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terça-feira, abril 21, 2026

O equilíbrio em ifá em Odi Meji

 

O equilíbrio em ifá

 

Esta é a religião do equilíbrio e Ifá tem isso em suas entranhas. A noção do equilíbrio e também de dualidade está contida em tudo que Ifá faz e, também, nos versos de Odù.

No Odù Òdí Méjì temos a história principal sobre o equilíbrio de Ifá, quando Ifá explica porque se marca um ou dois traços quando se consulta com Ikin. Apesar de longo e repetitivo faço questão de destacá-lo porque ele lida com um princípio básico de Ifá.

O verso foi retirado do livro “A recitation of Ifá, Oracle of the Yorùbá” de Judith Gleason. Este é um livro antigo e, na minha avaliação, confiável, visto que recentemente muitos textos são inventados por Bàbáláwo novos.

Judith Gleason é uma autora conhecida e os versos que publicou tiveram como fonte Awotunde Aworinde. Os versos do livro já estão em inglês, sem a versão yorùbá, mas apresentam a formatação correta de versos legítimos, usando a estrutura de versos, jogos de palavras e repetições.

O seu entendimento é tão difícil como o de qualquer verso de Ifá original. Interpretar Ifá não é uma tarefa simples.

Saudações pelo sacrifício!
Agora louvemos Odi Meji.
Não vês? Ifá prometeu
receber aquilo de que abrimos mão.
Escuta, escuta o que estou dizendo agora:
Embora nossas cabeças carreguem fardos pesados, se ainda não chegamos, temos de continuar.
Consultou-se Ifá para Som-de-gongo-soa-gongo no dia em que ele partiu para a casa do Adivinho-da-Tosse para ver as coisas.
Ora, o Adivinho-da-Tosse estava chorando porque não tinha filhos,

Então lhe disseram que sacrificasse tudo em grupos de seis,
(Dois não se equilibram sobre Três)
Ele concordou.
A obediência (em conjunto com a estabilidade) produziu estes:
Chegar-bem, Boa-caminhada e Cheguei-prontamente-sobre-meus-dois-pés, seguidos de
Justo quando havíamos espalhado todas as nossas riquezas, foi então que entrei em cena
acompanhado de Meu-pai-possui-todas-estas-coisas, junto com Nenhum-parente-meu-é-o-dono,
Ainda assim o Adivinho-da-Tosse suspirava,
O que há de errado comigo, Elewi, não tenho filhos.
Então lhe disseram que sacrificasse tudo em grupos de seis.
(O chão e a base concordam)
Novamente ele sacrificou em grupos de seis e ela deu à luz três facas:
Corta-isso-precisamente, Trapalhão, tenha cuidado
A Flexível apara unhas, lança infecções, além de perfurar:
A cortadora de raízes no caminho deixa saliências negativas
Mal tínhamos enrolado a esteira (quando apareceu)
Um homem de grande autoridade
E ainda assim aquele reprodutor excessivo lamentava,
Não adianta me consolar, Elewi, não tenho filhos.
Então lhe disseram que sacrificasse tudo em grupos de seis,
De dois em dois ele avançou para três e (Aqui está a honra de fato, Ela) deu à luz três orixás:
Exú (Èṣù) Odara, velho selvagem de Ikoyi
Xangô (Ṣàngó), o causador de problemas que não foi enforcado, oba koso
Oya, filha ardente de uma casa contenciosa
Mas ainda assim aquele tagarela repetitivo permanecia descontente:
Não vejo filhos nascidos para mim, ai de mim, Elewi.
Então disseram:
Não podemos fazer mais sacrifícios desse tipo para você em Ile Ife.
Irado, ele pegou um porongo de remédio
das mãos de um açougueiro,
levou-o para o mato arruinado,
matou ali um leopardo negro
onde a roça faz limite com a mata tufada.
No lugar desse abraço ele o esfolou, da mandíbula até embaixo, e fez três bolsas de pele de leopardo, às quais deu o nome de
Traço-distintivo,
Sonho-que-enxameia
e Acordou-assim.

Então tomou os três, todos encerrados na maior, todos enfeitados com búzios, e foi à casa do adivinho do Gato.
Encontra-me um lugar onde as pessoas cultuem corretamente.
Só o Rato sabe.
Então como se dá obi a Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) em tua cidade?
Quando resta um, risca-se um; se dois, dois riscos, disse o adivinho do Gato.
Estás estragando a vida na cidade de Ife!
E com isso o postulante quebrou a cabeça do Rato-do-mato, lançou-a em sua bolsa de pele de leopardo; abaixo, em Traço-distintivo, ela rolou, passando por Sonho-que-enxameia até Acordou-assim.

Agora onde, agora quem?
Há Rajada-confusa, alguém disse, soprando água em todas as direções, adivinho de Som-da-chuva.
Muito bem, então, como fazeis o toque de Ifá?
Aqui está a batida: se um, aperta-se um; se dois, dobra-se.
Estás arruinando a vida em Ile Ife!
disse ele, quebrando a cabeça da Chuva e lançando-a
na grande bolsa
zunindo com búzios.

Agora onde? Existe ele
para iniciar-me nos mistérios?
Há Rato-gigante, muito antigo, adivinho de Rapidamente, saia-do-caminho-da-Pipa.
E como ele adivinha os segredos?
Quando resta um, faz-se uma marca; duas marcas para dois.
Ahá, és tu que estás estragando a vida em Ile Ife.
E com isso arrancou a cabeça do Rato Ancião, enfiou-a na pele de leopardo, de Traço-distintivo para Sonho-que-enxameia, Medidas-do-despertar.

Agora para onde posso me voltar? O que posso fazer?
Resta Odi-está-repousando-sobre, alguém disse, adivinho de Correndo-para-a-chegada-do-pensamento.
Como adivinhas em Ile Ife?
Quando resta um, eu aperto dois; se dois, então um.
Tu, Odimo, estás restaurando a vida em Ife!
Òdí Méjì está corretamente contado?
Estás tornando a vida fácil aqui em Ile Ife!

Ó Fechador-de-caminhos, fecha bem
para a morte
para a doença
Ó Fechador, fecha bem esses caminhos.
Ó Fechador, não feches o caminho para as riquezas, não obstruas o caminho para as mulheres
Mas fecha o caminho para todas as coisas ruins,
Fechador-de-caminhos.

Agora, o que resta ser feito para a adivinhação?
Disseram: resta lançar os ikins, liberar o frescor;
resta o criador do canto e do heroísmo.
Cabe a ti começar a lançar,
Cabe a mim começar.
Mas onde está o coro?
Quem se juntará?

Nenhum estranho sabe como,
responder ao som do nosso canto em Ile Ife,

Raízes aéreas, pequenos pendentes de cabeça para baixo,
mãe das infâncias, consultou Ifá para Onde-tu-penduraste-a-morte-dele?

O Segredo diz: eu a pendurei em algo vertical com dezesseis ramos
onde usam a cabeça de um escravo para comer óleo; todos estão à altura da tarefa; teu caso está calmo.
Posso ver que minha morte está bem suspensa.

Resta lançar os ikins, liberando seu frescor
Que tu comeces
Que eu comece
Mas onde está o coro?
Quem, certamente não os estranhos,
será capaz de se juntar?

Pequenas raízes aéreas,
Onde penduraste minha morte?
Numa árvore Albizzia com dezesseis ramos, oito dos quais são rígidos, oito flexíveis.
Posso ver que minha morte está bem pendurada.

Resta o Criador do canto e do heroísmo,
Que tu comeces,
Que eu comece
Quem saberá acompanhar?

Pequenas raízes aéreas,
Onde penduraste minha morte?
Na noz-de-cola
que pode ser partida em dezesseis segmentos,
oito dos quais são secos, oito dos quais são frescos.
Posso ver que minha morte está bem pendurada.

Resta lançar os ikins, liberando seu frescor
Que tu comeces, que eu comece,
mas quem cantará as respostas,

Pequenas raízes aéreas,
Onde penduraste minha morte?
Na árvore Iroko com dezesseis ramos
oito dos quais são frescos, oito quebradiços.
Posso ver que minha morte está bem pendurada.

Resta o Criador do canto e do heroísmo,
Que comecemos ambos,
mas quem seguirá?

Pequenas raízes aéreas,
Onde penduraste minha morte?
Na palmeira com dezesseis ramos, nenhum dos quais é seco.
Desta vez penduraste minha morte muito bem, de fato!

Vai, traz-me pimenta-da-costa intacta,
traz noz-de-cola intacta e vinho espumante
pois quem comer pimenta-da-costa conosco não morrerá
quem comer cola de quatro olhos
quem beber conosco vinho de milho-da-guiné
não perecerá.

Na cabaça de Odù beberemos vinho de milho-da-guiné.
Ó Fechador-de-caminhos, fecha bem;
fecha o caminho para a morte
barra o caminho para a doença
mas mantém aberto o caminho para as coisas boas
para a riqueza
para as mulheres
Ó Fechador-de-caminhos, fecha bem,
mas não barres a abertura.

Se você teve o paciente trabalho de ler o verso deve ter encontrado bastante complexidade. Isso caracteriza o trabalho de Judith Gleason nesse livro. Os versos são muito confusos.

A história mostra a jornada de quem ela chamou de o Adivinho-da-Tosse que buscava solução para seu problema de filhos, de prosperidade, porque somente se você tem esposa e dinheiro pode ter filhos também.

Ele buscou ajuda e não conseguiu nada e saiu em busca de um Bàbáláwo. Mas encontrou pessoas que ele considerou enganadores, não conhecedores do segredo, porque quando olhavam 1 ikin marcavam 1 e quando viam 2 ikins marcavam 2.

Ele vai à casa de 3 Bàbáláwo e todos faziam da forma errada e ele os considerava como responsáveis pelos problemas de Ifé. Cabe observar certos simbolismos. Òdí é o quarto Odù e ele visita os 3 primeiros. Antes de visitar ele faz uma bolsa com 3 bolsas pequenas dentro e após o encontro tira a cabeça dos Bàbáláwo que considera equivocado e coloca na bolsa, justamente, que possui 3 bolsas menores.

Isso possivelmente é o simbolismo do Igba Odù, o útero que o Bàbáláwo recebe de Odù. Odù surge em Òdí e dá nascimento ao poder do Bàbáláwo. Nesse verso o poder já existente mas não ordenado é corrigido, Òdí o útero ou bolsa principal com os 3 primeiros Odù contidos e o encontro do Bàbáláwo Òdí que trabalha através do equilíbrio, o complemento, ver 1 marca 2, ver 2 marca 1.

Lembro que Ifá é composto por 256 Odù, mas os quatro primeiros são os principais, a raiz de tudo, depois desse temos os primeiros 16, os Méjì que originam os demais 240. Assim temos 3 grupos: os 4 primeiros, os 16 primeiros e os 256. Esse verso está ligado a Òdí o quarto e que fecha o grupo dos 4 primeiros.

Ifá não se limita a refletir o mundo como ele é. Isso é se conformar com o que você já encontra. Ifá intervém na realidade, reorganizando-a segundo uma ordem mais adequada ao destino. Ele transforma morte em vida, esterilidade em fertilidade, pobreza em riqueza. Ifá não é descrição do mundo — é ação sobre o mundo.

Ifá é a possibilidade de reordenação do destino. É o princípio pelo qual aquilo que está desordenado pode ser reconduzido ao seu caminho.

Òdí dá nascimento ao Igba Odù, o útero que muda o mundo.

Assim como Ọ̀ṣun (Óxun), no Odù Ọ̀ṣẹ́ Òtúwá, demonstra que sem o princípio feminino nada se realiza, aqui Òdí revela que sem estrutura o poder não se manifesta corretamente.

É o poder organizador e equilibrador.

A segunda parte do verso aprofunda essa dimensão simbólica. As “raízes aéreas” remetem às árvores associadas às Ajé (Àjẹ́), expressão do princípio feminino primordial. A vida — ou a morte — estará “pendurada” em estruturas que representam Ifá: a árvore de Albizzia, o Iroko, a palmeira e o Obì, todos associados à estrutura dos 16 Odù Méjì.

Isso indica que o destino humano está sustentado na própria estrutura metafísica de Ifá.

Cabe agora lembrar do início do verso, onde Elewi foi orientado a fazer sacrifícios de seis, em grupos de dois e isso deu nascimento a 3 facas e depois a 3 divindades violentas.

Ele buscava filhos e não os conseguia, as orientações que recebia eram erradas.

Assim voltamos agora a Òdí, ao útero e a energia feminina que está sendo trazida por Òdí. É isso que fez as coisas darem resultado e equilibrando o que ele desejava.

Raízes aéreas identificam uma das principais árvores associadas a Ajé (Àjẹ́) a representação da ação de Ìyá Nla, o princípio feminino no mundo.

Ela cita que a morte ou na verdade a vida estará suportada nos símbolos de Ifá. A árvore de Albizzia, Albizia zygia - ayin rela, cuja característica é ter 16 ramos que representam os 16 Odù Méjì, a Palmeira, a árvore de Obì e o Iroko.

O verso se encerra com mais simbolismo, a união com Ifá para comer a pimenta da costa, que é usada pelos Bàbáláwo para limpar a boca e sempre dizer a verdade, o Obì a semente básica e é usada em consultas de oráculo e o vinho, trazendo assim o caráter dionísico da religião, a alegria com a vida.

O encerramento com a lembrança que Òdí é o que fecha o caminho da morte e da doença e que não deve barrar a abertura dos caminhos para ele.

Apesar de complexo o entendimento esse verso é rico em simbolismo e mostra como, na maior parte das vezes, somente o Bàbáláwo, através de ELA, o princípio vital de sua ligação de Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) com o Bàbáláwo interpreta o que lê nas entrelinhas dos versos. ELA, por analogia, é o equivalente ao conceito da Pneuma no neo-platonismo.

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