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sábado, agosto 01, 2015

Você tem que fazer o Orixá no Candomblé?

Você tem que fazer o Orixá no Candomblé?


Paradigmas para um novo Candomblé


versão 3


NÃO

Gostaria que minha resposta pudesse ser assim tão simples, mas, vou ter que escrever dezenas de linhas para explica-la.

Quero esclarecer que o texto não foi feito totalmente para neófitos. Foi feito para pessoas que conhecem ou que já estejam tomando conhecimento do Candomblé. Este é um assunto que deve ser discutido por essas pessoas.

O Candomblé está se tornando em nossa sociedade uma religião mais conhecida e aceita. Provavelmente mais aceita do que conhecida, mas, sem dúvida nenhuma, infinitamente mais difundida do que antigamente quando sua prática era localizada em guetos étnicos e o restante da sociedade aparecia como cliente ou convidados especiais.

Minha posição é que ele já deixou de ser identificado com uma etnia, apesar de ainda ter pessoas que usam a religião junto com sua causa étnica. Não confundam as coisas.

O Candomblé não pertence aos negros e muito menos aos africanos. O Candomblé é uma tradição religiosa brasileira, que está adaptado à nossa sociedade. Os africanos que estão vindo para cá do Benin e da Nigéria nada sabem sobre nosso Candomblé ou mesmo tem propriedade para falar sobre ele.

Esta religião é do povo brasileiro. Não se trata de um tipo de induismo ou judaismo que você tem que nascer indu ou judeu para fazer parte. O Candomblé pode fazer parte da vida de qualquer um. Ainda existem negros que podem achar que isso seja alguma coisa que pertença a eles. Esqueçam, não sabem de religião assim como não sabem de nada.

Quando o Candomblé saiu do escopo da polícia civil e virou religião aceita pelo estado, a população em geral começou a ter acesso à rica teogonia e teologia que esta religião possui. A religião Yorùbá é infinitamente mais rica se comparada com o padrão de religiões africanas sub-saharianas, mas, se destaca mesmo se comparada com outras religiões do mundo ocidental e oriental. Ela está no primeiro pelotão, com louvores.

Este foi o motivo que levou somente ela a influenciar os povos do novo mundo em função da diáspora negra. Em todos os lugares que receberam Yòrúbas esta foi a religião que acima de qualquer outra se estabeleceu e gerou tradições. Mesmo na África, na região geográfica em torno da região Yorùbá. Minhas observações sobre a história daqueles povos, mesmo com poucas informações e análises objetivas, me induzem a concluir que a influência da religião Yorùbá no seu entorno é muito maior do que se supõe e a originalidade de supostas outras linhas religiosas, como a religião dos Voduns seja questionável.

Eu sou levado a pensar que, um processo histórico lento e longo fez com que os povos em volta da região Yorùbá fossem influenciados por esta religião original e em função das falhas do processo de tradição oral, uma vez que não havia tradição de escrita na região, fez com que a religião sofresse deturpações e distorções. Histórias foram recontadas, versões foram criadas, divindades trocaram de nome, animismos viraram religiões baseadas na religião Yorùbá.

Muitos elementos me levaram a isso e não tenho tempo ou mesmo formação para defender essa teoria mas me acho com liberdade de expressar essa minha opinião. Posso usar argumentos simples. O primeiro deles é que religiões originais, bem construídas, consistentes e com teologias superiores são raras, existem poucas no mundo. Essas religiões de fato, sobrevivem ao tempo e aos eventos com bastante resistência. Esse é o caso da Yorùbá.


O segundo é que a região geográfica de onde vieram Nagos e Jejes é bem pequena. É impossível que um grupo não tenha influenciado o outro bem como as distorções que podem ser provocadas por uma tradição oral são muito evidentes.

Por fim, as similaridades estruturais são muito evidentes. Assim como as óbvias variações de regionalismos que a tradição oral deve ter feito.

O grupo Bantu, muito grande na África, mas, muito pobre como cultura e sociedade, representado aqui pelo Angola, que era geograficamente distante do grupo Yorùbá, em nenhum lugar do mundo influenciou ninguém, apenas coisas colaterais e em termos de religião, apenas animismos. O Candomblé de Angola é uma invenção dos Bantus aqui no Brasil. Eu já coleitei material sobre esse tema e vou escrever sobre isso.

Dessa forma, assim como os Bantus inventaram uma religião que nunca tiveram, podemos considerar o Candomblé também como uma adaptação desta raiz religiosa para o nosso povo. Não temos nada, mas nada mesmo, que dar satisfação ou copiar orientação de africanos da Nigéria e do Benin.

Assim as pessoas se impressionam bastante com o que passam a conhecer quando tomam contato com o Candomblé. Infelizmente conhecer mal. Mas isso não é nada inédito. O Candomblé sofre hoje o mesmo que sofreu catolicismo antes da compilação, e depois popularização, da bíblia. É uma teologia pouco conhecida e entendida. Sim, o Candomblé precisa de uma Bíblia, um corão, uma torá ou um mahabarata, porque senão fica sendo representado pela imaginação criativa de um monte de gente e não pelo que ele é de fato. Pior, muitas vezes pelo comportamento inadequado de pessoas que dizem representar seus valores.

O que existe mesmo é gente desinformada falando bobagem, fingindo saber, insinuando conhecimento. É gente que não consegue explicar nada. Entendam, não estou falando em erudição, não, estou falando de saber a religião que dizem professar.

Estou falando de gente que não sabe explicar sua religião com 10 palavras e muito menos com 1.000. Estou falando de gente que nem sabe para o que serve uma religião na vida das pessoas. Isso se aplica de brancos a negros, de azuis a amarelos, gordos e magros, ricos e pobres.

É muito fácil você responder a primeira pergunta sobre uma coisa. Mais difícil é você responder a segunda pergunta (mais profunda) sobre o mesmo assunto, muito mais difícil ainda é seguir assim perguntado e respondendo. Quantos passam da segunda pergunta?

A maioria dos Babalorixás e Iyalorixás, como se auto-denominam por ai, só conseguem enrolar a primeira resposta, normalmente um adjetivo mal explicado. Vide aquele livro chamado, O Candomblé bem explicado, que é um manual para se responder, enrolando, a primeira pergunta, somente....

Olha não gosto de fazer críticas genéricas, por isso não faço fofocas, escrevo textos. Mas é importante lembrar a todos esta situação. O que eu mais vejo é pessoa se dizendo sacerdote e que não consegue sustentar uma conversa com ninguém. Que não sabe explicar o que faz. Que mistura catolicismo, espiritismo, umbanda e sei lá mais o que para falar de dogmas da sua religião e de Orixá.

É muito complicado a gente falar o que é de fato parte desta religião aqui com tanta gente fazendo o contrário. Eu ouço de vez em quando uns programas de rádio supostamente sobre Candomblé, aqui no Rio, nas rádios Metropolitana e Solimões. Lixo. Estelionatários declarados. Pessoas que se passam de Babalorixá e fazem um programa para vender amarração, feitiço, favores. Além de encherem o ouvido das pessoas com abobrinhas. A cada 1 coisa certa que eles falam tem 10 besteiras. Não é religião é apenas comércio de feitiços.

Claro que eles não são diferentes dos programas de evangélicos que disputam as mesmas rádios e horários. A grande diferença é que evangélicos sabem o que falar e o que defender.

A qualificação de sacerdotes é o primeiro ponto de revisão de uma religião de verdade. O grupo que ai esta é muito mal formado ou não tem formação nenhuma. As pessoas NÃO podem acreditar mais que por uma pessoa se dizer babalorixá e ter casa aberta ela é uma conhecedora da religião e vai poder orientá-la. Se o que a pessoa está procurando é aprender uma religião ela vai ter que ter muito cuidado.

Eu já falei somente sobre esse assunto em outro texto, mas resumidamente muitos desses tais Babalorixás inventaram cargos, não cumpriram suas obrigações, não pagaram o seu tempo de obrigações, ficaram pulando de casa em casa tomando obrigação com pessoas diferentes e não receberam o Oye de Babalorixá (isso vale para as Iyalorixás também, só não vou ficar escrevendo toda a vez as 2 palavras).

Em função disso ai não aprenderam o Candomblé. Vou repetir não estou me referindo a erudição, estou me referindo ao básico, aquilo que a gente aprende em gotas homeopáticas frequentando a mesma casa e tendo oportunidade para conversar com pessoas mais velhas, aprendendo delas. Isso significa entender a filosofia e os valores.

Além disso a pessoa tem a oportunidade, hoje, de buscar uma compreensão maior da religião, uma coisa que nossos antecedentes não tinham. Essa busca de melhor conhecimento não é algo errado. É algo que eles não tiveram acesso e duvido que deixariam de ter se esforçado para obter esse conhecimento.

Quando uma pessoa sai pulando de casa em casa para tomar suas obrigações e também apagar o seu passado ela também perde a referência de hierarquia. Ela passa a mandar no que faz sem nenhum controle. Assim o primeiro sinal para se avaliar uma casa e entender qual e como é o vínculo da casa e da pessoa com que o fez. Para ter certeza vá na pessoa que o fez e peça referência dele. Pergunte a cronologia de obrigações. Se a pessoa não quiser responder, vire as costas e vá embora, vai ser melhor para você, acredite.

Gente a pessoa que entra em uma religião quer saber como ela é. Quer saber o que é um orixá e o que ele representa. Quer saber como a sua vida se integra no cosmo. Não adianta dizer para alguém que perguntar sobre o que é um Orixá, com aquele sorriso amarelo e os olhos no vazio, que você ama o seu Orixá. Isso é patético.

Voltando ao Candomblé universal, se o Candomblé pretende se posicionar como uma alternativa religiosa viável para as pessoas, algumas coisas devem se modificar. A primeira é acabar com esse viés caça-níqueis e se se ocupar de fato em ser uma religião.

Viés caça-níquel é esta exploração monetária de jogos, ebós e obrigação. O comércio de liturgias. Isso é ridículo e nivela essa religião com o que existe de pior na sociedade.

Uma das principais coisas que devem ser mudadas é a questão da feitura de Orixá.

Não é verdade que as pessoas para serem desta religião tem que fazer feitura do seu Orixá. Isso acima de tudo é uma preferência do Babalorixá para pode ganhar dinheiro. Porque nada que ele coloca a mão é de graça e quanto mais pessoas amarradas á sua casa através de feituras, mais dinheiro ela vai garantir com obrigações, ebós e jogos.

O corpo das pessoas que fazem parte da casa é assim aumentado como um rebanho leiteiro que sempre vai garantir o dinheiro dele. Os clientes se somam a isso aumentando esta receita de forma variável, mas, a receita do "rebanho" será sempre garantida.

O que eu disse parece grosseiro, mas, é isso mesmo.

Este é o formato adotado na maior parte das casas de Candomblé, nos Ilê Axé. Não fiquem assustados e nem finjam espanto. Esta prática não é original do Candomblé, acontece na sociedade como um todo. Também acontece no Candomblé.

Para o Candomblé ser uma religião ela tem que começar acabando com isso. Quem sustenta um Ilê Axé tem que ser as pessoas que participam do Ilê Axé. Não podem ser transações comerciais associadas a venda de liturgias pelo babalorixá. Esta é uma prática muito pior do que instituir uma mensalidade, um dízimo (como na igreja, não como nos templos evangélicos que são apenas assaltantes) ou um rateio de despesas, como um condomínio.

Qualquer método que conte com a participação de todos será muito superior ao do Babalorixá cobrando por trabalho, porque essa não é uma prática adequada para uma organização religiosa.

Também não podem os membros das casas serem tratados como clientes, pagando por obrigações, ebós e jogos. Essa palhaçada de dizer que é obrigado a cobrar "chão" ou "salva" ou "cobertura de anjo da guarda" são eufemismos para esconder o simples comércio.

Uma casa precisa se manter. O dirigente tem que ter obter recursos para fazer suas próprias obrigações que são consequência da sua atividade. Ele precisa também se manter. Isso tudo a religião não oferece restrição, pelo contrário.

Mas, como estamos tratando de uma casa de religião, é necessária uma distinção entre o que custa aos membros da casa manter a sua casa funcionando, e isso pode até incluir a decisão da comunidade em manter ou subsidiar o sacerdote e, dentro disso também, o subsídio que esta comunidade define que vai receber ao atender pessoas que não fazem parte da casa.

O atendimento de pessoas que não são permanentes da casa sempre foi parte das estratégias que antigas casas de Candomblé usavam para se sustentar e ao seu Egbe. O problema é a proporção que isso tomou porque estelionatários que vendiam feitiços, favores, mentiras, amarrações usando uma fachada esotérica descobriram que poderiam melhorar o seu produto podre se passando de Candomblecista.

Essa invasão maculou o modelo honesto do Candomblé.

Outro problema foi o das pessoas que entravam no Candomblé já contando tempo para se proclamarem Pais-de-santo e viverem desta atividade. Não eram pessoa que procuravam seguir uma vocação, elas procuravam uma profissão. Gente que não servia para nada. Não queria estudar e não queria trabalhar.

Não existe problema no sacerdote profissional. Padres são sacerdotes profissionais, remunerados pela Igreja que é mantida pelos seus fiéis. Mas este sacerdócio sofre controle e um monte restrições fazendo que, acima de tudo, tenha que existir a vocação.

Já o Pai-de-santo de beco não tem nada disso. Ninguém controla, ele faz o que quer e ainda inventa controle para outros.

O que era para ser um exemplo de humildade, ver pessoas mais velhas ou até mais bem posicionadas na sociedade, por seu valor próprio se hierarquizarem em uma casa de orixá virou um escárnio, porque pessoas despreparadas, decadentes, incapazes e mentirosas assumem uma posição que não pertence a elas. Comumente são mentes psicopatas e estelionatários, desprovidos de propósito e moral abusando da fé de outros.

Por esse caso extremo, claro, porque nem todo lugar é assim e nem toda pessoa é assim, é que o Candomblé tem que reagir de forma radical a esta questão mercantil. Uma reação radical e vigorosa vai deixar de um lado as casas séria e do outro essas pessoas.

Assim não se trata de romper com o modelo da religião que não vê problema em dinheiro, através da prática da ajuda a simpatizantes, sustentar uma casa e sim de ser obrigado a adotar uma posição distinta em função da forma como a religião legítima foi usada por pessoas não legítimas.

O outro aspecto é o que eu iniciei este texto, o Candomblé precisa se adaptar ao processo de universalização na sociedade, preservando o que é bom e melhorando aquilo que é inadequado a este novo status. Sim o Candomblé e as pessoas do Candomblé aspiram a um status pleno de religião.

É necessário então encontrar um modelo de financiamento do Ilê Axé que seja distinto do empregado por esse grupo de estelionatários travestidos de Babalorixá, que falam de orixá, falam de nação, falam de Umbanda, falam de cigano, falam de ajé, falam de egungun, falam de amarração, falam de ebó e falam de qualquer coisa que a pessoa queira ouvir, porque elas sabem que tem muita gente tola, gente que você fala 9 coisas que ela não quer ouvir, mas se você falar 1 só que ela queria ouvir já basta.

Um outro capítulo nesse assunto é o assunto que eu comecei, antes de ter caído nesse "galho" do financiamento da atividade religiosa, que é a questão da feitura de Orixá. É claro que a feitura de Orixá se insere no financiamento da atividade dos estelionatários.

Uma pessoa que entra para o Candomblé deve se preocupar em entender a religião e como ela pode ajuda-lo a ter uma vida melhor sendo uma pessoa melhor e mais feliz.

É isso o que as pessoas procuram em uma religião. Procuram viver melhor. Ser pessoas melhores. Viverem em harmonia consigo mesmo e com sua família.

Mas o Candomblé, sendo uma religião iniciática, ela oferece muitos status e vaidades e, como diria Al Pacino, a vaidade é o pecado preferido do diabo.

Quando a pessoa entra para uma casa de orixá, um Ilê Axé, ela inicia como um Abian, um simpatizante ou um crente da religião. Abian é o nome que se dá.

A pessoa pode, e deve, ficar como um Abian por muito tempo, talvez toda a sua vida.

A fé não se mede se a pessoa é um abian ou um Iyawo. Fé é acreditar no divino, no Orixá e trazer isso para a sua vida de uma forma positiva, que permita a essa pessoa superar seus problemas pessoais através de aprender novos valores e uma nova forma de administrar a sua relação com as pessoas e com sua vida.

Um Iyawo é uma pessoa que passa por um complicado, sofrido e longo processo de feitura. Esse processo prepara a pessoa para poder ser um elegun do seu Orixá na terra. É através dos Elegun que o Orixá incorpora e se manifesta em uma casa para ajudar a sua comunidade, distribuindo axé para as pessoas.

Sem elegun não existe Orixá na casa e na nossa vida. Orixá não é apenas uma coisa que fica no ar e que sempre esta por ai. Não é verdade. A função do Elegun é justamente estabelecer a ponte para que o Orixá possa vir do Órun (mundo espiritual) ao Aiye (terra) e distribua o axé para as pessoas.

É por isso que uma casa de Orixá tem que ter muitos elegun e tem que ter elegun de todos os Orixás. O Elegun é uma pessoa importante e o Babalorixá não consegue tocar a sua casa sem eles. Toda a casa tem a necessidade de ter Eleguns dos Orixás e de qualidades diferentes inclusive.

Por isso um Babalorixá precisa fazer feitura em Pessoas e precisa encontrar e atrair essas pessoas dos Orixás que ele precisa.

Para ser um Elegun é necessário fazer a feitura e ser um Iyawo por 7 anos, no mínimo, normalmente isso vai durar muito mais tempo.

Para uma pessoa trocar de status de Abian para Iyawo deve existir um propósito. A pessoa tem que entender o que isso vai significar para a sua vida. A pessoa tem que saber no que isso muda a relação dela com o divino, mas, saber de fato e não, ser enrolada com mentiras.

A verdade é que o Orixá não vai gostar mais da gente porque a gente fez o Orixá. Não vai gostar mais da gente porque a gente tem um igba. Não seremos mais felizes por causa disso. Não seremos mais protegidos por causa disso.

Existem motivos que podem levar uma pessoa a uma feitura. O Ilê Axé pode precisar, a pessoa pode precisar. O pior motivo é o babalorixá precisar para alimentar a conta bancária dele.

Abians e Iyawos precisam de Bori do mesmo jeito, de ebós de mesmo jeito e de jogo do mesmo jeito. Um abian pode ter inclusive um igba. Como fonte de receita um abian pode ser tão promissor como um um Iyawo....

Ser um Iyawo não é uma evolução religiosa natural. É assumir uma nova postura diante da sua religião e se comprometer com obrigações religiosas da casa e do Babalorixá. Se você busca uma religião e não esse compromisso fique como Abian sua vida toda, ai você pode ir quando quer, mudar de casa, etc...

Mas o caso é que ser um Iyawo muitas vezes é apenas uma necessidade financeira do sacerdote e uma vaidade do abian. As pessoas devem se despir de vaidade e antes de dar qualquer passo mais profundo na religião devem primeiro aprender sobre ela.

Se o Candomblé quer ser uma religião de muitos tem que se ocupar mais em se transformar em uma opção real e palatável para as pessoas. Tem que se ocupar com os seus membros e não com clientes. A gente tem que separar os Ilê Axé de verdade dos mercadores de feitiços.

Claro que é uma religião iniciática, dogmática e altamente litúrgica. Mas pode continuar a ser tudo isso sem se transformar em fazer pessoas infelizes.

Acima de tudo o Candomblé tem que se ocupar em se incorporar à vida das pessoas sem que as pessoas abandonem a sua vida normal. A Fé deve se adicionar a vida das pessoas e não substituir.

Muitas liturgias e iniciações podem ser feitas para Abians. Ser um Iyawo acabou matando essas opções.

O meu ponto aqui é o fato de que a feitura é um processo muito intrusivo na vida da pessoa. Gera muitas relações e ligações e muda o equilíbrio do axé da pessoa. As pessoas têm se preocupado em se aprofundar em liturgias sem se ocupar em saber se ela está feliz na religião que adotou.

O melhor para a vida de qualquer um é ser um Abian. Ser Iyawo é tão sério que essa opção tinha que ter registro em cartório com testemunhas.

SIM, você poder ser do Candomblé sem ter que fazer o seu Orixá. Inclusive é muito mais seguro. Entrar em uma feitura é abrir sua vida e se fragilizar. Se você fizer isso pelo motivo errado ou com a pessoa errada por ter problemas, novos, para o resto da sua vida.

Existem muitos caminhos para uma pessoa ser vida toda Abian no Candomblé. Ela pode participar de tudo o que interessa, rezar, ter acesso ao divino, receber axé, se realizar sem ser feita. Inúmeras liturgias, quase todas, podem ser feitas em Abians. Acima de tudo uma pessoa busca na religião paz e realização. Este tem que ser o foco das pessoas.

Uma casa precisa de Iyawo, mas, não é necessário que todos seja Iyawo. Vou repetir, é uma iniciação tão séria que eu sinto vergonha quando ouço que pessoas vão para uma mesa de jogo e 3 meses depois estão feitas.

O Candomblé tem que ter um modelo inspirativo. Tem que inspirar a fé, a dedicação e a transformação das pessoas para o seu melhor. Não pode ser um centro de confusões na vida da pessoa.

E mais importante. o Candomblé TEM que ser uma religião familiar. A família tem que estar junta na religião e na casa.

As pessoas falam do escando dos padres pedófilos na igreja católica. Olha na média isso é pinto visto o que se encontra nas casas por ai. Tome cuidado onde bota o seu pé limpo. Não existe controle das casas. O controle é seus olhos e ouvidos. Preste atenção e não se emburreça. Não faça nada, nem um ebó, sem saber muito bem como é aquela casa e pessoa.

Algumas recomendações simples: Não vá para casa onde o Candomblé é a própria casa da pessoa, onde ele toca no quintal ou na varanda, da obrigação em quartos, etc..

Não vá para esses candomblé urbanos todos acimentados, sem espaço para folhas e árvores. Candomblé exige um espaço especial, não é igual à Umbanda. Candomblé exige espaço dedicado, com muita preparação e assentamentos. Não se toca Candomblé em beco de vila. Não dá para Babalorixá misturar o seu espaço pessoal com o Sagrado. Se ele não tem recurso para ter uma casa de Candomblé, com terreno próprio, então não era nem para dizer que é Babalorixá.

Se a pessoa não quiser dizer a sua cronologia de obrigações ou a casa onde foi iniciado e se fez todas as obrigações lá e nome da pessoa que o iniciou, vá embora. Se a pessoa que o iniciou já morreu ou a casa já acabou e ele não tem nenhum irmão de orixá ou mais velho para dar referencia dele, então vire as costas e vá embora.
Se fosse um médico que quisesse te operar você ia fazer isso tudo.

Por fim, quero esclarecer que o objetivo desses textos sobre o Candomblé não é criticar o fácil, mas, trazer à reflexão das pessoas essas questões. Além disso, pessoas novas têm que acordar para a realidade.

Temas


Gente, lamento a ausência de postagens, mas, esse BLOG não faz CTRL-C e CTRL-V, dessa forma todo o conteúdo é original. Gerar conteúdo dá um pouco de trabalho.

Não faltam os temas e recebi algumas sugestões também. Estou trabalhando no material sobre Gélédé, é um tema que queria abordar faz muito tempo, esse tema vai se unir com o de gêmeos e abiku. Na verdade os 3 estão relacionados. Quando a gente pesquisa e descobre os fatos e não as bobagens que as pessoas falam acaba achando uma teia maior. Na minha visão isso melhora um pouco mais o entendimento desta religião e por isso estou fazendo um trabalho decente.

domingo, julho 05, 2015





Perguntas & Respostas (1)


A seguir, perguntas que foram encaminhadas por email e que estarei respondendo aqui no Blog


A pergunta a seguir estava em um comentário da postagem sobre Odù negativo no Candomblé

Então como faz para descobrir o odu? E tb me pergunto, porque esses trabalhos, oferendas, são tão caros? Se são remédios espirituais que ajudam a elevar e abrir caminhos, se isso é ajuda ao próximo e harmonização com os orixás, porque cobram tão caro e sempre exigem ebós?
Sinceramente, não entendo

R. Conforme tenho explicado aqui no Blog em vários textos, a determinação do Odù da pessoa, o Odù de Nascimento é feita apenas por uma cerimônia de Ifá entre o terceiro e o oitavo dia após o nascimento. É feita no recém nascido. Depois disso nunca mais, exceto se a pessoa vir a ser Babalawo porque existe uma cerimônia que resgata esse Odù.

Dessa maneira todos os métodos que existem por ai para determinar Odù de nascimento são bobagens, enganações. Tem gente que faz continha com data de nascimento, essas pessoas não sabem nada de Odù ou de Ifá ou dessa religião.

O Odù que sai na consulta do oráculo, seja de búzios ou seja de Ifá é um Odù temporário, é uma resposta para aquele momento. Não serve mais para a pessoa depois.

A questão da cobrança é apenas COMERCIAL. De fato, tudo é muito simples. Em Ifá chega a ser mais simples que no Candomblé uma vez que este último tem uma riqueza litúrgica muito maior.

O que fazemos é equilibrar o axé da pessoa. Os ebós são um instrumento para esse equilíbrio. Trata-se de repor axé. A base desta religião é o axé e o seu equilíbrio. O ebó ou a oferenda (adimu ou sacrificio) são necessários para isso. 

As pessoas cobram o que querem. Sugiro não pagar se achar absurdo, como muitas vezes o é. Tem gente que cobra para passar uns ovos na pessoa, isso é um absurdo. 


Muito bom ler isso.. minha cabeça anda dando um nó, um pai de santo insiste em dizer que tenho o odu negativo e que tenho que positivar a cada três meses fora outros que por isso minha vida ñ anda... mas eu sempre tenho uma pulga atraz da orelha.. sinceramente quase fico doida de preocupação e decidi me afastar..

R. Faz bem. Esse procedimento de ficar tirando negatividade continuamente de vocês visa apenas tirar seu dinheiro.

Como falei, o odù das pessoa vem apenas no nascimento. A pessoa que está fazendo isso com você deve ter feito aquela continha com a data de nascimento. Ele não sabe de nada de Odù.

Se você de fato tem um problema na sua vida, o que ele não sabe é determinar qual é.

Em Ifá você vai encontrar resposta sobre sua vida. Nem tudo é ebó e oferenda. A parte mais importante de uma consulta é a conversa do Babalawo com o consulente. É a palavra do Babalawo que tem o axé de Orunmilá.

O Babalawo tem que, através dos Odù, entender as questões da pessoa, o que atrapalha sua vida e destino, entender o que seu ori e orixá indicam para poder conversar com essa pessoa sobre isso. Falando coisas e tendo dessa pessoas respostas e confirmações. Isso é feito com muita calma e bom senso. São usadas muitas histórias (versos de Ifá) para a pessoa poder analisar sua vida.

A pessoa tem que entender que atitudes ela toma incorretamente na vida, que atitudes dela a levam a ter problemas, entender as mudanças e transformações que ela deve fazer como pessoa. Nem tudo de problema na vida de uma pessoa é feitiço ou é resolvido por ebó.

Claro que o Babalawo vai também saber que problemas ele pode resolver pela via espiritual ou como prefiro dizer pela via supernatural. Existem coisas que ele pode afastar, coisas que ele pode ajudar a trazer e equilíbrios de axé que ele pode executar.

O conjunto dessas ações é que vai trazer o sucesso. Tem pessoas que tem, problemas simples e outras mais complexos. Claro que existem problemas envolvendo o pré-nascimento a vida no Orun e que se refletem aqui.

Quando a pessoa tem essa visão de conjunto, bom senso, humildade, sinceridade e sabedoria ele vai buscar isso. O simples se resolve de forma simples e o complicado de forma complexa.

O Babalawo não deveria ser um fazedor de ebós, antes de tudo ele é o porta-voz de orunmilá.

O mesmo procedimento deveria vir também de babalorixás e iyalorixás que se arvoram a usar o oráculo para consultar pessoas. Se a pessoa esta preparada para o que vai fazer ele o faz da forma correta.

O que temos em geral são pessoas despreparadas, que pegam aqueles búzios e usam apenas a sua mediunidade para consultar pessoas. Eles pouco resolvem ou resolvem apenas as coisas imediatas, aquelas o que sua mediunidade permite, elas não vão a fundo no problema das pessoas.

Nesse caso ebó funciona como se fosse analgésico. Passa o efeito você precisa de outro. O problema mesmo continua lá.

Tem Babalawo que apenas consulta com Opele e que faz consultas em meia hora ou menos, trabalham iguais a jogadores de búzios. São tiradores de ebó.


Ifá não é ebó. Ifá é a palavra de orunmila.








sábado, julho 04, 2015

Pauta de Temas


Leitores, a finalidade do Blog é informar. Eu escolho temas que acho interessantes, mas vocês podem também sugerir.  emails para ogbeogunda@gmail.com

quarta-feira, julho 01, 2015

Cerimonias Sociais Batismo

Cerimonias Sociais

Batismo


Conforme comentei na postagem anterior, a nossa sociedade esta permeada de cerimônias religiosas que se transformaram em sociais, uma clara transformação de sacro em laico ou uma mistura de finalidades.

Eu já me posicionei que, na minha visão isso é normal, faz parte de nossa sociedade e qualquer religião que faça parte desta mesma sociedade tem que se adaptar a isso. Não se trata de imitar a outra religião e sim de ir ao encontro do anseio da sociedade. É tola a discussão de que isso foi trazido ou imposto por outra religião. Não importa mais, a sociedade incorporou como uma “cerimônia social”.



Dessa forma como parte de uma outra religião, seja o Candomblé como Ifá, temos também que nos inserir no nosso próprio contexto social. É isso o que a sociedade espera de nós e nós mesmos queremos. Nós queremos que nossa religião seja aceita e tenha o mesmo status das demais ou a religião preponderante. Para isso é óbvio que temos que preencher as lacunas.

O Candomblé, sem dúvida nenhuma já faz parte desta sociedade a dezenas de anos, talvez mais de uma centena e por isso mesmo mais facilmente já se adaptou a isso. Ifá não, foi trazido recentemente. A atitude que não podemos ter é querer trazer para dentro destas religiões a cultura social da sociedade de origem.

Não somos africanos ou cubanos. Adotar esta religião ou tradição não implica que temos que nos comportar como estrangeiros. Isso é estúpido. Eu até mesmo posso lembrar que vejo brasileiros que entram para o Ifá cubano e começam a falar português com sotaque cubano. Você acredita nisso? Tem coisa mais lastimável?

Enfim, aderir a cerimônias sociais não significa copiar as cerimônias da outra religião! Isso também é lastimável ou ridículo. Cabe ao sacerdote entender que cerimônia a religião já possui e que podem servir ao contexto social requisitado.

A grande motivação para escrever estes textos sobre cerimônias sociais foi umas fotos que vi no Facebook mostrando, segundo a postagem, o Bàbáláwo Ivanir, do Rio de Janeiro, batizando uma criança crescida, de 3 anos, de acordo com “a doutrina de Ifá”. As fotos, públicas, mostravam esse senhor, que segue a tradição Nigeriana, jogando água na cabeça da criança. Pelo que entendi depois de realizado foi jogado um Obi. Haviam alguns elementos em um prato, possivelmente mel, sal e outras coisas, mas, não havia nenhum opon, nenhum irukere, nenhum irofa, opele, uma folha, uma pema ou qualquer instrumento de Bàbáláwo.

Eu não sou da tradição Nigeriana, mas, não sou idiota e procuro me informar. Ha muito tempo procuro essas cerimônias sociais e jamais vi nenhum tipo de “batizado” e muito menos daquele jeito. O que eu vi ali foi apenas o que é feito por aqui tem muito tempo, que é o espelhamento de ritos católicos e inventividade.

Em função dessas fotos eu decidi abordar o tema, mas, não tenho como objetivo ficar aqui dando espaço a pessoas que não tem nada a adicionar, esse senhor não sabe o que está fazendo, de forma que o incidente foi apenas a motivação para o início disso. Para evitar apenas fazendo dialética eu fui na origem da coisa e fui buscar a referência de batizados em religiões. Como falei no outro texto essas coisas não podem ser inventadas, tudo tem um sentido.


Antes de nos preocuparmos em descrever cerimônias, temos que entender o sentido litúrgicos delas. Eu primeiro procurei entender o significado do Batizado católico. Por que é feito um batizado? Por que a religião determina esta liturgia? Qual a teologia envolvida? Porque é usada a água? Por que o padre lava a cabeça da criança?

Se nós entendermos isso fica mais fácil transportar a cerimônia entre religiões diferentes.

O motivo da existência do Batismo reside no dogma católico do pecado original. A criança já nasce em pecado e o primeiro ato do padre deve ser lavar esse pecado original.

“Efeitos do Batismo - Primeiro, o Espírito dado no Batismo é para o perdão dos pecados: ”Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome do Senhor Jesus Cristo, para a remissão dos pecados; e recebereis o Dom do Espírito Santo.” (At 2, 38) Aquele que é batizado, recebendo o Espírito, recebe o perdão dos pecados. O Espírito do Ressuscitado é Fogo que queima todo pecado e Água que faz brotar uma vida nova.

O Espírito nos livra, primeiramente, do Pecado Original. Todos nós, desde a nossa concepção, somos membros de uma humanidade pecadora e desarrumada; uma humanidade que, desde o início, teima em fechar-se para Deus. O resultado é o desequilíbrio, o egoísmo, a falta de rumo.

Pelo simples fato de sermos humanos já fazemos parte deste fechamento em relação a Deus. Somos membros da humanidade, partilhamos do seu passado, que condiciona o nosso presente, o que somos, pensamos e fazemos, assim como o nosso presente condiciona o futuro dos nossos filhos. São Paulo diz: “Todos pecaram e estão privados da Glória de Deus” (Rm 3,23). O salmista canta: “Minha mãe já me concebeu pecador” (Sl 51, 5). É este o sentido do Pecado Original: ninguém nasce justo ou santo diante de Deus. Mesmo a criança, ainda sem pecado pessoal, já traz a marca do fechamento para Deus, do egoísmo, e o manifesta nas suas malcriações, no egocentrismo, nas chantagens infantis... É este estado que chamamos de Pecado Original.

O Espírito dado no Batismo é para o perdão dos pecados: “Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome do Senhor Jesus Cristo, para a remissão dos pecados; e recebereis o Dom do Espírito Santo.” (At 2, 38) Aquele que é batizado, recebendo o Espírito, recebe o perdão dos pecados. O Espírito do Ressuscitado é Fogo que queima todo pecado e Água que faz brotar uma vida nova.”


Fonte: www.ofielcatolico.com.br

Além disso o batismo é uma cerimônia de iniciação! Isso mesmo iniciação.

“Pelo Batismo somos libertados do pecado e regenerados como filhos de Deus, tornamo-nos membros de Cristo, somos incorporados à Igreja e feitos participantes de sua missão: "Baptismus est sacramentum regenerationis per aquam in verbo - O Batismo é o sacramento da regeneração pela água na Palavra".


Fonte: www.auxiliadora.org.br

Ser batizado na igreja católica significa o mesmo que fazer o Orixá no Candomblé. É muito mais do que dar um Bori, fazer um ebó, consultar oráculo, etc... O Batizado coloca você dentro da Igreja e somente assim você é um católico.

A igreja católica tem muitas explicações, algumas procuram romantizar as coisas e fugir dos fatos, ou melhor confundir. O fato é que a criança já nasce em pecado com Jeová, ela carrega o estigma do pecado e deve sempre se perdoar e adorar a seu deus insaciável por adoração.

Esta então é a razão do católico lavar a cabeça da criança.

No Islã, não existe isso. Aliás nunca é bom deixar de lembrar que muitos nigerianos e beninenses que vem ao Brasil dar uma de Bàbáláwo, desfilando roupas, vendendo iniciações, são, na verdade, muçulmanos.

No Islã não existe o uso água.

Segundo a fonte que pesquisei, não existe o pecado original, porque o islã não reconhece isso.

Para os muçulmanos, a palavra de Deus deve ser a primeira coisa ouvida por alguém. Após o nascimento, o pai deve dizer no ouvido do bebê o azan, uma recitação com os fundamentos da religião, como a crença em um único Deus. Na primeira semana, o cabelo do bebê deve ser raspado, e o valor correspondente ao seu peso, em prata, dado aos pobres. O nome também deve ser escolhido durante a cerimônia. Nessa ocasião, muitas famílias realizam o akika, que inclui uma refeição que tem carneiro como prato principal, simbolizando os animais que Abraão sacrificou em lugar do filho Isaque, de acordo com a história relatada no Antigo Testamento.

Os muçulmanos não têm nenhum tipo de batismo para integrar-se à fé muçulmana. É necessário somente que uma pessoa recite o credo muçulmano que é muito simples e muito fácil de lembrar e que diz: "Não há outro deus que Alá e Maomé é seu Enviado" (7,158). Isto é suficiente. Nisto, já vimos, é o que acredita o Islã como sua base e único dogma. Quando uma pessoa recita esse credo perante duas testemunhas e expressa sua vontade de ser islâmico já forma parte dessa comunidade


Fonte: www.fcnoticias.com.br


No caso do Judaismo, igualmente, não existe a figura do batismo. Se considerarmos que o objetivo católico é a purificação, então, no Judaísmo, Mikvá é o nome dado ao "batismo ritual" utilizado para as cerimônias de purificação. Geralmente é utilizado para purificação da mulher após a menstruação e o nascimento de um filho, e também é requerido do convertido ao judaísmo

Por outro lado, se uma menina nascer, o pai leva a criança para a sinagoga e lhe dar um nome perante o torá, se for um menino ele deve receber um nome durante a circuncisão, realizada perante a presença de 10 homens, a iniciação religiosa acontece ao 13 anos para os meninos na cerimonia conhecida como bar-mitzvá, ou para as meninas aos 12 anos conhecida como bat-mitzvá, em ambos os ritos, os jovens devem ler trechos do torá e orações em hebraico para demostrarem a sua entrega para a sua nova fase na fé.

Fonte: wikipedia

No caso do Budismo, também não existe batismo, considerando o batismo como um rito iniciático, a iniciação à prática budista formal se dá em um ritual chamado ordenação leiga, quase sempre desenvolvido na fase adulta. Depois de um período preparatório de cerca de um ano, a pessoa passa por uma cerimônia em que recebe, de um mestre ou de um superior de um templo, um novo nome e sua ordem na linhagem de Buda. Não existe a idéia de conversão, pois os budistas acreditam que a natureza de Buda (capacidade de atingir a iluminação) já existe dentro de todas as pessoas desde o nascimento


Fonte: www.folha.uol.com.br

No induísmo existe um acerta semelhança com o catolicismo, mas também com Ifá.

“O namkaran é a prática hindu de nomear um bebê. A palavra "nama" significa o nome e "karana" significa fazer ou efeito. A cerimônia ocorre geralmente no décimo segundo dias após o nascimento de um bebê, mas pode ser realizada a qualquer momento entre o décimo dia após o nascimento e antes do primeiro aniversário. O processo de nomeação se dedica a criar um vínculo entre o bebê e o resto da família e amigos, e acontece em casa ou em um templo.”


Os primeiros dez dias após o nascimento de um bebê são considerados "impuros" e "mau agouros". Quando o período de 10 dias termina, a casa é limpa e santificados. No dia auspicioso, que varia conforme a região, a mãe e o recém-nascido participam de um ritual de banho. Após o banho, a mãe seca o bebê em uma toalha nova e aplica o "kajal", ou delineador para os olhos, e faz uma marca de nascença na bochecha.


Uma vez que a mãe e a criança foram banhados, a criança é colocada no colo do pai para ser abençoada. Em variações da cerimônia, a mãe molha a cabeça do bebê como um ato de purificação. A criança é, então, dada a avó paterna ou ao pai, que vai estar sentado ao lado do padre. Um fogo sagrado é aceso e o sacerdote invoca os deuses para conceder suas bênçãos sobre a criança.

O nome da criança é então escolhido, com base em um alfabeto particular, que é determinado pelo tempo e data de nascimento. O pai então sussurra o nome escolhido na orelha direita do bebê, seja através de uma folha de betel ou quatro vezes, dependendo da tradição regional. O bebê normalmente irá receber quatro nomes: o nome nakshatra, que se baseia na constelação em que a criança nasce, o nome da divindade do mês, o nome da divindade da família e o nome popular, pelo qual a criança será conhecida.

Quando a cerimônia termina, os amigos, parentes e sacerdotes abençoam a criança e colocam mel ou açúcar em seus lábios. Se a criança aperta seus lábios, é considerado um bom sinal e traz muita alegria entre os presentes. Há também uma festa para os convidados e sacerdotes que fecha a cerimônia.”


Fonte: www.ehow.com.br


Como podem observar cada religião tem seus dogmas e as cerimônias que realiza estão em consonância com esses dogmas.

Por esta razão, quando vi a “cerimônia de Ifá” lavando a cabeça da criança adulta isso não desceu redondo. Para mim foi apenas uma invenção.

Mas, vocês devem estar se perguntado, e como é na religião Yorùbá?

Bom, para o Candomblé, não sei, nunca encontrei. O que vejo acontecer é o mesmo que este senhor Ivanir fez, copiar o catolicismo. No caso de Ifá o que existe são 3 cerimônias: Ikosewaye, Imori e de nome.

A primeira cerimônia que se faz tem o significado de fazer a criança pisar pela primeira vez no mundo. Ela é feita com o recém-nascido, a partir do terceiro dia até no máximo o oitavo dia. Esta deve ser a primeira vez que o recém-nascido coloca os seus pés no àiyé. Assim ele pisará no mundo.

Não preciso lembrar que o reencarnacionismo é um dos pilares da religião Yorùbá. A religião acredita que todos queremos viver no àiyé, porque aqui vivemos com nossa família e temos acesso a todos os prazeres e mistérios do mundo. Eu deduzo que a vida no Órun (ọ̀run) deve ser bastante desinteressante porque o motivo alegado para a reencarnação é apenas que queremos viver juntos no àiyé. Claro que em cada vida teremos objetivos pessoais diferente e também objetivos que podem ser passador por Olódùmarè, mas, vivemos porque gostamos de viver.

Por essa razão é muito importante as pessoas se casarem e terem filhos. Casar e ter filhos é considerado o curso de vida natural pela religião Yorùbá e talvez mais do que isso, o curso necessário. Para as mulheres não ter filhos não é considerada uma coisa boa e nenhuma delas quer isso para si. As mulheres precisam ter filhos para que os ancestres possam reencarnar, por isso se cobram e são cobradas.

Esta religião, como muitas outras estabelece a família como um núcleo importante e a capacidade de gerar filhos como um fator primordial, permitindo a continuidade da linhagem de descendência.

Um dos problemas que mais aparece em Ifá é a preocupação das mulheres em ter filhos, ou seja, resolver o problema de infertilidade e também o de sustentação da vida de crianças, para evitar a mortalidade infantil.

Quando uma criança nasce o espírito que veio do Órun (ọ̀run) inicia um processo de se habituar com o àiyé e assumir sua posição naquele corpo. Nos primeiros dias ainda existe uma ligação muito forte com o Órun (ọ̀run). O espírito que renasce ainda guarda as lembranças do Órun (ọ̀run) porque aquele espírito acabou de vir o Órun (ọ̀run). Ele ainda está no processo de vir. Esta é a razão desta cerimônia ser feita tão cedo.

Podemos entender isso como o que ocorre em uma viagem de férias, por exemplo, ou quando você muda de emprego. Nos primeiros dias você ainda guarda muita ligação com o que deixou. Você leva alguns dias para se afastar daquelas lembranças e se focar na sua nova vida. Com o passar do tempo você se liga no seu destino e na vida neste destino e se esqueça da sua origem.

Quando saímos de férias do trabalho também é assim. Nos primeiros dias ainda ficamos preocupados com o que deixamos, mas depois esquecemos e passamos apenas a viver nossas férias.

O recém-nascido deve ser trazido ao Babaláwo ou ele deverá ir até sua casa, entre o terceiro e o oitavo dia após o nascimento. Será feita uma divinização com Ifá para a criança e na esteira de Ifá estarão apenas a criança e a mãe.

Esta cerimônia de pisar dentro do mundo, chama-se “Ikóxewaye” 
ou Éxéntaye ou Ikoxedaye. A divinização é feita com o nascer do sol, nas primeiras horas da manhã, porque é presumido que nestas horas a alma da criança (ori inu) estará mais atenta.

Nesta cerimônia, como eu disse a criança irá pela primeira vez “pisar no mundo”. A cerimônia é feita com o Opon e com ikins. Nesta cerimônia também é determinado o Odù de nascimento da criança.

A segunda cerimônia é a cerimônia de nome. 

A cerimônia de nome é um evento basicamente social. É a apresentação para a sociedade da criança que nasceu. A família apresentará a criança e seus nomes. Uma criança Yorùbá pode ter até 3 nomes. O nome de deus, o nome do oráculo e o seu nome civil. 

O nome de deus é dado em função de situações ligados ao nascimento. É muito aplicável quando se trata de crianças que nasceram em condições não normais, com dificuldades no nascimento, etc. Imagino que os Yorùbá sempre tenham uma boa frase que se comprime em um nome para caracterizar ao nascimento de qualquer criança.

O segundo nome é escolhido pelo Bàbáláwo através do Odù que foi riscado. É uma questão muito subjetiva. O Bàbáláwo supõe alguma coisa e submete a Ifá. O terceiro nome é o nome civil.

É uma cerimônia bem simples. A parte litúrgica envolve alimentar a boca da criança com uma série de alimentos importantes. Este é o ritual importante. Para as pessoas convidadas será oferecida uma refeição baseada em uma comida votiva.

A questão da data e cerimônia é bastante confusa nas referências. Quando eu vejo essas referências sempre levo em consideração que quem escreve pode não saber de fato tudo sobre o que escreve ou não quer dizer. Eu vou dizer aqui o que considero ser o razoável.

A cerimônia de nome assume maior importância para os meninos do que para as meninas. O primeiro motivo é que o menino não troca de nome. A menina vai trocar de nome quando se casar. Além disso a menina deixa a casa dos pais e vai viver com a família do noivo, as pessoas entendem que as meninas deixam a família e se transferem para outra família, por esta razão tudo para os meninos tem mais importância, ele permanece na família.

Esta cerimônia, socialmente falando, mostra para a comunidade que a linhagem da família se preserva através do nascimento de uma nova criança, um presente de Olodumare.

A terceira cerimônia é a cerimônia do Imori. Esta cerimônia significa “conhecendo o Ori”. É um complemento da primeira cerimônia o Ikoxewaye e não tem ligação com a segunda, a cerimônia de nome.

Vamos revisar esses conceitos. A primeira cerimônia descrita, o Ikoxewaye é o momento que se conhece o Odù de nascimento do recém-nascido. É realizada entre o terceiro e o oitavo dia de nascido. Esta cerimônia não é exclusiva de adeptos da religião. Pode ser feita pelo Bàbáláwo para qualquer criança de qualquer religião.

A segunda cerimônia, a de nome esta ligada a religião da criança, não tem sentido ela ser feita pelo rito Yorùbá se a criança é católica ou muçulmana. Assim a criança pode passar pela primeira cerimônia e depois seguir os ritos de sua religião.

A terceira cerimônia, o Imori, esta ligada a religião Yorùbá. Não vejo muito sentido ela ser feita para crianças de outra religião.

Depois da criança pisar no mundo e receber o seu nome, chega a vez dela colocar a cabeça no mundo. Os Yorùbá entendem que até o terceiro mês aquela alma ainda está entrando nesse mundo e naquele Ori. Existe um processo de adaptação a este mundo em curso e a alma ainda neste momento tem muita informação da sua origem para passar. Quando ela se unir definitivamente com o seu Orì interior vai esquecer do Órun (ọ̀run) será impossível resgatar as informações sobre suas origens. Esta é a razão que leva essas cerimônias serem realizadas tão cedo e serem impossíveis de serem realizadas mais tarde.

Essas são as 3 cerimônias de Ifá e da religião Yorùbá. Elas se equivalem ao Batismo católico. Não são iniciações e muito menos purificações, pelo contrário, não nascemos devendo nada a ninguém.

Essas cerimônias eu obtive em fontes Yorùbá. Essas coisas não existem na tradição cubana.

Claro que sei como elas são realizadas, mas para isso eu pesquisei e conversei com pessoas para confirmar as informações e obter mais detalhes e explicações. Infelizmente nem todos adotam esse caminho preferem o caminho da criatividade.


Neste ponto, com todos bastante confusos com essas 3 cerimônias, vocês devem estar se perguntando, e então? Como fazemos para ter uma cerimônia social equivalente ao batismo?

Resumindo tudo o que eu disse, em primeiro lugar, existe sim, espaço nesta religião para um rito ligado ao nascimento. A liturgia está ligada a dogmas muito importantes da religião e eu considero que é uma cerimônia muito importante e que deveria sempre ser feita. Não é uma ação social e muito menos "decorativa", muito menos é a cópia da cerimônia católica. O Ikoxewaye e o Imori são cerimônias importantes e que dão condições para que os pais possam preparar melhor a criança para a vida dela.

Dessa forma, não se trata de apresentar a deus a criança ou nomeá-la. Trata-se da oportunidade de descobrir aspectos da vida e do destino da criança nesta vida.

Essas cerimônia devem ser feitas por um Babalawo. Claro, um que saiba o que está fazendo e saiba a importância disso. Babalawo de opele que faz consulta em 30 minutos não vai ajudar. Babalawo preocupado apenas em tirar ebó e recomendar iniciações e assentamentos, também. O resultado da cerimônia é um trabalho meticuloso de análise e elaboração de uma "profecia" de Ifá.

Estas cerimônias não existem no Candomblé e não podem ser feitas por Babalorixá ou Iyalorixá. Como estamos falando de religião Yoruba, estamos falando também de ecumenismo. O culto de Ifá e Orixá podem se integrar se processo. Eu sempre digo que Ifá esta ligado ao indivíduo e o culto de Orixá esta ligado a família e a sociedade. O culto de Orixá sempre vai ter um participação maior na vida das pessoas. Esses 2 aspectos podem se unir nesse momento do nascimento.

Além dessas cerimônias também existe uma cerimônia de nomeação que pode ser feita por Babalorixá e Iyalorixá. Na verdade, as cerimônias de nascimento podem conviver com qualquer outra religião. Elas não são iniciáticas. A criança pode ser católica e passar por essas cerimônias.

Não vejo muita razão para a cerimônia do Odù de nascimento ser púiblica. A presença de convidados não é proibida mas é um evento reservado, voltado ao indivíduo  e deve ser feito por um Babalawo.

A cerimônia de nome pode sim ser um evento social e comunal. Ela pode ser realizada por qualquer sacerdote, incluindo um Babalorixá ou Iyalorixá. Dessa maneira o simbolismo da cerimônia de nome, adicionada com o que que sacerdote achar conveniente, mas, sem cai na pieguice de imitar um padre, deve ser aplicado.

A cerimônia de Imori poderia ser feito junto com esta cerimônia de nome, teria que se contar com o Babalawo também, mas, também poderia ser um evento reservado apenas à familia.

Dessa maneira é possível sim que o Candomblé e Ifá se integrem de forma consistente à nossa sociedade apresentando uma cerimônia social de batismo. 




domingo, junho 14, 2015

Cerimonias sociais

Cerimonias Sociais – O Casamento


Conforme já tratei em outros textos, a sociedade que vivemos impõe a existência de cerimônias que unem o laico e o religioso fazendo o religioso ter que se adaptar a sociedade laica. No nosso caso, somos uma sociedade de base predominantemente católica, isso está em nossa origem e formação como povo e nação e introduzir novas religiões nesta sociedade significa desenvolver uma tradição religiosa adaptada a nossa sociedade.

Quando uma religião surge ela traz dentro de sí mais do que apenas dogmas religiosos, ela também traz em sua configuração a cultura social que a gerou. Introduzir uma nova religião em uma sociedade implica em um choque cultural ou social que tem que ser administrado para o sucesso da prática religiosa. Não se pode esperar que as pessoas de uma sociedade tenham que se comportar como de outra totalmente diferente para que possa praticar ou adotar a nova religião. Isso é grotesco e agressivo.

A origem do termo “tradição religiosa” esta nesta adaptação. Uma tradição religiosa é o resultado da adaptação da religião original à nova sociedade. O Candomblé é uma tradição religiosa, ele tem origem na religião Yorùbá mas se adaptou à nossa sociedade ou ainda está se adaptando.

Um dos pontos dessa adaptação é relativo às cerimônias sociais. Elas existem na sociedade e são necessárias serem representadas na religião. Uma delas, que já comentei, é o batismo. Outra que comentarei agora é o casamento.

Conforme já citei em texto anterior, não existe dentro da religião Yorùbá a cerimônia de Casamento. Não existe dogma ou fundamento religioso que estabeleça e união unívoca entre homem e mulher para o resto da vida, de fato não existe o conceito desta união dentro da religião, nem permanente nem temporária. O casamento existe na sociedade Yorùbá mas é uma cerimônia da sociedade e não da religião.

Na nossa sociedade o casamento veio através da vertente religiosa e dessa maneira é uma cerimônia que inicia no contexto religioso e depois se estende a vivência social, missa e comemoração. O Candomblé, como uma tradição religiosa brasileira não pode se omitir de integrar uma cerimônia de casamento, por mais que isso não faça parte da religião. A sociedade assim o requer.

Contudo, não se pode buscar em uma religião a mesma cerimônia ou formato de outra porque cerimônias e liturgias estão baseadas em dogmas e fundamentos da religião e determinados ritos podem não ter sentido. 
 
O que tem ocorrido no Candomblé em seus ditos “casamentos” são cerimônias sem pé nem cabeça, que sincretizam coisas de várias religiões, as pessoas usam a estrutura da religião católica e adicionam coisas de outras cerimônias que viram um Frankstein. Nada do que é feito aqui no Brasil como casamento religioso no Candomblé é autêntico.

A primeira visão que devem ter é essa informação que eu trago, de que não existe na religião Yorùbá uma cerimônia de casamento, não existe o dogma de união indissolúvel entre homem e mulher. A base da religião não tem isso. A religião yorùbá reflete a sociedade yoruba, nunca podemos esquecer isso.

A religião é voltada para o indivíduo e sua vida e integrada totalmente no seu papel na sociedade como membro útil. Além disso a religião é coletiva, é impossível de ser praticada sozinho e desta forma existe este paradoxo, tudo na religião é feito para atender ao indivíduo mas ele não consegue fazer nada sem a sociedade.

A constituição da família é importante assim como ter filhos. A religião é baseada em renascimento das pessoas em viver várias vidas e dessa maneira esse é um dos dogmas, a pessoa deve constituir uma família e ter filhos para que o renascimento possa ocorrer.
Se existe um dogma na religião, sobre a questão da união entre as pessoas esse é relativo ao casal gerar filhos.

Dessa forma, na visão da religião Yorùbá não existe casamento. Isto é uma união civil. Contudo não é um evento menos importante por ser apenas um evento civil, pelo contrário, é carregado de significados, passos e responsabilidades!

O Candomblé tem vários buracos litúrgicos, seja porque não foram trazidos, porque foram perdidos ou porque nunca existiram. A história mostra isso, o que conhecemos hoje está muito longe do que foi no passado, o nível de informação e aperfeiçoamento da própria prática do Candomblé melhorou muito com o tempo e à medida que uma parte maior, mais informada, mais educada e mais ética entra para o Candomblé, mais modificações ocorrerão.

Não pensem que isto seja diferente para pessoas de Ifá. Aliás muito menos ainda. Brasileiros crias de nigerianos não sabem nada e os nigerianos vivem em uma sociedade dominada por religiões cristãs, possivelmente pelo Islã.

Como entender as pessoas que fazem casamento em Candomblé, como eu já vi em vídeos?

Entenda como quiser. Eu já disse que não tem. O que essas pessoas fazem é, primeiro não entender da sua religião, não entender de teologia da sua própria religião, ai eles copiam uma liturgia de outra religião e transformam em uma coisa deles inventando ritos e simbolismo.

Está cheio de gente mal-informada e despreparada se dizendo sacerdote de religião. A pessoa aprende a fazer ebó e dedica a sua vida a atender clientes. Ela se autodeclara tendo um título e um conhecimento que não tem. Essas pessoas que atendem clientes não necessariamente são sacerdotes e conhecem sua religião. 
 
Mas o que fazer então?

Claro que temos que nos adaptar, a sociedade incorporou ritos religioso como ritos sociais e temos que responder a isso, mas não se faz isso dessa forma boba como se está fazendo, copiando o que outras religiões fazem.

É necessário algum esforço para se buscar uma forma de harmonizar o que a religião pode oferecer com o que a sociedade demanda. Em termos de casamento, temos que entender que existe um rito social laico bastante importante e que marca e união das pessoas. Podemos adicionar a este contexto algumas ideias e inserir uma participação religiosa no contexto.

Dentro do princípio que temos que criar uma cerimônia de casamento podemos até entender que pessoas que copiam a cerimônia católica não estão totalmente erradas, afinal a sociedade esta acostumada àquele formato.

Entendam, eu iniciei criticando essas cerimônias inventadas que são feitas, mas, digo que, na ausência de uma cerimônia formal e na necessidade da sociedade de ter uma cerimônia, as pessoas devem estabelecer uma cerimônia que faça sentido para a nossa sociedade, nossa história e povo.

O que eu procurei saber é como é a cerimônia tradicional Yorùbá e descrever aqui já com simplificações para que pessoal possam se espelhar em outro modelo. O Casamento tradicional Yorùbá segue um conjunto de ritos bem complexos, entendo que existem partes que não nos interessam.

A grande diferença entre a cerimônia deles e a nossa é a deles é um evento social e não religioso. Apesar de que muita gente hoje se casa com festa em uma cerimônia social, a combinação de rico rito religioso mais festa tem caído em desuso.

No caso Yorùbá a cerimônia deles tem com foco a família e não o indivíduo. Esta é a principal diferença. Na nossa o foco são as 2 pessoas que se unem, na deles é a formação de uma nova família estendida com a noiva se integrando à família do noivo.

Na sociedade Yorùbá a noiva deixa sua família e vai morar com o noivo, com a família do noivo, as vezes no que chamam de “compound” um conjunto de casas junto. Se isso se mantêm até hoje não sei, mas, a ritualística da cerimônia é familiar.
O Casamento tradicional Yorùbá 
 
Existe alguns rituais sociais que antecedem ao casamento, mas, que não vou explicar aqui.
O dia da cerimônia de casamento Yorùbá é muito especial para o noivo e a noiva. A cerimônia Yorùbá é oficiada por 2 pessoas ao mesmo tempo, uma de cada família e elas serão os porta-vozes de cada família e são muito importantes para o tom e andamento da cerimônia. Eles precisam conhecer a cultura Yorùbá bem como serem divertidos, articulados e preferencialmente poéticos uma vez que a sociedade valoriza o bom uso da língua deles.

Essas pessoas serão chamados de Alaga Iduro no caso da família do noivo e de Alaga Ijoko no caso da família da noiva, eles são os porta-vozes das duas famílias.

Os yorùbá tomam os cumprimentos muito a sério. Cumprimentos são feitos com sorrisos, alegria e respeito de forma que a pessoa que estiver sendo saudada sentirá que o cumprimento é sincero. Os homens e mulheres devem fazer reverência para quem está sendo saudado como se estivessem saudando a rainha da Inglaterra.

Os dois Alaga devem receber e cumprimentar todos os convidados da cerimônia.
Uma vez que o noivo está tomando a mão da noiva em casamento, o Alaga Iduro e membros da família do noivo se levantarão dos seus assentos e saudarão a família da noiva com dança e canto, no início da cerimônia.

Inicia-se uma pequena encenação entre o Alaga Iduro e o Alaga Ijoko com eles falando sobre a intenção da família do noivo trazer para ela, a noiva. Isso é feito porque esse é o entendimento. A Mulher sempre vai para a família do noivo, ela sai da sua família e vai para outra família. O homem é o único que permanece na mesma família.

O diálogo entre os dois porta-vozes ocorre durante um tempo, com a finalidade de entreter os familiares e adicionar alegria e humor à cerimônia.

A próxima etapa é a leitura da carta de pedido.

O alaga Iduro traz a carta de pedido em um pacote acompanhada de canto e dança. A carta é aberta e lida por uma representante designada pela família da noiva, normalmente uma jovem entre 12 e 15 anos de idade.

A carta de pedido é uma carta onde a família do noivo exorta o amor do noivo pela noiva e o carinho da família por ela e pede que a família da noiva formalize a aceitação do relacionamento entre eles. Esta carta terá que ser respondida e existe uma pausa entre a leitura e a resposta sempre preenchida com canto e dança.

Observem que a participação da família é fundamental no casamento yorùbá. Não é apenas uma cerimônia entre duas pessoas que se amam e decidem se casar, essa é uma diferença fundamental. O casamento é uma cerimônia social e por isso mesmo familiar. A família do noivo recebe a noiva e para isso pede a dá garantias a família da noiva que faz isso de bom grado e com alegria.

Após a aceitação da carta pela família da noiva, é feita a entrada do cortejo do noivo.
A entrada do noivo é feita com música e tambores. As esposas jovens da família do noivo que já tenham casado por menos de 15 anos irão acompanhá-lo, dançando ao redor do noivo, junto com seus amigos homens e membros homens da família do noivo.

O cortejo segue até onde estão as esposas da família da noiva que vão estender um pano decorativo característico da vestimenta tradicional para que o noivo coloque dinheiro em retribuição ao trabalho delas que durante o dia preparam a festa e a recepção.

As esposas da família da noiva vão recolhes seus panos e também dançar à frente do cortejo enquanto ele dança até o local onde estão os mais velhos da família da noiva. 

Chegando a esse local as esposas saem da frente e o noivo e seus amigos farão reverência a esses mais velhos. A família da noiva saudará e abençoará o noivo.
Depois disse ele deve ainda dançar sozinho até onde estão as 2 cadeiras altas preparadas para ele e sua noiva.

É chamado então o cortejo da noiva. O Alaga Iduro pedirá ao Alaga Ijoko para trazer a noiva, através de um cortejo similar ao cortejo da noiva, sendo que a noiva vem com sua cabeça totalmente coberta. Ela é levada até a sua família para que eles a abençoem.

Os parentes rezarão para que a noiva não seja estéril e darão os seguintes conselhos:
  • Ela deve ser uma mulher virtuosa para seu marido e filhos e ter o melhor comportamento em sua nova família.
  • Ela não deve fazer nada que traga vergonha a sua família.
  • Ela deve suportar o seu marido.
A noiva vai então para a família do noivo que farão o seguinte:
  • Eles a receberão com os braços abertos.
  • Garantirão que ela está casando em uma boa família.
  • Prometerão cuidar dela e de seus filhos.
  • A cobrirão de bençãos.
Ela vai então até o noivo, acompanhada de canto e dança.

Os presentes da família do noivo serão apresentados para a noiva pelo Alaga Ijoko que instruirá a noiva a escolher o que ela mais ama entre eles.

Os presentes são os seguintes:

óleo vegetal: Para trazer calma e frescos ao corpo e também ao casamento. Ele deve trazer facilidade ao casal para resolver suas dificuldades.
Mel: A união deve ser doce e agradável.
Orogbo: A amêndoa tem gosto amargo e significa que para o resto de sua vida eles serão apenas um, não importa os amargores da vida.
Obi: eles são medicinais e trazem saúde para o corpo. O casal será abençoado com saúde.
Pimenta da costa: significa que a noiva terá muitos filhos.
Sal: um preservativo, significa que o casal será um exemplo para os outros e que a união será preservada até longa idade e que o casal possa ver os filhos dos filhos.
Água: Ninguém vive sem água, o que significa que até os inimigos do casal vão deixar eles em paz.
Bíblia ou Quran: significa que eles viverão em sua fé e manterão a família junto independente das situações que passem.

Ela deve escolher a bíblia ou o Quran dependendo de sua religião e a audiência deverá comemorar isso. Ela será orientada a abrir o livro e dentro dele estará a aliança.

O noivo deverá colocar na noiva o anel com um beijo e abraço e a noiva deverá dançar ao redor mostrando para todos a aliança.

Em alguns casos é feito a cerimônia do sabor, na qual os noivos provam 4 sabores:
  • Limão: acidez
  • Vinagre: amargor
  • Cana: calor
  • Mel: doce
Experimentando os sabores junto simboliza que os momentos dominados por esses sabores serão superados pelo casal. Agora ele sabem o que encontrarão juntos e juntos superarão.

Depois disso a noiva vai até o noivo e vai colocar nele o seu chapéu. Isso é considerado um “coroamento” do noivo, uma vez que o marido é visto como a coroa na cabeça da mulher, em outras palavras ele é a cabeça do casal. Ao colocar o chapéu na cabeça do noivo a noiva selará a sua parte da cerimônia com um beijo.

Depois disso todos os membros de ambas as famílias devem esticar suas mãos em direção ao casal e rezar pela união dos dois. Parte das preces é que nenhum homem ou mulher estranho irá se colocar entre os dois e que a coroa não cairá da cabeça da mulher.

A parte seguinte da cerimônia, os Alagas introduziram todos os membros das famílias presentes. É parte da cultura yorùbá que cada membro da família deve conhecer o outro de forma que quando eles se encontrarem na comunidade eles devem se reconhecer e se saudar e não agir como estranhos uns aos outros.

As duas famílias estão agora unidas.

As famílias podem adicionar nesta parte as bençãos religiosas, convidando representantes de sua religião para abençoarem o casal.
Resumo
Como podem ver, a cerimônia de casamento é um evento social e voltado para a família e sociedade. Não é uma cerimônia religiosa e mesmo a religião tradicional tem, hoje, pouco espaço, uma vez que eles consideram que as pessoas são cristãs ou muçulmanas.

Na minha descrição eu simplifiquei algumas coisas (poucas), existem coisas que são muito próprias deles e que não adicionam nada ao entendimento da cerimônia.

Existe por parte de brasileiros uma ensandecida vontade de parecerem africanos. Isso é ridículo. Não se importa cultura, a cultura é algo complexo e parte do povo. Jamais um outro povo pode absorver a cultura de outro, um povo ou pessoas podem absorver pequenos aspectos de uma cultura, como estética, arte e religião, mas, jamais serão o outro povo.

Brasileiros serão sempre brasileiros. Essa vontade de fazerem negros se comportarem como africanos ou insinuar que negros devem estar ligados a sua raiz africana é uma bobagem sem fim, é como se você condenar para sempre uma parte de nossa sociedade para ser discriminada por toda a sua vida. Não se pode segregar pessoas orientando elas a se comportarem como outra sociedade. Igualdade significa aceitar a todos como membros da mesma sociedade onde todos adotam a mesma cultura.

Essa cerimônia tem alguns aspectos interessantes, ligados às famílias que devem ser usados, porque isso é parte da religião. Mas, claro que outros aspectos naturais de nossa sociedade e que já tenham sido incorporados em nossa cultura podem ser adicionados ao se formar uma cerimônia religiosa para o Candomblé.

O que recomendo é que pessoas do Candomblé entendam a estrutura da cerimônia ao fazerem sua cerimônia. Não vejo problema em usarem elementos cerimoniais de outras religiões que as pessoas já estejam acostumados, mas, não vejo porque fazerem invenções como faixas nas mãos e outras esquisitices e veem em filmes para dizer que aquilo é do Candomblé.

O Candomblé não tem cerimônia de casamento assim como a religião Yorùbá não tem. Uma cerimônia deve ser estabelecida para atender a sociedade e não vejo nem um problema da parte religiosa ser inserida apenas como uma benção ao final, como está nesta que eu descrevi uma vez que a religião não tem o dogma da união indissolúvel. Ou seja, integrar a religião em uma cerimônia social é uma opção vem adequada.

O que não é adequado é fazer uma cerimônia religiosa formal, em terreiro ou em outro lugar encenando o estabelecimento de uma relação que não existe na religião. Isso existe na religião católica e por isso eles fazem o casamento religioso.

segunda-feira, junho 01, 2015

O que é Ifá?

O que é Ifá?


Acredito que esta é uma das principais questões que envolve as pessoas em geral, entender do que estamos falando.

Antes de iniciar, preciso fazer algumas colocações.

Lembro que o compromisso deste BLOG é com a Informação, com qualidade, simplicidade e objetividade. Muita gente que sabe alguma coisa nesta religião tem problemas para explicar as coisas. Seja porque não sabe explicar, seja porque falta parte do conhecimento, seja porque sabe fazer mas não sabe o que faz, seja porque tem título e não sabe nada, seja porque não tem interesse em explicar nada.

Muita gente cria dificuldade para vender facilidade, outros criam problemas que não existem para vender solução que não se precisa.

Nunca posso esquecer daqueles que tem título, porque título se compra com dinheiro e não tem conhecimento porque para isso precisa esforço, estudo e inteligência. Ser um Bàbáláwo não torna ninguém um sábio, em princípio é alguém que pagou para ser isso. Está cheio de Bàbáláwos que decoram coisas, repetem automaticamente e são hábeis em fazer o que chamamos da parte mecânica, aquela que qualquer macaco amestrado aprende a fazer.

O que quero dizer com isso?  Simples assim, não de sua atenção a títulos. Preste atenção ao conteúdo da fala. A pessoa em um dia nada sabia e nada falava. Compra uma feitura de Ifá (isso não é um problema porque todo mundo compra, nada é de graça), mas, após ganhar o direito legítimo de usar o título de Babalawo, vira um falador despejando conhecimento.

Hora, se essa pessoa nada tinha a dizer antes porque passou a ter depois?

Enfim, dito isso, vou à seguir trazer a explicação mais objetiva possível sobre Ifá, despindo isso de todo o glamour que possa existir na cabeça de todos. Pretendo depois fazer uma comparação entre Ifá e Candomblé.


Ifá é parte de uma religião


Em primeiro lugar Ifá é parte de uma religião. Ele não é a religião por si mesmo. Ifá é uma culto que faz parte da religião Yorùbá. Esta religião que surgiu em uma área que hoje pertence em parte ao Benin e em parte a Nigéria, a região Yorùbá. Esta religião tem uma estrutura bem completa e complexa e se espalhou pela região em volta dela de forma bem ampla. Foi trazida ao novo mundo durante a diáspora negra.

Esta religião é dividida em 3 cultos principais: O culto de Orixá, o culto de Ifá e o culto de egungun. Cada um desses cultos tem uma especialização e um objetivo. O Culto de Orixá cuida da pessoa e da família. O culto de egungun, no qual as pessoas se comunicam com ancestres, cuida da comunidade e o culto de Ifá é dedicado ao oráculo da religião.

Em outro texto que comentei sobre a questão de alguns de que Ifá não seria religião. É religião, eu expliquei porque no texto, não vi ninguém explicar porque não era. 

A quem interessa que Ifá não seja o que é, isto é, parte de uma religião? Posso especular algumas alternativas: A pessoas que não tem fé, muito menos religiosa, e se interessam pelo comércio que ifá possibilita; pessoas que não conhecem, não aprenderam e não se interessam em estudar teologia, já estando dentro de Ifá a melhor opção é dizer que não pe religião; pessoas com múltiplas opções religiosas, quem não se identificou com nada ou se identificou com tudo, não reconhece uma religião; e por ai vai...

Existem em terras Yorùbá outros cultos como aspectos complementares ou colaterais deste culto, por exemplo o Gélédé. Não temos aqui. Em uma sociedade que já foi matriarcal mas hoje é extremamente dominada pela figura masculina, existe um culto dedicado a força feminina com um festival anual onde homens dançam vestidos de mulheres em uma reverência a energia feminina. Como estes poderemos ter outras variações e especializações que não nos interessam no novo mundo, temos que nos concentrar com o que já temos aqui e não em trazer a cultura de outra sociedade para cá. O Candomblé é a adaptação desta religião a nossa cultura.

A especialização de Ifá é o oráculo e só isso. O Bàbáláwo é uma pessoa dedicada a ser um mensageiro entre o divino e nós. O trabalho do Bàbáláwo é aprender a interpretar a forma como deus fala com a gente através do oráculo.

Mas, para melhorar o entendimento vamos a origem do oráculo. A questão é, por que o oráculo de Ifá existe na religião? Ou mesmo, poderíamos querer saber por que uma religião teria um Oráculo?


Os Videntes


O Oráculo não serve para sabermos do nosso futuro ou mesmo do nosso passado. O uso do oráculo para isso ou a existência de videntes dedicados a isso é apenas um uso colateral do supernatural. O Oráculo nos ajuda nos conhecermos para podermos construir um futuro melhor para nós mesmos.

O futuro é formado a cada dia baseado em muitas linhas de vida que se cruzam e entrelaçam. A cada momento decisões tomadas por nós e por outras pessoas podem mudar nossos caminhos e essas linhas. Não estamos sozinhos no mundo e não podemos esperar que apenas nossas decisões moldem o futuro da humanidade.

O futuro é uma terra desconhecida, já dizia Shakespeare em Hamlet ou o chanceler Gorkon (klingon) em Star Trek VI, e assim se preserva, talvez alguns possam especular onde essas linhas vão levar cada pessoa, mas a cada dia a cada momento milhões estão tomando suas decisões com lógica ou com emoção e mudando o rumo do futuro.

Conhecer o passado? Mais fácil, isso é bem conhecido para quem lida com o supernatural. Mas para que você precisa disso? A maior parte das pessoas usam disso como expediente apenas para obter a sua confiança antes de vaticinar conselhos e recomendações.

A técnica é simples, abre-se o leque de informações, quaisquer, quanto mais precisas melhores, sobre o passado apenas para impressionar quem houve. Falar sobre o que já ocorreu tem uma utilidade limitada, mas, é útil para quem quer demonstrar conhecimento. Uma vez que goza da confiança a pessoa usa essa confiança para projetar um futuro que, como eu já expliquei é incerto (muito diferente do passado), mas que, através disso, se consegue influenciar essa pessoa para tomar o rumo que se quer.

Este é o uso colateral do Oráculo, o que eu chamo de vidência. Tem pessoas muito boas nisso, boas mesmo, diz o que esta te acontecendo (presente-passado), diz o que te ocorreu (passado puro). A única coisa que as essas pessoas não podem fazer, jamais, é dizer o que você deve fazer.

A decisão do que fazer pertence somente, unicamente a própria pessoa. Videntes que tem ética e sabedoria JAMAIS te dizem que decisão tomar, essa é uma regra de ouro. Isso, decidir por você, é o que separa quem presta de quem não presta nesta atividade. Como eu falei, existem muito bons videntes, pessoas com o dom e que ajudam outras pessoas, assim como um bom Bàbáláwo faria, mas também existe o contrário.


O Oráculo dentro da Religião - Por que esta religião tem um oráculo?



A primeira questão que deve vir na cabeça de qualquer pessoa é, qual o sentido de um Oráculo em uma religião? Por que fazemos uma divinação?

Entendo que todos devem saber, ou supor, o que é um oráculo: um instrumento que fala sobre sua vida e sobre pessoas e fatos que o cercam e é procurado para podermos entender o que ocorre conosco.

O mais tradicional e comum uso de divinação é através de videntes, estes estão espalhados por todos os lugares e devem atuar desde que a humanidade existe. Mas, quando tratamos de religião é muito fácil as pessoas confundirem este uso dos videntes com a divinação no sentido religioso, ou mesmo, não entenderem que existe uma distinção.

Sem dúvida posso afirmar que a existência dos videntes laicos (laico é o que é não religioso) vulgariza o sentido do oráculo religioso. Dessa forma, a primeira coisa que temos que fazer é entender porque uma religião tem um oráculo.

Os videntes sempre estiveram por aqui. São pessoas com dons especiais que os permitem ter conhecimento sobre a vida das pessoas que os procuram. Esta é uma capacidade que nasce com eles e sua prática não obrigatoriamente os liga a uma religião. Eles podem ter a sua religião mas, a sua prática de vidência, é um dom pessoal que pode ser exercido sem qualquer contexto teológico.

O contexto teológico é aquele no qual as mensagens passadas aos consulentes está alinhada ou transmite valores e conceitos da religião a que pertence o oráculo. O olhador do oráculo deve se preocupar em transmitir mensagens e orientações que sejam alinhadas com a teologia de sua religião.

Os videntes, por sua vez, se comunicam com um mundo espiritual que nos cerca, o supernatural, e conseguem transmitir às pessoas que os consultam mensagens e informações que serão usadas por essas pessoas na condução de seus problemas e vida.

A prática da vidência é basicamente um processo mercantil que sustenta o vidente, sem dúvida. Mas, o importante não é o aspecto mercantil, isso é um detalhe, porque muitas vezes a divinação religiosa também é sustentada por uma transação mercantil. O que é relevante é que a prática da vidência em si, não serve a qualquer contexto religioso.

A falta do sentido religioso não os torna pior ou uma opção ruim. Pelo contrário, não existe correlação entre prática religiosa da divinação e qualidade de consulta. Videntes podem ser pessoas com dons extraordinários, que usados com ética e bom senso, podem se reverter em benefício para as pessoas que os consultam.

O que estou ressaltando aqui é divisão de 2 tipos de divinação. Aquela feita dentro de um contexto religioso e que tem, motivo, razão e propósito para existir, daquela divinação feita por videntes, que também servem às pessoas, mas, não através de uma religião.

As pessoas não podem sempre associar a prática da divinação ao contexto religioso africano, por exemplo, porque a prática da vidência existe de forma independente. Oráculos existem em muitas religiões, não somente nas africanas. Os videntes existem e trabalham de forma independente de uma religião. Como citei muitos terão sua própria religião e podem deixar isso explícito no seu local de trabalho, mas, a sua prática não implica necessariamente o contexto religioso.

Igualmente as pessoas não podem associar a prática mundana da vidência à divinação dentro de uma religião. Os métodos as vezes podem ser similares na aparência, mas o conteúdo e contexto são distintos. Claro que a finalidade de uma divinação é sempre a mesma, seja no âmbito sacro ou mundano, as pessoas procuram ajuda e orientação.

A minha insistência nesse ponto aqui, da dualidade de oráculos, deve ao fato que o charlatanismo existe em todos os segmentos e atividades da sociedade, do mecânico ao religioso. Onde existir gente necessitando de soluções e disposta a pagar para resolver os problemas que tem ou que criou, existirão pessoas para se usar disso.

Impossível afirmar que o charlatanismo está associado a prática da vidência e a virtude à prática da divinação religiosa. Seria muito simples e ingênuo estabelecermos um modelo maniqueísta. Não é assim no mundo real.

Assim, vamos nos fixar no ponto mais simples que é o de entender que temos a divinação religiosa e também temos os videntes laicos ou destinados aos assuntos mundanos. Ao ver um oráculo nunca associe ele a uma religião e também entenda que aquele instrumento mundano muitas vezes pode estar servindo a propósitos elevados dentro de uma religião.

O fato inegável é que, existe o mundo no qual habitamos e existe um mundo espiritual que nos cerca e permeia. É este mundo espiritual que serve aos videntes. As religiões trazem para esse mundo espiritual um contexto mais elevado e menos mundano na nossa existência.

O oráculo existe como parte de muitas religiões, eu posso até mesmo especular que sua existência dentro de uma religião, deve ser a situação normal, a regra, e a exceção, o anormal, é a religião não possuir um oráculo.




O Oráculo como forma de chegarmos a deus


Os oráculos dentro da religião nos permitem dialogar diretamente com o divino através de suas divindades. A divinação será empregada quando necessitamos da intervenção do divino em nossa vida e essa ajuda poderá ser feita através de perguntas e respostas diretas. Vamos exemplificar isso mais extensivamente adiante, mas, a base do oráculo está na Fé de que o divino nos assiste.

É um modelo muito exótico o de uma religião que não permite que seus seguidores tenham contato e orientação do divino, ou seja, que não tenha um oráculo. Tem que ser um exercício de fé cega, de fato, uma pessoa participar de uma religião que não lhe traz nenhum retorno do divino que ele cultua e acredita. A pessoa basicamente acredita, reza, adora e espera o retorno disso de forma subjetiva e muito sutilmente. A fé, neste caso, tem que ser baseada em uma crença unilateral que o divino o assiste e que tudo o que ocorre com ele é o que deveria ser e também já é o melhor possível.

A pessoa vive, entra para a religião para chegar a deus e esta religião diz para ele que isso só vai acontecer quando ele morrer ou no dia do juízo final. Como!?

Todos devem perceber que estou descrevendo o modelo cristão, um dos maiores críticos das religiões africanas. Sim, fé cega e nenhuma forma de interação com o divino. Notem que, não se trata aqui de crer ou não que existe um divino, um deus e suas divindades auxiliares, mas, de participar de uma religião na qual, o que você tem que fazer é, apenas, crer nele e rezar.

As respostas de deus às suas preces será, sempre, o mais absoluto silêncio.

Esta tese já foi explorada por filósofos e críticos. Voltaire escreveu o Livro “O Cândido” onde coloca em sua história as contradições da relação da igreja com a sociedade. Na figura de Pangloss o mestre de filosofia de Cândido (o personagem principal). Pangloss, expressava que tudo o que existia ou que acontecia era o que de melhor poderia haver. O mundo que tínhamos era o melhor que poderia existir e na nossa vida tudo já era o de melhor.

Este conceito de fé absoluta expressado por Pangloss, refletia uma das teses dogmáticas do cristianismo, a de que não poderia se aceitar que deus, Jeová, não nos desse o melhor ou que deus permitisse algum mal sobre nós. Esta tese foi ridicularizada em todo o livro com os personagens passando pelas situações mais esdrúxulas e terríveis e o Pangloss repetindo sempre a mesma coisa.

Mas, de fato, o cristianismo, possivelmente a maior religião do mundo, tem esse paradigma, de que o mal não pode vir de deus. Para poder fazer isso valer é inventado o impossível para justificar o injustificável, tudo fruto de uma concepção teológica equivocada.

Existem outros paradigmas que são encruzilhadas da fé na forma como os cristãos a veem, mas, o que é suficiente aqui é entender o contraponto de modelos para que passamos entender e justificar o oráculo dentro de uma religião.

A ausência de um oráculo, uma forma direta de se comunicar e receber orientações de deus, coloca os cristãos em uma situação muito extrema. Eles tem um divino no qual creem, mas, não obtêm deste divino qualquer tipo de orientação e ajuda que já não esteja escrita no seu livro sacro, a bíblia. Tudo que está ali, já escrito, é todo o retorno que eles tem do divino para suas vidas. O padre é a pessoa que pode lhes aconselhar baseado no que aprendeu da interpretação do livro sacro.

Assim, eles devem acreditar cegamente que suas vidas são as melhores possíveis e que lhes cabe rezar e adorar seu deus para que ele continue assim, silenciosamente e distantemente os ajudando. Eles devem crer, sob pena de estarem cometendo uma heresia, que deus sempre lhes dá o melhor possível, sem qualquer obrigação ou possibilidade de orientações adicionais.

Eu estou tornando extremo os meus comentários não no sentido de distorcer nada, porque não estou distorcendo, mas sim, deixar claro o que esta situação significa na prática. O uso da religião cristã como uma referência de contraponto é para facilitar o entendimento do motivo de uma religião ter um oráculo, já que esta é bem conhecida e não o tem.




O Oráculo na religião Yorùbá


A religião Yorùbá tem a figura do oráculo como um instrumento para que os crentes se comuniquem com deus. 

O oráculo na religião é um instrumento para a presença de deus na vida das pessoas. É ele que faz o divino presente e não distante. É o oráculo que responde à nossa fé e que dá elementos para que possamos ser bem-sucedidos nesta vida.

A religião Yorùbá é encarnacionista, acreditamos que vamos viver muitas vezes, vamos renascer continuamente. Existe um mundo espiritual, o Orun, e um mundo natural ou físico o Aiye, que é onde estamos agora. Antes de nós nascermos, novamente, ainda no Orun nós estabelecemos objetivos para nossa nova vida e antes de irmos para o aiye, para nascermos, nós nos ajoelhamos na presença de deus, Olodumare tendo como testemunha somente uma divindade Òrúnmìlà. Òrúnmìlà é o único testemunho de nosso destino, somente ele e deus sabem o que planejamos para nossa vida.

Deus sabe que a vida no aiye é bem difícil, que existem dificuldades, acidentes, incidentes, catástrofes naturais, imperfeições congênitas e pessoas que podem atrapalhar esse nosso destino. Dessa maneira ele encarregou os Orixá de cuidarem de nós e Òrúnmìlà de ser o mensageiro entre as pessoas, os orixás e deus.

Olodumare nos concede o destino pedido e nos dá para isso ferramentas que usaremos em nossa vida. Essas ferramentas serão o axé dele através do Odù de nascimento, o nosso orixá de orì, o nosso orì, o nosso anjo guardião e ainda permitirá que escolhamos outras coisas no Orun, como o Iwa e a possibilidade de lá, no Orun, realizarmos oferendas propiciatórias que nos preparam para esse nosso destino.

Existem pessoas que são negligentes nos preparativos para nascer e por isso mesmo vão ter uma vida mais complicada, seja pela dificuldade ou pela falta de rumo e objetivo, mas isso foi a escolha delas.

Olodumare tem com a gente todo o comprometimento em termos sucesso em nossa vida. Olodumare, deus, está comprometido que sejamos felizes e tenhamos sucesso e para isso, para que sejamos suportados ele estabeleceu a existência do oráculo de Ifá, através de Òrúnmìlà.

A nessa religião Yorùbá se baseia na presença contínua do divino na vida de seus crentes, na interação contínua de deus com eles e na certeza de suas intervenções e orientações individuais. O crente nos Orixá (Òrìṣà) vive junto com eles, se dedica a essa crença, segue orientações de vida e também se submete a regras. Contudo junto essa sua demonstração de Fé ele recebe dos Orixá (Òrìṣà) e de Olódúmarè.

Desta forma, quando sentimos que precisamos de uma ajuda para nossa vida, quando entendemos que algo esta errado e que não conseguimos com nossos recursos resolver o que fazer, entender o que ocorre com a gente ou qual o melhor caminho a tomar, temos o recurso de recorrer à nossa religião, e, usando o oráculo, pedir a ajuda de deus para nossa vida.

É muito importante observar que, esta religião não submete os homens ao divino. Não vivemos aqui de favor e não temos que prestar homenagens e oferendas para podermos viver em paz. Não existe submissão ou dependência. Nós vivemos com a ajuda do divino e não para o divino.

O oráculo de Ifá resume essa de uma forma extraordinária e por isso é um dos símbolos maiores da religião dos Orixás (Òrìṣà).

O oráculo significa a Fé do crente de que ele não está sozinho e que é cuidado e acompanhado por seu Orixá (Òrìṣà) e sua divindade pessoal. Revela que o divino intervêm ativamente e de forma individualizada na sua vida. Revela que a Fé nisso esta cima de tudo e que ele acredita e segue as orientações que o oráculo traz para ele. Revela que ele acredita que as mudanças na sua vida ocorrida após essa consulta advém da intervenção do Orixá (Òrìṣà) na sua vida.

Esta não é uma religião que tem um deus distante e que a dos seus crentes deve se basear na esperança de que ele o esteja ouvindo e na observação de sinais sutis de sua presença. Deus não existe porque os sacerdotes bradam para multidões palavras genéricas que são repetidas à exaustão, estas sim, velhas fórmulas que foram escritas por homens.

Quando a gente entende o oráculo na religião como parte deste processo de troca e de efetiva assistência da religião na nossa vida, não só como orientações e valores, mas, também, com orientações diretas no momento que precisamos, nós passamos a não compreender como pode existir uma religião sem oráculo.

O processo do Oráculo resume a da religião. Quem acredita no oráculo acredita em tudo o que a religião lhe oferece. O oráculo representa o compromisso da religião em nossa felicidade nesta vida que estamos vivendo. Representa o comprometimento da religião com o nosso sucesso e felicidade.

Como podemos acreditar que deus quer o melhor para nós, que quer o nosso bem se não temos um oráculo para nos ajudar e orientar quando precisamos?




O Oráculo de Ifá



O culto de Ifá é dedicado exclusivamente a uma divindade, a Òrúnmìlà. O Bàbáláwo em sua vida vai cultuar somente esta divindade que é a divindade que responde em seu oráculo. Òrúnmìlà, como testemunho de nosso destino junto a deus é o único que sabe o que planejamos para nossa vida, de forma que, quando temos uma dificuldade que não conseguimos resolver, vamos ao oráculo da Ifá, para que através de Òrúnmìlà possamos nos comunicar com o divino, com ele, Òrúnmìlà, que sabe o nosso destino e com os orixás que nos assistem na nossa vida.

O que torna o oráculo de Ifá especial para as pessoas é o conceito de Òrúnmìlà ter sido a testemunha de nosso destino, ele sabe o que nós planejamos para nós mesmos.

Existem Bàbáláwo que se acham especiais por causa disso. O que eles esquecem é que, eles não são Òrúnmìlà. Eles apenas interpretam o que Òrúnmìlà diz para o consulente, a gente pode dizer que Bàbáláwos são intérpretes ou estafetas. Um Bàbáláwo que acha é deus é como se fosse o porteiro do prédio achando que é o dono do prédio.

Sem dourar muito essa pílula, Ifá é um oráculo que possui instrumentos oraculares que são usados por sacerdotes chamados de Bàbáláwos. São 2 os instrumentos básicos de um Bàbáláwo, os Ikins, que é o instrumento principal e o Opele, que é o instrumento secundário e deve ser usado para acelerar o processo de consulta e dar agilidade ao Bàbáláwo.

O opele não deve substituir o Ikin. O Ikin é o instrumento sagrado e o símbolo de Òrúnmìlà.

Conforme descrito em uma história de Ifá, Òrúnmìlà tinha muitas consultas para fazer e precisava de trabalhar mais rápido. Pediu ajuda a Olodumare e este enviou para ele o Opele. Apesar disso, o Bàbáláwo deve ter critério no uso do Opele. O ikin é o instrumento sagrado e não o Opele, que é um instrumento auxiliar.

Instrumentos Oraculares servem para executar a conversa com deus estando, de um lado, o consulente com o problema e do outro Òrúnmìlà, com as informações que o consulente precisa saber. No meio dos dois está o Bàbáláwo o intermediário, aquele que opera o instrumento oracular e interpreta o seu uso com o objetivo de transmitir as mensagens de Òrúnmìlà.

É deste forma que o Bàbáláwo deve ser visto. É a pessoa que aprende a utilizar os instrumentos oraculares que são usados para que o consulente receba as informações de Òrúnmìlà. Seria ótimo se a gente pudesse falar diretamente com Òrúnmìlà, como se fosse uma consulta, mas não pode, assim, depende do Bàbáláwo para isso.

Vamos ressaltar, de um lado, você com seus problemas e dúvidas, do outro, Òrúnmìlà aquele que testemunhou junto a Olodumare o que você pediu para sua vida, nesta religião a divindade da sabedoria, no meio, o Bàbáláwo para traduzir e transmitir isso para você.

O que torna esta tarefa complexa, a interpretação do que Òrúnmìlà diz, é que o Bàbáláwo não é um vidente, ele não tem aurividência ou clarividência para ouvir e ver o que Òrúnmìlà diz para ele. A base da comunicação são símbolos gráficos, 256 sinais. Em uma consulta o Bàbáláwo usa um conjunto desses símbolos para interpretar o problema e entender a mensagem que deve ser dita.

Vamos, devagar, é isso mesmo, a cada símbolo estão associados significados, cabe ao Bàbáláwo usar um conjunto de Odùs (símbolos) para, através desses símbolos e possíveis significados, primeiro, entender o problema da pessoa, segundo analisar e definir o que deve ser dito para o consulente, terceiro, definir o que deve ser feito para ajudar a pessoa.

Junto com o consulente ele vai adequando às possíveis interpretações com aquela que tem mais significado para o consulente e desta forma reflete o real problema e o que deve ser dito a ele.

Mas as informações que o Bàbáláwo deve usar para isso não estão prontas, não existe um manual de usuário, no qual o Bàbáláwo possa estudar e decorar as informações de cada Odù. O que existe é a famosa “tradição oral”, isso mesmo, um enorme conjunto de histórias na forma de versos que relatam situações e eventos.

Cabe ao Bàbáláwo aprender esses versos e interpretá-los, buscando em metáforas entender o problema do consulente. É uma grande trabalho de interpretação e baseado em uma enorme subjetividade. Nada é objetivo e direto. O conhecimento de Ifá está deitado no berço de versos de uma literatura Yorùbá bastante regional e que requer informações sobre o povo, a cultura e a própria região para ser bem entendido.

Devido a esta estrutura, muitas vezes é adequado ter mais de um Babalawo em uma consulta. Cada um deles pode saber mais histórias ou oferecer um entendimento variante da questão, complementando ou corrigindo a interpretação. Uma consulta é, ou deveria ser um trabalho cooperativo.

Compreendeu a complexidade?

Não pode depender de Bàbáláwo idiota ou burro.

Existem? Claro!

Você acha que tem prova para ser Bàbáláwo? NÃO! A pessoa paga para ser Bàbáláwo.

Eu fiz um texto que vou republicar que explica a anatomia de uma consulta. Neste texto você entende como se dá o processo de interpretação do oráculo e o que faz o Bàbáláwo.

Não é um trabalho simples o do Bàbáláwo. Mas é uma base de conhecimento comum, por essa razão é que você vai poder ver vários Bàbáláwo juntos interpretando o mesmo jogo. Também não é um processo determinístico, a interpretação das histórias é compartilhada com o consulente para que o próprio consulente opine.

Os cubanos não usam os versos de Ifá. Tudo isso que todos conhecemos sobre ifá, de ser uma cultura oral, de ser a base teológica da religião, de ser formada por versos não se aplica aos cubanos. Eles não usam versos e muito menos africanos, eles criaram as suas próprias histórias que são chamadas de patakis. Tem a mesma finalidade, através de sua interpretação você analisa o problema da pessoa. Entretanto os cubanos foram além, eles criaram pré-interpretações das suas próprias histórias e incluíram nos chamados tratados. Criaram assim o tal manual de usuário, ou manual de uso rápido. O problema disso é que a qualidade dessas interpretações é questionável e os Babalawo desta tradição, pelo menos os brasileiros, estão ignorando o uso dos pataki, as histórias e isso vai contra o processo de Ifá. Mas esse não é o tema aqui.

Como muita coisa já foi dita vou fazer um resumo para continuarmos. Ifá é um oráculo religioso baseado no conhecimento que a divindade Òrúnmìlà tem de nossa vida em função dela estar em nossa companhia quando vamos a deus, olodumare, pedir o nosso destino.

Deus criou o oráculo de ifá, para através de Òrúnmìlà nos sermos orientados em nossa vida de forma termos sucesso.

O oráculo de Ifá é baseado no uso de 256 símbolos. Cada símbolo tem ligado a sí um conjunto de histórias na forma de versos e é na interpretação desses versos que são obtidas as informações que serão ditas para o consulente. Em uma consulta não é usado apenas a informação de 1 desses símbolos, normalmente 3 símbolos são usados, mas isso pode variar para mais ou menos.

Esta interpretação é simples? Não. Requer habilidade, sensibilidade, prática, criatividade e inteligência. Usar as pré-interpretações é muito mais simples, porém de baixa qualidade.



O que faz um Bàbáláwo?



O Bàbáláwo é o cara que manipula o oráculo. Ele é o operador do “telégrafo” com Òrúnmìlà. Cabe a ele receber os símbolos, interpretá-los e transmitir para o consulente o que sua interpretação indica.

O Bàbáláwo deve então se dedicar a aprender algumas coisas:

  • Deve estudar os 256 símbolos de Ifá e conhecer suas histórias e forma de interpretá-las. 

  • Deve aprender a mecânica do uso dos instrumentos oraculares de Ikin e Opele para uso dentro de uma consulta de ifá. 

  • Deve aprender a mecânica de fazer os ebós e trabalhos de ifá para poder dar sequência a recomendação das consultas. 

Existem 3 coisas que um Bàbáláwo aprender se quiser ou se esforçar muito e muitos Bàbáláwo podem nunca aprender direito por falta de formação:

  • Teologia da religião: Não faz parte de Ifá. Se a pessoa quiser vai ter que aprender isso por seus próprios recursos e organização. Não é automático aprender a teologia da religião quando se estuda os Odù. São coisas distintas, existem informações teológicas dentro dos Odù mas a maior parte do conhecimento esta fora deles.

    Além disso os Odù não são organizados de maneira didática, o objetivo dos versos do Odù é ter a cobertura para os problemas dos consulentes.

    Cubanos e pessoas ligadas somente ao Ifá cubano vão ter muita dificuldade de aprender e expressar a teologia, teogonia e cosmogonia Yorùbá. Esse conhecimento não existe ou é muito ruim, mas muito ruim mesmo, nas fontes deles. Elas misturarão o conhecimento de outras religiões ou se informarão em outra religião para poder se expressar usando uma teologia e teogonia. É bastante comum mesmo no Candomblé ver sacerdotes que não sabem falar da sua teogonia e recorrem da teogonia das outras religiões.

    Aqui no Brasil para o Candomblé existe uma dificuldade especial. Ifá esta ligado a religião Yoruba. A religião Yoruba esta ligado ao grupo KETU. No Candomblé temos outras matrizes religiosas além da matriz Yoruba. Os grupos do Candomblé ligados a Jeje e Angola deveriam estar muito desconfortáveis para lidar com Ifá que é construído para uma teologia e teogonia que não lhes pertence. Ifá é Yoruba, e é baseado em Olodumare-Orunmila-Exu, é também ORIXÁ. Não é vodum e não nkisi.

    Existe uma conversa citando "Fá" como uma coisa Jeje. Bobagem. No princípio do século XVIII a mãe de um rei Mahi, que possivelmente era Yoruba trouxe para as terra Mahi o Ifá Yoruba. Eles não tinham nada lá equivalente. Ifá foi inserido assim como algumas divindades Yoruba (vou narrar essas historia oportunamente).

    Veja não estou fazendo nenhum juízo de valor, isso ai é informação histórica.

    Fica fácil a gente entender porque existem pessoas que procuram separar Ifá de religião. Uma pessoa que venham de outra matriz religiosa, diferente da Yoruba jamais vão querer encarar Ifá como religião porque Ifá não representa a religião delas ou porque elas não aprenderam a religião que Ifá faz parte.

    Os cubanos também, porque eles estão muito distantes da teologia Yoruba. Eles criaram um culto próprio de orixá, com coisas e formas que só eles tem. Não tem diversos conceitos e usam outras que foram introduzidos tardiamente, na década de 50 quando começaram a chegar na ilha livros de antropólogos. A ligação deles com a religião Yoruba é infinitamente menor do que a ligação do grupo Ketu aqui no Candomblé.

    Muitos podem questionar, por que eu falo de teologia Yoruba? Porque ha anos estudo isso com muita intensidade e ao lado de Ifá.

  • Trabalhar com folhas: Folha é o coração dos fundamentos desta religião. Isto só se aprende com práticas e muitos anos. A pessoa que virou Bàbáláwo e não aprendeu isso antes vai ter muito trabalho para aprender isso depois. Some a isso o fato de que cubanos usam outra flora e com finalidades diferentes. Temos mais folhas que os africanos, mas temos muitas que tem lá e outras que não tem aqui.

  • Oferendas a orixá: Isto é um capítulo muito especial. As oferendas a orixá não fazem parte de Ifá e sim do culto de orixá. Tudo passa por orixá, mesmo no culto de Ifá. Cubanos usam o que é feito para orixá no culto deles e os africanos idem. Nós brasileiros devemos usar o que é feito no nosso culto de orixá.

    O primeiro aspecto aqui, é que se a pessoa nunca foi do culto de orixá vai aprender da forma dos estrangeiros. O segundo aspecto é que atender a pessoas no Brasil que já pertençam ao culto de orixá usando esse tipo de prática é péssima. 

Existem algumas coisas que Bàbáláwos podem estar fazendo e que não deveriam fazer:

  • Se meter em assuntos do culto de orixá para pessoas que façam parte ou já fizeram. Isso não é assunto para Bàbáláwo.
  • Distribuir assentamentos de orixá, exu ou iniciações de orixá. Os tratados cubanos e nigerianos estão recheados disso. Isso é apenas um caça-níquel.

Todo Babalawo sabe fazer tudo? Nem sempre. Os próprios nigerianos reconhecem que a pessoa pode se especializar em 2 aspectos do trabalho do Babalawo. Ele pode se aprofundar na análise dos Odù e na sua interpretação ou ele pode se aprofundar na proficiência na execução de ebós, cerimônias e oferendas. Ambas as áreas exigem conhecimentos diferentes e complementares.

Isso não significa que você vá encontrar Babalawos de um tipo ou de outro, um Babalawo faz as 2 coisas.



Resumo


Finalizando, um Bàbáláwo não é nativamente nenhum especialista em religião ou em teologia. Muito menos é um especialista em orixá, lamento decepcionar aqueles que constroem ou construíram uma imagem diferente.

Um Bàbáláwo é uma pessoa dedicada a uma divindade e um culto. O trabalho dele é aprender a mecânica do uso de instrumentos oraculares, lidar com isso com confiança e desenvoltura, aprender o significado dos símbolos de Ifá (signos de Odù), interpretar o significado para cada pessoa das mensagens de Òrúnmìlà e fazer os ebós indicados para ajudar a pessoa.

Esta é a rotina básica do Bàbáláwo.

Ifá é um oráculo. Ajuda você a entender o presente para que você possa construir melhor o seu futuro.


O Bàbáláwo pode ajudar muito o candomblé devido a sua intimidade com o uso do oráculo. 

O Bàbáláwo é o oráculo e o oráculo é o Bàbáláwo. Ele não se intimida com perguntas ou respostas. Enquanto que no Candomblé pouco se prepara e pouco de confirma e quando se faz isso usa-se uma cebola ou um instrumento voltado para sempre dizer sim, o Bàbáláwo é uma pessoa habituada e lidar com todas as respostas e encontrar solução para todas as situações.

O Babalorixá é o cara que sabe tudo, que tem que saber tudo, que não pode errar e que não pode ser questionado. O Babalawo não tem egos e vaidades, ele faz o que o oráculo manda, ele confirma tudo o que faz e ele é corrigido o tempo todo pelo oráculo. O Babalawo não se preocupa em ser corrigido, ele quer é fazer o que é certo em cada caso.


O Babalawo não segue receitas. Ele segue indicações e faz ajustes o tempo todo particularizando cada procedimento ao consulente.

Com o suporte de um Bàbáláwo, obrigações e trabalho pode fluir com mais precisão e firmeza. O Bàbáláwo ajuda a preparar, conduzir e confirmar. Ele não tem que se meter nos ritos do Candomblé ou trazer insegurança para ninguém, ele é uma pessoa cujo único trabalho é dialogar com o divino.