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sexta-feira, maio 01, 2020

Entendendo a religião Yoruba pt. 17 - A morte e o pós-vida - A causa das mortes

ANTERIOR: A origem da morte


A causa das mortes

A morte pode ser causada aos seres humanos por eles mesmos, mas, envolvendo o supernatural, temos quatro em especial para relacionar:

Causada por feitiçaria


É um ponto básico nessa religião a morte ser causada por ação de feitiçaria e malefício. Não existe ninguém no Àiyé que esteja imune a isso. A crença da feitiçaria como um ato decisivo e acima de qualquer tipo de proteção é questão pacificada na religião, o que se pode fazer é reagir a isso.

Quando uma pessoa morre de repente, ir a uma Bàbáláwo e determinar se foi morte por feitiçaria é uma prática feita antes mesmos deles tocarem no corpo para este ser preparado para o enterro.

Morte causada por espíritos


Também é parte da crença que existem espíritos livres, fantasmas e esse podem causar a morte de pessoas. Mais à frente vou abordar a questão dos fantasmas.

Morte causada por maldições


A maldição é diferente de feitiçaria. Maldição é uma coisa mais ampla e pode transcender gerações, uma pessoa pode nascer com uma maldição ancestral e se não se livrar disso pode vir a morrer por causa dela.


Podemos entender como proporções, a feitiçaria são ações diretas e imediatas e as maldições ações com efeitos maiores e de longo prazo.

Morte por causas naturais


Podem entender isso como superstição ou excesso de misticismo, essas palavras são apenas usadas para expressar preconceito, mas, o entendimento dos yorùbá é que a morte natural ocorre em idade avançada e que pais não morrem antes de seus filhos.


Qualquer coisa diferente disso, seja causada por acidentes, fenômenos da natureza ou doenças é considerado não natural e deve ser investigada em relação as causas anteriores. Doenças e acidentes são provocados por feitiços, maldições e espíritos.

Existem outras curiosidades a cerca da morte na sociedade yorùbá e para isso vou transcrever aqui um texto de Maria Inês de Almeida, “Cultura Iorubá Costumes e tradições”, que é bastante claro sobre o assunto:


Se um jovem morresse subitamente, todos choravam muito, e procuravam descobrir o motivo, chamando até o espírito do morto para dizer se fora ele mesmo (espírito) quem havia levado a pessoa, ou se fora um trabalho feito por alguém.


O corpo era enterrado dentro de casa, e a família fazia muitos trabalhos espirituais, para que o mesmo não acontecesse com outros membros.


Se morresse uma pessoa pobre, sem parentes para pagar o enterro, os conhecidos enrolavam o morto em suas roupas, e cavavam um buraco, fazendo o enterro sem nenhuma despesa. No caso de um mendigo ou um leproso, era enterrado no mato, longe da cidade.


Se uma pessoa morresse ao visitar alguém, deveria ser enterrado na casa onde morreu, pelo dono da casa, que mandava avisar a família do morto.


Uma morte muito triste era a de mulher grávida. A criança deveria ser tirada da barriga, e a mulher, em algumas localidades, era levada para o mato, e encostada a uma árvore.


O corpo de um corcunda (abuké) também não podia ser enterrado dentro de casa. Devia ser levado para o mato, e feito um ritual.


Já os presidiários não eram enterrados. O corpo ficava jogado para os animais comerem. Por causa disso as pessoas evitavam fazer coisas erradas, com medo de morrer na prisão.


Quando uma pessoa morria de sarampo - que era considerado o Orisa Sonponno - a família não podia chorar, para não aumentar a força dele. Todos vestiam roupa de festa, bebiam e dançavam. Não se podia dizer do que a pessoa tinha morrido, só “Baba gbe e lo” (o pai o levou), ou “Baba ti gbe e ni iyawo” (o pai casou com ele). O enterro era feito pelas pessoas que cuidavam do Orisa, e o corpo era enterrado fora de casa, num local que só essas pessoas conheciam.


Quando um raio matava uma pessoa, os filhos de Sango levavam o corpo para um lugar chamado áró, deitavam-no junto ao fogo, e faziam um ritual para tirar o raio e tentar acordar o morto. Conta-se que havia casos em que a pessoa acordava, mas se o raio fosse fulminante, o corpo era enterrado num local desconhecido da família, com todos os pertences do morto e algumas oferendas.


Se alguém caía de cima de uma palmeira, era enterrado no local onde caiu.

Quem morria afogado devia ser enterrado na beira de um rio.


Os caçadores famosos eram enterrados no mato pelos outros caçadores. Eles pegavam todos os pertences de caça do morto, e colocavam-nos numa árvore próxima ao local, arrumados como se fosse uma pessoa, com o chapéu, a bolsa e a arma presos nos galhos da árvore. Ali eram feitas oferendas para o morto.


Ao morrer um rei, ninguém podia comentar o assunto. Só depois de serem feitos os rituais era dado um toque num tambor especial, anunciando à cidade que o rei havia morrido. Em Oyo o corpo do rei era levado para um lugar chamado bara, e até chegar lá o cortejo parava em onze locais diferentes para fazer rituais.


Antigamente o rei era enterrado com doze pessoas: quatro mulheres em baixo, quatro em cima, e dois homens de cada lado do caixão. Eles seriam os empregados do rei no outro mundo. Algumas dessas pessoas chegavam a tomar veneno para serem enterradas com o rei e servi-lo no outro mundo.

Mais uma vez, repito, essas informações são a título de curiosidade e estão relacionadas com a sociedade Yorùbá e não com a religião que praticamos. Ficar falando de como os yoruba se comportavam ante a morte é apenas ilustrativo e sem utilidade para a prática da religião.


Em termos de religião, a informação mais importante é de que devemos investigar através do oráculo a origem de uma morte não natural, para que a família possa fazer ebós para se proteger.

Morte natural é aquela que ocorre em idade avançada, de forma suave e os filhos enterram os pais. Pais não devem enterrar os filhos.

Para atingir isso existe o oráculo, existem os ebós e existem as folhas. A coisa que mais encontrei em casa de Candomblé foram pessoas com doenças crônicas sérias, hipertensas, cardíacas e outras. A minha opinião ante esse cenário era bastante óbvia, aquelas pessoas se iniciaram e se mantinham na religião tendo como principal benefício o prolongamento da vida. Não foi um caso, foram inúmeros.

Assim, quando vejo uma pessoa da religião, um Babalorixá (Bàbálórìṣà), Iyalorixá (Ìyálòrìṣà), esses principalmente e os iniciados que morrem cedo, o que me vem à mente é simples, essas pessoas falharam em sua vida, não seguiram sua religião como era esperado, possivelmente caíram para o lado “negro”.

Considerando o grande instrumental que a religião tem e o amor dos orixá (Òrìṣà), ter um iniciado morrendo cedo significa que certo ele não estava. Babalorixá (Bàbálórìṣà), Iyalorixá (Ìyálòrìṣà) e Bàbáláwo, se fizeram a coisa certa, tem que morrer velhos e de causas naturais, mais do que isso, tem que ter uma morte suave.



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