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segunda-feira, maio 26, 2014

O que você precisa saber sobre consultas a Ifá

Parte Final

Assentamentos e iniciações


A última orientação que eu posso dar é relação a assentamentos e iniciações.

Cuidado ao receber como indicação de ifá que você tem que ser iniciar, que Ifá te da caminho ou que a solução de seus problemas passa pela iniciação. Isso é só armadilha, ou pelo menos uma interpretação criativa. Os tratados estão repletos de indicação de iniciações, poucas são as sinceras.

De fato, existe muito pouca contra-indicação a uma pessoa ser iniciada, praticamente qualquer pessoa pode ser. Entretanto é uma liturgia que vai custar 20 vezes ou mais o valor de uma consulta ou ebó, dessa forma, mexe muito no bolso das pessoas e isso abre os olhos do Babalawo.

Nesse ponto é onde o Babalawo mexe com a vaidade da pessoa. Ele diz para o cara que Ifá do caminho a ele, que Ifá o quer ou que ele somente vai resolver a vida dele se ele se iniciar. A pessoa se enche de vaidade, como se aquilo fosse fato e fica cego para o óbvio, está sendo enrolado.

Pessoas se iniciam sem saber o que querem com isso ou o que fazer com isso. Pessoas se iniciam sem saber o que serão beneficiadas com isso. Pior ainda, pessoas se iniciam sem saber se vão aprender alguma coisa. Pessoas que não devem fazer parte de ifá, como homossexuais e mulheres se iniciam para satisfazer seu ego criando uma mentira para elas mesmas.

Quem ganha com isso é apenas o Babalawo. Você só perde.

Cuidado também com assentamentos.

Os tratados cubanos estão recheados com recomendações de receber assentos de orixá, Exu e egun. Tudo se reverte à necessidade de receber um assento. A origem disso normalmente está em uma história na qual determinado orixá atuou e resolveu algo, dessa maneira isso é a interpretado como a indicação de ter um assento da divindade é extremamente importante.

O lukumi é uma tradição sem muita enfase em incorporação. Eles iniciam as pessoas em 7 dias e não tem o conceito de terreiro. Assim, de fato, incorporar não é o forte, acaba reservado para os mais antigos. Tem também o conceito de que quem incorpora na pessoa é um egun e não o orixá. Neste contexto assentos ganham muita ênfase. Eles adoram fazer e dar assentamentos. Veja, não entro no mérito de isso ser bom ou errado, se valem para alguma coisa ou não. Digo que isso faz parte da cultura religiosa deles. 


Nos tratados de Ifá cubano, distribui-se assento por qualquer motivo. Mas, essa distribuição não é gratuita, custa mais dinheiro.

No candomblé a visão é muito distinta, assentos são chamados de igbas e somente iniciados recebem. Ficam guardados no terreiro e não fazem parte do dia a dia da pessoa, são relíquias, representações no aiye do orixá, que no candomblé, na teoria e na prática, é orixá mesmo e não um egun. O candomblé entende que o iniciado é o assentamento vivo do orixá e este, junto com o ori e o terreiro são sua proteção. Desta forma a ênfase é no processo de iniciação e não em Igbas.

Não existe no candomblé o hábito de fazer assentamentos para não feitos, para consulentes. Até mesmo para os iniciados, receber um igba é uma coisa muito importante e reservada para obrigação. É considerado um grande momento de transmissão de axé. O Igba é considerado pelo Candomblé uma transmissão de axé para a pessoa com a ligação da pessoa ao axé da casa,


O processo de elaboração dos igbas do candomblé e dos assentos lukumi é muito distinto, o do candomblé é personalizado e profundo nas pessoas que participam profunda mente da sua elaboração, no lukumi é quase um objeto, você recebe sem nem ter visto ele ser elaborado, quando chega esta lá, pronto.

Enquanto no candomblé não existe sentido um igba longe da pessoa devido a ligação visceral entre pessoa de igba, do lukumi e consequentemente no ifá cubano, você aluga ou empresta o uso de assentamentos e tem até o caso de pessoas que roubam assentos de outras. Isso no candomblé é impensável por concepção.

Desta forma a visão de assento e igba são muito diferentes. Mesmo o chamado santo lavado no Candomblé, que tem uso restrito, mas se assemelha um pouco ao assento lukumi, por ser dado a pessoas não iniciadas é completamente visceral com a pessoa que o recebe. 


Mas, vou repetir, não estou questionando o que ou como o Lukumi faz suas coisas. O Lukumi é uma tradição legítima da religião Yoruba. O que estou fazendo é destacando alguma diferenças básicas entre como uma tradição vê uma coisa e como outra tradição vê essa coisa.

Estou buscando explicação do motivo da distribuição de assentamentos como uma prática adota no Lukumi e sem paralelo no Candomblé.

Apesar de eu falar de lukumi e candomblé, entendam que tudo o que se refere a lukumi está ligado a Ifá. Cuba é uma ilha pequena. Não existe muita variedade em nada. O ifá cubano usa o que o lukumi faz e no que diz respeito a orixá segue exatamente a mesma coisa.

Por essa razão é comum e normal encontrar nos tratados cubanos a recomendação de elaborar assentamentos para a proteção dos consulentes. Isso decorre de uma prática religiosa deles e de uma forma de interpretar o oráculo.

Mas como tudo em ifá é muito bem pago o problema disso está na cobrança que será feita para a elaboração dos assentamentos, afinal, nada é de graça em Ifá. Receber um assento é mais um vetor de aumentar a receita do babalawo.

Não caia nessa, você foi para uma consulta, não se envolva demais com aquela pessoa. O que você busca é ouvir os conselhos de ifá e fazer o ebó para se aproveitar do axé de Olodumare. Não faça nada além disso, não compre nenhum assentamento. 


Interpretar que em função de uma história que é usada para entender o Odu, em função do papel exercido por um orixá na história você tem que ter um assentamento dele é um excesso de criatividade mercantil. Considere ainda que os cubanos inventaram essas histórias com orixás como personagens.

Nos versos originais, normalmente os personagens são pessoas diversas, algumas que surgem apenas naquela história, mas, também aparecem Orixás. No cubano, todos os personagens são Orixás e são mostrados cometendo as maiores barbaridades, porque eles assumem o papel dos certos e dos errados.

Não vejo como natural a interpretação que indica dar um assentamento de orixá.

Sua relação com ela é de consulente-babalawo, não mude isso com facilidade. Você vai a esta pessoa para resolver assuntos e ter orientações não para virar afilhado ou filho de santo. Mantenha o foco na sua vida e os problemas que foi resolver.