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segunda-feira, dezembro 17, 2018

O aborto provocado e a religião Yorùbá


O aborto provocado e a religião Yorùbá




Introdução – A ética da sociedade e a religião


A religião não muda o mundo onde vivemos. A religião não muda a vida que vivemos, não no sentido literal ou prático, ter uma religião não vai fazer ninguém estar imune a viver, sofrer, ser feliz, amar, se ferir, se decepcionar, morrer e tudo o mais que faz parte da vida.
Você vai ficar doente, vai precisar de um médico e não de um padre ou pastor. Ter religião não muda os fatos da vida e a sua realidade.
A religião trabalha com o ser, com sua alma e coração para que ele tenha uma dimensão estendida de sua existência. Ela traz à pessoa uma forma complementar de ver a vida, costumamos dizer uma forma maior, porque coloca a nossa vida em um contexto maior, além da existência individual e coletiva.
O cientista é a pessoa que lida com a natureza das coisas, ele trabalha para fazer coisas melhores, é a pessoa que lida em termos melhores objetos, vivermos melhor com eles.
Um sacerdote não é um cientista e não concorre com ele. Um sacerdote é voltado para as pessoas, para ajudar a sermos pessoas melhores. Este é o objetivo da religião, nos fazer pessoas melhores.
Toda a religião estabelece uma forma alternativa de ver o mundo, ou melhor, vamos usar a expressão: uma forma complementar; porque ela não substitui a nossa vida comum, a nossa vida em sociedade e suas regras. Ela complementa isso, trazendo para as pessoas valores que ela deve ter e, também, buscar que essa pessoa dê o melhor de si para a sua vida pessoal, família e sociedade.
Essa visão estendida pode em alguns casos colocar a pessoa em posição antagônica com uma parte da própria sociedade em que vive, por exemplo ao lidar com questões morais, uma vez que a religião pode estabelecer valores diferentes para a pessoa ver o mundo do que uma parte da sociedade deseja estabelecer com consenso.
Leis e regras são isso, um consenso da sociedade para equilibrar suas próprias relações, trazendo o que chamamos de civilização. Elas são muito importantes e garantiram uma vida comum em sociedade.
A sociedade pode se adaptar, com o tempo, ao desejo das pessoas e às mudanças de comportamento e do entendimento do que seja um comportamento adequado ou tolerável, mas, essas mudanças e o novo comportamento podem não fazer parte da ética e moral que a religião (qualquer uma delas) recomenda para as pessoas. Veja não se trata de ser conservador, trata-se de lidar com valores distintos.
A sociedade é composta de muitas pessoas, todas elas têm seus próprios objetivos de vida e visão do que seja bom para elas e por conseguinte podem querer adaptar a sociedade a essa visão pessoal.
As pessoas dizem que as religiões devem se adaptar, e modernizar, mas, ignoram que elas fazem isso o tempo todo. As pessoas não entendem é que, modernizar, não significa abrir mão valores atemporais para um bom ser humano, para uma boa humanidade.
As religiões não são retrógradas. O problema é que pessoas são fracas, inseguras, incapazes e sem estima. Elas tomam rumos de decisões que não conseguem sustentar consigo mesmas e recorrem a religião para forçar estas a justificar aquilo que elas mesmos não tem capacidade de fazer sozinhas.
A religião tem outras prioridades o bem-estar do ser humano esta cima de vaidades. Como eu disse, a religião está ficada no indivíduo.
Dessa forma, consequentemente, existem muitas zonas de conflito entre a religião e as pessoas que não tem fé.
Existem inúmeras questões sociais que variam de religião para religião, uma vez que, as religiões, são diferentes em seu conjunto de valores. Não deve haver nenhuma surpresa, nisso. Cada religião é criada de acordo com a sociedade que a originou e dessa forma inclui os valores dessa sociedade. Ao ser exportada para outra sociedade terá maiores ou menores zonas de conflito com os valores da sociedade civil que a recebe.
Algumas pessoas entendem que a religião contêm a cultura da sociedade que a gerou e por isso mesmo não aceitam religiões universais.
O que ocorre normalmente em uma religião, é o processo da especialização, ou seja, da criação de uma nova “tradição religiosa” que é justamente a adaptação da religião a nova sociedade, cultura e história. Uma nova tradição religiosa de uma religião existente não é uma coisa ruim ou menor, pelo contrário, é justamente o ajuste da religião aos valores da sociedade local. A religião original não será melhor que a tradição religiosa, elas estão em contextos sociais diferentes.
Uma tradição religiosa é uma manifestação maior e melhor. Ruim é querer usar a religião de uma sociedade em outra sem ajustes.
Isso, que estou comentando, é distinto da formação de uma seita, que é a formação de uma nova visão teológica de uma mesma religião.
O candomblé, representa essa visão de tradição religiosa de que melhora e adapta a religião original.
Desta maneira, uma religião evolui e melhora com o tempo, se adaptando a sociedade, porém existem valores que jamais serão abandonados porque fazem parte do que a religião entender para a formação de pessoas melhores.
As pessoas poderão viajar em carros voadores ou em mundos virtuais, novos e melhores objetos, mas as religiões ainda pregarão os mesmos valores humanos.

A questão social do aborto

A questão do aborto como muitas outras se insere nesse aspecto de conflito de valores entre religião e sociedade laica.
Por um lado a sociedade civil, recentemente, entende que, de uma forma pragmática, é necessário suportar essa prática como um caso de saúde pública, para preservar a vida das mulheres que decidem abortar. É uma visão muito pragmática mesmo, porque ela se abstêm de avaliar o mérito do ato em si, busca-se mitigar os riscos de ter mais mortes do que necessário de forma que ao legalizar a realização de aborto a sociedade esta buscando minimizar o dano.
Outras pessoas, adicionalmente, entendem que não é somente uma questão de saúde pública e que a decisão de abortar faz parte da liberdade fundamental da mulher e ela tem que ter essa capacidade de decidir sobre si mesma.
A sociedade civil pode, a qualquer momento discutir o mérito desta questão, sob o ponto de vista de direitos individuais, direito à vida ou direito de matar, não importa, a sociedade pode em algum momento querer decidir sobre isso.
Em adição, a iniciativa da sociedade civil deliberar sobre o assunto, as religiões podem, em todo o seu direito, nesse momento, trazer para as pessoas que vão decidir, seus valores sobre o tema. É neste momento que a religião deixa de ser um instrumento pessoal e se torna um instrumento da sociedade e é nesse tipo de caso que os valores adicionais que a religião traz para as pessoas podem conflitar com mudanças na ética que a sociedade civil busca.
É incorreto taxar a religião de reacionária e conservadora. A religião é o que ela é. Seus valores são definidos e sua ética também. A sociedade, ou parte dela, pode querer mudar sua ética, mas a religião não tem compromisso com esse movimento. Não se pode obrigar a religião a se adaptar a sociedade ou a uma parte dela, dessa forma. Valores são valores.
A sociedade laica tem o direito de se manifestar, assim como a sociedade espiritualizada (religiosa) também tem e, as religiões como um todo, tem toda propriedade de influenciarem quem as seguem. Não cabe a sociedade laica se insurgir contra as religiões, cabe a sociedade laica discutir com a sociedade espiritualizada.
Igualmente não se pode criticar que, pessoas que são influenciadas pelos valores das religiões, se manifestem defendendo essa posição para elas e para outras. É assim que a sociedade funciona, os grupos majoritários definem as regras gerais. Não existe ditadura de minorias.
No caso do aborto todos conhecem a posição da religião cristã em geral, que se posiciona contra isso e, com sua influência sobre a sociedade, busca evitar que isso seja uma prática corrente. Como eu defendi, essa á uma prática coerente e moral.
Enquanto zeladora dos valores, ética e moral da sociedade humana como um todo, a religião pode entender que, uma posição flexibilizadora, seja nociva a médio e longo prazo para o conjunto das pessoas e, dessa forma, ela pode se levantar contra um tema social comum, fazendo isso no melhor entendimento do seu papel de fazer homens melhores e uma sociedade melhor para ela mesma.
Mas, a posição mais importante, é o que ela traz para as pessoas que a seguem, isso sim é relevante, a forma como individualmente cada pessoa passa a adotar a visão ética e moral de fazer o aborto.

A teologia e a religião Yorùbá

Dito isso vem a questão: Como a religião Yorùbá se posiciona sobre o assunto? Qual orientação ela traz para as pessoas que a seguem?
Primeiro, isso é importante? - SIM
Como disse na minha longa introdução, esse é o papel da religião, trazer uma visão estendida para a vida e a sociedade, trazer valores perenes e importantes para a pessoa e o relacionamento comunal. Uma pessoa religiosa acredita em sua religião, tem fé no divino e dessa forma busca a orientação para que possa viver em harmonia e com uma vida útil à sociedade.
Discutir temas teológicos nunca foi a prática do Candomblé. Falta conhecimento aos sacerdotes, falta um pouco de formação para isso e, principalmente, falta ,muita prática e habito para eles. A partir da década de 1990, gradualmente a religião por trás do Candomblé passou a se tornar melhor conhecida na sociedade e com isso, esparsamente, alguns temas passaram a ser tratados.
Historicamente observo que a falta de conhecimento da religião nunca foi obstáculo para os sacerdotes se pronunciarem como tais, o que eles faziam e ainda fazem, é, quando não tem o que falar basead em sua religião, emprestam, quando interessa, os valores e ética de outras religiões, assim, o catolicismo e a espiritismo sempre foram fontes para sacerdotes de candomblé, falsamente, se pronunciarem.
Mas isso era sempre de forma conveniente, quando precisam ser iluminados eles recorriam aos valores dessas religiões, quando não interessavam eles inventavam coisas convenientes. Assim, o pecado e o comportamento ético dessas religiões nunca interessou, nesse momento eles não tem pecados, porque esses sacerdotes são acima de tudo vendedores de feitiços e favores.
Essa atitude seletiva e idiota fez surgir, com motivo, a posição de que esta é uma religião sem ética, sem pecado, onde tudo pode. É verdade que esse é o conceito comum, mas não é verdade que a religião seja assim pelo contrário, é uma religião repleta de ética.
A chegada no Brasil de Babalawos não mudou muito esse cenário. Era de se esperar que mudasse uma vez que, Ifá, deveria trazer as bases da religião em seus versos de Odu. Não estou inventando nada, os próprios sacerdotes falavam isso, que a teologia estava em Ifá e na tradição oral.
Ledo engano.
Os Babalawo de origem cubana não tem nenhum conhecimento teológico, são bem piores que os nossos babalorixás, eles fazem um Ifá objetivo, voltado a interpretações pré-estabelecidas e orientado para fazer ebós, oferendas e distribuir assentamentos e iniciações. É uma prática comercial, voltada para resolver problemas, baseada em um culto de Orixá bastante limitado e com uma base de estórias associadas a Odu criadas por eles mesmos (Pataki). Em nada eles refletem a base da religião e dessa forma não contribuíram com nada.
Os Babalawo africanos tem como base os versos de Odu, de fato, e o conhecimento oral-regional da religião, também de fato, que complementa os versos, mas, a qualidade humana que vem para o Brasil é muito ruim. Qualquer pessoa criteriosa pode questionar se são Babalawo de fato e não muçulmanos fingindo ser Babalawo, como já temos aqui desde a década de 90.
Essas pessoas teriam a seu favor o conhecimento base da religião, contudo, aliam, pouca capacidade para isso, nenhum interesse por esses temas, uma fala repleta de dogmas, ganância comercial, mal formação e pouco entendimento do que seja religião. Eles são piores que os cubanos, porque os primeiros são o que são, eles não inventam, eles fazem aqui o que fazem em qualquer lugar. Aos africanos falta honestidade e caráter.
E dai?
E daí que, para tratar desses temas teológicos, a presença de Ifá através de seus Babalawo não adiantou de nada, em nada melhorou o nosso problema anterior.
Ficamos, dessa forma, como já fazíamos antes deles, pesquisadores e antropólogos se debruçam sobre os temas e fazem suas teses. O que mudou para melhor é que a partir do fim da década de 90, junto com os antropólogos, que são por demais acadêmicos e por de menos religiosos, surgem pesquisadores mais ligados a religião que não tem a, teórica, isenção dos antropólogos, mas, trazem os temas com viés religioso. Tivemos e temos excelentes pesquisadores e alguns teólogos que incrivelmente acabaram se convertendo, deixando de lado sua isenção acadêmica.
Hoje em dia estamos muito melhores do que antes. Tem muito mais informação disponível para todos.
É importante, também, separar o conhecimento teológico, que deve ser formado pelos versos, sim, mas, principalmente pelo histórico e tradição oral deste conhecimento dos versos de Ifá são absolutamente situacionais e servem apenas para consultas pessoais.
Ifá não é ou tem uma “bíblia”. Cada Odu diz uma coisa para uma situação. É impossível querer usar as mensagens dos Odu, generalizadamente, como conhecimento absoluto porque para cada caso a indicação pode ser distinta. Odu serve a uma consulta específica, apesar de, é claro, existirem o que eu chamo de versos estruturais, que são os que trazem uma fundamentação teológica.
Não se pode citar o que um Odù diz sobre algo para justificar alguma posição porque Odù não serve como uma bíblia que você pode abrir em qualquer lugar e ler uma passagem com sendo um ensinamento e um posicionamento da religião. Não podemos fazer como na igreja onde é feita uma leitura de um trecho da bíblia e o padre faz sua homilia sobre aquele tema. Versos de Odù não formam uma bíblia, eles não tem essa utilidade.
Os versos de Odù são recomendações para situações diversas, em uma você deve fazer algo em outra não deve fazer. É isso.
Para se aprofundar na teologia Yorùbá, você tem que se interessar pelas obras que pesquisam a religião. São livros sobre Ifá, sobre Orixás, sobre arte, sobre cultos, sobre festivais, sobre história e até sobre a religião em si. No conjunto desse material você coleta as peças que precisa para entender a teologia e cosmogonia.
É dificil? Sim, mas esse é o caminho.
Apesar de eu ter dito que a re-introdução de Ifá no Brasil não melhorou muito a religião, é inegável que a presença de Ifá no Brasil trouxe um contexto adicional à religião, trouxe mais conteúdo. Acima de tudo, trouxe um conteúdo formal que os Babalorixás não se preocupavam em ter e, a unificação do conhecimento comum de Ifá através dos Babalawo, limitou bastante o festival de besteiras que os Babalorixás falavam.
Creio que o espalhamento de Ifá valorizou o conhecimento formal dos nossos próprios pesquisadores. De certa forma acabou com a autonomia dos Babalorixá que saiam falando o que queiram sem ter ninguém para contestar.
É nesse contexto que eu trago aqui o tema do aborto. O que essa religião transmite sobre isso, que orientação ela dá as pessoas, que conforto pessoal ela pode oferecer parta quem faceia uma decisão a ser tomada?

A religião Yorùbá e o aborto

Inicio dizendo que o que vou escrever trata-se de resultado de análise minha. O tema aborto provocado não faz parte de nenhuma história, não pude encontrar na religião Yorùbá, seja em versos de Odu, seja em mitos orais como em análises de pesquisadores, qualquer tipo de referência a prática de aborto ou similar que pudesse ser usada em uma correlação direta.
O tema aborto provocado, não aparece em nenhuma referência, boa ou ruim, que possa ser usada para explicar como a religião lida com isso.
Isso me parece natural, duvido que os católicos encontrem qualquer referência direta a isso, de forma que a posição da igreja é resultado de análise ou interpretação teológica.
Assim, o que vou traduzir aqui é o meu entendimento dos valores da religião sobre esse assunto.
A minha análise que mostra uma visão tolerante, por parte da religião, já me deu bastante trabalho porque não é normal ninguém aceitar uma posição diferente da religião cristã.
O que todos precisam saber é que o aborto não é desconhecido da religião Yorùbá, pelo contrário ele é bem citado.
Abortos ocorrem por causas naturais, doenças, mal formações e deficiências. A primeira informação importante é que não existe garantia de que a vida no Aiye ( o mundo natural) seja imune a acidentes, incidentes, doenças e outros males.
Os Ajogun são os as divindades negativas que existem no mundo, são os espíritos que causam a morte, a doença, a paralisia, a perda, a fome e outras coisas. Na cosmogonia Yorùbá os Ajogun ficam à esquerda e são entidades do mal apenas.
Observe que não existe na religião Yorùbá o conceito do diabo, de lúcifer, isso é uma criação cristã, não um existe uma divindade que faz oposição a deus, Olodumare, ele é absoluto e tudo é sua criação.
Dessa maneira a vida no Aiye (no mundo físico, mundo natural), está sujeita a “chuvas e tempestades”, não existe na religião nenhuma garantia que teremos o paraíso na nossa vida na terra e muito menos que existe um ser causador do mal em oposição a deus.
O mal existe no mundo de forma geral, existe desde que foi criado. Não existe nesta religião o enorme conflito teológico entre o bem e o mal, com deus representando o bem e o mal a oposição a ele. O mal existe em diversas formas naturais e supernaturais.
Não temos também grupos especialmente escolhidos, Olodumare é o deus de tudo, da humanidade, dos animais e plantas, tudo é criação dele e é ele que mantêm tudo funcionando.
O que Deus faz é dar proteção e correção aos problemas e danos que a humanidade pode sofrer através do mal, criando para nós a proteção dos Orixá, de Egungun e o Oráculo de Ifá para ajudar em nossa vida.
A vida, acima de tudo, é uma aventura imperfeita e que pode ser vivida mais de uma vez. Ela é cheia de emoções, alegrias, decepções, sabores e prazeres, contudo, sujeita a riscos contínuos.
A religião é reencarnacionista, vivemos mais de uma vez, o problema em uma vida é compensado por uma nova vinda ao Aiye, não existe a preocupação, na visão desta religião, que cerca uma vida única. Esse ponto é importante e vou voltar nele mais à frente.
Não existe também na religião a garantia de que vamos nascer em corpos perfeitos e saudáveis, pelo contrário, existe uma explicação teológica e tolerância divina para que nem sempre os nascimentos sejam perfeitos, o corpo é resultado de um processo de criação sujeito a falhas probabilísticas (aleatórias), causadas pelas divindades criadoras.
O processo de ganhar um corpo é sujeito a falhas que podem dificultar nossa vida em diversos aspectos. Alguns deles a religião ajuda a corrigir, em outros não.
Estes dos conceitos são importantes, não existe para ninguém a imunidade a problemas físicos e também ao mal.
Ao lado das causas naturais existem também as causas supernaturais, geradas em sua maioria pelas Ajé e em menor parte pelos espíritos Abikú. Ajé e Abikú representam as causas supernaturais mais comuns de abortos e, apesar de trazerem o mal e o infortúnio, também são criações de Olodumare, deus e não existe nenhum tipo de preocupação de Olodumare em cessar sua existência.
Abiku – aquele que nasce para morrer - são um tipo de espírito que faz parte do grupo maior chamado Egbe Orun (a irmandade do Orun). Esses espíritos infantis são um objeto muito interessante de estudo, muito mais do que hoje é feito. Esses espíritos infantis vivem em um espaço entre o Orun (o espaço divino) e o Aiye ( espaço terrestre, onde vivemos), uma floresta divina junto com outros espíritos infantis formando uma comunidade unida mas desgarrada das linhagens familiares.
Por mecanismos pouco claros (indefinidos na religião) esses espíritos escolhem encarnar, viver no Aiye e, dessa forma, nascem, mas, trazem consigo vários problemas omo desajustes e distrações. O mais sério deles é o espírito Abikú, a criança de nasce para morrer logo a seguir, trazendo, dessa maneira, infelicidade para a família onde eles escolheram nascer.
O carrego de Abikú, como dito no Candomblé, esta associado a mãe e traz muita tristeza e sofrimento. O Abiku pode morrer na gestação, pode morrer no parto ou pode morrer ainda criança (doença ou acidente), somente através de Ifá (possivelmente através do merindinlogun também) pode se determinar essa ocorrência e, em função disso, tentar trabalhar para que isso não ocorra e evitar que a criança morra.
Outros casos de Egbe Orun não estão associados a Abikú, mas, as crianças que nascem desajustadas a vida no Aiye e, devido a isso, enfrentarão dificuldades para levar a vida no Aiye de forma normal. Esses casos são os mais interessantes visto que são os mais numerosos e isso se refletirá cronicamente na vida adulta dessas pessoas.
Desta forma, Abikú é responsável por abortos, mas não é sua única forma de agir. Além disso, não é o maior responsável por problemas na gravidez. Primeiro vem as causas naturais e depois vem Ajé.
Infelizmente, no Candomblé, criou-se o mito que Abikú seria o maior responsável por mortes de criança e abortos. Não é verdade, isso foi falta de real conhecimento da religião.
Ajé, é a denominação de um espírito que é traduzido como bruxas ou feiticeiras. Outros nomes são empregados como Iyami Osoronga ou Odu, mítica esposa de Orunmila.
Ajé sempre está encolerizada com a humanidade e é um espírito relativamente maligno, apesar de ser entendido com um espírito neutro, que pode fazer o mal ou o bem. Este espírito é o maior responsável pelos diversos problemas e males que afligem as pessoas.
Quem é de Candomblé já deve ter ouvido falar de Ajé ou de Iyami Osorongá. O melhor material e mais completo sobre esses espíritos é do Pierre Verger, existem outras fontes que o complementam, mas foi Pierre Verger que elaborou o melhor e, apesar de ser antigo, nada surgiu de melhor depois.
Eu não discorrerei sobre Ajé aqui, não é a finalidade deste texto. O importante é que entendam que, existe um espírito maligno chamado Ajé e que é responsável diretamente pela maior parte dos problemas de aborto natural que as mulheres sofrem.
No Candomblé no passado e ainda hoje, existe uma excessiva associação de abortos e mortes a Abikú, mas, isso não é correto. Ajé é quem deve ser responsabilizada, contudo a figura de Ajé é principalmente citada, mas não totalmente conhecida pelo Candomblé. O Candomblé tem um problema que é conhecer de maneira geral quase todos os espíritos da religião, mas, não ter formula ou liturgia para neutralizar os problemas que eles causam.
Não posso deixar de comentar que existem alguns idiotas brasileiros ou africanos que enganam pessoas vendendo iniciações e assentamentos de Ajé, passando a mensagem de que são senhoras velhas e respeitáveis. Essas pessoas são levianas.
Dessa maneira, minha informação para vocês é que esses espíritos, Ajé e Abiku, são responsabilizados na religião pela morte de fetos e crianças recém-nascidas. São causas supernaturais de problemas naturais.
Mas, atenção, como já disse, o aborto natural não deve ser unicamente atribuído a esses espíritos e muito menos, a religião Yorùbá, associa qualquer fenômeno no mundo natural a interseção de um espírito (como pode ocorrer em cultos lúdicos).
Ajé é considerada um espírito neutro, que pode fazer o bem ou o mal, apesar de estar sempre encolerizada contra a humanidade Ajé é uma forma neutra. Os Abikú não são um espírito negativo como os Ajogun, mas podem trazer a dor e o infortúnio para mulheres e famílias.
Finalizo aqui com esse resumo:
  • O aborto natural ocorre e é causado por doenças ou deficiências físicas inerentes à pessoa. Isso é normal, não existe garantia que tudo seja perfeito na vida no aiye e nem nos corpos que temos.
  • As Ajé são as responsáveis pela maior parte das causas supernaturais de abortos.
  • Os Abikú também são responsáveis em bem menor número pelos abortos.
  • Os Ajugun também são responsáveis por problemas.
Todos esses espíritos, neutros ou do mal são criações de Olodumare, deus, que os tolera como parte do Aiye. Dessa forma a morte por aborto não é um tema desconhecido da religião.

O nascimento do indivíduo

Existe um ponto importante para ser discutido que é o momento em que o indivíduo nasce. De acordo com os valores e o entendimento cristão, que domina a sociedade, a partir do momento em que existe a concepção o novo indivíduo nasce e fica no ventre da mãe. 
Nesse entendimento o novo nascido fica 9 meses dentro daquela barriga, até nascer.
Não vejo esse como o entendimento da religião Yorùbá para esse processo.

Esse é um dos pontos que a religião conflita com a ciência e com outras religiões e tenho certeza que é o ponto mais polêmico da minha análise.

Lembro que a religião sempre oferece um entendimento alternativo ou complementar a ciência e nem sempre conflita com esta, é apenas uma outra visão, a do processo supernatural.

Indo direto ao ponto do meu entendimento, baseado em fontes esparsas (que não consigo compilar agora para citar sem transformar esse texto em um longo e monótono texto) e tradição oral (conversa com outras pessoas sobre esse tema) é que o espírito que vai nascer não passa toda a gestação dentro do corpo da mulher, o novo espírito vai para la antes de nascer.

O mito da criação do homem por Oxala, diz que a missão de criar os corpos humanos foi dada por Olodumare a Oxala e que este é quem molda o corpo humano a partir do barro fundamental. Esse é um processo que toma um tempo assim como toma tempo a gestação. Esse processo de criação pode ter falhas, é reconhecido no mito que Oxalá comete erros na criação do corpo humano e quem nasce com defeitos físicos passa a ser diretamente  protegido por ele. Os mitos não deixam dúvida que pertence a Oxalá a tarefa de elaborar o corpo.

Posteriormente, através da interferência da própria pessoa que vai nascer naquele corpo, junto a uma outra divindade chamada Ajalá, ele obtêm a sua “cabeça”, chamada de Ori inu, ou cabeça interior, cujo conceito é muito mais do que apenas uma cabeça.

Existe, na religião, a diferenciação da cabeça interior, Ori inu, da cabeça exterior, Ori ode e do corpo, chamado de Ori apere, ou sustentáculo do Ori. À cabeça é dada a maior importância no indivíduo, é a sua parte mais alta, mais próxima do Orun.

Orí é um conceito amplo e vamos ter que restringir sua abordagem aqui neste texto. Entendam que o Orí inu, a cabeça, traz o indivíduo em sí, traz as ferramentas que essa pessoa recebe de Olodumare para ter sucesso na vida que pediu a ele e traz também a ligação com seu Orixá e com sua linhagem (através do Apori). Ori Inu une o contexto passado com o futuro.

Esta área, Ori e destino, é bem complexa e, até mesmo, confusa da teologia, mas, sem complicar, posso citar que existem mitos que explicam que as pessoas antes nasciam sem cabeça e depois ganharam a cabeça, que nasciam sem face (todas iguais) e depois ganharam a face, tudo isso gradativamente através da intersecção de diversas divindades, explicando assim, através dessas metáforas, a evolução e os vínculos das pessoas com essas divindades.

Após a escolha do Orí inu, é uma missão muito importante e deve contar com a ajuda de outros parentes no Orun (mundo espiritual). Na verdade existe pela religião, solidamente documentado em Ifá em na tradição oral, um importante processo litúrgico que deve ser feito no Orun pela pessoa que vai nascer novamente. Esse processo é para garantir o seu sucesso na vida.

A pessoa antes de nascer vai a Olodumare, deus, para combinar com ele os seus objetivos nessa vida, nesta encarnação. É deus que concorda com seus objetivos e pode adicionar mais alguns (existem 3 tipos de objetivos, ou destinos, que a pessoa recebe), dando a pessoa os instrumentos divinos para realizar o que ela se propôs.

Por fim, está muito bem documentado em um mito, que é Olodumare o único que pode dar a vida a uma pessoa. Depois que Oxalá criou o corpo e ele já está com o Orí inu, a cabeça, que foi obtida junto a Ajalá,  é Olodumare quem dá o sopro divino, o Emi, que é nossa respiração e vida e, com isso, nos dá o seu axé,  a centelha divina que somente Olodumare pode dar e que cada um ser vivo tem.

Não posso deixar de mencionar que existe ainda uma jornada entre o Orun e o Aiye que é feita por quem vai nascer e que a última etapa é passar pelo portão do Orun, momento em que somos interpelados por uma divindade chamada Onibode, o porteiro do Orun e do Aiye. Nesse momento nós falamos com Onibode como será nossa vida e quando vamos retornar naturalmente ao Orun (quando morreremos).

Sem poder aqui explorar esse conjunto muito interessante de mitos que explicam de forma bastante harmônica e suave a integração da visão supernatural com a própria visão natural (real) da vida, eu tenho que destacar que:

    • É claro o trabalho independente de Oxalá na criação do corpo.

    • É cristalino que a cabeça, Ori Inu, é uma parte importante do processo pré-natal no Orun e é escolhida em separado do corpo.

    • Que existe uma jornada entre o Orun e o aiye.

    • Somente olodumare nos dá a vida, através do seu sopro.

Dessa maneira, prestem atenção na minha interpretação e afirmações:

    • A formação do corpo é um processo separado e sujeito a falhas, mas o copo é um receptáculo vazio sem o Ori inu (cabeça interior) e sem o Emi, o sopro de vida de Olodumare.

    • A cabeça interior (a que contêm de fato a essência do indivíduo) é escolhida à parte da criação do corpo físico e é um, processo separado e especial.

    • O processo de escolha dos objetivos de vida (destino) e da sua capacidade para isso é separado do processo de criar o corpo, na verdade não tem nenhuma relação.

    • O indivíduo somente nasce de fato quando recebe o Emi de Olodumare, o sopro da vida.

O corpo que está sendo gerido vagarosamente ao longo dos 9 meses é apenas um corpo mesmo. Enquanto gerido no útero não existe individualidade o corpo vai sendo construído por Oxala e na verdade é parte do corpo da mãe.

No fim do processo, com o corpo formado, o indivíduo entra no corpo formado (fim da jornada) trazendo a sua essência (Ori inu). Quando ele nasce, recebe o sopro da vida de olodumare e ai passa a ser um indivíduo independente.

Desta forma, de acordo com essa visão abortar um corpo não formado e não nascido, no início de gravidez afeta apenas a mãe, não existe indivíduo e nem vida autônoma.Quando o recém-nascido respira pela primeira vez, ele se transforma no indivíduo independente do corpo da mãe.

A ligação do aborto provocado com Abikú



Reforçando essa posição de que o ato do aborto afeta apenas a mãe, é uma tradição oral no Candomblé, associar casos de abortos posteriores como tendo origem em um aborto inicial, assim uma mãe que aborta pode trazer para si o que se chama de carrego de Abikú e passa a ser assombrada por esses espíritos.

Apesar de eu afirmar, baseado em pesquisas,  que a maior parte dos problemas de aborto é provocada por ajé e não por Abikú, sem dúvida a ocorrência de uma aborto pode trazer para a mulher o carrego de Abikú.

Repito, nem tudo que é dito ser Abikú é Abikú, mas eles de fato ocorrem e de fato podem estar associados a esse tipo de ato.

Isso reforça, como eu disse, a afirmação anterior de que fazer o aborto é uma questão da mãe e que ela não matará ninguém, ela impede que alguém que nasceria, nasça desta vez, é um ato dela assim como as consequências são dela e não de quem ia nascer.

Não estou afirmando que esse carrego de abikú ocorra sempre, mas pode sim ocorrer. Quando isso ocorre existem instrumentos na religião para se lidar com isso.

Neste ponto cabe uma diferenciação importante entre a religião Yorùbá e a religião cristã.A religião cristã é baseada em uma dicotomia que divide o mundo entre o bem e o mal. As coisas são governadas por deus ou pelo diabo. Com este conceito infantil de mundo e religião, os europeus, conquistaram os povos e os converteram ao seu pensamento.

Para a religião Yorùbá as coisas não são boas ou más. Tudo é relativamente positivo ou negativo, dependendo da situação e posição de cada pessoa.

Dessa forma, matar não é necessariamente ruim, depende da situação. Assim tudo é relativo. Por essa razão não existe o sentido de pecado, mas existem leis. Isso não torna a religião simples, pelo contrário, existem centenas delas de leis e regras que podem ser diferentes para cada pessoa, lugar ou coisa.

Entretanto, cada pessoa, lugar ou atividade, seja natural ou supernatural é objeto de suas próprias leis e sua violação trará calamidade e infelicidade.

Esse conceito vasto e complexo foi resumido pelos europeus de uma forma muito simples, eles dizem que tudo é superstição. Para os Yorùbá é parte de sua complexa religião que é voltada para os seres humanos.

Desta maneira a gravidade ou não do ato de abortar, em relação às consequências, dependerá das razões e situação e não do ato em si. A mulher poderá não ter nenhuma consequência com sua decisão ou poderá arrastar para só o carrego de abikú, tudo depende da situação e motivação, ou seja o contexto.

Dessa forma o ato de fazer o aborto não significa para a religião Yorùbá um “pecado”, não é uma religião feita de verdades absolutas e de pecados absolutos. É uma religião feita de certos e errados, de muitas proibições e de uma avaliação que leva em consideração o contexto de uma vida e não de um momento. Na verdade como eu disse, ela é bem mais complexa e longe dessa abordagem infantil de pecado, deus e diabo que as religiões cristãs têm. 
 Voltando ao tema, não é entendido que você está matando alguém. A vida é um ciclo contínuo, é entendido que você está interrompendo um ciclo, o destino de alguém. A gravidade do ato está na interrupção do destino, é isso que pesará e não vai condenar ninguém ao inferno (como eu falei, uma pessoa não é julgada por um momento e sim por toda uma vida).

Repetindo, o que poderá trazer são consequências ruins para eventos futuros da vida da pessoa que elá terá de encarar nessa vida. Não existe nesta religião o entendimento de atos que vão repercutir por todo o sempre e em próximas vidas, essa visão sombria dos kardecistas não está presenta aqui.

O que fazer? Simples, faça o que é certo pelos motivos certos. A religião Yorùbá não condena isso apenas por condenar, apenas pelo ato. Você não está matando ninguém, se é o que lhe preocupa, mas fará algo diferente que é cortar o destino de alguém que ia nascer ou mesmo o seu.

O ato de prejudicar o destino de alguém, incluindo o seu próprio é muito mais sério para a religião Yorùbá do que o de matar por si só.

A benção de filhos



A primeira coisa que qualquer babalawo poderá dizer sobre o tema do aborto na religião é que para essa religião, filhos são uma benção. 

Sim, isso mesmo, filhos são considerados uma benção divina. Um dos maiores motivos que leva mulheres a Ifá é a fertilidade, ter filhos.

Como citei, não encontramos na religião, citações diretas ao aborto provocado, mas, sabemos que filhos são valorizados demais. Esta é uma contribuição inegável de Ifá a esta discussão visto que este tipo de entendimento veio com Ifá não fazia parte do conhecimento do Candomblé.

Os filhos são uma benção equivalente a ter casa, mulher, dinheiro, saúde. Mas, porque ter filhos é assim tão especial na religião?

Trata-se de 2 coisas, uma questão teológica e outra cultural.

No aspecto cultural temos que lembrar que essa religião tem origem em um povo rural, fazendeiros. Em sociedades rurais ter filhos era importante para poder tocar o negócio da família ou a própria subsistência. Além disso os filhos é quem garantiam o suporte aos pais quando esse envelheciam. Dessa forma filhos são sempre uma benção nesse tipo de sociedade.

Pelo lado teológico, é uma religião re-encarnacionista e que acredita que a família permanece unida, seja no Orun como no Aiye e, assim, as pessoas re-encarnam, voltam ao Aiye para uma nova vida, através dos seus próprios descendentes. Se uma pessoa morre poderá voltar em gerações seguintes em seus tataranetos.

Com esta filosofia é muito importante que você tenha filhos, vários, para que possa mais tarde voltar a viver no Aiye.

Esse aspecto deve ser levado em conta antes de decidir pelo ato de abortar.

A visão da vida como um ciclo



Também de acordo com essa filosofia a vida é algo passageiro e um ciclo que se renova e se repete, uma vida que não deu certo será substituída por outra vida. Não existe na visão desta religião do fatalismo  espírita de que encarnamos para evoluir, para sofrer e tal.Olha, não existe essa de religião certa, ninguém sabe, cada religião é, na verdade, uma proposta de ver a vida e adicionalmente, as mais profundas e especiais trazem conhecimento de como se comunicar com o divino e usar o supernatural para te ajudar na vida. Cada pessoa deve escolher com qual visão de vida se enquadra melhor, ou seja, com qual visão metafórica ele pretende viver. Isso é o básico da religião.

Estará mais certo aquele que se sentir de fato conectado com o divino, assistido e respondido em suas dúvidas, anseios e ajudas. No caso da religião Yorùbá com o Candomblé e com Ifa eu posso dar meu testemunho pessoal de estar 100% atendido. Tenho retorno do divino, tenho resposta e contato. O divino, deus, não é alguém distante que responde com silêncio às minhas preces, ele responde com resultado e ações à minha Fé.

Não tenho dessa maneira como dizer que esta religião está errada, pelo contrário, minha fé e o retorno que tenho dela me fazem dizer que esta religião está certa. Se ela é uma religião verdadeira que não engana minha fé com silêncio e crença no inatingível e a perspectiva de que só vou ser feliz depois que morrer, então tenho que dar continuidade a minha fé e crer nos dogmas e teologias, mas, principalmente da esperança de vida que ela me dá.

Nesse sentido sou sim compelido a acreditar que vivemos porque gostamos de viver, vivemos porque a vida é uma aventura, uma experiência gratificando de emoções, prazeres, realizações e sabores. Acredito que vivemos e voltamos a viver porque queremos estar aqui, no Aiye, com nossa família.

Ao seguir esta fé nesse modelo, a gente entende que a vida é importante as se renova e que morrer é esperar um novo ciclo.

A morte, Ikú, é uma divindade masculina, criação de Olodumare e presente em vários mitos e versos de Odù. Existem muitas histórias importantes com Ikú, a que gosto mais é que diz que quando Olodumare deu a Oxala a missão de criar a humanidade, as pessoas, Oxala precisou de barro para fazer o corpo das pessoas. Ele foi pegar o barro para fazer os corpos mas o barro chorava muito quando ela pegava um pouco do barro para moldar os corpos e Oxala ficava com pena, não conseguindo pegar o barro. Outros Orixá tentaram ajudar Oxala e não conseguiram também, somente Ikú foi quem teve coragem de pegar barro para Oxala, não ouvindo as lamentações do barro, mas Ikú ficou encarregado de devolver ao barro a porção que ele retirava para fazer os corpos. Essa é a razão pela qual é a morte que leva a vida das pessoas e devolve para o barro e também a razão pela qual os mortos yorùbá devem ser enterrados.

Dessa maneira morrer não é um mal, as pessoas morrem por muitos motivos. Nos versos existem mortes como punição por males e erros. A morte não é uma exceção, é, na verdade, alguma coisa muito natural. Lembro que existiam sacrifícios humanos, eram raros e especiais, mas, haviam e eles acabaram com a colonização européia

Igualmente quando nasciam gêmeos, isso era considerado de mal agouro e os gêmeos eram mortos pelos pais. Esse costume de matar os gêmeos também se prolongou por longa data, encerrando somente devido a pressão da colonização.

Isso tudo tem a finalidade de concluir que a forma como essa religião vê a morte é muito distinta da forma como outras religiões a veem. 

Conclusão



Não existe referência direta ao aborto provocado na religião Yorùbá, mas, o aborto natural é largamente entendido e tem causas naturais ou supernaturais bem exploradas.

Não existe um dogma que determine ser certo ou errado o ato de abortar. Ser certo ou errado dependerá das circunstâncias e motivos, mas, existem consequências para um ato errado que, contudo, podem ser amenizadas ou resolvidas através da religião.

Realizar o aborto não implica em matar uma pessoa, uma pessoa é um indivíduo depois que ele respira por sua própria conta. O corpo é um receptáculo em formação e pertence ao corpo da mulher enquanto sendo formado. 

O ato do aborto não condena a vida de ninguém, mas pode trazer complicações que se refletirão em momentos futuros.

domingo, julho 30, 2017

A REAFRICANIZAÇÃO NO CANDOMBLÉ

A REAFRICANIZAÇÃO NO CANDOMBLÉ




Com o passar do tempo nós acumulamos história e eventos. Para falar de reafricanização do Candomblé temos que falar sobre 2 momentos distintos da história, um que ocorreu na década de 90 e outro que está ocorrendo agora.

O Candomblé, é muito completo em relação a refletir em sua liturgia e culto a teogonia e cosmogonia Yorùbá. O conhecimento teologicamente “puro e erudito” pode não sair fluentemente das pessoas, mas, a prática está alinhada e harmonizada com o núcleo teológico da religião. Por mais que tenhamos acesso à informação de qualidade, nenhuma motivação surge para mudarmos nossa prática litúrgica.

O conhecimento teológico no Candomblé existe seja por suas raízes ou pelo processo cultural iniciado na década de 80 que corrigiu, complementou ou preencheu vazios que haviam. As novas informações foram importantes e ainda estão sendo, mas efetivamente não mudaram nada que o Candomblé fazia, apenas enriqueceram o culto e o entendimento da religião e sobre Orixá (Òrìṣà).

O fenômeno social do contato das pessoas do Candomblé com novas fontes de informações, trouxe também uma reafricanização do culto e fortemente a sua desincretização. O contato do Candomblé com os nigerianos, na década de 70 e 80 e principalmente com os livros de antropólogos e pesquisadores, trouxe um definitivo e inevitável afastamento do sincretismo e também o resgate de alguns conceitos teológicos que haviam sido deixados de lado, esquecidos ou ficado sem ênfase.

Muitos podem reagir ao processo de reafricanização que introduziu elementos que haviam sido desconectados, mas, sem dúvida, o processo de desincretização era mais do que urgente.

A reafricanização não foi nada revolucionário, ela resgatou no Candomblé algumas características originais da religião, principalmente conhecimentos, entendimentos e explicações que foram sendo esquecidas ou relaxadas ao longo do tempo em função com processo ruim de transmissão.

Esse primeiro ciclo de reafricanização, motivado por nós mesmos, não teve como alvo a liturgia e a prática, teve como alvo o conhecimento.

Eu tenho certas restrições ao uso generalizado do termo reafricanização porque tem sido empregado de duas maneiras. A primeira é essa que eu citei, quando melhora e revigora o Candomblé, mas de forma discreta. A segunda é quando se usa isso como se fosse necessário mudar o Candomblé para um formato mais africano como se a prática da religião tradicional lá fosse o certo ou maravilhosa. Não é nada disso.

Um exemplo dessa africanização positiva foi a posição de Olódùmarè, o deus supremo, dentro da religião. O nosso culto de orixá (òrìṣà) tinha, e ainda tem, uma teogonia muito orixalizada. A teogonia original Yorùbá foi simplificada e divindades originais foram aqui, no Candomblé, substituídas por Orixá (òrìṣà). Tudo no culto era orixá (òrìṣà). Isso não alterou a religião, apenas simplificou o entendimento e mudou o sujeito de algumas ações e mitos.

A figura de Olódùmarè aqui, no Brasil, era substituída por Oxalá (òṣàlá). Oxalá (òṣàlá) é também, na religião Yorùbá, orixá nla (òrìṣà nla) a divindade maior na área de Ìfẹ̀. Essa ênfase em Oxalá (òṣàlá) não é nada absurdo. Aqui, também, yemoja (yemjá) acabou ganhando um papel mais relevante fazendo um par com Oxalá (òṣàlá), par esse que não existe na religião Yorùbá.

No candomblé Oxalá (òṣàlá) e yemoja (yemjá) acabaram recebendo o simbolismo de pai e mãe de todos, com Oxalá (òṣàlá) no papel da divindade máxima e yemoja (yemjá) o de mãe “das cabeças”.

Esses papéis são somente aqui. Sem dúvida Oxalá (òṣàlá) tem uma representatividade grande no seu papel de Orixá nla ( Òrìṣà nla), mas, é Olódùmarè quem é a divindade máxima. Já o papel de yemoja (yemjá), complementa o de Ori, real divindade que cuida da cabeça das pessoas.

Curiosamente no Candomblé a divindade ORÍ é conhecida e tem seu papel conhecido e reconhecido, esse posicionamento de yemoja (yemjá) é uma jabuticaba do Candomblé. Só aqui existe esta nomeação de yemoja (yemjá) como Iya Ori, mãe das cabeças. Isso não existe de fato. Inclusive, o “casal” Oxalá (òṣàlá) e yemoja (yemjá) é uma criação de pindorama mesmo, provavelmente refletindo ou sincretizando o modelo jeje de família e o casal maior.

Foi o jeje que trouxe para o Candomblé Yorùbá (ketu, efon, ijexá e outros) o modelo de cultuar em um mesmo terreiro todos os orixá (òrìṣà) e também de relacionar entre si os orixá (òrìṣà) como uma família, uma família com orixá (òrìṣà) pai e filhos. Esse modelo familiar não é o modelo Yorùbá de orixá (òrìṣà), mas é o modelo Jeje de Vodum que sem dúvida alguma foi absorvido pelo Candomblé Yorùbá.

Muitos podem não entender essa minha afirmação, sei que é um pouco avançada para entender. Dentro do Candomblé houve vários sincretismos entre as nações. O culto Yorùbá evoluiu no seu formato brasileiro absorvendo coisas do modelo de referência Jeje, principalmente ligadas as casas com espaço comum a muitos Orixá (Òrìṣà), o que não é uma coisa do modelo Yorùbá. O mesmo ocorreu com o grupo Jeje que foi influenciado por novos Orixá (Òrìṣà) e por liturgias.

O modelo de culto Yorùbá é bem regionalizado e especializado, na Nigéria e no Benim, poucas são as divindades e orixás cultuados em todas as regiões. Casas e sacerdotes se especializam em determinado Orixá (Òrìṣà), bem omo regiões inteiras são dedicadas a um Orixá (Òrìṣà).

No Brasil esse modelo era impossível, as casas tiveram que assumir outro formato no qual a quantidade e qualidade de Orixá (Òrìṣà) foi pré-definida e integrados sob o mesmo telhado.

Repito esse modelo “familiar” de divindades com relações de casal e filiações é um modelo Jeje, totalmente característico dos Voduns que se agrupam em Clãs. O modelo Yorùbá não tem esse formato e integração e sem dúvida a experiência Jeje com isso foi a nossa referência.

O papel de yemoja (yemjá) também foi bastante inflado no Candomblé, ela é um orixá (òrìṣà) importante em algumas regiões, como obeokuta, mas é Óxun (Ọ̀ṣun) o orixá (òrìṣà) feminino mais relevante e presente largamente nos versos de Ifá. O papel de mãe de todas as cabeças é uma jabuticaba do Candomblé, não existe de fato essa referência teológica.

O Candomblé orixalizou a teogonia e várias divindades conhecidas na teologia como irunmoles, como por exemplo Ajalá, eram conhecidas das pessoas, comentadas ou lembradas, mas, na prática, mesmo, substituídas por algum orixá (òrìṣà). Isso não é um problema, mas com a introdução de novos conhecimentos e fontes ocorreu o resgate de alguns conceitos teológicos e teogonia originais e, também, o afastamento de desvios sem razão, o pior deles o sincretismo católico.

Essa africanização ou reafricanização é nesse sentido. Pessoas mais antigas ainda ressentem com essa questão de Olódùmarè, por exemplo, aprenderam um candomblé sem ele. Esse foi um ciclo de africanização positivo, feito em vista da presença de informação nova e melhor.

Hoje em dia existe um novo ciclo de africanização que está sendo forçadamente induzido não pela presença de informação de qualidade, pelo contrário, na presença de informação baixa qualidade através das tradições estrangeiras que aportaram aqui por refugiados sociais.

Esse é o termo, refugiados sociais, pessoas estrangeiras que não tiveram sucesso em suas terras, seus países, saem dos países de nascença para fazer a vida em outro pais. Isso é um refugiado social. Nesse caso eles trazem sua profissão, pai-de-santo. São cubanos, Nigerianos e Beninenses, não importa, refugiados sociais, se fossem bons no que faziam e prósperos na sua terra teriam ficado la.

Essas pessoas em um processo mundial de migrações foram principalmente para países ricos, é claro, se são refugiados sociais têm que buscar onde existe dinheiro, senão ficam como já estavam. Não tenho dúvida que os melhores e mais espertos foram para esses países. Os menos afortunados se dirigiram a países mais pobre mundialmente, o nosso por exemplo, dessa forma, justamente podemos questionar a qualidade do que estamos recebendo, é o que sobrou.

Os refugiados trouxeram suas tradições religiosas e se estabeleceram aqui para fazer o que sabem, ganhar dinheiro com a prática da religião. Isso já os coloca em um patamar muito claro, não são pessoas integradas na sociedade e que se interessaram e passaram a se dedicar a uma religião, promovendo os valores que a religião se propõe a transmitir para as pessoas. Isso pode não ser claro para muitos que se confundiram, mas eu compreendo exatamente o que uma religião deve fazer para as pessoas e para a sociedade, uma religião não é uma atividade profissional comum feita para remunerar sacerdotes, existem coisas que vem antes disso.

A posição desses refugiados sociais na nossa sociedade é bem clara, eles estão aqui para ganhar dinheiro com o que sabem fazer, serem sacerdotes. Essas pessoas trouxeram para cá as tradições religiosas da sociedade deles, tradições que foram moldadas para a sociedades que as geraram e que eles pertenciam.

Sejam os cubanos do Ifá e do Lukumi ou sejam os Nigerianos e Benienses de Ifá e da YTR caem aqui, com mala e cuia, e tem que estabelecer a sua tradição como eles faziam, do jeito que eles conhecem. Para que isso funcione a maior parte deles, senão todos tem que se contrapor às nossas tradições religiosas, ao Candomblé, trazendo críticas e novidades que eles julgam serem as certas e melhores.

Esses refugiados sociais se unem aqui a outros refugiados, ou melhor expropriados, aquelas pessoas que tentaram de alguma forma entrar nas tradições brasileiras e que devido a dificuldades diversas como desde se deparar com “marmoteiros” até mesmo não se enquadrar nos formatos e regras rígidas e opressoras que nossas tradições ainda tem, elas não conseguiram se estabelecer.

É o encontro ideal, de um lado os que precisam se estabelecer e de outro os que querem ser abduzidos. Assim nascem as tradições religiosas estrangeiras em nossa terra, unindo pessoas que querem estar na religião e sempre estarem certas ou confortáveis e mais principalmente o grupo que precisa comprar títulos para se estabelecerem.

Ifá tem sido muito profícuo para este último grupo. Cubanos e africanos fazem qualquer coisa por dinheiro e em Ifá os trabalhos e obrigações são rápidos e simples. Uma enorme legião de pessoas que não se submeteu as regras e disciplinas das tradições religiosas que exigem anos de dedicação, mas que vivem na periferia dessas religiões fingindo ser o que não são, encontram fácil em Ifá gente que pagando o transformam em qualquer coisa. Isso é a união da falta de escrúpulos de ambos os lados.

Antes de eu abordar essa segunda onda de africanização, não posso de forma alguma deixar de caracterizar os componentes do grupo social que vem querendo patrocinar essa africanização.

Como eu disse esse conjunto de pessoas reúne o pior de dois mundos, a baixa qualidade e falta de escrúpulo do lado estrangeiro, refugiados sociais em busca de fazer a vida aqui e de outro os preguiçosos e despreparados.

Eu não consigo ver razões para os nativos aqui não terem conseguido se encontrar ou encaixar em nenhuma tradição religiosa ou casa de Orixá (Òrìṣà). Temos várias tradições e milhares de casas. A seleção de um lugar para você ficar passa pelo mesmo critério que você escolhe tudo na sua vida, muita atenção, observação e bom senso. Acredito mesmo que uma pequena minoria pode ter se dado mal por engano, a maioria coleciona experiências negativas porque as procura com bastante energia.

O grupo dos despreparados é que mais me aborrece. Gente que nunca se dedicou a nada, nunca entendeu a religião, que não aprendeu o mistério e, de uma hora para outra, vira especialista em nada. Eles aprendem o pouco que esses estrangeiros ensinam e saem falando como se fossem especialistas em alguma coisa.

O grupo ligado aos cubanos é delirante, eles passam a repetir as maluquices e invencionices dos cubanos como se aquilo fosse alguma coisa relevante. Os cubanos foram os mestres em inventar coisas na religião se afastando muito da religião original, eles inventaram uma teogonia deles.

O grupo ligado aos africanos da YTR (Yorùbá traditional religion) ou RTY como dizem aqui, são os piores. Muitos deles fazem turismo na áfrica e voltam com o que viram se transformando em especialistas. Esse é o grupo que vem tentando promover uma nova onde de africanização baseado no que a YTR diz e nas idiotices que eles passam a achar que sabem.

Claro que impressionam, pegam pessoas desinformadas ou pessoas simples e dizem que na áfrica é assim ou assado, que viu isso ou aquilo e por ai vai. Pessoas inseguras passam a acreditar naquilo e achar que estão certos. Não estão, como já mencionei, nossa tradição religiosa tem muitas dezenas de anos, é mais antiga que a formação dessas YTR por ai, não temos que mudar nada.

O fato é que deve se ter muito cuidado com a africanização. Muita calma e prudência para evitar mudar nossas liturgias e conceitos por causa de uma referência africana ruim. Atualmente, junto com Ifá vieram práticas litúrgicas dos cultos de orixá (òrìṣà) de Cuba e Nigéria. Existe um novo tipo de africanização ruim em curso. Pessoas do Candomblé, inseguras ou sem conhecimento de fato (isso tem aos montes), mudam entendimentos e adotam liturgias externas ao Candomblé ao verem ou terem contato com as práticas de outras tradições de orixá (òrìṣà). Isso está errado, é o lado ruim. Adotar práticas da tradição Yorùbá é uma bobagem, fazemos melhor aqui, adotar práticas do lukumi cubano é um atestado e burrice.

O fato de eles falaram que lá é de outro jeito, é problema deles, eles que se virem e aprendam como deve ser feito, porque, nós, sabemos e não precisamos de ajuda.

Digo mais, apenas casas pequenas e fracas se impressionam com isso, casas grandes com pessoas esclarecidas e ligados a linhagens não se impressionam com isso.

domingo, julho 16, 2017

LAMENTO OS PROBLEMAS DE ACESSO AO BLOG

TIVE PROBLEMAS DE DNS QUE IMPEDIRAM O ACESSO, JÁ ESTA RESOLVIDO

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Novas publicações em breve, agenda pessoal e profissional tem tomado meu tempo.

O e-mail de contato comigo é ogbeogunda@gmail.com

podem escrever

segunda-feira, fevereiro 29, 2016

Entrevista para o Grupo de Estudo Braulio Goffman


Para aqueles que querem conhecer o autor do BLOG no Youtube, entrevista para o projeto "Falando do Axé" do grupo de estudos braulio goffman.

Basta clicar no link, ou procurar diretamente no youtube,

segunda-feira, janeiro 04, 2016

de volta a ativa em 2016


Demora as vezes mas eu volto. 

O texto a seguir é outra das pérolas desse blog. vou editar uma sequencia deles. Eu já revisei e atualizei.

Esse texto de ebó é outros dos texto que eu considero muito bem feitos e completos. É isso o que esta nele, quem quiser aprender preste atenção nele.

Qual o significado de um ebó (ẹbọ)?

Qual o significado de um ebó (ẹbọ)?



Quem lida com o contexto afro-brasileiro já deve ter ouvido inúmeras vezes o termo ebó (ẹbọ).

O termo ebó (ẹbọ), é bem genérico e acaba sendo usado no dia a dia em vários sentidos, alguns deles bem pitorescos ou burlescos, mas, de fato, ele tem pelo menos 2 significados práticos.

O primeiro quando é usado para denominar um processo de limpeza espiritual, uma liturgia para eliminar negatividade da pessoa, chamado também de sacudimento, principalmente na Umbanda. O segundo quando é usado genericamente para o ato de fazer uma oferenda a uma divindade e, as vezes, para a oferenda em si, não importando se esta oferenda é uma comida ou sangue. A palavra ebó (ẹbọ), em Yorùbá, significa “sacrifício” e devemos entender isso, o sacrifício, de uma forma ampla e não somente o que requer o uso de animais.

O ebó (ẹbọ) é uma oferenda a ser feita para os ancestrais ou orixá (òrìṣà) em agradecimento por benção recebidas ou na intenção de resolver problemas ou obstáculos, abrir portas e oportunidades. Existem muitas finalidades conhecidas, como a de proteger, antecipar problemas, agradecer, repor e muitas outras.

O ebó (ẹbọ) é uma liturgia muito básica na manipulação do axé, a energia divinda de deus que existe em todos os seres vivo (animais ou vegetais) para nos ajudar na nossa vida.

Os itens normalmente se compõe de itens comestíveis como frutas frescas, água, bebidas destiladas, mel e azeite. Além disso o ebó (ẹbọ) pode conter outros itens como dinheiro, roupas, búzios e ervas. Alguns tipos de ebó (ẹbọ) são colocados dentro de casa (uma grande parte) e outros devem ser colocados no tempo (casos especificos).

Ebó (ẹbọ), é assim uma oferenda ritual, um forte elemento e o motivo final do processo de consulta ao oráculo. Sim, isso é muito importante, não se inventa ebó (ẹbọ). Ninguém decora ebó (ẹbọ) e passa por telefone, o ebó (ẹbọ) esta ligado sempre a uma consulta a um oráculo, seja o Obi, sejam os búzios (eerindinlogun), ou seja Ifá.

O ebó (ẹbọ) tem uma função central no processo de consulta é ele que encerra e finaliza o processo de você recorrer a deus, a olodumare, através do oráculo.

O ritual de oferta consiste de uma liturgia elaborada com objetivo de apresentar uma comida e bebida através dos quais o homem (o sacerdote) manipulará e usará para intermediar com as divindades em benefício do consulente. O relacionamento entre os seres humanos e as divindades no sentido de corrigir problemas e obter ajuda é expressado e obtido através da execução de rituais e liturgias, e isso ocorre em qualquer religião sendo essa, a ritualização, a base da necessidade e existência das religiões uma vez que a sua razão é a ligação entre o homem e o divino.

Mas atenção, não estou dizendo que o divindo, deus, só nos ouve se fizermos oferendas. Não! Não é isso. Deus nos ouve em qualquer lugar. Os orixá (òrìṣà) estão conosco o tempo todo, mas, quando precisamos de ajudar, de interferência no mundo natural através de forças supernaturais, então necessitamos de energia, necessitamos de obter energia divina, o axé, que é a energia de olodumare. Essa energia somente existe nos seres vivos, nos reinos vegetal e animal. O ebó (ẹbọ) é a forma de obtermos essa energia.

A colocação ou citação do oráculo como parte do processo de um ebó (ẹbọ) é intencional, em se tratando de Candomblé ou de Ifá, não existe sentido em se estabelecer a necessidade de se fazer um ebó (ẹbọ) sem que o oráculo esteja envolvido, isso deve ficar muito claro para vocês.

Estamos tratando de um processo de transmissão, equilíbrio e reposição de axé (àṣẹ) através de orixá (òrìṣà) e com a interferência de um “operador” qualificado o sacerdote, dessa forma a necessidade disso, a composição, local, etc. tem que ter sido definido através do oráculo, é assim que as coisas funcionam, isso não é Umbanda.

Os rituais e litugias conectam o mundo físico ao mundo espiritual, ou o mundo natural ao mundo supernatural, de forma a trazer harmonia e equilíbrio para o nosso dia a dia. A realização das liturgias e rituais através do ebó (ẹbọ) re-ordena e corrige o relacionamento entre a divindade e o homem trazendo o equilíbrio que se deseja.

Porém, mais do que trazer a divindade para ajudá-lo, o ebó (ẹbọ) é a fonte de energia supernatural que farão mudanças no mundo natural. Essa é a definição de magia, a capacidade de interferir no mundo natural com o supernatural.

Para qualquer coisa necessitamos de energia, nada acontece sem energia. O ebó (ẹbọ) é quem supre as energias supernaturais, o axé (àṣẹ) para que possamos mudar o mundo natural. Repetitivo mas a chave para entender isso.

Segundo Abímbọ́lá, todo conflito no cosmo Yorùbá pode ser eventualmente resolvido através do uso do ebó (ẹbọ). O sacrifício é a rama que traz a solução e tranquilidade ao universo e que ordena os problemas do dia a dia.

Quatro coisas são importantes para a eficácia de um ebó (ẹbọ). A primeira é o correto uso de cada elemento ritual que é especificado para o odù que foi revelado na consulta ao oráculo.

Segundo isto tem que ter objetivo e propósitos reais e sinceros.

Terceiro, tem que ser espiritualmente tratado por sacerdotes.

Quarto, existe a necessidade de existir uma integração entre o sacerdote, o consulente e as forças espirituais que serão movimentadas para se obter o resultado desejado. Mais ainda, quando este relacionamento é próximo, as ervas, se forem necessárias, curarão de fato.

Dessa maneira as coisas não ocorrem por acaso. Observem essas 4 condições, isso vai explicar muita coisa que da certo e que da errado.

Algumas vezes o ebó (ẹbọ) não virá na forma de uma oferenda física, mas sim através de regras de comportamento e proibições. Por exemplo, não frequentando alguns lugares, não consumindo determinado tipo de alimento, não fazendo determinado tipo de tarefa ou comportamento, adotando uma rotina de rezas, etc..

O significado disso é que esse comportamento está fazendo a pessoa perder energia, perder axé (àṣẹ). Quando se interrompe o comportamente inadequado trocando por outro comportamento adequado, cessa a perda de axé (àṣẹ) e a pessoa melhora. Nesse caso não era necessário repor axé (àṣẹ), apenas deixar de perdê-lo.

Em relação ao significado de um ebó (ẹbọ), o mais importante é entender que o ebó (ẹbọ) é mais do que um conjunto de itens físicos. Ele é parte de um sistema de forças e energia que é movimentado no momento em que se inicia a consulta ao oráculo, quando olódùmarè se utilizará de Orunmilá (ọ̀rúnmìlà) e de seus ministros, os orixá (òrìṣà) e ancestrais, para poder mudar ou corrigir uma determinada situação, e neste processo, exu (èṣù) é o elemento transportador de energia, ou axé (àṣẹ). Assim todo o conjunto espiritual que compõe os fundamentos da religião se movimentam através de uma simples consulta a Ifá, ou até mesmo um jogo de búzios.

Não podemos entender o significado de um ebó (ẹbọ) se não compreendermos este sistema metafísico que está envolvido e suas diversas engrenagens. O oráculo diagnostica e nos remedia através de odù que recebemos no Opon (ọpọ́n). O odù serve para nos indicar o que existe em torno de nós, como uma mensagem, e também para nos trazer a energia bruta que será manipulada para resolver o problema. O odù é assim como se fosse uma “célula tronco” que através do olhador, das rezas e encantamento e do ebó (ẹbọ) será manipulado para se resolver o problema do consulente.

Este é inclusive um dos motivos que se indica não manipular odù se não se tiver o conhecimento necessário. Pode-se estar trazendo para perto de sí uma energia bruta não lapidada que pode influenciar a pessoa, sua casa e família de forma negativa se não for adequadamente conduzida e transformada. Se fosse simples não haveria necessidade de todo o conhecimento, todas as cerimônias de iniciação e todo o tempo de aprendizado no qual o Bàbáláwo se alinha com as forças metafísicas e supernaturais que vão ajudá-lo no seu trabalho. Eu considero que não são apenas a teoria e as cerimônias de iniciação, é necessário prática para que as engrenagens metafísicas de alinhem e se adaptem à pessoa.

O conceito básico do uso do ebó (ẹbọ) é que temos um desequilbrio de energia e isto está afetando a nossa vida, assim precisamos corrigir o axé (àṣẹ) do consulente e isto é feito através do odù que recebemos e da energia que está contida em cada elemento do ebó (ẹbọ) . Olódumàrè quando criou cada elemento na terra colocou nele um espírito, uma fagulha ou uma energia metafísica que dá a ele uma propriedade especial. As folhas são elementos poderosos na acumulação dessas propriedades e por isso extremamentes importantes ao uso que damos.

Esta energia está então contida em cada elemento existente no aiyé (mundo) e será extraída e manipulada através de um “operador” qualificado. Este operador empresta a esse processo o seu próprio axé (àṣẹ) que funcionando como uma “quintessência” retirará a energia própria de cada elemento do ebó (ẹbọ) e transmitirá ao consulente.

Seria muito simples se qualquer pessoa pudesse pegar um elemento “espremê-lo” e tirar dele a sua propriedade divina, como se tira o suco de uma fruta. As vezes isso pode ser assim e algumas pessoas têm o axé (àṣẹ) necessário para fazer isso e, por essa razão, é que algumas coisas funcionam quando feitos por uma pessoa despreparada e por outras não. O que eu penso é que esta propriedade divina, ou natural de cada elemento, não é um axé (àṣẹ) ainda no sentido que axé (àṣẹ) é a energia em movimento. Quem tem o axé (àṣẹ) somos nós, seres vivos, e o nosso próprio axé (àṣẹ) é necessário para retirar a propriedade de cada material e de transportá-lo para outra.

Em alquimia o nome dado a isso era quintessência.

É claro que as plantas estão vivas e por isso mesmo tem o axé (àṣẹ), isso é o que faz delas um componente tão importante e por isso que qualquer pessoa pode usar com bons resultados as ervas para fazer banhos. Independente do o axé (àṣẹ) dessa própria pessoa as folhas quando usadas frescas têm o seu próprio axé que é assim transmitido para quem recebe o banho.

A liturgia de quinar as ervas com cânticos e encantamentos e feitos pelo próprio sacerdote é um processo liturgico mais forte porque diretamente está havendo manipulação, transferência e amplificação do axé (àṣẹ) do sacerdote através das folhas, que se soma ao o axé (àṣẹ) das ervas fazendo fluir e acumular no banho de ervas preparado e encantado uma “bateria” viva de axé (àṣẹ).

O uso de elementos preparados, manipulados e cozidos é uma outra variação e, através desse processo “alquímico”, estamos manipulando, transformando, amplificando e canalizando as propriedades de todos os elementos envolvidos para o fim que desejamos. Mas, nesse caso de elementos preparados, as suas propriedades são estáticas, como um alimento comum.

A “virtude” existe neles, mas será o axé (àṣẹ) do sacerdote, sua capacidade, que colocará isso em movimento retirando deles essa propriedade e fazendo-a funcionar na forma de energia dinâmica, ou seja, o axé (àṣẹ).

Neste momento estamos também colocando em movimento um axé (àṣẹ) muito mais importante que é o das divindades, os orixá (òrìṣà), que assistem o sacerdote e que irão se utilizar das propriedades desses elementos, que estarão preparados para o uso, através do seu o axé (àṣẹ). Aqui então entramos na área onde devemos entender as especializações das divindades. Cada orixá (òrìṣà) tem afinidades com elementos e locais que faze parte do aiyé. O sacerdote deve conhecer essas afinidades para que possa se utilizar disso.

Desta forma ao usarmos o axé (àṣẹ) através de uma divindade temos que conhecer os elementos que fazem parte de sua afinidade e a forma de serem preparados para a amplificação ou mesmo abertura de suas propriedades. A natureza e todo o aiyé é um repositório de energias metafísicas e o sacerdote deve, com um garimpeiro ou como um lavrador, procurar os locais onde ela aflora e se manifesta ou também cultivar locais onde estas energias se concentrarão.

Um terreiro ou casa de santo é um local que é então preparado para acumular ou fazer aflorar a energia do aiyé e dos orixá (òrìṣà). Dessa forma muitos ẹbọ serão feitos na própria casa de santo. Em outros casos o sacerdote vai procurar o seu local de afloramento, circulação ou acumulação na própria natureza. Não se pode, por exemplo, ter a energia de uma praia dentro do terreiro, ou de uma estrada ou de uma encruzilhada, ou do alto de uma montanha, etc...

É o conhecimento desse fundamentos que permite a um bom sacerdote ter os melhores e mais efetivos resultados. Uma pessoa com conhecimento e axé (àṣẹ) poderá amplificar as energias da natureza, dos elementos e dos òriṣà, obtendo os resultados mais efetivos. Os locais da natureza, o cuidado do sacerdote na manutenção do seu axé (àṣẹ) (pelas suas obrigações, observância de preceitos, afastamentos dos ewọ̀ do seu odù e orixá (òrìṣà)), as horas do dia e dias do mês (em função de horários e fase da lua mais apropriados) e as cantigas e encantamentos serão no seu conjunto e individualmente elementos que aplificarão a energia e por isso mesmo dão mais eficácia ao ebó (ẹbọ).

Assim o ebó (ẹbọ) é formado pelo conjunto de tudo isso que citei aqui. Elementos que contém virtudes divinas e mesmo aṣẹ́, como é o caso das folhas, da energia que está na natureza, do axé (àṣẹ) dos orixá (òrìṣà) e do axé (àṣẹ) do próprio sacerdote, que ao longo de toda sua vida acumula não só conhecimento como também acumula aṣẹ́ para poder ser transmitido para que ele ajuda ou para retirar e ser amplificado pelos elementos que ele manipula.

O Bàbáláwo não passa incólume pelo ebó (ẹbọ), ele participa e contribui, certamente ele perde um pouco de axé (àṣẹ) toda vez que trabalha.

Não podemos esquecer que em todo este processo o Orí da pessoa foi o elemento ativo de comunicação e como uma divindade pessoal do consulente nada poderá ou ocorreu sem o seu consentimento.

Assim quando a pessoa e seu Orí se sentam no espaço sagrado do olhador de Ifá este irá invocar ọ̀rúnmìlà para que este como o eleri ipin (ẹlẹ́rí ìpín), ou testemunho do compromisso entre o consulente e seu orí e olódùmarè, possa analisar a situação que está ocorrendo e avaliar se os problemas fazem parte do destino pessoal daquela pessoa ou não, são parte dos problemas de terra que podem ser eliminados ou amenizados. Neste momento ọ̀rúnmìlà é a boca através da qual falam o Orí, os orixá (òrìṣà) e ancestrais do consulente e, sem dúvida nenhuma olódùmarè que sempre está presente em nossa vida.

O odú contém ao mesmo tempo a mensagem e a solução do problema e tudo se faz através de energia e equilíbrio, mas sempre através das mãos das divindades que assistem a vida do consulente. Desta forma os elementos físicos que compõe o ebó (ẹbọ) trazem suas energias individuais e seu axé (àṣẹ). Os elementos físicos serão transmutados em energia que será utilizada como força a ser colocada em movimento por estas divindades para atuar na situação colocada.

Por fim eu gostaria de abordar uma mistificação ligada a ebó (ẹbọ). De nenhuma maneira ao fazermos um ebó (ẹbọ) estamos alimentando divindades ou espíritos. Estamos dando início a uma roda de energia que irá ser movimentada em benefício do próprio consulente, ou seja, estamos dando ignição a uma corrente do bem. Desta maneira tudo o que é colocado em um ebó (ẹbọ) desde a qualidade dos elementos até o carinho que isto é feito irá retornar para nós mesmos.

Uma divindade não necessita de comer, o seu nível de evolução espiritual a coloca em uma condição que elas existem para nos ajudar e não ao contrário, mas, não estamos no Orun (ọ̀run) e sim no aiyé, desta maneira necessitamos transformar energia. Como todos sabemos energia não se cria do nada, se transforma a partir de uma fonte já existente. Por esta razão é que usamos o ẹbọ como uma fonte de energia que será gerada para que o que necessitamos de aṣẹ possa ser obtido.

É ridícula a imagem que passam de que aquela comida vai agradar a algum orixá (òrìṣà) e que ele assim comendo e bebendo vai se dispor a nos ajudar. É também ridícula a fala de que um espírito não nos ajuda porque não o ajudamos ou o alimentamos. Minha opinião é que este tipo de mistificação é a primeira coisa que deve ser esquecida por alguém que quer aprender algo.