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sábado, janeiro 23, 2010


A missão e o poder dos Orixá
Olódúmarè constroi o equilibrio em Oxétua - Ọ̀ṣẹ́-Otùwá

O texto a seguir é transcrição do Odù Ọ̀ṣẹ́-Otùwá como esta registrado no livro Os Nagô e a Morte, de Juana Elbein. Somente está transcrita a versão em português.

A qualidade do conteúdo foi verificada. O mesmo conteúdo foi encontrado, com algumas pequenas variações em outros livros de outros autores de diferentes nacionalidades de maneira que o texto não é inventado ou falso.

O objetivo de transcrever este texto aqui com comentários é devido a importância do seu conteúdo para entendermos a religião Yoruba e suas bases. Existem informações importantes e sua análise e entendimento contribuem muito para a compreensão do universo metafísico que estamos lidando, de maneira que, deve ser considerado de leitura e conhecimento obrigatório por quem quer entender o conteúdo teológico Yoruba.

Mas notem que o sentido não é aumentar a sopa de letras em palavras em Yorùbá. O objetivo é que as pessoas entendam a religião que esta em volta e acima de toda a prática do dia a dia.
...que devia consultar
o porta-voz-principal-do-culto-de-Ifá;
a nuvem está pendurada por cima da terra...
Babaláwó-dos-tempos-imemoriais, os-”siris”-estão-no-rio
a-marca-do-dedo-requer-yererosun (Yẹ̀rẹ́ròsùn - pó adivinhatório de Ifá).
Estes foram os Babaláwó que jogaram Ifá para
os quatrocentos irunmalé (Irúnmalẹ̀), senhores do lado direito, e jogaram Ifá para os duzentos irunmalé (Irúnmalẹ̀), senhores do lado esquerdo.
E jogaram Ifá para Óxun (Ọ̀ṣun),
que tem uma coroa toda trabalhada de contas,
no dia em que ele veio a ser o décimo sétimo dos irunmalé (Irúnmalẹ̀) que vieram ao mundo,
quando Olódúmarè enviou os Orixá (òrìṣà),
os dezesseis, ao mundo,
para que viessem criar e estabelecer a terra.
E vieram verdadeiramente nessa época.
As coisas que Olódúmarè lhes ensinou
nos espaços do Órun (ọ̀run) constituíram os pilares de fundação
que sustentam a terra para a existência de todos
os seres humanos e de todos os Ébóra (ẹbọra).
Olódúmarè lhes ensinou que
quando alcançassem a terra,
deveriam abrir uma clareira na floresta, consagrando-a
a Orò, o Igbò orò.
Deveriam abrir uma clareira na floresta, consagrando-a
a Eégún, o Igbó-Eégún que seria chamado Igbó-Opa (Igbó-Ọ̀pá).
Disse ele que deveriam abrir uma clareira
na floresta consagrando-a a Odù-ifá, o Igbó Odù,
onde iriam consultar o oráculo a respeito das pessoas.
Disse ele que deveriam abrir um caminho para os Orixá (òrìṣà)
e chamar esse lugar igbó Orixá (òrìṣà), floresta para adorar os Orixá (òrìṣà).
Olódúmarè lhes ensinou a maneira como deveriam resolver
os problemas de fundação (assentamento) e adoração dos ójubo (ọjúbo) (lugares de adoração)
e como fariam as oferendas
para que não houvesse morte prematura,
nem esterilidade, nem infecundidade,
que não houvesse perda,
nem vida paupérrima, não houvesse nada
de tudo isso sobre a terra.
Para que as doenças sem razão
não lhes sobreviessem,
que nenhuma maldição caísse sobre eles,
que a destruição e a desgraça não se abatessem sobre eles.
Olódumarè ensinou aos dezesseis Orixá (òrìṣà) o que eles deveriam realizar
para evitar todas essas coisas.
Ele os delegou e enviou à terra,
a fim de executarem tudo isso.
Quando vieram ao òde-àiyé, a terra,
fundaram fielmente na floresta o lugar de adoração de Orò, o Igbó-Orò.
Fundaram na floresta o lugar de adoração de Eégún.
Fundaram na floresta o lugar de adoração de Ifá que chamamos Igbo òdú.
Também abriram um caminho para os Orixá (òrìṣà), que chamamos igbó-òòsa.
Executaram todos esses programas visando a ordem.
Se alguém estava doente, ele ia consultar Ifá ao pé de Órunmila (Ọ̀rúnmìlà).
Se acontecia que Eégún podia salva-lo, dir-lho-iam.
Seria conduzido ao lugar de adoração na floresta de Eégún,
ao Igbo-igbalé (Igbó-ígbàlẹ̀).
para que ele fizesse uma oferenda a Egúngún.
Talvez que um de seus ancestrais devesse ser invocado como Eégún,
para que o adorasse, a fim de que esse Eégún o protegesse.
Se havia uma mulher estéril,
Ifá seria consultado, a respeito dela,
a fim de que Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) pudesse indicar-lhe a decocção
de Óxun (Ọ̀ṣun) que ela deveria tomar.
Se havia alguém que estava levando uma vida de miséria, Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) consultaria Ifá, a respeito dele.
Poderia ser que Orò estivesse associado à sua própria entidade criadora.
Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) diria a essa pessoa que
é a Orò que ela devia adorar.
E ela seria conduzida à floresta de Orò.
Eles seguiram essas práticas durante muito tempo. Enquanto realizavam as diversas oferendas, eles não chamavam Óxun (Ọ̀ṣun).
Cada vez que iam à floresta de Eégun,
ou à floresta de Orò,
ou à floresta de Ifá.
ou à floresta de òòṣà,
a seu retorno, os animais que eles tinham abatido,
fossem cabras,
fossem carneiros,
fossem ovelhas,
fossem aves,
entregavam-nos a Óxun (Ọ̀ṣun) para que ela os cozinhasse.
Preveniram-na que quando ela acabasse de preparar os alimentos,
não devia comer nenhum pouco, porque deviam ser
levados aos Malè, la onde as oferendas são feitas.
Óxun (Ọ̀ṣun) começou a usar o poder das mães ancestrais —
ìyá-mi-àje - e a estender sobre tudo o que ela fazia
esse poder de ìyá-mi-àjé, que tornava tudo inútil.
Se se predissesse a alguém que ele ou ela não fosse morrer,
essa pessoa não deixava de morrer.
Se fosse proclamado que uma pessoa não sobreviveria,
a pessoa sobrevivia.
Se se previsse que uma pessoa daria a luz um filho,
a pessoa tornava-se esteril.
Um doente a quern se dissesse que ele ficaria curado
não seria jamais aliviado de sua doença.
Essas coisas ultrapassavam seu entendimento,
porque o poder de Olódúmarè jamais tinha falhado.
Tudo o que Olódúmarè lhes havia ensinado eles o aplicavam,
mas nada dava resultado.
Que era preciso fazer?
Quando se congregaram numa reunião,
Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) sugeriu que,
já que eles eram incapazes de compreender o que se estava passando por seus próprios conhecimentos,
não havia outra solução senão consular Ifá novamente. Em conseqüência, Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) trouxe seu instrumento adivinhatório,
depois consultou Ifá.
Contemplou longamente a figura do Odù que apareceu
e chamou esse Odù pelo nome de ọ̀ṣẹ́tùwá,
Ele o olhou em todos os sentidos.
A partir do resultado definitivo de sua leitura,
Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) transmitiu a resposta a todos os outros Odù-àgbà.
Estavam todos reunidos e concordaram que não havia outra solução para todos eles,
os Orixá (òrìṣà)-irumale (Irúnmalẹ̀), senão encontrar um homem sábio e instruido que pudesse ser enviado a Olódúmarè
para que mandasse a solução do problema
e o tipo de trabalho que devia ser feito para o restabelecimento da ordem,
a fim de que as coisas voltassem a normalizar-se, e
nada mais interferisse em seu trabalho.
Diziam que tudo o que acontecesse,
Órunmila (Ọ̀rúnmìlà), deveria ir até a Olódúmarè.
Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) ergueu-se. Serviu-se de seu conhecimento para utilizar a pimenta,
serviu-se de sua sabedoria para tomar nozes de obi,
despregou seu òdùn (tecido de rafia) e o prendeu no seu ombro,
puxou seu cajado do solo,
um forte redemoinho o levou, e
ele partiu até os vastos espaços do outro mundo para encontrar Olódúmarè.
Foi la que Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) reencontrou èṣù òdàrà.
èṣù já estava com Olódúmarè.
èṣù fazia sua narração a Olódúmarè. Explicava que
aquilo que estava estragando o trabalho deles na terra
era o fato de eles não terem convidado a pessoa que constitui a décima sétima entre eles.
Por essa razão, ela estragava tudo.
Olódúmarè compreendeu.
Assim que Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) chegou, apresentou seus agravos a Olódúmarè.
Então Olódúmarè lhe disse que deveriam ir e
chamar a décima sétima pessoa entre eles
e leva-la a participar de todos os sacrifícios
a serem oferecidos.
Porque, além disso,
não havia nenhum outro conhecimento que Ele lhes pudesse ensinar
senão as coisas que Ele já lhes havia dito.
Quando Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) voltou a terra,
reuniu todos os Orixá (òrìṣà)
e lhes transmitiu o resultado de sua viagem.
Chamaram Óxun (Ọ̀ṣun) e lhe disseram que ela deveria segui-los
por todos os lugares onde deveriam oferecer sacrifícios,
mesmo na floresta de Eégún.
Óxun (Ọ̀ṣun) recusou-se:
ela jamais iria com eles.
Começaram a suplicar a Óxun (Ọ̀ṣun) e ficaram prostrados um longo tempo.
Todos começaram a homenageá-la e a reverenciá-la.
Óxun (Ọ̀ṣun) os maltratava e abusava deles.
Ela maltratava Orixá (òrìṣà nlá)
maltratava Ògún,
maltratava Órunmila (Ọ̀rúnmìlà)
maltratava Osayin (Ọ̀sányìn),
maltratava Oranfe (Ọranfe),
ela continuava a maltratar todo mundo.
Era o sétimo dia, quando Óxun (Ọ̀ṣun) se apaziguou.
Então eles lhe disseram que viesse.
Ela replicou que jamais iria,
disse, entretanto, que era possível fazer uma outra coisa
já que todos estavam fartos dessa história.
Disse que se tratava da criança que levava no seu ventre. Somente se eles soubessem como fazer para que ela desse a luz uma criança do sexo masculino,
isso significaria que
ela permitiria então que ele a substituísse
e fosse com eles.
Se ela desse a luz uma criança do sexo feminino,
podiam estar certos de que essa questão
não se apagaria em sua mente.
Ficariam ai pedaços, pedaços e pedaços.
E eles deveriam saber com certeza que
esta terra pereceria;
deveriam criar uma nova.
Mas se ela desse a luz um filho-homem,
isso queria dizer que, evidentemente, o próprio Olódúmarè os tinha ajudado.
Assim apelou-se para Orixá (òrìṣà) lá e para todos os outros Orixá (òrìṣà) para saber o que deveriam fazer para que a criança fosse do sexo masculino.
Disseram que não havia outra solução
a não ser que todos utilizassem o poder — Axé (àṣẹ)
que Olódúmarè tinha dado a cada um deles; cada dia repetidamente
deveriam vir, para que a criança nascesse do sexo masculino.
Todos os dias iam colocar seu àṣẹ — seu poder —
sobre a cabeça de Óxun (Ọ̀ṣun),
dizendo o que segue. "Você Óxun (Ọ̀ṣun)!
Homem ele devera nascer, a criança que você traz em si!"
Todos respondiam "assim seja", dizendo
tó!” acima de sua cabeça...
Assim fizeram todos os dias, até que chegou
o dia do parto de Óxun (Ọ̀ṣun).
Ela lavou a criança.
Disseram que ela deveria permitir-lhes vê-la.
Ela respondeu "não antes de nove dias".
Quando chegou o nono dia, ela os convocou a todos.
Esse era o dia da cerimônia do nome, da qual se originaram
todos as cerimônias de dar o nome.
Mostrou-lhes a criança,
e a pôs nas mãos de Orixá (òrìṣà).
Quando Orixá (òrìṣà nlá )olhou atentamente a criança
e viu que era um menino, gritou:
"Músò".. .! (hurra.. .!)
Todos os outros repetiram "Músò"...!
Cada um carregou a criança;
depois o abençoaram.
Disseram: "somos gratos por esta criança ser um menino".
Disseram: "que tipo de nome lhe daremos?"
Orixá (òrìṣà) disse: "vocês todos sabem muito bem que
cada dia abençoamos sua mãe com nosso poder
para que ela pudesse dar a luz uma criança do sexo masculino,
e essa criança deveria justamente chamar-se
À-Ṣ-Ẹ-T-Ù-W-Á (poder trouxe ele a nos)"
Disseram: "acaso você não sabe que foi o poder do Axé (àṣẹ),
que colocamos nela, que forçou essa criança a
vir ao mundo,
mesmo se antes ela não queria vir a terra sob a forma de uma criança do sexo masculino?
Foi nosso poder que a trouxe a terra."
Eis por que chamaram a criança Axétua (Àṣẹtùwá).
Quando chegou o tempo,
Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) consultou o oráculo Ifá acerca da criança,
porque todos devem conhecer sua origem e destino
colheram o instrumento de Ifá a para consultá-lo.
Eles o manipularam e o adoraram.
Era chegado o momento de consular Ifá a respeito dele,
para saberem qual era seu Odù, para
que o pudessem iniciar no culto de Ifá,
Levaram-no a floresta de Ifá,
que chamamos Igbodu, onde Ifá revelaria que Oxé (Ọ̀ṣẹ́) e Otua (Otùwá) eram seu Odù.
Este foi o resultado que ele deu a respeito da criança.
Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) disse: "a criança que Oxé (Ọ̀ṣẹ́) e Otua (Otùwá) fizeram nascer,
que antes chamamos Axétua (Àṣẹtùwá)",
disse, "chamemo-la antes de Oxétua (Ọ̀ṣẹ́tùwá)."
Foi por isso que chamaram a criança
com o nome do Odù de Ifá que lhe deu nascimento,. Oxétua (Ọ̀ṣẹ́tùwá).
Àṣẹtùwá era o nome que ele trazia anteriormente.
Assim, a criança participou do grupo dos outros Odù,
ao ponto de ir com eles a todos os lugares onde se
faziam oferendas na terra.
Foi assim que todas as coisas que Olódúmarè lhes tinha ensinado
deixaram de ser corrompidas.
Cada vez que proclamavam
que as pessoas não morreriam,
elas realmente sobreviviam
e não morriam.
Se diziam que as pessoas seriam ricas,
elas tornavam-se realmente ricas.
Se dizem que a mulher esteril conceberia,
ela realmente dava a luz
A própria Óxun (Ọ̀ṣun) deu a essa criança urn nome nesse dia.
Disse ela: "Oxo (Oṣó) a gerou" (significando que a criança era filho do poder mágico);
porque ela mesma era uma Ajé (àjẹ́)
e a criança que ela gerou e um filho homem.
Disse ela: "Akin Oxo (Akin Oṣò )",
( Akin Oxo : poderoso mago; homem bravo dotado de um grande poder sobrenatural)
eis o que a criança será!
É por isso que eles chamaram Oxétua (Ọ̀ṣẹ́tùwá) de Akin Oxo (Akin Oṣò ),
entre todos os Odù Ifá e entre os dezesseis Orixá (òrìṣà) mais anciãos.
Depois eles disseram que em qualquer lugar onde os maiores se reunissem,
seria compulsório que a criança fosse um deles.
Se não pudessem encontrar o décimo sétimo membro,
não poderiam chegar a nenhuma decisão e se dessem um conselho não poderiam ratificá-lo.
Sobreveio uma seca na terra.
Tudo estava seco!
Não havia orvalho!
Fazia três anos que tinha chovido pela última vez.
O mundo entrou em decadência.
Foi então que eles voltaram a consultar Ifá,
Ifá àjàlàiyé”.
Quando Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) consultou Ifá àjàlàiyé disse que deveriam fazer uma oferenda, um sacrifício, e preparar a oferenda de maneira que chegasse a Olódúmarè,
para que Olódúmarè pudesse ter piedade da terra
e se ocupasse dela para eles.
Porque Olódúmarè não se ocupava mais da terra.
Se isso continuasse a destruição seria inevitável;
era iminente.
Somente se pudessem fazer a oferenda,
Olódúmarè teria sempre misericórdia deles.
Ele se lembraria deles e zelaria pelo mundo.
Foi assim que prepararam a oferenda.
Eles colocaram:
uma cabra,
uma ovelha,
um cachorro e uma galinha,
um pombo,
uma preá,
um peixe,
um ser humano, e
um touro selvagem,
um pássaro da floresta,
um pássaro da savana,
um animal doméstico.
Todas as oferendas,
e ainda dezeseis pequenas quartinhas cheias de azeite de dendê
que eles juntaram nesse dia.
E ovos de galinha, e
dezesseis pedaços de pano branco puro.
Prepararam as oferendas apropriadas usando folhas de Ifá,
que toda oferenda deve conter.
Fizeram um grande carrego com todas as coisas.
Disseram então, que o próprio Èjì-Ogbè deveria levar essa oferenda a Olódúmarè.
Ele levou a oferenda até as portas do Órun (ọ̀run)
mas não lhe foram abertas.
Èjì-Ogbè voltou à terra.
No segundo dia Óyéku-mejí (ọ̀yẹ̀kú-méjì) a carregou,
ele voltou.
Não lhe abriram as portas.
Ìròsùn méjì
ówórin (ọ̀wọ́rín) méjì
óbara (ọ̀bàrà) méjì
ókanran (ọ̀kànràn) méjì
'ósa (ọ̀sá) Méjì
iká méjì
oturopón (òtùrùpọ́n) méjì
Otùwá méjì
ireté (ìrẹ̀tẹ̀) méjì
óxé (ọ̀ṣẹ́) méjì
òfún méjì
Mas não puderam passar,
Olódúmarè não abria as portas.
Assim deocidiram que o décimo sétimo entre eles
deveria ir e experimentar seu poder,
antes que tivessem que reconhecer que não tinham mais nenhum poder,
Foi assim que Oxétua (Ọ̀ṣẹ́tùwá) foi visitar certos babaláwo,
para que eles consultassem o oráculo para ele.
Esses Babaláwo traziam nomes de
vendedor-de-aceite-de-dendê
e comprador de azeite-de-dendê.
Ambos esfregaram seus dedos com pedaços de cabaça.
Jogaram Ifá para Akin Oxo (Akin Oṣò ) o filho de Eninarè (aquela-que-foi -colocada-na-senda-do-bem, referindo-se a Óxun (Ọ̀ṣun))
Disseram que deveria fazer uma oferenda;
disseram, quando ele acabasse de fazer a oferenda,
disseram, ali, ele seria coberto de honras;
disseram, sucederá que
a posição que ele alcançasse,
disseram, essa posição seria para sempre
e não desapareceria jamais.
Disseram, as honras que ali receberia,
disseram, o respeito, seriam intermináveis.
Disseram: “Você verá uma anciã no seu caminho”,
disseram, “faça-lhe o bem”.
Assim quando Oxétua (Ọ̀ṣẹ́tùwá) acabou de preparar a oferenda, seis pombos
seis galinhas com seis centavos e
quando estava em seu caminho,
ele encontrou uma anciã.
Ele carregava a oferenda no caminho que levaria a Exu (èṣù)
quando encontrou essa anciã na sua rota.
Essa anciã era da época em que a existência se originou.
Disse: "Akin Oxo (Akin Oṣò )!
à casa de quem vai você hoje?"
Disse: "eu ouvi rumores a respeito de todos vocês
na casa de Ọlọfin que
os dezesseis Odú mais idosos levaram uma oferenda
ao poderoso Órun (ọ̀run) sem sucesso".
Disse: "assim seja".
Disse: "é sua vez hoje?"
Disse: "é minha vez".
Disse: "tomou alimentos hoje?"
Respondeu ele: "eu tomei alimentos".
Disse ela: "quando você chegar a seu sítio,
diga-lhes que você não irá hoje".
Disse ela: "esses seis centavos que você me deu",
Disse, há três dias não tinha dinheiro
para comprar comida.
Disse: "diga-lhes que você não irá hoje".
Disse: "quando chegar amanhã, você não deve comer,
você não deve beber antes de chegar ali".
Disse: "você deve levar a oferenda".
Disse: "todos esses que ali foram, comeram
da comida da terra,
essa é a razão por que Olódúmarè não lhes abriu a porta!"
Quando Oxétua (Ọ̀ṣẹ́tùwá) voltou à casa de Oba Ajàlàiyé,
todos os Odú IFÁ estavam reunidos iá.
Disseram: "você deve estar pronto agora,
é sua vez hoje de levar a oferenda ao Órun (ọ̀run),
talvez a porta seja aberta para você!"
Disse ele que estaria pronto no dia seguinte,
porque não tinha sido avisado na véspera.
Quando chegou o dia seguinte, Oxétua (Ọ̀ṣẹ́tùwá) foi encontrar Exu (èṣù),
e lhe perguntou o que deveria fazer.
Exu (èṣù) respondeu: "Como!
Jamais pensei que você viria me avisar
antes de partir".
Disse ele: isso vai acabar:
hoje eles lhe abrirão a porta!"
Perguntou ele:
"Tomou algum alimento?"
Oxétua (Ọ̀ṣẹ́tùwá) lhe respondeu que uma anciã lhe tinha dito na véspera; que ele não devia comer- absolutamente nada.
Então Oxétua (Ọ̀ṣẹ́tùwá) e Exu (èṣù) puseram-se a caminho.
Partiram em direção aos portões do Órun.
Quando chegaram lá,
as portas já se encontravam abertas;
encontraram as portas abertas. Quando levaram a oferenda a Olódumarè e Ele (Olódumarè) a examinou,
Olódumarè disse: "Haaa!
Você viu qual foi o último dia que choveu na terra?!
Eu me pergunto se o mundo não foi completamente destruido.
Que pode ser encontrado lá?"
Oxétua (Ọ̀ṣẹ́tùwá) não podia nem abrir a boca para dizer qualquer coisa.
Olódùmarè lhe deu alguns "feixes" de chuva.
Reuniu, como outrora, as coisas de valor do Órun (ọ̀run),
todas as coisas necessárias para a sobrevivência do mundo, e deu-lhas.
Disse que ele, Oxétua (Ọ̀ṣẹ́tùwá), deveria retornar.
Quando deixaram a morada de Olódùmarè,
eis que Oxétua (Ọ̀ṣẹ́tùwá) perdeu um dos "feixes" de chuva.
Então a chuva começou a cair sobre a terra.
Choveu, choveu, choveu, choveu, choveu...
Quando Oxétua (Ọ̀ṣẹ́tùwá) voltou ao mundo,
em primeiro lugar foi ver Quiabo.
Ele encontrou Quiabo.
Quiabo tinha produzido vinte sementes.
Quiabo que não tinha nem duas folhas,
um outro não tinha mesmo nenhuma folha em seus ramos.
Voltou-se em direção à casa do Quiabo escarlate,
Ilá Iròkò tinha produzido trinta sementes.
Quando chegou à casa de Yáyáá,
esse havia produzido cinqüenta sementes.
Foi então até à casa da palmeira de folhas exuberantes,
que se encontrava na margem do rio Awónrín Mogún.
A palmeira tinha dado nascimento a dezesseis rebentos.
Depois que a palmeira deu nascimento a dezesseis rebentos, ele voltou
à casa de Oba Ãjàlàiyé,
Axé (àṣẹ) se expandia e se estendia sobre a terra.
Sêmen convertia-se em filhos,
homens em seu leito de sofrimento se levantavam,
e todo o mundo tornou-se aprazível,
tornou-se poderoso.
As novas colheitas eram trazidas dos plantios.' O inhame brotava, o milho amadurecia, a chuva continuava a cair,
todos os rios transbordavam, todo mundo era feliz.
Quando Oxétua (Ọ̀ṣẹ́tùwá) chegou, carregaram-no para montar num cavalo, estavam mesmo a ponto de levantar o cavalo do chão
para mostrar até que ponto as pessoas estavam ricas e felizes.
Estavam de tal forma contentes com ele,
que o cobriram de presentes,
os que estavam à sua direita,
os que estavam à sua esquerda.
Começaram a saudar Oxétua (Ọ̀ṣẹ́tùwá):
"você é o único que conseguiu levar a oferenda ao Órun (ọ̀run),
a oferenda que você levou ao outro mundo era poderosa!
Sem hesitação, rápido, aceite meu dinheiro
e ajude-me a transportar minha oferenda ao Órun (ọ̀run)!
Oxétua (Ọ̀ṣẹ́tùwá)! Aceite rápido!
Oxétua (Ọ̀ṣẹ́tùwá), aceite minha oferenda!"
Todos os presentes que Oxétua (Ọ̀ṣẹ́tùwá) recebeu,
os deu todos a Exu Òdàrà.
Quando os deu a Exu (èṣù),
Exu (èṣù) disse:
"Como!"
Há tanto tempo ele entregava os sacrifícios, e
não houve ninguém para retribuir-lhe a gentileza.
"Você Oxétua (Ọ̀ṣẹ́tùwá)!
Todos os sacrifícios que eles fizerem sobre a terra,
se não os entregarem primeiro a você,
para que você os possa trazer a mim,
farei que as oferendas não sejam mais aceitáveis".
Eis a razão pela qual
sempre que os Babaláwo fazem sacrifícios,
qualquer que seja o Odú Ifá que apareça e qualquer que seja a questão,
devem invocar Oxetua para que envie as oferendas a Exu.
Porque é só de sua mão que Exu (èṣù)
aceitará as oferendas
para levá-las ao òde òrun.
Porque quando Exu (èṣù) mesmo
recebia os sacrifícios das pessoas da terra
e os entregava no lugar onde as oferendas são aceitas,
eles não demonstravam nenhum reconhecimento pelo que ele fazia por todos,
até o dia em que Oxétua (Ọ̀ṣẹ́tùwá) teve de carregar o sacrifício,
e Exu (èṣù) foi abrir o caminho apropriado para o òrun,
para alcançar a morada de Olódùmarè,
quando se abriram as portas para ele.
A qualidade de gentileza que Exu (èṣù) recebeu de Oxétua (Ọ̀ṣẹ́tùwá)
era realmente muito valiosa para ele Exu (èṣù).
Então ele e Oxetua decidiram combinar um acordo pelo qual
todas as oferendas que deveriam ser feitas
deveriam ser-lhe enviadas por intermédio de Oxétua (Ọ̀ṣẹ́tùwá).
Foi assim que Oxétua (Ọ̀ṣẹ́tùwá) se converteu rio entregador de oferendas para Exu (èṣù).
Exu òdàrà, foi assim que ele se converteu em
O-portador-de-oferendas-pera-Olódúmarè-no-poderoso-òrun.
É assim como este Odú Ifá explica, a respeito de Exu (èṣù) e Oxétua (Ọ̀ṣẹ́tùwá)
O texto é de muita riqueza de detalhes e fundamentos e falar sobre ele poderia gerar muitas páginas, assim vamos procurar manter uma linha principal de foco.
A primeira coisa a destacar é a lembrança da necessidade de que pessoalmente nós termos que envolver Ifá antes de qualquer atividade ou trabalho religioso. Isso esta presente em todos os versos de Ifá (ẹsẹ) mostrando que o sucesso só ocorre se a pessoa se prepara para o que vai fazer de acordo com o que Ifá lhe instrui. Ifá existe para instruir os homens no bom cumprimento de suas atividades espirituais e de seus sacrifícios.

Foi assim por exemplo no mito da criação com mundo com Oxala (òṣàlá) que aceitou a tarefa de Olódùmarè para executar mas não se preparou para ela sendo superado por Oduduwa, que antes te tomar essa tarefa procurou um babaláwo para se orientar.
Dessa maneira nessa religião se alguém quer sucesso em algo deve acreditar que primeiro deve procurar o oráculo. Deve ter a humildade de procurar orientação. O ego não ajuda e a vaidade é inimiga do resultado. Olódùmarè colocou os Orixá (òrìṣà) na terra para nos ajudar e devemos buscar essa orientação.

É claro que ter acesso ao oráculo é um problema devido a questão comercial envolvida, mas, isso não é culpa da religião e sim dos homens. Devemos lembrar que um Obi é um oráculo muito eficiente e qualquer iniciado pode usar.

Além do aspecto envolvido em nossa vida normal existe o lado das tarefas religiosas. Para essas a situação é muito séria. Fazer as coisas por intuição ou receita não resolve. O que resolve é buscar a ajuda divina através do oráculo e seguir as indicações que lhe são dadas.
O divino, através do oráculo e dos Orixá (òrìṣà) existe para suportar nossa existência. O oráculo é o instrumento para essa comunicação, do divino com o homem, do Órun (Ọ̀run) com o Aiye e não a adivinhação. Pelo mito os Orixá (awọn òrìṣà) foram enviados por Olódùmarè para ajudar os homens na sua vida na terra. Como vivermos e superarmos as adversidades com a ajuda dos espiritos do Órun (ọ̀run).

Assim entendemos que onde existem pessoas existem Orixá (òrìṣà) e esses existem onde existem pessoas. Os Orixá (òrìṣà) foram a dádiva que Olódùmarè deu para nossas vidas e para nossa assistência. Eles não são a natureza, eles são enviados de Olódùmarè especificamente para nos ajudar.

Olódùmarè mandou os Orixá (òrìṣà) para nos livrar do mal que existe sobre a terra e nos ensinar a como cultuar a nossa religião. Órunmila (Ọ̀rúnmìlà) é assim aquele que interage com Olódùmarè pelos Orixá (òrìṣà) e pelos homens, junto com Exu (Èṣù), é quem tem acesso à Olódùmarè.

Mas os versos deixam claro que o objetivo do culto não é o divino e sim o próprio homem. Os Orixá (Òrìṣà) não existem para ser adorados e sim para dar vida ao homem. O criados protege a sua criatura. Não pode evitar os problemas e males que existem no mundo e na natureza que tem sua vida própria mas coloca seus ministros para suportar os homens.

Existem muitas pessos que apesar disso tudo e possivelmente motivados pelo desconhecimento ou má fé fazem oferendas e obrigações religiosas sem consultar antes e durante o seu oráculo, fazem seguindo o que conhecem ou sua intuição. Isso esta errado e vão incorrer no mesmo erro de Obatala que falhou na missão que Olódùmarè lhe deu.

Os versos mostram também que Óxun (Ọ̀ṣun) foi desprezada pelos Odù na execução das atividades e esta se voltou contra todos fazendo com o que tudo o que fizessem fosse ao contrário. É dessa maneira impressionante o poder de Óxun (Ọ̀ṣun) que se sobrepunha ao de todos os demais.

Óxun (Ọ̀ṣun) atingia isso através de seu poder com as Ajé (Àjẹ̀). O seu poder é baseado no fato que Óxun (Ọ̀ṣun) é Ajé (Àjẹ̀) ela é Iyami, a grande Ìyá nla a grande mãe primordial, a primeira a ancestral. Ela é líder das Ajé (Àjẹ̀) e essas respondem a sua liderança.
O poder feminino tem que estar presente em qualquer trabalho de Axé (àṣẹ) e dando importância a uma das bases da religião, que é o equilíbrio, somente com o equilíbrio entre o poder masculino e o feminino é que as coisas se realizam. Quando Óxun (Ọ̀ṣun) decidiu atrapalhar as ações não mais deram resultado.

Ajé (Àjẹ̀) ganha assim uma importância maior do que se imagina. Ajé (Àjẹ̀) é poder na face da terra, no mundo que vivemos, no Aiye. Elas acima de todos tem a capacidade de fazer as coisas darem errado ou certo, e é um poder manipulável para o bem ou para o mal.

Não podemos dessa maneira jamais deprezar a participação das Ajé (Àjẹ̀) em tudo o que fazemos no Aiye, para o bem ou para o mal, através de Óxun (Ọ̀ṣun) sua líder.
Existe um outro verso de outro Odù, Osa Meji (Ọ̀sá Méjì), no qual Olódùmarè dá a Odù um enorme poder, mais do que o de todos mas que ela não deveria abusar desse poder:

...Ela retorna e vai queixar-se a Olódumarè: "Os dois primeiros receberam o poder da guerra e o da criação, e ela, Odú, nada recebeu dessa partilha". Olódumarè diz-lhe: "Tu serás, lyá won (wọn), mãe deles, por toda a eternidade; sustentarás o mundo''. Confere-lhe o poder de eye (ẹyẹ), o pássaro; dá-lhe a cabaça de eleye (ẹlẹyẹ), dona do pássaro.
Olódumarè pergunta-lhe como ele irá utilizar os pássaros e sua força. Odú responde-lhe que matará aquelas que não a escutarem; dará dinheiro e filhos àquelas que lhe pedirem mas se, em seguida, as pessoas se mostrarem impertinentes com ela, retomará suas dádivas.
Olódúmarè diz-lhe: "Está bem, mas utiliza com calma o poder que te dei". Se ela o utilizasse com violência, ele o retomaria e repete: “Tu serás iyá won, a mãe de todos os homens; elas deverão prevenir-te, a ti Odú, de tudo aquilo que quiserem fazer". Olódumarè deu o poder às mulheres; o homem sozinho nada poderá fazer na ausência das mulheres.
Naquela época Odú entra nos recantos mais secretos do culto de Eégún, de Orò e de diversos Orixá (òrìṣà) .
Ahl Àgbà, a antiga, exagerou, ela se recusa a fazer as oferendas prescritas por ifá, não ouve seus conselhos, no sentido de agir com calma e prudência.
Òbàrisà vem e diz: Ei! É a ele que Olódúmarè havia confiado o mundo; essa mulher enérgica veio tirá-lo de suas mãos. Ela vai aos lugares secretos de Eégún, Oro e dos outros òrisà, onde ele, Òbàrisà, não ousar entrar.
Òbàrisà vai consultar Òrúnmilà (ifá) e faz oferenda de caracóis e de um chicote que lhe é indicado. Òrúnmilà diz-lhe que o mundo se tornará seu, mas ele deve ser paciente. "A mulher irá exagerar, ela se tornará tua criada, Òbàrisà, ela virá submeter-se a ti. "
Naquele tempo Odú tinha o poder; toda coisa que ela dizia se realizava. Ela diz a Òbàrisà que os dois, ela e ele, devem morar juntos, no mesmo lugar.
Òbàrisà faz naquele lugar o culto de sua cabeça com o caracol. Bebe a água do caracol, contida em sua concha e oferece-a a Odú, Comem juntos a carne do caracol. O humor de Odú se acalma. Declara que jamais comeu algo tão bom.
Òbàrisà diz a Odú que não lhe escondeu nenhum de seus segredos, mas que ela, por seu lado, lhe escondeu o segredo de seu poder. Odú mostra a Òbàrisà o segredo da roupa de Eégún. Juntos adoram Eégún. Odú reveste a roupa, mas fala com voz normal. Não sabe falar com a voz rouca dos ará òrun, a gente do além, os mortos. Regressam à casa. Òbàrisà volta sozinho ao lugar de adoração, modifica a roupa de Eégún, veste-a, pega o chicote de sua oferenda. Sai com a roupa na rua e fala com a voz rouca de Eégún.
Todo mundo sente medo, a própria Odú fica assustada, mas reconhece a roupa e, assim, sabe que Òbàrisà está dentro. Envia seu pássaro empoleirar-se nos ombros de Eégún. Tudo aquilo que Eégún diz age pelo poder do pássaro.
Dessa maneira o poder que foi dado a Odú, Iyami, é imenso porque ele é o poder que estava no aiye, no mundo que vivemos.
Com o afastamento de Olódùmarè o mundo se descontrola e os Orixá (òrìṣà) ou Odù tem que procurá-lo, distante, mas acessível por Exu (Èṣù).
Com a criação de Oxétua (Ọ̀ṣẹ́tùwá) esse passa a ser o invocador do poder do Axé (àṣẹ). Não se sobrepõe a Exu (Èṣù) e sim se alia a esse poder e ganha desse o poder se ser o único a invocar Exu (Èṣù).
O papel de Exu (Èṣù) também fica muito claro. Ele não é um Orixá (òrìṣà) comum como muitos entendem, principalmente no Candomblé. Exu (Èṣù) no sistema religioso esta em uma linha distinta. Ele é o transportador do Axé (àṣẹ), é o policial de Olódùmarè como Abimbola sempre o caracteriza, é o mensageiro de Olódùmarè, levando ao conhecimento deste tudo o que ocorre no Aiye. Ele estava lá diante de Olódùmarè o posicionando dos problemas com Óxun (Ọ̀ṣun) antes que Oxétua chegasse.
Com Oxétua (Ọ̀ṣẹ́tùwá) isso não se modifica. Oxétua (Ọ̀ṣẹ́tùwá) não é Exu (Èṣù)! Ele é quem ganhou de Exu (Èṣù) o poder de ser o único a invocá-lo. Assim toda a cerimônia que se necessite de Exu (Èṣù) para a comunicação ou para o transporte de Axé (àṣẹ) deve ser iniciar com a súplica a Oxétua (Ọ̀ṣẹ́tùwá) para este poder invocar Exu (Èṣù). Exu (Èṣù) já existia antes de Oxétua (Ọ̀ṣẹ́tùwá) continuou a existir depois. Oxétua (Ọ̀ṣẹ́tùwá) foi coberto de honras pelos Odù, que o geraram e também por Exu (Èṣù).

Oxétua (Ọ̀ṣẹ́tùwá) foi criado por Óxun (Ọ̀ṣun) o poder feminino, junto com o Axé (àṣẹ) de todos os demais Odù, masculinos. Ele é o resultado de todo o Axé (àṣẹ) que Olódùmarè deu para os Odù quando vieram ao mundo, mais o componente feminino.

Outra coisa que esse texto deixa claro é o poder superior e supremo de Olódùmarè sobre o mundo e sobre os Orixá (òrìṣà).Ele não só esta acima como também controla o mundo. Somente divindades especiais tem acesso a ele, Oxétua (Ọ̀ṣẹ́tùwá) teve mas se manteve calado. Exu (Èṣù) tem acesso e fala e ouve.

O mundo era controlado por Olódùmarè. A natureza só funcionava porque Olódùmarè a controla. Foi ele quem conferiu o poder aos Orixá (òrìṣà). Dessa maneira a tese de que essa seria uma religião politeísta é inválida. Religiões politeísta são caracterizadas por deuses em nível de igualdade e que competem entre si, são independentes. Esse Odù não mostra nada disso.

Mostra uma divindade superior e absoluta e outras que agem no mundo como seus braços. Mostra de fato uma divindade distante que recebe informação através de Exu (Èṣù) e nem sempre sabe de tudo o que ocorre no mundo.

Existe um outro verso no qual descreve quando os Orixá (òrìṣà) disseram a Olódùmarè que eles iriam tomar conta do mundo. Olódùmarè então deixou por conta deles. O que ocorreu foi igualmente o caos, as coisas da natureza pararam de funcionar e eles tiveram que voltar a Olódùmarè. Lamento apenas não poder transcrever aqui esse verso.

Enfim o que Oxétua (Ọ̀ṣẹ́tùwá) sozinho mostra é a supremacia de Olódùmarè sobre os demais Orixá (òrìṣà). Dessa forma caracterizamos 2 coisas importantes com esse verso. A primeira é que essa não e uma religião politeísta porque existe uma divindade superiora. O termo acadêmico mais próximo é o de uma religião Henoteísta. Mas, essa é um discussão ruim porque sempre é carregada de ignorância e preconceito mas esse texto traz isso a tona.

Eu acho importante citar isso para caracterizar que os Orixá (òrìṣà) não são elementos da natureza como querem os ignorantes que se influenciam com as correntes européias nas quais as divindades politeístas são de fato a própria natureza. Isso é um sincretismos menor que equipara essa religião Yorùbá a outras sem correspondente real. Somos muito prejudicados por esse sincretismos europeu essa associação com religiões lúdicas ou com o pantheismo grego.

Contudo não estamos lidando com uma religião monoteísta. Devemos lembrar que a caracterização de uma religião como monoteísta ou não é um processo preconceituozo feito apenas por uma corrente religiosa predominante, que são as religiões Abraamicas, Cristãos, Judeus e Islâmicos. Monoteismo não pode ser entendido como um termo genérico, e sim como um termos que caracteriza esse conjunto de religiões. Assim monoteístas serão elas praticamente, todo o resto será alguma coisa diferente.

O importante não é classificar uma religião e sim entendê-la. Quando se entende de fato não vai se dizer que temos um Panteão de deuses, porque esse termo não se aplica pertence unicamente a uma outra religião que é politeísta. Não vamos dizer que nossos deuses são elementos da natureza porque isso não condiz com a realidade, pertence a uma outra religião. É preciso enfim entender o que a religião faz de bem para as pessoas, como as orienta a viver como as ajuda a viver melhor.

Contudo esse mesmo texto nos leva a concordar com a linha de afirmação de que Olódùmarè é um Deus distante que colocou os Orixá (òrìṣà) para ser seu intermediário e nosso suporte. Isso pode ser entendido em parte uma vez que tendo controle sobre o mundo ele tem que ter ciência do que ocorre, mas, essa discução não vale a pena, podemos sim entender que ele se mantêm informado através de quem tem acesso a ele.

Gostaria de lembrar que o deus Abraamico não é muito distinto disso. Seus intermediários são os anjos para todas as correntes e no caso dos católicos os santos intercedem pelos vivos. A presença de Deus no meio de todos é teologicamente questionada e existem discuções que se arrastaram séculos sobre isso.

Continuando no tema principal, o seguinte texto, também do Odù Oxétua (Ọ̀ṣẹ́tùwá) foi obtido do babaláwo Oyègbadé Ọlátọ̀nà, que é o Òjùgbọ̀nà awo de Òṣogbo.

...Olódùmarè os saudou
e perguntou sobre a décima sétima pessoa
Olódùmarè perguntou para eles “por que
vocês não se consultam com ela?”
Eles responderam, “É porque
ela é a única mulher entre nós”
Olódùmarè disse, “Não isso não pode ser assim!
Óxun (Ọ̀ṣun) é a principal mulher”
Olódùmarè disse,
Boríborí, é seu babaláwo em Irágberí,
é parte do oráculo de Óxun (Ọ̀ṣun).
Egba (Ẹ̀gbà) seu babaláwo em Ìlukàn,
é parte do oráculo de Óxun (Ọ̀ṣun).
Èṣe, que È seu babaláwo
em Ìjẹbú Ẹrẹ̀
é parte do oráculo de Óxun (Ọ̀ṣun).
Átomú seu babaláwo na cidade de Ìkìre
é parte do oráculo de Óxun (Ọ̀ṣun)
Estes babaláwo
Eles permitem que uma pessoa faça negócios
ele permitem que uma pessoa tenha ganhos
mas eles não permitem que uma pessoa leve seus ganhos para casa
Olódùmarè disse
O que vocês eram ignorantes
é o que vocês agora sabem.
Voltem ao mundo
e consultem com Óxun (Ọ̀ṣun)

Nesses versos Olódùmarè deixa claro que nada poderá ocorrer sem Óxun (Ọ̀ṣun) e que seu poder é necessário para os seus pares masculinos. O poder de Óxun (Ọ̀ṣun) é exercido através de seus 4 poderosos mensageiros: Boríborí (vencedor), ẹ̀gbà (paralisia), èṣe (ofensas) e atómú (captorcapaz e forte). Eles são parte do oráculo de Óxun (Ọ̀ṣun) e vieram com ela no princípio da existência.

O poder de Óxun (Ọ̀ṣun) é materizalizado nas mulheres através da Ajé (Àjẹ̀), as mais temidas, as mais poderosas e as mais reverenciadas mulheres no culto Yorùbá.

Ajé (Àjẹ̀) manifesta o poder no ponto de vista Yorùbá. Elas são misteriosas, difíceis, poderosas, temíveis e onipresentes. Elas mantêm o equilíbrio entre as diversas forças do mundo espiritual e mundano. Foram elas que impediram os Odù de trabalhar e levaram a criação de Oxétua (Ọ̀ṣẹ́tùwá).

É interessante reconhecermos o valor e importância dessa força. Damos muito valor ao Orixá, com razão, mas quem define o que vinga ou não nesse mundo são esas forças. A força de Ajé esta no nosso patamar, no nosso nível e influencia diretamente o que fazemos. É uma força que pode ser usada para o bem ou para o mal.

Assim esse papel de bem e mal não cabe a Exu (èṣù) como muitos podem pensar. Esse papel cabe a Ajé (Àjẹ̀). Exu é uma força divinda que sempre opera para o bem e sempre baseada na ética da religião. O problema pode ser que o bem de um é o mal de outro. Mas nesse caso vale o mérito ou a necessidade. O bom caráter é a coisa mais importante e nos versos de Ifá a situação na qual alguém perde algo que pode recuperar ou que não lhe faz falta para outro que necessitava ou merecia é muito frequente. Esta é a lógica de Exu (èṣù). Alguém que falha em fazer o que lhe foi prescrito em oráculo é alguém que poderá sofrer a conseqüência de uma ação de Exu (èṣù).