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sexta-feira, dezembro 14, 2012

O Candomblé versus cubanos e Nigerianos

Parte final


Após esta ultima postagem com a exposição sempre lúcida e informativa que retirei do livro do Jose Beniste eu quero fazer os meus comentários.


Lembro que os fiz no início quando introduzi a questão, mas, existem outros que eu só poderia fazer depois de vocês lerem as colocações do Beniste sobre o tema.


Esta não é uma postagem Xenófoba e muito menos preconceituosa em relação as outras tradições. Longe disso. O tema aqui é apenas colocar os pingos nos "I", para que se entenda que existem tradicões diferentes, cada uma delas ligadas a um povo e sociedade.

O candomblé é uma tradição legítima da religião Yoruba.


Não foi estruturada a moda bangu. Foi um trabalho bem feito e que contou com a participação de africanos, mas, do tipo que conheciam Orixá mesmo e não do tipo que aparece hoje aqui no Brasil.


A Iyalorixá do engenho velho foi diversas vezes na Nigeria nesse processo. É ilusão achar que negros jovens tivessem domínio completo da religião. Os negros que tinham o domínio, certamente seriam os mais velhos e certamente foram os mais atingidos pela mortalidade no processo de viagem e depois aqui. Por essa razão, as pessoas que aqui tinham noção da religião precisaram buscar a ajuda de babalorixás da Nigéria para estruturar uma tradição legítima e consistente.


Eu vi o depoimento de Iyalorixás e babalorixás antigos, já falecidos, contando a interação que eles tiveram com Africanos. O próprio culto de egungun veio depois também trazido por africanos. 


Assim sendo, nossa tradição religiosa não deve nada a nenhuma outra e muito menos a qualquer Nigeriano que apareça aqui querendo ensinar para nós o que é Orixá e religião Yoruba. Nós aqui no Candomblé aprendemos isso com os tataravós dessas pessoas, na realidade, com as pessoas que sabiam de fato a religião, que praticavam a religião e que tinham o que ensinar.


É comum ver Nigeriano, chegando no Brasil, falando com brasileiro desavisado, e querendo ensinar para a gente o que é orixá e o que é religião. Eles fazem isso com facilidade com pessoas que não sabem nada e se impressionam com essa conversa mole de que eles é que sabem o que é, etc..


Sabe como a gente trata isso aqui no Candomblé? Não trata, vira as costas para isso e continuamos a fazer o que fazemos. Nós é que temos o segredo. Se tem alguém que tem algo a aprender, certamente são essas pessoas que acham que tem algo a ensinar. Aqueles que sabem mesmo não ficam preocupados em dizer para os outros que nós não sabemos, não ficam se valorizando dizendo que a gente não sabe de uma coisa ou de outra.


E digo mais, as pessoas do Candomblé, que tem o segredo, não deveriam nem fazer ebó em Cubanos e Nigerianos que vem aqui só para aprender como é para depois fazerem eles mesmos. Acham que estou inventando? Já tiveram vários cubanos que vieram aqui, tomaram uns 3 boris e foram para os EUA aplicar isso , abrir sua fábrica de Boris

Vocês podem perguntar: porque um cubano viria aqui tomar um Bori e copiar?  Porque eles, lá no culto deles, nem sabem o que é isso. Inúmeros nigerianos, babalawo inclusive, já procuraram Iyalorixá de Candomblé para receber Bori. Assim, quem sabe o que esta fazendo, nós ou eles?

Essas pessoas que procuram crescer em cima de outros com esse tipo de assunto é gente que nada sabe e nada tem para dar. Quem sabe mesmo, reconhece o que vê e respeita.
O que esses Nigerianos usam para impressionar os neófitos é falar de coisas da sociedade Yoruba, a qual eles nem mais pertencem. Ja pensaram que eles podem estar inventado coisas.


Vocês sabiam que os Nigerianos não aceitavam que nós, aqui no Brasil, podíamos incorporar com Orixá?  Eles consideravam que somente eles podiam isso e, eu acredito, que muitos deles ainda pensem assim.

Vocês sabiam que os Cubanos não consideram que os Iyawo incorporem com orixá? Eles entendem que é um egun de uma Iyalorixá falecida ou babalorixá falecido que incorpora na pessoa. Vocês sabiam que eles fazem, por padrão Iyawo em 7 dias e que inexiste o conceito de terreiro, eles alugam um lugar ou fazem em um casa comum. Você sabia que eles não tem egbe? Que quando vão fazer um Orixá eles chamam pessoas diversas que recebem por dia (uma diária)  para participar da cerimônia e disso nasceu a conhecida Libreta onde eles anotam querm participou da cerimonia?

Pois é, e as pessoas não dão valor ao Candomblé....
 
Mas muitos se impressionam com aquelas rezas em Yoruba que levam 15, 30 minutos?  Olha, se eu fosse também para os EUA, Cuba ou Nigéria, dava para ficar 1 hora rezendo em portugues uma vez que ninguem estaria entendendo. Eu acho que daria nesse tempo para contar, em portugues, como foras minhas ultimas férias, falar sobre os ultimos jogos do meu time e mais um monte de coisas. Dava mesmo para eu "rezar" um dia inteiro sem parar.

Gente esse assunto de como é lá e como é a sociedade deles, não interessa a gente aqui no Brasil. Aqui não é Nigéria, aqui é um lugar muito melhor, tão melhor que eles vem para cá.

Nossa tradição religiosa foi estruturada para se adequar a nossa sociedade e não o contrário. 


Vejam a postagem que eu fiz sobre as "Carminhas". Tem muito africano, que como os brasileiros, que é basicamente uma Carminha querendo se dar bem aqui. Essa coisa de ser "Carminha" não é privilégio nosso, tem em todo lugar,


Em menor escala estão os cubanos. Mas estes não tem esse discurso bobo. Eles também são uma tradição da diaspora como nós. Mas, eles vem para cá e trazem a sua tradição, o seu jeito de entender Orixá e o seu jeito de fazer orixá. Tenho um respeito profundo pelos Lukumi, mas, na minha opinião o Candomblé é a melhor tradição para nós brasileiros.


Claro que quando falamos de Ifá a coisa é um pouco diferente. Não temos Ifá e este esta sendo trazido por cubanos e nigerianos. Temos aqui o jogo de búzios e que se distanciou completamente de Ifá, ha muitos anos. O jogo de buzios foi introduzido pelos africanos mas esta tradição se perdeu e virou apenas um oraculo de mediunidade. Isto esta explicado no post que fiz sobre jogo de buzios.


Ifá é bem vindo, seja de qual tradição for e temos que aprender do jeito que eles estão dispostos a ensinar.


Contudo esse processo de Ifá não tem que carregar junto as tradições de Orixás dos respectivos países. É isso o que esta acontecendo, Ifá e muito colocado com o culto de Orixá. Lá em cuba isso é evidente. Aqui deve ser o mesmo, o Ifá do Brasil deve se aproximar das casas de Candomblé.


As pessoas não tem que trazer o seu culto de orixá, a sua tradição e impor isso como se fosse parte do Ifá deles. NÃO É!


Se eles trazem o Ifá deles, que procurem o Candomblé para conduzir a parte de Orixá, assim como fazem la na terra deles.

No caso dos cubanos o que mais sobressai é isso. Eles carregam as praticas Lukumi deles e as fazem como parte do Ifá. Junto dos Babalawo também vão aparecer os Obariate querendo confundir as pessoas, fazer novos Obariate, distribuindo um título que lá é obtido com muito esforço e aqui com muita facilidade.


Em torno do Ifá cubano esta orbitando a tradição lukumi. Lamentável saber que algumas casas ou melhor ogans despreparados, ficam cantando cantiga de lukumi e xire de candomblé. Essas pessoas tem que entender que elas devem cantar o que a tradição delas tem. Eles tem que saber que deveriam ser os primeiros a proteger a tradição do Candomblé. Não existe nenhum problema em sempre cantar as mesmas cantigas, ninguem precisa inventar nada. 


Vai, também, ficar muito mais fácil se os babalorixás descerem da caixa de sabão que estão e reconhecerem que não são babalawo e que jamais serão baba Ifá como muitos deles, sem noção, estão se anunciando. Ifá é com Babalawo. Orixá é com Babalorixá. Um jamais fará o que o outro faz, não apenas por uma questão de conhecimento a adquirir como também impedimentos litúrgicos.


Se você quer Ifá, procure um babalawo. Se quer orixá procure um babalorixá.


Quando os babalawo passarem a não se meter em coisas de orixá indicando um babalorixá para isso e, quando os Babalorixás pararem de se anunciar também como sacerdotes de Ifá ou que tem o oráculo de Ifá a coisa toda vai ficar muito mais simples.


O jogo de búzios sempre será um oráculo perfeito e pode até melhorar com a proximidade de Ifá. Mas uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa.


Nesse momento essas tradições estrangeiras vão parar de crescer em cima das pessoas que não conhecem esta religião e que não sabem do que eu estou explicando aqui.


Gente, por fim, como eu disse Nigerianos vem para cá com visto de turista trabalhar com religião. Cubanos fazem o mesmo. Temos muito a ganhar com a entrada de Ifá, mas, nada temos a ganhar com a entrada de tradições de orixá de outros países.


Não acreditem no discurso de que o Candomblé não faz isso, ou o Candomblé não sabe nada daquilo. Bo-ba-gem. Se a gente não faz ou não tem é porque isso foi o melhor para nós. Possivelmente fazemos diferente e melhor.


Coisas que não foram trazidas é porque eram particulares de lá ou que eles, os africanos, sabiam que não servia. Assim quem leu isso aqui pare para pensar que, se algum culto não foi trazido para ca, ao longo de anos de processo de estruturação, é porque possivelmente não era bom nem para eles lá.


Eu posso afirmar a vocês que o Candomblé foi estruturado por pessoas que sabiam o que faziam e que temos hoje um culto de Orixá legítimo e com a participação de Orixá. Só quem esta dentro de uma casa, dentro de um roncó sabe o que ve.


As outras tradições, tem que contar a história delas e nao querer se aproveitar da nossa.


Por fim um comentário interno ao Candomblé. O Ketu foi a única nação que se organizou. As demais basicamente copiaram ele, por isso os ritos são similares na estrutura, mas, com algumas variações por conta a perfeição da cópia. Isso entre o grupo Nago é menos relevante, mas, no caso de Angola e Jeje passa a ser uma coisa gritante.

Angola foi uma invenção brasileira. Lá em Angola o que existe é uma coisa muito próxima de uma Umbanda. Isso, o que tem aqui como nação Angola, é uma jabuticaba, uma invenção baseada no Ketu. No caso do Jeje é distinto, existe a religião dos Vodun e famílias. Em outra publicação eu volto nesta história de nações.