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domingo, março 08, 2015

A Umbanda salvou o Candomblé


Quem acompanha este Blog já viu vários textos que fiz sobre a mistura inadequada de Umbanda e Candomblé. O meu senso crítico sobre os assuntos da religião me faz abordar os temas ressaltando os aspectos que considero relevantes. Isso vale para tudo, de Ifá a Umbanda. Criticar ou relatar o que existe não me coloca contra ou a favor de nada.

Vou revisar o texto já publicado neste Blog sobre a umbanda. Já faz bastante tempo que foi publicado e ele vai ser melhorado. Umbanda é um assunto sempre muito rico e eu fiz aquele texto com muito cuidado. Contudo existe um tema adicional que esta além do escopo daquele texto que eu quero abordar aqui. Não sei se mais alguém já se posicionou assim, não lembro de ter visto de forma que posso ter uma ideia original ou apenas ser mais um idiota escrevendo, cabe a quem ler avaliar.

A Umbanda hoje representa um desafio para o Candomblé, digo isso ha uns 10 anos. Ela vai se misturando e mudando a cara e a prática da religião Yorùbá inserindo elementos que nunca fizeram parte dela. A coisa já está tão séria que pouca gente deve saber que no Candomblé não tem exu e pombo-gira.

Não tem. Nunca teve.

Não existe guia de umbanda em Candomblé.

Isso foi inserido por pessoas despreparadas para exercer o Candomblé como sacerdote, marmoteiros ou despreparados, não importa. E digo mais a proliferação de casas ditas de Angola onde convivem guias de Umbanda como se isso fosse norma ou natural é parte do fenômeno do Umbandomblé, o Angola substitui o antigo termo “Omoloko” que era usado para caracterizar essa mistura de “jalapa com batata” e se desgastou.

Claro que a presença de Caboclos no Candomblé é bastante antiga, principalmente no Candomblé do Rio e no do Recôncavo, mas, não vou aqui neste texto me aprofundar por estas explicações.

Eu vou me resumir na afirmação que Candomblé é uma religião de origem africana e a Umbanda é uma religião brasileira. É incorreta a afirmação de que a Umbanda seja afro-brasileira ou de matriz africana. Essa afirmação é de quem não conhece a Umbanda e de quem não conhece a história da Umbanda. No texto sobre Umbanda eu volto a esta questão.

Apesar, então, desta questão de invasão do Candomblé pela Umbanda, que não sei onde vai parar, existe um outro lado dessa moeda. Que é o que vou abordar aqui.

Minha afirmação é que o surgimento e difusão da Umbanda no Brasil, a partir do Rio de Janeiro, salvou o Candomblé e demais cultos de origem africanas. Sem a Umbanda o Candomblé poderia estar muito pior.

A Umbanda foi criada no dia 15/11/1908. Foi criada pelo Caboclo das sete encruzilhadas através do médium Zelio Moraes. Antes desta data e evento de criação não existia a Umbanda. Existia sim

o espiritismo Kardecista, existia o Candomblé e existia uma extensa prática da Macumba carioca ou quimbanda de origem Bantu.

O culto de incorporação de espíritos sempre esteve presente no Brasil e veio junto com os Bantus. Esta prática nada tinha de relação com a Umbanda, uma vez que esta foi criada aqui no Brasil e não tinha vínculo com os negros africanos. Incorporar espíritos não é privilégio da Umbanda ou de qualquer culto ou religião, isso ocorre no mundo todo.

A prática dos Bantus veio junto com eles e já estava estabelecida aqui no século XIX. Bem antes da abolição total da escravatura as casas de macumba e os feiticeiros já existiam e prestavam os seus trabalhos à sociedade carioca.

Os Bantus foram a primeira etnia africana que veio ao Brasil, eles trouxeram os seus elementos sociais e místicos. São citados por historiadores como uma etnia sem muito polimento, se pessoas pouco originais e sem muita contribuição social ou religiosa. O Fetichismo e animismo que por muito tempo foi usado para denominar religiões africanas certamente tem origem na observação desses povos que representam uma enorme etnia africana.

Os Yorùbá foram a última etnia a vir para o Brasil na diáspora africana. Muitos procuram simplificar e reduzir sua relevância, dizendo que por essa razão ele acabaram prevalecendo culturalmente sobre os demais. Não é verdade. Em todos os lugares para os quais eles foram no novo mundo eles prevaleceram, não por serem os últimos a vir mas por serem os que de fato tinha uma cultura a mostrar e adicionar. Eles possuíam um grande desenvolvimento social e uma cultura religiosa poderosa. A prevalência deles sobre os anteriores, sobres os Bantus, foi por sua superioridade social e cultural, não por terem sidos os últimos.

Os Bantus trouxeram a feitiçaria e o chamado baixo-espiritismo. Os Yorùbá tinha uma religião de verdade, a religião dos Orixás.

Sobre esse tema já consultei muitas fontes. Claro, se a gente não viveu a história tem que consultar a história. Eu vivi a Umbanda, assim escrevo sobre o tema baseado em muitos anos de prática (uns 20) e por ter vivido essa religião eu me sinto à vontade para analisar processos sociais e religiosos e criticar o que é escrito sobre ela. Eu consigo entender porque falha o entendimento das pessoas e porque o material produzido por alguns curiosos é tão ruim.

Como muitos de vocês que estão lendo, eu iniciei na Umbanda e depois fui para o Candomblé. Como familiares meus ainda se mantiveram na Umbanda eu iniciei um longo processo de entendimento e codificação das informações que eu tinha da vivência da Umbanda para poder separar o que era uma coisa e o que era outra. Eu me envolvi definitivamente com os Orixás mas jamais deixei de ter contato com a Umbanda. Fiz por conta disso um grande esforço prático e teórico para compreender o que era cada uma dessas coisas e como não fazer um umbandomblé na minha cabeça.

Eu me deparei com muitas descompreensões dentro da Umbanda. A ausência de uma codificação de Umbanda fez que as pessoas criassem universos paralelos para situar a Umbanda. Isso não é recente, iniciou na década 50 na Umbanda e segue até hoje. As pessoas insistem em complicar o que poderia ser simples

Depois de ver vários textos de pessoas dizendo que a umbanda tinha surgido antes de 1908 ou falando sobre a macumba do Rio de Janeiro eu busquei essa informação histórica para poder entender o que diziam. Assim encontrei essa macumba pré-umbanda e escrevi sobre isso no texto que será reeditado.

Quando sai do Candomblé e fui para Ifá eu e deparei com outro fenômeno, que foi a contaminação do culto de Orixá dos cubanos, a santeria e o próprio Ifá pelas práticas dos Bantus, o Mayombe. Percebi então o quanto a Umbanda nos fez bem.

Preste atenção.

A Umbanda surgiu lentamente e foi se expandindo. Demorou muito tempo para se tornar popular e ser reconhecida como um movimento próprio e não um movimento derivado do espiritismo Kardecista ou mesmo da Macumba. Esta Expansão foi principalmente a partir da década de 30 se acelerando na década de 40.

A Umbanda se mostrou muito superior ao que existia. Promoveu a caridade, não foi elitista com as pessoas em muito menos com o mundo espiritual. A Umbanda deu propósito a vida de mediuns e um lugar onde as pessoas podiam buscar ajuda. Não impôs nenhuma religião e através de uma prática aberta e flexível que era acompanhada de uma doutrina hierárquica e bem definida que facilmente era entendida pelas pessoas.

Com o passar do tempo as macumbas foram se acabando ou se transformando em Umbanda. A presença da caridade da Umbanda e de seus propósitos elevados varreu do Rio de Janeiro as antigas macumbas Bantu e seus feiticeiros. Ou eles viravam umbanda ou acabavam, o seu produto não mais atraia as pessoas.

O último elemento neste processo foi a participação do Tata Tancredo e seu Omoloko no segundo congresso de Umbanda. Como resultado prático deste congresso saiu um pacto de não agressão entre as pessoas e casas e o respeito a todos como manifestações de Umbanda. Tata tancredo foi lá porque não tinha opção.

A incorporação dos cultos africanos da quimbanda e baixo-espiritismo foi de fato um golpe baixo nos princípios elevados da Umbanda mas foi necessário. O compromisso da Umbanda não ser elitista era maior.

Com o passar dos anos essas quimbandas e macumbas acabaram perdendo suas características originais e adotando a doutrina da Umbanda. O tempo demorou mas a Umbanda mais uma vez foi vencedora.

Apesar de encontrarmos no meio da chamada Umbanda popular, pessoas de menor caráter e voltadas ao mercantilismo isso é natural e não é nenhum grande problema. Assim como Jeová fez com que os judeus vagassem pelo deserto por 40 anos para que toda aquela geração de pessoas, ligadas a religião anterior morresse e desse lugar a uma nova geração, a Umbanda faz o mesmo.

Em função do processo de “limpeza etnica” que a Umbanda promoveu o Candomblé se salvou de se misturar com os Bantus e o baixo-espiritismo. O processo desta mistura, principalmente vindo do Omoloko, acabou perdendo força e sendo dizimado pela Umbanda. Sem dúvida vamos hoje encontrar casas que misturam a ralé o baixo-espiritismo com o Candomblé mas em uma proporção muito menor.


Vamos encontrar em 2 extremos a Umbanda e o Candomblé. Religiões diferentes mas praticadas com o melhor intuito de fazer pessoas melhores. Entre esses 2 extremos vamos ainda encontrar uma área de sombras cinzentas, com muitos tons de cinza, com pessoas que não entendem o que é uma coisa ou outra, que praticam as 2 ao mesmo tempo. Vamos ter na área cinzenta desde as pessoas que fazem porque aprenderam assim ou acham que é assim mesmo, até uma maior parte que faz isso não por ignorância, mas, porque fazem parte do grupo mercantilista que tem como deus a prata, a moeda.

A Umbanda além de ter acabado com o baixo-espiritismo Bantu foi também responsável por abrir a sociedade para a religião afro-brasileira. A Umbanda é brasileira, mas, muitas de suas casas adotam um formato africanizado, com atabaques e referências aos Orixás, tão fortes ou mais fortes do que aos santos católicos.

As pessoas se acostumaram com isso e isso facilitou muito a popularização do Candomblé na década de 70 e 80. Este foi o segundo fator que salvou o Candomblé, a sua adoção pela sociedade. Neste processo o Candomblé ganha qualidade e vai se desprendendo dos vínculos antigos que o mantinham em uma comunidade pouco afeita ao crescimento da alma e mais interessada na moeda.

Esta foi a segunda forma que a Umbanda salvou o Candomblé. 

Não tenho dúvida que a má fama que o Candomblé tinha junto a população vinha dos grupos do baixo-espiritismo que ao invés de irem para a Umbanda se declararam como Candomblé, abrindo as suas casas-beco. Esse grupo é que trouxe ao Candomblé a fama de ser um lugar de feitiço.

A aceitação do Candomblé e principalmente da religião Yoruba junto a população geral traz para a prática da religião as pessoas que buscam uma religião e não substituir a profissão que eles não tem. O grupo do baixo-espiritismo bantu e do Candomblé feitiçaria é formado por pessoas sem profissão, sem formação, sem valor e caráter, que transformam a prática da religião no seu ganha pão.

A Umbanda em seu processo de crescimento trouxe para as casas a estruturação civil, o sentido de comunidade e prática não profissional da religião. Isso foi resultado da sua adoção pela sociedade baseada em pessoas de valores, ética e moral pessoal e coletiva. 

A santeria em cuba não teve essa sorte, eles não tiveram a Umbanda lá, por essa razão a Santeria saiu do jeito que é. Quem esta se interessando ela Santeria, cuidado, como eu disse lá não teve Umbanda.

Ifá não é nenhuma paraíso ou oásis. Esta muito mais para o modelo mercantilista e baixo-espiritismo banto (ou Mayombe) do que para o modelo altruísta. É preciso muito mais cuidado para lidar com Ifá do que se deve ter para lidar com Umbanda e Candomblé. Nestes dois, aqui, ainda tem muita gente que vê eles como uma prática de religião e não de ganha-pão. Em Ifá muito pouco é quem se considera parte de uma religião.

A Umbanda no século XX salvou o Candomblé. Não só porque acabou com a Macumba dos Bantu como também porque criou um padrão mais elevado para a prática da religião junto à sociedade. O Candomblé de hoje vai ser muito melhor que o dos primeiros 2/3 do século XX. Com a aceitação do Candomblé por toda a sociedade e seu espalhamento um novo patamar de ética e valores se estabeleceu.



O problema é que a Umbanda segue o seu processo e pode ser que engula parte do Candomblé. Se as pessoas de Candomblé não se alertarem para isso vamos ter em breve um novo formato de Candomblé.

Eu recomendo uma passagem por alguns autores interessantes. O primeiro deles é Renato ortiz que escreveu o livro “A morte branca do feiticeiro negro”. Renato acompanhava Bastides e nesse livro visita a Umbanda que era desconhecida deles. O livro apresenta essas questões da prática antiga da macumba e é uma mostra impressionante do preconceito e ignorância do autor sobre a Umbanda. Lendo ele fica claro como esses autores, ficam desconfortáveis com a Umbanda. Eles não entendem rapidamente e não existem fontes para consultar. Você tem que estar dentro por muitos e muitos anos para poder entender a Umbanda e a diferença dela para os demais.

Um livro útil é “A história da Umbanda” de Alexandre Cumino. A melhor forma de entender a Umbanda é estudar sua história. Este livro é bom nisso.

Sem dúvida uma das melhores fontes para entender a bagunça pré-umbanda é o livro de João do Rio “As religiões do Rio de Janeiro”. Este livro foi escrito em 1905 quando não existia a Umbanda, mostra e alguns capítulos esse universo ruim que existia. A melhor referência que encontrei foi o trabalho do João do Rio. Ele não tinha nenhuma ideologia em foco, ele relatou o ambiente que ele conviveu.