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quarta-feira, maio 01, 2019

A religião Yoruba e o Candomblé

A religião Yoruba e o Candomblé

O modelo religioso do Candomblé

(Texto integral)


Uma das coisas que mais me preocupa e por isso direciona minhas ações, é a questão do entendimento das pessoas sobre o sentido e utilidade da religião na vida delas.

Sou uma pessoa que tem fé em deus, no meu caso, o vejo como Olodumare. Sou uma pessoa em paz com as religiões, não as vejo como um mal e não reservo a nenhuma delas, ou melhor a umas poucas, um tratamento pejorativo.

Não faço proselitismo de minha religião ou de qualquer outra, mas me dedico a manifestar minha fé no caminho religioso como um meio para termos uma sociedade melhor. Neste sentido busco resgatar na consciência das pessoas o sentido da religião na vida delas. Mais do que ter fé as pessoas também precisam entender qual o sentido prático de serem religiosas e de praticarem uma religião.

No caso do candomblé isso ganha uma dimensão ampliada porque a tarefa é dobrada. É necessário primeiro explicar a religião para as pessoas para, depois disso, falar sobre o sentido da religião na vida delas. Parece exagero? Não é.

Pensando bem o problema é triplicado, porque o candomblé tem um aspecto devocional muito grande e assim a gente tem que também desconstruir alguns dogmas e conceitos existentes.

Quando tratamos das religiões mais conhecidas e universais, falar sobre o sentido da religião na vida das pessoas é mais fácil, porque existe muita informação e fontes sobre a religião, assim você não tem que explicar a religião em si, basta discutir diretamente o assunto, o que faz tudo ser mais fácil. No caso do candomblé iniciar o assunto é muito mais difícil, como vou demonstrar a seguir.

O meu objetivo aqui neste texto é bem simples: Definir com poucas palavras a religião Yoruba para que as pessoas que não a conhecem possam entender.

Mas não é apenas isso, é principalmente definir a religião para que as próprias pessoas desta religião possam falar sobre ela e explicar para outras pessoas a sua própria religião. Parece estranho? Mas não é...

Mesmo para as religiões conhecidas não é fácil para uma pessoa defini-la, do zero, usando uma explicação simples. O que facilita a conversa sobre os temas religiosos é o fato que todo mundo já as conhece, aí as pessoas apenas falam de uma coisa ou outra, não sobre o geral.

No caso do candomblé é lamentável ver que pessoas quando questionadas sobre como é sua religião elas saiam com a clássica frase "... eu amo meu orixá .... " e com aquela expressão de desespero, do tipo “não me pergunte mais nada”.

Não estou sendo pretensioso ou arrogante. Estou explicando minha motivação para escrever. Esta é a realidade. Eu não faço parte do problema, faço parte da solução. Gastei muitos anos de estudo e prática para poder escreve sobre isso.

Este texto terá uma estrutura orientada para a facilidade e objetividade. O quanto você mais ler, mais entenderá, mas as definições serão feitas em ciclos. Cada ciclo detalha mais o anterior mas cada ciclo é completo e autônomo. Assim você poderá com poucas palavras definir a religião e com mais palavras explicar mais, tornar a definição melhor. Será que útil para uma conversa de 5 minutos em um cafezinho ou de meia hora. Mas qualquer pessoa deve ser capaz de definir sua religião com uma frase ou com uma cátedra.

Eu estudei muito, de muitas fontes para poder reduzir a complexidade a expressão mais simples possível. Não tenho dúvida de que muitos podem não gostar do meu ponto de vista, ou discordar. Não estou preocupado com isso, cabe a quem discorda se colocar, eu posso sustentar tudo o que penso.

O objetivo é tudo ser fácil, extremamente fácil para que você e qualquer um possa explicar junto.

Não será um texto único, mas um conjunto de textos, fáceis de serem lidos e entendidos. Existem também textos complementares, com mais informações para aqueles que se interessam. Quanto mais você ler, mais vai entender.

Tenho certeza que muitos não vão concordar com minhas opiniões. Mas não escrevo para essas pessoas, escrevo para aquelas que querem sinceramente entender alguma coisa. Não faço parte do grupo das pessoas que se beneficiam da confusão.

Quem tem outra opinião, é muito fácil, escreva um BLOG. Quem gostar do texto, faça referência a este BLOG.

Informo que o texto está todo completo. O motivo de publicar em parte é para facilitar a leitura, não deixe de acompanhar nos próximos dias o BLOG para ver as partes complementares.

1. explicação objetiva: entendendo as tradições religiosas


Antes de iniciar o texto proposto eu tenho que abordar a questão das tradições religiosas. É muito necessário entender isso.

O candomblé é uma tradição religiosa que pertence a uma religião que tem origem na África, em uma parte da Nigéria, que é composta pelo chamado povo Yoruba. Esta é uma definição simples que pode ser usada por todos de forma geral, mas, saibam que ela é imprecisa por motivos que não posso explicar agora.

Uma tradição religiosa é uma expressão usada para definir um grupo religioso que se origina a partir de uma religião base. Uma tradição religiosa é uma especialização da religião, uma adaptação da religião base a uma mudança temporal, geográfica ou cultural. A tradição descende da religião base mas ela é uma evolução mas principalmente ela é uma especialização.

No caso do candomblé, como tradição religiosa, ele teve sua origem na chamada Diáspora negra, que trouxe negros da África para o novo mundo. Nem todos os lugares que receberam negros no novo mundo desenvolveram tradições religiosas.

O candomblé representa, assim, a adaptação da religião Yoruba para o Brasil e se diferencia da religião Yoruba na medida que regionaliza o culto de orixá para o Brasil nos aspectos geográficos, fauna e flora e também na cultura, etnia e história do povo.

Acredito (mas não posso afirmar) que o grupo étnico Yoruba foi o único que desenvolveu no novo mundo as tradições religiosas (foram várias). Isso se deu porque este povo tinha uma religião original forte, consistente e bem estabelecida, ou seja, uma religião de fato. Além disso a própria cultura social do povo se impôs nos lugares que receberam os Yorubas.

A religião Yoruba é então a base desse movimento de formação de tradições religiosas. Ela é uma religião original, não está ligada ou descende de qualquer outra religião. Ela tem teogonia própria, teologia própria, teodiceia própria e uma gênese própria. É uma religião autônoma com conceitos originais e diferenciados. Ela não tem um criador, ela nasceu com o povo Yoruba. Enfim, ela é uma matriz religiosa original, contudo, ligada ao povo Yoruba.

A tradição é assim, como expliquei, uma evolução da religião, adaptando-a à história, sociedade e cultura do povo que a adotou. Uma tradição é formada pela evolução da religião, uma adaptação dela a sociedade, não é uma invenção humana.

Existem outras tradições religiosas na religião Yoruba em função da Diáspora negra. O candomblé é uma tradição muito popular no Brasil, mas existem outras. Em cuba surgiu o lukumi e no Haiti o voo doo. Na Nigéria existe uma tradição chamada RTY – religião tradicional Yoruba (ou em inglês YTR) que é a expressão da religião para o povo Nigeriano.

Cada tradição religiosa representa a melhor expressão da religião Yoruba para um povo porque ela é formada pela junção da religião original com a cultura do povo onde se estabelece, com a sociedade, seus valores e sua história. Uma tradição é uma expressão religiosa muito mais rica do que quando pessoas de um lugar adotam uma tradição externa.

Por exemplo, brasileiros que adotam a tradição lukumi cubana, sempre vão ter feito uma escolha pior, bem burra, em vez de adotar a tradição do candomblé. Americanos que adotam o lukumi ou RTY porque não tem tradição própria sempre estarão em uma situação desconfortável porque seguirão uma tradição religiosa que não é condizente com a sua sociedade, serão valores muito diferentes, transcendendo a fé religiosa em si. Eles terão mais dificuldade em se adaptar.

Tudo isso em poucas linhas:

Resumindo, é importante considerar que existe uma religião matriz principal, do povo Yoruba, que é original, completa, autônoma e independente de outras do mundo. Esta religião originou tradições religiosas, desta mesma religião, no novo mundo. O candomblé é uma dessas tradições. Ela localiza uma prática da religião original ao Brasil e apesar de algumas variações resultantes do processo de formação da tradição religiosa, ela mantém o vínculo teológico integral com a religião Yoruba.

Para entender melhor todo este conjunto, leia o texto complementar “Entendendo a diversidade religiosa”.


2. A composição do candomblé


Lamento pelos textos introdutórios extensos, mas, como disse no primeiro texto, falar de Candomblé dá mais trabalho, é necessário primeiro desconstruir alguns conceitos ou explicar outros. Assim não dá para falar de religião de Orixá no Brasil sem antes explicar o que é o Candomblé.

De forma simplificada podemos dizer que o Candomblé é uma tradição religiosa que representa a religião Yoruba no Brasil. Ela não é a única, existem outras tradições desta mesma religião. Além disso esta colocação inicial sobre o candomblé já não é muito precisa, como vocês verão mais adiante, contudo, preciso iniciar esta explicação com algumas simplificações para que o assunto possa ser entendido.

O candomblé é muito mais do que uma tradição religiosa.

Contudo para poder entender o que ele é de fato, é necessário falar um pouco mais dele. É importante que seja entendido que é impossível falar de candomblé como se fosse uma coisa única. Esse nome, candomblé, abrange várias correntes e divisões.

Candomblé é o nome que recebe um amplo conjunto de tradições religiosas e cultos que se desenvolveram no Brasil a partir da Bahia e foi trazido pelos povos, de algumas etnias africanas, que vieram para o Brasil durante o que foi chamado de a diáspora negra, povos estes originários da África ocidental. Este grande e diversificado conjunto cultural se agrupa, de fato, não em torno de uma única religião base, mas sim de 2 religiões, a do, grupo Yoruba, que eu já citei e a do grupo jeje do Dahomey. O candomblé é então formado até hoje por 2 religiões distintas e não somente uma, em função disto não é possivel tratar o candomblé como um todo, apenas em partes.

Pausa para respirar....

Chamo muito atenção para este primeiro aspecto de que, dentro do candomblé, termos DUAS religiões diferentes sendo representadas.

Nova pausa para que reflitam sobre este parágrafo...

Aqueles que não acharam essa informação importante devem repensar a sua relação com a religião. Religiões distintas implicam em um divino distinto, uma relação diferente entre as pessoas e o divino, finalidades diferentes para a existência das divindades, uma visão metafísica da vida diferente, um sentido distinto para a existencia humana e valores e ética diferentes.

Compliquei um pouco, sem dúvida mas aceitem que ninguém pode ter 2 religiões. A pessoa não pode ser catolico e budista ou induista e muçulmano ou messianico e evangélico. Religião implica em filosofias diferentes, não apenas em acreditar em deus. Esse conceito pode ser um pouco dificil para os cristãos que são uma religião majoritaria no ocidente e que tem 3 religiões muito parecidas disputando as pessoas entre si, que sao o judaismo, islamismo e cristianismo. Para eles é tudo muito igua mas quando saimos deste contexto de religioes irmãs e vamos para um contexto pluri-religioso de fato, não se pode dividir.

Veja então a dificuldade em tratarmos do candomblé que é citado como se fosse uma coisa só e que na verdade é composto de 2 religiões diferentes.

Meus textos sempre cobrem apenas uma dessas religiões, a religião Yoruba e 2 cultos desta religião. Isso é apenas uma parte do candomblé.

O contexto afro-brasileiro, por sua vez, é ainda mais amplo. O candomblé com toda a sua complexidade é apenas uma parte deste contexto, existem outras tradições que as pessoas podem, até, estar achando que é candomblé. Mas eu vou abordar isso em um próximo texto.

A religião Yoruba, que é uma das religiões que existem dentro do candomblé, se manifesta através de cultos distintos. O principal, mais importante e mais conhecido culto é o de Orixá. Existe ainda o culto de Egungun e o culto de Ifá. Os cultos são subdivisões da religião com especialização litúrgica, cada um desses citados se dedicam a divindades diferentes ou melhor entendendo a objetivos teológicos diferentes.

As casas se identificam exclusivamente com uma religião e um tipo de culto, e este tem formato, liturgias e ritos diferenciados. Não existe possibilidade de uma casa se dedicar a mais de um culto ou raiz religiosa, quando essa regra é quebrada isto representa um erro e tenham atenção porque existem muitos mas muitos erros mesmo. Este texto não fala dos erros, fala do que é o certo, contudo, cuidado ao lidar com o dia a dia das pessoas e casas. Fala-se muita besteira e cometem-se muitos erros.

O culto de Orixá lida com os Orixás, o de Egungun com os ancestres falecidos e o de ifá se dedica apenas ao oráculo da religião.

Não se pode referenciar ao Candomblé como “um” candomblé. Quando alguém fala de candomblé, a primeira coisa que se deve entender é de “qual” candomblé se está falando.

Antigamente, esta diversidade levava as pessoas ao chamarem de candomblé de nações, porque haviam várias nações que eram representadas dentro dele. O conceito de nação é flexível e pode qualificar tanto o grupo religioso principal, como Yoruba e jeje, como também etnias que estabeleceram variações litúrgicas e ainda, reagrupamentos locais que também estabeleceram variações litúrgicas.

A tradição religiosa de candomblé é nomeada no singular apenas por razões históricas, de fato o termo unificado “Candomblé”, cuja origem etimológica não é conhecida, é somente uma simplificação muito grande e que leva as pessoas a suporem uma unidade religiosa que não existe.

O conjunto religioso formado pelo candomblé é de fato difícil para os brasileiros entenderem, mesmo para os seguidores, porque cada seguidor pertence a um microcosmo e não necessariamente conhece o todo, comumente conhece onde ele próprio está e alguma parte adicional.

No contexto brasileiro, além do candomblé, temos a umbanda, o espiritismo, o catimbó, o toré, o batuque, o xango, o tambor da mina e a casa da mina. Posso, ainda, estar esquecendo de alguém, visto o tamanho de nossa diversidade....

O espiritismo é de origem francesa e nada tem a ver com a África. A Umbanda, o Catimbó e o toré são brasileiros e nada tem a ver, também com a África. O Batuque no Sul e o Xango no Nordeste são tradições religiosas com origem Yoruba. O Tambor da mina e a casa da mina, no Norte são de Origem do Dahomey

Estas tradições, apesar de serem totalmente diferentes, aos olhos do leigo eles podem parecer que são todos uma coisa só ou que tem uma origem única ou mesmo que sejam Candomblé. Não são.

A verdade como eu mostro é que não tem nada em comum. O leigo certamente olha para esse conjunto, não o entende e chama isso tudo de afro-brasileiro ou de matriz africana, sem saber que, como eu disse, a África é um continente não um país e que neste conjunto encontramos ainda cultos brasileiros e ameríndios. Buscar semelhanças entre eles é insano e idiota.
As pessoas sempre buscam simplificação para superarem a sua preguiça ou ignorância, assim, em vez de entenderem a nossa riqueza cultural e religiosa fazem o pior, inventam algo que não existe usando explicações idiotas. Isso aumenta a confusão. Como um amigo falou, é muito fácil escrever sobre candomblé, você inventa o que quer e tem um monte de gente que ainda acredita. A mídia escrita e televisiva que é formada de 3% de jornalistas que tem neurônios, apenas torna isso pior chamando tudo que não é cristão de afro-brasileiro. Como já repeti inúmeras vezes o catolicismo é afro-brasileiro.

Eu imagino que os cubanos que estão vindo para o Brasil trazer o seu ifá e a reboque o lukumi que é a tradição de orixá deles, tem aumentado a confusão porque inserem um novo elemento neste “caldo”. Primeiro devemos lembrar que eles devem ter uma absurda dificuldade de entender o candomblé. A tradição deles, o lukumi, é unificado e tem inclusive uma regra de formato, todos fazem igual, ou com pequenas variações, afinal cuba é apenas uma pequena ilha. O candomblé é muito maior, rico, complexo e diversificado. Eles podem chegar aqui tentando traçar semelhanças entre o lukumi e o candomblé, mas falham, largamente, em entender uma coisa que está muito além do que eles podem entender.

O lukumi pode ser comparado, no máximo a um pequeno pedaço do candomblé, uma nação, como o Omolokô ou ao Angola que mistura religião Yoruba com Bantu, ou como a gente diz, candomblé com umbanda. O lukumi é uma mistura muito grande da origem yoruba com o bantu e o catolicismo. Não da para comparar com o candomblé. O que eles fazem é o mesmo que as pessoas de umbanda fazem ao tentar explicar ou entender o candomblé em função do que eles conhecem. Nem os umbandistas entendem o candomblé nem os cubanos, e ambos acham que sabem tudo e de fato nada sabem de nada.

Além da questão das nações, que criou inicialmente diversidade, o candomblé foi responsável por um processo de profundo de transformação da própria religião Yoruba, processo este que está sendo absorvido pela própria tradição africana. Na terra Yoruba, a religião e os cultos eram regionalizados e muito mais especializados, sendo agrupados em aldeias, cidades e famílias. Além disso as próprias divindades eram elementos de agregação. Enquanto no Brasil nós tivemos uma especialização em 3 cultos, na terra Yoruba, o culto era segmentado por divindade.

No Brasil, a estrutura Yoruba original era impossível de ser refletida. O modelo família, clã, aldeia e região era inviável devido a situação de escravos que as pessoas viviam aqui. O candomblé criou a figura do terreiro como ponto de união e substituição disso tudo, incluindo uma unificação litúrgica uma vez que um terreiro inclui, aqui, o culto a todos os orixás. O terreiro substituiu a família, o clã, a aldeia e o templo. A figura do terreiro reconstitui na tradição religiosa da Diáspora os elementos perdidos da sociedade Yoruba e sua constituição, no formato que tomou, foi um pilar importante na religião, mantendo melhor os vínculos teológicos originais do candomblé com a religião Yoruba.

Os lukumi de cuba, não tem o elemento terreiro ou mesmo egbe e isso explica bastante o distanciamento deles e a atitude agressiva que alguns grupos cubanos e de pessoas iniciadas por cubanos, tem tomados em relação a tradição Yoruba. A única explicação que eu encontro para a forma agressiva como cubanos de lukumi ou ifá se dirigem aos nigerianos ou seguidores da tradição Yoruba é, ou a necessidade de se justificarem no mercado religioso (de jogos, ebós e iniciações) ou um problema de autoestima por eles se acharem menores ou diferentes. Reconheço que não sei a causa, apenas posso imaginar.

Lamento os comentários que alguns podem não gostar. Não pretendo comentar sobre o Lukumi, Cuba é uma ilha pouco mais que o estado do Rio de Janeiro e com uma população equivalente. É impossível a gente querer comparar a riqueza cultural que temo no Brasil com uma ilha e população tão pequena.

Voltando ao candomblé, os 2 principais grupos religiosos presentes no candomblé são o Yoruba e o Jeje, cada um deles representa uma base religiosa distinta. Elas possuem similaridades, algumas ligações ou coisas em comum mas não são a mesma religião.

As diversas nações formam subdivisões do candomblé e pertencentes a uma dessas 2 religiões. Algumas pessoas podem estar notando, e estranhando, que não menciono o Angola no mesmo nível que o Yoruba ou jeje. Ele não está neste nível. O angola é uma nação de Candomblé, como as demais que serão citadas. O angola deveria pertencer ao grupo bantu e este grupo não tem uma base religiosa equivalente aos Yoruba ou Jeje. Eles são similares a umbanda, onde deveriam estar. O que ocorreu foi que, pessoas da bantu copiaram o modelo Yoruba, fizeram adaptações linguísticas e inventaram uma nação para eles, mais especificamente uma nação para uma religião que na áfrica nunca tiveram. Isso não os desmerece como uma tradição religiosa Yoruba. Mas eles são um grupo étnico que adotou a religião Yoruba e criou uma tradição própria para a etnia deles.

Tudo isso em poucas linhas

O Candomblé é uma denominação que cobre várias tradições religiosas, nem todas ligadas à mesma religião base. Algumas são ligadas a religião Yoruba, com as divindades chamadas Orixá e outras a religião do Dahomey com as divindades chamadas Vodun.

Esta diversidade religiosa é nomeada como sendo as nações do candomblé. Contudo, acima da nação esta a religião a qual ela é ligada. A nação personaliza o culto da religião para um determinado grupo de pessoas.

De norte a sul do Brasil existem tradições religiosas diferentes que são genericamente traduzidas como Candomblé, contudo descendem de, pelo menos, uma dessas 2 religiões distintas e trilharam caminhos diferentes na sua formação em termos de afastamento da teologia da religião base, sincretismo com outras correntes religiosas e formatos litúrgicos.

Esse rico contexto religioso que é chamado resumidamente de CANDOMBLÉ mostra a diversidade e profundidade de integração que são possíveis de serem obtidos levando em consideração a própria extensão do nosso território e diversidade do povo brasileiro.

Antes de se discutir candomblé deve se ter o cuidado de se situar de qual candomblé se está falando. Existem diferenças teológicas importantes e qualquer iniciativa de fazer um de-para de orixá e vodum e de ritos é apenas fruto de ignorância.

3. A conversa de cafezinho


Se você estiver em uma situação que tem alguns instantes ou minutos para explicar sua religião a alguém eu tenho minha sugestão:

O candomblé é uma tradição religiosa que tem como origem uma religião africana, sem um nome especial, que pertence ao povo Yoruba que ocupa atualmente uma parte da Nigéria. Ele é baseado na existência de uma divindade suprema, Olodumare, que criou e mantêm tudo o que existe. A religião diz que nascemos para ser felizes, para viver em família e em comunidade. Para nos apoiar na nossa busca de felicidade na vida, Olodumare nos dá uma divindade pessoal, que nos protege, e também as divindades chamadas de Orixás, que são seus representantes na nossa vida. Olodumare nos dá também um oráculo, Ifá, que usamos para nos comunicar e pedir ajuda a esses Orixás. Além disso ele nos ensinou ritos e liturgias que usamos para resolver nossos problemas e atingirmos o ideal de uma vida feliz e próspera. A presença dos orixás na nossa vida é festiva e prazerosa, vivemos em comunhão com eles. O Candomblé é uma religião encarnacionista. A morte encerra um ciclo de vida e após prestarmos conta do que fizemos em nossa vida para Olodumare, poderemos ter a oportunidade de voltar a viver em nova vida. A vida é uma aventura que vivemos porque queremos.

Esta é uma definição bastante objetiva. Poucas palavras escolhidas com cuidado para cobrir o que é essencial. Somente é abordado o que é importante. Se algum idiota vier com o tradicional questionamento sobre sacrifícios de animais sugiro responder apenas o seguinte:

Este é um aspecto que não tem nenhuma relevância no contexto religioso. O que as pessoas devem saber e se lembrar é que esta religião tem o indivíduo no centro de suas atenções. Tudo é feito para que a pessoa seja feliz nesta vida, mas sempre com a ajuda da sua família e sociedade. O indivíduo é importante mas a sua utilidade para a sociedade é maior. Os animais são criações de Olodumare como tudo o que existe. Como na nossa vida normal, eles são um alimento que é preparado e consumido em comunhão festiva com os orixás. O candomblé é a religião da vida e alimento é vida. A prática da religião foi feita para ser um momento alegre. Assim como os sacerdotes judeus preparam a comida KOSHER, os sacerdotes do candomblé também preparam o alimento a ser usado em suas festas. Os animais, secundariamente, são um elemento importante para salvar a vida das pessoas. Entretanto esta religião não e baseada em ritos com animais. Eles são raros. O que está presente no dia a dia das pessoas é o oráculo e a devoção a sua fé. As pessoas por ignorância ou preconceito não querem entender o que esta religião pode fazer de bem para a vida delas, perdem tempo com questões litúrgicas internas e que não estão no dia a dia das pessoas. Os judeus até hoje sacrificam cordeiros para o deus cristão. Os muçulmanos idem. Quantos dos que se preocupam em perguntar isso a um candomblecista, fazem o mesmo com um cristão ou maçom?

O texto ficou intencionalmente em um único parágrafo.

Minha opinião é que não devemos perder mais tempo do que o necessário para dizer isso e nada mais sobre sacrifícios. A religião tem aspectos mais importantes para serem conversados.

4. A Filosofia da religião - A proposta da religião para nossa vida


Toda religião pode ser inicialmente definida com uma ideia simples. Uma frase ou uma palavra podem resumi-la. Por exemplo, Islã pode ser definido por submissão, submissão a deus. Os católicos por devoção ou amor ao próximo.

Considerando que religião é para ser praticada por pessoas comuns, a filosofia por trás da religião tem que ser uma coisa fácil de ser entendida por qualquer pessoa. Não pode ser necessário a pessoa ser um teólogo ou sacerdote para saber o que a religião dele prega. Temos também entender que religião não está relacionada à ligação com deus.

Qualquer pessoa pode se ligar com deus de qualquer forma. Tem muita gente que se diz religiosa, ou crente em deus e diz que não faz parte de nenhuma religião. A pessoa simplesmente diz que crê em deus da forma dela. Esta certa, acreditar no divino e na existência de deus não implica em participar de uma religião.

Isso também não significa que essa pessoa se comunique com deus.

Uma religião não é a ligação a deus. Uma religião é uma filosofia de vida, ela estabelece uma proposta para você viver com você mesmo, com sua família e com a sociedade. A religião nos dá uma visão maior da vida, nos dá valores e ética.

A religião tem que necessariamente ser a palavra de deus. Religiões autênticas são anunciadas, elas nos foram trazidas pelo próprio deus ou por emissários dele. Religiões não são invenções humanas. Além da palavra de deus a religião nos ensina a nos comunicarmos com ele e também como devemos viver nossa vida.

Hoje em dia as pessoas se preocupam muito em não ter regras ou em quebrar regras. De fato uma religião é cheia de regras. Mas pessoas que não seguem regras ou acham que podem quebrar as regras não serão jamais pessoas boas para se conviver em sociedade.

Partindo da ideia de que qualquer pessoa pode entender a proposta de vida de uma religião e que isso é necessário para ele decidir seguir esta religião eu elaborei uma síntese da filosofia que existe na religião yoruba e que é usada pelo Candomblé. A seguir eu explicarei cada uma desses conceitos, mas primeiro vamos entender quais são eles.

Como mostrei esses conceitos se enquadram no círculo externo, na parte da teologia que todos podem entender.

  • Uma palavra e ideia resume esta religião, ela é EQUILIBRIO.
  • A religião Yoruba é baseada na existência de um deus supremo, Olodumare, que criou tudo o que existe e através do seu poder mantém o equilíbrio e o funcionamento do mundo natural. 
  • O centro da religião é a existência humana, a família e a sociedade. As pessoas nascem para serem felizes e viverem juntas. 
  • O indivíduo é o núcleo da filosofia da religião. A existência de uma pessoa é individual e única. A pessoa tem uma concepção exclusiva e personalizada para realizar seu destino. A religião privilegia esta meta e acompanha o individuo do nascimento até sua morte.
  • Para tornar a vida das pessoas mais agradável, frente as dificuldades da vida e do mundo, além de ser o seu intermediário na relação com essas pessoas, a divindade suprema, Olodumare, colocou um conjunto de divindades chamadas de Orixás e um oráculo chamado de ifá para suportar as pessoas ao longo de sua vida.
  • Esta religião é encarnacionista. As pessoas nascem, vivem, morrem e voltam a nascer através de seus descendentes. As pessoas renascem dentro da sua própria linhagem. Por esta razão é muito importante para a pessoa casar e ter filhos.
  • A religião envolve, conforta, convive e participa da vida das pessoas. As pessoas são abraçadas pela religião e sentem o divino em sua vida diária, orientado-os, suportando-os e falando com eles.
  • A religião vê a existência em 2 planos. O plano natural, ou aiye, que é onde vivemos, o mundo natural. Existe ainda o plano espiritual ou o Orun. A vida no plano natural, o aiye, é temporária, vivemos enquanto nosso corpo suporta, mas a existência no Orun é perene.
  • O conhecimento teológico da religião está contido em um largo conjunto de versos que contam histórias. É através de metáforas e parábolas que o conhecimento é transmitido.
  • A religião Yoruba é iniciática. Apesar da abrangência universal da sua teologia, que não condiciona sua prática para nenhuma etnia, existem liturgias e cerimônias para estabelecer ou reforçar a ligação das pessoas com o divino, entre o mundo natural e o espiritual. Essas liturgias estão ligadas ao conceito de axé e por conseguinte ao equilíbrio da pessoa.
  • O clero da religião Yoruba é uma estrutura formal, ampla e bastante hierarquizada. Existem cargos e especializações. O núcleo do clero se restringe ao microcosmo do Ile axé ou casa de orixá, mas o dirigente da casa responde ao seu iniciador, criando assim uma corrente hierárquica que vai até a casa matriz.
  • A religião estabelece um código de conduta baseado em valores, ética e moral. Este código é transmitido através do corpo literário, os versos de ifá e é bastante pragmático, direcionando a pessoa para uma vida correta consigo mesmo e útil para a sua família e comunidade. Não existe pecado contra o divino contra deus e os orixás. O que existe é o erro contra as pessoas, a família e a comunidade.
  • A religião tem um processo de incorporação no qual a energia do Orixá se apropria do corpo do iniciado. É através desta incorporação que o Orixá se manifesta no mundo natural para ajudar às pessoas. Esta manifestação ocorre em pessoas iniciadas para isto e não tem como finalidade a comunicação, que na religião é feita pelo oráculo.

No texto a seguir estão as afirmações que foram feitas anteriormente com uma rápida explicação sobre elas. Essas explicações são bem curtas e apenas ajudam a entender as afirmações principais.


Uma palavra e ideia resume esta religião, ela é EQUILÍBRIO.

Sua doutrina, em todos os aspectos, é voltada para se atingir o equilíbrio. Toda a simbologia da religião também traduz essa noção de equilíbrio. A religião entende que a pessoa está bem quando esta equilibrada. O equilíbrio se reflete no seu comportamento, nas suas atitudes, nas suas escolhas, na sua sorte e até na sua saúde. O equilíbrio é uma questão energética, da energia vital, chamada de axé e a manutenção do axé é um dos pilares da religião.

A religião é muito rica em liturgias, conhecidos por todos através dos nomes populares de ebó e oferenda. O que todos devem entender é que essas liturgias não são um fim. A religião se utiliza delas para equilibrar o axé das pessoas, de forma que o equilíbrio é que o fim. Nem mesmo a solução do problema é o fim. Será através do equilíbrio que a pessoa vai resolver seus problemas.

A religião Yoruba é baseada na existência de um deus supremo, Olodumare, que criou tudo o que existe e através do seu poder mantém o equilíbrio e o funcionamento do mundo natural.

O poder de Olodumare é supremo e inconteste. Ele não divide sua capacidade e supremacia com mais nenhuma outra divindade e todas as demais divindades foram criadas e subordinadas a ele.

Olodumare não interfere diretamente na vida das pessoas. Ele está acima de tudo e todos, mas criou um conjunto de divindades que são seus intermediários no trato com as pessoas. Tudo no mundo natural é criação de deus e tudo nesse mundo possui igualmente sua atenção e principalmente sua energia.

Esta não é uma religião monoteísta, porque somente a religião judaica-muçulmana-cristã o é. Não é uma religião politeísta porque existe uma divindade suprema. O que define uma religião politeísta não é a quantidade de divindades e sim a qualidade da relação entre elas.

Como muitas outras religiões na terra a religião Yoruba é Henoteísta, que é uma crença com muitas divindades na qual somente uma é a suprema. Mas isso é apenas uma informação técnica.


O centro da religião é a existência humana, a família e a sociedade. As pessoas nascem para serem felizes e viverem juntas.

As pessoas nascem para viver uma vida em família, com realizações e objetivos. As pessoas nascem porque gostam de viver juntas. A vida é uma aventura com emoções, sensações, prazeres e realizações.

A religião orienta as pessoas na melhor conduta moral mas tem o compromisso maior de suportar as pessoas na realização do seu objetivo de vida.


O indivíduo é o núcleo da filosofia da religião. A existência de uma pessoa é individual e única. A pessoa tem uma concepção exclusiva e personalizada para realizar seu destino. A religião privilegia esta meta e acompanha o individuo do nascimento até sua morte

Entre a decisão de nascer de novo até o nascimento o indivíduo recebe de Olodumare todos os instrumentos necessários para ser bem-sucedido nas escolhas que fez. Estes instrumentos são o seu corpo, a sua divindade pessoal que vai zelar por ela acima de tudo, o axé (energia mágica de Olodumare), o orixá protetor que junto com a divindade pessoal acompanham o indivíduo por toda sua existência e elementos adicionais que são o ori, para a sua prosperidade e o seu caráter, ou iwa pele, porque uma pessoa para ser bem-sucedida de ter um com ori e um bom caráter.

A individualização é outro pilar da religião. A religião não massifica suas mensagens, pelo contrário, apesar do caráter social, existe uma enorme importância na formação e suporte a individualidade. O oráculo de ifá e o culto a divindade Ori são partes disso.

É importante as pessoas não perderem essas 2 dimensões: individuo e sociedade. Elas caminham juntas.


Para tornar a vida das pessoas mais agradável, frente as dificuldades da vida e do mundo, além de ser o seu intermediário na relação com essas pessoas, a divindade suprema, Olodumare, colocou um conjunto de divindades chamadas de Orixás e um oráculo chamado de ifá para suportar as pessoas ao longo de sua vida.

Os orixás, existem pelas pessoas e com as pessoas. Chamar orixá de deuses é uma imprecisão que leva a dar lhes uma dimensão maior e confundir suas atribuições. Orixá está associado às pessoas e a existência humana. Ele representa Olodumarê na relação com as pessoas.

O sentido da existência de um orixá é a vida humana. O orixá representa o compromisso de deus, de Olodumarê, com nossa felicidade. Orixás não são divindades criadas por Olodumarê para cuidar ou representar a natureza.

Orixá não é um deus secundário como no sentido greco-romano, que estabelece funções gerais e abrangentes com domínio sobre a terra e a natureza. Orixás existem para ajudar as pessoas a seguirem o seu caminho de vida permitindo que elas realizem os seus objetivos para esta vida, ou seu destino.

Olodumarê estabelece a existência de uma divindade pessoal, superior aos orixás, no que diz respeito à relação com o ser humano, enquanto que os orixás zelam pela pessoa e também pela família e sociedade.

Para permitir a comunicação entre deus e as pessoas, Olodumarê estabeleceu o oráculo de ifá que transmite a palavra de deus para as pessoas, grupos e até a sociedade.



Esta religião é encarnacionista. As pessoas nascem, vivem, morrem e voltam a nascer através de seus descendentes. As pessoas renascem dentro da sua própria linhagem. Por esta razão é muito importante para a pessoa casar e ter filhos.

Tudo o que a pessoa realizar em vida será pesado em seu retorno ao mundo espiritual. Mas ele somente prestará conta de seus atos e realizações a Olodumarê. Existem tratamentos diferenciados para quem foi uma pessoa boa ou má ou que foi importante ou não para sua família.

Os descendentes possibilitam a pessoa voltar a nascer. Esta visão do processo encarnacionista é muito importante porque torna o processo de encarnar integrado com a visão da religião para a família no centro das relações.

Não existe caráter evolutivo em viver, a religião entende que as pessoas vivem pelo prazer de viver. Não existe o conceito de “karma” ou da pessoa evoluir a cada encarnação para nunca mais encarnar. As pessoas sempre podem querer encarnar novamente, mas, isso pode ser afetado pela avaliação de Olodumarê da vida delas.



A religião envolve, conforta, convive e participa da vida das pessoas. As pessoas são abraçadas pela religião e sentem o divino em sua vida diária, orientado-os, suportando-os e falando com eles.

Esta não é uma religião contemplativa. A religião, através de suas divindades e oráculo, participa ativamente da vida das pessoas as orientando e suportando na busca do caminho da felicidade, da realização dos objetivos de vida e também da solução dos seus problemas.

Deus fala com as pessoas através dos orixás e do oráculo de ifá. A resposta de deus é audível ou visível. As respostas as preces das pessoas serão atos, ações, resultados e mudança no curso da vida. A fé nesta religião é recompensada com a resposta individualizada e com ações resultantes.

Os orixás, a magia, a medicina baseada em folhas e os poderes supernaturais são os elementos que socorrem as pessoas nas suas suplicas pessoais e como resultado da consulta ao oráculo de ifá. A religião não vê deus como onisciente e onipresente. É necessário que as pessoas o procurem através de suas preces e principalmente do oráculo da religião. É no oráculo que as suplicas e necessidades chegam a deus.

Através de liturgias Olodumarê fornece a energia que será usada pelos orixás e sacerdotes para concertar a vida das pessoas.



A religião vê a existência em 2 planos. O plano natural, ou aiye, que é onde vivemos, o mundo natural. Existe ainda o plano espiritual ou o Orun. A vida no plano natural, o aiye, é temporária, vivemos enquanto nosso corpo suporta, mas a existência no Orun é perene.

O aiye e o orun seriam espelhos de existência. A vida existe no orun e continua no aiye. A vida no orun é similar a vida no aiye, mas, aparentemente menos interessante e sem a aventura e o inesperado. A pessoa vem para o aiye porque quer uma vida diferente da vida no orun. O aiye é imprevisível e sensorial, mas, temporário. Quando morremos voltamos ao orun.

Por esta razão é que explico que o conceito do que é certo ou errado ou do que é permitido e tolerado é relativo. A existência no aiye é um paralelo a vida no orun, é temporária e as pessoas buscam a novidade e imprevisibilidade.



O conhecimento teológico da religião está contido em um largo conjunto de versos que contam histórias. É através de metáforas e parábolas que o conhecimento é transmitido.

Além desses versos existem mitos regionais que, também através de histórias, transmitem os fundamentos religiosos, os valores, a ética e a moral. Por fim, existem cantigas e estrofes (chamadas de orikis) que complementam essas informações.

As tradições da Diáspora criaram seus próprios mitos ou versões dos mitos originais para compensar a dificuldade no acesso à literatura original.

Esse corpo literário é equivalente aos livros da bíblia cristão ou mesmo ao Corão do Islã.

O povo Yoruba não tinha língua escrita, somente falada, até os meados do século XX. Este conhecimento teológico fazia parte da cultura do povo e era transmitido oralmente. O processo do escravagismo prejudicou muito a manutenção deste conhecimento, devido às guerras e a morte dos mais velhos nos navios. Os mais novos não tinham armazenado o conhecimento necessário.

Colonizadores europeus criaram uma representação escrita para a lingual, tonal, que era falada, permitindo um longo e lento trabalho de recuperação e documentação deste conhecimento. A falta do registro escrito prejudicou demais a cultura e religião Yoruba. Em termos teológicos prejudica até hoje devido à dificuldade em conhecer, transmitir e discutir a religião. Em ter os históricos a religião Yoruba ainda está no que seria o período pré-bíblia impressa da religião católica.



A religião Yoruba é iniciática. Apesar da abrangência universal da sua teologia, que não condiciona sua prática para nenhuma etnia, existem liturgias e cerimônias para estabelecer ou reforçar a ligação das pessoas com o divino, entre o mundo natural e o espiritual. Essas liturgias estão ligadas ao conceito de axé e por conseguinte ao equilíbrio da pessoa.

Muitas religiões também são iniciáticas. O catolicismo é a mais conhecida, a pessoa somente faz parte da religião se passar pelas cerimonias de batismo e comunhão.

A iniciação na religião Yoruba, tem vários níveis e finalidades. Nem todos necessitam ser sacerdotes, existem posições intermediárias. O objetivo das iniciações e liturgias é sempre o mesmo. Dotar o individuo das melhores condições e instrumentos para ele poder atingir os objetivos de sua vida. Além disso o corpo sacerdotal assume o compromisso de ajudar a outros indivíduos a realizarem seu destino.

Dessa maneira podemos dividir as liturgias e iniciações em 2 grupos principais. O primeiro é aquelas voltadas para beneficiar os indivíduos na sua busca por felicidade e realização. O segundo são as que preparam pessoas para ajudarem essas pessoas, do primeiro grupo a atingirem isso.

Enquanto o primeiro grupo beneficia o individuo, o segundo permite ao individuo beneficiar a sociedade que ele pertence. A plenitude da religião e seus benefícios práticos não são alcançados sozinhos. A religião se pratica em comunidade.

Esta é uma religião de família e comunidade, acima de tudo. Tudo é feito em grupo e existem muitos intermediários. O indivíduo é muito importante, como eu já disse, ele está no centro de tudo, mas, sozinho ele não chega a lugar algum. Para ter sucesso ele precisa da ajuda de muitos. Este exemplo está largamente documentado no corpo literário da religião, nos versos de ifá.

Não existe a relação solitária do individuo com deus. Os orixás, os vários, são os intermediários entre o individuo e deus, Olodumarê. Nada chega a deus sem a ação dos orixás e mais, não recorremos somente a um. Recorremos a todos e todos podem nos ajudar.

Os orixás, por sua vez, para se tornarem presentes no mundo natural necessitam dos seus sacerdotes, os eleguás. A presença do orixá, uma divindade no mundo natural é através da incorporação nos seus sacerdotes.

Também serão os sacerdotes que farão as liturgias de transferência de axé, a energia de Olodumarê, entre seres viventes, de todos os reinos. Axé é vida e força. Os sacerdotes transmutam axé dos elementos da terra para trazer equilíbrio. às pessoas. O axé não surge do nada, ele foi colocado por Olodumarê em cada ser vivente, animal, vegetal ou mineral e somente desses materiais pode ser obtido.

Desta maneira, para que a religião possa ser praticada e atue no benefício das pessoas são necessários sacerdotes. Os sacerdotes são preparados através de um longo processo iniciático e também de aprendizagem.

O indivíduo é o centro da religião, mas, somente através a comunidade é que a religião pode ser praticada em sua plenitude e eficácia. Uma andorinha sozinha não faz um verão. Tudo nesta religião é resultado do trabalho de muitas pessoas.

Tudo nessa religião inspira ao equilíbrio. O individuo é o foco, mas, os resultados e a prática da religião é uma ação comunitária. Não existe como referência a pessoa sozinha rezando para deus. A pessoa pede aos orixás e a prática da religião é uma atividade comunitária.

Como eu citei, para que pessoas sejam beneficiadas pela religião é necessário o trabalho de um grande grupo de pessoas que além de cuidar de sua vida, se dedicam a ajudar às outras pessoas.



O clero da religião Yoruba é uma estrutura formal, ampla e bastante hierarquizada. Existem cargos e especializações. O núcleo do clero se restringe ao microcosmo do Ile axé ou casa de orixá, mas o dirigente da casa responde ao seu iniciador, criando assim uma corrente hierárquica que vai até a casa matriz.

Não existe uma organização formal supra-casa de orixá. A organização geral é religiosa e baseada nos vínculos iniciáticos. A pessoa deve satisfação do que faz e como faz para a pessoa que o iniciou. Durante toda sua vida voltará a esta pessoa para realizar liturgias. A prática da religião na sua casa deverá seguir os padrões definidos pela casa de quem o iniciou e qualquer mudança devera ser autorizada.

Este princípio cria uma estrutura hierárquica piramidal típica, entre as casas até a casa matriz. Esta regra estrutural é bem clara e plenamente reconhecida por todas as pessoas, mas, muito desrespeitada na prática.

Intra-casas a estrutura é similar, mas, agora, mesmo na prática, plenamente respeitada. A figura principal de uma casa é o babalorixá. Abaixo dele existem cargos funcionais e honoríficos distribuídos entre os iniciados da casa. Uma casa tem inciados com formação completa, em formação, os não iniciados e os simpatizantes.

A hierarquia é definida pelo tempo de iniciação, idade e cargo na estrutura. Os cargos são tipicamente funcionais e necessários para o correto funcionamento da casa devido as inúmeras atividades que são necessárias para manter esta religião iniciática em funcionamento.



A religião estabelece um código de conduta baseado em valores, ética e moral. Este código é transmitido através do corpo literário, os versos de ifá e é bastante pragmático, direcionando a pessoa para uma vida correta consigo mesmo e útil para a sua família e comunidade. Não existe pecado contra o divino contra deus e os orixás. O que existe é o erro contra as pessoas, a família e a comunidade.

O conceito do que é certo ou errado é distinto do existente na moral cristã, isso faz muitos acreditarem que esta é uma religião sem pecados. Sim, não existe o conceito de pecado contra o divino ou contra uma lei divina. Existe o erro que você comete contra sua vida e às demais pessoas.

Toda pessoa presta conta de seus atos a deus, a Olodumarê. Isso quer dizer que existem parâmetros que definem o que é certo e errado. Em função de sua vida a pessoa pode, após sua morte, ir para uma parte do orun destinada as pessoas boas ou uma parte destinada a pessoas ruins. Pessoas ruins poderão ter como consequência a perda do vínculo familiar com sua linhagem, poderão também serem condenadas a voltar a vida como animais.

Boas pessoas receberão no Orun as bênçãos de uma boa vida e também o que é mais importante a lembrança dos seus descendentes que vão cultuá-los.

O mais grave erro que uma pessoa pode cometer é prejudicar outra pessoa a atingir o destino dela, o destino que ela pediu a deus. Esta é uma falta muito grave.

Não existe o paradigma do sempre certo versus o nunca errado, a nossa vida é a soma disso. A sombra e a luz são criações de deus, o bem e o mal também. O mal equilibra o bem, nunca se pode estar bem demais ou mal demais.

A ética, a conduta e a utilidade para a sociedade são valores absolutamente importantes, contudo a importância que se dá para o ganho ou perda é que é relativo. Ganhar ou perder fazem parte da vida. Um ganha e outro perde. Os papéis se invertem o tempo todo, mas, ao fim da vida a pessoa presta contas a Olodumarê sobre o que fez na sua vida. Todos prestamos conta de nossos atos e realizações. A avaliação de Olodumarê é o que pesará no seguimento de nossa existência.



A religião tem um processo de incorporação no qual a energia do Orixá se apropria do corpo do iniciado. É através desta incorporação que o Orixá se manifesta no mundo natural para ajudar às pessoas. Esta manifestação ocorre em pessoas iniciadas para isto e não tem como finalidade a comunicação, que na religião é feita pelo oráculo.

Este é um assunto mais complicado. Não posso deixar de abordá-lo, mas, não acho que vale a pena me estender nele. Em relação a tudo o que foi falado sobre a religião este é o tema menos relevante. Os demais são mais importantes para entender e explicar a religião.

Sim, existe a manifestação do Orixá no mundo natural através da incorporação em pessoas especialmente preparadas para isso. É um momento importante, cativante, que reforça a fé das pessoas na religião, que mostra para elas que elas não rezam para o silêncio e que como esta na teologia, deus, Olodumarê, responde a elas através dos Orixás.

A incorporação significa para o crente que tudo aquilo que falamos é verdade, que ela não está sozinha no mundo e que o divino, deus e os orixás, estão o tempo todo às assistindo e zelando. Nada é mais doce e mais terno do que abraçar um orixá. Orixá é puro amor e ao nos encontrarmos com eles reconhecemos o sentido do que fazemos.

A incorporação é a materialização da fé. As pessoas acreditam, rezam, louvam e agradam orixás. Os orixás em retorno se manifestam para as pessoas mostrando que eles não são pensamentos e sim divindades reais e presentes.

Este é o significado maior da incorporação do orixá em um momento de festa. No candomblé os orixás vem ao mundo natural em um momento festivo, cercados de música, canto e dança. Esta é a imagem que os orixás querem que as pessoas tenham deles. As pessoas se alegram, festejam e dançam junto com os orixás. A comunhão com o divino não é um momento sisudo ou de medo. É um momento alegre e divertido.

Os orixás não possuem imagens ou figuras no candomblé.

Os orixás não incorporam para falar ou dar consultas no candomblé. A comunicação com os orixás é feita através do oráculo. O candomblé não tem nada a ver com a umbanda, na umbanda as incorporações são o centro da religião e os guias incorporam para se comunicar com as pessoas. Entretanto este não é o modelo do candomblé.



NOTAS

Como expliquei o candomblé é heterogeneo, não é uma coisa única, eu falo aqui sobre a religião de origem Yoruba e por conseguinte do candomblé ligado a ela. Possivelmente na outra religião e no candomblé ligado a ela as coisas sejam diferentes, mas cabe a eles falarem deles.

Muitos podem observar que a prioridade que dou a assuntos é diferente. Os Orixás são uma parte da religião, importante sem dúvida, mas não o todo. A religião os contêm mas eles não são a religião. No dia a dia as pessoas falam de coisas muito confusas e misturadas, o meu texto não foi feito para essa confusão e sim para acabar com ela. 


terça-feira, abril 30, 2019

Novo vídeo no Canal do Youtube

Canal:  Blog orunmila-ifa

Deixe seus comentários lá ou aqui, só com retorno vai ser possível melhorar
 Em relação ao Blog, novos textos já em produção para serem publicados 

domingo, abril 28, 2019

O Canal esta ativo no Youtube !!


Resolvidos os problemas técnicos, já coloquei primeiro vídeo, é apenas uma introdução.

A seguir virão os vídeos de conteúdo.

Canal Blog Orunmila-ifa


Amanhã 30/04 já terá um novo vídeo







terça-feira, abril 16, 2019

Iniciação de crianças no Candomblé

Iniciação de crianças no Candomblé

Eu gostaria de aproveitar um tema que surgiu essa semana para falar deste assunto de iniciação. Após este texto postarei um texto antigo do Blog que fala sobre esse assunto de iniciação, mas eu gostaria primeiro de falar sobre a questão de iniciação de crianças.
Em primeiro lugar, manifesto que sou contra a iniciação de crianças no Candomblé ou em qualquer religião iniciática. Sou mais contra a iniciação de crianças do que a iniciação de adultos. Já me manifestei aqui no BLOG contrário a iniciação indiscriminada de pessoas como parte do processo de professar ou praticar essa religião.
Sou contra a iniciação obrigatória.

O Candomblé é um religião iniciática, mas o catolicismos também é e existem iniciações e iniciações.
As pessoas, no geral, têm que ter espaço na religião sem serem obrigadas a se iniciarem. Para mim, como esta no texto s seguir, a iniciação como ato obrigatório é apenas parte do processo mercantil.
Antigamente era parte do processo de controle e submissão ao dirigente, porque pessoas iniciadas devem submissão e pessoas não iniciadas, com liberdade de ir e vir, não aturam qualquer coisa. Iniciar quem quisesse frequentar uma casa era a forma de 1) submeter a pessoa a hierarquia da casa; 2) criar laços mercantis.
Devemos lembrar que no geral no Candomblé e seus dirigentes eram pessoas muito simples e humildes, pessoas que por sua própria conta se sentiam intimidadas com a presença de uma pessoa com estudo formal, profissão e independência. Tudo o que elas não eram. Eram pessoas que tinham dificuldade em se impor como líder apenas pelas qualidades de liderança e inspiração que deveriam suscitar nas pessoas.
Para controlar as pessoas nas casas os dirigentes usavam 2 coisas: a falta e o controle da informação e a iniciação. 

A Informação sempre foi uma moeda de troca, você se submetia porque queria aprender e a informação era controlada a conta gotas. 
Mas, além do dirigente, existe toda uma corte que quer também exige hierarquia na casa. Como dizem, dá dinheiro para uma pessoa mas não dá poder.

Para esse contexto o melhor processo era o de iniciação, feitura, porque a pessoa se submetida a um novo contexto social, um mundo paralelo ao mundo real no qual sua posição social mudava. As casas de Candomblé sempre foram um grande mundo paralelo, uma realidade alternativa.
Esse modelo de Candomblé iniciático não é o modelo que as pessoas querem e a religião precisa. As pessoas têm que ter autonomia e incentivo para permanecerem como abians ou frequentadores a vida toda. Veja, não é para tolerar abians, é para incentivar a permanecer como abian.
A religião católica é iniciática também, mas, ela não quer que todo mundo vire padre, monge ou freira. Imagine se para você ser católico você tivesse que ser no mínimo um monge.
O que a religião precisa é aprender com as outras que já se estabeleceram no contexto da universalização, mas, enquanto os Pais de Santo dependerem de fazer ebó e feitura para viver, isso vai ser impossível. Só depois que essa geração de gente que vive disso passar é que começa a melhorar.

As pessoas buscam em uma religião a fé, a crença em deus, a necessidade de se sentirem queridas e protegidas pelo divino. Buscam a esperança de uma vida compropósito, buscam a proteção do divino para suas dúvidas incertezas e problemas, buscam o conforto do colo de deus. Buscam se sentir pessoas melhores enquanto vivem.

É isso o que as pessoas buscam em uma religião. Ninguém entra em uma religião para servir a deus, as pessoas entram em uma religião para viverem com deus. 
É neste contexto que eu digo que não existe sentido em se iniciar uma criança.
A feitura do Candomblé, hoje, não é um processo feito para ser fácil ou agradável. É um processo longo e que exige muito esforço e sacrifício pessoal. Muita gente ainda transfere para a iniciação o mecanismo de submissão e ressocialização no mundo paralelo do terreiro. Não sou a favor de submeter crianças ao processo atual.
Vão criar um novo ou melhorarão o atual para que crianças possam se adaptar, tirando o que é desnecessários? Ótimo, todo mundo vai ganhar. Não tem sentido a continuidade da forma como muitas coisas são feitas. A feitura tem que ser um momento para trazer boas lembranças a vida toda, mas a feitura não é feita para ser um spa.
Você levaria  uma criança para fazer a trilha de Santiago de Compostela? Pois é, é a mesma coisa.

Minha opinião é que o processo é para adultos que estejam com muita vontade.
Em segundo lugar, uma feitura é uma responsabilidade grande com a religião, crianças não podem assumir essa responsabilidade sem saber o que querem para sua vida, não se pode fechar portas na vida da criança, ele tem que ter todas abertas para decidir onde vai.

Não se trata de dizer que a vida religiosa do iniciado seja ruim, mas das obrigações e disciplina que ela traz para a pessoa versus o que a vida sem aquilo representa. 

Sem essa de que é tudo igual, claro que a pessoa se inicia porque traz para si uma nova rotina e vivência, no Candomblé são feitas feituras, não é feito esse comércio de iniciações para qualquer coisa que cubanos e nigerianos trouxeram.

A feitura é um processo intrusivo na vida da pessoa.

A minha opinião, ja dita aqui, é que as pessoas tem um tempo para decidir isso. Também digo que o que precisamos na religião é apenas de abians, muitos. Poucos iniciados e muitos abians, como nas demais religiões, uma proporção de seguidores muito mais do que de sacerdotes e iniciados.

Um terreiro não pode ser uma fábrica de feituras.
Por último deixo claro que não veja nada demais em frequentar Candomblé, fazer ebó, fazer Bori ou fazer feitura. Tudo isso é normal. Não vejo nenhum tipo de agressão para ninguém, não vejo problema na pessoa ficar careca, depois o cabelo cresce.
As liturgias do Candomblé, quando bem feitas são como qualquer liturgia de qualquer religião.
Exceto se existe uma razão muito forte como, por exemplo, saúde, nenhuma criança precisa ser iniciada. Quando ela se tornar adulta poderá fazê-lo com calma e maturidade.

As pessoas tem sempre que fazer as coisas por opção e com informação. 

Para uma criança ainda falta muito tempo para ela aprender alguma coisa e decidir o que deseja e como deseja viver.


Você tem que fazer o Orixá no Candomblé?

Você tem que fazer o Orixá no Candomblé?




Paradigmas para um novo Candomblé

versão 4


NÃO

Gostaria que minha resposta pudesse ser assim tão simples, mas, vou ter que escrever dezenas de linhas para explica-la.


Quero esclarecer que o texto não foi feito totalmente para neófitos. Foi feito para pessoas que conhecem ou que já estejam tomando conhecimento do Candomblé. Este é um assunto que deve ser discutido por essas pessoas.

O Candomblé está se tornando em nossa sociedade uma religião mais conhecida e aceita. 

Provavelmente mais aceita do que conhecida, mas, sem dúvida nenhuma, infinitamente mais difundida do que antigamente quando sua prática era localizada em guetos étnicos e 
o restante da sociedade aparecia como cliente ou convidados especiais.

Minha posição é que ele já deixou de ser identificado com uma etnia, apesar de ainda ter pessoas que usam a religião junto com sua causa étnica. Não confundam as coisas.

O Candomblé não pertence aos negros e muito menos aos africanos. O Candomblé é uma tradição religiosa brasileira, que está adaptado à nossa sociedade. Os africanos que estão vindo para cá do Benin e da Nigéria nada sabem sobre nosso Candomblé ou mesmo tem propriedade para falar sobre ele.

Esta religião é do povo brasileiro. Não se trata de um tipo de induismo ou judaismo que você tem que nascer indu ou judeu para fazer parte. O Candomblé pode fazer parte da vida de qualquer um. Ainda existem negros que podem achar que isso seja alguma coisa que pertença a eles. Esqueçam, não sabem de religião assim como não sabem de nada.

Quando o Candomblé saiu do escopo da polícia civil e virou religião aceita pelo estado, a população em geral começou a ter acesso à rica teogonia e teologia que esta religião possui. A religião Yorùbá é infinitamente mais rica se comparada com o padrão de religiões africanas sub-saharianas, mas, se destaca mesmo se comparada com outras religiões do mundo ocidental e oriental. Ela está no primeiro pelotão, com louvores.

Este foi o motivo que levou somente ela a influenciar os povos do novo mundo em função da diáspora negra. Em todos os lugares que receberam Yòrúbas esta foi a religião que acima de qualquer outra se estabeleceu e gerou tradições. Mesmo na África, na região geográfica em torno da região Yorùbá. Minhas observações sobre a história daqueles povos, mesmo com poucas informações e análises objetivas, me induzem a concluir que a influência da religião Yorùbá no seu entorno é muito maior do que se supõe e a originalidade de supostas outras linhas religiosas, como a religião dos Voduns seja questionável.

Eu sou levado a pensar que, um processo histórico lento e longo fez com que os povos em volta da região Yorùbá fossem influenciados por esta religião original e em função das falhas do processo de tradição oral, uma vez que não havia tradição de escrita na região, fez com que a religião sofresse deturpações e distorções. Histórias foram recontadas, versões foram criadas, divindades trocaram de nome, animismos viraram religiões baseadas na religião Yorùbá.

Muitos elementos me levaram a isso e não tenho tempo ou mesmo formação para defender essa teoria mas me acho com liberdade de expressar essa minha opinião. Posso usar argumentos simples. O primeiro deles é que religiões originais, bem construídas, consistentes e com teologias superiores são raras, existem poucas no mundo. Essas religiões de fato, sobrevivem ao tempo e aos eventos com bastante resistência. Esse é o caso da Yorùbá.

O segundo é que a região geográfica de onde vieram Nagos e Jejes é bem pequena. É impossível que um grupo não tenha influenciado o outro bem como as distorções que podem ser provocadas por uma tradição oral são muito evidentes.

Por fim, as similaridades estruturais são muito evidentes. Assim como as óbvias variações de regionalismos que a tradição oral deve ter feito.

O grupo Bantu, muito grande na África, mas, muito pobre como cultura e sociedade, representado aqui pelo Angola, que era geograficamente distante do grupo Yorùbá, em nenhum lugar do mundo influenciou ninguém, apenas coisas colaterais e em termos de religião, apenas animismos. O Candomblé de Angola é uma invenção dos Bantus aqui no Brasil é só uma cópia mal-feita, como tudo que é Bantu. Eu já coletei material sobre esse tema e vou escrever sobre isso.

Dessa forma, assim como os Bantus inventaram uma religião que nunca tiveram, podemos considerar o Candomblé também como uma adaptação desta raiz religiosa para o nosso povo. Não temos nada, mas nada mesmo, que dar satisfação ou copiar orientação de africanos da Nigéria e do Benin.

Assim as pessoas se impressionam bastante com o que passam a conhecer quando tomam contato com o Candomblé. Infelizmente conhecer mal. Mas isso não é nada inédito. O Candomblé sofre hoje o mesmo que sofreu catolicismo antes da compilação, e depois popularização, da bíblia. É uma teologia pouco conhecida e entendida. Sim, o Candomblé precisa de uma Bíblia, um corão, uma torá ou um mahabarata, porque senão fica sendo representado pela imaginação criativa de um monte de gente e não pelo que ele é de fato. Pior, muitas vezes pelo comportamento inadequado de pessoas que dizem representar seus valores.

O que existe mesmo é gente desinformada falando bobagem, fingindo saber, insinuando conhecimento. É gente que não consegue explicar nada. Entendam, não estou falando em erudição, não, estou falando de saber a religião que dizem professar.

Estou falando de gente que não sabe explicar sua religião com 10 palavras e muito menos com 1.000. Estou falando de gente que nem sabe para o que serve uma religião na vida das pessoas. Isso se aplica de brancos a negros, de azuis a amarelos, gordos e magros, ricos e pobres.

É muito fácil você responder a primeira pergunta sobre uma coisa. Mais difícil é você responder a segunda pergunta (mais profunda) sobre o mesmo assunto, muito mais difícil ainda é seguir assim perguntado e respondendo. Quantos passam da segunda pergunta?

A maioria dos Babalorixás e Iyalorixás, como se auto-denominam por ai, só conseguem enrolar a primeira resposta, normalmente um adjetivo mal explicado. Vide aquele livro chamado, O Candomblé bem explicado, que é um manual para se responder, enrolando, a primeira pergunta, somente.…

Olha não gosto de fazer críticas genéricas, por isso não faço fofocas, escrevo textos. Mas é importante lembrar a todos esta situação. O que eu mais vejo é pessoa se dizendo sacerdote e que não consegue sustentar uma conversa com ninguém. Que não sabe explicar o que faz. Que mistura catolicismo, espiritismo, umbanda e sei lá mais o que para falar de dogmas da sua religião e de Orixá.

É muito complicado a gente falar o que é de fato parte desta religião aqui com tanta gente fazendo o contrário. Eu ouço de vez em quando uns programas de rádio supostamente sobre Candomblé, aqui no Rio. Lixo. Estelionatários declarados. Pessoas que se passam de Babalorixá e fazem um programa para vender amarração, feitiço, favores. Além de encherem o ouvido das pessoas com abobrinhas. A cada 1 coisa certa que eles falam tem 10 besteiras. Não é religião é apenas comércio de feitiços.

Claro que eles não são diferentes dos programas de evangélicos que disputam as mesmas rádios e horários. A grande diferença é que evangélicos sabem o que falar e o que defender.

A qualificação de sacerdotes é o primeiro ponto de revisão de uma religião de verdade. O grupo que ai esta é muito mal formado ou não tem formação nenhuma. As pessoas NÃO podem acreditar mais que por uma pessoa se dizer babalorixá e ter casa aberta ela é uma conhecedora da religião e vai poder orientá-la. Se o que a pessoa está procurando é aprender uma religião ela vai ter que ter muito cuidado.

Eu já falei somente sobre esse assunto em outro texto, mas resumidamente muitos desses tais Babalorixás inventaram cargos, não cumpriram suas obrigações, não pagaram o seu tempo de obrigações, ficaram pulando de casa em casa tomando obrigação com pessoas diferentes e não receberam o Oye de Babalorixá (isso vale para as Iyalorixás também, só não vou ficar escrevendo toda a vez as 2 palavras).

Em função disso ai não aprenderam o Candomblé. Vou repetir não estou me referindo a erudição, estou me referindo ao básico, aquilo que a gente aprende em gotas homeopáticas frequentando a mesma casa e tendo oportunidade para conversar com pessoas mais velhas, aprendendo delas. Isso significa entender a filosofia e os valores.

Além disso a pessoa tem a oportunidade, hoje, de buscar uma compreensão maior da religião, uma coisa que nossos antecedentes não tinham. Essa busca de melhor conhecimento não é algo errado. É algo que eles não tiveram acesso e duvido que deixariam de ter se esforçado para obter esse conhecimento.

Quando uma pessoa sai pulando de casa em casa para tomar suas obrigações e também apagar o seu passado ela também perde a referência de hierarquia. Ela passa a mandar no que faz sem nenhum controle. Assim o primeiro sinal para se avaliar uma casa e entender qual e como é o vínculo da casa e da pessoa com que o fez. Para ter certeza vá na pessoa que o fez e peça referência dele. Pergunte a cronologia de obrigações. Se a pessoa não quiser responder, vire as costas e vá embora, vai ser melhor para você, acredite.

Gente a pessoa que entra em uma religião quer saber como ela é. Quer saber o que é um orixá e o que ele representa. Quer saber como a sua vida se integra no cosmo. Não adianta dizer para alguém que perguntar sobre o que é um Orixá, com aquele sorriso amarelo e os olhos no vazio, que você ama o seu Orixá. Isso é patético.

Voltando ao Candomblé universal, se o Candomblé pretende se posicionar como uma alternativa religiosa viável para as pessoas, algumas coisas devem se modificar. A primeira é acabar com esse viés caça-níqueis e se se ocupar de fato em ser uma religião.

Viés caça-níquel é esta exploração monetária de jogos, ebós e obrigação. O comércio de liturgias. Isso é ridículo e nivela essa religião com o que existe de pior na sociedade.

Uma das principais coisas que devem ser mudadas é a questão da feitura de Orixá.
Não é verdade que as pessoas para serem desta religião tem que fazer feitura do seu Orixá. Isso acima de tudo é uma preferência do Babalorixá para pode ganhar dinheiro. 

Porque nada que ele coloca a mão é de graça e quanto mais pessoas amarradas á sua casa através de feituras, mais dinheiro ela vai garantir com obrigações, ebós e jogos.

O corpo das pessoas que fazem parte da casa é assim aumentado como um rebanho leiteiro que sempre vai garantir o dinheiro dele. Os clientes se somam a isso aumentando esta receita de forma variável, mas, a receita do "rebanho" será sempre garantida.

O que eu disse parece grosseiro, mas, é isso mesmo.

Este é o formato adotado na maior parte das casas de Candomblé, nos Ilê Axé. Não fiquem assustados e nem finjam espanto. Esta prática não é original do Candomblé, acontece na sociedade como um todo. Também acontece no Candomblé.

Para o Candomblé ser uma religião ela tem que começar acabando com isso. Quem sustenta um Ilê Axé tem que ser as pessoas que participam do Ilê Axé. Não podem ser transações comerciais associadas a venda de liturgias pelo babalorixá. Esta é uma prática muito pior do que instituir uma mensalidade, um dízimo (como na igreja, não como nos templos evangélicos que são apenas assaltantes) ou um rateio de despesas, como um condomínio.

Qualquer método que conte com a participação de todos será muito superior ao do Babalorixá cobrando por trabalho, porque essa não é uma prática adequada para uma organização religiosa.

Também não podem os membros das casas serem tratados como clientes, pagando por obrigações, ebós e jogos. Essa palhaçada de dizer que é obrigado a cobrar "chão" ou "salva" ou "cobertura de anjo da guarda" são eufemismos para esconder o simples comércio.

Uma casa precisa se manter. O dirigente tem que ter obter recursos para fazer suas próprias obrigações que são consequência da sua atividade. Ele precisa também se manter. Isso tudo a religião não oferece restrição, pelo contrário.

Mas, como estamos tratando de uma casa de religião, é necessária uma distinção entre o que custa aos membros da casa manter a sua casa funcionando, e isso pode até incluir a decisão da comunidade em manter ou subsidiar o sacerdote e, dentro disso também, o subsídio que esta comunidade define que vai receber ao atender pessoas que não fazem parte da casa.

O atendimento de pessoas que não são permanentes da casa sempre foi parte das estratégias que antigas casas de Candomblé usavam para se sustentar e ao seu Egbe. O problema é a proporção que isso tomou porque estelionatários que vendiam feitiços, favores, mentiras, amarrações usando uma fachada esotérica descobriram que poderiam melhorar o seu produto podre se passando de Candomblecista.

Essa invasão maculou o modelo honesto do Candomblé.

Outro problema foi o das pessoas que entravam no Candomblé já contando tempo para se proclamarem Pais-de-santo e viverem desta atividade. Não eram pessoa que procuravam seguir uma vocação, elas procuravam uma profissão. Gente que não servia para nada. Não queria estudar e não queria trabalhar.

Não existe problema no sacerdote profissional. Padres são sacerdotes profissionais, remunerados pela Igreja que é mantida pelos seus fiéis. Mas este sacerdócio sofre controle e um monte restrições fazendo que, acima de tudo, tenha que existir a vocação.

Já o Pai-de-santo de beco não tem nada disso. Ninguém controla, ele faz o que quer e ainda inventa controle para outros.

O que era para ser um exemplo de humildade, ver pessoas mais velhas ou até mais bem posicionadas na sociedade, por seu valor próprio se hierarquizarem em uma casa de orixá virou um escárnio, porque pessoas despreparadas, decadentes, incapazes e mentirosas assumem uma posição que não pertence a elas. Comumente são mentes psicopatas e estelionatários, desprovidos de propósito e moral abusando da fé de outros.

Por esse caso extremo, claro, porque nem todo lugar é assim e nem toda pessoa é assim, é que o Candomblé tem que reagir de forma radical a esta questão mercantil. Uma reação radical e vigorosa vai deixar de um lado as casas séria e do outro essas pessoas.
Assim não se trata de romper com o modelo da religião que não vê problema em dinheiro, através da prática da ajuda a simpatizantes, sustentar uma casa e sim de ser obrigado a adotar uma posição distinta em função da forma como a religião legítima foi usada por pessoas não legítimas.

O outro aspecto é o que eu iniciei este texto, o Candomblé precisa se adaptar ao processo de universalização na sociedade, preservando o que é bom e melhorando aquilo que é inadequado a este novo status. Sim o Candomblé e as pessoas do Candomblé aspiram a um status pleno de religião.

É necessário então encontrar um modelo de financiamento do Ilê Axé que seja distinto do empregado por esse grupo de estelionatários travestidos de Babalorixá, que falam de orixá, falam de nação, falam de Umbanda, falam de cigano, falam de ajé, falam de egungun, falam de amarração, falam de ebó e falam de qualquer coisa que a pessoa queira ouvir, porque elas sabem que tem muita gente tola, gente que você fala 9 coisas que ela não quer ouvir, mas se você falar 1 só que ela queria ouvir já basta.

Um outro capítulo nesse assunto é o assunto que eu comecei, antes de ter caído nesse "galho" do financiamento da atividade religiosa, que é a questão da feitura de Orixá. É claro que a feitura de Orixá se insere no financiamento da atividade dos estelionatários.

Uma pessoa que entra para o Candomblé deve se preocupar em entender a religião e como ela pode ajuda-lo a ter uma vida melhor sendo uma pessoa melhor e mais feliz.

É isso o que as pessoas procuram em uma religião. Procuram viver melhor. Ser pessoas melhores. Viverem em harmonia consigo mesmo e com sua família.

Mas o Candomblé, sendo uma religião iniciática, ela oferece muitos status e vaidades e, como diria Al Pacino, a vaidade é o pecado preferido do diabo.

Quando a pessoa entra para uma casa de orixá, um Ilê Axé, ela inicia como um Abian, um simpatizante ou um crente da religião. Abian é o nome que se dá.
A pessoa pode, e deve, ficar como um Abian por muito tempo, talvez toda a sua vida.

A fé não se mede se a pessoa é um abian ou um Iyawo. Fé é acreditar no divino, no Orixá e trazer isso para a sua vida de uma forma positiva, que permita a essa pessoa superar seus problemas pessoais através de aprender novos valores e uma nova forma de administrar a sua relação com as pessoas e com sua vida.


Um Iyawo é uma pessoa que passa por um complicado, sofrido e longo processo de feitura. 

Esse processo prepara a pessoa para poder ser um elegun do seu Orixá na terra. É através dos Elegun que o Orixá incorpora e se manifesta em uma casa para ajudar a sua comunidade, distribuindo axé para as pessoas.

Sem elegun não existe Orixá na casa e na nossa vida. Orixá não é apenas uma coisa que fica no ar e que sempre esta por ai. Não é verdade. A função do Elegun é justamente estabelecer a ponte para que o Orixá possa vir do Órun (mundo espiritual) ao Aiye (terra) e distribua o axé para as pessoas.

É por isso que uma casa de Orixá tem que ter muitos elegun e tem que ter elegun de todos os Orixás. O Elegun é uma pessoa importante e o Babalorixá não consegue tocar a sua casa sem eles. Toda a casa tem a necessidade de ter Eleguns dos Orixás e de qualidades diferentes inclusive.

Por isso um Babalorixá precisa fazer feitura em Pessoas e precisa encontrar e atrair essas pessoas dos Orixás que ele precisa.

Para ser um Elegun é necessário fazer a feitura e ser um Iyawo por 7 anos, no mínimo, normalmente isso vai durar muito mais tempo.

Para uma pessoa trocar de status de Abian para Iyawo deve existir um propósito. A pessoa tem que entender o que isso vai significar para a sua vida. A pessoa tem que saber no que isso muda a relação dela com o divino, mas, saber de fato e não, ser enrolada com mentiras.

A verdade é que o Orixá não vai gostar mais da gente porque a gente fez o Orixá. Não vai gostar mais da gente porque a gente tem um igba. Não seremos mais felizes por causa disso. Não seremos mais protegidos por causa disso.

Existem motivos que podem levar uma pessoa a uma feitura. O Ilê Axé pode precisar, a pessoa pode precisar. O pior motivo é o babalorixá precisar para alimentar a conta bancária dele.

Abians e Iyawos precisam de Bori do mesmo jeito, de ebós de mesmo jeito e de jogo do mesmo jeito. Um abian pode ter inclusive um igba. Como fonte de receita um abian pode ser tão promissor como um um Iyawo.…

Ser um Iyawo não é uma evolução religiosa natural. É assumir uma nova postura diante da sua religião e se comprometer com obrigações religiosas da casa e do Babalorixá. Se você busca uma religião e não esse compromisso fique como Abian sua vida toda, ai você pode ir quando quer, mudar de casa, etc…

Mas o caso é que ser um Iyawo muitas vezes é apenas uma necessidade financeira do sacerdote e uma vaidade do abian. As pessoas devem se despir de vaidade e antes de dar qualquer passo mais profundo na religião devem primeiro aprender sobre ela.

Se o Candomblé quer ser uma religião de muitos tem que se ocupar mais em se transformar em uma opção real e palatável para as pessoas. Tem que se ocupar com os seus membros e não com clientes. A gente tem que separar os Ilê Axé de verdade dos mercadores de feitiços.

Claro que é uma religião iniciática, dogmática e altamente litúrgica. Mas pode continuar a ser tudo isso sem se transformar em fazer pessoas infelizes.

Acima de tudo o Candomblé tem que se ocupar em se incorporar à vida das pessoas sem que as pessoas abandonem a sua vida normal. A Fé deve se adicionar a vida das pessoas e não substituir.

Muitas liturgias e iniciações podem ser feitas para Abians. Ser um Iyawo acabou matando essas opções.

O meu ponto aqui é o fato de que a feitura é um processo muito intrusivo na vida da pessoa. Gera muitas relações e ligações e muda o equilíbrio do axé da pessoa. As pessoas têm se preocupado em se aprofundar em liturgias sem se ocupar em saber se ela está feliz na religião que adotou.

O melhor para a vida de qualquer um é ser um Abian. Ser Iyawo é tão sério que essa opção tinha que ter registro em cartório com testemunhas.

SIM, você poder ser do Candomblé sem ter que fazer o seu Orixá. Inclusive é muito mais seguro. Entrar em uma feitura é abrir sua vida e se fragilizar. Se você fizer isso pelo motivo errado ou com a pessoa errada por ter problemas, novos, para o resto da sua vida.

Existem muitos caminhos para uma pessoa ser vida toda Abian no Candomblé. Ela pode participar de tudo o que interessa, rezar, ter acesso ao divino, receber axé, se realizar sem ser feita. Inúmeras liturgias, quase todas, podem ser feitas em Abians. Acima de tudo uma pessoa busca na religião paz e realização. Este tem que ser o foco das pessoas.


Uma casa precisa de Iyawo, mas, não é necessário que todos seja Iyawo. Vou repetir, é uma iniciação tão séria que eu sinto vergonha quando ouço que pessoas vão para uma mesa de jogo e 3 meses depois estão feitas.

O Candomblé tem que ter um modelo inspirativo. Tem que inspirar a fé, a dedicação e a transformação das pessoas para o seu melhor. Não pode ser um centro de confusões na vida da pessoa.

E mais importante. o Candomblé TEM que ser uma religião familiar. A família tem que estar junta na religião e na casa.
As pessoas falam do escando dos padres pedófilos na igreja católica. Olha na média isso é pinto visto o que se encontra nas casas por ai. Tome cuidado onde bota o seu pé limpo. 

Não existe controle das casas. O controle é seus olhos e ouvidos. Preste atenção e não se emburreça. Não faça nada, nem um ebó, sem saber muito bem como é aquela casa e pessoa.

Algumas recomendações simples: Não vá para casa onde o Candomblé é a própria casa da pessoa, onde ele toca no quintal ou na varanda, da obrigação em quartos, etc..

Não vá para esses candomblé urbanos todos acimentados, sem espaço para folhas e árvores. Candomblé exige um espaço especial, não é igual à Umbanda. Candomblé exige espaço dedicado, com muita preparação e assentamentos. Não se toca Candomblé em beco de vila. Não dá para Babalorixá misturar o seu espaço pessoal com o Sagrado. Se ele não tem recurso para ter uma casa de Candomblé, com terreno próprio, então não era nem para dizer que é Babalorixá.


Se a pessoa não quiser dizer a sua cronologia de obrigações ou a casa onde foi iniciado e se fez todas as obrigações lá e nome da pessoa que o iniciou, vá embora. Se a pessoa que o iniciou já morreu ou a casa já acabou e ele não tem nenhum irmão de orixá ou mais velho para dar referencia dele, então vire as costas e vá embora.

Se fosse um médico que quisesse te operar você ia fazer isso tudo.
Por fim, quero esclarecer que o objetivo desses textos sobre o Candomblé não é criticar o fácil, mas, trazer à reflexão das pessoas essas questões. Além disso, pessoas novas têm que acordar para a realidade.

segunda-feira, abril 15, 2019

Canal no Youtube


Como já informei haverá um canal do Youtube associado ao conteúdo deste BLOG. O objetivo e os assunto s serão os mesmos, mas, será uma mídia diferente.

Eu estou com umas dificuldades técnicas para resolver e isso me atrasou. Já capturei e editei vídeos anos atrás e estou me adaptando a novas ferramentas agora. Esta sendo um pouco mais difícil que eu imaginava, mas, superarei.