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terça-feira, dezembro 04, 2012

O Rei da Cebola

O mau uso de oráculos de confirmação


Antes de voltar aos assuntos sérios eu quero abordar o assunto dos oráculos de confirmação no Candomblé. Mas de forma bem coloquial.


Oráculo de confirmação é aquele que nós fazemos para confirmar algo que vamos fazer ou que acabamos de fazer. É o uso mais tradicional e comum de oráculo que temos no Candomblé. Nós podemos confirmar tudo, desde um ebó a um Bori. 


Esta religião não possui um deus distante. Pelo contrário, as pessoas se comunicam o tempo todo com deus. O protocolo indica que antes de fazer qualquer procedimento liturgico se faça a confirmação do que vai ser feito.

A confirmação prévia é para saber o que e como fazer. A posterior é para saber se tudo foi feito certo, dando oportunidade para correções. Essas confirmações são feita com um oráculo de confirmação.

Um oráculo é um instrumento de comunicação entre nós com o divino. 

No caso do Candomblé essas cofirmações podem ser feitas com os 4 buzios de Exu, com Obi, com orogbo ou com uma cebola. O objetivo sempre é o mesmo: Temos que usar o oráculo para nos orientarmos em como fazer e depois para confirmar o sucesso do que fizemos.

Este é o protocolo que adotamos com o divino.

Isso também existe da mesma maneira em Ifá, mas, feito com uma abordagem mais séria, afinal, o culto de Ifá é o culto do Oráculo.

Seguindo a regra, não podemos iniciar nada sem a confirmação do oráculo e não podemos considerar que nada feito corretamente sem fazer essa confirmação. 


O motivo da confirmação no início é promero verificar se NÓS estamos preparados para fazer aquilo. O primeiro impedimento a ser avaliado é em quem vai fazer. A segunda avaliação é se esquecemos de algo ou se existem instruções adicionais. Lembrem-se que esta é a religião da individualização, dessa forma você não pode imaginar que tudo vai ser igual para todo mundo!  Existe uma base a ser seguida e dezenas de particularizações a serem feitas.

O procedimento de confirmação é simples, usa-se um oráculo para responder SIm ou Não a pergunta de que podemos começar ou se tudo foi aceito. Tenho certeza que todo mundo já viu isso ser feito, centenas de vezes.

Explicar como estas confirmações devem ser feitas adequadamente é assunto para um outro texto longo.

Contudo, nos deparamos aqui com o velho problema de pessoas despreparadas e sem conhecimento. Despreparadas por falta de formação, porque não aprenderam o que deveriam, porque não ficaram em uma casa o tempo suficiente para aprenderem ou porque não receberam mesmo este conhecimento (quem os formou não tinha o que ensinar)


Parece que estou valorizando mas não é. A coisa mais simples que é uma confirmação exige conhecimento para ser feito. A pessoa deve saber o que perguntar e como perguntar.

É neste ambiente que a Cebola prosperou no Candomblé. Esqueçam a questão do valor de uma cebola versus o valor de um Obi. Na realidade as pessoas poderiam usar os 4 búzios de Exu para confirmar e isso não teria custo nenhum.


A grande questão é que os tais pais de santo se borram de medo de usar um oráculo decente. Eles não se submetem ao oráculo. Eles não aceitam um oráculo recusando algo que ele fez, ali, na frente de dezenas de pessoas. Para evitar este constrangimento eles fizeram adaptações no oráculo de confirmação.


A primeira adaptação foi a questão do SIM. Quase tudo vale para uma caída positiva. Imaginemos uma cebola com 4 partes ou um Obi com 4 partes. Se 2, 3 ou 4 partes cairem abertas é um SIM. O NÃO é apenas se nenhum ou 1 segmento cair aberto.


A segunda adaptação foi eles jogarem... e jogarem... e jogarem... o instrumento, o Obi ou a Cebola, tantas vezes quanto forem necessárias para obter um SIM. Então vejamos, se o Pai de Santo começa jogando e recebe 3 NÃO ele passa para outra pessoa que vai jogar mais 3 vezes e se esta não conseguir ele passa para outra pessoa até que apareça um SIM. Se aparecer um SIM depois de 5 NÃO, esta tudo OK, aquele SIM vale mais do que os 5 NÃO anteriores.
 

Não é incrível? Mas é verdade eu já vi em Bori 5 NÃO consecutivos e um SIM forçado para acabar com aquele suplício. Imagino o que aquela cabeça, de Omolu, não estava querendo dizer...  Já vi em oferenda para Exu 7 NÃO consecutivos....

Vejam, isso é uma palhaçada! Não existe nenhuma confirmação. Existe apenas uma pantomima para dar SIM. O SIM é a única resposta aceitável.


Essas pessoas não estão preparadas para receber um NÃO. Pior, elas nem sabem o que devem fazer se receberem um NÃO. Se fosse diferente elas não veriam o menor problema em receber um NÃO.


Em Ifá, onde isso é feito com seriedade a gente pergunta apenas 1 vez, a resposta que veio esta valendo. Recebemos  NÃO o tempo todo, ou melhor, encaramos de forma natural e normal a resposta NÃO. Eu fico até preocupado quando vem SIM de cara.

Sempre esta tudo normal. Recebemos a reposta que for e sabemos exatamente o que fazer com ela.

A terceira adaptação do Candomblé foi o fato de usarem preferencialmente cebolas como instrumento deste oráculo. O motivo de usar a cebola não é porque é barata. É porque ela é grande e os segmentos caem com facilidade abertos. Os pais de santo se esmeram na técnica de como abrir e "jogar" uma cebola sem correr o risco de algum segmento ficar fechado. Se pidessem eles ainda colocam cada um na posição certa...

É uma técnica apurada. Uma técnica de enrolação, de mentira e enganação. Sim, isso mesmo, porque quem esta recebendo aquilo esta sendo enganado.


Eu conheci um pai de santo que era um primor nisso. Se Você colocasse um Obi na mão dele, era um terror. Ja vi caida de Obi em que os gomos caiam ainda colados e mesmo assim ela já dava confirmação. Aquilo era uma palhaçada. Pegar búzio para confirmar? Nem pensar. A coisa era tão ridícula que eu nem mais me preocupaca em olhar aquilo. Para que? 


Mas, como disse antes  a base de tudo isso é a ignorância. A pessoa não entende o valor do oráculo, não dá importância aquilo e por fim não acredita. Aquilo só serve quando confirma. Entretanto, este desrespeito pelo oráculo é compreensível para mim. Vejam, ele como inúmeros outros que dizem que jogam búzios, jogam apenas pela vidência. Não importa como os búzios caem, é a vidência dele (aurividência ou clarividência) que dizem o que ele deve falar.


Desta forma se a pessoa usa um oráculo no qual o que ele tem que falar é "soprado" no ouvido dele, como é que ele vai acreditar em oráculo? Como ele vai acreditar que aquilo funciona?


Ai a pessoa se transforma no Rei da Cebola. Se esmera em fazer com que os gomos da cebola caiam naturalmente, com pouco esforço e que fiquem sempre na posição certa. É isso o que mais vemos por ai, não esquecendo, claro, da política de um SIM anular os 20 NÃO que vierem antes.

A Cebola pode ser usada no Candomblé, mas, não é um bom instrumento. Ela se desfaz com o uso e não suporta cair de fato de alguma altura, como deve ser. Quem gosta mesmo dela é quem quer ter certeza que sempre vão receber um SIM. Qualquer pessoa honesta sabe que na maior parte das vezes tem que dialogar com o oráculo para fazer ajustes antes e depois de iniciar. Para esta finalidade a cebola não serve.

Os reis da cebola são aqueles que sempre confirmam de primeira e que tudo aquilo que fazem esta sempre certa. É incrível que em uma religião onde a individualização é uma das coisas mais importantes, como, para essas pessoas, as receitas prontas e padrões que elas tem servem igualmente para todo mundo.


Você pode imaginar estar sempre certo em tudo? Você pode imaginar estar sempre preparado para tudo?  Não dá..

O oráculo não é para atrapalhar ou criticar, é para orientar e garantir o sucesso.


Se você pertence a alguma casa, passe a prestar atenção nessas confirmações para saber o nível de seriedade que isso é tratado.
 

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