Pesquisar este blog

terça-feira, abril 21, 2026

A estrutura metafísica do cosmo revelada nos versos de Ifá

 

A estrutura metafísica do cosmo revelada nos versos de Ifá

As histórias relatadas nesses três grupos de versos, selecionados por mim, estão longe de cobrir todas as disponíveis para este tema, mas foram escolhidas por apresentarem, na minha avaliação, maior relevância para o seu entendimento ou por trazerem informações estruturalmente importantes para as análises que estou aqui desenvolvendo.

Se quisermos compreender esses versos apenas como narrativas morais ou sociais, perderemos o seu sentido mais profundo. Esses relatos não tratam apenas de comportamento humano, mas da própria estrutura da realidade, expressa de forma simbólica por meio dos personagens.

Essa é a manifestação da sabedoria contida em Ifá: Uma complexa metafísica expressa através de histórias simples com personagens simbólicos. Apesar da simplicidade dos textos de Ifá o que está contido nos versos é a sabedoria de deus. Assim nós entendemos e melhor, demonstramos com clareza.

As histórias são aparentemente simples porque cumprem o objetivo de permitir que pessoas simples às entendam. A interpretação disso e sua explicação requer a sapiência do saco da sabedoria que o Bàbáláwo recebe através do espírito de ELA, a pneuma de Órunmila (Ọ̀rúnmìlà)..

Ifá foi feito para trazer conhecimento e sabedoria às pessoas e nesse sentido sua virtude é ter sido feito para ser entendido.

Não se trata de um exercício interpretativo arbitrário, como ocorre em tradições (como a cristã) que constroem sistemas complexos a partir de fragmentos textuais reduzidos.

A patrística e principalmente a escolástica criou teologia que se usa hoje buscando em Aristóteles, Platão, no neo -platonismo, no estoicismo e talvez no Orfismo fonte para seu modelo, amarrando isso em frases quaisquer.

O primeiro conjunto de histórias, que apresentei, mostra uma visão aparentemente negativa de Ifá sobre as mulheres. É a mulher que faz Ọ̀rúnmìlà sofrer, é a mulher que trai Ọ̀rúnmìlà e que o humilha. Em diversos Odù, quando temos uma atitude humana ruim e mesquinha, será frequentemente a mulher que a representa.

Assim, à primeira vista, a mulher como ser humano é retratada como portadora dos defeitos humanos, alguns deles. Mesmo sendo esposa de Ọ̀rúnmìlà, é dela que partem, muitas vezes, as piores atitudes.

Essa leitura literal é superficial e não alcança o nível simbólico em que os versos operam.

Ifá é como no hermetismo e na alquimia, a sabedoria está oculta nos detalhes e nas entrelinhas.

Essa leitura literal é superficial. No contexto desses versos, com poucos personagens — onde temos Ọ̀rúnmìlà, Èṣù, outros Bàbáláwo, pessoas comuns e a esposa —, cabe à esposa refletir, junto com outros personagens, aspectos da natureza humana. Isso não é uma afirmação moral sobre a mulher, mas uma construção simbólica.

Ninguém pode se chocar com o modelo que eu trouxe. Esse modelo mostra erudição. É o mesmo que encontramos na religião grega e que originou na figura de Pandora, criação de Zeus para punir os homens depois que Prometeus roubou o fogo divino dando a humanidade sua auto-suficiência, conforme já abordei em capítulo anterior.

Os versos são muito complexos apesar de sua capa de simplicidade. Em relação a condição masculina-feminina, cabe observar que os próprios Bàbáláwo quando inseridos nas histórias, refletem falhas de conduta. Eles mostram a falha na ação e no caráter. Já à mulher cabe a quebra de confiança, a traição, a ruptura. Isso não deve ser lido como um julgamento moral, mas como a representação de um princípio mais profundo que separa as duas naturezas humanas.

Quando analisamos esses versos sob uma perspectiva metafísica, torna-se claro que Ọ̀rúnmìlà representa o princípio da ordem, da estrutura e do conhecimento — aquilo que organiza a existência. Já a mulher, nesses contextos, representa o princípio da potência, da realização e da manifestação.

No modelo clássico da metafísica, especialmente em Tomás de Aquino, toda realidade se estrutura na relação entre ato e potência. O ato organiza, define e dá forma; a potência realiza, manifesta e concretiza. Sem potência, nada acontece. Sem ato, nada se ordena.

É exatamente essa relação que os versos expressam.

Assim, quando a mulher aparece como fonte de desordem, traição ou sofrimento, o que está sendo representado não é a mulher em si, mas a potência quando não está ordenada pelo princípio da razão. Trata-se de uma descrição da natureza da realidade, não de um julgamento moral.

Ainda não mostrei mas isso ficará muito claro quando discutirmos mais à frente a figura de Odù, mítica esposa de Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) no verso Osa Méjì ,

O segundo conjunto de mitos foi destacado por representar a relação entre o poder feminino, as ajé (Àjẹ́) e Ifá. Óxun (Ọ̀ṣun), esposa de Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) e sua Apẹ̀tẹ̀bí, recebe dele o oráculo dos búzios e, ao mesmo tempo, é considerada líder das ajé.

Aqui a dimensão metafísica se torna ainda mais evidente.

Óxun (Ọ̀ṣun) representa o princípio feminino primordial, associado à fertilidade, à prosperidade e ao amor. Ela é a força que faz a vida acontecer. Contudo, esse mesmo princípio feminino aparece também ligado ao que podemos chamar de mal teológico, especialmente quando observamos a figura de Odù, a esposa mítica de Ọ̀rúnmìlà. Na cosmogonia, a divindade troca de nome, mas mantêm o vínculo com o princípio feminino.

Essa dualidade não indica duas naturezas distintas, mas dois estados do mesmo princípio. O poder feminino é a potência da existência. Quando alinhado à ordem, ele gera vida, abundância e harmonia. Quando desalinhado, gera desequilíbrio, sofrimento e destruição.

As ajé representam essa potência em sua forma mais pura. Não são boas nem más por natureza. São a força que realiza, o ato que manifesta e que transforma. O efeito dessa força depende da sua relação com a ordem.

Essa leitura é coerente tanto com a teologia de Ifá quanto com modelos metafísicos mais amplos, nos quais o mal não é uma substância própria, mas o resultado de um desequilíbrio ou desordem naquilo que, em sua essência, é bom.

Ọ̀ṣun expressa perfeitamente essa dualidade. Ela é, ao mesmo tempo, a origem da vida e a portadora do poder que pode desequilibrar o mundo. Isso não é contradição, mas a própria natureza da potência.

O último conjunto de versos é o mais importante, pois trata diretamente da ligação entre o poder feminino e Ifá.

É nesse ponto que os versos deixam de tratar apenas de comportamento humano e passam a revelar a estrutura do cosmo. Ifá não é apenas um sistema de orientação ou adivinhação, mas o mecanismo pelo qual a ordem atua sobre a potência.

Ifá é o ponto de equilíbrio.

Ọ̀rúnmìlà representa o princípio ordenador, a ação, o conhecimento do destino, a estrutura da realidade. O poder feminino representa a capacidade de realização dessa realidade. A realidade é que um sem o outro não existe.

Olódùmarè não deu a Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) o poder supremo. Como veremos em osá (Ọ̀sá) Méjì existe e divisão tomista entre potência e ação.

Esse modelo de potência e ação também se aplica a Ifá, de maneira muito coerente. Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) não é Ifá, não são sinônimos. Definições sempre são desafiadoras, mas podemos dizer que Ifá é o princípio da sabedoria, é deus se manifestando como conhecimento de orientação.

Mais uma vez não estou inventando definições, é isso o que está nos versos. Ifá é a sabedoria originada em Olódùmarè. Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) é quem traz isso a nós, a divindade que transmite ou extrai essa sabedoria.

Por que afirmo isso? Porque nos versos a figura de Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) se diferencia de Ifá o oráculo. Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) consulta Ifá, ele é um agente ele, como divindade, como inrumole não é o próprio oráculo. Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) não é Ifá, Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) serve a Ifá e junto com ele ELA, o espírito de Ifá ou Pneuma que atua sobre os Bàbáláwo.

Nada é por acaso e esta construção que descrevi é real, está documentada em Ifá e reflete a complexidade do cosmo que esta religião define. O que me impressiona é que vemos uma complexidade racional. Não é um modelo místico ou exotérico complexamente definido para esconder a falta de conhecimento.

O primeiro ponto que expliquei foi essa distinção de Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) e Ifá. Fiz questão de comentar isso porque, no meio do Candomblé muita gente iguala as duas coisas. Assim Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) e Ifá viram sinônimos e efetivamente não o são.

Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) é a ação, o que expõe, transmite e comunica a sabedoria contida em Ifá que julgamos vir do próprio deus supremo, Olódùmarè. Sem a ação, a potência não nos alcança e é Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) a ação, mas ainda no órun (Ọ̀run), como inrumole-orixá.

Os Bàbáláwo são, para esse sistema, o mesmo que o iyawo é para o Orixá (Òrìṣà). A grande diferença é que como não existe a possessão não existe a ligação do Orí com Órunmila (Ọ̀rúnmìlà), que está presente no iyawo.

Ifá a potência, ligado a deus e sua sabedoria tem em Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) sua ação, no órun (Ọ̀run) e essa ação tem continuidade no Àiyé, alcança o Àiyé, através dos Bàbáláwo que estão no Àiyé, mas através da pneuma que é ELA, o espírito de Ifá que ilumina os Bàbáláwo com a sabedoria de Órunmila (Ọ̀rúnmìlà).

O que temos é Ifá → Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) → ELA → Bàbáláwo. A este conjunto se adiciona Exú (Èṣù) como o portador do axé (àṣẹ) entre o órun (Ọ̀run) e o Àiyé, mas Exú (Èṣù) está ligado aos Orixá (Òrìṣà), muito mais que a Ifá.

Como já disse, Bàbáláwo não é deus ou representante dele com poderes absolutos. Seu único poder é ser a continuidade de Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) para que sua ação possa ser realizada no Àiyé, a ação de transmitir o que está em Ifá: a sabedoria.

Neste sistema de cosmo, que Ifá faz parte, a ação efetiva, a magia, continua sendo emanada dos Orixá (Òrìṣà), como descrito no Odù oxé (Ọ̀ṣẹ́) Òtúwá.

Não faço afirmações vazias, me baseio em versos para produzir análises e teologia.

Deus, Olódùmarè, criou o Orixá (Òrìṣà) para ser o princípio de atuação no mundo e ligou os seres humanos aos Orixá (Òrìṣà) por nascimento, uma relação ontológica.

A ação, mesmo iniciada em Ifá é feita junto a humanidade por meio dos Orixá (Òrìṣà) e não por Órunmila (Ọ̀rúnmìlà). Ifá continua sendo apenas o princípio do conhecimento, com a ação sendo feita por Órunmila (Ọ̀rúnmìlà), um inrumolé (Irúnmọlẹ̀) que não é Orixá (Òrìṣà). O Bàbáláwo é a continuidade da ação no Àiyé e recorre no seu oráculo, baseado no conhecimento de Ifá aos Orixá (Òrìṣà) para obter a ação junto às pessoas do que Ifá recomendou.

Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) não é um Orixá (Òrìṣà) porque sua ligação com o ser humana não é de nascimento, de criação. Assim, pessoas são ligadas especialmente a Orixá (Òrìṣà) específicos e isso não pode ser mudado. Entretanto pessoas diversas podem se ligar a Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) e a Ifá.

Pela mesma razão é que Exú (Èṣù) é inrumolé (Irúnmọlẹ̀) e não é Orixá (Òrìṣà). Exú (Èṣù) é o princípio de ligação entre o órun (Ọ̀run) e o Àiyé o que leva e traz o axé (àṣẹ). Não existe sentido em estabelecer ligações ontológicas entre Exú (Èṣù) e as pessoas no Àiyé, os Ara Àiyé.

Nesse sentido Exú (Èṣù) é como Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) e sem nenhuma coincidência os versos de Ifá incluem sempre essas 2 divindades.

Espero que fique assim, com essa curta explicação a distinção entre o caráter Orixá (Òrìṣà) dos inrumolé (Irúnmọlẹ̀). Todas as divindades são inrumolé (Irúnmọlẹ̀) mas nem todas são Orixá (Òrìṣà).

Cabe citar nesse momento a separação dimensional entre o órun (Ọ̀run) e o Àiyé, que é um componente essencial do cosmo desta religião. A explicação detalhada dessa separação pode ser entendida com versos e explicação, através do livro “Sociedade egbé (Ẹgbẹ́) órun (Ọ̀run) – triste sina dos rejeitados”, deste mesmo auto, disponível na amazon.com.br em formatos Kindle e físico.

No contexto aqui, você deve entender que existem duas dimensões separadas, o órun (Ọ̀run) e o Àiyé. Muito bem separadas para que a vida no Àiyé possa se usufruída com livre arbítrio.

A comunicação entre o órun (Ọ̀run) e o Àiyé, de qualquer tipo é feita de forma muito restrita. Exú (Èṣù) é o princípio que traz essa comunicação e está associado a ação, não à potência. A potência que se utiliza de Exú (Èṣù) são os Orixá (Òrìṣà) e Órunmila (Ọ̀rúnmìlà).

De uma maneira fácil para atuar no Àiyé é necessário nascer no Àiyé. Isso é mostrado nos versos, que relatam Exú (Èṣù) tendo que nascer, as divindades tendo que nascer e mesmo Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) nascendo através de sua manifestação de Bàbáláwo de cada Odù.

Neste cosmo se estabelece a necessidade do Iyawo, o Ara Àiyé prepara para ser a ponte órun (Ọ̀run) – Àiyé que possibilita a atuação do Orixá (Òrìṣà). Sem Iyawo não tem Orixá (Òrìṣà) no Àiyé.

O mesmo princípio se aplica a Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) através dos Bàbáláwo que são os “iyawo” de Órunmila (Ọ̀rúnmìlà). São distintos porque não existe ligação ontológica, Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) é uma ligação que se estabelece para comunicação e não atuação.

É nesse sentido que surge mais um elemento desse cosmo, ELA o espírito de Órunmila (Ọ̀rúnmìlà), um complemento a este que é o mesmo princípio da Pneuma grega. Ela é necessário para que o Bàbáláwo possa ser instrumento de comunicação de Ifá.

No neo-platonismo e posteriormente o Paulinismo, o pneûma pode ser entendido como meio de influxo, presença, comunicação e inspiração do divino no humano; ELA assume esse significado é ELA que dá a autoridade de Bàbáláwo a fazer que faz e o torna distinto de uma pessoa comum. Sem ELA não existe Bàbáláwo.

Assim, o que os versos revelam não é uma inferioridade da mulher, nem uma crítica à sua natureza, mas a descrição de um princípio universal: o poder de realização da existência está ligado ao feminino.

Esse poder, contudo, precisa estar em equilíbrio com a ordem.

É dessa relação — entre ordem e potência, entre Ọ̀rúnmìlà e o princípio feminino — que nasce o mundo, a vida e também os conflitos que experimentamos.

Mas a religião não se restringe apenas a organizar o conflito entre os princípios masculino-feminino devidos aos mesmos existirem por meio dos seus humanos, que se dividem nesses dois grupos.

O que podemos avaliar é porque existem esses dois grupos.

A religião reconhece essa cosmogonia e oferece ações para organizar a ação voltado para o bem da vida. As pessoas que não estudam essa religião com profundidade perdem a percepção de como essa teologia é absolutamente ordenada.

Desviando um pouco do tema, não posso aproveitar para adicionar alguns comentários para que vocês valorizem essas informações e análises.

É evidente que esta religião integrou, através do Orixá (Òrìṣà), a natureza humana e divina de deus de uma forma que não encontramos em nenhuma outra religião no mundo. Isto não é uma invenção, é um entendimento especial de nossa relação com deus e do mundo.

O Orixá (Òrìṣà) não é apenas um mensageiro de deus um ANGELUS ele é parte humano ou nós somos parte Orixá (Òrìṣà). Está na nossa concepção, faz parte de nós quando nascemos. A religião traz o conceito Gnóstico da partícula de deus em cada ser mas também integra a individualidade da alma e a ligação do Orixá (Òrìṣà) como arquétipo e, ao mesmo tempo fonte de ligação com deus.

A composição humana de alma perene individualizada no Àiyé, contendo o axé (àṣẹ) que é parte da individualização divina e fagulha de deus em nós junto com a divindade pessoal, Orí, nossa e a divindade social e arquética Orixá (Òrìṣà), como pontos de ligação do Àiyé com o órun (Ọ̀run), torna o seu humano absolutamente especial e por isso podemos nos considerar uma criação especial de deus.

Esse cosmo yorùbá refletido em Ifá tem que ser entendido com calma, nada é por acaso e tudo é bem complexo. A ligação individual de cada ser humano com um Orixá (Òrìṣà) reflete esse modelo de ligação de duas dimensões separadas.

O órun (Ọ̀run) e o Àiyé são separados dimensionalmente e é necessária a ligação do Ara Àiyé com o Orixá (Òrìṣà), a ligação através de sua essência para que a ponte órun (Ọ̀run)- Àiyé se estabeleça.

Observe que temos 2 “fagulhas” diferentes. A primeira é o axé (àṣẹ) que o Olódùmarè nos deus e representa nossa ligação com ele e nosso poder pessoal. Todos temos isso.

A segunda é a ligação com o Orixá (Òrìṣà), o princípio da ação entre o órun (Ọ̀run) e o Àiyé.

O iyawo reflete essa ponte estabelecida entre o órun (Ọ̀run) e o Àiyé, trazendo o poder do Orixá (Òrìṣà) ao Àiyé. Conforme está no verso de separação sem o Iyawo não tem a presença do Orixá (Òrìṣà) no Àiyé.

Nós como seres humanos possuímos essas duas ligações, com deus e com o Orixá (Òrìṣà). Além disso o que nos torna especial em relação às demais criaturas do Àiyé é nossa quintessência1, a nossa capacidade nata de poder, receber, armazenar e transmitir axé (àṣẹ).

Os demais seres vivos têm axé (àṣẹ) mas é o ser humano que tem a capacidade de transmitir isso através da quintessência.

Esta religião oferece fundamentos robustos para compreender a dignidade humana de forma estruturada e integrada ao cosmo. Não basta apenas repetir que somos imagem de deus é preciso justificar isso principalmente frente aos nossos erros e caráter ruim.

O cosmos dessa religião responde a tudo isso de forma lógica, devocional e racional que seria compatível com uma elaboração do nível de Tomás de Aquino ou Spinoza de reconhecer Olódùmarè como o seu High God projetado.

Cabe destacar que, apesar de todos os seres vivos terem o axé (àṣẹ), as virtudes descrita no hermetismo, somente o ser humano possui, dada por Olódùmarè a quintessência que é a capacidade de usar isso. Isso nos torna diferente dos demais seres vivos.

Entendimento do tema do poder feminino-masculino que Ifá traz é parte dessa complexa explicação do cosmo.

Porque Olódùmarè não criou humanos de apenas um gênero? Porque foi necessário ter homem e mulher?

Isso não é inédito muitas criaturas são assexuadas e o ser humano também poderia sê-lo. Ou mesmo poderíamos todos sermos hermafroditas.

Por que Olódùmarè, o deus supremo, escolheu para sua principal criatura ter dois sexos ligados dois princípios diferentes: potência e execução?

Essa teologia não se limita a descrever o mundo; ela oferece um modelo para compreendê-lo e organizá-lo. Esta religião, como expliquei, não fica no caos apenas, ela mostra a forma de ordenar isso.

Nos próximos capítulos vamos aprofundar o entendimento do princípio feminino.

1Quintessência: na filosofia clássica e na tradição hermético-alquímica, é a “quinta essência”, isto é, o princípio mais sutil e fundamental da realidade, acima dos quatro elementos (terra, água, ar e fogo). Em autores herméticos e paracelsianos, ela também pode ser entendida como a raiz, a alma ou a virtude mais pura das coisas, aquilo que concentra e torna operativas as qualidades dos elementos. Nesse sentido, pode-se dizer que, no ser humano, a quintessência é o princípio mais elevado que permite receber, concentrar e transmitir a virtude do axé e das forças da criação

Nenhum comentário:

Postar um comentário