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segunda-feira, julho 05, 2010

O malefício da sincretização da Umbanda no candomblé

O malefício da sincretização da Umbanda no candomblé

Este texto é parte de um material maior que será publicado em 4 partes. O material integral vai estar disponível para download na forma de PDF em algum sítio público. Esta é a parte iv

Com o passar do tempo o Candomblé começou a ganhar espaço e ser aceito no meio da sociedade. A sociedade passou a olha-lo como uma opção de pratica religiosa e este saiu do contexto de afirmação do negro para se tornar um produto de consumo geral. Sem a perseguição policial as casas puderem estabelecer o seu culto da forma como queriam. Novas casas passaram a ser abertas e as pessoas perderam o medo de se aproximar do candomblé. 

Por muito tempo o Candomblé foi considerado como sinônimo de feitiçaria e maldade, certamente ganhou essa fama através de seus próprios méritos, mas, à medida em que as pessoas tomaram contato com ele descobriram um outro lado disso e o Candomblé perdeu grande parte de seu manto negativo e de discriminação.

No passado, em determinado momento, a perseguição ao Candomblé permanecia mas abriu-se uma tolerância à Umbanda, depois do estado novo principalmente. As pessoas concentraram sua atenção então na Umbanda e foram as casas de Umbanda que se multiplicaram em progressão geométrica. 

Contudo, à medida em que a sociedade evoluiu e o candomblé se libertou da perseguição o fluxo lentamente se inverteu. As pessoas passaram a identificar o Candomblé como um segredo a ser explorado. Era pouco conhecido, cheios de mistérios, novos nomes a serem descobertos, novos segredos e uma religião diferente com uma teogonia muito atrativa e diferente da teogonia católica e também da Umbanda que as pessoas já estavam tão acostumadas.

Ajudaram nisso os antropólogos que elaboraram teses a respeito do Candomblé e livros que mostravam uma outra face da religião, muito mais atrativa e interessante e que captou a atenção das pessoas. Antigamente só se viam livros de feitiços e ebós, mas com o Candomblé surgiu na literatura com qualidade e conteúdo. Havia história real, mitos, origens e conteúdo religioso para ser digerido.

Hoje em dia o Candomblé já se desfez da questão negra. As casas possuem uma população que reflete a nossa própria população e brancos, mestiços e morenos tomaram as casas de alto a baixo.

O Candomblé invade a Umbanda

Com esse processo de abertura muitas casas de Umbanda passaram a se “africanizar” sincretizando e inserindo novos aspectos do Candomblé à Umbanda. Este não é um processo de restauração porque nada indica que a Umbanda tenha qualquer base africana ou a ganhar com essa africanização. É de novo mais um das centenas de processos de sincretização que a Umbanda inicia onde normalmente se absorve aspectos estéticos e superficiais.

Essa mistura horrenda, de Umbanda com Candomblé, não é de agora, já existia muito antes nas casas que se intitulavam de omolocô, ou pior ainda de Umbanda cruzada, riscada ou seja lá como chamavam. Mas tudo é a mesma coisa.

O fato é que isso tudo, essa mistura em qualquer grau de Umbanda e Candomblé é o que se chama hoje, pejorativamente de Umbandoblé. As pessoas tentam diminuir isso, aliviar, dizer que a sua é diferente, que é feita na medida certa, que não misturam ou deturpam, que tem espeços diferentes, dias diferentes, etc.. Cada um acha que tem a razão, mas, tudo isso é inútil. Toda essa mistura em qualquer grau é Umbandomblé e é nocivo.

A Umbanda ganhou com isso tons disformes. Sacrifícios que nunca fizeram parte da Umbanda foram incorporados, ritos eram criados, cargos inexistentes distribuidos (estabelecendo uma hierarquia que não existia na Umbanda), liturgias enriquecidas com o que não necessitavam. Observem que, se a Umbanda tem capacidade de fazer o seu trabalho sem essa parafernália, ou melhor, que sempre teve capacidade de fazer sem isso, por que adicionar elementos do Candomblé na Umbanda onde não existe nenhuma base histórica ou religiosa? Esses elementos nunca foram necessários ou pertenceram a Umbanda.

A inserção disso não visa atender a qualquer necessidade religiosa porque a Umbanda não é baseada em nenhuma parte da teologia Yorùbá. A Umbanda tem a sua teologia própria. O que se adiciona então é apenas decorativo, estético, mesmo resultado do sincretismo histórico da Umbanda, enfim, só vaidade.

Fios de conta foram alteradas, cores mudadas, assentamentos que não existiam criados, sangue, que nunca foi necessário, passou a ser usado. A pretensa africanização serve apenas para prejudicar a Umbanda afastando ela dos seus próprio ideais. Assim observem, se a teologia Yorùbá é incompatível com a da Umbanda, se estética africana não adiciona nada de importante e se os guias que trabalham na Umbanda não tem nenhum vínculo com orixás africanos, qual o sentido da Umbanda ganhar cores de Candomblé?

O resultado prático é apenas gente de Umbanda que se acha de Candomblé, ou seja, uma mentira dupla.

A Umbanda invade o Candomblé

Mas para o lado do Candomblé isso tem sido pior. A adição do Candomblé na Umbanda apenas torna a prática mais feia e confusa, mas os guias continuam a trabalhar como faziam. Mas no candomblé isso esta sendo muito, muito pior.

Começaram a aparecer casas de Candomblé onde guias de Umbanda trabalham incorporados, principalmente Exu e Pombo-giras. Para aqueles que não conhecem é necessário afirmar uma coisa que seria desnecessária ha anos atrás mas que hoje já se esta perdendo a referência, a de que esse tipo de guia jamais fez parte do Candomblé.

O Candomblé não incorpora guias e esses não falam, fumam e bebem nas seções dando consulta para a assistência. No Candomblé se manifestam Orixás de forma muito discreta, que dançam no Xire. Eles trazem o seu axé que circula na casa e também abençoam as pessoas. A comunicação entre mundo espiritual e mundo terreno é feita através do babalorixá da casa.

A presença dos guias de Umbanda no candomblé se deu por motivos muito simples e sem sentido religioso. Pessoas que eram de Umbanda decidem ir para o Candomblé e apesar de terem trocado de religião, uma troca que tem que se considerada radical porque não existe similaridade ou vínculo de uma com a outra, elas mantêm o trabalho com seus guias de Umbanda.

O motivo para isso ocorrer pode ser o resultado de muitas causas, mas podemos dividir em 2 grandes grupos, o primeiro aqueles que vão para o Candomblé com intenção de fazer isso e o segundo os que depois que foram para o Candomblé descobrem a besteira que fizeram e procuram resgatar a sua bobagem.

Ao meu ver o segundo grupo é o pior. O primeiro sabia o que estava fazendo o segundo são as meretrizes arrependidas.

A motivação é distinta, mas ambos acham que podem manter os guias que já tinham agregando-os ao candomblé sem perder tudo aquilo que fizeram no Candomblé. Para poder explicar mais esse processo teria que gastar algumas páginas relatando as muitas nuances desse processo, mas, isso não vai agregar ao tema. Não importa a intenção, o efeito que isso faz ao Candomblé é o que interessa aqui. Eu gostaria muito de poder descrever os muitos pensamentos idiotas que norteam essa decisão ou mudança de rumo, mas, fica para outra oportunidade. 

A conclusão é apenas uma, as pessoas levam para o Candomblé guias que não pertencem a ele e pior maculam a religiosidade do Orixá no Candomblé com o trabalho com eguns que não pode existir debaixo de uma cumieira de Candomblé. Eleguns que foram iniciados para um Orixá não podem mais trabalhar com guias de Umbanda, muito menos com Exus e Pombo-giras.

Eu gostaria de enfatizar que não faz a menor diferença as pessoas que incorporam esse guias como parte de suas liturgias como se fossem parte da religião daqueles que inventam desculpas para junto com o Candomblé manter a prática da Umbanda, fazendo isso em dias separados ou mesmo restringindo a festas e ritos periódicos para se lembrar ou homenagear a Umbanda. Não faz a menor diferença ambos estão errados. Não existe meio certo assim como não existe meio grávida.

Vamos abordar os efeitos negativos baseados em 3 eixos. O primeiro é o da religião, o segundo o da estrutura da pratica religiosa e por último o do compartilhamento do espaço.

Em relação a religião não existe nenhuma forma possível de ecumenismos entre o trabalho da Umbanda e o do Candomblé. Ambos tem finalidade distintas, formatos distintos e bases teológica e teogônica distintas. Não existe explicação que possa ser dada por um babalorixá para a presença na sua casa de um guia de Umbanda. Não existe na religião africana qualquer referência a esses espíritos e a única proximidade seria o culto dos egunguns, mas que jamais compartilha com o Candomblé o mesmo espaço.

No Candomblé existe o dogma de que onde tem orixá não tem Egun. Ambos espíritos ou energias não compartilham do mesmo espaço e os casos conhecidos onde alguma mistura de egungun e orixá ocorreu acabou pela extinção da casa de Candomblé. Dessa maneira existe um dogma religioso que afasta os 2 tipos de espíritos ou energias.

Uma casa de Candomblé somente tem espaço para a manifestação de orixá, tudo em sua fundação é preparado para isso e a religião gira em torno da presença e do trabalho junto aos orixás e à mudança através da transmutação do axé presente nas oferendas. Os problemas no Candomblé são resolvidos através de oferendas aos orixás. Os orixás não comem as oferendas, eles são divindades espíritos de nível elevado, eles irão transmutar os elementos físicos oferecidos em axé e esse axé será usado para equilibrar o axé do consulente. A palavras básica nessa religião é “equilíbrio”. Tudo se resolve assim.

Dessa maneira não existe espaço para pessoas se consultarem com guias pedindo favores e solução de problemas. No Candomblé não é assim que se resolvem as coisas, os problemas são resolvidos com joelhos e barriga no chão, ao pé de um orixá.

O segundo aspecto é o relativo a estrutura da prática da religião. A abordagem é diferente. No Candomblé é o babalorixá que trata dos assuntos das pessoas que o procuram. Ele faz isso baseado no seu conhecimento, no seu bom senso, na sua experiência e eventualmente se for necessário em alguma ferramenta oracular que pode ser apenas um obi ou um merindilogun. Fica claro que o baba/iyalorixa tem que ter a capacidade pessoal de lidar pessoalmente com as questões que lhe são trazidas e que para poderem exercer o cargo que ganharam e para o qual deveriam ter se preparado por anos.

Como um babalorixá me disse, ele nem sempre consulta oráculo sempre que uma pessoa o procura, muitas vezes ele apenas entende e conversa com a pessoa. Outro disse que quando atender alguém mesmo com o merindilogun gasta de 1 a 2 horas, porque a maior parte do tempo conversa com essa pessoa e não apenas "le" buzios.

Muitos podem questionar porque o Candomblé incorpora essa prática de consultas que é similar a Umbanda, mas, com finalidades distintas. Eu tenho que reconhecer que não gosto do termo e não gosto da associação de religião com consulta e cobrança por essa consulta de oráculo ou até mesmo conversa (já ouvi uma vez no rádio um desses babalorixá de rádio dizendo que se quiserem conversar com ele é só ir lá e pagar uma consulta), mas essa é apenas a minha opinião. 

Mas voltando ao tema, uma religião deveria se dedicar a tratar do espírito das pessoas com rezas e devoção. Sim, em princípio. Eu vi uma definição muito interessante que resolveu isso. Observe que no mundo laico a medicina ve o homem apenas como corpo. A psicologia moderna entende a alma como a psique e isso é tratado pela psicologia Freudiana ou Jungiana.

Já a maior parte das religiões místicas, nos veem como Corpo, alma e espírito. E apenas tratando do espirito podemos curar a alma. Assim uma religião cuida do espirito e trata da alma. Um babalorixá irá então tratar das doenças da alma através do espirito e isso é feito através dos ebós, dos odu, orixas, etc, buscando o equilíbrio (palavra chave dessa religião).
Existe também o conhecimento fitoterápico para tratar do corpo e isso pode até ser posto em prática por quem conhece. Hoje em dia em vista de restrições legais, da máfia de branco, acredito que o normal é que as doenças do corpo sejam tratadas pelos médicos.

Assim, uma pessoa vai encontrar em uma casa de santo um refúgio para tratar do seu espírito e equilibrar suas energias. Mas, como eu disse, isso no Candomblé é feito pelo babalorixá em pessoa. Na Umbanda é diferente quem atende, quem aconselha e quem é a autoridade em um centro é o guia. As pessoas vão na Umbanda para falar com o guia. A formação de um Pai de Santo de Umbanda é muito mais simples e prática. Em alguns anos ele vai desenvolver a sua mediunidade e são seus guias que vão trabalhar.

Então, são modelos muitos distintos. O que faz um exu ou pombo-gira em um Candomblé? Ele substitui o babalorixá ou fica aquela coisa de começar a falar com a pessoa e dizer que não pode mais falar, que ela procure o jogo do Pai de Santo? Dá um tempo!

Baseado nesses argumentos eu não vejo como podem conviver em uma mesma casa de Candomblé o Babalorixá e os guias de Umbanda, seus ou de seus seguidores (filhos de santo).

O último vetor é o compartilhamento do espaço. Aqui incluo os 2 espaços o físico e o espiritual. No meu entendimento uma casa de Candomblé não foi feita para abrigar debaixo de sua cumieira o trabalho de eguns, os guias de Umbanda. Tudo em uma casa é feito para ser um ambiente de Orixá e para abrigar o seu axé.

No mesmo dia seria impensado ter na mesma casa orixá e egun. Em dia diferentes muito menos ainda.

Mas mesmo que a casa mantenha 2 espaços distintos para essa prática, o que acho muito difícil, ainda resta o espaço final que é a cabeça e o corpo do elegun. O iniciado é feito e preparado para ser um instrumento do seu Orixá. É um longo trabalho de preparação e dedicação para a pessoa se purificar e renascer para o seu orixá.

Como esse espaço preparado para o Orixá irá então abrigar a energia do Orixá e do egun?

Conversas com iniciado e babalorixás que foram de Umbanda ou que de alguma maneira mantêm o contato com a Umbanda, feitos em lugares diferentes se sem conhecimento do assunto mostra que quando se esta em atividade de Orixá os guias de Umbanda se afastam. Os guias de Umbanda só retornam sua presença algum tempo depois de a atividade de orixá ter acabado, de maneira que uma casa que mantenha uma atividade regular com orixá não poderá ter espaço para guias de Umbanda trabalharem, ou seja, se isso ocorre um dos dois não esta ali de fato.

Se uma pessoa de inicia para orixá, seus guias de Umbanda de afastarão, a maior parte deles definitivamente. Outros poderão voltar se houver uma insistência em chamá-los, mas isso já será um desvio da coisa natural que é eles não estarem mais presentes.

A religiosidade do Candomblé, baseada em conceitos próprios esta sendo maculada e destruida pela inserção de pessoas que trabalham com guias de Umbanda. Existe o absurdo de vestirem Pombo-gira com paramentos de Orixá adaptados para elas. Iniciações para Orixá passam a incluir assentamentos de guias de Umbanda. Este tipo de coisa não existe no Candomblé, seja na prática ou na teologia, o que se está fazendo é trazer um câncer que vai aos pouco destruir toda essa religião.

A Umbanda vai sobreviver, sem dúvida. Ela sempre sobreviveu a cada sincretismo e esse será mais um sincretismo estético que vai se incorporar as dezenas de linhas existentes.

Para a Umbanda a mistura com o Candomblé traz a desfiguração de seus princípios religioso e de seus guias. Traz Orixás que não existem para ela e principalmente um oráculo desnecessário e trabalhos caros e grandes que só se justificam para pessoas que querem ganhar dinheiro de outros. Não existe nenhum benefício para a Umbanda com qualquer tipo de africanização uma vez que isso nunca fez parte e não adiciona nada à ela.

Para o Candomblé a agregação dos guias de Umbanda incorporados é a negação de toda a sua religiosidade africana. É o rompimento com suas raizes africanas e a sua amarração a um modelo feito unicamente para distorcer sua teologia, atender a egos e interesses mercantilistas. Não existe vida ou futuro para o Candomblé misturado com a Umbanda. A presença de Exus e Pombo-giras de Umbanda no candomblé a a sua morte.

Como coloquei no início desse texto, a mistura da umbanda dentro do Candomblé trazendo a incorporação de guias que são elementos impossíveis de serem absorvidos seja pela teologia seja pela prática litúrrgica é o ovo da serpente que irá destruir o Candomblé. A figura de metáfora é extraída do filmo homônimo de Igmar Bergman, Hoje podemos olhar isso como uma bobagem, um capricho de muitos, algo rizível,  como um ovo normal, mas se colocarmos contra a luz veremos dentro a serpente se formando, que quando nascer vai nos destruir. 
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domingo, julho 04, 2010

As diferenças entre Umbanda e candomblé

As diferenças entre Umbanda e candomblé

Este texto é parte de um material maior que será publicado em 4 partes. O material integral vai estar disponível para download na forma de PDF em algum sítio público. Esta é a parte III

Conforme já descrevemos em termos religiosos estamos tratando de duas religiões diferentes. O catolicismo da Umbanda não tem qualquer vínculo com a teologia Yorùbá. Tudo é distinto. Não existe como conciliar a forma como essas 2 religiões vêem a vida. A adição do kardecismo em nada ajudou, pelo contrário, a forma como o Kardecismo entende o nosso destino e a encarnação são mais do que diferentes, são contrárias ao entendimento Yorùbá.

Dessa forma entendo que se não existe ecumenismo possível na visão religiosa, não é também possível sincretizar a prática de 2 religiões. As diferenças entre Umbanda e Candomblé, uma uma religião brasileira outra uma religião afro-brasileira, iniciam na incompatibilidade de como as duas religiões orientam a vida de seus fiéis.

Se você se considera seguidor da religião da Umbanda vai interpretar que sua vida atual é permeada pelos erros e acertos das suas vidas anteriores, mas, principalmente dos erros. Os erros em vidas passadas justificam quase todos os problemas que tem e a vida é de fato um lugar de sofrimento e provações. Não devemos fugir aos nossos problemas, devemos encará-los, suportá-los e encerrar esse Karma de uma vez por toda, para mais rapidamente podermos atingir uma evolução espiritual que nos permita não mais encarnar. A nossa encarnação se dará de forma aleatória e podemos encarnar em qualquer lugar do mundo que seja adequado para cumprirmos essa missão de nunca mais encarnar.

Na religião Yorùbá, reencarnamos porque temos um objetivo, um plano de vida. Nos ajoelhamos junto a Olodumare, Deus, para pedir a ele que nos de os recursos para atingirmos esses objetivos de vida. Vamos reencarnar sempre na mesma família ou melhor em linhagens sucessivas da mesma raiz (que ao longo do tempo vai se ampliando, é claro). Nós encarnarmos devido aos objetivos que queremos alcançar e ao fato que gostamos de viver e, mais, gostamos de viver com nossa família. Devemos viver de forma correta e sermos úteis à nossa família e sociedade, mas, não buscamos sofrer. A astúcia pode solucionar muitos problemas. Ganhar e perder não é um problema, ruim de fato é interferir no destino de alguém. Não existe conceito de Karma mas existe sim a prestação de contas para Olodumare em relação as nossas obras em nossa vida e uma existência negativa pode levar a punições.
Isso que eu descrevi não é bobagem religiosa, mas mostra uma forma muito distinta de encarar a vida. Se você se considera de fato religioso não pode conviver simultaneamente com formas tão distintas de encarar o viver. 

Tanto a Umbanda como o Candomblé são fortemente baseados em uma musicalidade, assim como muitas religiões hoje em dia, a música, como se diz do canto gregoriano, ele é uma forma de se chegar a Deus, ou a manifestação dele. Mas, no Candomblé, inicialmente temos que lembrar que essa musicalidade é feita exclusivamente em Yorùbá, usando ritmos africanos. O Candomblé é bastante “gregoriano” em sua essência porque tudo é musical, das cantigas às rezas. Esse sem dúvida, é um aspecto bem africano. 

As cantigas do Candomblé são as mesmas que foram aprendidas há muitos anos, desde sua formação. Não se criam novas cantigas, são reproduzidas aquelas que foram trazidas de África, no que pese algum variação devido a problemas de transmissão. 

A Umbanda trabalha também com cantos, pontos de Umbanda, mas todos em português. Os cantos foram compostos aqui no Brasil, são renovados e adaptados e não tem nenhuma versão africana. Para quem conhece a percução que acompanha a Umbanda é muito distinta do Candomblé. Na Umbanda bate-se com as mãos no Candomblé com varetas o que cria uma grande distinção entre os 2 tambores.

As formas de trabalho são muito distintas. No Candomblé os toques são feitos nos chamados Xires, ou candomblé propriamente dito. Nessas ocasiões a casa é aberta ao público externo que irá assistir ao desenvolvimento do Xire, uma dança circular na qual são louvados todos os Orixás do Candomblé. É utilizada uma seqüência pré-determinada na qual cada Orixá é louvado,com pelo menos 3 cantos. Os membros da casa cantam e dançam para cada Orixá, que além de suas próprias cantigas, têm uma dança própria e característica para a Cantiga ou para o Orixá em geral. O Xirê quando bem executado é um espetáculo estético muito bonito, com muitas sutilezas e sofisticações. A riqueza do Orixá não esta na sua vestimenta mas sim na grandeza como ele é louvado através de canto e dança.

O Xire se desenvolve por todo o período da festa e pode ser entendido por muitos como um formato bastante monótono. Nenhuma interação existirá entre os visitantes e os Orixá durante o Xirê, apenas se assiste às danças e as manifestações dos Orixás dançando. Não existem conversas ou consultas. Em cada Xirê um ou mais Orixás podem se manifestar rápida ou demoradamente. Quando demorado aquele Orixá será vestido e irá dançar no Salão entre 14 e 21cantigas. Sempre é um espetáculo bonito mas, como citei monótono para muitos. No Candomblé se entende que dessa forma o Axé, a energia vital que nos move esta se manifestando. Os tambores criam uma área cinzenta de interseção entre 2 mundos distintos, o Àiyé nosso espaço físico e o Òrun o nosso espaço espiritual permitindo que os Orixás se manifestem nas pessoas especialmente preparadas para isso, os Elegun. Esse movimento de canto e dança junto com a presença dos Orixás faz esse axé se movimentar e se manifestar.

Na Umbanda as giras ocorrem sempre com música, mas, a presença da Dança é muito pouco relevante para os médiuns. Os guias manifestados tem cada um um pé de dança e isso sem dúvida é muito importante demonstrando a firmeza da sua manifestação, mas os médiuns não participam disso. Toda a música e preparação é para fazer com que as incorporações ocorram.

Os guias uma vez incorporados estarão disponíveis para serem procurados e procurarem os visitantes de maneira a tratar dos seus problemas. Essa conversa é feita normalmente com as cantigas em andamento e cada um trata de um assunto com a privacidade permitida pelo barulho ao redor. As pessoas que visitam um centro de Umbanda vão com o objetivo de falar com guias de Umbanda, pedir ajuda e receberem orientações de como devem proceder em sua vida. A presença de uma pessoa em um centro de Umbanda se dá ou porque ela é parte do corpo mediúnico ou porque ela vai se consultar com algum guia, não existe a ida a um centro para basicamente ouvir músicas e ver médiuns e guias dançarem.

No Candomblé se você tem alguma consulta a fazer a sua porta de entrada é única, será através do babalorixá da casa através do Jogo de Búzios. Não existem consultas com Orixás e todas as mensagens do plano espiritual serão transmitidas pelo babalorixá no exercício do seu oráculo, o Jogo de Búzios. Dessa consulta poderão vir a orientações, explicações e os trabalhos a serem feitos. Qualquer ação no Candomblé depende da realização de um trabalho, uma oferenda. A base da solução de problemas é a troca e reposição de Axé e isso é feito a partir da oferenda que é feita. Quem determina o que deve ser oferecido e a quem deve ser oferecido é o babalorixá através do seu Jogo de Búzios.

Todo o trabalho no Candomblé é feito fora das festas e Xires. A ocasião do Xirê é normalmente o fim de muito trabalho que se deu ao longo de dias e dias. No Xirê somente se comemora o fim e se confraterniza com a comunidade. Os trabalhos em uma casa de Candomblé são feitos à portas fechadas e somente com os membros qualificados para isso. 

Na Umbanda a maior parte das coisas se resolvem com pedidos aos guias que se contentam com uma agrado como uma vela, uma flor ou uma pequena oferenda, mais como parte do pedido do que necessariamente como instrumento para solucionar o problema. Os guias podem em princípio resolver tudo baseado na sua capacidade e nos pedidos que recebem, o que pedem em troca é muito simples e basicamente simbólico. As consultas são atendidas por todos os guias de todos os médiuns, não existe concentração no líder da casa. O pai de santo ou zelador de santo, tem a responsabilidade de cuidar do funcionamento da casa e de acompanhar o trabalho dos médiuns e guias, mas a estrutura de trabalho é completamente descentralizada e cada guia com o tempo cria um conjunto de consulentes que o procuram.

Os tipos de espíritos que se manifestam na Umbanda e Candomblé são muito distintos. No Candomblé se manifestam os Orixás que são divindades ligadas diretamente a Olodumare. Não existem falanges ou linhas, e a incorporação de um Orixá é bastante distinta da de um guia de Umbanda. Um médium não tem como confundir as 2 coisas ou entender que um Orixá de Candomblé é o mesmo que um guia de Umbanda, mesmo os que são chamados de “Orixá”.

Os guias de Umbanda são considerados no Candomblé um tipo de Egun ou um Ara orun. Um espírito de alguém que já viveu. Os Orixás são uma forma muito distinta disso, como divindades não são espíritos ligados a terra e não tiveram vidas anteriores. Exceção a isso são os ancestres divinizados, mas que o processo de divinização os transforma em Orixás autênticos.

Essa distinção não é apenas conceitual, como já mencionei a incorporação dos 2 tipos de espíritos, Orixá de Candomblé e guia de Umbanda é muito diferente uma da outra. Um nome igual não faz os espíritos se manifestarem da mesma maneira. No Candomblé todo o trabalho desde a feitura do iniciado é para afastar os eguns. O Candomblé não trabalha com eguns e o ensinamento é que onde tem Orixá não tem egun. O mesmo vale para as casas onde existe o culto de egun, onde tem egun não tem Orixá

A ética na religião do Candomblé

O candomblé é considerado por muitos uma religião sem ética e sem moral, na qual tudo pode, na qual não existe pecado ou punição. 

 
Eu discordo em parte dessas afirmações. Por um lado eu não posso ignorar que muitos dos que fazem essas afirmações se baseiam naquilo que ouvem da boca de pessoas que se dizem do Candomblé, aliás, Iyalorixas antigas. Por outro lado existe um aspecto conceitual e outro pratico que mostram justamente o contrário.

Minha posição é que as pessoas que fazem essas afirmações e que contribuem para essa noção de falta de ética, são de fato uns idiotas, gente ignorante que não procurou aprender sua própria religião.

Esse assunto me veio pela primeira vez quando estava pesquisando justamente sobre a questão da moralidade e li vários capítulos do livro do Reginaldo Prandi, Os Candomblés de São Paulo, livro esse que pode ser baixado legitimamente na forma de PDF, acessando o site do próprio autor. No livro o mesmo comenta bastante sobre isso através da transcrição de entrevistas de pessoas de candomblé, babalorixá e iyalorixá, nas quais eles afirmam isso: a religião não ter ética e tudo pode ser feito, como se fosse um grande feito, inclusive. Na verdade essa posição existe apenas para ocultar e justificar a canalhice que eles fazem no dia a dia, com se fosse um elemento da religião que dizem pertencer. 

 
Depois desse choque eu passei a prestar a atenção nos programas de rádio, entrevistas e outras fontes para poder aprofundar um pouco nisso para poder tirar algumas conclusões próprias.
  
Para aqueles que se decepcionam com esse mito de imoralidade, eu gostaria de dizer a vida em um terreiro mostra justamente o contrário.
  
Existem inúmeras regras de comportamento para todos e especialmente para iniciantes. A gente aprende e é obrigado a praticar algo que já esqueceu na vida comum que é respeitar incondicionalmente uma pessoa mais velha, seja por anos de obrigação ou mesmo por idade, a gente aprende a dar valor a pessoas mais velhas porque elas no candomblé são as que adquiriram o conhecimento e tem então a oportunidade e missão de ensinar aos demais e mais novos, a gente aprende a se submeter a hierarquias e cargos, o que muitas pessoas não fazem em sua vida normal nem mesmo na família, a gente aprende a se comportar, a ser humilde, a reservar dias, a reservar comportamentos, alimentos, fazer silêncio, obedecer regras de ética de vesturário, receber privilégios com o tempo, valorizar a idade e a experiência, e por ai vai. 
  
A vida em um terreiro é uma lição de ética, moral e comportamento. 
  
Haaaa, mas é claro que existem becos por ai onde nada disso é observado, ou pelo menos a parte de submissão a humildade e onde esse código de comportamento é usado apenas para impor autoridade de quem não tem ou de quem não é nada como pessoa ou não se sente nada e quando esta dentro aqueles 4 muros acha que vira rei, etc..
 
Isso não é candomblé, isso é um beco. 
 
Assim, a prática e não a teoria, me mostra que o Candomblé não pode ser associado a uma religião sem ética e moral. Não a religião.
 
Entretanto, mesmos nas casas mais tradicionais ainda existe uma linha de pensamento na qual o próprio babalorixá diz: não me interessa o que aquela pessoa faz do portão para foram, mas sim do portão para dentro. Lamento, minha opinião é que quem diz isso esta errado, muito errado. Sim importa sim o que a pessoa faz em qualquer lugar e em qualquer hora do dia. 
 
O candomblé não é um religião de igreja, você pratica ela todo o seu tempo. Não temos templo, o templo é o mundo e a gente esta com o orixá o tempo todo. Assim o comportamento de uma pessoa importa sim. Não existe o sentido secular, a separação entre o sagrado e o laico no candomblé.
 
A religião é a continuidade de nossa vida e o terreiro é apenas um momento em que as pessoas se reúnem. cerimônias podem ser feitas em qualquer lugar e alguns consideram que são até mais intensas quando se esta em contato com o mundo natural. 

Desta maneira uma pessoa não pode dizer que não interessa o que um adepto faz do portal para fora. Essa pessoa do portão para fora tem que ser a mesma do portão para dentro. 

 
Mais uma vez sou obrigado a dizer que pessoas que dizem que o que o membro de sua casa faz do portão para fora não o interessa é uma pessoa desinformada, não sabe o que se espera de uma religião e de um sacerdote.
 
Sob o ponto de vista conceitual para podermos entender a ética da religião a gente tem que se mirar em 2 coisas. A primeira é o conteúdo do ensinamento formal que esta nos ésé de Ifa e também nos itans, e mitos regionais. Essas histórias traduzem conceitos éticos e morais da religião.
 
O cuidado é não usar os mitos deturpados e estragados que circulam por ai e que servem apenas para transmitir e justificar vilanias.
 
Dessa maneira estudar esses mitos e itans é uma parte fundamental do aprendizado religioso. Nesse sentido as pessoas mais velhas são aquelas que aprenderam mais histórias e mesmo sem terem podido escrevê-las elas podem contar para os demais. Um mais velho legítimo é aquele que sempre atrai em torno de si pessoas mais novas ávidas por ouvirem suas histórias e casos e é um pessoa sempre com conhecimento para transmitir, mas conhecimento que não sejam apenas vaidades pessoais, porque também já vi muita gente que a única coisa que faz é repetir histórias sobre si mesmo.
 
Igualmente pessoas cuja única coisa que tem a contar são críticas, comentários pejorativos e patifarias que viu em outras casas é uma pessoa sem conteúdo que perde sua vida andando por lugares que não merecem a presença de ninguém. Eu penso assim, se você vai em um lugar e vê uma coisa ruim ou feia, a primeira coisa é, o que você esta fazendo lá? Se esta lá é igual aos demais. 
 
Mas, a moral e ética das histórias e versos não são uma coisa simples e previsível. É muito diferente da moral cristã e muito mais humana, muito mais permissiva a certos aspectos comuns da vida de todos. Ela não espelha pessoas santas e puras e sim pessoas normais que acertam e erram. A astúcia é uma coisa bastante permitida.
 
Eu posso afirmar que em todas as histórias que li nunca vi nada que mostrasse um exemplo de comportamento que não fosse ético ou digno. Pelo contrário é exigido que as pessoas sejam de fato corretas e úteis para a família e sociedade.

Assim não consigo encontrar justificativa para a classificação de aética e amoral do candomblé. Eu entendo sim que existem pessoa aéticas e amorais que são babalorixás e iyalorixas e que espalham por ai besteiras e nulidades. Na verdade mercadores de feitiçaria, gente que nas histórias que li sempre eram as pessoas ruins, não as boas. Essas pessoas que vendem facilidades e prosperidades que elas mesmas não tem em seus feitiços furados são as que menos interessam por qualquer ética e moral.

Outro aspecto da moral é o qual seria moral da sociedade yoruba e que se reflete na religião e nos mitos regionais. Isso é natural em qualquer religião, a sociedade que a gerou influencia a sua ética. Da mesma maneira tudo o que eu pude observar sobre a ética da sociedade, e fiz algum esforço nisso apontam para o reflexo que temos nos ésé e itan.

Essa é minha visão. Reconheço que o mundo conspira contra ela e que a atitude das pessoas é que conduz a essa classificação amoral. Reputo isso ao despreparo dos que tem cargo e também a conveniência de ter justificativa para fazer o que quiser.

Muitos devem saber que existe um mau comportamento de pessoas que entram para um terreiro, fazem o mínimo de obrigações e abrem sua casa. A maior parte não busca nem aprender, seja por falta de esforço ou de interesse os mitos da tradição oral. Gostam de dizer que o Candomblé é uma tradição oral apenas para justificar o fato que não querem buscar conhecimento que não tem. Muitos vem de umbanda e trazem uma carga de conceitos católicos e espíritas e se consideram espíritas, acreditam naquela bobagem de karma, etc..

O problema com esse grupo é que procuram usar os conhecimentos de outras religiões porque não procuram os da sua, mas reagem a ética e moral dessas religiões porque são do candomblé. Eu acho que já que elas são candomblecistas-espíritas que usem também o evangelho deles, fica mais coerente.

segunda-feira, março 29, 2010

Abikú Elere e emere, os nascidos para morrer, um mistério da religião

Abikú
Elere e emere, os nascidos para morrer, um mistério da religião

Só mesmo um grande mestre como Pierre Verger para nos tirar da ignorância sobre este tema, através da sua pesquisa e coragem, cujo legado será eterno.

Se uma mulher, em país yorubá dá à luz uma série de crianças natimortas ou mortas em baixa idade, a tradição reza que não se trata da vinda ao mundo de várias crianças diferentes, mas de diversas aparições do mesmo ser (para eles, maléfico) chamado àbíkú (aquele que nasce e morre) que se julga vir ao mundo por um breve momento para voltar ao país dos mortos, órun (o céu), várias vezes.

Ele passa assim seu tempo a ir e voltar do céu para o mundo sem jamais permanecer aqui por muito tempo, para grande desespero de seus pais, desejos de ter os filhos vivos.
Essa crença se encontra entre os Akan, onde a mãe é chamada awomawu (ela bota os filhos no mundo para a morte). Os ibo chamam os abikú de ogbanje, os hauças de danwabi e os fanti, kossamah.

Encontramos informações a respeito dos abikú em oito itans (histórias) de Ifá, sistema de adivinhação doa Yorùbá, classificados nos 256 Odù (sinais de Ifá). Essas histórias mostram que os abikú formam sociedades no egbá órun (céu), presididas por iyàjansà (a mãe-se-bate-e-corre) para os meninos e olókó (chefe da reunião) para as meninas, mas é Aláwaiyé (Rei de Awaiyé) que as levou ao mundo pela 1ª vez na sua cidade de Awayié. Lá se encontra a floresta sagrada dos abikú, aonde os pais de abikú vão fazer oferendas para que eles fiquem no mundo.

Quando eles vem do céu para a terra, os abikú passam os limites do céu diante do guardião da porta, oníbodé órun , seus companheiros vão com ele até o local onde eles se dizem até logo. Os que partem declaram o tempo que vão ficar no mundo e o que farão. Se prometem a seus companheiros que não ficarão ausentes, essas crianças apesar de todo os esforços de seus pais, retornarão, para encontrar seus amigos no céu.

Os abikú podem ficar no mundo por períodos mais ou menos longos. Um abikú menina chamada "A-morte-os-puniu" declara diante de oníbodé órun que nada do que os seus pais façam será capaz de retê-la no mundo, nem presentes nem dinheiro, nem roupas que lhes ofereçam, nem todas as coisas que eles gostariam de fazer por ela atrairiam os seus olhares nem lhe agradariam.

Um abikú menino, chamado Ilere, diz que recusará todo alimento e todas as coisas que lhe queiram dar no mundo. Ele aceitará tudo isto no céu.

Quando Aláwaiyé levou duzentos e oitenta abikú ao mundo pela primeira vez, cada um deles tinha declarado, ao passar a barreira do céu, o tempo que iria ficar no mundo. Um deles se propunha a voltar ao céu assim que tivesse visto sua mãe; um outro, iria esperar até o dia em que seus pais decidissem que ele casasse; um outro, que retornaria ao céu, quando seus pais concebessem um novo filho, um ainda não esperaria mais do que o dia em que começasse a andar.

Outros prometem à iyàjanjasà, que está chefiando a sua sociedade no céu, respectivamente, ficar no mundo sete dias, ou até o momento em que começasse a andar ou quando ele começasse a se arrastar pelo chão, ou quando começasse a ter dentes ou ficar em pé.

É assim que nessas quatro histórias encontramos oferendas que comportam um tronco de bananeira acompanhado de diversas outras coisas. Um só dos casos narrados, o terceiro, explica a razão dessas oferendas:

"Um caçador que estava à espreita, no cruzamento dos caminhos dos abikú, escutou quais eram as promessas feitas por três abikú quanto à época do seu retorno ao céu."

"Um deles promete que deixará o mundo assim, que o fogo utilizado por sua mãe, para preparar sua papa de legumes, se apague por falta de combustível. O segundo esperará que o pano que sua mãe utilizar, para carregá-lo nas costas se rasgue. A terceira esperará, para morrer, o dia em que seus pais lhe digam que é tempo de ele se casar e ir morar com seu esposo."

"O caçador vai visitar as três mães no momento em que elas estão dando à luz a seus filhos abikú e aconselha à primeira que não deixe se queimar inteiramente a lenha sob o pote que cozinha os legumes que ela prepara para seu filho; à segunda que não deixe se rasgar o pano que ela usar para carregar seu filho nas costas, que utilize um pano de qualidade diferente; ele recomenda, enfim à terceira, de não especificar, quando chegar a hora, qual será o dia em que sua filha deverá ir para a casa do seu marido."

As três mães vão, então consultar a sorte, Ifá, que lhes recomenda que façam respectivamente as oferendas de um tronco de bananeira, de uma cabra e de um galo, impedindo, por meio deste subterfúgio, que os três abikú possam manter seu compromisso. Porque, se a primeira instala um tronco de bananeira no fogo, destinado a cozinhar a papa do seu filho, antes que ele se apague, o tronco de bananeira, cheio de seiva e esponjoso, não pode queimar, e o abikú, vendo uma acha de lenha não consumido pelo fogo, diz que o momento da sua partida ainda não é chegado. A pele de cabra oferecida pela Segunda mãe serve para reforçar o pano que ela usa para levar seu filho nas costas; a criança abikú não vai achar nunca que esse pano se rasgou e não vai poder manter sua promessa. Não se sabe bem o porque do oferecimento de um galo, mas a história conta que quando chegou a hora de dizer à filha já uma moça, que ela deveria ir para casa do seu marido, os pais não lhe disseram nada e a enviaram bruscamente para a casa dele. Nossos três abikú não podem mais manter a promessa que fizeram, porque as circunstâncias que devem anunciar sua partida não se realizaram tais como eles tinham previsto na sua declaração diante de oníbodé órun. Estes três abikú não vão mais morrer. Eles seguiram um outro caminho. Comentamos esta história com alguns detalhes porque ilustra bem o mecanismo das oferendas e de sua função. Não é o seu lado anedolíco (de lenda) que nos interessa aqui, mas a tentativa de demonstração de que em país Yorùbá, a sorte (destino) pode ser modificada, numa certa medida, quando certos segredos são conhecidos.

Entre as oferendas que os retêm aqui, na terra, figuram, em primeiro plano, as plantas litúrgicas. Cinco delas são citadas nestas histórias:


  • Abíríkolo (crotalaria lachnophera, papilolionacaae)

  • Agídímagbayin (não identificada)

  • Ídí (terminalia ivorensis, combretacae)

  • Ijá àgborin (não identificada)

  • Lara pupa (ricinus communis - mamona vermelha)

Ainda mais duas plantas são frequentemente utilizadas para reter os abikú e que não figuram nessas histórias:

  • Olobutoje ( jatropha curcas, euphorbiaceae)

  • Òpá eméré ( waltheria americana, sterculiaceae).

A oferta dessas folhas constitui uma espécie de mensagem e é acompanhada por ofó (encantamentos).

Em país Yorùbá, os pais, para proteger seus filhos abikú e tentar retê-los no mundo, podem se dedicar a certas práticas, tais como fazer pequenas incisões nas juntas da criança e aí esfregar atin (um pó preto feito com osum, favas e folhas litúrgicas para esse fim) ou ainda ligar à cintura da criança um ondè, talismã feito desse mesmo pó negro, contido num saquinho de couro.

A ação protetora buscada nas folhas, expressa nas fórmulas de encantamento, é introduzida no corpo da criança por pequenas incisões e fricções, e a parte do pó preto, contida no saquinho do ondé, representa uma mensagem não verbal, uma espécie de apoio material e permanente da mensagem dirigida pelos elementos protetores contra os elementos hostis, sendo essa forma de expressão menos efêmera do que a palavra.

Em uma outra história, são feitas alusões aos xaorôs, anéis providos de guizos, usados nos tornozelos pelas crianças abikú , para afastar os companheiros que tentam vir buscá-los no mundo e lembrar-lhes suas promessas. De fato seus companheiros não aceitam assim tão facilmente a falta de palavra dos abikú, retidos no mundo pelas oferendas, encantamentos e talismãs preparados pelos pais, de acordo com o conselho dos babalaôs. Nem sempre essas precauções e oferendas são suficientes para reter as crianças abikú sobre a terra. Iyájanjàsa é muitas vezes mais forte. Ela não deixa agir o que as pessoas fazem para os reter e porá tudo a perder o que as pessoas tiverem preparado.

Contra os abikú não há remédios. Yiájanjàsá os atrairá à força para o céu. Os corpos dos abikú que morrem assim, são frequentemente mutilados. A fim de que, dizem, eles percam seus atrativos e seus companheiros no céu não queiram brincar com eles sobretudo para que o espírito do abikú, maltratado deste modo, não deseje mais vir ao mundo.

Essas criança abikú recebem no seu nascimento, nomes particulares. Alguns desses nomes são acompanhados de saudações tradicionais. Eles podem ser classificados: quer nomes que estabeleçam sua condição de abikú; quer nomes que lhes aconselham ou lhe suplicam que permaneçam no mundo; quer em indicações de que as condições para que o abikú volte não são favoráveis; quer em promessas de bom tratamento, caso eles fiquem no mundo. A frequência com que se encontra, em país yorubá, esses nomes em adultos ou velhinhos que gozam de boa saúde, mostra que muitos abikú ficam no mundo graças, pensam as almas piedosas, a todas essas precauções, à ação de Òrúnmìlà, e à intervenção dos babalaôs.

ALGUNS NOMES DADOS AOS ABIKÚ

Aiyédùn - a vida é doce
Aiyélagbe - Nós ficamos no mundo
Akúji - O que está morto, desperta
Bánjókó - Senta-se comigo
Dúrójaiyé - Fica para gozar a vida
Dúróoríìke - Fica, tu serás mimada
Èbèlokú - Suplica para que fique
Ilètán - A terra acabou (não há mais terra para enterra-lo)
Kòjékú - Não consinta em morrer
Kòkúmó - não morra mais
Kúmápáyìí - A morte não leva este daqui
Omotúndé - A criança voltou
Tìjúikú - Envergonhado da morte (não deixa a morte te matar)

ITANS de IFÁ


  • É PRECISO CUIDAR DOS ABIKÚ, SENÃO ELES VOLTAM PARA O CÉU

  • OFERENDAS PODEM RETER ABIKÚ NO MUNDO

  • SUBTERFUGIOS PARA RETER OS ABIKÚ NO MUNDO

  • MOSETÁN FICA NO MUNDO

  • OLÓÌKÓ É O CHEFE DA SOCIEDADE DOS ABIKÚ

  • ASEJÉJEJAIYÉ FICA NO MUNDO NA DÉCIMA SEXTA VEZ QUE ELE VEM

  • OS ABIKÚ CHEGAM PELA PRIMEIRA VEZ EM AWAIYÉ

  • ÍYÁJANJÀSÁ NÃO DEIXA OS ABIKÚ FICAR NO MUNDO

Estes itens completos são descritos numa edição da revista Afro-Ásia, 14 – 1983, sob o título (A SOCIEDADE EGBÉ ÒRUN DOS ÀBÍKÚ, AS CRIANÇAS NASCEM PARA MORRER VÁRIAS VEZES)

As cerimônias para os abikú parecem ser pouco frequentes entre os yorubás, a única assistida por Pierre Verger, a cerimônia foi feita pela tanyinnon encarregada do culto aos deuses protetores de uma família tradicional do bairro Houéta. Num canto da peça principal, oito estatuetas de madeira com 20 centímetros de altura e eram colocadas sobre uma banqueta de barro.

Todos vestidos de panos da mesma qualidade, mostrando pela uniformidade de suas vestimentas, pertencer a uma mesma sociedade (egbé). Seis destas estatuetas representam ábíkús e as outras duas ibeji. As oferendas consistiam de oká (pasta de inhame) obèlá (espécie de caruru) èkuru (feijão moído e cozido nas folhas) eran dindi, eja dindin (carne e peixe fritos) que, depois da prece da tanyionnon e da oferenda de parte desta comida às estatuetas, foram distribuídas pela assistência. Uma sacerdotisa de Obatalá assistiu à cerimônia sublinhando as ligações que existem entre o orixá da criação, as pessoas de corpos mal formados, corcundas, alijados, albinos e aqueles cujo nascimento é anormal (àbíkú e ibeji).

Portanto ao contrário que muitos falam, nada tem a ver com a criança que já nasce "feita" no santo.

ABIKÚ - CONSIDERAÇÕES DO AUTOR NOS TEMPOS DE HOJE

O legado dos antigos pelas suas crenças, histórias e ritos da sua prática religiosa e cultural, se adaptam e se aplicam em qualquer tempo, através da sua sabedoria, com muita propriedade.

Em seu tempo, não há referências ao aborto, mas ao contrário, o esforço pela manutenção da vida, inclusive em quantidade. Pela prática divinatória através do jogo de búzios, nos dias de hoje identificamos muitos desses abikús , que percebemos em uma segunda instância, muitos são "criados", passam a existir por ingerência do ser humano através do aborto, é até simples de entender e ver por uma ótica e lógica astral/espiritual a qual simplesmente não podemos deletá-la da nossa mente e inteligência, ou na pior das hipóteses; ignorá-la: No instante em que o óvulo é fecundado pelo espermatozóide, esta nova matéria existente já é provida de alma e espírito, que os cristãos chamam de "anjo da guarda" e os yorubanos de "orixá" (guardião da cabeça), este fenômeno consta na teologia Yorubana, na lenda de Ajálá, que será comentada.

Quando da execução do aborto propriamente dito, o ser humano supostamente, exerce o "seu direito" de eliminar aquele ser; mas somente a parte material, o corpo, por ele criado através do ato sexual de procriação, matando de forma definitiva o feto. Mas e o que por ele não foi criado, alma e espírito, onde fica, para onde vai? Esta análise via de regra não é feita ou levada em consideração, acaso haverá consequencias? Seríssimas, que aqui descrevemos com muita convicção, pautado nas mais diversas constatações através dos consulentes, por mais de duas décadas, dos sintomas pós aborto, a presença daquela "figura" que aparece de uma forma genética, oriunda de gerações passadas, os que são provocados e voltam ainda na mesma geração, e os que voltarão em nossos descendentes, e da forma mais imprevisível possível. A grande maioria de seres que nascem com deformidades, doenças graves, mortes prematuras... tem grandes possibilidades de serem abikús fabricados pelo homem. Nos dias de hoje, quando morre uma criança ainda nova, há muita possibilidade de ser um abikú que está voltando ao "céu", bem como persiste a probabilidade de voltar em um próximo filho, ainda na mesma geração ou na próxima; quando uma criança fica muito doente e corre risco de vida, pode averiguar na família se já há caso de aborto ou morte prematura, é bem possível.

As reações, mais da mãe que do pai, em caso de aborto, porque muitas vezes o pai não fica sabendo e não participa da decisão, na sua vida, no seu dia a dia são sintomáticas: desequilíbrio generalizado, na vida pessoal, no trabalho, em casa, nos estudos, nada dá certo, nada vai bem, angustia, depressão, pessimismo, falta de ânimo, aparentemente tudo deveria estar bem, mas as coisas não "vão"; É a influência daquele "ser", que contrariando as leis da natureza foi "fisicamente" eliminado, o qual fica gravitando num outro plano próximo aos pais, afetando suas vidas com estes sintomas.

Até mesmo por uma questão de justiça, não poderá um abikú que foi "gerado" por uma família, aparecer em outra, que nada tem a ver com o ato irresponsável de outros, e percebemos que uma criança que já nasce deformada de alguma forma, ou uma doença grave com morte, quem sofre realmente na sua plenitude são os pais, porque a dor interna é maior que a dor física, a criança já nasceu daquela forma, para ela que não sentiu e não sabe ser saudável, não percebe e não imagina como se sente alguém normal, portanto a sua dor ou problemas, para si é normal.

Esta situação pode e deve ser tratada no seu campo espiritual, os antigos nos legaram instrumentos dentro da religião Yorùbá, para fazê-lo, através de ebós e oferendas específicas, que se vale do mesmo princípio aplicado nos países yorubanos, quer seja: "enganar" os abikús; Muito se pode melhorar e modificar, evidente que em alguns casos é irreversível após o nascimento, mas se detectado ou informado o babalorixá ou iyalorixá competente, pelo que foi descrito, a mãe que poderia vir a ter um filho abikú, por meio desses ebós e oferendas pode-se evitar a vinda de um ser deformado ou com problemas sérios, que na realidade, nada mais é que um "retorno sob forma de castigo" de atos nossos ou de gerações passadas, de um processo que nunca foi tratado ou interrompido.

Desta forma vê-se que o aborto é uma situação que transcende a ingerência das pessoas, pois é algo ligado diretamente à natureza, e consequentemente ao Seu Criador, modifica-se ou escapa da lei dos homens, mas não à Divina. Este é um
fato porque nenhuma religião da terra permite o aborto.

NOTAS DO COMPILADOR

Esse texto não é meu e estou apenas transcrevendo o que foi feito pelo autor original. A qualidade da pesquisa e comentários são muitos bons e estão refletidos na íntegra para a avaliação e meditação de todos, assim não modifiquei o texto.
Tenho também meus próprios comentários que faço separado para não misturar com o texto original do outro autor.

No mundo real que vivemos abiku tem sido usado para inúmeras marmotagens de maneira que a primeira coisa que as pessoas devem ter acesso e entender é a origem disso, eu esperava poder incluir aqui mais informações sobre o tema, tenho as fontes mas traduzir e compilar vai levar mais um tempo e isso ficará para depois. Originalmente abikú estava ligado a uma explicação metafísica para um evento do mundo real, mas, não era confundido com problemas normais como doenças e o outras anomalias da gravidez.

Confundir abiku com causas naturais foi ao meu ver um processo local. Primeiro por ignorância, as pessoas não conhecem e nem procuram entender toda a teologia que religião e seja pela preguiça ou por dificuldade vão fazendo ilações e conclusões baseadas na ausência de informação. Não quero dizer que estarei certo nas minhas considerações, apenas que o hábito normal é esse.

Outro problema é a reprodução da análise dos outros. Por falta da sua própria se reproduz o que alguém já disse à respeito e esse dito pode ter sido um engano, assim um erro é reproduzido à exaustão. É um fenômeno comum.

Existe em torno desse tema uma motivação espúria que é o uso disso para considerar que pessoas que não fizeram suas obrigações de orixá sejam consideradas como feitas. Isso é um indignidade por vários aspectos. O primeiro é que gente que nunca passou por ritos e sacrifícios inventa essa situação para justificar a sua falta de elementos e história. A outra é usarem isso para se ganhar dinheiro de pessoas que querem ter status sem passar pela obrigações.

Dessa maneira dizer que era abiku foi a saída de muita gente para não raspar a cabeça, ser recolhido, etc.. Os abikú se multiplicaram na sociedade como praga. Para isso inúmeras razões foram inventadas para eles existirem e até mesmo diversos tipos para qualificá-los como mais graves ou menos graves, os que eram fáceis de arrumar ou os difíceis, um horror.

Outro aspecto que temos que separar são as causas naturais para problemas de vida e gestação. Olódùmarè não nos garante uma estadia sem problema. Ele colocou os orixá aqui para nos socorrer e ajudar. Dessa maneira somos atacados pelos Ajogun, a doença entre eles. Mais ainda o mal esta sobre a terra, somos atacados por feitiçaria enviada por outras pessoas.

Problemas na gestação e morte no útero e no nascimento me são muito mais causas naturais ou da ação de ajé e seu pássaro. Assim as pessoas devem primeiro buscar proteção contra a feitiçaria e ajé. Além disso devem procurar a proteção de Oxun para a sua gravidez. Isso sempre esteve presente na sociedade Yorùbá e não podemos substituir uma preocupação normal de toda mulher por sua gravidez e a busca da proteção de Oxun para ela por uma maldição rara.

De tudo sobre a sociedade africana que eu li, achei muito pouco sobre medo com abikú. Eles se preocupam com a saúde e doenças como nós e a gravidez e natalidade são entendidas com preocupações similares. Assim usar abikú para explorar pessoas ou vender obrigações é uma vergonha, mas, é o que se faz. Assim aparece abiku com 30 anos de idade, enfim, uma idiotice.

Entendo também que uma criança é ou não abiku. Não existe o tal carrego de abikú, que se existir, pertence a mãe e não a criança. Entendo também que ter perdido uma gestação não faz com que a seguinte seja de abikú se nascer. Não é verdade isso. Também não é verdade que um abikú não possa ser babalorixá, apenas a sua preparação passará por outros cuidados. Um abikú é uma pessoa normal.

Outro ponto é a junção e confusão dos abiku com os gêmeos, esse isso um assunto muito mais interessante. A vida é uma coisa muito importante para os yoruba e eles observavam que no caso de gêmeos a mortalidade era maior. assim ter gêmeos era mau agouro e ninguém queria ter. Para um deles ter mais chances de sobreviver, um morria ou era morto, e feita uma imagem para lembrá-lo. Isso sim era terrível, mas não estava associado a nada de ruim na religião.

Dessa maneira um gêmeo morria e outro não e nem por isso eles seriam abikú, ou o que sobrou era abikú. A morte de um dos gêmeos era uma coisa natural, eles entendiam e procuravam evitar. Não gostavam da gestação e nascimento de gêmeos e nem por isso os chamavam de abikú,

Eu entendo que ter nascido gêmeo entre os Yorùbá por muito tempo significou ter o seu irmão morto, sem o transformar em abikú. Pelo que percebi os Yorùbá dão muito mais importância a isso, aos Ibeji do que aos abikú. Creio que eles entendem os abikú como uma praga um ibi que deve ser evitado.

Outro aspecto interessante é como os yoruba entendia essa questão de Ori. Os gêmeos causavam uma confusão na cabeça deles. Uns entendem que o ori de divide em 2, outro que eles não tem o ori no orun, o duplo, os 2 ori vivem juntos no aiye (sem um duplo no orun?) o que traz problemas sérios para eles e por isso justifique também sacrificar ou deixar morrer um deles. Para tri-gêmeos eu acho que eles não tem nem explicação


sexta-feira, março 05, 2010

A traição do Carneiro contra Oya
Olódúmarè : A mão que abençoa jamais pode amaldiçoar (Ogbè Ọ̀sá)

O texto a seguir foi retirado da tradição Cubana do Odù Ogbè Ọ̀sá. É um pataki sobre a traição do carneiro contra Oya, fato que definiu uma relação com abrangência sobre toda a religião.

O significado é muito rico e não se pode deixar de refletir sobre o seu conteúdo. Como toda metáfora, mais do que a estória que define a separação entre Oya e Carneiro, esse texto diz que uma mão que já abençoou uma outra jamais poderá amaldiçoar. Não se deve levantar a mão, ou acender uma vela que não seja para o bem de uma pessoa que o abençoou um dia. Isso define de uma forma muito definitiva a relação que deve existir entre pessoas nessa religião. É muito comum pessoas que foram muito ligadas se desentenderem e depois ficarem trocando issultos e feitiços.

Infelizmente essa é a grande ética que existe nos membros dessa religião. Contudo se a relação entre duas pessoas já foi maior do que apenas amizade se estamos lidando com filhos e padrinhos ou com filhos e babalorixás, então, jamais nem um nem outro deve levantar sua mão. Deixe para Olódúmarè resolver essa questão no julgamento dele.

Oya e o Carneiro foram uma vez os melhore amigos. Ela confiava a ele todo os seus pensamentos, seus medos e seus segredos. Até quando ela não tinha como contar com um Orixá, lá estava o Carneiro para ajudar e ela o amava acima de todas a coisas.

Os inimigos de Oya colocaram um prêmio por sua cabeça; Suas andanças pelo mundo causam problemas para eles e eles colocaram um prêmio por sua cabeça. O Carneiro ouviu rumores dos seus anseios, mas como a estória foi passando entre todos na terra, a estória mudou. O que o Carneiro ouviu foi que Olorun, ele mesmo, queria destruir Oya, e ele estava oferecendo o presente da imortalidade para aquele que a trouxesse ao seu palácio.

Em cobiça o Carneiro foi até Olorun e disse-lhe. "pai, eu tenho ouvido sobre seu ódio por Oya e eu posso trazê-la aqui para você. Eu posso enganá-la e você poderá ter a cabeça dela como você quiser".

Olorun ficou abalado. ele, também, tinha ouvido que Oya tinha grande inimigos que queriam a sua morte. Ele também tinha ouvida que entre todas as coisas sobre a face da terra a que ela mais amava era o carneiro. "- e como, Olorun perguntou, você será capaz de trazê-la para mim?".

"- É simples meu Pai", ele disse. " Oya confia em mim a sua vida, nós somos os melhores amigos que existe. Eu a trarei à você assim que você concordar em me dar o prêmio que ofereceu por ela" .

"- E o que poderia isso ser, carneiro?".

"- A vida eterna. Isto foi o que você prometeu, não é?"

Olorun ao ouvir isso ficou furioso, mas sua face estava calma. "- Carneiro, ele disse, traga Oya para mim e eu lhe darei o que deseja, vida eterna. Falhe e no lugar da cabeça de Oya eu irei ter a sua".

Ele dispensou o carneiro; tão logo o animal deixou seu palácio, Olorun transportou a si mesmo para a casa de Oya.
"- Oya, ele alertou-a, você tem muitos inimigos que desejam a sua cabeça. Mas, nenhum deles pode trair você como seu melhor amigo. O carneiro está vindo para entregar você nas mãos deles. Você não pode deixá-lo te destruir" .

"- Pai, ela disse desacreditando, certamente você está brincando. Ele é meu melhor amigo, aquele no qual eu acredito acima de todas as coisas".

"- Isto é verdade, Oya. Ele irá oferecer a você um lugar seguro e ao invés disso ele a trará até mim. Para, você ver, o carneiro acredita que eu quero a sua cabeça, e ele me veio hoje oferecer trazer você até mim. Em troca da sua cabeça ele quer a vida eterna".

A raiva soou como um sino dentro de Oya, tomando conta de si
e fazendo o seu sangue ferver. Olorun estava além da
mentira, mas o carneiro era o seu maior amigo. Ele sabia
todos os seus segredos. Os relâmpagos brilhavam em seus
olhos quando ela disse: "- Eu irei destruí-lo!".

"- Não Oya" ele a acalmou com sua voz gentil. "amigos jamais podem trair amigos e você não pode maldizer a quem um dia você abençoou. Quando o carneiro vir para trair você, você vá com ele. Mas antes coloque seus 9 ides de cobre em uma caixa. Assim que você chegar nos muros do meu palácio, sacuda a caixa vigorosamente e um enorme redemoinho ira descer do céu e tirar com segurança do caminho. Meus guardas irão prender o carneiro nos muros do palácio e eu mesmo irei puní-lo por esta traição. Ele sabe que o custo da falha e grande e eu mesmo irei tirar a sua cabeça com minhas mãos."

Olorun parou por um momento e então ele abraçou Oya. " Minha filha, os seres mortais fazem coisas estranhas devido a cobiça. Mas o carneiro sabe que você o ama. Talvez mesmo agora ele esteja repensando este seu plano vil. Talvez ele não venha. Talvez ela não trai você."

Ouve então ou ruidoso barulho na porta de Oya. "- É ele, disse Olorun, "Eu preciso ir", E sua figura se desmanchou no ar.

Oya abriu a porta, e o carneiro, agitado e desesperado por dentro, "Minha amiga", ele disse com sua voz embargada, " - seus inimigos estão vagando na floresta e são muitos. Ele irão vir aqui para matar você. Venho comigo e eu irei levá-la a um lugar seguro".

Ela controlou sua raiva e rapidamente disse "- Eu preciso pegar uma coisa primeiro" .

" Não temos tempo!"

MAs antes que ele pudesse dizer mais alguma coisa Oya estava em seu quarto. Ela colocou nove idé de cobre em uma caixa, como Olorun disse e montou nas costas do carneiro. " Certamente isto não está acontecendo, ela pensou, talvez... o carneiro esteja me pegando para levar longe de Olorun". Em um instante o Carneiro estava correndo pela floresta com Oya nas suas costas. O caminho familiar não deixou dúvida para Oya e ela finalmente acreditou que ele a estava levando para Olorun. Os portões do palácio cresceram na frente deles e Oya como Olorun havia instruido, sacudiu a caixa vigorosamente. Um imenso tornado desceu e levou Oya com ele para os céus, longe da visão do carneiro. Ele congelou. Assim que o tornado se foi ele foi rodeado pelos guardas de Olorun que o trouxeram diante do trono.

CARNEIO, gritou o normalmente gentil Olorun, " Você se envolveu em grandes crimes hoje. Você buscou destruir sua melhor amiga, aquela que o amava acima de todas as coisas. Você pensou que eu queria a cabeça de Oya. Eu a amo asim como amo todas as minhas crianças na terra. Oya tem muitos inimigos, isto é verdade, mas nunca eu fui o seu inimigo. Eu jamais poderia trair aquilo que eu uma vez abençoei.

A ira de Olorun cresceu e encheu a enorme sala. " Pelo motivo de você estar desejando entregar uma de minhas mais amadas filhas nas mão frias da morte, eu sentencio você carneiro à morte. Sua cabeça é minha assim como todas a cabeças pertencem a mim. Eu irei tomar a sua cabeça agora!.

Eu foi assim que o carneiro encontrou a morte devido à sua traição a Oya. Sua cabeça foi enviada aos inimigos de Oya como um sinal de Olorun que ele mesmo jamais iruia tolerar
que qualquer coisa fosse feito à ela. Os inimigos de Oya fugiram e ela nunca mais foi traída novamente.

Desde esta traição, Oya jamais estará na mesma sala com o carneiro que foi uma vez o seu melhor amigo, seu confidente e tentou destruí-la. Por causa desta estória, os filhos de Oya jamais coroarão filhos de Yemanjá e Xango e também estes Orixás poderão coroar filhos de Oya. O motivo não é uma guerra entre eles, mas o fato deles comerem carneiro. Assim em qualquer sala que exista uma Oya não poderá haver um assento cujo Orixá tenha comido carneiro.