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terça-feira, maio 12, 2020

Entendendo a religião Yoruba pt.19 - A morte e o pós-vida - O segundo enterro

ANTERIOR: O enterro e os rituais de morte


O segundo enterro

Além do enterro do corpo a religião reserva para a pessoa uma cerimônia mais elaborada de rito de passagem. Essa cerimônia não pode ser realizada junto com o enterro do corpo devido a duas razões bem simples. A primeira é que requer tempo sua preparação e a segunda é que o corpo entra em decomposição rapidamente.

Hoje em dia existem formas de preservar o corpo para a realização de atos fúnebres demorados, mas, isso não é o comum, assim o processo que foi estabelecido foi o da realização de um segundo enterro, esse apenas cerimonial. Devido ao custo dessas cerimônias elas eram reservadas apenas a pessoas importantes, para permitir a essas pessoas carregarem para o seu pós-vida o mesmo status que eles haviam adquirido em vida. A falha em fazer isso causaria que o espírito do falecido ficaria no Àiyé aterrorizando seus filhos na forma de um fantasma (vou tratar de fantasmas a diante).

O segundo enterro deve ser realizado com uma representação do morto e para isso, segundo Lawal (Visions of Yorùbá), antigamente os Yorùbá, faziam imagens de madeira, em tamanho real, que imitavam a pessoa, são chamadas de Àyájora.

Os yorùbá tem muitas restrições a fazer imagens de pessoas vivas, a razão disso vou explicar aqui e as imagens de mortos são feitas com finalidade específica. De acordo com Lawal, O problema com as imagens é baseado na crença de que todo o ser vivo ter um parceiro espiritual (um similar) no órun (Ọ̀run), chamado de Enìkejì (duplo do órun (Ọ̀run)), que oferece proteção espiritual para nós no Àiyé. A criação de uma imagem humana na forma de arte, ameaçaria essa proteção, fazendo com o que Enìkejì retirasse sua proteção da pessoa. Estranha ou não, essa é a explicação.

A segunda razão é que eles acreditam que essa segunda imagem pode ser usada para se transformar em um substituto da pessoa na realização de feitiços. Isso é um fato, até hoje imagens e principalmente fotografias são usadas em feitiços. Aliás, fotografias e principalmente roupas são usadas não só para feitiços, mas para ebós que visam o bem da pessoa também. Dessa maneira, a elaboração de imagens de pessoas não são bem-vindas e não encontramos isso na arte Yorùbá. Encontramos um outro tipo de imagem que explico a diante.

Para a realização do segundo enterro, dessas pessoas importantes e de posses, era confeccionado um Àyájora da pessoa, que seria preparado para representá-la, vestindo suas roupas e adereços da própria pessoa e, esta imagem ficava exposta na casa como se fosse a própria pessoa. As pessoas podiam saudá-la e interagir com ela, fazendo as últimas saudações, pedidos e desejos de um bom regresso. Essas figuras tinham olhos abertos.

Após as cerimônias internas, a imagem era levada em procissão em torno da cidade, com as pessoas cantando e dançando, desejando para o morto uma boa viagem e retirada para o pós-morte. Ao fim do cortejo essa imagem era destruída e jogada na floresta.

Posteriormente, outro tipo de imagem de madeira poderia ser feita, desta vez chamada de Àròyá, um corpo metafísico que não é feito à semelhança da pessoa, mas apenas guardava detalhes, cicatrizes, marcas ou algo fácil de ser associado à pessoa. O mesmo tipo de imagem, Àròyá, pode ser feita para representar um orixá (Òrìṣà), nesse caso, com instrumentos, armas e relíquias do orixá (Òrìṣà) que permitem reconhecê-lo.

Assim, fazer imagens em madeira, barro ou bronze a semelhança da pessoa não era uma limitação da habilidade artística dos Yorùbá e sim algo intencional. As imagens preferidas eram as Àròyá.

O objetivo das imagens é o mesmo descrito no Odù Ogunda Ika, o Odù dos artesões de imagens, a de ajudar a memorizar o morto. Essa imagem do morto é colocada da capela dos mortos que pode existir nas casas das pessoas, como as que existem atualmente em casas de Candomblé, os Ilé Abo Aku.

A preparação dessas imagens, Àròyá, segue um rito especial, é feito uma cerimônia de Étùtù para dar nome a imagem. A própria preparação e os artistas que podem fazer esse tipo de imagem são bem específicos. Depois do Étùtù a imagem será lavada com a água usada para lavar o corpo do morto no primeiro enterro, chamada de Omi Ìwèkú. Esta água deve ser guardada para essa finalidade. Em outros casos a imagem pode ser esfregada com a terra do túmulo (Ilèpá) que deve ser coletada no enterro ou depois. Com essa preparação, a imagem se torna uma representação da pessoa morta e será colocado no Ile abó Aku o quarto ou casa onde são cultuados os mortos.

Um outro exemplo da elaboração de imagens para representar mortos é o caso dos gêmeos, as Ère ìbejì. Como no caso anterior existem artistas especialmente preparados para fazerem essas imagens (artistas ligados Ògún). Os Yorùbá entendem que os gêmeos são fisicamente separados, mas, espiritualmente são um. Assim, quando um deles morre é feita uma imagem memorial do outro que será tratada como se fosse um vivo, recebendo atenção e roupas. Isso é um caso específico de gêmeos e não é feito para outros filhos não gêmeos que morrem.

Havia uma significativa morte de gêmeos entre os yorùbá, aliás, duas coisas, a primeira é a maior quantidade de nascimento de gêmeos entre eles, devido a alimentação deles ser baseado no Inhame e esse tubérculo ter um componente que facilita o nascimento de gêmeos (segundo eu li). Mas, além das doenças normais, eles nasciam menores e eram mais suscetíveis a morrerem, senão os dois, pelo menos um deles. O assunto, gêmeos, requer muito mais espaço para ser explicado, muito mais detalhes e história e, neste contexto aqui, o que quero dizer é que, eles representam mais um caso de imagens litúrgicas.

A religião Yorùbá não tem imagens litúrgicas como tem a religião católica, mas ela de fato têm algumas imagens litúrgicas. Contudo, não é uma religião baseada em imagens para seu culto e assim, prefiro dizer que não têm imagens litúrgicas, fica mais fácil para todo mundo entender. Aqui no Brasil quem adota imagens na sua casa, faz apenas o uso de arte sacra, arte decorativa, sem sentido litúrgico. As restrições ao uso de imagens em uma casa são baseadas nisso que expliquei antes. Sim, existem imagens, mas, elas têm um usos muito especiais e nos casos que citei.

É o mesmo com máscaras, no Candomblé existe uma regra que as pessoas iniciadas não podem usar máscaras, isso é devido às inúmeras cerimônias, liturgias e cultos que fazem o uso de mascarados para diversas finalidades e não é bom agouro invocar isso, não em um iniciado.

Aqui no Candomblé são feitos também 2 enterros. O enterro do corpo, que deve ser realizado com e elaboração de ritos pré-mortuários, principalmente se a pessoa era iniciada na religião, que é o Axexê ou carrego.

O rito mortuário, feito no enterro do corpo está relacionado ao processo de desligamento da ligação do espírito e alma do corpo, visto que o rito de iniciação estabelece ligações com o órun (Ọ̀run).

Após o enterro do corpo é preparado o segundo enterro, que será o Axexê, um ritual de 7 dias que é feito com um “corpo presente”, uma representação do corpo do falecido, com roupas e outros bens deles. Em muitos casos, possivelmente a maioria, não existe esse “corpo”, o que existe é apenas uma representação do morto através de uma cabaça.

O objetivo do Axexê é desligar o espírito de sua vida terrena. No rito pré-mortuário já foi feito o desligamento do indivíduo com o iniciado e com a casa, o desligamento do corpo. Contudo o iniciado tem outros objetos e relíquias que ainda o ligam a vida terrena e isso deve ser desfeito.

Essas relíquias são os Igba de orixá (Òrìṣà), fios de contas, roupas de uso e de orixá e outros elementos rituais que foram acumulados pela pessoa. Todo esse material deve ser destruído ou dado para que não exista mais ligação do espírito com o Àiyé.

Esta cerimônia, do segundo enterro, tem essa finalidade e mais, tem também a finalidade de reunir de forma ampla as pessoas que conheciam o falecido para elas possam prestar sua última homenagem em um clima festivo, horando assim o morto e o deixando feliz na sua ida ao órun (Ọ̀run).

Essa cerimônia tem um aspecto triste ou sombrio, mas, acima de tudo é mais um momento de alegria e integração entre nós que estamos no Àiyé e as divindades do órun (Ọ̀run), é como se fosse um Xirê, diferente, porque terminará em um Xirê.

Este ritual pode ser feito vários dias depois do enterro e requer grande preparação, além de ser muito custoso. Envolve a elaboração de comida para muitas pessoas durante muitos dias.

O axexê é o ritual mais longo e é feito para quebrar a ligação espiritual do morto com a casa e desta forma esse ritual é reservado a Iyalorixá (Ìyálòrìṣà) e Babalorixá (Bàbálórìṣà). A cerimônia consiste em uma repetição de atos, sendo que o primeiro dia e o último dia são os inéditos, os demais são repetição do primeiro dia.

Essa cerimônia consiste de 6 dias de reverência ao morto, com uma cerimônia repetida e encerra, no sétimo dia, com a destruição das relíquias do morto, roupas e colares. Existem alguns elementos (principalmente os fios de conta e roupas) que podem ser dados para outras pessoas mas que desta forma encerram a ligação do morto com eles.

Ao fim do processo ritual de destruir as relíquias elas são levadas para fora da casa encerrando assim esta conexão. Existem muitos mais detalhes nessa cerimônia e variações que não estou descrevendo aqui porque, mais uma vez, não interessa a este contexto. Existem obras sobre o tema de Axexê e quem ainda não pode participar de algum pode ler e entender a dinâmica.

Para as pessoas comuns, que não tem um cargo importante na casa, existe uma cerimônia similar, que reúne os ritos principais mas não dura os 7 dias. Pode ser feito em 1 dia ou em 3 dias, ou mesmo nos 7 mas sem a pompa de um axexê. Lembrem-se que eu disse que o axexê é uma cerimônia para preservar o status. Não será pela falta de dinheiro que a pessoa não terá sua cerimônia de segundo enterro.

O mais importante até aqui, depois desse monte de coisas que eu descrevi, é que o objetivo desses ritos todo é facilitar a passagem Àiyé – órun (Ọ̀run), ou o retorno do espírito ao órun (Ọ̀run), conduzindo-o com segurança e desligando-o da vida terrena.


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