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sábado, dezembro 08, 2012

 O que são Oráculos de confirmação?

Oráculo de confirmação, no Candomblé, é uma forma de designar um conjunto de instrumentos oraculares que tem através do seu uso a finalidade de confirmar informações, procedimentos e liturgias executados pelos iniciados e sacerdotes. 

Eles diferem de um oráculo tradicional, como os Búzios ou Ifá, porque esses últimos analisam e respondem a questões complexas que lhes são colocadas, enquanto que o oráculo de confirmação é utilizado de forma bem objetiva.


O oráculo de confirmação tem seu uso direcionado para questões diretas, que podem ser respondidos com “Sim” ou “Não”. Assim, sua finalidade primária, é confirmar para olhador ou Bàbáláwo inúmeras coisas e detalhes que são necessárias no dia a dia de sua função.


No Candomblé um dos usos mais comuns e populares para eles é a confirmação do sucesso de oferendas, rituais e liturgias. É parte do ofício do sacerdote usar um instrumento oracular para obter do divino, do Orixá (Òrìṣà) a confirmação do que foi feito ou apresentado. 


Se uma oferenda é feita, uma confirmação é feita para ter certeza de que foi aceita. Se um sacrifício é realizado, no fim tudo o que foi feito deve ser realizado. Se uma liturgia vai ser realizada, confirmações são feitas antes de iniciar. Toda a atividade religiosa deve ser confirmada para que se tenha a certeza do que se está fazendo.


Neste contexto estes instrumentos se inserem.


Houve, ao longo do tempo, perda de conhecimento e uma excessiva especialização no uso dos mesmos de maneira que, o seu lugar e importância como instrumento de oráculo para o dia a dia das pessoas, sejam sacerdotes ou iniciados, deixou de existir.


Antes de tudo e acima de tudo esses instrumentos são oráculos, eles nos permitem interagir com o divino. A perda desta consciência os fez serem reduzidos ao seu uso mais simples, de mero confirmadores e pior, levou a perda de capacidade de usar os instrumentos como oráculo.


Esses instrumentos também fazem confirmações. Mas, muito mais do que isso eles interagem com o divino, são oráculos de uso geral. O Iniciado na religião dos Orixá (Òrìṣà) sabe que pode contar com o divino o tempo todo para suportar sua vida, para ele ser feliz. Esses oráculos são parte disso e deveriam ser usados por todos.


Oráculo de confirmação é um termo comum, porém, muito restrito para designar a capacidade dos instrumentos de oráculos que são usados na religião Yòrúba: 4 búzios, cebola, orógbó e principalmente o Obí. Em Ifá, acrescente o uso de pedaços de coco, que são os mais usados no Ifá de tradição Cubana.


Oráculos são sempre oráculos. Eles são o meio de comunicação entre nós e o divino, entre o Àiyé (o espaço em que vivemos, o mundo físico) e o Órun (ọ̀run) (o espaço espiritual), entre o ser humano e deus (Olódúmarè ).


A palavra divino será usada aqui para representar todo o contexto espiritual e supernatural. Representa o modelo metafísico completo da religião, incluindo a divindade superiora, Olódúmarè, seus ministros, os Orixá (Òrìṣà) e qualquer espirito ou divindade que dentro do conceito teogônico adotado venha a se comunicar com os seres humanos.


A palavra "deus" é um substantivo. Não representa uma divindade em especial mas qualquer divindade superior de uma religião. Qualquer religião pode e deve usar a palavra deus para designar a sua divindade superior.


Um oráculo implica na existência de 4 elementos: 


  • O divino que tem conhecimento sobre você e sobre tudo o que o cerca;
  • um mensageiro para receber as mensagens e manter a comunicação com o divino;
  • um instrumento para essa comunicação;
  • um método para essa comunicação.
Em função do instrumento ou do método, ocorrerá uma variação na forma como as mensagens são apresentadas. Desta maneira, alguns instrumentos terão o seu uso mais objetivo e especializado. Contudo, por mais simples que seja o instrumento usado, será sempre o divino que estará respondendo a quem o consulta.

A importância desses instrumentos de oráculo no dia a dia das pessoas e da religião se explica porque esses oráculos são voltados para a comunicação simples, direta e sem trazer efeitos colaterais. 


A religião Yòrúba é formada por mais um culto, com casas especializadas em cada culto e sacerdotes especializados em cada um dele. O principal é o culto aos Orixá, contexto no qual o Candomblé se insere. O culto ao orixá é o culto comum, voltado para a pessoa, a família e a comunidade. O segundo é o culto de Ifá, voltado exclusivamente para cuidar do Oráculo de Ifá, principal Oráculo da religião e que traz às pessoas as orientações de deus sobre sua vida, além de corrigir problemas e doenças. O terceiro é o culto de egungun, voltado para o culto a ancestralidade. Este último é o menos comum, mas igualmente importante. A família e a sociedade esta no núcleo dos valores desta religião. A ancestralidade é muito importante e as pessoas que morrem são cultuadas pela importância que tiveram, pela proteção que dão à nossa vida e também pela perspectiva de que elas reencaranarão em descendentes.

No caso de Ifá, por exemplo, que é o oráculo por excelência da religião, ele é um oráculo complexo, de uso mais demorado, e sua consulta envolve a invocação de um Odù. Isso traz uma carga de responsabilidade muito grande porque toda consulta através de Ifá ira trazer um Odù e um Odù não é apenas um simbolo é também uma resposta energética de deus. 


Uma consulta a Ifá sempre indicará um ebó (ẹbọ), porque sempre traz a energia de Olódúmarè, o Odù, para ajudar ao consulente e isso gera a necessidade dessa energia ser manipulada (por isso o motivo do ebó (ẹbọ)). Ifá é indicado para motivos especiais e importantes na vida das pessoas.


No nosso dia a dia, existe a necessidade de uma forma mais direta e imediata de consulta ao divino, que não passe necessariamente por Órunmilá (Ọ̀rúnmìlà) e por Ifá e que possa ser feito por qualquer pessoa, seja esta pessoa um Babaláwo ou um iniciado em Orixá (Òrìṣà).
 

A premissa do oráculo e da continua comunicação entre nós e o divino é uma parte importante da religião Yòrúba que esta fundamentada na presença e prática continua da Fé, uma via de duas mãos, entre o Àiyé e o Órun (ọ̀run). 

Na prática comum laica ou religiosa, existem situações que não vamos tratar do destino e da vida das pessoas. Precisamos de tratar de assuntos religiosos e de questões objetivas de nossa vida. Precisamos conversar com nosso Orixá (Òrìṣà) ou Exu (èṣù). Precisamos confirmar a realização e o sucesso de liturgias. 


É para isso que existem os ditos oráculo de confirmação.