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quarta-feira, dezembro 12, 2012

O Candomblé versus os Cubanos e Nigerianos

 Parte 2



O texto a seguir foi originalmente publicado por José Beniste no seu livro "Mitos Yoruba", Editora Bertrand, no capítulo final de "Complemento".

O livro de Beniste, belamente editado e com excelente conteúdo, é uma coleção de mitos importantes do Candomblé. O comentário a seguir não faz parte desta coletânia de mitos, foi uma atualização do autor a qual faço divulgação por entender que é importante para o assunto que esta sendo tratado.
 

O que foi idealizado pelos que instituíram o Candomblé



O início da implantação do Candomblé pode ser, assim, resumido: os ancestrais afro-brasileiros, cientes de sua permanência no Brasil pelos laços familiares aqui criados, começaram a se organizar criando um modelo de culto com práticas a serem seguidas e outras devidamente abolidas por não se enquadrarem com a forma cultural da terra, pois sabiam que o Candomblé seria reduto de negros, brancos e mestiços de diferentes posições sociais.

E como ele seria praticado em solo brasileiro passaria a assumir seus próprios dogmas e liturgia. Foi um trabalho em que a oralidade procurou construir uma tradição toda própria.
Observaram-se as tradições tribais africanas, que não se ajustavam ao novo critério. Estas foram preservadas apenas na memória coletiva, deixando sua prática de lado. Todo este processo instituído pode ser assim definido:

  • Os cortes feitos no corpo, nos ritos de iniciação e identificação tribal africana, foram substituídos por marcas feitas com tintura de efun que lembravam a tradição da família real de Òyó;
  • Os ritos, em sua maioria, seriam praticados internamente, abolindo-se as procissões externas aos lugares sagrados, por eles não existirem como na África; por exemplo: a Floresta dos Egúngún, dos Abikú, de Ifá, rios e lagoas. Para isto, seriam construídas dependências internas que alimentariam esses ritos; 
  • A forma do culto a Ibéji, que determinava a morte de um dos gêmeos, foi abolida, por julgarem um fato anormal;
  • O culto foi centralizado em um único local, com espaços preservados a cada Orisà e Ancestrais. Por esse motivo, a dirigente deveria ser conhecedora de todos os fundamentos dessas divindades;
  • O número de Òrisà cultuados seria limitado às exigências da nova terra. As divindades de tradições tribais foram mantidas apenas na memória coletiva do grupo; em outros casos, acabaram sendo definitivamente esquecidas;
  • Rituais específicos ligados às tradições regionais africanas foram revistos; outros, criados ou adaptados, como o Ipàdé, Olúbáje, Àmàlà às quartas-feiras, a Roda de Sàngó, o Ipètè, a sexta-feira dedicada a Osàlá, o Lórogún com o fechamento do Terreiro no ritual realizado no domingo após o Carnaval, e outros;
  • A iniciação passou a ser individual e sem a noção de família biológica, criando, assim, a família-de-santo. O "transe de expressão", no dizer de Verger, passou a substituir o transe de possessão identificado com o clã familiar. O iniciado deixou de ser elégún para ser lyàwó;
  • A utilização do osú como marca que distingue o iniciado;
  • As datas festivas dos santos católicos identificados com os Òrisà passaram a determinar as datas de suas festividades, contrariando a modalidade africana das estações climáticas e outras tradições;
  • Os animais para o sacrifício foram substituídos; as plantas tiveram novas identificações; comidas-de-santo foram mantidas, e outras, criadas; novas kizilas surgiram com produtos nativos da terra;
  • Os 4 dias da semana yorubá foram adaptados para a semana ocidental de 7 dias, com nova distribuição dos dias consagrados a cada Òrisà;
  • Formação de um grupo masculino - ogans - mantenedor e protetor do culto, dedicado à prática religiosa onde somente homem atua;
  • Os cargos religiosos seriam apenas para as mulheres. A iniciação masculina seria, exclusivamente, como ogans, talvez, para evitar tendências ao homossexualismo e trejeitos efeminados nos ritos públicos. Posteriormente, om a inevitável participação masculina, os cargos tiveram dualidade;
  • Como o comando religioso seria das mulheres, a opção viável para o sistema de consulta seria o jogo de búzios em detrimento de outras mais tradicionais, mas bastante complexas, como o Òpèlè e o Ifá, que obrigavam, entre outras coisas, a recitações em língua nativa, sendo utiiizado somente por homens;
  • Os títulos de reis e rainhas foram abolidos, limitando-se aos títulos honoríficos - oyè - referentes aos cargos religiosos.
Outras diferenças podem ser observadas nos trabalhos de pesquisa de Verger, muito bem documentadas em suas obras.

Em seu outro livro, o também excelente O Jogo de Búzios, Beniste faz um histórico breve, mas relevante, da configuração do Candomblé no Brasil.


Segundo ele, "....a história de Iya Naso reporta-se a fundação do Candomblé do Engenho Velho, em Salvador, Bahia, no período entre 1820 e 1830 até os dias atuais, sempre dirigido por mulheres. A participação masculina se dá exclusivamente na categoria de Ogans, ou título correlato.


Foi no retorno de uma viagem feita à cidade de Ketu, na Nigéria, que Iya Naso e Obatosi, sua futura sucessora, trouxeram alguns africanos para auxiliá-la no Candomblé em organização e, entre eles, Rodolfo Martins de Andrade, mais conhecido pelo título de Bangbose Obitiko e que aqui auxiliaria na organização religiosa, adaptando práticas africanas a serem seguidas por todos.


.... A participação de Iya Naso e seu grupo representa um capitulo dos mais iportantes a serem estudados, pois foi ai que se delineram mudanças e adaptações do culto em sua forma africana para uma nova realidade.

As viagens de africanos à Africa e seu consequente retorno ao Brasil nos dão a certeza do interesse na manutenção de suas tradições numa nova terra, pois, afinal de contas ja não eram os negros africanos e sim negros brasileiros. Essa nova visão exigia mudanças pois o mundo cutural era diferente.

Muitos ritos foram criados, outros abolidos por não se adaptarem a forma cultural da terra. Foi um trabalho em que a oralidade procurou construir uma tradição própria. Um cuidado porém foi observado, o de não ferir tradições ancestrais, como por exemplo a arte do jogo....


Essa decisão de mudanças e a manutenção de costumes deram o modelo de culto africano no Brasil, sendo imitado pelos outros aqui instalados e já esquecidos de suas tradições.

Um outro documento importante, que um dia posso tentar citar partes, foi o resultado do encontro de nações de candomblé organizado pelo centro de estudos afro-orientais em 1984. Nele é abordada a questão desta formação com análises de estudiosos e entrevistas com os proprios sacerdotes de diversas nações.

Mas Beniste segue no seu livro em mais alguns comentários críticos porém importantes:
 

As razões das transformações ocorridas

À medida que o tempo avançou, foram surgindo problemas de relacionamento quando novas Casas começaram a se instalar, em grande parte, através de dissidências, modismos e interesses pessoais. Novos grupos foram se formando em outras regiões, distanciando-se cada vez mais da Casa Matriz, perdendo os padrões tradicionais e adaptando-se ao modelo local de crença.


Surgiu um novo tipo de público, que o aceitou, sem qualquer critério de seleção. Começaram a ocorrer mudanças de forma lenta e despercebida a ponto de serem aceitas como fatos normais. Raramente foi seguido o conceito de que só prospera o axé que divide o saber. A guarda deste saber e do conhecimento chegou a um ponto tal, que obrigou as pessoas a uma busca de explicações através de cursos e livros que, em muitos casos, não ofereciam um respaldo desejado, confundindo mais ainda o que já era tão confuso.


Surgiram as fugas, e a mais comum de todas foi a constante troca de Terreiros, tornando-se incomum as pessoas serem iniciadas numa Casa e nelas permanecerem (ver itens 17, 24 e 26).


Culturas diferentes entraram em choque, criando novas formas de .trabalho, que podem ser assim definidas:



  • Ritual de troca de nação - expediente criado para mudança de Terreiro: foi iniciado no Candomblé Ketu, mas resolveu passar para o Candomblé Jeje ou Angola, e vice-versa; 
  • Obrigações de 1, 3 e 7 anos feitas em Terreiros diferentes. A cabeça passando por diversas mãos, sem qualquer critério ético;
  • O 2 Òrisà sendo obrigado a se manifestar nas pessoas, durante as obrigações de ano, isto ocorrendo nas Casas de tradição Ketu. Com isto, são obrigados a fazer novas roupas e assentamentos, motivando novas cobranças;
  • Saídas de iyàwó com 4 e 5 apresentações públicas, com evidentes interesses para desfilar roupas-de-santo e outras alegorias;
  • Roupas-de-santo e paramentos descaracterizados de sua condição original. Enfeites, miçangas, paetês, brocados, tecidos de riqueza exagerada destituídos de significados, com o objetivo único de alimentar o ego da pessoa. (Ver item 40.)
  • Ogam "pai-de-santo," fazendo obrigações fora de sua competência e abrindo Terreiro;
  • A constante troca de Terreiros faz com que as pessoas se tornem portadoras de diferentes conhecimentos, criando uma confusão de rituais e produzindo a perda do que se acostumou a entender como raiz-de-santo, ou seja, disciplina ritualística determinada pelo Candomblé Matriz;
  • Bàbálórisà e Iyálórisà sem zeladores de suas obrigações;
  • Pessoas indo para outros países, e sendo lá iniciadas,buscando conhecimentos estranhos à nossa cultura e que foram abolidos por ocasião da instalação do Candomblé no Brasil. Essa fusão de conhecimentos foi outro fator para se perder a antiga "raiz-de-santo". 
  • Introdução de culto aos Caboclos, vistos como Encantados, advindo daí os Candomblés de Caboclos nas Casas Ketu, Jeje, Angola e Nagô-Vodun. Na realidade, em grande parte foi um expediente para ex-umbandistas iniciados no Candomblé manterem suas entidades umbandistas;
  • Pessoas se iniciando, predeterminadas a, e não dando certo, terem a opção de ir para outra Casa, numa evidente demonstração de insegurança e falta de critério seletivo;
  • Pessoas que saem da Casa de Candomblé e são aceitas por outra sem qualquer critério ético;
  • Mercantilismo religioso;
  • Umbandistas no Candomblé. Exemplo: dirigente de Umbanda com Casa aberta, fazendo obrigação-de-santo e já saindo como iyálórisà;
  • Candomblé dando festas de pomba-gira, ciganos etc. -entidades estranhas aos rituais;
  • Nigerianos e cubanos trazendo costumes novos e interferindo em nosso modelo de trabalho;
  • Ogam e ekedi sendo raspados e fazendo obrigações de 1, 3 e 7 anos como se fossem iyàwó;
  • Elementos para a iniciação, que deveriam ser feitos pelos iniciados, são comprados prontos;
  • Tomar a bênção encostando a mão no queixo;
  • Vestimenta de Òrisà feminino sendo usada por homem, sem respeito à sua condição masculina, como era feito nos antigos Candomblés. Estes faziam ligeiras modificações nas roupas, a fim de não haver constrangimento e incentivo à homossexualidade masculina;
  • Assentamentos de Orí, Odú e Iyámi, este último sem o conhecimento suficiente para fazê-lo;
  • Denotando falta de credibilidade, pessoas iniciadas e recém-iniciadas procurando mesas de jogo para confirmação. É o início do caos, por ouvirem críticas de pseudo-erros que só irão confundi-las e trazer constantes intranqüilidade e dúvidas. A partir daí, não serão mais as mesmas pessoas, terminando por sair de sua casa e buscar outro Terreiro;
  • O descrédito do jogo de búzios, em razão de sua utilização por pessoas despreparadas e sem conhecimento para a função, revelou-se um dos fortes motivos da confusa situação do Candomblé, necessitando de uma regulamentação para quem o pratica.

Na próxima postagem vou concluir o assunto com meus comentários. Fiz questão de transcrever na integra essa opinião e informações para que cada um também possa formar um idéia do processo.

Como já disse, recomendo a leitura dos livros de Jose Beniste. Orun Aiye, O jogo de Buzios, Mitos Yorubas e As aguas de Oxala.