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domingo, julho 04, 2010

A ética na religião do Candomblé

O candomblé é considerado por muitos uma religião sem ética e sem moral, na qual tudo pode, na qual não existe pecado ou punição. 

 
Eu discordo em parte dessas afirmações. Por um lado eu não posso ignorar que muitos dos que fazem essas afirmações se baseiam naquilo que ouvem da boca de pessoas que se dizem do Candomblé, aliás, Iyalorixas antigas. Por outro lado existe um aspecto conceitual e outro pratico que mostram justamente o contrário.

Minha posição é que as pessoas que fazem essas afirmações e que contribuem para essa noção de falta de ética, são de fato uns idiotas, gente ignorante que não procurou aprender sua própria religião.

Esse assunto me veio pela primeira vez quando estava pesquisando justamente sobre a questão da moralidade e li vários capítulos do livro do Reginaldo Prandi, Os Candomblés de São Paulo, livro esse que pode ser baixado legitimamente na forma de PDF, acessando o site do próprio autor. No livro o mesmo comenta bastante sobre isso através da transcrição de entrevistas de pessoas de candomblé, babalorixá e iyalorixá, nas quais eles afirmam isso: a religião não ter ética e tudo pode ser feito, como se fosse um grande feito, inclusive. Na verdade essa posição existe apenas para ocultar e justificar a canalhice que eles fazem no dia a dia, com se fosse um elemento da religião que dizem pertencer. 

 
Depois desse choque eu passei a prestar a atenção nos programas de rádio, entrevistas e outras fontes para poder aprofundar um pouco nisso para poder tirar algumas conclusões próprias.
  
Para aqueles que se decepcionam com esse mito de imoralidade, eu gostaria de dizer a vida em um terreiro mostra justamente o contrário.
  
Existem inúmeras regras de comportamento para todos e especialmente para iniciantes. A gente aprende e é obrigado a praticar algo que já esqueceu na vida comum que é respeitar incondicionalmente uma pessoa mais velha, seja por anos de obrigação ou mesmo por idade, a gente aprende a dar valor a pessoas mais velhas porque elas no candomblé são as que adquiriram o conhecimento e tem então a oportunidade e missão de ensinar aos demais e mais novos, a gente aprende a se submeter a hierarquias e cargos, o que muitas pessoas não fazem em sua vida normal nem mesmo na família, a gente aprende a se comportar, a ser humilde, a reservar dias, a reservar comportamentos, alimentos, fazer silêncio, obedecer regras de ética de vesturário, receber privilégios com o tempo, valorizar a idade e a experiência, e por ai vai. 
  
A vida em um terreiro é uma lição de ética, moral e comportamento. 
  
Haaaa, mas é claro que existem becos por ai onde nada disso é observado, ou pelo menos a parte de submissão a humildade e onde esse código de comportamento é usado apenas para impor autoridade de quem não tem ou de quem não é nada como pessoa ou não se sente nada e quando esta dentro aqueles 4 muros acha que vira rei, etc..
 
Isso não é candomblé, isso é um beco. 
 
Assim, a prática e não a teoria, me mostra que o Candomblé não pode ser associado a uma religião sem ética e moral. Não a religião.
 
Entretanto, mesmos nas casas mais tradicionais ainda existe uma linha de pensamento na qual o próprio babalorixá diz: não me interessa o que aquela pessoa faz do portão para foram, mas sim do portão para dentro. Lamento, minha opinião é que quem diz isso esta errado, muito errado. Sim importa sim o que a pessoa faz em qualquer lugar e em qualquer hora do dia. 
 
O candomblé não é um religião de igreja, você pratica ela todo o seu tempo. Não temos templo, o templo é o mundo e a gente esta com o orixá o tempo todo. Assim o comportamento de uma pessoa importa sim. Não existe o sentido secular, a separação entre o sagrado e o laico no candomblé.
 
A religião é a continuidade de nossa vida e o terreiro é apenas um momento em que as pessoas se reúnem. cerimônias podem ser feitas em qualquer lugar e alguns consideram que são até mais intensas quando se esta em contato com o mundo natural. 

Desta maneira uma pessoa não pode dizer que não interessa o que um adepto faz do portal para fora. Essa pessoa do portão para fora tem que ser a mesma do portão para dentro. 

 
Mais uma vez sou obrigado a dizer que pessoas que dizem que o que o membro de sua casa faz do portão para fora não o interessa é uma pessoa desinformada, não sabe o que se espera de uma religião e de um sacerdote.
 
Sob o ponto de vista conceitual para podermos entender a ética da religião a gente tem que se mirar em 2 coisas. A primeira é o conteúdo do ensinamento formal que esta nos ésé de Ifa e também nos itans, e mitos regionais. Essas histórias traduzem conceitos éticos e morais da religião.
 
O cuidado é não usar os mitos deturpados e estragados que circulam por ai e que servem apenas para transmitir e justificar vilanias.
 
Dessa maneira estudar esses mitos e itans é uma parte fundamental do aprendizado religioso. Nesse sentido as pessoas mais velhas são aquelas que aprenderam mais histórias e mesmo sem terem podido escrevê-las elas podem contar para os demais. Um mais velho legítimo é aquele que sempre atrai em torno de si pessoas mais novas ávidas por ouvirem suas histórias e casos e é um pessoa sempre com conhecimento para transmitir, mas conhecimento que não sejam apenas vaidades pessoais, porque também já vi muita gente que a única coisa que faz é repetir histórias sobre si mesmo.
 
Igualmente pessoas cuja única coisa que tem a contar são críticas, comentários pejorativos e patifarias que viu em outras casas é uma pessoa sem conteúdo que perde sua vida andando por lugares que não merecem a presença de ninguém. Eu penso assim, se você vai em um lugar e vê uma coisa ruim ou feia, a primeira coisa é, o que você esta fazendo lá? Se esta lá é igual aos demais. 
 
Mas, a moral e ética das histórias e versos não são uma coisa simples e previsível. É muito diferente da moral cristã e muito mais humana, muito mais permissiva a certos aspectos comuns da vida de todos. Ela não espelha pessoas santas e puras e sim pessoas normais que acertam e erram. A astúcia é uma coisa bastante permitida.
 
Eu posso afirmar que em todas as histórias que li nunca vi nada que mostrasse um exemplo de comportamento que não fosse ético ou digno. Pelo contrário é exigido que as pessoas sejam de fato corretas e úteis para a família e sociedade.

Assim não consigo encontrar justificativa para a classificação de aética e amoral do candomblé. Eu entendo sim que existem pessoa aéticas e amorais que são babalorixás e iyalorixas e que espalham por ai besteiras e nulidades. Na verdade mercadores de feitiçaria, gente que nas histórias que li sempre eram as pessoas ruins, não as boas. Essas pessoas que vendem facilidades e prosperidades que elas mesmas não tem em seus feitiços furados são as que menos interessam por qualquer ética e moral.

Outro aspecto da moral é o qual seria moral da sociedade yoruba e que se reflete na religião e nos mitos regionais. Isso é natural em qualquer religião, a sociedade que a gerou influencia a sua ética. Da mesma maneira tudo o que eu pude observar sobre a ética da sociedade, e fiz algum esforço nisso apontam para o reflexo que temos nos ésé e itan.

Essa é minha visão. Reconheço que o mundo conspira contra ela e que a atitude das pessoas é que conduz a essa classificação amoral. Reputo isso ao despreparo dos que tem cargo e também a conveniência de ter justificativa para fazer o que quiser.

Muitos devem saber que existe um mau comportamento de pessoas que entram para um terreiro, fazem o mínimo de obrigações e abrem sua casa. A maior parte não busca nem aprender, seja por falta de esforço ou de interesse os mitos da tradição oral. Gostam de dizer que o Candomblé é uma tradição oral apenas para justificar o fato que não querem buscar conhecimento que não tem. Muitos vem de umbanda e trazem uma carga de conceitos católicos e espíritas e se consideram espíritas, acreditam naquela bobagem de karma, etc..

O problema com esse grupo é que procuram usar os conhecimentos de outras religiões porque não procuram os da sua, mas reagem a ética e moral dessas religiões porque são do candomblé. Eu acho que já que elas são candomblecistas-espíritas que usem também o evangelho deles, fica mais coerente.