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domingo, maio 04, 2014


O que vc precisa saber antes de se consultar em ifa

(Parte 1 / 5)


O objetivo desta postagem, assim como o do Blog é o de esclarecer e ensinar com informação atualizada e de boa fonte. O que eu escrevi nesta postagem representa a minha opinião sobre o tema. É baseado em minhas observações, experiências e análise. Este não é um assunto teórico e sim opinativo.

Não foi feito para ser uma trilogia, mas ficou grande e assim vou publicar em partes, senão, ninguém lê. O intervalo de tempo será menor do que uma semana.
 

Os temas abordados nesta sequência serão os seguintes:
  • Por que as pessoas devem ir a Ifá?
  • Anatomia de uma consulta
  • O uso de ikin ou opele
  • O valor da consulta e de trabalhos adicionais
  • A questão de ire e osogbo
  • O uso de ìbò
  • A escolha de ebós e oferendas
  • Uso de estórias na interpretação
  • Babalawos determinando orixá em jogo
  • Assentamentos e iniciações
Todos esse temas contidos no escopo da ida a uma consulta a Ifá.
 

Imagino que muitas pessoas, ou todas, devem ter, no mínimo uma grande curiosidade em se consultar no oráculo de ifá, eu já tive e isso me levou a primeira consulta, a curiosidade. Mas seja por necessidade ou por simples curiosidade de saber qual a diferença entre este oráculo e os demais, já conhecidos, como búzios, cartas e até consulta com guias de umbanda, eu gostaria de deixar aqui registrada a minha contribuição para que esta, a consulta a Ifá, seja uma boa experiência. 

Observem que não entrarei em aspectos de medir a qualidade de quem procuram, isso cabe a vocês, antes de se definirem, procedam a um processo mínimo de buscar recomendações e opiniões, como aliás a gente deve fazer na nossa vida normal, antes de ir a algum lugar ou contratar algum serviço. Não encare ifá de forma diferente, essa coisa de sacerdote e de portador de valores puros ou elevados, representante de deus, é só na sua imaginação, o mundo real tem todo o tipo de pessoa exercendo esta atividade, sejam os bons, os mau-caráter ou os incompetentes.


Esta é então a minha primeira recomendação avalie bem o lugar para onde vai.
 

Por que as pessoas devem ir a Ifá?

Além da curiosidade, as pessoas podem ter bons motivos para ir a Ifá. Conforme a teologia diz, Orunmilá é o eleri ipin, o testemunho do nosso destino, aquele que está ao nosso lado quando nos ajoelhamos perante Olodumare e pedimos a vida que queremos ter no aiye. Orunmilá testemunha aquilo que pedimos e também o destino que Olodumare nos dá. Esta informação pertence a nós, a Olodumare e a Orunmilá somente. Porém quando nascemos nós esquecemos o que foi combinado. Sendo Olodumare um deus distante, Orunmilá é o único que pode nos ajudar.

Na porta do salão de Olodumare esta elenini, a divindade do infortúnio. É um ajogun, um dos espíritos que apenas trazem o mal para as pessoas na sua vida no aiye. Ela ouve o que pedimos e fará tudo para nos atrapalhar, afinal ela é o infortúnio. 


Conforme está no odù irosun meji, nos esquecemos nossos objetivos de vida, o dito destino, quando nascemos. Isso foi uma consequência do awo que ao ter problemas na sua vida, volta ao orun para falar de novo com Olodumare. Este awo, irosun meji, se prepara para esta viagem e com a orientação de ifá, engana elenini que sai da porta de Olodumare, para ir a cozinha fazer o seu café da manhã com elementos que o awo havia trazido através do seu ebó de ifá. 


O awo refaz seus objetivos com Olodumare e sai correndo de volta ao aiye. Elenini percebe que foi enganada e corre atrás dele, mas quando percebe que não vai alcançá-lo lhe arranha as costas da cabeça até a cintura, fazendo assim a marca da coluna vertebral nos homens. Além disso ela faz com que as pessoas se esqueçam do que trataram com Olodumare. O awo irosun meji ganha uma nova vida mas se esquece do que pediu a Olodumare.


Ifá, através de Orunmilá serve para nos relembrarmos disso. Através de ifá Orunmilá nos traz orientações baseadas no destino que pedimos a Olodumare. Dessa maneira ifá não é um oráculo comum que fala do passado e presente, ou um contador de fofocas. O que ele diz esta alinhado com o que nós mesmo estabelecemos para nossa vida. Nos momentos que temos dificuldade e precisamos de orientação, naqueles momentos em que já buscamos em nós as respostas e também toda a ajuda disponível sem sucesso, nós sempre teremos Orunmilá, o eleri ipin, o testemunho do nosso destino para recorrer.


Além disso temos a questão do Orí que vamos buscar no mercado de ìdó com Ajalá. Existe um fator de acaso na escolha do ori. Ajalá não faz todos os Orí bem-feitos. Esta situação está explicada em uma história bem conhecida do Odù Ogbe Yonu. Dependemos do acaso ou de uma cuidadosa preparação antes da escolha do Orí.


Por desconhecimento da teologia, existe um sobre valorização da questão do Orí, mas que não será aqui que vou explicar. O Orí inu, é o elemento importante para nossa prosperidade no aiye. Um bom Orí nos levara a prosperar rápido e com menos esforço.


Entretanto também temos que escolher no mercado de Ejigboromekun um bom iwa pele. Sem um bom iwa pele um bom Orí não trará prosperidade, isto esta explicado no odu Ogbe alara.


A escolha do bom Orí é explicada no odu ogbe ogunda, na história de afawupe, o filho de Orunmilá. Como está na história, quando não escolhemos um bom Orí, teremos que lançar mão dos ebós que compensarão este problema ao longo de nossa vida. Desta forma, através de Ifá nós determinamos também o que precisamos fazer para prosperar em nossa vida.


Você deve ir a ifá com essas indicações. Quando precisa tomar decisões importantes em sua vida, quando avalia que seus esforços não estão sendo recompensados, etc.. Ifá é o oráculo da vida, do destino, das grandes mudanças e revisões na nossa vida.


Para coisas comuns e normais, problemas no seu trabalho, com seu marido ou mulher e coisas assim, qualquer vidente pode ajudá – lo, talvez melhor do que ifá. Um bom jogo de búzios resolve nossas questões imediatas de vida. Se você tem questões da religião para resolver, coisas ligadas a orixá, obrigações então, o jogo de búzios, definitivamente, é o oráculo indicado.


Mas ifá está aberto a tudo e sempre vai ajudá-lo em qualquer situação, sejam as questões de vida bem como as mais simples.



Anatomia de uma consulta

Para evitar decepções ou ansiedades desnecessárias, é importante entender o formato de uma consulta a Ifá, as suas fases. Entender isso permitirá a você tirar melhor proveito da consulta.

A consulta a Ifá é bem diferente das dos demais oráculos que vocês podem estar acostumados, como búzios, cartas ciganas e tarot, por exemplo. Esses últimos são bastante interativos e o olhador vai continuamente falando com a pessoa sobre o problema e a resposta do oráculo. A consulta termina junto com a manipulação do oráculo.


Ifá é muito diferente. A consulta começa após a manipulação do oráculo. Após uma breve abertura com rezas, o Babalawo vai passar um bom tempo interagindo com oráculo determinando várias coisas até chegar nos ebós a serem feitos. Tudo isso é o Babalawo e seu oráculo sozinhos, sem que ele fale nada com o consulente. Ele poderá usar o consulente para interagir com o oráculo, mas este processo não implica em explicar ao consulente o que está ocorrendo.


Somente após ele concluir toda a interação com o oráculo e já com o ebó determinado é que ele vai falar com o consulente. Pode parecer estranho mas é assim que funciona. O Babalawo precisa ter o cenário inteiro, composto do odù principal, detalhamento dele e do ebó para poder conversar com o consulente. 


Fases da consulta a Ifá:

  • Abertura do oráculo
  • Determinação do odù principal
  • Determinação do estado do odù, tipo do estado e origem
  • Determinação do ebó
  • Explicação e discussão com o consulente
  • Perguntas complementares do consulente
  • Aconselhamento final e encerramento.
As 3 últimas etapas são as que permitem a interação do cliente na consulta. As etapas anteriores são de trabalho do Babalawo com o seu oráculo. Ele precisa de um conjunto de informações para então poder conversar com o consulente. 

Tenha paciência para esperar. Quando ele for conversar com você, então você terá todas as informações e poderá perguntar tudo o que quiser e o Babalawo poderá usar o oráculo para respondê-lo, mas, existe um tempo de preparação que para o Babalawo é rápido e para você pode parecer uma eternidade.

 

O uso de ikin ou opele

Na primeira etapa da consulta o Babalawo deve determinar o odù principal que será analisado, mas ele não é o único que será analisado. Ele é o principal, mas haverão outros complementares. Esta determinação é feita usando os ikins ou a corrente de opele.

Os ikins são o principal instrumento do Babalawo, eles representam o próprio Orunmilá para o Babalawo. O surgimento dos ikins é explicado no odu iwori meji. Nele Orunmilá após um desentendimento com um filho abandona o aiye. As pessoas depois procuram orunmila para que ele volte, mas sem sucesso, Orunmilá deixa então os ikins para representá-lo. Definitivamente esta história não encerra o tema e existem outras.


Muitos poderão observar que se os ikins surgiram após a volta de Orunmilá para o Órun, o que Orunmilá usava para consultar ifá? Eu lembro de ter lido uma referencia a serem usados seixos de rio, mas, não posso citar esta referencia, não me lembro onde foi e nem se pode ser considerada como válida.


Outra questão teológica importante seria discutir que, se ifá é Orunmilá, como o próprio orunmila consulta ifá? Mas essa conversa vai ficar para o texto sobre teogonia.


Referencias aos ikins em Ifá surgem em outras histórias e outros odu. A tradição cubana, no odu ogunda ika, faz ifá nascer no aiye nas mãos de um bebe que nasce de dentro de um elefante, morto por caçadores, sendo que a criança nasce com cabelos e barbas brancas e com 8 ikins em cada mão. Uma história bizarra como só os pataki conseguem produzir.


Sem nenhuma dúvida os ikins são a mais verdadeira e autêntica representação de orunmila. Podemos dizer que no contexto do Babalawo é a única coisa que representa Orunmilá. Um Babalawo somente precisa carregar os seus ikins consigo, mais nada.


Posteriormente à criação dos ikins Orunmilá pede a Olodumare que lhe de uma ajuda. O processo de consultar ifá era lento e a demanda das pessoas era muito grande. Olodumare envia a ajuda para ele, através de um escravo, de nome Alakan, que Orunmilá compra no mercado e que ao se jogar no chão forma a combinação dos Odù com o corpo. Esta história faz parte do Odù Ogbe Meji. Opele depois trairá Orunmilá, é transformado na corrente que possibilita consultas mais rápidas, esta história é narrada no Odù Obará Irosun. A história de opele e Orunmilá é muito interessante e será contada em outra postagem.


Nesse caso podemos ter mais uma discussão teológica uma vez que se Orunmilá fica claro nesta história que Orunmilá usava ikins no aiye. Fica para outra vez.


Explicado isso, minha opinião é que se vocês vão a Ifá que seja para uma consulta com ikins. Vocês devem requerer isso quando marcar a consulta. Se o Babalawo aparecer com opele, depois que combinou antes usar os ikins, vocês levantem e vão embora. Os ikins é que são o instrumento principal do Babalawo e a voz de orunmila.


Se o Babalawo for cobrar a mais por isso, vocês podem querer pagar ou não. Lembrem-se que como em todo negócio sempre o que melhor negocia se da melhor. Ele é que está vendendo, você é o comprador, ele está tão ou mais interessado que você, porque a consulta é apenas a porta de entrada para outros negócios que ele vai tentar empurrar para você. Se não quiser pagar a mais digam que não quer pagar nada a mais ou coloque na sua cabeça o quanto está disposto a dar a mais, o Babalawo que decida o que quer fazer. 


Uma consulta a Ifá sempre é longa, coisa de 2 horas, e deve ser uma ocasião importante para você. Pode não ser para o babalawo, mas, para você é um momento importante, ninguém vai a Ifá para tratar de coisas banais, nem mesmo um Babalawo consulta Ifá para ele ou com outro Babalawo se não for um momento importante. Não será o ikin que vai tornar isso mais demorado. Aliás este é um fator importante, se você vai a ifá e sua consulta leva meia hora, então, foi ao lugar errado. Com prática o Babalawo lida bem rápido com os ikins e isso compensa o tempo a mais que vai gastar (e gasta mesmo).


O uso generalizado do opele pelo Babalawo é apenas uma grande conveniência. Ele não pode desprezar importância dos problemas dos consulentes. Mas ao lidar muito com o opele ele perde a prática de usar ikin.


O opele é ótimo em muitas situações. O Babalawo o usa muito, é um instrumento bom, simples e rápido para sacar odù, sem dúvida. Quando se precisa fazer perguntas de sim/não em sequência e quantidade ou quando se vai lidar com consulta a problemas não complexos, decisões e orientações, o opele é ótimo. Como eu disse, Ifá suporta a gente nas questões importantes e também nas simples

.
Entretanto é minha visão que quando a pessoa procura ifá com questões importantes para ela e sua vida que o instrumento do Babalawo deve ser o ikin. Mais do que isso, minha opinião é que o instrumento preferencial do Babalawo é o ikin, deixando o opele para casos menores, problemas menores e também para agilizar o seu trabalho. Mesmo em uma consulta com ikin, o opele tem seu espaço, mas isso não é assunto para aqui.





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