Pesquisar este blog

segunda-feira, julho 05, 2010

O malefício da sincretização da Umbanda no candomblé

Este texto é parte de um material maior que será publicado em 4 partes. O material integral vai estar disponível para download na forma de PDF em algum sítio público. Esta é a parte iv

Com o passar do tempo o Candomblé começou a ganhar espaço e ser aceito no meio da sociedade. A sociedade passou a olha-lo como uma opção de pratica religiosa e este saiu do contexto de afirmação do negro para se tornar um produto de consumo geral. Sem a perseguição policial as casas puderem estabelecer o seu culto da forma como queriam. Novas casas passaram a ser abertas e as pessoas perderam o medo de se aproximar do candomblé. 

Por muito tempo o Candomblé foi considerado como sinônimo de feitiçaria e maldade, certamente ganhou essa fama através de seus próprios méritos, mas, à medida em que as pessoas tomaram contato com ele descobriram um outro lado disso e o Candomblé perdeu grande parte de seu manto negativo e de discriminação.

No passado, em determinado momento, a perseguição ao Candomblé permanecia mas abriu-se uma tolerância à Umbanda, depois do estado novo principalmente. As pessoas concentraram sua atenção então na Umbanda e foram as casas de Umbanda que se multiplicaram em progressão geométrica. 

Contudo, à medida em que a sociedade evoluiu e o candomblé se libertou da perseguição o fluxo lentamente se inverteu. As pessoas passaram a identificar o Candomblé como um segredo a ser explorado. Era pouco conhecido, cheios de mistérios, novos nomes a serem descobertos, novos segredos e uma religião diferente com uma teogonia muito atrativa e diferente da teogonia católica e também da Umbanda que as pessoas já estavam tão acostumadas.

Ajudaram nisso os antropólogos que elaboraram teses a respeito do Candomblé e livros que mostravam uma outra face da religião, muito mais atrativa e interessante e que captou a atenção das pessoas. Antigamente só se viam livros de feitiços e ebós, mas com o Candomblé surgiu na literatura com qualidade e conteúdo. Havia história real, mitos, origens e conteúdo religioso para ser digerido.

Hoje em dia o Candomblé já se desfez da questão negra. As casas possuem uma população que reflete a nossa própria população e brancos, mestiços e morenos tomaram as casas de alto a baixo.

O Candomblé invade a Umbanda

Com esse processo de abertura muitas casas de Umbanda passaram a se “africanizar” sincretizando e inserindo novos aspectos do Candomblé à Umbanda. Este não é um processo de restauração porque nada indica que a Umbanda tenha qualquer base africana ou a ganhar com essa africanização. É de novo mais um das centenas de processos de sincretização que a Umbanda inicia onde normalmente se absorve aspectos estéticos e superficiais.

Essa mistura horrenda, de Umbanda com Candomblé, não é de agora, já existia muito antes nas casas que se intitulavam de omolocô, ou pior ainda de Umbanda cruzada, riscada ou seja lá como chamavam. Mas tudo é a mesma coisa.

O fato é que isso tudo, essa mistura em qualquer grau de Umbanda e Candomblé é o que se chama hoje, pejorativamente de Umbandoblé. As pessoas tentam diminuir isso, aliviar, dizer que a sua é diferente, que é feita na medida certa, que não misturam ou deturpam, que tem espeços diferentes, dias diferentes, etc.. Cada um acha que tem a razão, mas, tudo isso é inútil. Toda essa mistura em qualquer grau é Umbandomblé e é nocivo.

A Umbanda ganhou com isso tons disformes. Sacrifícios que nunca fizeram parte da Umbanda foram incorporados, ritos eram criados, cargos inexistentes distribuidos (estabelecendo uma hierarquia que não existia na Umbanda), liturgias enriquecidas com o que não necessitavam. Observem que, se a Umbanda tem capacidade de fazer o seu trabalho sem essa parafernália, ou melhor, que sempre teve capacidade de fazer sem isso, por que adicionar elementos do Candomblé na Umbanda onde não existe nenhuma base histórica ou religiosa? Esses elementos nunca foram necessários ou pertenceram a Umbanda.

A inserção disso não visa atender a qualquer necessidade religiosa porque a Umbanda não é baseada em nenhuma parte da teologia Yorùbá. A Umbanda tem a sua teologia própria. O que se adiciona então é apenas decorativo, estético, mesmo resultado do sincretismo histórico da Umbanda, enfim, só vaidade.

Fios de conta foram alteradas, cores mudadas, assentamentos que não existiam criados, sangue, que nunca foi necessário, passou a ser usado. A pretensa africanização serve apenas para prejudicar a Umbanda afastando ela dos seus próprio ideais. Assim observem, se a teologia Yorùbá é incompatível com a da Umbanda, se estética africana não adiciona nada de importante e se os guias que trabalham na Umbanda não tem nenhum vínculo com orixás africanos, qual o sentido da Umbanda ganhar cores de Candomblé?

O resultado prático é apenas gente de Umbanda que se acha de Candomblé, ou seja, uma mentira dupla.

A Umbanda invade o Candomblé

Mas para o lado do Candomblé isso tem sido pior. A adição do Candomblé na Umbanda apenas torna a prática mais feia e confusa, mas os guias continuam a trabalhar como faziam. Mas no candomblé isso esta sendo muito, muito pior.

Começaram a aparecer casas de Candomblé onde guias de Umbanda trabalham incorporados, principalmente Exu e Pombo-giras. Para aqueles que não conhecem é necessário afirmar uma coisa que seria desnecessária ha anos atrás mas que hoje já se esta perdendo a referência, a de que esse tipo de guia jamais fez parte do Candomblé.

O Candomblé não incorpora guias e esses não falam, fumam e bebem nas seções dando consulta para a assistência. No Candomblé se manifestam Orixás de forma muito discreta, que dançam no Xire. Eles trazem o seu axé que circula na casa e também abençoam as pessoas. A comunicação entre mundo espiritual e mundo terreno é feita através do babalorixá da casa.

A presença dos guias de Umbanda no candomblé se deu por motivos muito simples e sem sentido religioso. Pessoas que eram de Umbanda decidem ir para o Candomblé e apesar de terem trocado de religião, uma troca que tem que se considerada radical porque não existe similaridade ou vínculo de uma com a outra, elas mantêm o trabalho com seus guias de Umbanda.

O motivo para isso ocorrer pode ser o resultado de muitas causas, mas podemos dividir em 2 grandes grupos, o primeiro aqueles que vão para o Candomblé com intenção de fazer isso e o segundo os que depois que foram para o Candomblé descobrem a besteira que fizeram e procuram resgatar a sua bobagem.

Ao meu ver o segundo grupo é o pior. O primeiro sabia o que estava fazendo o segundo são as meretrizes arrependidas.

A motivação é distinta, mas ambos acham que podem manter os guias que já tinham agregando-os ao candomblé sem perder tudo aquilo que fizeram no Candomblé. Para poder explicar mais esse processo teria que gastar algumas páginas relatando as muitas nuances desse processo, mas, isso não vai agregar ao tema. Não importa a intenção, o efeito que isso faz ao Candomblé é o que interessa aqui. Eu gostaria muito de poder descrever os muitos pensamentos idiotas que norteam essa decisão ou mudança de rumo, mas, fica para outra oportunidade. 

A conclusão é apenas uma, as pessoas levam para o Candomblé guias que não pertencem a ele e pior maculam a religiosidade do Orixá no Candomblé com o trabalho com eguns que não pode existir debaixo de uma cumieira de Candomblé. Eleguns que foram iniciados para um Orixá não podem mais trabalhar com guias de Umbanda, muito menos com Exus e Pombo-giras.

Eu gostaria de enfatizar que não faz a menor diferença as pessoas que incorporam esse guias como parte de suas liturgias como se fossem parte da religião daqueles que inventam desculpas para junto com o Candomblé manter a prática da Umbanda, fazendo isso em dias separados ou mesmo restringindo a festas e ritos periódicos para se lembrar ou homenagear a Umbanda. Não faz a menor diferença ambos estão errados. Não existe meio certo assim como não existe meio grávida.

Vamos abordar os efeitos negativos baseados em 3 eixos. O primeiro é o da religião, o segundo o da estrutura da pratica religiosa e por último o do compartilhamento do espaço.

Em relação a religião não existe nenhuma forma possível de ecumenismos entre o trabalho da Umbanda e o do Candomblé. Ambos tem finalidade distintas, formatos distintos e bases teológica e teogônica distintas. Não existe explicação que possa ser dada por um babalorixá para a presença na sua casa de um guia de Umbanda. Não existe na religião africana qualquer referência a esses espíritos e a única proximidade seria o culto dos egunguns, mas que jamais compartilha com o Candomblé o mesmo espaço.

No Candomblé existe o dogma de que onde tem orixá não tem Egun. Ambos espíritos ou energias não compartilham do mesmo espaço e os casos conhecidos onde alguma mistura de egungun e orixá ocorreu acabou pela extinção da casa de Candomblé. Dessa maneira existe um dogma religioso que afasta os 2 tipos de espíritos ou energias.

Uma casa de Candomblé somente tem espaço para a manifestação de orixá, tudo em sua fundação é preparado para isso e a religião gira em torno da presença e do trabalho junto aos orixás e à mudança através da transmutação do axé presente nas oferendas. Os problemas no Candomblé são resolvidos através de oferendas aos orixás. Os orixás não comem as oferendas, eles são divindades espíritos de nível elevado, eles irão transmutar os elementos físicos oferecidos em axé e esse axé será usado para equilibrar o axé do consulente. A palavras básica nessa religião é “equilíbrio”. Tudo se resolve assim.

Dessa maneira não existe espaço para pessoas se consultarem com guias pedindo favores e solução de problemas. No Candomblé não é assim que se resolvem as coisas, os problemas são resolvidos com joelhos e barriga no chão, ao pé de um orixá.

O segundo aspecto é o relativo a estrutura da prática da religião. A abordagem é diferente. No Candomblé é o babalorixá que trata dos assuntos das pessoas que o procuram. Ele faz isso baseado no seu conhecimento, no seu bom senso, na sua experiência e eventualmente se for necessário em alguma ferramenta oracular que pode ser apenas um obi ou um merindilogun. Fica claro que o baba/iyalorixa tem que ter a capacidade pessoal de lidar pessoalmente com as questões que lhe são trazidas e que para poderem exercer o cargo que ganharam e para o qual deveriam ter se preparado por anos.

Como um babalorixá me disse, ele nem sempre consulta oráculo sempre que uma pessoa o procura, muitas vezes ele apenas entende e conversa com a pessoa. Outro disse que quando atender alguém mesmo com o merindilogun gasta de 1 a 2 horas, porque a maior parte do tempo conversa com essa pessoa e não apenas "le" buzios.

Muitos podem questionar porque o Candomblé incorpora essa prática de consultas que é similar a Umbanda, mas, com finalidades distintas. Eu tenho que reconhecer que não gosto do termo e não gosto da associação de religião com consulta e cobrança por essa consulta de oráculo ou até mesmo conversa (já ouvi uma vez no rádio um desses babalorixá de rádio dizendo que se quiserem conversar com ele é só ir lá e pagar uma consulta), mas essa é apenas a minha opinião. 

Mas voltando ao tema, uma religião deveria se dedicar a tratar do espírito das pessoas com rezas e devoção. Sim, em princípio. Eu vi uma definição muito interessante que resolveu isso. Observe que no mundo laico a medicina ve o homem apenas como corpo. A psicologia moderna entende a alma como a psique e isso é tratado pela psicologia Freudiana ou Jungiana.

Já a maior parte das religiões místicas, nos veem como Corpo, alma e espírito. E apenas tratando do espirito podemos curar a alma. Assim uma religião cuida do espirito e trata da alma. Um babalorixá irá então tratar das doenças da alma através do espirito e isso é feito através dos ebós, dos odu, orixas, etc, buscando o equilíbrio (palavra chave dessa religião).
Existe também o conhecimento fitoterápico para tratar do corpo e isso pode até ser posto em prática por quem conhece. Hoje em dia em vista de restrições legais, da máfia de branco, acredito que o normal é que as doenças do corpo sejam tratadas pelos médicos.

Assim, uma pessoa vai encontrar em uma casa de santo um refúgio para tratar do seu espírito e equilibrar suas energias. Mas, como eu disse, isso no Candomblé é feito pelo babalorixá em pessoa. Na Umbanda é diferente quem atende, quem aconselha e quem é a autoridade em um centro é o guia. As pessoas vão na Umbanda para falar com o guia. A formação de um Pai de Santo de Umbanda é muito mais simples e prática. Em alguns anos ele vai desenvolver a sua mediunidade e são seus guias que vão trabalhar.

Então, são modelos muitos distintos. O que faz um exu ou pombo-gira em um Candomblé? Ele substitui o babalorixá ou fica aquela coisa de começar a falar com a pessoa e dizer que não pode mais falar, que ela procure o jogo do Pai de Santo? Dá um tempo!

Baseado nesses argumentos eu não vejo como podem conviver em uma mesma casa de Candomblé o Babalorixá e os guias de Umbanda, seus ou de seus seguidores (filhos de santo).

O último vetor é o compartilhamento do espaço. Aqui incluo os 2 espaços o físico e o espiritual. No meu entendimento uma casa de Candomblé não foi feita para abrigar debaixo de sua cumieira o trabalho de eguns, os guias de Umbanda. Tudo em uma casa é feito para ser um ambiente de Orixá e para abrigar o seu axé.

No mesmo dia seria impensado ter na mesma casa orixá e egun. Em dia diferentes muito menos ainda.

Mas mesmo que a casa mantenha 2 espaços distintos para essa prática, o que acho muito difícil, ainda resta o espaço final que é a cabeça e o corpo do elegun. O iniciado é feito e preparado para ser um instrumento do seu Orixá. É um longo trabalho de preparação e dedicação para a pessoa se purificar e renascer para o seu orixá.

Como esse espaço preparado para o Orixá irá então abrigar a energia do Orixá e do egun?

Conversas com iniciado e babalorixás que foram de Umbanda ou que de alguma maneira mantêm o contato com a Umbanda, feitos em lugares diferentes se sem conhecimento do assunto mostra que quando se esta em atividade de Orixá os guias de Umbanda se afastam. Os guias de Umbanda só retornam sua presença algum tempo depois de a atividade de orixá ter acabado, de maneira que uma casa que mantenha uma atividade regular com orixá não poderá ter espaço para guias de Umbanda trabalharem, ou seja, se isso ocorre um dos dois não esta ali de fato.

Se uma pessoa de inicia para orixá, seus guias de Umbanda de afastarão, a maior parte deles definitivamente. Outros poderão voltar se houver uma insistência em chamá-los, mas isso já será um desvio da coisa natural que é eles não estarem mais presentes.

A religiosidade do Candomblé, baseada em conceitos próprios esta sendo maculada e destruida pela inserção de pessoas que trabalham com guias de Umbanda. Existe o absurdo de vestirem Pombo-gira com paramentos de Orixá adaptados para elas. Iniciações para Orixá passam a incluir assentamentos de guias de Umbanda. Este tipo de coisa não existe no Candomblé, seja na prática ou na teologia, o que se está fazendo é trazer um câncer que vai aos pouco destruir toda essa religião.

A Umbanda vai sobreviver, sem dúvida. Ela sempre sobreviveu a cada sincretismo e esse será mais um sincretismo estético que vai se incorporar as dezenas de linhas existentes.

Para a Umbanda a mistura com o Candomblé traz a desfiguração de seus princípios religioso e de seus guias. Traz Orixás que não existem para ela e principalmente um oráculo desnecessário e trabalhos caros e grandes que só se justificam para pessoas que querem ganhar dinheiro de outros. Não existe nenhum benefício para a Umbanda com qualquer tipo de africanização uma vez que isso nunca fez parte e não adiciona nada à ela.

Para o Candomblé a agregação dos guias de Umbanda incorporados é a negação de toda a sua religiosidade africana. É o rompimento com suas raizes africanas e a sua amarração a um modelo feito unicamente para distorcer sua teologia, atender a egos e interesses mercantilistas. Não existe vida ou futuro para o Candomblé misturado com a Umbanda. A presença de Exus e Pombo-giras de Umbanda no candomblé a a sua morte.

Como coloquei no início desse texto, a mistura da umbanda dentro do Candomblé trazendo a incorporação de guias que são elementos impossíveis de serem absorvidos seja pela teologia seja pela prática litúrrgica é o ovo da serpente que irá destruir o Candomblé. A figura de metáfora é extraída do filmo homônimo de Igmar Bergman, Hoje podemos olhar isso como uma bobagem, um capricho de muitos, algo rizível,  como um ovo normal, mas se colocarmos contra a luz veremos dentro a serpente se formando, que quando nascer vai nos destruir. 
.