as manifestações fantásticas de fé, de fa­natismo até o paroxismo. Jamais esperara encontrar num povoado de negros, entre os sacerdotes dum le­gítimo culto negro, um homem branco e louro, um estrangeiro europeu como “ojé” de “babá”, dançan­do, cantando, falando “kêto”.

À luz dos bibianos êle me parecia como um deus. E tinha a estampa de um deus, o rosto duma nobreza serena, os traços duma perfeição excepcio­nal, o corpo belo e vigoroso, as espáduas largas, cinlura (' quadris estreitos, braços possantes, músculos u ílor da pele fremindo e revelando-se a qualquer movimento.

Com a mesma subitaneidade que haviam sur­gido, cinco “ojés”, o branco inclusive, desaparece­ram porta afora. Ficaram três a guarnecer o salão. Um prolongado grito chegou aos meus ouvidos. O “eiedun” fêz um gesto. O mesmo silêncio de antes, opressivo e elétrico, reinou. Os “ojés” deixaram livre o caminho da porta e esperaram. Apertavam con­vulsivamente as varas que traziam. Suave farfalhar de sêdas aproximavam-se. Alguma coisa estava pres­tes a acontecer — pensava eu, sabiam todos, olhos arregalados, respiração suspensa, coração acelerado. E aconteceu. Uma figura estranhíssima — se é lí­cito chamar “aquilo” de figura — vinha chegando, mansamente, confiadamente. Passou pela porta sem se abaixar. E dentro da sala eu vi assombrado que sua altura ia até as vigas que sustentavam o telhado!

De humano só se via os pés, calçados com sapatos exóticos. E exótica roupagem cobria-o, mistura caó­tica de veludos, sêdas, cetins, bordados, espelhos, vidrilhos, contas, numa profusão indescritível de côres, de formas e reflexos. No silêncio de cemitério, cir­culou pelo espaço vazio deixado pelos “ojés”. Não parecia andar. Flutuava. Os atabaques voltaram a bramir: e o “babá” pôs-se a dançar com impres­sionante vigor e soberba masculinidade. Dançou muito. Sua energia parecia inesgotável. Finalmen­te parou. Os atabaques, obedientes, pararam. Man­samente como entrara o “babá” flutuou até o dossel,

sentou-se num trono e dali pôs-se a articular sons, para mim ininteligíveis, que o “eiedun” ou a “ialo­rixá” iam decifrando para todos ou, se era o caso, para cada pessoa em particular.

* * *

Depois dêste vieram mais sete “babás”. Até o “Babá-Olukotum” dignou-se a comparecer. Era o rei de todos e a todos suplantava em luxo e extra­vagância de roupas, na viril sobriedade de danças e extrema doçura ao falar. Há trinta anos não descia na Bahia. E estrondosas ovações o acolheram, fo­guetes estouraram no espaço, os atabaques, os ago­gôs, vibraram com furiosa alegria, todos se rojaram aos seus pés, tocando a testa no chão, suplicando sua bondade, sua magnanimidade, sua bênção:

— Axé Babá!

Tôda a noite, tôda a madrugada, em conjunto ou isoladamente, os “babás” permaneceram em nos­sa companhia, dançando, conversando, resolvendo casos, dando conselhos judiciosos, reclamando coisas erradas, no meio de comovente adoração. Eu sentia, emocionado, a atmosfera de fé absoluta, mas sem angústia, sem sofrimento, uma fé plena de euforia. E sem pestanejar, sem cochilar, sentando, ajoelhan­do-se, ficando de pé, passamos doze horas seguidas, a atenção prêsa ao cerimonial. E só quando o sol nasceu, quando sua claridade penetrou pelas frestas do telhado, o último “babá” se foi.

Os “ojés” também se retiraram. “Rum”, “rumpi”, “lé”, emudeceram. O “eiedun” da “casa” re­colheu-se. Mariana também. Erguemo-nos. Saí com os outros para a luz do dia, espreguiçando os ossos que estalavam. Os caminhos molhados de se­reno ofereciam-se, puros e inocentes. Fui caminhan­do à toa, esticando os músculos cansados. Adiante achei uma fontinha gelada, mergulhei a cabeça, la­vei o rosto. Galos cantavam muito distantes, um ou outro pássaro piava. Deitei-me no chão, a cabeça apoiada nas mãos, o olhar no céu que se tingia de rosas e amarelos. Meus pensamentos perdiam-se no tempo e no espaço em confusas reflexões sôbre os mistérios além de nós mesmos, nos desígnios das for­ças imponderáveis.

* * *
 Parte 3

domingo, novembro 24, 2019

O leque de Oxum - Parte 1


O leque de Oxum


Parte 1

Conto de Vasconcelos Maia - Janeiro de 1961


Há vinte anos eu não via a Bahia. Em vinte anos mudara muito. Falsa ideia de “progresso” mu­tilara-a lamentavelmente. Aquilo que nas cidades históricas e artísticas é venerado e defendido com o sacrifício da vida humana, tinha sido mutilado em muitos de seus aspectos. Obras de arte desapareci­das, roubadas, barganhadas. Monumentos preciosos derrubados e esfarinhados. Jardins desarborizados. Praças descaracterizadas. A paisagem marítima po­luída por “invasões” de gente com problema de moradia. E a atmosfera colonial, tão rara no Brasil e tão tipicamente baiana, cedia a uma arquitetura falsamente funcional que o clima repudiava. As­sim também os seus costumes. As coisas mais pu­ras de seu povo sofriam adulteração em sua nobreza. E a inviolabilidade dos ritos negros, da religião, da dança, tinha-se quebrado.

Com saudosismo e confrangimento eu passeava pela cidade, reconstituindo, com amargura e cari­nho ruas e becos, ladeiras e “largos”, fontes e chafa­rizes, igrejas, parques e praias, o que existira com es­plendor e o que pobremente restava. Mas sobrara o Pelourinho e adjacências, as igrejas do Terreiro de Jesus, os fortes à beira-mar, alguns palácios e solares.

E resistindo também tenazmente às tentações da im­provisação e da chantagem ficaram quatro ou cinco “casas” de candomblé, de ritualística fiel, infensas às interferências exteriores. Uma dessas, era minha “casa”. Pois ainda rapaz, em minhas andanças nos caminhos musicados pelos atabaques, nela me fixa­ra, nela me integrara, nela fôra levantado “ogan”, confirmação que não se realizara devido a minha volta a São Paulo, à firma de que meu pai era prin­cipal acionista, às obrigações a que eu me iulgava indissoluvelmente ligado.

* * *

Debruçado na balaustrada da Praça Municipal, o olhar estendendo-se sabre os telhados escuros dos sobrados da cidade baixa, lembrava-me da Iyalorixá (Ìyálòrìṣà) a quem eu tomei a bênção, que pusera a mão na minha cabeça e que governava como uma rainha o seu vasto e poderoso axé (àṣẹ). Ainda estaria viva? Ainda era dona da barraquinha na Rampa do Mer­cado Modêlo? Donde eu estava, avistava o edifício do Mercado, a Rampa, o portinho coalhado de sa­veiros coloridos. Quem sabe se Mariana não conti­nuava ali, modesta e digna, atrás de seu balcão, lu­tando como qualquer trabalhador pelo seu sustento, cumprindo assim os desígnios de seu “orixá”, já que sua pureza e sua sobranceria não lhe permitiam viver da exploração de seu culto?

Desci o elevador.

Tapêtes de rosas, angélicas e gérberas, róseos, brancos e vermelhos tapêtes de perfumes. Pirâmides de abacaxis, mangas e cajus, de aromas fortes e do­ces. Caçuás de laranjas-de-umbigo, de laranjas-cravo, de limas-da-pérsia. Bancas de poemas populares, “troupes” de tocadores tocando e cantadores cantan­do, mendigos estendendo a mão, marinetes chegan­do e saindo, a Praça Cairu torcendo-se de filas que­rendo condução. As barraquinhas estendiam-se num primeiro plano de pintura primitiva, os mastros dos saveiros servindo de fundo contra um céu rutilante- mente azul. E gente entrando e saindo do Mercado, e, no ar, cheiros e côres, de gente, de frutas, de flo­res, de mar.

A “Tendinha de Oxum” continuava no mesmo ponto, apertada entre outras barracas, no sábado cheio de sol. As paredes de madeira, o tôldo de lona amarela, a pintura vermelha e branca, as letras cheias de bordadinhos. E colares de tôdas as côres, pulseiras de todos os feitios, figas de tôda sorte, con­tas de todos os “santos”, conchas e búzios, estrelas e cavalos-do-mar, “agogôs” e “exus” de ferro, “adjás”, paramentos, armas, símbolos e “oxés” da religião, “obis”. Garrafas douradas de azeite-de-dendê, fras­cos de pimenta-de-cheiro, de pimenta-malagueta, em verde, vermelho, amarelo. Emoldurada de cheiros e côres e formas, Mariana, cheia de compostura e dignidade. Era a mesma Mariana que eu deixara há vinte anos, apenas um pouco mais gorda e gi'i- salha. No rosto, a expressão intacta de autoridade, a luz enérgica dos olhos, a fôrça inteligente da testa e a bondade na bôca.

— Bênção, minha mãe!

Os olhos, vivos e jovens, a me fixarem penetran-temente, procurando socorro na memória, o rosto, por fim, iluminado pela surpresa:

— Entre, meu filho.

— Não mudou nada, minha mãe!

— Não sou filha de Oxum, ingrato?

— Ingrato? Obrigações na terra da gente, de¬ver de ganhar dinheiro, de trabalhar duro, de não ficar para trás.

— Deus que lhe dê mais, meu filho.

— Não sei se quero mais, minha mãe... ou se adiante ter mais. . .

Sentei no caixão de querosene e ela esqueceu- se da freguesia. Reparei que, além dos adornos li- túrgicos que ela, como “ialorixá”, deveria permanentemente trazer consigo, rutilava de colares e pulseiras. E em vez de vestido simples, cobria-se de roupas vistosas, bata rendada, torço de sêda, colorida saia de cetim.

— Alguma “festa”?

— Não me está vendo a rigor?

— Lá na “roça”?

— Se fôsse em “casa” eu estaria aqui, homem? Estava, mas era recolhida, fazendo as “obrigações”. Hoje sou convidada, vou para festa dos “eguns”.

Era uma palavra mágica para mim. Minha imaginação enriqueceu-se, a memória retornou anos atrás. Acabadas as cerimônias aos “orixás”, saíamos da “roça”, vínhamos a pé, na estrada barrenta, em busca do bonde. Vínhamos aos bandos, pouco antes da meia-noite, “ogans”, “alabês”, “obás”, eu no meio. Recordava-me bem dos manacás desabrochando nos barrancos, dos graúdos jasmins-do-cabo es- palhando seu perfume e sua brancura pelas cercas, dos mansos cães que nos lambiam as pernas, das noites frementes de estrelas e das conversas que a noite provocava. Conversas de “eguns” que eu nunca vira, a cujas cerimônias não pudera assistir, aureoladas de histórias que me causavam arrepios.

— Será que desta vez?. . .

Não precisei acabar o pensamento:

— Claro que sim! Você não foi “suspenso” lá em casa? Posso dizer, sem gabolice, que a festa é muito minha. Pedi uma graça a “Babá-Olukotum”, ele me fêz o favor de atender. Ofereci-lhe uma rou¬pa e vou lhe pedir a presença. É um “babá” muito autoritário, orgulhoso e importante. Há trinta anos que não “desce”.

— O que Mariana pede que não se dá?

Ela sorriu, cheia de segurança, perguntou-me:

— Já almoçou?

— Ainda não.

— Por que não come logo? Daqui a pouco vai chegar meu pessoal. O saveiro não espera se o vento estiver bom.

* * *

Barraca com geladeira e anúncio de coca-cola do mulato chamado Teles, com sua irmã Candinha a servir uma misturinha côr-de rosa, enganadoramente inocente, saída duma garrafa encantada, batizada da de raizes amargas. Leve e cintilante, desceu em togo e sêda, macia, garganta a baixo. Sombra de tamarindeiro, brisa do mar, manchas de sol sôbre a mesa, ouro de banana madura em tabuleiros, facha­das de sobrados na frente, a igreja da Conceição da Praia erguendo-se nos blocos de mármore, as tôrres competindo com o casario subindo o morro. E ouro e sol, vermelhos e verdes, em pratos de louça lavada, no efó e no caruru, na moqueca de ostras e no xinxim de galinha, incêndios de pimenta-malagueta, doçuras de refresco de caju.

Voltei à “Tendinha de Oxum” e à Mariana ro­deada da comitiva: seu filho Didi, servidor de “Ossãe”, três “alabês”, mais cinco mulheres a beijar- lhe a mão: a “dagã” e a “ossi-dagã”, de sua idade, vestidas com o mesmo aparato embora sem igual quantidade de adornos. As outras eram “iaôs” de sua “casa”, uma de “Xangô”, outra de “Iansã”, a úl­tima de “Oxumarê”, tôdas vestidas a caráter, as co­res de seus “orixás” preponderando distintamente em seus trajes.

Mariana ergueu-se, fomos atrás. Um saveirinho em côres vivas, “Ninho do Oceano”, esperava- nos. Pôs-se em movimento. Passamos o Forte de São Marcelo, o quebra-mar e, ao largo, eu abarquei a silhueta da cidade, estendendo-se da ponta do Mon­te Serrate ao Farol da Barra. Pouco restava da ve­lha e magnífica construção dos portuguêses. A ver­dura desarrumada e luxuriante das encostas abria- se para edifícios pesados, sem graça. Blocos de cimento-armado, comuns e vulgares, substituíam os muito pessoais casarões coloniais ainda há poucos anos em pé. As tôrres das igrejas antes dominado­ras nos cabeços das colinas, quase tôdas estavam afo­gadas pelos saltos dos arranha-céus. Apenas intoca­da, a linha delicada e fascinante do bairro de Santo Antônio Além do Carmo.

Escumas saltando da quilha veloz, o saveirinho deslizava àgilmente sôbre as ondas. Bôtos negros, de dorsos luzidios, dando cambalhotas na superfí­cie, bufando. Cardumes de tainhas, de agulhas, caçonetes e curimãs, vermelhos e guaricemas, águas- vivas como vitórias-régias, caravelas azuis, lindas como orquídeas. Martins-pescadores plainando asas sôbre as águas, as asas de enormes saveiros, bojudas e brancas, passando abertas, vindos do outro lado da baía, de engenhos perdidos, rios fundos, moendas e olarias distantes. Lá atrás, esfumada na lonjura, a cidade do Salvador brilhava ao sol.

O búzio na bôca do “mestre” ecoou pela praia deserta seu gemido sonoro, lancinante. Virgem e nívea, a terra povoou-se. Das cabanas entre os co­queiros saíam homens, mulheres, crianças, aos ban­dos, acenando. Era como se eu estivesse chegando a um novo mundo, antes vislumbrado em sonhos, sugerido em leituras. Coqueirais altíssimos colhiam e derramavam sombras até a linha dágua. Acaricia­dos nas sombras, sedentos, fomos servidos em caba­ças enfeitadas de fôlhas, por gente alegre e hospitaleira: enormes mangabas que se derretiam na bôca feito mel; cajus carnosos a transbordar suco dulcís­simo; pitangas vermelhas, sumarentas, frescas; sa­borosa água de côco verde.

• Mas isto é o paraíso! — exclamei para Didi.

Ele sorriu e disse:

• É somente a porta.

Com a vista, procurei o barracão das festas. Didi explicou:

• Ainda vamos andar um bocado. O culto aos “babás”, aos “eguns”, é diferente do dos “orixás”. As festas aos “orixás” são francamente públicas. As dos “eguns” são íntimas, fechadas. Se o barracão fôsse aqui na praia, toda a gente, moradores e vera­nistas, se acharia com o direito de entrar. Por isso o barracão fica no meio da ilha, isolado e escondido. Só vai lá quem tem “negócio”. . .

• Por que tanto segrêdo?

• Você vai ver. Não perde por esperar.
*** 
 Parte 2

Aviso



Durante a próxima semana, diariamente será publicado uma parte do conto. São 6 partes. No domingo será publicado o texto integral.

É uma ficção interessante, um romance, feito com base na Tradição religiosa do Candomblé e Eegun. 

Mostra um viés muito comum de ver se orixá, que não é o meu, mas não deixa de ser interessante e relevante.

Vale a pena ler.

Aviso


As duas últimas postagens recentes foram equívocos. Estava acertando textos no Blogger e por alguma razão que não sei viraram postagens novas, vou eliminar.

Nas próximas horas estarei postando um conto sobre orixá e egungun. Muito interessante.

Conheci por acaso, comprando um livro antigo

O livro é Vasconcelos Mais

Chama-se O Leque de Oxum

Não existe publicação nova ha muitos anos e estou publicando aqui apenas o primeiro conto do livro.

a capa do livro é esta





Vou fazer a publicação em partes, para facilitar a leitura  e depois coloco o texto integral.

quarta-feira, novembro 20, 2019

Imọlẹ̀ OLÓÒKUN

Imọlẹ̀ OLÓÒKUN

Qual a relevência do assunto?

O Imọlẹ̀ Olóòkun, no contexto do Candomblé, faz parte dos orixá (Òrìṣà) que são conhecidos mas que seu culto não foi trazido pela diáspora e depois dela na construção do Candomblé.

No Candomblé temos vários desses casos e, aqui, esse tipo de orixá (Òrìṣà), normalmente não recebe culto, isto é, oferendas, sacrifícios ou Xirê. Repito, as pessoas conhecem sabem que existe, mas, não faz parte da tradição o seu culto.

Minha ilação indica que sua citação se tornou mais comum a partir da década de 90, quando o Candomblé tomou conhecimento da literatura estrangeira sobre orixá (Òrìṣà), sendo assim sua referência sutilmente incluída. Pierre Verger sequer menciona esse orixá (Òrìṣà).

Aqui a referência mais popular diz respeito a Ajé Xalugá (Ajé Ṣàlúgà), ou simplesmente Ajé, tratada como filha de Olóòkun e orixá (Òrìṣà) da prosperidade, da riqueza. Igualmente, não citada por Verger mas conhecida pelas pessoas e que recebe oferendas para prosperidade.

Mas, devo dizer que, minha opinião é que, o conhecimento de Olóòkun assim como de Ajé Xalugá (Ajé Ṣàlúgà) são simutâneos, como disse, posterior a década de 90, uma atualização do Candomblé, sendo que Ajé Xalugá (Ajé Ṣàlúgà) se espalhou um pouco mais devido a ser associada em trazer a propsperidade, enquanto que a identidade de Olóòkun com o mar ficou sem utilidade, visto o culto bem estabelecido aqui a Iemanjá (Yemọjá).

No Brasil, assim como em todo o novo mundo, o orixá (Òrìṣà) Iemanjá (Yemọjá) é quem foi trazido e passou a ser identificado com o mar de forma geral. Na região Yorùbá, Iemanjá (Yemọjá) era, assim como Óxun (Ọ̀ṣun) e Oiá (Ọya) um orixá (Òrìṣà) identificado com o rio, assim como outros, visto que existe um aspecto de regionalismo no culto a orixá (Òrìṣà) Yorùbá, diferente do nosso aqui no Candomblé, diáspora, que reuniu debaixo de uma mesma casa, orixá (Òrìṣà) de regiões diferentes.

Em função desta fusão de cultos na mesma casa, adaptações fora necessárias e uma delas foi a separação da identificação do orixá (Òrìṣà) com o meio natural, assim, aqui Iemanjá (Yemọjá) ficou ligada ao mar, Óxun (Ọ̀ṣun) ficaram ligadas as águas e rios e Óiá (Ọya) ficou como o orixá (Òrìṣà) de ventos e tempestades.

Note a adaptação de Óiá (Ọya) a tempestade, visto que não temos aqui os redemoinhos de ventos e assim não poderíamos associar Óiá (Ọya) a isso.

Eu não posso deixar de citar esse aspecto de associação de orixá (Òrìṣà) com esses elementos naturais, mas, também não posso deixar de afirmar a todos que, orixá (Òrìṣà) não é o elemento da natureza, orixá (Òrìṣà) são divindades ligas às pessoas, a maior parte deles ancestres divinizados e eles não são os elementos da natureza. Essa minha afirmação é facilmente confirmada pelos versos de Ifá e mitos da religião e cito apenas um, o verso do Odù Oxé-Otuwa, que mostra que Olódùmarè enviou os orixá (Òrìṣà) para cuidarem das pessoas.

Voltando a Olóòkun, da forma como a diáspora se organizou não sobrou espaço para Olóòkun. Iemanjá (Yemọjá) foi associado com o mar de uma forma geral e somente recentemente, no processo de reafricanização, é que Olóòkun aparece e passam a dizer que Olóòkun está no mar aberto e profundo e Iemanjá (Yemọjá) está na beira do mar, sendo que alguns a associam a praia.

Certo ou errado é isso que se estabeleceu.

No caso cubano vemos alguma presença de Olóòkun, que foi levada para a ilha, mas cujo culto estava incompleto e acabou se perdendo ou enfraquecendo. Lá como cá, Iemanjá (Yemọjá) foi o orixá (Òrìṣà) predominante, mas, Olóòkun era, sim, associado ao mar aberto e profundo. Meu entendimento é que esse culto foi estabelecido em cuba, mas como as pessoas não tinham informação adequada, ele foi tratado como um orixá (Òrìṣà) que os cubanos dizem que é de mesa, eles oferecem comida mas não tem ritos de iniciação.

Aliás essa é uma diferença muito marcante entre as 2 tradições de orixá (Òrìṣà), a cubana e a brasileira. Aqui, orixá (Òrìṣà) sã aqueles que temos os ritos, se não temos ritos viram uma qualidade não cultuada de algum orixá (Òrìṣà) ou mesmo não são referenciados. Ou sabemos e cultuamos ou não cultuamos. Os cubanos têm um conjunto maior de divindades, mas, na minha opinião eles inventam muito, criam coisas deles, geram conhecimento, mudam cultos, mudam entendimentos, criam mitos para se justificarem. A distância deles da tradição yorùbá é muito maior do que a nossa.

Finalizando, a relevância de Olóòkun é no sentido de reafricanização, de restauração do conhecimento sem que isso signifique utilidade real, visto que nossa tradição do Candomblé se resolveu sem isso. Não sei o cenário nas demais tradições, como o Batuque e o Nago.

Para mim esse orixá (Òrìṣà) tem relevância, estou ligado ao culto de ifá ha muito tempo e ele sempre aparece em consultas como destinatário de oferendas. Sem dúvida nenhuma o orixá (Òrìṣà) derivado, Ajé Xalugá (Ajé Ṣàlúgà) tem relevância para pessoas que precisam de ajuda.



O gênero do orixá (Òrìṣà) Olóòkun
Sem dúvida a primeira questão que surge quando se fala de Olóòkun é seu gênero, visto que é tratado como masculino ou feminino. A origem desta confusão está na própria região yorùbá. Em Ilé-Ifẹ̀ e em alguns poucos lugares ele é tratado como feminino e no resto do território yorùbá como masculino e isso já é suficiente para trazer confusão aqui.
Minha opinião é que deve ser tratado como masculino.


Origem do orixá (Òrìṣà)
 
É amplamente aceito que o culto ao orixá (Òrìṣà) Olóòkun se difundiu do Bini para os Yorùbá. Bini é uma região a oeste da região yorùbá, onde fica a cidade de Benin (não o território, que fica a leste). No Bini fica o povo Ẹ̀dó e esses 2 povos, apesar de distintos culturalmente tem muita ligação e, também claro, proximidade.

Olóòkun é dito ter o controle de todas as fontes de água do mundo, incluindo rio e mar. Considerando a proporção da água no nosso planeta Olóòkun é muito poderoso e rico, visto que a água está associada com a prosperidade.

Olóòkun também controla o reino que os espíritos humanos devem atravessar para nascer ou depois que morrem para ir ao órun (Ọ̀run). Segundo John Mason, esta conexão de Olóòkun com os espíritos dos mortos é feita através de uma grande caixa decorada com espelhos e panos brancos, usadas em ritos mortuários para simbolizar o status e a prosperidade do morto. Não sei se isso esta associado aos cubanos ou também aos Yorùbá.

Em Ifá, no Odù Ìworì Méjì, na história que Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) volta ao órun (Ọ̀run) deixando a terra, no Àiyé para sempre, a história cita que ele vai ao órun (Ọ̀run) através dos domínios de Olóòkun.

A associação de Olóòkun com o mar existe tanto na cultura Yorùbá como Bini, sem dúvida, mas a ligação com os espíritos mortos não ficou clara para mim. Isso existe, sem dúvida, no Odù Odù Ìworì Méjì e outros, mas a origem disso eu não entendi. Pode ser que os corpos humanos fossem jogados no Rio ou mar após mortos, ou o fato de as pessoas afogarem nas águas indo assim para o órun (Ọ̀run).

A associação com a riqueza é em função do mar, principalmente ser uma fonte de riqueza. O dinheiro Yorùbá era feito com búzios, os corais eram objetos caros de adorno, a pesca alimentava as pessoas.

Em sua genesis, os Bini acreditam que Òsànóbùa, sua divindade principal, e Anume, sua esposa, tiveram 3 filhos, chamados, Òblẹ́mwẹ̀n, Olóòkun e Òglùwú. O costume Bini estabelece a superioridade de machos sobre as fêmeas e desta forma Olóòkun assumiu uma posição de superioridade em relação a sua irmã Òblẹ́mwẹ̀n. Um dia Òsànóbùa enviou seus 3 filhos com o poder e a missão de criar o mundo. Naquele tempo o mundo era uma imensidão sem fim de água, que tinha apenas uma árvore Ikhinmwin (igual a um Akoko).

No alto desta árvore vivia um pássaro chamado Ọ̀wọ̀nwọ̀n





O pássaro pediu para as divindades levarem com elas uma conha. Quando elas chegaram ao centro do mundo de água, eles viraram a concha e uma quantidade sem fim de areia saiu da concha. Depois da terra ter sido cuidadosamente examinada por um camaleão e ser considerada firme o suficiente para suportar a vida, Òsànóbùa, dividiu o mundo entre seus filhos.

Para Òblẹ́mwẹ̀n foi dado o controle sobre o nascimento e a agricultura, ela é chamada a esposa da terra, mãe de todos os seres humanos e seres vivos. Olóòkun recebeu o poder de doar a prosperidade e Òglùwú o poder da morte. Òsànóbùa então enviou Olóòkun para ser o rei da mar.

Como podem observar o mito da criação dos Bini é bastante parecido com o mito Yorùbá da gênese e apesar de existirem variações nos personagens Yorùbá, o contexto é muito similar e em algumas versões Olóòkun também está presente, sendo um dos orixá (Òrìṣà) da criação.

A versão relatada por Osamaro Ibie coloca Olóòkun e Ògún como personagens importantes, apesar de a criação do mundo ser uma obra de Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) nesta versão.

Olóòkun aparece em muitos pataki cubanos. Pataki são mitos associados a Odù de Ifá que os cubanos inventaram, baseados em sua mitologia própria e também em versos verdadeiros. A mistura é muito grande.

O que caracteriza ao Pataki é que os personagens sempre são os orixá (Òrìṣà). Eles assumem atitudes ruins e boas, representando normalmente um péssimo exemplo de caráter e comportamento.

No caso dos versos de Ifá, os personagens sempre são Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) e Exú (Èṣù). Os demais são sempre personagens comuns.

Nos Pataki cubanos Olóòkun se confronta muito com Obatalá, os cubanos estabelecem que Obatalá domina a terra e o Olóòkun o mar e o conflito entre os dois é uma constante.


Os significados associados ao orixá (Òrìṣà) 
 
O nome Olóòkun significa o senhor do mar. A palavra yorùbá para mar é Òkun e o prefixo “Ol” significa o senhor de, assim, Olóòkun o senhor do mar.

Esse nome deixa um pouco para trás a definição dos Bini de ser o senhor de todas as águas, assim no contexto Yorùbá, Olóòkun é a divindade associada ao mar, sendo as demais já citadas ligadas a águas de rio. No novo mundo, como já expliquei Iemanjá (Yemọjá) foi ligada ao mar e o arranjo mais moderno liga Iemanjá (Yemọjá) as águas costeiras e Olóòkun ao mar profundo. Sugiro ficarmos com essa.

Olóòkun é associado à prosperidade, conservando a definição Bini original. Mas, nesse aspecto não podemos deixar se lembrar que aqui no Brasil é Ajé Xalugá (Ajé Ṣàlúgà) quem recebe este tratamento e isso está correto.

Os versos de Ifá contêm muitas referências a Olóòkun e sua filha Ajé Xalugá (Ajé Ṣàlúgà). Eu procurarei reunir essas referências que já li e ir atualizando este texto com elas, enriquecendo esse entendimento com os versos. No mento não reuni essas histórias ainda, vou compilar à medida que encontro elas.

O que posso dizer aqui é o que eu li. Nos versos de ifá Olóòkun e Ajé Xalugá (Ajé Ṣàlúgà) aparecem muito mais que qualquer outro orixá (Òrìṣà). Os encontros de Olóòkun com Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) e com os demais personagens é bem comum, assim como é comum o casamento de Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) com Ajé Xalugá (Ajé Ṣàlúgà) para esta ter prosperidade.

O sentido do envolvimento deste Imọlẹ̀, Olóòkun é sempre por ele representar a prosperidade e o poder, nos versos esta sempre no mar e sua prosperidade é sempre transmitida por sua filha, Ajé Xalugá (Ajé Ṣàlúgà).

Os cubanos têm um ditado que eles repetem muito e que diz “ninguém sabe o que está no fundo do mar”. O sentido disso normalmente é que grandes feitiços são feitos e jogados no oceano, assim você pode estar sofrendo de algo que fizeram contra você, um ebó (Ẹbọ) e colocaram no fundo do mar.

Não temos o ditado, mas, sim, quando alguém quer fazer alguma coisa muito forte contra outra pessoa, faz o ebó (Ẹbọ), aluga um barco e joga isso mar a dentro. É uma prática conhecida.

Não sei a origem disso, creio que não pode estar associado a Olóòkun, não devido ao que eu aprendi sobre esse Imolé (Imọlẹ̀), não lembro de ter lido nada com esse tipo de negatividade. Acredito que isso possa ser algo relacionado a almas mortas e perdidas que ficam no oceano, existe aquela referência de Olóòkun ser dono do domínio que as almas vido ou indo para o órun (Ọ̀run) tem que passar, assim, quem sabe esses ebós não têm o sentido de encontrar essas almas.


Oferendas para o Imolé (Imọlẹ̀)

Eu, devido a Ifá, já fiz muitas oferendas para Olóòkun e Ajé Xalugá (Ajé Ṣàlúgà) e inclusive fiz um assentamento, isso não me faz nenhum especialista, apenas isso cruzou meu caminho e tive que lidar com o assunto.

As oferendas de comida que fiz eram baseadas em frutos do mar, cozidos, sempre e oferecidas em praias oceânicas de mar aberto.

Oferendas para Ajé Xalugá (Ajé Ṣàlúgà) são variadas mas o que sempre foi importante é, oferecidas nas mesmas praias oceânicas, de mar aberto, nas primeiras horas da manhã quando o sol começa a brilhar no mar e nas ondas. Esse é o horário.

Em cuba as oferendas a Olóòkun são baseadas em tudo o que a boca come. Eles tem ou tinham uma oferenda anual feita com animais e comidas. Tudo era levado para alto-mar em um barco e os sacrificios feitos no mar. Os animais usados eram carneiro, galo, pombo, galinha dangola, tartaruga e pato. As comidas eram, melado, canjica, milho refogado com cebola, feijão fradinho, banana frita, porco com melado e cará. Os bichos devem ser todos brancos.

Os relatos dessas cerimônias dizem que os animais eram sacrificados no mar e jogados nele, logo depois as comidas e dizem que tudo afundava ao mesmo tempo. Nunca fiz essa cerimônia, espero um dia fazer, mas o que fiz é bem sinistro mesmo, o que a gente oferece some nas águas de uma vez, Olóòkun é uma coisa bem forte.

Atenção carneiro é um bicho de Olóòkun mas somente pode ser oferecido no mar.
Existe uma outra cerimônia que se faz em casa. Envolve sacrifício e comidas. Os animais são Pato, galo, galinha dangola e pombo. Os animais são sacrificados no pote (já falarei sobre isso) e não podem ser comidos.

É colocado um cesto vermelho com fitas azuis, o cesto é colocado na frente do jarro e s pratos de comida ficam em volta. As comidas podem ser porco frito, banana frita, porco com melado, ekuru, abará, acaça com mel, milho cozido e refogado, mas isso podia variar, conforme disse, qualquer coisa que a boca come.

Eles pegavam a comida e se limpavam com ela, como fazemos no Olubajé e sem comer jogam no cesto (um ebó (Ẹbọ) mesmo), jogam também azeite e vinagre.

Terminado a cesta é amarrada com uma trouxa de 2 cores, azul e branca. A procissão sai com uma pessoa jogando água à frente e outra tocando adjá. O cesto é colocado no mar, e na volta, quem jogou o cesto toma banho de erva.

Essas são cerimônias cubanas.

Ferramentas do Imolé (Imọlẹ̀)

O assentamento de Olóòkun é feito em um grande jarro de barro que é pintado de branco e azul ou apenas de branco.

As folhas usadas para Olóòkun são Oxibatá, Ojuorô e tétéregun.

Dentro do pote que será cheio de agua, é colocado, 32 búzios, pedras do fundo do mar e da montanha, pedras de rio, estrela do mar, conchas, coral, chumbo e principalmente um coral cérebro. Algumas penas são colocadas, de agua pescadora e ekodide, penas branca e vermelha.
 
Do lado de fora são colocadas muitas pedras de efun, no pé do pote.

Um dos elementos importantes de Olóòkun é uma cabeça de carneiro, normalmente de madeira. A cabeça de carneiro, animal de Olóòkun representa egungun.

Nos altares de egungun são encontradas imagens de madeira de cabeças de carneiro, chamadas de osanmasinmi. Em alguns casos esta escultura pode ter a forma humana com chifres ou cabeças de mulheres com tranças, que tem o mesmo sentido, as tranças são os chifres do carneiro.

Existem referências que colocam imagens de madeiras, imagens de sereias, bonecos de chumbo. Isso é apenas decorativo. Um remo pode ser um elemento do assentamento.

Os fio de conta são feitos com contas brancas e azuis, podem incluir corais vermelhos, cristais e búzios.

Já vi algumas fotos de assentamentos de Olóòkun, todas muito coloridas e decoradas. Isso não é necessário, o que importa é o que colocamos dentro do jarro.

A maior parte das pessoas não tem necessidade de ter qualquer tipo de assentamento de Olóòkun, é uma divindade para quando vier se fazer as oferendas no mar. Contudo não vejo como um Bàbáláwo pode ter uma casa e trabalhar sem ter Olóòkun.

Os cubanos dão valor a coisas irrelevantes e placebos, como os assentamentos de Oko, Odudua, placebos, enquanto não tem ou não conseguem nem ter acesso os que realmente são importantes como Olóòkun, Osumare, Óiá (Ọya) e Eegun, este último eegun de fato não aquilo que fazem.



Bibliografia

A única coisa que encontrei sobre Olóòkun foi o livro Olóòkun: owner of rivers and seas de John Mason, que é um autor confiável.

Ele mostra um retrato interessante com conteúdo yorùbá e cubano, recomendo a leitura para quem quer um pouco mais de informação.