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sábado, janeiro 23, 2010

A missão e o poder dos Orixá Olódúmarè constroi o equilibrio em Oxétua - Ọ̀ṣẹ́-Otùwá


A missão e o poder dos Orixá
Olódúmarè constroi o equilibrio em Oxétua - Ọ̀ṣẹ́-Otùwá

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O texto a seguir é transcrição do Odù Ọ̀ṣẹ́-Otùwá como esta registrado no livro Os Nagô e a Morte, de Juana Elbein. Somente está transcrita a versão em português.

A qualidade do conteúdo foi verificada. O mesmo conteúdo foi encontrado, com algumas pequenas variações em outros livros de outros autores de diferentes nacionalidades de maneira que o texto não é inventado ou falso.

O objetivo de transcrever este texto aqui com comentários é devido a importância do seu conteúdo para entendermos a religião Yoruba e suas bases. Existem informações importantes e sua análise e entendimento contribuem muito para a compreensão do universo metafísico que estamos lidando, de maneira que, deve ser considerado de leitura e conhecimento obrigatório por quem quer entender o conteúdo teológico Yoruba.

Mas notem que o sentido não é aumentar a sopa de letras em palavras em Yorùbá. O objetivo é que as pessoas entendam a religião que esta em volta e acima de toda a prática do dia a dia.
...que devia consultar
o porta-voz-principal-do-culto-de-Ifá;
a nuvem está pendurada por cima da terra...
Babaláwó-dos-tempos-imemoriais, os-”siris”-estão-no-rio
a-marca-do-dedo-requer-yererosun (Yẹ̀rẹ́ròsùn - pó adivinhatório de Ifá).
Estes foram os Babaláwó que jogaram Ifá para
os quatrocentos irunmalé (Irúnmalẹ̀), senhores do lado direito, e jogaram Ifá para os duzentos irunmalé (Irúnmalẹ̀), senhores do lado esquerdo.
E jogaram Ifá para Óxun (Ọ̀ṣun),
que tem uma coroa toda trabalhada de contas,
no dia em que ele veio a ser o décimo sétimo dos irunmalé (Irúnmalẹ̀) que vieram ao mundo,
quando Olódúmarè enviou os Orixá (òrìṣà),
os dezesseis, ao mundo,
para que viessem criar e estabelecer a terra.
E vieram verdadeiramente nessa época.
As coisas que Olódúmarè lhes ensinou
nos espaços do Órun (ọ̀run) constituíram os pilares de fundação
que sustentam a terra para a existência de todos
os seres humanos e de todos os Ébóra (ẹbọra).
Olódúmarè lhes ensinou que
quando alcançassem a terra,
deveriam abrir uma clareira na floresta, consagrando-a
a Orò, o Igbò orò.
Deveriam abrir uma clareira na floresta, consagrando-a
a Eégún, o Igbó-Eégún que seria chamado Igbó-Opa (Igbó-Ọ̀pá).
Disse ele que deveriam abrir uma clareira
na floresta consagrando-a a Odù-ifá, o Igbó Odù,
onde iriam consultar o oráculo a respeito das pessoas.
Disse ele que deveriam abrir um caminho para os Orixá (òrìṣà)
e chamar esse lugar igbó Orixá (òrìṣà), floresta para adorar os Orixá (òrìṣà).
Olódúmarè lhes ensinou a maneira como deveriam resolver
os problemas de fundação (assentamento) e adoração dos ójubo (ọjúbo) (lugares de adoração)
e como fariam as oferendas
para que não houvesse morte prematura,
nem esterilidade, nem infecundidade,
que não houvesse perda,
nem vida paupérrima, não houvesse nada
de tudo isso sobre a terra.
Para que as doenças sem razão
não lhes sobreviessem,
que nenhuma maldição caísse sobre eles,
que a destruição e a desgraça não se abatessem sobre eles.
Olódumarè ensinou aos dezesseis Orixá (òrìṣà) o que eles deveriam realizar
para evitar todas essas coisas.
Ele os delegou e enviou à terra,
a fim de executarem tudo isso.
Quando vieram ao òde-àiyé, a terra,
fundaram fielmente na floresta o lugar de adoração de Orò, o Igbó-Orò.
Fundaram na floresta o lugar de adoração de Eégún.
Fundaram na floresta o lugar de adoração de Ifá que chamamos Igbo òdú.
Também abriram um caminho para os Orixá (òrìṣà), que chamamos igbó-òòsa.
Executaram todos esses programas visando a ordem.
Se alguém estava doente, ele ia consultar Ifá ao pé de Órunmila (Ọ̀rúnmìlà).
Se acontecia que Eégún podia salva-lo, dir-lho-iam.
Seria conduzido ao lugar de adoração na floresta de Eégún,
ao Igbo-igbalé (Igbó-ígbàlẹ̀).
para que ele fizesse uma oferenda a Egúngún.
Talvez que um de seus ancestrais devesse ser invocado como Eégún,
para que o adorasse, a fim de que esse Eégún o protegesse.
Se havia uma mulher estéril,
Ifá seria consultado, a respeito dela,
a fim de que Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) pudesse indicar-lhe a decocção
de Óxun (Ọ̀ṣun) que ela deveria tomar.
Se havia alguém que estava levando uma vida de miséria, Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) consultaria Ifá, a respeito dele.
Poderia ser que Orò estivesse associado à sua própria entidade criadora.
Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) diria a essa pessoa que
é a Orò que ela devia adorar.
E ela seria conduzida à floresta de Orò.
Eles seguiram essas práticas durante muito tempo. Enquanto realizavam as diversas oferendas, eles não chamavam Óxun (Ọ̀ṣun).
Cada vez que iam à floresta de Eégun,
ou à floresta de Orò,
ou à floresta de Ifá.
ou à floresta de òòṣà,
a seu retorno, os animais que eles tinham abatido,
fossem cabras,
fossem carneiros,
fossem ovelhas,
fossem aves,
entregavam-nos a Óxun (Ọ̀ṣun) para que ela os cozinhasse.
Preveniram-na que quando ela acabasse de preparar os alimentos,
não devia comer nenhum pouco, porque deviam ser
levados aos Malè, la onde as oferendas são feitas.
Óxun (Ọ̀ṣun) começou a usar o poder das mães ancestrais —
ìyá-mi-àje - e a estender sobre tudo o que ela fazia
esse poder de ìyá-mi-àjé, que tornava tudo inútil.
Se se predissesse a alguém que ele ou ela não fosse morrer,
essa pessoa não deixava de morrer.
Se fosse proclamado que uma pessoa não sobreviveria,
a pessoa sobrevivia.
Se se previsse que uma pessoa daria a luz um filho,
a pessoa tornava-se esteril.
Um doente a quern se dissesse que ele ficaria curado
não seria jamais aliviado de sua doença.
Essas coisas ultrapassavam seu entendimento,
porque o poder de Olódúmarè jamais tinha falhado.
Tudo o que Olódúmarè lhes havia ensinado eles o aplicavam,
mas nada dava resultado.
Que era preciso fazer?
Quando se congregaram numa reunião,
Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) sugeriu que,
já que eles eram incapazes de compreender o que se estava passando por seus próprios conhecimentos,
não havia outra solução senão consular Ifá novamente. Em conseqüência, Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) trouxe seu instrumento adivinhatório,
depois consultou Ifá.
Contemplou longamente a figura do Odù que apareceu
e chamou esse Odù pelo nome de ọ̀ṣẹ́tùwá,
Ele o olhou em todos os sentidos.
A partir do resultado definitivo de sua leitura,
Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) transmitiu a resposta a todos os outros Odù-àgbà.
Estavam todos reunidos e concordaram que não havia outra solução para todos eles,
os Orixá (òrìṣà)-irumale (Irúnmalẹ̀), senão encontrar um homem sábio e instruido que pudesse ser enviado a Olódúmarè
para que mandasse a solução do problema
e o tipo de trabalho que devia ser feito para o restabelecimento da ordem,
a fim de que as coisas voltassem a normalizar-se, e
nada mais interferisse em seu trabalho.
Diziam que tudo o que acontecesse,
Órunmila (Ọ̀rúnmìlà), deveria ir até a Olódúmarè.
Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) ergueu-se. Serviu-se de seu conhecimento para utilizar a pimenta,
serviu-se de sua sabedoria para tomar nozes de obi,
despregou seu òdùn (tecido de rafia) e o prendeu no seu ombro,
puxou seu cajado do solo,
um forte redemoinho o levou, e
ele partiu até os vastos espaços do outro mundo para encontrar Olódúmarè.
Foi la que Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) reencontrou èṣù òdàrà.
èṣù já estava com Olódúmarè.
èṣù fazia sua narração a Olódúmarè. Explicava que
aquilo que estava estragando o trabalho deles na terra
era o fato de eles não terem convidado a pessoa que constitui a décima sétima entre eles.
Por essa razão, ela estragava tudo.
Olódúmarè compreendeu.
Assim que Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) chegou, apresentou seus agravos a Olódúmarè.
Então Olódúmarè lhe disse que deveriam ir e
chamar a décima sétima pessoa entre eles
e leva-la a participar de todos os sacrifícios
a serem oferecidos.
Porque, além disso,
não havia nenhum outro conhecimento que Ele lhes pudesse ensinar
senão as coisas que Ele já lhes havia dito.
Quando Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) voltou a terra,
reuniu todos os Orixá (òrìṣà)
e lhes transmitiu o resultado de sua viagem.
Chamaram Óxun (Ọ̀ṣun) e lhe disseram que ela deveria segui-los
por todos os lugares onde deveriam oferecer sacrifícios,
mesmo na floresta de Eégún.
Óxun (Ọ̀ṣun) recusou-se:
ela jamais iria com eles.
Começaram a suplicar a Óxun (Ọ̀ṣun) e ficaram prostrados um longo tempo.
Todos começaram a homenageá-la e a reverenciá-la.
Óxun (Ọ̀ṣun) os maltratava e abusava deles.
Ela maltratava Orixá (òrìṣà nlá)
maltratava Ògún,
maltratava Órunmila (Ọ̀rúnmìlà)
maltratava Osayin (Ọ̀sányìn),
maltratava Oranfe (Ọranfe),
ela continuava a maltratar todo mundo.
Era o sétimo dia, quando Óxun (Ọ̀ṣun) se apaziguou.
Então eles lhe disseram que viesse.
Ela replicou que jamais iria,
disse, entretanto, que era possível fazer uma outra coisa
já que todos estavam fartos dessa história.
Disse que se tratava da criança que levava no seu ventre. Somente se eles soubessem como fazer para que ela desse a luz uma criança do sexo masculino,
isso significaria que
ela permitiria então que ele a substituísse
e fosse com eles.
Se ela desse a luz uma criança do sexo feminino,
podiam estar certos de que essa questão
não se apagaria em sua mente.
Ficariam ai pedaços, pedaços e pedaços.
E eles deveriam saber com certeza que
esta terra pereceria;
deveriam criar uma nova.
Mas se ela desse a luz um filho-homem,
isso queria dizer que, evidentemente, o próprio Olódúmarè os tinha ajudado.
Assim apelou-se para Orixá (òrìṣà) lá e para todos os outros Orixá (òrìṣà) para saber o que deveriam fazer para que a criança fosse do sexo masculino.
Disseram que não havia outra solução
a não ser que todos utilizassem o poder — Axé (àṣẹ) —
que Olódúmarè tinha dado a cada um deles; cada dia repetidamente
deveriam vir, para que a criança nascesse do sexo masculino.
Todos os dias iam colocar seu àṣẹ — seu poder —
sobre a cabeça de Óxun (Ọ̀ṣun),
dizendo o que segue. "Você Óxun (Ọ̀ṣun)!
Homem ele devera nascer, a criança que você traz em si!"
Todos respondiam "assim seja", dizendo
“tó!” acima de sua cabeça...
Assim fizeram todos os dias, até que chegou
o dia do parto de Óxun (Ọ̀ṣun).
Ela lavou a criança.
Disseram que ela deveria permitir-lhes vê-la.
Ela respondeu "não antes de nove dias".
Quando chegou o nono dia, ela os convocou a todos.
Esse era o dia da cerimônia do nome, da qual se originaram
todos as cerimônias de dar o nome.
Mostrou-lhes a criança,
e a pôs nas mãos de Orixá (òrìṣà).
Quando Orixá (òrìṣà nlá )olhou atentamente a criança
e viu que era um menino, gritou:
"Músò".. .! (hurra.. .!)
Todos os outros repetiram "Músò"...!
Cada um carregou a criança;
depois o abençoaram.
Disseram: "somos gratos por esta criança ser um menino".
Disseram: "que tipo de nome lhe daremos?"
Orixá (òrìṣà) disse: "vocês todos sabem muito bem que
cada dia abençoamos sua mãe com nosso poder
para que ela pudesse dar a luz uma criança do sexo masculino,
e essa criança deveria justamente chamar-se
À-Ṣ-Ẹ-T-Ù-W-Á (poder trouxe ele a nos)"
Disseram: "acaso você não sabe que foi o poder do Axé (àṣẹ),
que colocamos nela, que forçou essa criança a
vir ao mundo,
mesmo se antes ela não queria vir a terra sob a forma de uma criança do sexo masculino?
Foi nosso poder que a trouxe a terra."
Eis por que chamaram a criança Axétua (Àṣẹtùwá).
Quando chegou o tempo,
Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) consultou o oráculo Ifá acerca da criança,
porque todos devem conhecer sua origem e destino
colheram o instrumento de Ifá a para consultá-lo.
Eles o manipularam e o adoraram.
Era chegado o momento de consular Ifá a respeito dele,
para saberem qual era seu Odù, para
que o pudessem iniciar no culto de Ifá,
Levaram-no a floresta de Ifá,
que chamamos Igbodu, onde Ifá revelaria que Oxé (Ọ̀ṣẹ́) e Otua (Otùwá) eram seu Odù.
Este foi o resultado que ele deu a respeito da criança.
Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) disse: "a criança que Oxé (Ọ̀ṣẹ́) e Otua (Otùwá) fizeram nascer,
que antes chamamos Axétua (Àṣẹtùwá)",
disse, "chamemo-la antes de Oxétua (Ọ̀ṣẹ́tùwá)."
Foi por isso que chamaram a criança
com o nome do Odù de Ifá que lhe deu nascimento,. Oxétua (Ọ̀ṣẹ́tùwá).
Àṣẹtùwá era o nome que ele trazia anteriormente.
Assim, a criança participou do grupo dos outros Odù,
ao ponto de ir com eles a todos os lugares onde se
faziam oferendas na terra.
Foi assim que todas as coisas que Olódúmarè lhes tinha ensinado
deixaram de ser corrompidas.
Cada vez que proclamavam
que as pessoas não morreriam,
elas realmente sobreviviam
e não morriam.
Se diziam que as pessoas seriam ricas,
elas tornavam-se realmente ricas.
Se dizem que a mulher esteril conceberia,
ela realmente dava a luz
A própria Óxun (Ọ̀ṣun) deu a essa criança urn nome nesse dia.
Disse ela: "Oxo (Oṣó) a gerou" (significando que a criança era filho do poder mágico);
porque ela mesma era uma Ajé (àjẹ́)
e a criança que ela gerou e um filho homem.
Disse ela: "Akin Oxo (Akin Oṣò )",
( Akin Oxo : poderoso mago; homem bravo dotado de um grande poder sobrenatural)
eis o que a criança será!
É por isso que eles chamaram Oxétua (Ọ̀ṣẹ́tùwá) de Akin Oxo (Akin Oṣò ),
entre todos os Odù Ifá e entre os dezesseis Orixá (òrìṣà) mais anciãos.
Depois eles disseram que em qualquer lugar onde os maiores se reunissem,
seria compulsório que a criança fosse um deles.
Se não pudessem encontrar o décimo sétimo membro,
não poderiam chegar a nenhuma decisão e se dessem um conselho não poderiam ratificá-lo.
Sobreveio uma seca na terra.
Tudo estava seco!
Não havia orvalho!
Fazia três anos que tinha chovido pela última vez.
O mundo entrou em decadência.
Foi então que eles voltaram a consultar Ifá,
Ifá àjàlàiyé”.
Quando Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) consultou Ifá àjàlàiyé disse que deveriam fazer uma oferenda, um sacrifício, e preparar a oferenda de maneira que chegasse a Olódúmarè,
para que Olódúmarè pudesse ter piedade da terra
e se ocupasse dela para eles.
Porque Olódúmarè não se ocupava mais da terra.
Se isso continuasse a destruição seria inevitável;
era iminente.
Somente se pudessem fazer a oferenda,
Olódúmarè teria sempre misericórdia deles.
Ele se lembraria deles e zelaria pelo mundo.
Foi assim que prepararam a oferenda.
Eles colocaram:
uma cabra,
uma ovelha,
um cachorro e uma galinha,
um pombo,
uma preá,
um peixe,
um ser humano, e
um touro selvagem,
um pássaro da floresta,
um pássaro da savana,
um animal doméstico.
Todas as oferendas,
e ainda dezeseis pequenas quartinhas cheias de azeite de dendê
que eles juntaram nesse dia.
E ovos de galinha, e
dezesseis pedaços de pano branco puro.
Prepararam as oferendas apropriadas usando folhas de Ifá,
que toda oferenda deve conter.
Fizeram um grande carrego com todas as coisas.
Disseram então, que o próprio Èjì-Ogbè deveria levar essa oferenda a Olódúmarè.
Ele levou a oferenda até as portas do Órun (ọ̀run)
mas não lhe foram abertas.
Èjì-Ogbè voltou à terra.
No segundo dia Óyéku-mejí (ọ̀yẹ̀kú-méjì) a carregou,
ele voltou.
Não lhe abriram as portas.
Ìròsùn méjì
ówórin (ọ̀wọ́rín) méjì
óbara (ọ̀bàrà) méjì
ókanran (ọ̀kànràn) méjì
'ósa (ọ̀sá) Méjì
iká méjì
oturopón (òtùrùpọ́n) méjì
Otùwá méjì
ireté (ìrẹ̀tẹ̀) méjì
óxé (ọ̀ṣẹ́) méjì
òfún méjì
Mas não puderam passar,
Olódúmarè não abria as portas.
Assim deocidiram que o décimo sétimo entre eles
deveria ir e experimentar seu poder,
antes que tivessem que reconhecer que não tinham mais nenhum poder,
Foi assim que Oxétua (Ọ̀ṣẹ́tùwá) foi visitar certos babaláwo,
para que eles consultassem o oráculo para ele.
Esses Babaláwo traziam nomes de
vendedor-de-aceite-de-dendê
e comprador de azeite-de-dendê.
Ambos esfregaram seus dedos com pedaços de cabaça.
Jogaram Ifá para Akin Oxo (Akin Oṣò ) o filho de Eninarè (aquela-que-foi -colocada-na-senda-do-bem, referindo-se a Óxun (Ọ̀ṣun))
Disseram que deveria fazer uma oferenda;
disseram, quando ele acabasse de fazer a oferenda,
disseram, ali, ele seria coberto de honras;
disseram, sucederá que
a posição que ele alcançasse,
disseram, essa posição seria para sempre
e não desapareceria jamais.
Disseram, as honras que ali receberia,
disseram, o respeito, seriam intermináveis.
Disseram: “Você verá uma anciã no seu caminho”,
disseram, “faça-lhe o bem”.
Assim quando Oxétua (Ọ̀ṣẹ́tùwá) acabou de preparar a oferenda, seis pombos
seis galinhas com seis centavos e
quando estava em seu caminho,
ele encontrou uma anciã.
Ele carregava a oferenda no caminho que levaria a Exu (èṣù)
quando encontrou essa anciã na sua rota.
Essa anciã era da época em que a existência se originou.
Disse: "Akin Oxo (Akin Oṣò )!
à casa de quem vai você hoje?"
Disse: "eu ouvi rumores a respeito de todos vocês
na casa de Ọlọfin que
os dezesseis Odú mais idosos levaram uma oferenda
ao poderoso Órun (ọ̀run) sem sucesso".
Disse: "assim seja".
Disse: "é sua vez hoje?"
Disse: "é minha vez".
Disse: "tomou alimentos hoje?"
Respondeu ele: "eu tomei alimentos".
Disse ela: "quando você chegar a seu sítio,
diga-lhes que você não irá hoje".
Disse ela: "esses seis centavos que você me deu",
Disse, há três dias não tinha dinheiro
para comprar comida.
Disse: "diga-lhes que você não irá hoje".
Disse: "quando chegar amanhã, você não deve comer,
você não deve beber antes de chegar ali".
Disse: "você deve levar a oferenda".
Disse: "todos esses que ali foram, comeram
da comida da terra,
essa é a razão por que Olódúmarè não lhes abriu a porta!"
Quando Oxétua (Ọ̀ṣẹ́tùwá) voltou à casa de Oba Ajàlàiyé,
todos os Odú IFÁ estavam reunidos iá.
Disseram: "você deve estar pronto agora,
é sua vez hoje de levar a oferenda ao Órun (ọ̀run),
talvez a porta seja aberta para você!"
Disse ele que estaria pronto no dia seguinte,
porque não tinha sido avisado na véspera.
Quando chegou o dia seguinte, Oxétua (Ọ̀ṣẹ́tùwá) foi encontrar Exu (èṣù),
e lhe perguntou o que deveria fazer.
Exu (èṣù) respondeu: "Como!
Jamais pensei que você viria me avisar
antes de partir".
Disse ele: isso vai acabar:
hoje eles lhe abrirão a porta!"
Perguntou ele:
"Tomou algum alimento?"
Oxétua (Ọ̀ṣẹ́tùwá) lhe respondeu que uma anciã lhe tinha dito na véspera; que ele não devia comer- absolutamente nada.
Então Oxétua (Ọ̀ṣẹ́tùwá) e Exu (èṣù) puseram-se a caminho.
Partiram em direção aos portões do Órun.
Quando chegaram lá,
as portas já se encontravam abertas;
encontraram as portas abertas. Quando levaram a oferenda a Olódumarè e Ele (Olódumarè) a examinou,
Olódumarè disse: "Haaa!
Você viu qual foi o último dia que choveu na terra?!
Eu me pergunto se o mundo não foi completamente destruido.
Que pode ser encontrado lá?"
Oxétua (Ọ̀ṣẹ́tùwá) não podia nem abrir a boca para dizer qualquer coisa.
Olódùmarè lhe deu alguns "feixes" de chuva.
Reuniu, como outrora, as coisas de valor do Órun (ọ̀run),
todas as coisas necessárias para a sobrevivência do mundo, e deu-lhas.
Disse que ele, Oxétua (Ọ̀ṣẹ́tùwá), deveria retornar.
Quando deixaram a morada de Olódùmarè,
eis que Oxétua (Ọ̀ṣẹ́tùwá) perdeu um dos "feixes" de chuva.
Então a chuva começou a cair sobre a terra.
Choveu, choveu, choveu, choveu, choveu...
Quando Oxétua (Ọ̀ṣẹ́tùwá) voltou ao mundo,
em primeiro lugar foi ver Quiabo.
Ele encontrou Quiabo.
Quiabo tinha produzido vinte sementes.
Quiabo que não tinha nem duas folhas,
um outro não tinha mesmo nenhuma folha em seus ramos.
Voltou-se em direção à casa do Quiabo escarlate,
Ilá Iròkò tinha produzido trinta sementes.
Quando chegou à casa de Yáyáá,
esse havia produzido cinqüenta sementes.
Foi então até à casa da palmeira de folhas exuberantes,
que se encontrava na margem do rio Awónrín Mogún.
A palmeira tinha dado nascimento a dezesseis rebentos.
Depois que a palmeira deu nascimento a dezesseis rebentos, ele voltou
à casa de Oba Ãjàlàiyé,
Axé (àṣẹ) se expandia e se estendia sobre a terra.
Sêmen convertia-se em filhos,
homens em seu leito de sofrimento se levantavam,
e todo o mundo tornou-se aprazível,
tornou-se poderoso.
As novas colheitas eram trazidas dos plantios.' O inhame brotava, o milho amadurecia, a chuva continuava a cair,
todos os rios transbordavam, todo mundo era feliz.
Quando Oxétua (Ọ̀ṣẹ́tùwá) chegou, carregaram-no para montar num cavalo, estavam mesmo a ponto de levantar o cavalo do chão
para mostrar até que ponto as pessoas estavam ricas e felizes.
Estavam de tal forma contentes com ele,
que o cobriram de presentes,
os que estavam à sua direita,
os que estavam à sua esquerda.
Começaram a saudar Oxétua (Ọ̀ṣẹ́tùwá):
"você é o único que conseguiu levar a oferenda ao Órun (ọ̀run),
a oferenda que você levou ao outro mundo era poderosa!
Sem hesitação, rápido, aceite meu dinheiro
e ajude-me a transportar minha oferenda ao Órun (ọ̀run)!
Oxétua (Ọ̀ṣẹ́tùwá)! Aceite rápido!
Oxétua (Ọ̀ṣẹ́tùwá), aceite minha oferenda!"
Todos os presentes que Oxétua (Ọ̀ṣẹ́tùwá) recebeu,
os deu todos a Exu Òdàrà.
Quando os deu a Exu (èṣù),
Exu (èṣù) disse:
"Como!"
Há tanto tempo ele entregava os sacrifícios, e
não houve ninguém para retribuir-lhe a gentileza.
"Você Oxétua (Ọ̀ṣẹ́tùwá)!
Todos os sacrifícios que eles fizerem sobre a terra,
se não os entregarem primeiro a você,
para que você os possa trazer a mim,
farei que as oferendas não sejam mais aceitáveis".
Eis a razão pela qual
sempre que os Babaláwo fazem sacrifícios,
qualquer que seja o Odú Ifá que apareça e qualquer que seja a questão,
devem invocar Oxetua para que envie as oferendas a Exu.
Porque é só de sua mão que Exu (èṣù)
aceitará as oferendas
para levá-las ao òde òrun.
Porque quando Exu (èṣù) mesmo
recebia os sacrifícios das pessoas da terra
e os entregava no lugar onde as oferendas são aceitas,
eles não demonstravam nenhum reconhecimento pelo que ele fazia por todos,
até o dia em que Oxétua (Ọ̀ṣẹ́tùwá) teve de carregar o sacrifício,
e Exu (èṣù) foi abrir o caminho apropriado para o òrun,
para alcançar a morada de Olódùmarè,
quando se abriram as portas para ele.
A qualidade de gentileza que Exu (èṣù) recebeu de Oxétua (Ọ̀ṣẹ́tùwá)
era realmente muito valiosa para ele Exu (èṣù).
Então ele e Oxetua decidiram combinar um acordo pelo qual
todas as oferendas que deveriam ser feitas
deveriam ser-lhe enviadas por intermédio de Oxétua (Ọ̀ṣẹ́tùwá).
Foi assim que Oxétua (Ọ̀ṣẹ́tùwá) se converteu rio entregador de oferendas para Exu (èṣù).
Exu òdàrà, foi assim que ele se converteu em
O-portador-de-oferendas-pera-Olódúmarè-no-poderoso-òrun.
É assim como este Odú Ifá explica, a respeito de Exu (èṣù) e Oxétua (Ọ̀ṣẹ́tùwá)
O texto é de muita riqueza de detalhes e fundamentos e falar sobre ele poderia gerar muitas páginas, assim vamos procurar manter uma linha principal de foco.
A primeira coisa a destacar é a lembrança da necessidade de que pessoalmente nós termos que envolver Ifá antes de qualquer atividade ou trabalho religioso. Isso esta presente em todos os versos de Ifá (ẹsẹ) mostrando que o sucesso só ocorre se a pessoa se prepara para o que vai fazer de acordo com o que Ifá lhe instrui. Ifá existe para instruir os homens no bom cumprimento de suas atividades espirituais e de seus sacrifícios.

Foi assim por exemplo no mito da criação com mundo com Oxala (òṣàlá) que aceitou a tarefa de Olódùmarè para executar mas não se preparou para ela sendo superado por Oduduwa, que antes te tomar essa tarefa procurou um babaláwo para se orientar.
Dessa maneira nessa religião se alguém quer sucesso em algo deve acreditar que primeiro deve procurar o oráculo. Deve ter a humildade de procurar orientação. O ego não ajuda e a vaidade é inimiga do resultado. Olódùmarè colocou os Orixá (òrìṣà) na terra para nos ajudar e devemos buscar essa orientação.

É claro que ter acesso ao oráculo é um problema devido a questão comercial envolvida, mas, isso não é culpa da religião e sim dos homens. Devemos lembrar que um Obi é um oráculo muito eficiente e qualquer iniciado pode usar.

Além do aspecto envolvido em nossa vida normal existe o lado das tarefas religiosas. Para essas a situação é muito séria. Fazer as coisas por intuição ou receita não resolve. O que resolve é buscar a ajuda divina através do oráculo e seguir as indicações que lhe são dadas.
O divino, através do oráculo e dos Orixá (òrìṣà) existe para suportar nossa existência. O oráculo é o instrumento para essa comunicação, do divino com o homem, do Órun (Ọ̀run) com o Aiye e não a adivinhação. Pelo mito os Orixá (awọn òrìṣà) foram enviados por Olódùmarè para ajudar os homens na sua vida na terra. Como vivermos e superarmos as adversidades com a ajuda dos espiritos do Órun (ọ̀run).

Assim entendemos que onde existem pessoas existem Orixá (òrìṣà) e esses existem onde existem pessoas. Os Orixá (òrìṣà) foram a dádiva que Olódùmarè deu para nossas vidas e para nossa assistência. Eles não são a natureza, eles são enviados de Olódùmarè especificamente para nos ajudar.

Olódùmarè mandou os Orixá (òrìṣà) para nos livrar do mal que existe sobre a terra e nos ensinar a como cultuar a nossa religião. Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) é assim aquele que interage com Olódùmarè pelos Orixá (òrìṣà) e pelos homens, junto com Exu (Èṣù), é quem tem acesso à Olódùmarè.

Mas os versos deixam claro que o objetivo do culto não é o divino e sim o próprio homem. Os Orixá (Òrìṣà) não existem para ser adorados e sim para dar vida ao homem. O criados protege a sua criatura. Não pode evitar os problemas e males que existem no mundo e na natureza que tem sua vida própria mas coloca seus ministros para suportar os homens.

Existem muitas pessos que apesar disso tudo e possivelmente motivados pelo desconhecimento ou má fé fazem oferendas e obrigações religiosas sem consultar antes e durante o seu oráculo, fazem seguindo o que conhecem ou sua intuição. Isso esta errado e vão incorrer no mesmo erro de Obatala que falhou na missão que Olódùmarè lhe deu.

Os versos mostram também que Óxun (Ọ̀ṣun) foi desprezada pelos Odù na execução das atividades e esta se voltou contra todos fazendo com o que tudo o que fizessem fosse ao contrário. É dessa maneira impressionante o poder de Óxun (Ọ̀ṣun) que se sobrepunha ao de todos os demais.

Óxun (Ọ̀ṣun) atingia isso através de seu poder com as Ajé (Àjẹ̀). O seu poder é baseado no fato que Óxun (Ọ̀ṣun) é Ajé (Àjẹ̀) ela é Iyami, a grande Ìyá nla a grande mãe primordial, a primeira a ancestral. Ela é líder das Ajé (Àjẹ̀) e essas respondem a sua liderança.
O poder feminino tem que estar presente em qualquer trabalho de Axé (àṣẹ) e dando importância a uma das bases da religião, que é o equilíbrio, somente com o equilíbrio entre o poder masculino e o feminino é que as coisas se realizam. Quando Óxun (Ọ̀ṣun) decidiu atrapalhar as ações não mais deram resultado.

Ajé (Àjẹ̀) ganha assim uma importância maior do que se imagina. Ajé (Àjẹ̀) é poder na face da terra, no mundo que vivemos, no Aiye. Elas acima de todos tem a capacidade de fazer as coisas darem errado ou certo, e é um poder manipulável para o bem ou para o mal.

Não podemos dessa maneira jamais deprezar a participação das Ajé (Àjẹ̀) em tudo o que fazemos no Aiye, para o bem ou para o mal, através de Óxun (Ọ̀ṣun) sua líder.
Existe um outro verso de outro Odù, Osa Meji (Ọ̀sá Méjì), no qual Olódùmarè dá a Odù um enorme poder, mais do que o de todos mas que ela não deveria abusar desse poder:

...Ela retorna e vai queixar-se a Olódumarè: "Os dois primeiros receberam o poder da guerra e o da criação, e ela, Odú, nada recebeu dessa partilha". Olódumarè diz-lhe: "Tu serás, lyá won (wọn), mãe deles, por toda a eternidade; sustentarás o mundo''. Confere-lhe o poder de eye (ẹyẹ), o pássaro; dá-lhe a cabaça de eleye (ẹlẹyẹ), dona do pássaro.
Olódumarè pergunta-lhe como ele irá utilizar os pássaros e sua força. Odú responde-lhe que matará aquelas que não a escutarem; dará dinheiro e filhos àquelas que lhe pedirem mas se, em seguida, as pessoas se mostrarem impertinentes com ela, retomará suas dádivas.
Olódúmarè diz-lhe: "Está bem, mas utiliza com calma o poder que te dei". Se ela o utilizasse com violência, ele o retomaria e repete: “Tu serás iyá won, a mãe de todos os homens; elas deverão prevenir-te, a ti Odú, de tudo aquilo que quiserem fazer". Olódumarè deu o poder às mulheres; o homem sozinho nada poderá fazer na ausência das mulheres.
Naquela época Odú entra nos recantos mais secretos do culto de Eégún, de Orò e de diversos Orixá (òrìṣà) .
Ahl Àgbà, a antiga, exagerou, ela se recusa a fazer as oferendas prescritas por ifá, não ouve seus conselhos, no sentido de agir com calma e prudência.
Òbàrisà vem e diz: Ei! É a ele que Olódúmarè havia confiado o mundo; essa mulher enérgica veio tirá-lo de suas mãos. Ela vai aos lugares secretos de Eégún, Oro e dos outros òrisà, onde ele, Òbàrisà, não ousar entrar.
Òbàrisà vai consultar Òrúnmilà (ifá) e faz oferenda de caracóis e de um chicote que lhe é indicado. Òrúnmilà diz-lhe que o mundo se tornará seu, mas ele deve ser paciente. "A mulher irá exagerar, ela se tornará tua criada, Òbàrisà, ela virá submeter-se a ti. "
Naquele tempo Odú tinha o poder; toda coisa que ela dizia se realizava. Ela diz a Òbàrisà que os dois, ela e ele, devem morar juntos, no mesmo lugar.
Òbàrisà faz naquele lugar o culto de sua cabeça com o caracol. Bebe a água do caracol, contida em sua concha e oferece-a a Odú, Comem juntos a carne do caracol. O humor de Odú se acalma. Declara que jamais comeu algo tão bom.
Òbàrisà diz a Odú que não lhe escondeu nenhum de seus segredos, mas que ela, por seu lado, lhe escondeu o segredo de seu poder. Odú mostra a Òbàrisà o segredo da roupa de Eégún. Juntos adoram Eégún. Odú reveste a roupa, mas fala com voz normal. Não sabe falar com a voz rouca dos ará òrun, a gente do além, os mortos. Regressam à casa. Òbàrisà volta sozinho ao lugar de adoração, modifica a roupa de Eégún, veste-a, pega o chicote de sua oferenda. Sai com a roupa na rua e fala com a voz rouca de Eégún.
Todo mundo sente medo, a própria Odú fica assustada, mas reconhece a roupa e, assim, sabe que Òbàrisà está dentro. Envia seu pássaro empoleirar-se nos ombros de Eégún. Tudo aquilo que Eégún diz age pelo poder do pássaro.
Dessa maneira o poder que foi dado a Odú, Iyami, é imenso porque ele é o poder que estava no aiye, no mundo que vivemos.
Com o afastamento de Olódùmarè o mundo se descontrola e os Orixá (òrìṣà) ou Odù tem que procurá-lo, distante, mas acessível por Exu (Èṣù).
Com a criação de Oxétua (Ọ̀ṣẹ́tùwá) esse passa a ser o invocador do poder do Axé (àṣẹ). Não se sobrepõe a Exu (Èṣù) e sim se alia a esse poder e ganha desse o poder se ser o único a invocar Exu (Èṣù).
O papel de Exu (Èṣù) também fica muito claro. Ele não é um Orixá (òrìṣà) comum como muitos entendem, principalmente no Candomblé. Exu (Èṣù) no sistema religioso esta em uma linha distinta. Ele é o transportador do Axé (àṣẹ), é o policial de Olódùmarè como Abimbola sempre o caracteriza, é o mensageiro de Olódùmarè, levando ao conhecimento deste tudo o que ocorre no Aiye. Ele estava lá diante de Olódùmarè o posicionando dos problemas com Óxun (Ọ̀ṣun) antes que Oxétua chegasse.
Com Oxétua (Ọ̀ṣẹ́tùwá) isso não se modifica. Oxétua (Ọ̀ṣẹ́tùwá) não é Exu (Èṣù)! Ele é quem ganhou de Exu (Èṣù) o poder de ser o único a invocá-lo. Assim toda a cerimônia que se necessite de Exu (Èṣù) para a comunicação ou para o transporte de Axé (àṣẹ) deve ser iniciar com a súplica a Oxétua (Ọ̀ṣẹ́tùwá) para este poder invocar Exu (Èṣù). Exu (Èṣù) já existia antes de Oxétua (Ọ̀ṣẹ́tùwá) continuou a existir depois. Oxétua (Ọ̀ṣẹ́tùwá) foi coberto de honras pelos Odù, que o geraram e também por Exu (Èṣù).

Oxétua (Ọ̀ṣẹ́tùwá) foi criado por Óxun (Ọ̀ṣun) o poder feminino, junto com o Axé (àṣẹ) de todos os demais Odù, masculinos. Ele é o resultado de todo o Axé (àṣẹ) que Olódùmarè deu para os Odù quando vieram ao mundo, mais o componente feminino.

Outra coisa que esse texto deixa claro é o poder superior e supremo de Olódùmarè sobre o mundo e sobre os Orixá (òrìṣà).Ele não só esta acima como também controla o mundo. Somente divindades especiais tem acesso a ele, Oxétua (Ọ̀ṣẹ́tùwá) teve mas se manteve calado. Exu (Èṣù) tem acesso e fala e ouve.

O mundo era controlado por Olódùmarè. A natureza só funcionava porque Olódùmarè a controla. Foi ele quem conferiu o poder aos Orixá (òrìṣà). Dessa maneira a tese de que essa seria uma religião politeísta é inválida. Religiões politeísta são caracterizadas por deuses em nível de igualdade e que competem entre si, são independentes. Esse Odù não mostra nada disso.

Mostra uma divindade superior e absoluta e outras que agem no mundo como seus braços. Mostra de fato uma divindade distante que recebe informação através de Exu (Èṣù) e nem sempre sabe de tudo o que ocorre no mundo.

Existe um outro verso no qual descreve quando os Orixá (òrìṣà) disseram a Olódùmarè que eles iriam tomar conta do mundo. Olódùmarè então deixou por conta deles. O que ocorreu foi igualmente o caos, as coisas da natureza pararam de funcionar e eles tiveram que voltar a Olódùmarè. Lamento apenas não poder transcrever aqui esse verso.

Enfim o que Oxétua (Ọ̀ṣẹ́tùwá) sozinho mostra é a supremacia de Olódùmarè sobre os demais Orixá (òrìṣà). Dessa forma caracterizamos 2 coisas importantes com esse verso. A primeira é que essa não e uma religião politeísta porque existe uma divindade superiora. O termo acadêmico mais próximo é o de uma religião Henoteísta. Mas, essa é um discussão ruim porque sempre é carregada de ignorância e preconceito mas esse texto traz isso a tona.

Eu acho importante citar isso para caracterizar que os Orixá (òrìṣà) não são elementos da natureza como querem os ignorantes que se influenciam com as correntes européias nas quais as divindades politeístas são de fato a própria natureza. Isso é um sincretismos menor que equipara essa religião Yorùbá a outras sem correspondente real. Somos muito prejudicados por esse sincretismos europeu essa associação com religiões lúdicas ou com o pantheismo grego.

Contudo não estamos lidando com uma religião monoteísta. Devemos lembrar que a caracterização de uma religião como monoteísta ou não é um processo preconceituozo feito apenas por uma corrente religiosa predominante, que são as religiões Abraamicas, Cristãos, Judeus e Islâmicos. Monoteismo não pode ser entendido como um termo genérico, e sim como um termos que caracteriza esse conjunto de religiões. Assim monoteístas serão elas praticamente, todo o resto será alguma coisa diferente.

O importante não é classificar uma religião e sim entendê-la. Quando se entende de fato não vai se dizer que temos um Panteão de deuses, porque esse termo não se aplica pertence unicamente a uma outra religião que é politeísta. Não vamos dizer que nossos deuses são elementos da natureza porque isso não condiz com a realidade, pertence a uma outra religião. É preciso enfim entender o que a religião faz de bem para as pessoas, como as orienta a viver como as ajuda a viver melhor.

Contudo esse mesmo texto nos leva a concordar com a linha de afirmação de que Olódùmarè é um Deus distante que colocou os Orixá (òrìṣà) para ser seu intermediário e nosso suporte. Isso pode ser entendido em parte uma vez que tendo controle sobre o mundo ele tem que ter ciência do que ocorre, mas, essa discução não vale a pena, podemos sim entender que ele se mantêm informado através de quem tem acesso a ele.

Gostaria de lembrar que o deus Abraamico não é muito distinto disso. Seus intermediários são os anjos para todas as correntes e no caso dos católicos os santos intercedem pelos vivos. A presença de Deus no meio de todos é teologicamente questionada e existem discuções que se arrastaram séculos sobre isso.

Continuando no tema principal, o seguinte texto, também do Odù Oxétua (Ọ̀ṣẹ́tùwá) foi obtido do babaláwo Oyègbadé Ọlátọ̀nà, que é o Òjùgbọ̀nà awo de Òṣogbo.

...Olódùmarè os saudou
e perguntou sobre a décima sétima pessoa
Olódùmarè perguntou para eles “por que
vocês não se consultam com ela?”
Eles responderam, “É porque
ela é a única mulher entre nós”
Olódùmarè disse, “Não isso não pode ser assim!
Óxun (Ọ̀ṣun) é a principal mulher”
Olódùmarè disse,
“Boríborí, é seu babaláwo em Irágberí,
é parte do oráculo de Óxun (Ọ̀ṣun).
Egba (Ẹ̀gbà) seu babaláwo em Ìlukàn,
é parte do oráculo de Óxun (Ọ̀ṣun).
Èṣe, que È seu babaláwo
em Ìjẹbú Ẹrẹ̀
é parte do oráculo de Óxun (Ọ̀ṣun).
Átomú seu babaláwo na cidade de Ìkìre
é parte do oráculo de Óxun (Ọ̀ṣun)
Estes babaláwo
Eles permitem que uma pessoa faça negócios
ele permitem que uma pessoa tenha ganhos
mas eles não permitem que uma pessoa leve seus ganhos para casa
Olódùmarè disse
“O que vocês eram ignorantes
é o que vocês agora sabem.
Voltem ao mundo
e consultem com Óxun (Ọ̀ṣun)

Nesses versos Olódùmarè deixa claro que nada poderá ocorrer sem Óxun (Ọ̀ṣun) e que seu poder é necessário para os seus pares masculinos. O poder de Óxun (Ọ̀ṣun) é exercido através de seus 4 poderosos mensageiros: Boríborí (vencedor), ẹ̀gbà (paralisia), èṣe (ofensas) e atómú (captorcapaz e forte). Eles são parte do oráculo de Óxun (Ọ̀ṣun) e vieram com ela no princípio da existência.

O poder de Óxun (Ọ̀ṣun) é materizalizado nas mulheres através da Ajé (Àjẹ̀), as mais temidas, as mais poderosas e as mais reverenciadas mulheres no culto Yorùbá.

Ajé (Àjẹ̀) manifesta o poder no ponto de vista Yorùbá. Elas são misteriosas, difíceis, poderosas, temíveis e onipresentes. Elas mantêm o equilíbrio entre as diversas forças do mundo espiritual e mundano. Foram elas que impediram os Odù de trabalhar e levaram a criação de Oxétua (Ọ̀ṣẹ́tùwá).

É interessante reconhecermos o valor e importância dessa força. Damos muito valor ao Orixá, com razão, mas quem define o que vinga ou não nesse mundo são esas forças. A força de Ajé esta no nosso patamar, no nosso nível e influencia diretamente o que fazemos. É uma força que pode ser usada para o bem ou para o mal.

Assim esse papel de bem e mal não cabe a Exu (èṣù) como muitos podem pensar. Esse papel cabe a Ajé (Àjẹ̀). Exu é uma força divinda que sempre opera para o bem e sempre baseada na ética da religião. O problema pode ser que o bem de um é o mal de outro. Mas nesse caso vale o mérito ou a necessidade. O bom caráter é a coisa mais importante e nos versos de Ifá a situação na qual alguém perde algo que pode recuperar ou que não lhe faz falta para outro que necessitava ou merecia é muito frequente. Esta é a lógica de Exu (èṣù). Alguém que falha em fazer o que lhe foi prescrito em oráculo é alguém que poderá sofrer a conseqüência de uma ação de Exu (èṣù).

quarta-feira, janeiro 20, 2010

Qual o significado de um ebó (ẹbọ)?

Qual o significado de um ebó (ẹbọ)?

O termo ebó (ẹbọ) tem pelo menos 2 significados práticos. O primeiro quando é usado para denominar um processo de limpeza, chamado também de sacudimento por muitos. O segundo quando é usado genericamente para o ato de fazer uma oferenda e as vezes para a oferenda em si, não importando se esta oferenda é uma comida ou sangue. A palavra ebó (ẹbọ) – significa sacrifício e devemos entender isso de uma forma ampla e não somente o que requer sangue. 
 
O ebó (ẹbọ) uma oferenda a ser feita para os ancestrais ou orixá (òrìṣà) em agradecimento por benção recebidas ou na intenção de resolver problemas ou obstáculos, abrir portas e oportunidades. Os itens normalmente se compõe de itens comestíveis como frutas frescas, água, bebidas destiladas, mel e azeite. Além disso o ebó (ẹbọ) pode conter outros itens como dinheiro, roupas, búzios e ervas. Alguns tipos de ebó (ẹbọ) são colocados dentro de casa e outros devem ser colocados no tempo.


Ebó (ẹbọ), é assim uma oferta ritual, um forte elemento e o motivo final do processo de consulta ao oráculo. Ele tem uma função central no processo de consulta. O ritual de oferta consiste de uma liturgia elaborada com objetivo de apresentar uma comida e bebida através dos quais o homem manipulará e usará para intermediar com as divindades em seu próprio benefício. O relacionamento entre os seres humanos e as divindades é expressado e obtido através da execução de rituais e liturgias, e isso ocorre em qualquer religião sendo essa, a ritualização, a base da necessidade e existência das religiões uma vez que a sua razão é a ligação entre o homem e o divino.


A colocação ou citação do oráculo como parte do processo de um ebó (ẹbọ) é intencional, em se tratando de Candomblé ou de Ifá, não existe sentido em se estabelecer a necessidade de se fazer um ebó (ẹbọ) sem que o oráculo esteja envolvido.


Estamos tratando de uma processo de transmissão, equilíbrio e reposição de axé (àṣẹ) através de orixá (òrìṣà) e com a interferência de um “operador” qualificado o sacerdote, dessa forma a necessidade disso, a composição, local, etc. tem que ter sido definido através do oráculo, é assim que as coisas funcionam, isso não é Umbanda.


Os rituais e litugias conectam o mundo físico ao mundo espiritual de forma a trazer harmonia e equilíbrio para o nosso dia a dia. A realização das liturgia e rituais através do ebó (ẹbọ) re-ordena e corrige o relacionamento entre a divindade e o homem trazendo o equilíbrio que se deseja.


Segundo Abímbọ́lá, todo conflito no cosmo Yorùbá pode ser eventualmente resolvido através do uso do ebó (ẹbọ). O sacrifício é a rama que traz a solução e tranquilidade ao universo e que ordena os problemas do dia a dia.


Quatro coisas são importantes para a eficácia de um ebó (ẹbọ). A primeira é o correto uso de cada elemento ritual que é especificado para o odù que foi revelado na consulta ao oráculo. Segundo isto tem que ter objetivo e propósitos reais e sinceros. Terceiro, tem que ser espiritualmente tratado por sacerdotes. Quarto, existe a necessidade de existir uma integração entre o sacerdote, o consulente e as forças espirituais que serão movimentadas para se obter o resultado desejado. Mais ainda, quando este relacionamento é próximo, as ervas, se forem necessárias, irão curar de fato.


Algumas vezes o ebó (ẹbọ) não virá na forma de uma oferenda física, mas sim através de regras de comportamento e proibições. Por exemplo, não frequentando alguns lugares, não consumindo determinado tipo de alimento, não fazendo determinado tipo de tarefa ou comportamento, adotando uma rotina de rezas, etc..


Uma parte muito importante de um ebó (ẹbọ) é se determinar a quantidade de tempo que ele vai ficar exposto e o local onde será colocado depois. Alguns Odú podem permitir colocar seu ebó (ẹbọ) em uma lixeira, mas normalmente algum lugar da natureza poderá ser a melhor escolha. Esta definição é parte do processo do oráculo.


Mas em relação a seu significado o mais importante é entender que o ebó (ẹbọ) é mais do que um conjunto de itens físicos. Ele é parte de um sistema de forças e energia que é movimentado no momento em que se inicia a consulta ao oráculo, quando olódùmarè se utilizará de Orunmilá (ọ̀rúnmìlà) e de seus ministros, os orixá (òrìṣà) e ancestrais, para poder mudar ou corrigir uma determinada situação, e neste processo, exu (èṣù) é o elemento transportador de energia, ou axé (àṣẹ). Assim todo o conjunto espiritual que compõe os fundamentos da religião se movimentam através de uma simples consulta a Ifá, ou seja, um jogo de búzios.


Não podemos entender o significado de um ebó (ẹbọ) se não compreendermos este sistema metafísico que está envolvido e suas diversas engrenagens. O oráculo diagnostica e nos remedia através de odù que recebemos no Opon (ọpọ́n). O odù serve para nos indicar o que existe em torno de nós, como uma mensagem, e também para nos trazer a energia bruta que será manipulada para resolver o problema. O odù é assim como se fosse uma “célula tronco” que através do olhador, das rezas e encantamento e do ebó (ẹbọ) será manipulado para se resolver o problema do consulente.


Este é inclusive um dos motivos que se indica não manipular odù se não se tiver o conhecimento necessário. Pode-se estar trazendo para perto de sí uma energia bruta não lapidada que pode influenciar a pessoa, sua casa e família de forma negativa se não for adequedamente conduzida e transformada. Se fosse simples não haveria necessidade de todo o conhecimento, todas as cerimônias de iniciação e todo o tempo de aprendizado no qual o olhador se alinha com as forças metafísicas e supernaturais que vão ajudá-lo no seu trabalho. Eu considero que não é apenas teoria ou cerimônias de iniciação, é necessário prática para que as engrenagens metafísicas de alinhem e se adaptem à pessoa.


O conceito básico do uso do ebó (ẹbọ) é que temos um desequilbrio de energia e isto está afetando a nossa vida, assim precisamos corrigir o àṣẹ́ do consulente e isto é feito através do odù que recebemos e da energia que está contida em cada elemento do ebó (ẹbọ) . Olódumàrè quando criou cada elemento na terra colocou nele um espírito ou uma energia metafísica que da a ele um propriedade especial. As folhas são elementos poderosos na acumulação dessas propriedades e por isso extremamentes importantes ao uso que damos. Esta energia está então contida em cada elemento existente no aiyé e sera extraída e manipulada através de um “operador” qualificado. Este operador empresta a esse processo o seu próprio aṣẹ́ que funcionando como uma “quintessência” irá retirar a energia própria de cada elemento do ebó (ẹbọ).


Seria muito simples se qualquer pessoa pudesse pegar um elemento “expremê-lo” e tirar dele a sua propriedade divina, como se tira o suco de uma fruta. As vezes isso pode ser assim e algumas pessoas tem o axé (àṣẹ) necessário para fazer isso e, por essa razão, é que algumas coisas funcionam quando feitos por uma pessoa e por outra não. O que eu penso é que esta propriedade divina, ou natural de cada elemento, não é um aṣẹ́ ainda no sentido que aṣẹ́ é a energia em movimento. Quem tem o aṣẹ́ somos nós seres vivos e o nosso aṣẹ́ é necessário para retirar a propriedade de cada material. É claro que as plantas estão vivas e por isso mesmo tem o axé (àṣẹ), isso é o que faz delas um componente tão importante e por isso que qualquer pessoa pode usar com bons resultados as ervas para fazer banhos. Independente do o axé (àṣẹ) dessa própria pessoa as folhas quando usadas frescas tem o seu próprio axé que é assim transmitido para quem recebe o banho.


A liturgia de quinar as ervas com cânticos e encantamentos e feitos pelo próprio sacerdote é uma processo liturgico mais forte porque diretamente está havendo manipulação, transferência e amplificação do o axé (àṣẹ) do sacerdote através das folhas, que se soma ao o axé (àṣẹ) das ervas fazendo fluir e acumular no banho de ervas preparado e encantado uma “bateria” viva de o axé (àṣẹ).


O uso de elementos preparados, manipulados e cozidos é uma outra variação e, através desse processo “alquímico”, estamos manipulando, transformando, amplificando e canalizando as propriedades de todos os elementos envolvidos para o fim que desejamos. Mas, nesse caso de elementos preparados, as suas propriedades são estáticas, como um alimento comum. A “virtude” existe neles, mas será o aṣẹ́ do sacerdote que irá colocar isso em movimento retirando deles essa propriedade e fazendo-a funcionar na forma de energia dinâmica, ou seja o axé (àṣẹ).


Neste momento estamos também colocando em movimento uma aṣẹ́ muito mais importante que é o das divindades, os orixá (òrìṣà), que assistem o sacerdote e que irão se utilizar da propriedades desse elementos que estarão preparados para o uso através do seu o axé (àṣẹ). Aqui então entramos na área onde devemos entender as especializações das divindades. Cada orixá (òrìṣà) tem afinidades com elementos e locais que faze parte do aiyé. O sacerdote deve conhecer essas afinidades para que possa se utilizar disso.


Desta forma ao usarmos o axé (àṣẹ) de uma divindade temos que conhecer os elementos que fazem parte de sua afinidade e a forma de serem preparados para a amplificação ou mesmo abertura de suas propriedades. A natureza e todo o aiyé é um repositório de energias metafísicas e o sacerdote deve, com um garimpeiro ou como um lavrador, procurar os locais onde ela aflora e se manifesta ou também cultivar locais onde estas energias se concentrarão. Um terreiro ou casa de santo é um local que é então preparado para acumular ou fazer aflorar a energia do aiyé e dos orixá (òrìṣà). Dessa forma muitos ẹbọ serão feitos na própria casa de santo. Em outros casos o sacerdote vai procurar o seu local de afloramento, circulação ou acumulação na própria natureza. Não se pode por exemplo ter a energia de uma praia dentro do terreiro, ou de uma estrada ou de uma encruzilhada, ou do alto de uma montanha, etc...


É o conhecimento desse fundamentos que permite a um bom sacerdote ter os melhores e mais efetivos resultados. Uma pessoa com conhecimento e axé (àṣẹ) poderá amplificar as energias da natureza, dos elementos e dos òriṣà, obtendo os resultados mais efetivos. Os locais da natureza, o cuidado do sacerdote na manutenção do seu axé (àṣẹ) (pelas suas obrigações, observância de preceitos, afastamentos dos ewọ̀ do seu odù e orixá (òrìṣà)), as horas do dia e dias do mês (em função de horários e fase da lua mais apropriados) e as cantigas e encantamentos serão no seu conjunto e individualmente elementos que aplificarão a energia e por isso mesmo dão mais eficácia ao ebó (ẹbọ).


Assim o ebó (ẹbọ) é formado pelo conjunto de tudo isso que citei aqui. Elementos que contém virtudes divinas e mesmo aṣẹ́, como é o caso das folhas, da energia que está na natureza, do axé (àṣẹ) dos orixá (òrìṣà) e do axé (àṣẹ) do próprio sacerdote, que ao longo de toda sua vida acumula não só conhecimento como também acumula aṣẹ́ para poder ser transmitido para que ele ajuda ou para retirar e ser amplificado pelos elementos que ele manipula.


Não podemos esquecer que em todo este processo o Orí da pessoa foi o elemento ativo de comunicação e como uma divindade pessoal do consulente nada poderá ou ocorreu sem o seu consentimento.


Assim quando a pessoa e seu Orí se sentam no espaço sagrado do olhador de Ifá este irá invocar ọ̀rúnmìlà para que este como o eleri ipin (ẹlẹ́rí ìpín), ou testemunho do compromisso entre o consulente e seu orí e olódùmarè, possa analisar a situação que está ocorrendo e avaliar se os problemas fazem parte do destino pessoal daquela pessoa ou não, são parte dos problemas de terra que podem ser eliminados ou amenizados. Neste momento ọ̀rúnmìlà é a boca através da qual falam o Orí, os orixá (òrìṣà) e ancestrais do consulente e, sem dúvida nenhuma olódùmarè que sempre está presente em nossa vida.


O odú contém ao mesmo tempo a mensagem e a solução do problema e tudo se faz através de energia e equilíbrio, mas sempre através das mãos das divindades que assintem a vida do consulente. Desta forma os elementos físicos que compõe o ẹbọ trazem suas energias individuais e seu axé (àṣẹ). O elementos físico será transmutado em energia que será utilizada como força a ser colocada em movimento por estas divindades para atuar na situação colocada.


Por fim eu gostaria de abordar uma mistificação ligada a ebó (ẹbọ). De nenhuma maneira ao fazermos um ebó (ẹbọ) estamos alimentando divindades ou espíritos. Estamos dando início a uma roda de energia que irá ser movimentada em benefício do próprio consulente, ou seja, estamos dando ignição a uma corrente do bem. Desta maneira tudo o que é colocado em um ebó (ẹbọ) desde a qualidade dos elementos até o carinho que isto é feito irá retornar para nós mesmos.


Uma divindade não necessita de comer, o seu nível de evolução espiritual a coloca em uma condição que elas existem para nos ajudar e não ao contrário, mas, não estamos no Orun (ọ̀run) e sim no aiyé, desta maneira necessitamos transformar energia. Como todos sabemos energia não se cria do nada, se transforma a partir de uma fonte já existente. Por esta razão é que usamos o ẹbọ como uma fonte de energia que será gerada para que o que necessitamos de aṣẹ possa ser obtido.


É ridícula a imagem que passam de que aquela comida vai agradar a algum orixá (òrìṣà) e que ele assim comendo e bebendo vai se dispor a nos ajudar. É também ridícula a fala de que um espírito não nos ajuda porque não o ajudamos ou o alimentamos. Minha opinião é que este tipo de mistificação é a primeira coisa que deve ser esquecida por alguém que quer aprender algo.


Qual o significado de um Igbá?

Qual o significado de um Igbá?


Consulte aqui a versão atualizada deste texto


Na religião Yorùbá, Igbás (awọn igbá) são assentamentos de orixá (òrìṣà). Um assentamento é uma representação do orixá (òrìṣà) no espaço físico, no mundo, no aìyé. Sob o ponto de vista sacro não existem representações humanas de orixá (òrìṣà).

A religião Yorùbá não tem imagens para representar suas divindades, o que representa uma divindade é o seu Igbá, ao olharmos um Igbá é como se estivéssemos olhando para a divindade. Secularmente existem representações em forma de desenhos e esculturas mas que são frutos apenas de criatividade de artistas e não tem uso sacro.

Os orixá (awọn òrìṣà) são adequadamente representados por símbolos e grafismos próprios de cada um e por extensão por outros elementos como folhas, arvores, favas e contas. Mas o Igbá é a sua representação mais adequada.

Vale refazer a afirmação, já explicada em outro material, de que o orixá (òrìṣà) não são elementos da natureza, assim “olhar” o vento não significa olhar para oya, olhar uma pedra não significa olhar para Xango (ṣàngó), olhar para o mar não significa olhar para yemoja, etc..

O mesmo sentimento que um católico tem ao olhar para uma imagem de um santo em sua igreja e altar, o povo de santo tem ao olhar para um igbá. É muito comum as pessoas, nos seus quartos de santo, “vestirem” seus Igbá com suas roupas de orixá (òrìṣà) como se fosse o próprio orixá (òrìṣà). Contudo, igbá são de acesso muito restrito, de uso exclusivamente sacro e ritualístico, não tem visibilidade pública e ficam guardados dos olhos de todos.

Dessa maneira, cada Igbá representa uma divindade através de um continente (Vaso, invólucro, recipiente) e seu conteúdo, e esse conjunto, continente e conteúdo é específico de cada divindade. Esses continentes podem ser de porcelana (substituindo cabaças), barro ou madeira e serão empregados distintamente para cada divindade que ele representa. São usados elementos físicos comuns, como tigelas, sopeiras, pratos, bacias e alguidares.

O iniciado no seu processo de feitura (que é distinto de uma iniciação mas muitas vezes essas expressões se confundem) poderá receber um ou vários Igbá, dependendo do seu status na religião e da própria tradição da casa em conduzir este ritual.

Mas o igbá não é o orixá (òrìṣà) no aìyé. Essa religião não coloca um orixá (òrìṣà) dentro de uma sopeira, não é uma religião animista. O igbá representa apenas a ligação entre os 2 espaços, o espaço físico aìyé e o espaço espiritual o Orun (ọ̀run). É uma “ponte” entre os 2 espaços. Sua função não é trazer o orixá (òrìṣà) para o aìyé porque os orixá (òrìṣà) já estão presentes em nossa vida o tempo todo, não existe secularismo na religião. Sua função é completamente ritualística.

O igbá é, de fato, dentro de toda a religião Yorùbá uma dos elementos mais importantes e significativos por traduzir a contínua relação entre o Orun (ọ̀run) e o aìyé. Ele representa o reconhecimento da existência do espaço espiritual, o Orun (ọ̀run), e a ligação perene que existe entre os 2 espaços (ọ̀run-aìyé) na forma de um contínuo duplamente alimentado e da circulação, transformação e reposição de axé (àṣẹ). Dessa maneira o seu valor não esta somente na sua existência como instrumento ritualístico, como foi ressaltado no início, mas também no que ele representa.

Toda religião tem símbolos e simbolismos. Uma cruz para os católicos representa muito também: todo o significado da paixão e do sacrifício de Jesus. Assim esse símbolo traduz em sí muito mais do que somente a lembrança da crucificação de Jesus e sim um todo da sua doutrina, poderíamos falar muito apenas olhando para uma cruz. O mesmo vale para um Igbá. Nada é mais sagrado por sí só pelo seu uso e nada pode traduzir tanto da doutrina que cobre a religião Yorùbá como o entendimento da sua função.

O Igbá é uma manifestação de Fé, e por isso um reconhecimento de nossa Fé na religião. De acordo com a metafísica Yorùbá, para tudo que existe no aìyé existe um duplo no Orun (ọ̀run). O Igbá é um elemento de ligação entre essas 2 porções e um instrumento de concentração de energia. É usado para nos ligarmos às divindades, liga o físico à dimensão espiritual, a dimensão aìyé à dimensão Orun (ọ̀run).

O objetivo de um Igbá é potencializar a ligação Orun-aìyé (ọ̀run-aìyé) sendo o instrumento que no aìyé representa o duplo do Orun (ọ̀run). O Igbá esta vinculado diretamente à uma pessoa no aìyé mas não a representa e sim ao duplo do Orun (ọ̀run). Como já foi dito ele não armazena um orixá (òrìṣà), ele não é uma lâmpada mágica que esfregamos para dali sair um orixá (òrìṣà). Ele é a ponte de ligação direta entre o aìyé e o Orun (ọ̀run) entre o iniciado no aìyé e suas energias e divindades no Orun (ọ̀run).

Um dos principais usos que se dá a ele é receber os Ebós (ẹbọ), que são sacrifícios de todo o tipo, entendendo que o sentido de sacrifício na religião não envolve o uso de sangue em sí. Um sacrifício por ser qualquer oferenda que vai se converter em axé (àṣẹ). Um Obi é um sacrificio, um Acaça é um sacrifício e pode substituir um boi.

Esse aspecto de participar ativamente de Ebós (ẹbọ) é uma finalidade muito importante, mas não imprescindível. Não se precisa de uma Igbá para fazer uma oferenda, mas, todo sacerdote tem e usa os seus para isso. Isso tem todo o sentido, sendo o Igbá um elemento de ligação ou de potencialização dessa ligação como esta sendo dito realizar isso junto a eles é fazer esse instrumento funcionar.

Em outro material esta muito bem explicado essa questão do Ebós (ẹbọ) mas é importante lembrar que um Ebós (ẹbọ), uma oferenda é um parte de um processo de transmissão e reposição de axé (àṣẹ) e os elementos utilizados são transmutados em energia, em axé (àṣẹ).

Dessa maneira ao se fazer isso através de um Igbá esta se fazendo chegar ao duplo do Orun (ọ̀run) referenciado por aquele Igbá a transmutação da energia dos elementos afins a ele que foram usados no sacrifício.

O ponto que esta sendo ressaltado é que o Igbá em um Ebó (ẹbọ) é o instrumento que direciona, potencializa e agiliza a este ase chegar ao Orun (ọ̀run). O Igbá não é um instrumento para “alimentar” o iniciado no aìyé.
O Igbá pode ser coletivo ou individual. Quando coletiva chama-se Ajobó (ajọbọ) e liga uma comunidade a sua comunidade espiritual, ao coletivo que ela representa e a divindade que a protege. Quando individual liga a pessoa ao seu reflexo no Orun (ọ̀run).

Do que é feito um Igbá?

O Igbá é feito usando materiais que estão ligados à divindade que ele representa. Assim o material e o seu conteúdo ajudam a estabelecer a relação, devendo ser utilizados sempre elementos completamente afins com a divindade e que traduzem a matéria original do Orun (ọ̀run). Conhecer essas relações e afinidades é parte do aprendizado de um iniciado durante sua vida e somente aqueles que as conhecem terão verdadeiro sucesso no seu trabalho ritualístico.

O principal elemento dentro de um Igbá é a pedra, o okuta. Acima de todos os demais componentes ela receberá todo o trabalho ritual de preparação e por essa razão muitos dizem que é a única coisa importante, todo o demais é apenas decorativo. O pedra para os Yorùbá significa a longevidade a existência perene. Os demais elementos fazem parte do enredo do orixá (òrìṣà) de maneira que não são apenas decorativos. Entretanto muitos itens que são colocados em um igbá pode ser meramente decorativos.

Os demais elementos em um Igbá variam entre metais, favas, folhas e outros materiais que remetem ao orixá (òrìṣà) original. O elemento escolhido para o continente do Igbá também terá relação direta com ele. Tudo dentro de um Igbá é feito para traduzir a matéria original do Orun (ọ̀run) que foi materializada no aìyé através do iniciado ou da comunidade que o Igbá representará.

A escolha de cada elemento depende de para quem será feita a ligação. Cada orixá (òrìṣà) tem os seus elementos correspondentes no aìyé. Adornos e enfeites exteriores que apenas agradam ao ego de quem faz não ajudam nisso. O importante são as folhas, as favas, os metais e outros elementos genéricos como os búzios. Entendo que moedas, muito presentes, deveriam ser representadas apenas pelos búzios, que eram dinheiro, mas muita gente coloca mais como um desejo de prosperidade do que um elemento de ligação de fato.

O material do recipiente externo é escolhido entre algumas opções. A cabaça é substituída pela porcelana branca para os orixá (òrìṣà) fun fun, o barro e excepecionalmente a madeira para um orixá (òrìṣà) específico. As cores desses materiais e elementos decorativos vão compor esse conjunto de forma harmoniosa. Para os caso das cores existe muita criativade. Os Yorùbá reconhecem apenas 3 cores, o branco, o vermelho e o preto. Todas as demais cores são elementos de uma dessas 2 famílias e as representam da mesma maneira. Assim o verde e o azul são elementos da cor preta. O amarelo do vermelho e por assim vai.

Todo Igbá individualizado é composto de um recipiente com tampa (continente) contendo a pedra, okuta, o núcleo do Igbá e os demais elementos com água, óleos e outros elementos líquidos. O igbá sem tampa são usados em assentos coletivos, não individualizados, eventualmente casas e axé (àṣẹ) podem fazer variações disso.

O vínculo Ọrun-aìyé

Uma questão importante quando falamos de Igbá é o que ele traduz de fato e a questão de a quem pertence e o que ele traduz . Como explicado, já extensivamente, é um elemento de ligação e pode ser coletivo ou individualizado, mas, como explicado nunca é o orixá (òrìṣà) no aìyé.

Os aspecto coletivo-indivíduo também é uma das características marcantes da ritualística da religião. Estamos todo o tempo lidando com essas 2 faces do divino que é coletivo como todo o divino, mas, para os iniciados, os sacerdotes totalmente individualizado em sua manifestação.

O exemplo mais individualizado possível do divino é o do Igbá ori. Nada é mais próprio, pessoa e individualizado do que um Igbá Ori. Seguindo o que repetimos a exaustão, o Igbá é a representação no aìyé do duplo no Orun (ọ̀run), o ori no Orun (ọ̀run) a divindade pessoal, que esta no Orun (ọ̀run) e nos protege, guia nossos passos, abre e fecha nossos caminhos e esta acima de qualquer orixá (òrìṣà) em nossa vida. Não representa o Ori que está no aìyé uma vez que esta resida na própria pessoa. Usamos o Igbá ori para chegar ao Ori no Orun (ọ̀run) o duplo por excelência. No processo que chamamos de Bori a oferenda ao Ori, o processo de reposição de axé (àṣẹ), duas entidades serão alimentadas com axé (àṣẹ) o duplo do Orun (ọ̀run) e o Ori que esta no aìyé.

O Igbá Ori nesse processo e durante o processo, é criado e é por excelência o elemento fundamental na execução de um Bori mas pode não mais existir após a sua execução. Uma vez realizado o Bori ele pode ser desfeito, despachado junto com os demais elementos utilizados e oferecidos. Contudo nada impede, como provavelmente na maior parte das vezes, ele ser preservado tornando mais perene e forte o vínculo Orun-aìyé (ọ̀run-aìyé) .

É claro que esse vínculo não se perde quando despachamos o Igbá, da mesma forma que nenhum vínculo de desfaz quando despachamos um Igbá ou não o temos. O Igbá é um instrumento de intensificação disso a ser criado e usado por que sabe o que esta fazendo.

Na tradição do Candomblé onde o culto ao Ori se manteve sempre presente e importante não se faz um Bori sem que seja criada a representação no aìyé do Ori. Não me interessa tratar aqui da forma como outras tradições religiosas da mesma base fazem isso porque muitas delas não o faziam e adotaram tardiamente copiando o que viam ou ouviam falar e muito menos o que tradições africanas que perderam a sua origem no processo de cristianização e islamização tendo que buscar em literatura suas origens. No Candomblé sempre foi feito assim.

Dessa maneira o Igbá Ori é um exemplo vivo, conhecido e forte do que foi dito aqui sobre o que é um Igbá, sua finalidade, seu uso e aplicação prática.

Voltando ao ponto do coletivo individual, no caso dos orixá (òrìṣà), na feitura de um olorixá o processo de ritual é todo voltado para a individualização. Assim, se inicia com o genérico que é o orixá (òrìṣà) e se faz a individualização deste através da ligação Orun-aìyé (ọ̀run-aìyé) para a pessoa, e isso é realizado no momento em que se cria a ligação Orun-aìyé (ọ̀run-aìyé) através do Igbá. Os animais que serão usados, os elementos colocados e dispostos, a ritualística de elaboração. Uma determinada qualidade será feita com o okuta indo ao fogo, etc... A individualização nascerá nesse momento e o Igbá por excelência é a marcação desse caminho, distinguindo assim um assento coletivo de um assento individual através da ligação Ori-okuta. O processo de individualização passará pela ritualística e também por materiais, metais, favas e folhas, específicos daquele orixá (òrìṣà) para aquela pessoa.

Já o orixá (òrìṣà) genérico será ligado através do Igbá genérico aquele que não passará pelo processo de individualização.

Dito isso voltamos ao ponto de que um Igbá òrìṣà criado dentro do processo de feitura não é um Igbá genérico ou coletivo, ele foi individualizado através da ligação Ori-okuta e sempre estará ligado aquele Ori.
Dentro da ritualística devemos lembrar que a pessoa é preparada para ser ele próprio o receptáculo do orixá (òrìṣà), o seu Igbá vivo. Um Ìyawó é um Igbá vivo do seu orixá (òrìṣà). O Igbá físico complementa isso ligando não mais o orixá (òrìṣà) genérico mas sim o orixá (òrìṣà) individualizado no Ìyawó ao orixá (òrìṣà) origem no Orun (ọ̀run) através de uma ligação individualizada, do Igbá individualizado.

Esse aparato físico ritualizado na iniciação deixa de ser matéria ordinária, barro, metal, ou fava e passa a constituir o caminho metafísico para o orixá (òrìṣà). Mas também não é mais uma ponte para o axé (àṣẹ) genérico do orixá (òrìṣà) e sim a sua fisicalização individualida naquele Ìyawó. Assim temos 2 caminhos, o caminho coletivo e genérico e o caminho individualizado. Os Igbá são os instrumentos de amplificação dessa relação entre os 2 espaços e o acesso ao ase de cada orixá (òrìṣà). Todo o processo de equilíbrio e restituição de axé (àṣẹ) passara por eles para ir ao duplo no Orun (ọ̀run) e retornar no aìyé para quem necessita.

Uma pessoa não será dependente de seus Igbá. Acima de tudo a relação desses espaços sempre existirá e jamais estamos não assistidos. Podemos não ter o instrumento de amplificação mas sempre teremos nosso ori e todos os orixá (òrìṣà).

A quem pertence um Igbá?

Um Igbá ori é tão pessoal que jamais deveria ser mantido no Ile, longe de seu dono. Esse Igbá é completamente individualizado uma vez que não encontraremos no Orun (ọ̀run) um Ori coletivo mas sempre individual de forma que ele e só tem sentido e utilidade pelo seu próprio dono. Deveria assim estar junto da pessoa na sua casa. Nos casos em que essa pessoa não tem condições de mantê-lo em casa o Ilê Axé (Ilé àṣẹ) é o lugar natural.

O problema sempre surge em relação aos Igbá de orixá (òrìṣà) que despertam grandes paixões. Esta é uma religião praticada em torno dos orixá (òrìṣà) e seu culto assume demais importância. Deveria ser um culto ao Ori, a família e a ancestralidade mas o culto ao orixá (òrìṣà) assume proporções muito grandes.
 
Uma pessoa durante o seu processo de iniciação poderá receber um ou muitos Igbás, tudo depende da tradição da casa. Eu entendo que o mínimo que uma pessoa deve ter após sua iniciação seria, o seu igbá ori (que já deveria existir bem antes, muito antes da pessoa se iniciar), o Igbá do seu orixá (òrìṣà) e o Igbá ou assentamento do Exu bara (èṣù bara) do seu orixá (òrìṣà). Esta conjunto Igbá orixá + Exu bara é básico e imprescindível.

A este conjunto básico outros elementos podem ser adicionados como o Igbá do seu juntó que é o seu segundo orixá (òrìṣà), e os Igbá do seu enredo de orixá (òrìṣà). Deve se entender por enredo o conjunto de orixá (òrìṣà) que formam sua energia no aìyé e isto esta diretamente ligado ao processo de individualização. Assim a quantidade e qualidade dos Igbá que uma pessoa terá como parte do seu “enredo” depende da sua qualidade de orixá (òrìṣà) e de seu próprio caminho na religião, coisa que só é determinado durante o processo de feitura e consultas ao Oráculo.

Algumas casas fazem todos esses Igbá durante o processo de iniciação, outras vão adicionando isso ao longo das obrigações de 1, 3 e 7 anos. Se a pessoa terá Oye de babalorixá (babalórìṣà) ou dependendo o oye que essa pessoa venha a ter, o conjunto de Igbás (awọn igbá) será distinto de pessoas que não terão oye – cargo sacerdotal. Observe que nem todo mundo que é iniciado nessa religião será um babalorixá (babalórìṣà) ou iyalorixá (ìyalórìṣà). A maior parte sera formada de egbons, mais velhos.

Um iniciado em uma casa terá então uma quantidade significativa de Igbás. Mas, a quem pertence isso, a quem pertencem esses Igbás? Digo isso porque todos devem ter conhecimento do problema envolvido na posse de Igbá orixá. Muitas casas não permitem que nunca a pessoa retire os Igbá de dentro dela, nem mesmo quando seria natural que é quando a pessoa completa seus 7 anos.

O mais comum é que após desavenças durante o seu período de Ìyawó a pessoa quera deixar o Ilê Axé (Ilé àṣẹ) e naturalmente queira levar consigo os seus Igbás. Muitos as vezes nem conseguem mais entrar e ficam preocupados tendo deixado para trás seus Igbás devido a eles representarem um ponto de vulnerabilidade.

De fato, todos tem razão. Um Igbá sempre será um ponto de vulnerabilidade, principalmente o igbá ori. Esse jamais deveria estar em um Ilê Axé (Ilé àṣẹ). Mas a primeira coisa que tenho a dizer é tome cuidado com o que faz da sua vida. Nunca entre em nada sem avaliar tudo antes. Tem que conhecer primeiro a casa, o dirigente e as pessoas que frequentam a casa. As pessoas se dão mal porque se precipitam, colocam a vaidade na frente. Assim se a decisão de iniciação for mais consciente os problema serão menores. Segundo não se sai de um Ilê Axé (Ilé àṣẹ) por qualquer motivo fútil. Se foi seu orixá (òrìṣà) que escolheu aquela casa (essa é a tradição, é o orixá (òrìṣà) que escolhe onde quer ser iniciado e não a pessoa) então se submeta aos caprichos de outros. Mantenha o seu respeito e sua individualidade mas vaidade por vaidade a sua deve ser a menor.

Durante uma feitura não existe apenas um processo de individualização existe também um processo de ligação com o axé (àṣẹ) da casa e do iniciador. Um Ìyawó está fortemente ligado a casa e a pessoa que o iniciou. O processo ritualístico leva componentes que criam essa ligação, assim o iniciador considera que aqueles igbá não são independentes, eles adicionaram axé casa e receberam axé da casa. Foram parte de um conjunto. É entendido que seu sentido de existir é dentro daquela casa.

Se a pessoa sair, que faça seus Igbá na sua próxima casa. De maneira que não estamos discutindo a propriedade de louças e barro e sim de asé. Isso é verdade. Se você deixa para trás os seus Igbás, não se preocupe, faça outros no próximo lugar que vai, o orixá (òrìṣà) vai com você.

Eu entendo que o ninguém segura ou fixa um orixá (òrìṣà) na sua casa mantendo o Igbá de um iniciado que se foi. O Igbá é uma individualização e só tem sentido, só tem função junto ao próprio iniciado. Se quiser manter um orixá (òrìṣà) em casa que trate melhor as pessoas.

O Igbá e a morte 

Com a morte do iniciado o Igbá deixa de ter sentido. A ligação não mais existe e se você não quer conviver com um egun atrás de você é recomendado que despache tudo junto. Existem pessoas que entendem que se deve consultar o Oráculo para saber se o orixá (òrìṣà) quer ir embora ou não, ou seja, se o Igbá vai ou não no carrego e em vitude dessa consulta muitos Igbá ficam no Ilê Axé (Ilé àṣẹ). Entendo que é um forma de ver isso. Acho mais natural que tudo se vá, não há motivo para se manter um vínculo Orun-aìyé (ọ̀run-aìyé) com um ori que não mais existe no aìyé isso vai contra o fundamento do axexe (aṣeṣe), mas, cada um siga sua consciência e o que aprendeu.