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sexta-feira, janeiro 18, 2019

O aborto provocado e a religião Yorùbá

Revisão 2

 


 
Conclusões

Não existe referência direta ao aborto provocado na religião Yorùbá, mas, o aborto natural é largamente entendido e tem causas naturais e inclusive supernaturais bem exploradas pela religião.

Não existe um dogma que determine ser certo ou errado o ato de abortar. 

Ser certo ou errado nesta religião dependerá das circunstâncias e motivos, mas, existem consequências para um ato errado que, contudo, podem ser amenizadas ou resolvidas através da própria religião. Entretanto o  ato do aborto provocado, por si só, não é um erro ou um "pecado".

Realizar o aborto, em sí, não implica em matar uma pessoa, para a religião, uma pessoa é um indivíduo depois que ele respira por sua própria conta. O corpo é um receptáculo em formação e pertence ao corpo da mulher enquanto sendo formado. 
 
O ato do aborto não condena a vida de ninguém, mas pode trazer complicações que se refletirão em momentos futuros.

Introdução – A ética da sociedade e a religião

 

A religião não muda o mundo onde vivemos. A religião não muda a vida que vivemos, não no sentido literal ou prático, ter uma religião não vai fazer ninguém estar imune a viver, sofrer, ser feliz, amar, se ferir, se decepcionar, morrer e tudo o mais que faz parte da vida.
Você vai ficar doente, vai precisar de um médico e não de um padre ou pastor. Ter religião não muda os fatos da vida e a sua realidade.
A religião trabalha com o ser, com sua alma e coração para que ele tenha uma dimensão estendida de sua existência. Ela traz à pessoa uma forma complementar de ver a vida, costumamos dizer uma forma maior, porque coloca a nossa vida em um contexto maior, além da existência individual e coletiva.
O cientista é a pessoa que lida com a natureza das coisas, ele trabalha para fazer coisas melhores, é a pessoa que lida em termos melhores objetos, vivermos melhor com eles.
Um sacerdote não é um cientista e não concorre com ele. Um sacerdote é voltado para as pessoas, para ajudar a sermos pessoas melhores. Este é o objetivo da religião, nos fazer pessoas melhores.
Toda a religião estabelece uma forma alternativa de ver o mundo, ou melhor, vamos usar a expressão: uma forma complementar; porque ela não substitui a nossa vida comum, a nossa vida em sociedade e suas regras. Ela complementa isso, trazendo para as pessoas valores que ela deve ter e, também, buscar que essa pessoa dê o melhor de si para a sua vida pessoal, família e sociedade.
Essa visão estendida pode em alguns casos colocar a pessoa em posição antagônica com uma parte da própria sociedade em que vive, por exemplo ao lidar com questões morais, uma vez que a religião pode estabelecer valores diferentes para a pessoa ver o mundo do que uma parte da sociedade deseja estabelecer com consenso.
Leis e regras são isso, um consenso da sociedade para equilibrar suas próprias relações, trazendo o que chamamos de civilização. Elas são muito importantes e garantiram uma vida comum em sociedade.
A sociedade pode se adaptar, com o tempo, ao desejo das pessoas e às mudanças de comportamento e do entendimento do que seja um comportamento adequado ou tolerável, mas, essas mudanças e o novo comportamento podem não fazer parte da ética e moral que a religião (qualquer uma delas) recomenda para as pessoas. Veja não se trata de ser conservador, trata-se de lidar com valores distintos.
A sociedade é composta de muitas pessoas, todas elas têm seus próprios objetivos de vida e visão do que seja bom para elas e por conseguinte podem querer adaptar a sociedade a essa visão pessoal.
As pessoas dizem que as religiões devem se adaptar, e modernizar, mas, ignoram que elas fazem isso o tempo todo. As pessoas não entendem é que, modernizar, não significa abrir mão valores atemporais para um bom ser humano, para uma boa humanidade.
As religiões não são retrógradas. O problema é que pessoas são fracas, inseguras, incapazes e sem estima. Elas tomam rumos de decisões que não conseguem sustentar consigo mesmas e recorrem a religião para forçar estas a justificar aquilo que elas mesmos não tem capacidade de fazer sozinhas.
A religião tem outras prioridades o bem-estar do ser humano esta cima de vaidades. Como eu disse, a religião está ficada no indivíduo.
Dessa forma, consequentemente, existem muitas zonas de conflito entre a religião e as pessoas que não tem fé.
Existem inúmeras questões sociais que variam de religião para religião, uma vez que, as religiões, são diferentes em seu conjunto de valores. Não deve haver nenhuma surpresa, nisso. Cada religião é criada de acordo com a sociedade que a originou e dessa forma inclui os valores dessa sociedade. Ao ser exportada para outra sociedade terá maiores ou menores zonas de conflito com os valores da sociedade civil que a recebe.
Algumas pessoas entendem que a religião contêm a cultura da sociedade que a gerou e por isso mesmo não aceitam religiões universais.
O que ocorre normalmente em uma religião, é o processo da especialização, ou seja, da criação de uma nova “tradição religiosa” que é justamente a adaptação da religião a nova sociedade, cultura e história. Uma nova tradição religiosa de uma religião existente não é uma coisa ruim ou menor, pelo contrário, é justamente o ajuste da religião aos valores da sociedade local. A religião original não será melhor que a tradição religiosa, elas estão em contextos sociais diferentes.
Uma tradição religiosa é uma manifestação maior e melhor. Ruim é querer usar a religião de uma sociedade em outra sem ajustes.
Isso, que estou comentando, é distinto da formação de uma seita, que é a formação de uma nova visão teológica de uma mesma religião.
O candomblé, representa essa visão de tradição religiosa de que melhora e adapta a religião original.
Desta maneira, uma religião evolui e melhora com o tempo, se adaptando a sociedade, porém existem valores que jamais serão abandonados porque fazem parte do que a religião entender para a formação de pessoas melhores.
As pessoas poderão viajar em carros voadores ou em mundos virtuais, novos e melhores objetos, mas as religiões ainda pregarão os mesmos valores humanos.

A questão social do aborto

A questão do aborto como muitas outras se insere nesse aspecto de conflito de valores entre religião e sociedade laica.
Por um lado a sociedade civil, recentemente, entende que, de uma forma pragmática, é necessário suportar essa prática como um caso de saúde pública, para preservar a vida das mulheres que decidem abortar. É uma visão muito pragmática mesmo, porque ela se abstêm de avaliar o mérito do ato em si, busca-se mitigar os riscos de ter mais mortes do que necessário de forma que ao legalizar a realização de aborto a sociedade esta buscando minimizar o dano.
Outras pessoas, adicionalmente, entendem que não é somente uma questão de saúde pública e que a decisão de abortar faz parte da liberdade fundamental da mulher e ela tem que ter essa capacidade de decidir sobre si mesma.
A sociedade civil pode, a qualquer momento discutir o mérito desta questão, sob o ponto de vista de direitos individuais, direito à vida ou direito de matar, não importa, a sociedade pode em algum momento querer decidir sobre isso.
Em adição, a iniciativa da sociedade civil deliberar sobre o assunto, as religiões podem, em todo o seu direito, nesse momento, trazer para as pessoas que vão decidir, seus valores sobre o tema. É neste momento que a religião deixa de ser um instrumento pessoal e se torna um instrumento da sociedade e é nesse tipo de caso que os valores adicionais que a religião traz para as pessoas podem conflitar com mudanças na ética que a sociedade civil busca.
É incorreto taxar a religião de reacionária e conservadora. A religião é o que ela é. Seus valores são definidos e sua ética também. A sociedade, ou parte dela, pode querer mudar sua ética, mas a religião não tem compromisso com esse movimento. Não se pode obrigar a religião a se adaptar a sociedade ou a uma parte dela, dessa forma. Valores são valores.
A sociedade laica tem o direito de se manifestar, assim como a sociedade espiritualizada (religiosa) também tem e, as religiões como um todo, tem toda propriedade de influenciarem quem as seguem. Não cabe a sociedade laica se insurgir contra as religiões, cabe a sociedade laica discutir com a sociedade espiritualizada.
Igualmente não se pode criticar que, pessoas que são influenciadas pelos valores das religiões, se manifestem defendendo essa posição para elas e para outras. É assim que a sociedade funciona, os grupos majoritários definem as regras gerais. Não existe ditadura de minorias.
No caso do aborto todos conhecem a posição da religião cristã em geral, que se posiciona contra isso e, com sua influência sobre a sociedade, busca evitar que isso seja uma prática corrente. Como eu defendi, essa á uma prática coerente e moral.
Enquanto zeladora dos valores, ética e moral da sociedade humana como um todo, a religião pode entender que, uma posição flexibilizadora, seja nociva a médio e longo prazo para o conjunto das pessoas e, dessa forma, ela pode se levantar contra um tema social comum, fazendo isso no melhor entendimento do seu papel de fazer homens melhores e uma sociedade melhor para ela mesma.
Mas, a posição mais importante, é o que ela traz para as pessoas que a seguem, isso sim é relevante, a forma como individualmente cada pessoa passa a adotar a visão ética e moral de fazer o aborto.

A teologia e a religião Yorùbá

Dito isso vem a questão: Como a religião Yorùbá se posiciona sobre o assunto? Qual orientação ela traz para as pessoas que a seguem?
Primeiro, isso é importante? - SIM
Como disse na minha longa introdução, esse é o papel da religião, trazer uma visão estendida para a vida e a sociedade, trazer valores perenes e importantes para a pessoa e o relacionamento comunal. Uma pessoa religiosa acredita em sua religião, tem fé no divino e dessa forma busca a orientação para que possa viver em harmonia e com uma vida útil à sociedade.
Discutir temas teológicos nunca foi a prática do Candomblé. Falta conhecimento aos sacerdotes, falta um pouco de formação para isso e, principalmente, falta muita prática e habito para eles, esta nunca foi uma prioridade em sua formação, que sempre foi muito prática. A partir da década de 1990, gradualmente a religião por trás do Candomblé passou a se tornar melhor conhecida na sociedade e com isso, esparsamente, alguns temas passaram a ser tratados.
Historicamente observo que a falta de conhecimento da religião nunca foi obstáculo para os sacerdotes se pronunciarem como tais, o que eles faziam e ainda fazem, é, quando não tem o que falar baseado em sua religião, emprestam, quando interessa, os valores e ética de outras religiões, assim, o catolicismo e a espiritismo sempre foram fontes para sacerdotes de candomblé, falsamente, se pronunciarem.
Mas isso era sempre de forma conveniente, quando precisam ser iluminados eles recorriam aos valores dessas religiões, quando não interessavam eles inventavam coisas convenientes. Assim, o pecado e o comportamento ético dessas religiões nunca interessou, nesse momento eles não tem pecados, porque esses sacerdotes são acima de tudo vendedores de feitiços e favores.
Essa atitude seletiva e idiota fez surgir, com motivo, a posição de que esta é uma religião sem ética, sem pecado, onde tudo pode. É verdade que esse é o conceito comum, mas não é verdade que a religião seja assim pelo contrário, é uma religião repleta de ética.
A chegada no Brasil de Bàbáláwo não mudou muito esse cenário. Era de se esperar que mudasse uma vez que, Ifá, deveria trazer as bases da religião em seus versos de Odù . Não estou inventando nada, os próprios sacerdotes falavam isso, que a teologia estava em Ifá e na tradição oral.
Ledo engano.
Os Bàbáláwo de origem cubana não tem nenhum conhecimento teológico, são bem piores que os nossos babalorixás, eles fazem um Ifá objetivo, voltado a interpretações pré-estabelecidas e orientado para fazer ebós, oferendas e distribuir assentamentos e iniciações. É uma prática comercial, voltada para resolver problemas, baseada em um culto de Orixá bastante limitado e com uma base de estórias associadas a Odù criadas por eles mesmos (Pataki). Em nada eles refletem a base da religião e dessa forma não contribuíram com nada.
Os Bàbáláwo africanos tem como base os versos de Odù , de fato, e o conhecimento oral-regional da religião, também de fato, que complementa os versos, mas, a qualidade humana que vem para o Brasil é muito ruim. Qualquer pessoa criteriosa pode questionar se são Babalawo de fato e não muçulmanos fingindo ser Bàbáláwo, como já temos aqui desde a década de 90.
Essas pessoas teriam a seu favor o conhecimento base da religião, contudo, aliam, pouca capacidade para isso, nenhum interesse por esses temas, uma fala repleta de dogmas, ganância comercial, mal formação e pouco entendimento do que seja religião. Eles são piores que os cubanos, porque os primeiros são o que são, eles não inventam, eles fazem aqui o que fazem em qualquer lugar. Aos africanos falta honestidade e caráter.
E dai?
E daí que, para tratar desses temas teológicos, a presença de Ifá através de seus Bàbáláwo não adiantou de nada, em nada melhorou o nosso problema anterior.
Ficamos, dessa forma, como já fazíamos antes deles, pesquisadores e antropólogos se debruçam sobre os temas e fazem suas teses. O que mudou para melhor é que a partir do fim da década de 90, junto com os antropólogos, que são por demais acadêmicos e por de menos religiosos, surgem pesquisadores mais ligados a religião que não tem a, teórica, isenção dos antropólogos, mas, trazem os temas com viés religioso. Tivemos e temos excelentes pesquisadores e alguns teólogos que incrivelmente acabaram se convertendo, deixando de lado sua isenção acadêmica.
Hoje em dia estamos muito melhores do que antes. Tem muito mais informação disponível para todos.
É importante, também, separar o conhecimento teológico, que deve ser formado pelos versos, sim, mas, principalmente pelo histórico e tradição oral deste conhecimento. Os versos de Ifá são absolutamente situacionais e servem apenas para consultas pessoais.
Ifá não é ou tem uma “bíblia”. Cada Odù diz uma coisa para uma situação. É impossível querer usar as mensagens dos Odù , generalizadamente, como conhecimento absoluto porque para cada caso a indicação pode ser distinta. Odù serve a uma consulta específica, apesar de, é claro, existirem o que eu chamo de versos estruturais, que são os que trazem uma fundamentação teológica.
Não se pode citar o que um Odù diz sobre algo para justificar alguma posição porque Odù não serve como uma bíblia que você pode abrir em qualquer lugar e ler uma passagem com sendo um ensinamento e um posicionamento da religião. Não podemos fazer como na igreja onde é feita uma leitura de um trecho da bíblia e o padre faz sua homilia sobre aquele tema. Versos de Odù não formam uma bíblia, eles não tem essa utilidade.
Os versos de Odù são recomendações para situações diversas, em uma você deve fazer algo em outra não deve fazer. É isso.
Para se aprofundar na teologia Yorùbá, você tem que se interessar pelas obras que pesquisam a religião. São livros sobre Ifá, sobre Òrìṣà (Orixá), sobre arte, sobre cultos, sobre festivais, sobre história e até sobre a religião em si. No conjunto desse material você coleta as peças que precisa para entender a teologia e cosmogonia.
É difícil? Sim, mas esse é o caminho.
Apesar de eu ter dito que a re-introdução de Ifá no Brasil não melhorou muito a religião, é inegável que a presença de Ifá no Brasil trouxe um contexto adicional à religião, trouxe mais conteúdo. Acima de tudo, trouxe um conteúdo formal que os Babalorixá (Bàbálórìṣà) não se preocupavam em ter e, a unificação do conhecimento comum de Ifá através dos Bàbáláwo, limitou bastante o festival de besteiras que os Babalorixá (Bàbálórìṣà) falavam.
Creio que o espalhamento de Ifá valorizou o conhecimento formal dos nossos próprios pesquisadores. De certa forma acabou com a autonomia dos Babalorixá (Bàbálórìṣà) que saiam falando o que queiram sem ter ninguém para contestar.
É nesse contexto que eu trago aqui o tema do aborto. O que essa religião transmite sobre isso, que orientação ela dá as pessoas, que conforto pessoal ela pode oferecer parta quem faceia uma decisão a ser tomada?

A religião Yorùbá e o aborto

Inicio dizendo que o que vou escrever trata-se de resultado de análise minha. O tema aborto provocado não faz parte de nenhuma história, não pude encontrar na religião Yorùbá, seja em versos de Odù , seja em mitos orais ou em análises de pesquisadores, qualquer tipo de referência a prática de aborto ou similar que pudesse ser usada em uma correlação direta.
O tema aborto provocado, não aparece em nenhuma referência, boa ou ruim, que possa ser usada para explicar como a religião lida com isso.
Isso me parece natural, duvido que os católicos encontrem qualquer referência direta a isso, de forma que a posição da igreja é resultado de análise ou interpretação teológica.
Assim, o que vou traduzir aqui é o meu entendimento dos valores da religião sobre esse assunto.
A minha análise, que mostra uma visão tolerante por parte da religião, já me deu bastante trabalho para explicar, porque não é normal às pessoas aceitarem uma posição diferente da religião cristã, assim se prepare para o diferente.
O que todos precisam saber é que o aborto não é desconhecido da religião Yorùbá, pelo contrário ele é largamente conhecido e citado.
Abortos ocorrem por causas naturais, doenças, mal formações e deficiências. A primeira informação importante para todos é que, não existe garantia de que a vida no Àiyé ( o mundo natural) seja imune a acidentes, incidentes, doenças e outros males.
Os Ajogun são os as divindades negativas que existem no mundo, são os espíritos que causam a morte, a doença, a paralisia, a perda, a fome e outras coisas. Na cosmogonia Yorùbá os espíritos se dividen à esquerda e à direita e, os Ajogun, são o mal e ficam à esquerda das entidades do bem e são entidades apenas do mal.
Observe que não existe na religião Yorùbá o conceito do diabo, de lúcifer, isso é uma criação cristã, não um existe uma divindade que faz oposição a deus, Olódùmarè, ele é absoluto e tudo é sua criação.
Dessa maneira a vida no Àiyé (no mundo físico, mundo natural), está sujeita a “chuvas e tempestades”, não existe na religião nenhuma garantia que teremos o paraíso na nossa vida na terra e muito menos que existe um ser causador do mal em oposição a deus. Não existe a quem culpar, não existe mundo ou vida perfeita.
O mal existe no mundo de forma geral, existe desde que foi criado. Não existe nesta religião o enorme conflito teológico entre o bem e o mal, com deus representando o bem e o mal a oposição a ele. O mal existe em diversas formas naturais e supernaturais, por acidentes ou incidentes.
Não temos também grupos viventes especialmente escolhidos, Olódùmarè é o deus de tudo, da humanidade, dos animais e plantas, tudo é criação dele e é ele que mantêm tudo funcionando.
O que Deus faz é dar proteção e correção aos problemas e danos que a humanidade pode sofrer através do mal, criando para nós a proteção dos Òrìṣà (Orixá), de Egúngún e o Oráculo de Ifá para nos ajudar em nossa vida, na hora da necessidade.
A vida, acima de tudo, é uma aventura imperfeita e que pode ser vivida mais de uma vez. Ela é cheia de emoções, alegrias, decepções, sabores e prazeres, contudo, sujeita a riscos contínuos.
O segundo conceito muito importante, é uma religião reencarnacionista, vivemos mais de uma vez, o problema em uma vida é compensado por uma nova vinda ao Àiyé, não existe a preocupação, na visão desta religião, que cerca uma vida única. Não temos um destino único ou uma única chance de viver. Esse ponto é importante e vou voltar nele mais à frente.
Não existe também na religião a garantia de que vamos nascer em corpos perfeitos e saudáveis, pelo contrário, existe uma explicação teológica e tolerância divina para que nem sempre os nascimentos sejam perfeitos, o corpo é resultado de um processo de criação sujeito a falhas probabilísticas (aleatórias), causadas pelas divindades criadoras.
O processo de ganhar um corpo é sujeito a erros que podem dificultar nossa vida em diversos aspectos. Em alguns deles a religião ajuda a corrigir, em outros não.
Estes últimos conceitos são importantes, não existe para ninguém a imunidade a problemas físicos e também ao mal.
Ao lado das causas naturais de aborto, aquelas causadas por mal-formação ou doenças e que nada tem a ver com causas supernaturais, existem também as causas supernaturais, geradas em sua maioria pelas ajé (Àjẹ́) e em menor parte por outros espíritos perdidos no Àiyé.
Os espíritos Àbíkú serão explicados a frente por que estão ligados a este contexto de aborto, mas, não podem ser vinculados como causa de abortos provocados por causa supernatural. A razão será bem explicada, mas entendam, que para ser Àbíkú a pessoa deve primeiro nascer isso e um feto abortado não nasceu.
As Ajé (Àjẹ́) representam a causas supernatural mais comuns de abortos e, apesar de trazerem o mal e o infortúnio, também são criações de Olódùmarè, deus, e não existe nenhum tipo de preocupação de Olódùmarè em cessar sua existência.
Àbíkú – aquele que nasce para morrer - é um tipo de espírito que faz parte do grupo maior chamado Egbe Orun (Ẹgbẹ́ Ọ̀run) (a irmandade do Órun). Esses espíritos infantis são um objeto muito interessante de estudo, muito mais do que hoje é feito. Esses espíritos infantis vivem em um espaço entre o Órun (Ọ̀run) (o espaço divino) e o Àiyé ( espaço terrestre, onde vivemos), uma floresta divina junto com outros espíritos infantis formando uma comunidade unida, mas, desgarrada das linhagens familiares.
Por mecanismos pouco claros (indefinidos na religião) esses espíritos escolhem encarnar, viver no Àiyé e, dessa forma, nascem, mas, trazem consigo vários problemas omo desajustes e distrações, devido a manutenção da ligação deles com o Egbe Orun (Ẹgbẹ́ Ọ̀run). O mais sério deles é o espírito Àbíkú, a criança de nasce para morrer logo a seguir, trazendo, dessa maneira, infelicidade para a família onde eles escolheram nascer.
O carrego de Àbíkú, como dito no Candomblé, esta associado a mãe (não à criança) e traz muita tristeza e sofrimento. O Àbíkú pode morrer logo após o parto ou pode morrer ainda criança (doença ou acidente), somente através de Ifá (possivelmente através do merindinlogun também) pode se determinar essa ocorrência e, em função disso, tentar trabalhar para que isso não ocorra e evitar que a criança morra. Existem caminhos para se resolver o Àbíkú mas existem casos que poderão não ter solução.
Outros casos de Egbe Orun (Ẹgbẹ́ Ọ̀run) não estão associados a Àbíkú, mas, as crianças que nascem desajustadas a vida no Àiyé e, devido a isso, enfrentarão dificuldades no seu desenvolvimento como pessoa, não no aspecto físico, mas psicológico e de aprendizado. Quando se tornam adultos essa ligação com Egbe Orun (Ẹgbẹ́ Ọ̀run) se interrompe mas traz para eles consequências para sua vida normal no Àiyé. Esses casos são os mais interessantes visto que são os mais numerosos e isso se refletirá cronicamente na vida adulta dessas pessoas.
Infelizmente, no Candomblé, criou-se o mito que Àbíkú seria o maior responsável por mortes de criança e abortos. Não é verdade.
Para ser Àbíkú é necessário nascer e, para nascer, deve-se respirar de forma independente (será explicado à frente). Dessa maneira um aborto não pode ser atribuído a Àbíkú porque não ocorreu o nascimento, ele não nasceu.
Não encontrei nenhum mito ou referência oral sobre Àbíkú no qual a criança morresse por aborto, ou seja, antes de nascer. Todas as histórias fazem referências a ocorrências após o nascimento, dessa maneira, aborto não pode ser atribuído a Àbíkú.
Ajé (Àjẹ́), é a denominação de um espírito que é traduzido como bruxas ou feiticeiras. Outros nomes são empregados, como Ìyamí Oṣoronga, Ìyá Nla ou Odù (a mítica esposa de Órunmila (Ọ̀rúnmìlà)) mas erradamente.
Ajé (Àjẹ́) são as feiticeiras comuns e Ìyamí Oṣoronga, Ìyá Nla, Odù ou mesmo Óxum (Ọ̀ṣún) é o nome da líder deste grupo não um sinônimo.
Ajé (Àjẹ́) é um tema extenso com muitas nuances e como Egbe Orun (Ẹgbẹ́ Ọ̀run) merece ser melhor entendido por todos. Infelizmente aqui não será abordado, recomendo olhar a bibliografia.
Ajé (Àjẹ́) sempre está encolerizada com a humanidade e é um espírito relativamente maligno, apesar de ser entendido com um espírito neutro, que pode fazer o mal ou o bem. Este espírito é o maior responsável pelos diversos problemas e males que afligem as pessoas.
Quem é de Candomblé já deve ter ouvido falar de Ajé (Àjẹ́) ou de Ìyamí Oṣoronga. O melhor material e mais completo sobre esses espíritos é do Pierre Verger, existem outras fontes que o complementam, mas foi Pierre Verger que elaborou o melhor e, apesar de ser antigo, nada surgiu de melhor depois.
Eu não discorrerei sobre Ajé (Àjẹ́) aqui, não é a finalidade deste texto. O importante é que entendam que, existe um espírito maligno chamado Ajé (Àjẹ́) e que é responsável diretamente pela maior parte dos problemas de aborto natural que as mulheres sofrem. Se uma mulher tem dificuldade de engravidar, se perde gestações, se perde sangue, se tem problema no aparelho reprodutivo, entre outros males, é Ajé (Àjẹ́) que pode ser a responsável.
No Candomblé no passado e ainda hoje, existe uma excessiva associação de abortos e mortes a Àbíkú, mas, isso não é correto. Primeiro porque a criança precisa nascer para ser Àbíkú. Segundo porque os problemas de aborto são de Ajé (Àjẹ́).
É Ajé (Àjẹ́) é quem deve ser responsabilizada pela maior parte dos abortos. A figura de Ajé (Àjẹ́) é regularmente citada, mas não totalmente conhecida pelo Candomblé.
O Candomblé tem um problema que é conhecer de maneira geral quase todos os espíritos da religião, mas, vários sem profundidade e dessa maneira não ter formula ou liturgia para neutralizar os problemas que eles causam.
Não posso deixar de comentar que existem alguns idiotas brasileiros ou africanos que enganam pessoas vendendo iniciações e assentamentos de Ajé (Àjẹ́), passando a mensagem de que são senhoras velhas e respeitáveis. Essas pessoas são levianas.
Minha informação para vocês é que esses espíritos, Ajé (Àjẹ́) e Àbíkú, são responsabilizados na religião por abortos, morte de fetos e crianças recém-nascidas. São causas supernaturais de problemas naturais.
Mas, atenção, como já disse, o aborto natural não deve ser unicamente atribuído a esses espíritos e muito menos, a religião Yorùbá, associa qualquer fenômeno no mundo natural a interseção de um espírito (como pode ocorrer em cultos lúdicos).
Ajé (Àjẹ́) é considerada um espírito neutro, que pode fazer o bem ou o mal, apesar de estar sempre encolerizada contra a humanidade Ajé é uma forma neutra. Os Àbíkú não são um espírito negativo como os Ajogun, mas podem trazer a dor e o infortúnio para mulheres e famílias.
Finalizo aqui com esse resumo:
  • O aborto natural ocorre e é causado por doenças ou deficiências físicas inerentes à pessoa. Isso é normal, não existe garantia que tudo seja perfeito na vida no Àiyé e nem nos corpos que temos.
  • As Ajé (Àjẹ́) são as responsáveis pela maior parte das causas supernaturais de abortos naturais.
  • Os Àbíkú não são responsáveis por abortos.
  • Os Ajogun também são responsáveis por problemas.
Todos esses espíritos, neutros ou do mal são criações de Olodumare, deus, que os tolera como parte do Àiyé.
Dessa forma a morte por aborto não é um tema desconhecido da religião, pelo contrário, mas um aborto pode ocorrer por causas naturais e poder diversas causas supernaturais.
Neste contexto, no qual a ocorrência de abortos naturais pode ter causas supernaturais através de divindades existentes na religião, qual a real para um ser humano de um aborto provocado?

A questão dos Gêmeos

Não posso deixar de mencionar aqui que o povo Yorùbá tinha um costume bastante sério que era a morte de um dos gêmeos no caso do seu nascimento.
O nascimento de gêmeos era considerado um mau agouro, como se fosse uma maldição e ambos os gêmeos eram mortos.
Havia um ditado que dizia, que se um cavalo desse nascimento a 2 potros de uam vez seria considerado anormal e qualquer ser humano que fizesse o mesmo estaria em problemas ( Bàbáláwo Fatoogun, Ile-ifé, Nigéria, 1982). A lenda dizia que os Yorùbá matavam seus gêmeos recém-nascidos no passado parcialmente porque eles associavam isso a animais e parcialmente porque um dos gêmeos fosse um espírito companheiro e, assim sendo, um mau presságio para a comunidade. O destino de uma mãe de gêmeos, de acordo com algumas fontes (Abimbola-1982, Talbot-1926, Chappel-1974 e Peel-2000), variava de uma cidade e a outra. Em algumas ela seria morta junto com seus filhos, em outras enviada para o exílio. Existem histórias de alguns pais de mantêm o nascimento de gêmeos em segredo, matando um deles antes que os vizinhos descubram.
Esta prática foi interrompida durante o reinado do Aláàfin Àjàká (irmão de Ṣàngó) ou de Òdùduwá os mitos que explicam como isso foi interrompido são bastante similares, mudando apenas o personagem Àjàká ou Òdùduwá). Também é incerta a data que isso foi interrompido, mas ainda era praticado em algumas regiões da terra Yorùbá no século 19.
Porque estou mencionando isso?
Porque a morte provocada de recém nascidos chegou a ser parte de largo costume desse povo e neste contexto porque deveríamos supor que o seu povo e sua religião considerassem graves alguém fazer um aborto provocado?
Com eu disse no início, tal povo tal religião.
Essa conclusão pode não ser boa ou automática, mas, vai ao encontro de uma coisa que vou explicar a frente que é a relatividade das ações. As ações não são absolutamente erradas na religião (bem ou mal, pecado). Alguma coisa, matar por exemplo, será bem ou mal dependendo do contexto.
Aliás, não posso também deixar de lembrar que o sacrifício humano era parte dos costumes do povo.

O nascimento do indivíduo

Existe um ponto importante para ser discutido que é o momento em que o indivíduo nasce. 
 
De acordo com os valores e o entendimento cristão, que domina a sociedade, a partir do momento em que existe a concepção o novo indivíduo nasce e fica no ventre da mãe.

Nesse entendimento o novo nascido fica 9 meses dentro daquela barriga, até nascer.
Não vejo esse como o entendimento da religião Yorùbá para esse processo.

Esse é um dos pontos que a religião conflita com a ciência e com outras religiões e tenho certeza que é o ponto mais polêmico da minha análise.

Lembro que a religião sempre oferece um entendimento alternativo ou complementar a ciência e nem sempre conflita com esta, é apenas uma outra visão, a do processo supernatural.

Indo direto ao ponto do meu entendimento, baseado em fontes esparsas (que não consigo compilar agora para citar sem transformar esse texto em um longo e monótono texto) e tradição oral (conversa com outras pessoas sobre esse tema) é que o espírito que vai nascer não passa toda a gestação dentro do corpo da mulher, o novo espírito vai para la antes de nascer.

O mito da criação do homem por Oxalá (Òṣàlá), diz que a missão de criar os corpos humanos foi dada por Olódùmarè a Oxalá (Òṣàlá) e que este é quem molda o corpo humano a partir do barro fundamental. Esse é um processo que toma um tempo assim como toma tempo a gestação. Esse processo de criação pode ter falhas, é reconhecido no mito que Oxalá (Òṣàlá) comete erros na criação do corpo humano e quem nasce com defeitos físicos passa a ser diretamente protegido por ele. Os mitos não deixam dúvida que pertence a Oxalá (Òṣàlá) a tarefa de elaborar o corpo.

Posteriormente, através da interferência da própria pessoa que vai nascer naquele corpo, junto a uma outra divindade chamada Ajalá, ele obtêm a sua “cabeça exterior”, chamada de Orí òde. Esta é a última etapa de sua caminhada e é feita imediatamente antes de iniciarem a ida para o Àiyé, em cujo caminho vão sofrer grande tempestade.

Existe, na religião, a diferenciação da cabeça interior, Orí inú, da cabeça exterior, Orí òde e do corpo, chamado de Orí Apẹ̀rẹ̀, ou sustentáculo do Ori. À cabeça é dada a maior importância no indivíduo, é a sua parte mais alta, mais próxima do Órun (Ọ̀run).

Orí é um conceito amplo e vamos ter que restringir sua abordagem aqui neste texto. Entendam que o Orí inú, a cabeça, traz o indivíduo em sí, traz as ferramentas que essa pessoa recebe de Olódùmarè para ter sucesso na vida que pediu a ele e traz também a ligação com seu Orixá (Òrìṣà) e com sua linhagem (através do Aporí). Orí inú une o contexto passado com o futuro.

Esta área, Orí e destino, é bem complexa e, até mesmo, confusa da teologia, mas, sem complicar, posso citar que existem mitos que explicam que as pessoas antes nasciam sem cabeça e depois ganharam a cabeça, que nasciam sem face (todas iguais) e depois ganharam a face (ver em Lawal), tudo isso gradativamente através da intersecção de diversas divindades, explicando assim, através dessas metáforas, a evolução e os vínculos das pessoas com essas divindades.

A escolha do Orí inú é uma missão muito importante e deve contar com a ajuda de outros parentes no Órun (Ọ̀run) (mundo espiritual). Na verdade existe pela religião, solidamente documentado em Ifá em na tradição oral, um importante processo litúrgico que deve ser feito no Órun (Ọ̀run) pela pessoa que vai nascer novamente. Esse processo é para garantir o seu sucesso na vida.

A pessoa antes de nascer vai a Olódùmarè, deus, para combinar com ele os seus objetivos nessa vida, nesta encarnação. É deus que concorda com seus objetivos e pode adicionar mais alguns (existem 3 tipos de objetivos, ou destinos, que a pessoa recebe), dando a pessoa os instrumentos divinos para realizar o que ela se propôs.

Por fim, está muito bem documentado em um mito, que é Olódùmarè o único que pode dar a vida a uma pessoa. Depois que Oxalá (Òṣàlá) criou o corpo e ele já passou pela sala de Olódùmarè e recebeu seus destinos e axé (Àṣẹ́), ele passa em Ajalá e recebe o receptáculo que vai proteger o seu Orí inú, por fim é Olódùmarè quem dá o sopro divino, o Èémí , que é nossa respiração e com ele a vida (Émi (Ẹ̀mì)). É o Èémí que mostra que existe a vida - Émi (Ẹ̀mì) naquele corpo de forma que não existe Émi (Ẹ̀mì) sem Èémí (Idowu – Olodumare God in yoryba belief – pag. 169).

Essa estrutura é muito consistente e aceita pelos principais estudiosos e acadêmicos da teologia Yorùbá, Èémí mostra que existe Émi (Ẹ̀mì) no corpo. Por essa razão a minha afirmação de que o corpo da criança, dentro do corpo da mãe não tem Èémí e sem Èémí não existe Émi (Ẹ̀mì) que é a vida.

Assim sendo na visão desta religião enquanto dentro da mãe o que alimenta o corpo é a própria mãe é o seu Èémí e por esta razão a criança dentro da mãe é uma parte dela e não um indivíduo.

É Olódùmarè nos dá o seu axé (Àṣẹ́), a centelha divina que somente Olodumare pode dar e que cada um ser vivo tem.

Não posso deixar de mencionar, como parte desta teologia, que existe ainda uma jornada entre o Órun (Ọ̀run) e o Àiyé que é feita por quem vai nascer e que a última etapa é passar pelo portão do Órun (Ọ̀run), momento em que somos interpelados por uma divindade chamada Onibode, o porteiro do Órun (Ọ̀run) e do Àiyé. Nesse momento nós falamos com Oníbodè como será nossa vida e quando vamos retornar naturalmente ao Órun (Ọ̀run) (quando morreremos).

Sem poder aqui explorar esse conjunto muito interessante de mitos que explicam de forma bastante harmônica e suave a integração da visão supernatural com a própria visão natural (real) da vida, eu tenho que destacar que:
  • É claro o trabalho independente de Oxalá (Òṣàlá) na criação do corpo.
  • É cristalino que a cabeça, Orí inú, é uma parte importante do processo pré-natal no Órun (Ọ̀run) e seu axé (Àṣẹ́) é obtido pela pessoa junto a Olódùmarè.
  • Que existe uma jornada entre o Órun (Ọ̀run) e o Àiyé.
  • Somente Olódùmarè nos dá a vida, através do seu sopro.
Dessa maneira, prestem atenção na minha interpretação e afirmações:
  • A formação do corpo é um processo separado e sujeito a falhas, mas o copo é um receptáculo vazio sem o Orí inú (cabeça interior), sem o Émi (Ẹ̀mì) e sem Èémí, o sopro de vida de Olódùmarè.
  • O nosso espírito é o  Émi (Ẹ̀mì) e ele só existe no corpo se existir também o Èémí.
  • A cabeça interior (a que contêm de fato a essência do indivíduo) é escolhida à parte da criação do corpo físico e é um, processo separado e especial.
  • O processo de escolha dos objetivos de vida (destino) e da sua capacidade para isso é separado do processo de criar o corpo, na verdade não tem nenhuma relação.
  • O indivíduo somente nasce de fato quando recebe o Èémí de Olódùmarè, o sopro da vida.
O corpo que está sendo gerido vagarosamente ao longo dos 9 meses é apenas um corpo mesmo. Enquanto gerido no útero não existe individualidade o corpo vai sendo construído por Oxalá (Òṣàlá) e na verdade é parte do corpo da mãe.

No fim do processo, com o corpo formado, o indivíduo entra no corpo formado (fim da jornada) trazendo a sua essência (Orí inú). Quando ele nasce, recebe o sopro da vida de Olódùmarè e ai passa a ser um indivíduo independente.

Desta forma, de acordo com essa visão abortar um corpo não formado e não nascido, no início de gravidez afeta apenas a mãe, não existe indivíduo e nem vida autônoma.
Quando o recém-nascido respira pela primeira vez, ele se transforma no indivíduo independente do corpo da mãe.

As consequências - A ligação do aborto provocado com Àbíkú

Reforçando essa posição de que o ato do aborto afeta apenas a mãe, é uma tradição oral no Candomblé, associar casos de abortos posteriores como tendo origem em um aborto inicial, assim uma mãe que aborta pode trazer para si o que se chama de carrego de Àbíkú e passa a ser assombrada por esses espíritos.

Apesar de eu afirmar, baseado em pesquisas, que os problemas de aborto são provocados por ajé e não por Àbíkú, sem dúvida a ocorrência de uma aborto provocado, segundo a tradição oral do Candomblé, pode trazer para a mulher o carrego de Àbíkú.

Repito, nem tudo que é dito ser Àbíkú é Àbíkú, mas eles de fato ocorrem e de fato podem estar associados a esse tipo de ato. Repito também, as causas de Àbíkú são incertas, mas, a tradição oral, aquele que as pessoas passam umas para as outras indicam que provocar um aborto é um gatilho.

O meu conhecimento prático desta questão casos que vi indicam de fato esse temor.
Isso reforça, como eu disse, a afirmação anterior de que fazer o aborto é uma questão da mãe e não existe crime, junto a religião de que ela será punida por matar alguém, o que existe junto à religião é que ela impede que alguém que nasceria, nasça desta vez, é um ato dela e, assim como, as consequências são dela e não de quem ia nascer.

Não estou afirmando que esse carrego de Àbíkú ocorra sempre, mas pode sim ocorrer. Amenizo lembrando que quando isso ocorre existem instrumentos na religião para se lidar com isso.

Neste ponto cabe uma diferenciação importante entre a religião Yorùbá e a religião cristã.
A religião cristã é baseada em uma dicotomia que divide o mundo entre o bem e o mal. As coisas são governadas por deus ou pelo diabo. Com este conceito infantil de mundo e religião, os europeus, conquistaram os povos e os converteram ao seu pensamento.
Para a religião Yorùbá as coisas não são boas ou más. Tudo é relativamente positivo ou negativo, dependendo da situação e posição de cada pessoa.

Dessa forma, matar não é necessariamente ruim, depende da situação. Assim tudo é relativo. Por essa razão não existe o sentido de pecado baseado em valores absolutos, mas existem leis. Isso não torna a religião simples, pelo contrário, existem centenas delas de leis e regras que podem ser diferentes para cada pessoa, lugar ou coisa e que direcionam a éticas das questões.

Entretanto, cada pessoa, lugar ou atividade, seja natural ou supernatural é objeto de suas próprias leis e sua violação trará calamidade e infelicidade.

Esse conceito vasto e complexo foi resumido pelos europeus de uma forma muito simples, eles dizem que tudo é superstição. Para os Yorùbá é parte de sua complexa religião que é voltada para os seres humanos.

Os europeus querem simplificar tudo, mas, a vida não é assim simples. Creio que todo mundo gostaria que a vida fosse certo e errado ou preto no branco. Mas ela não é é bastante complexa e existem muitos tons de cinza entre o preto e o branco.

Essa religião não facilita o entendimento do mundo e da vida simplificando tudo a um maniqueísmo.

Desta maneira a gravidade ou não do ato de abortar, em relação às consequências, dependerá das razões e situação e não do ato em si. A mulher poderá não ter nenhuma consequência com sua decisão ou poderá arrastar para si o carrego de Àbíkú, tudo depende da situação e motivação, ou seja, o contexto.

Não posso deixar de citar uma antiga prática Yorùbá que matava um dos gêmeos após o nascimento. Os gêmeos eram considerados um mau agouro. 
 
O ato de fazer o aborto não significa para a religião Yorùbá um “pecado”, não é uma religião feita de verdades absolutas e de pecados absolutos. É uma religião feita de certos e errados, de muitas proibições e de uma avaliação que leva em consideração o contexto de uma vida e não de um momento. Na verdade como eu disse, ela é bem mais complexa e distante dessa abordagem infantil de pecado, deus e diabo que as religiões cristãs têm.

Permitam-me fazer um pequeno parênteses no assunto e tratar um pouco desta oportunidade ímpar de falar sobre valores morais e ética (um dos temas que mais me interessa nessa religião). Eu faço uma extrapolação deste conceito de abordagem complexa e relativa para questões que envolvem o próprio entendimento da religião pelos seus adeptos. Pesquisadores indicam que o Candomblé é uma religião sem moral, o Reginaldo Prandi escreveu sobre isso mostrando depoimentos em seu livro os Candomblés de São Paulo. 
 
A questão que existe é termos um povo formado com uma cultura cristã, vivendo debaixo de uma visão maniqueísta e simplista, que forma um contexto cultural do nosso povo para essa abordagem e que é exposto a esta religião formada em um outro contexto cultural sem ter a oportunidade de discutir e entender isso.

Sem dúvida o resultado prático é o que vemos no mundo real. As pessoas formadas dentro da cultura maniqueísta de valores éticos, com centenas de anos de abordagem cristã para isso, se deparam com uma religião que tem uma abordagem relativa para a questão ética do certo e errado que é muito mais complexa de entender do que a abordagem infantilizada da cultura cristã, passa entender que essa religião não tem moral e ética, ou seja, é amoral.

De acordo com minha visão disso, que estudo ha anos, é um ledo engano. Pessoas simples procuram sempre soluções simples para tudo. Não se consegue absorver a cultura de um povo e muito menos entender valores aplicados ao povo e a religião. Isso requer um nível elevado de estudo e entendimento, aliado com a considerável impossibilidade de um povo absorver a cultura de outro.

Repito, o que ocorre é o que vemos no mundo real, as pessoas se focam nos aspectos mais simples, razos e imediatos e passam a entender esse julgamento relativo e meritório a ausência de critério.

Claro que essa é uma formulação teórica minha, mas ela é apoiada pela prática que se manifesta exatamente assim. Uma religião com valores elevados e uma orientação a dizer que a pessoa bem-sucedida é aquela que tem o bom caráter (Ìwà Pẹ̀lẹ́) e que dinheiro sem bom caráter não significa nada e, mais ainda, que um indivíduo não tem valor se não é útil à sociedade, não pode gerar um entendimento baixo de que seja amoral.
O que ocorre é que as pessoas não a entenderam.

Voltando ao tema, não é entendido que você está matando alguém ao fazer um aborto. A vida é um ciclo contínuo, é entendido que você está interrompendo um ciclo, o destino de alguém. A gravidade do ato está na interrupção do destino, é isso que pesará e não vai condenar ninguém ao inferno (como eu falei, uma pessoa não é julgada por um momento e sim por toda uma vida).

Repetindo, o que poderá trazer são consequências ruins para eventos futuros da vida da pessoa que ela terá de encarar nessa vida. Não existe nesta religião o entendimento de atos que vão repercutir por todo o sempre e em próximas vidas, essa visão sombria dos kardecistas não está presenta aqui.

O que fazer? Simples, faça o que é certo pelos motivos certos. A religião Yorùbá não condena isso apenas por condenar, apenas pelo ato. Você não está matando ninguém, se é o que lhe preocupa, mas fará algo diferente que é cortar o destino de alguém que ia nascer ou mesmo o seu.

A grande questão é se você se sente bem fazendo aquilo ou não, se você tem os motivos adequados para fazer. Não será a religião que o condenará moralmente por este ato absoluto.

O ato de prejudicar o destino de alguém, incluindo o seu próprio é muito mais sério para a religião Yorùbá do que o de matar por si só.

A benção de filhos


A primeira coisa que qualquer Bàbáláwo poderá dizer sobre o tema do aborto provocado na religião é que para essa religião, filhos são uma benção.
Sim, isso mesmo, filhos são considerados uma benção divina. Um dos maiores motivos que leva mulheres a Ifá é a fertilidade, ter filhos.
Como citei, não encontramos na religião, citações diretas ao aborto provocado, mas, sabemos que filhos são valorizados demais. Esta é uma contribuição inegável de Ifá a esta discussão visto que este tipo de entendimento veio com Ifá não fazia parte do conhecimento do Candomblé.
Os filhos são uma benção equivalente a ter casa, mulher, dinheiro, saúde. Mas, porque ter filhos é assim tão especial na religião?
Trata-se de 2 coisas, uma questão teológica e outra cultural.
No aspecto cultural temos que lembrar que essa religião tem origem em um povo rural, fazendeiros. Em sociedades rurais ter filhos era importante para poder tocar o negócio da família ou a própria subsistência. Além disso os filhos é quem garantiam o suporte aos pais quando esse envelheciam. Dessa forma filhos são sempre uma benção nesse tipo de sociedade.
Pelo lado teológico, é uma religião re-encarnacionista e que acredita que a família permanece unida, seja no Órun (Ọ̀run) como no Àiyé e, assim, as pessoas re-encarnam, voltam ao Àiyé para uma nova vida, através dos seus próprios descendentes. Se uma pessoa morre poderá voltar em gerações seguintes em seus tataranetos.
Com esta filosofia é muito importante que você tenha filhos, vários, para que possa mais tarde voltar a viver no Àiyé. Se você não deixa descendentes diretos vai depender de oportunidade em descendentes de parentes.
Esse aspecto deve ser levado em conta antes de decidir pelo ato de abortar.
A visão da vida como um ciclo
Também de acordo com essa filosofia a vida é algo passageiro e um ciclo que se renova e se repete, uma vida que não deu certo será substituída por outra vida. Não existe na visão desta religião do fatalismo espírita de que encarnamos para evoluir, para sofrer e tal.
Olha, não existe essa de religião certa, ninguém sabe, cada religião é, na verdade, uma proposta de ver a vida e adicionalmente, as mais profundas e especiais trazem conhecimento de como se comunicar com o divino e usar o supernatural para te ajudar na vida. Cada pessoa deve escolher com qual visão de vida se enquadra melhor, ou seja, com qual visão metafórica ele pretende viver. Isso é o básico da religião.
Estará mais certo aquele que se sentir de fato conectado com o divino, assistido e respondido em suas dúvidas, anseios e ajudas. No caso da religião Yorùbá com o Candomblé e com Ifa eu posso dar meu testemunho pessoal de estar 100% atendido. Tenho retorno do divino, tenho resposta e contato. O divino, deus, não é alguém distante que responde com silêncio às minhas preces, ele responde com resultado e ações à minha Fé.
Não tenho dessa maneira como dizer que esta religião está errada, pelo contrário, minha fé e o retorno que tenho dela me fazem dizer que esta religião está certa. Se ela é uma religião verdadeira que não engana minha fé com silêncio e crença no inatingível e a perspectiva de que só vou ser feliz depois que morrer, então tenho que dar continuidade a minha fé e crer nos dogmas e teologias, mas, principalmente da esperança de vida que ela me dá.
Nesse sentido sou sim compelido a acreditar que vivemos porque gostamos de viver, vivemos porque a vida é uma aventura, uma experiência gratificando de emoções, prazeres, realizações e sabores. Acredito que vivemos e voltamos a viver porque queremos estar aqui, no Àiyé, com nossa família.
Ao seguir esta fé nesse modelo, a gente entende que a vida é importante as se renova e que morrer é esperar um novo ciclo.
A morte, Ikú, é uma divindade masculina, criação de Olódùmarè e presente em vários mitos e versos de Odù. Existem muitas histórias importantes com Ikú, a que gosto mais é que diz que quando Olódùmarè deu a Oxalá (Òṣàlá) a missão de criar a humanidade, as pessoas, Oxalá (Òṣàlá) precisou de barro para fazer o corpo das pessoas. Era necessária a matéria-prima para fazer os corpos, o barro e Olódùmarè ofereceu essa função a todos os Orixá (Òrìṣà), mas, quando iam pegar o barro chorava dolorosamente e nenhum deles teve coragem. Somente Ikú foi quem teve coragem de pegar barro para Oxalá (Òṣàlá), não ouvindo as lamentações do barro, mas Ikú ficou encarregado de devolver ao barro a porção que ele retirava para fazer os corpos. Essa é a razão pela qual é a morte que leva a vida das pessoas e devolve para o barro e também a razão pela qual os mortos yorùbá devem ser enterrados.
Dessa maneira morrer não é um mal, as pessoas morrem por muitos motivos. Nos versos existem mortes como punição por males e erros. A morte não é uma exceção, é, na verdade, alguma coisa muito natural. Lembro que existiam sacrifícios humanos, eram raros e especiais, mas, haviam e eles acabaram com a colonização européia.
Como já foi citado aqui, os Yorùbá, como muitos povos fizeram sacrifício humano e já tiveram a cultura de matar os gêmeos devido a ele serem sinal de mau agouro. Nos versos de Ifá é bastante comum as pessoas serem condenadas a morte devido a atos errados que praticaram.
Não é uma crítica, mas um povo que tem na morte um ato tão banal e parte de sua cultura e história não pode ter, na sua religião, no aborto provocado como um ato errado por si só.
Isso tudo tem a finalidade de concluir que a forma como essa religião vê a morte é muito distinta da forma como outras religiões a veem. 
 
Conclusão

Não existe referência direta ao aborto provocado na religião Yorùbá, mas, o aborto natural é largamente entendido e tem causas naturais e inclusive supernaturais bem exploradas pela religião.

Não existe um dogma que determine ser certo ou errado o ato de abortar. 


Ser certo ou errado nesta religião dependerá das circunstâncias e motivos, mas, existem consequências para um ato errado que, contudo, podem ser amenizadas ou resolvidas através da própria religião. Entretanto o  ato do aborto provocado, por si só, não é um erro ou um "pecado".


Realizar o aborto, em sí, não implica em matar uma pessoa, para a religião, uma pessoa é um indivíduo depois que ele respira por sua própria conta. O corpo é um receptáculo em formação e pertence ao corpo da mulher enquanto sendo formado. 


O ato do aborto não condena a vida de ninguém, mas pode trazer complicações que se refletirão em momentos futuros.



Bibliografia recomendada:




Awolalu, J. Omosade - Yorùbá beliefs & sacrificial rites
Magesa, Laurenti – African Religion
Parrinder, Geofrey – West African Religion
Parrinder, Geofrey – african Mythology
Mbiti, John S. - Introdution to African Religion
Mbiti, John S. - African Religions and philosophy
Marins, Luiz L. - Obatala e a criação do mundo Ioruba
Ogunsina Adewuyi, Babatunde Olayinka – Obatala the greatest and oldest divinity
Lawal, Babatunde – Visions of Yorùbá
Lawal, Babatunde – Gelede spectacle
Drewal, Pemberton, Abiodun – Yorùbá nine centuries of art and thought
Idowu, I. Bolaji – Olodumare God in yorùbá belief
Idowu, I. Bolaji – African traditional religion
Abimbola, Wande – An exposition os Ifa literary corpus
Elebuibon, Yemi – Healing power of sacrifice
Peek, Philipe – Twins in african ans diaspota cultures
Chemeche, George – Ibeji the cult of yorùbá twins
Salami, Ayo – Yorùbá theology and tradition – The worship
Cuoco, Alex – African Narratives of Orishas, spiritis abd others dieties
Moura, Marcondes – As senhoras do pássaro da noite

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